AUGUSTO NUNES
PERFIL

Augusto Nunes da Silva nasceu na cidade Taquaritinga, em São Paulo, em 25 de setembro de 1949. Sua ligação com a política vem de família. Seu pai, Adail Nunes da Silva, advogado e economista, foi quatro vezes prefeito da cidade, sendo a primeira vez pelo Partido Trabalhista Brasileiro e nas outras pelo Partido do Movimento Democrático Brasileiro. Realizou o curso de Direito, na Faculdade Nacional de Direito, no Rio de Janeiro, e depois na Faculdade MacKenzie, mas nunca os finalizou. Ainda na faculdade, militou no movimento estudantil (eleito para Centro Acadêmico Cândido de Oliveira, CACO, no Rio de Janeiro). Também iniciou o curso de Jornalismo na Escola de Comunicação e Artes, ECA, da Universidade de São Paulo, onde Augusto Nunes manteve sua militância no movimento estudantil, também ganhando a eleição para a presidência do Centro Acadêmico Lupi Cotrim. Mmas também não concluiu o curso de Jornalismo.

Seu primeiro contato com o jornalismo ocorreu em 1963, em um semanário de sua cidade natal, chamado Nosso Jornal, feito por voluntários. Mais tarde, sua família comprou o semanário e, em 1966, Augusto Nunes se tornou o redator chefe deste jornal. No ano seguinte ajudou na produção do jornal Caco Livre, porta-voz dos estudantes de Direito da Faculdade Nacional. Todavia, sua experiência como profissional começou em 1971, como revisor dos Diários Associados. Em 1972, foi contratado como repórter de O Estado de S. Paulo onde, rapidamente, ocupou o cargo de subchefe de reportagem e repórter especial para a América Latina. No ano seguinte, iniciou seu trabalho na revista Veja, onde, ao longo de treze anos ocupou os cargos de repórter da Editoria Geral, redator de Educação, redator da área de Cidades, editor-assistente de Política e redator-chefe. Na Veja, conviveu com censura imposta pelo regime militar e trabalhou com nomes, como Merval Pereira, Élio Gaspari, Marcos de Sá Correa, Dácio Malta, Flávio Pinheiro, Ricardo Sette, entre outros.

Entre 1976 e 1981, apresentou os programas jornalísticos Informação e Imprensa na TV, na Rede Bandeirantes de Televisão. Em anos seguintes, esteve à frente do Veja Entrevista, produzido pela Abril Vídeo e exibido na TV Gazeta, de São Paulo. Durante este período, esteve envolvido com a atividade sindical, sendo vice-presidente do Comando Geral de Mobilização na greve dos Jornalistas de 1979, que tinha como presidente o jornalista Perseu Abramo. Em 1986, foi convidado a assumir a direção da sucursal do Jornal do Brasil, em São Paulo. Acumulou esta função com a de apresentador do Roda Viva, da TV Cultura de São Paulo, período em que o programa foi, consecutivamente, premiado como o melhor do ano pela Associação Paulista de Críticos de Arte. Retornou ao Estado de S. Paulo em 1988, como chefe de redação, à frente do processo de reformas ocorrido no jornal. Entre eles: a renovação do quadro jornalístico, o incremento da informatização da redação, a criação de novos cadernos, o uso de cores e a publicação do jornal na segunda-feira. Foi convidado pelo jornal Zero-Hora, de Porto Alegre, para assumir a direção de redação, onde incrementou um conjunto de modificações gráficas e no conteúdo da publicação, para ampliar o espaço do noticiário local e produzir uma edição diária específica para o interior do Rio Grande do Sul. As reformas incluíram também a mudança de quadros jornalísticos. Porém uma substituição de 43 profissionais do Zero-Hora por novos quadros jornalísticos gerou protesto e a oposição do Sindicato Profissional de Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul. Trabalhou quatros anos mais tarde no Banco de Boston, responsável por mudar a imagem e desenvolver projetos ligados à história desta instituição financeira no Brasil. Em 1998, recebeu o convite para assumir a direção de redação da revista Época. Retornou ao Jornal do Brasil e, em 2004, assumiu a coluna Coisas da Política, no lugar da jornalista Dora Kramer.

Augusto Nunes recebeu três prêmios Esso, sendo dois deles na categoria Reportagem. Um em 1982, com a matéria “O futuro abre clareira na floresta” e o outro em 1984, com a matéria “Diretas Já”. O terceiro foi também em 1984, na categoria Informação Esportiva, em função da cobertura da Olimpíada de Los Angeles. Todos os prêmios conquistados ocorreram no período em que foi jornalista da revista Veja.

Augusto Nunes publicou Tancredo, biografia de Tancredo Neves, pela Nova Cultural em 1986 e editou o depoimento que Samuel Wainer prestou a sua filha, Pinky Wainer. O depoimento foi publicado, em 1998, com o título Minha Razão de Viver: Memórias de um Repórter, pela Editora Record.

Depoimento

Entrevista com Augusto Nunes

Realizada por Arcângela Rocha, Felipe Simões e Júlia Araújo

Revisado e editado por Itala Maduell

Data: 05/2008

Nome completo, local e data de nascimento?

Augusto Nunes da Silva, Taquaritinga, São Paulo, 25 de setembro de 1949.

Nome e a atividade dos seus pais?

Adail Nunes da Silva, advogado e economista. Meu pai foi, sobretudo, um político. Elegeu-se prefeito de Taquaritinga quatro vezes. Quando nasci ele era prefeito, e ocupava o mesmo cargo quando morreu. Meu avô paterno era catarinense de Itajaí. A avó, paulista de Rio Claro. Minha mãe, Emília Menon Nunes da Silva, trabalhou 30 anos como professora primária. Meu avô materno era austríaco. A avó, italiana.

Qual é a sua formação? Onde você estudou?

Sempre estudei em escolas públicas. Fiz o primário no Grupo Escolar Domingues da Silva, em Taquaritinga, e o secundário no Instituto Estadual de Educação 9 de Julho. Cursei até o terceiro ano a Faculdade Nacional de Direito, no Rio, e a Escola de Comunicações e Artes da USP. Não me formei nem em Direito nem em Jornalismo.

O que o motivou a começar a trabalhar como jornalista?

Quando eu tinha 15 anos comecei a acompanhar um irmão mais velho que tinha uma coluna política num jornal em Taquaritinga, cidade onde eu nasci. Era o semanário Nosso Jornal, feito por voluntários. Eu já gostava de escrever. Então, comecei a fazer notas de nascimento, de falecimento, e me apaixonei pelo ambiente de jornal. Na época o jornal era rodado a frio. As letrinhas, tipos de chumbo, eram pegas e postas na placa. Para fazer a página seguinte tínhamos que desfazer as letrinhas e organizar tudo de novo. Dá para imaginar? Isso faz mais de 40 anos. Depois minha família comprou o Nosso Jornal. Temos um jornal no interior. Foi assim que eu comecei. Com 17 anos já era redator-chefe.

Como foi a sua primeira experiência profissional?

Minha experiência no Nosso Jornal foi amadora. Só depois fui para a faculdade. Com 18 anos fui fazer direito e ajudei a fazer o jornal da faculdade, o Caco Livre. Fizemos dois ou três jornaizinhos. Depois, com 21 anos, em São Paulo, fui contratado para ser revisor dos Diários Associados.

Como eram os Diários Associados no período em que você foi revisor?

Eu fazia ECA [Escola de Comunicações e Artes Universidade de São Paulo] e tentava continuar o curso de direito no Mackenzie. Trabalhava à noite, das 22h às três da manhã. Por isso eu vivia dormindo nas aulas. Foi uma experiência difícil. Tinha que ser revisor de textos péssimos, cujos autores reclamavam das alterações. Fiquei por um ano e vi que não dava mais. Foi aí que Darci Higobassi, que era de Taquaritinga, minha cidade natal, mostrou meu texto para o chefe de reportagem do Estadão, onde ele trabalhava. Fui chamado para fazer um teste e fiquei.

Como era O Estado de S. Paulo nessa época?

Lá foi bom. Trabalhei como repórter e aprendi muito. Comecei a mostrar que tinha vocação para organizar e liderar grupos. Em três ou quatro messes me tornei subchefe e repórter especial para a América Latina, onde aconteciam golpes militares sucessivos. Viajava para ficar alguns dias e ficava um mês. Por isso não completei a faculdade.

O que você destacaria dessa sua passagem pelo jornal da família Mesquita?

A cobertura internacional. Minha primeira viagem foi no aniversário do golpe de Estado na Bolívia, em 1972. Depois me tornei repórter de cidade e comecei a fazer matérias assinadas. Essas matérias chamaram a atenção da Veja.

Quando e por que você trocou o Estadão pela Veja?

A Veja é a revista mais importante do país. Fui convidado para trabalhar lá em agosto de 1973. Na época, já era considerada uma grande escola, porque a equipe que se reuniu ali era o que havia de melhor. Mino Carta era diretor de redação. Tinha apenas 36 ou 37 anos e já era considerado um jornalista excepcional. Na verdade eu queria descobrir como era o texto de revista, pois eu sabia que era mais elaborado e menos tosco que o de jornal. Quando vi como eles faziam uma capa, disse que nunca faria uma. Mas acabei fazendo 124. Fui o cara que mais escreveu capas na história da revista Veja.

Você ficou na revista por 12 anos. O que você destacaria dessa experiência?

Lá aprendi tudo. A Veja me formou como jornalista. Quando cheguei lá era só repórter de jornal, meu texto não tinha brilho. Aprendi a fazer capa, fui promovido a subeditor de cidades, subeditor de educação, subeditor de política, editor de política e redator-chefe. Fiz uma movimentação muito rica, passei por todas as áreas, cobri a visita do papa...

Como foi sua convivência com Mino Carta? Como você descreveria esse jornalista?

Como o mais criativo que eu já vi no mundo. Ele é um artista. O Jornal da Tarde, no seu começo, foi o mais bonito que o Brasil já teve. Eu o comparo com o Jornal do Brasil dos anos 1950. Mino Carta criou uma revista diferente da outra, um jornal diferente do outro. Ele tinha vários projetos e fórmulas.

Com que outras pessoas você trabalhou na redação da Veja?

Trabalhei com o que há de melhor. Todas as posições tinham pessoas que já eram escritores. Elio Gaspari, o maior que eu conheço, José Roberto Guzzo, que sucedeu o Mino, era brilhante, Ricardo Sette, Fernando Morais, J.A. Dias Lopes, Geraldo Mayrink, Roberto Pompeu de Toledo, Renato Pompeu, Nirlando Beirão. Só escritores que já estavam prontos e eram craques.

Como foi exercer a profissão na época da ditadura?

Péssimo. Não recomendo a ninguém. Foi uma experiência enriquecedora, mas não gostaria de repeti-la. No começo você acha que está numa luta heróica contra a censura, mas com o tempo vai se cansando da briga, começa a ceder à tentação de não escrever o que sabe que não vai ser publicado. Texto sobre greves, movimentos estudantis e protestos de intelectuais sempre eram cortados. Então, você deixava de escrever sobre isso. A censura castrava. Aprendi a prezar a absoluta liberdade de imprensa. A imprensa livre não é um fim, é um meio para alcançar a democracia.

Como a revista Veja cobriu a campanha das Diretas Já?

Todos cobriram muito bem. Foi sem dúvida uma bandeira da Folha de S.Paulo, o jornal que lançou as Diretas, mas acredito que o papel de toda a imprensa foi decente. A TV menos, pois era muito inibida. O primeiro comício das Diretas, em 25 de janeiro de 1984, a Globo cobriu como parte dos festejos pelo aniversário de São Paulo. Depois teve que entrar.

Você e sua equipe receberam um Prêmio Esso pela cobertura das Diretas. O que o prêmio significou para você?

Uma sensação enorme de alívio. Percebi que o trabalho podia ser feito sem censura. Mas não fiz nada sozinho, foi tudo em equipe, sempre. Essa mesma equipe ajudou a modernizar a cobertura política da Veja, introduzindo o travessão. Antes só se publicavam declarações. O travessão mostra que você chegou à intimidade, aos bastidores, aos segredos. A cobertura política passou a ser mais reveladora. O que era chato passou a ter mais ação e despertar mais interesse.

Você ganhou outro Prêmio Esso pela cobertura das Olimpíadas de Los Angeles. Como foi?

Gostei mais ainda. Eu não gosto de ser identificado como jornalista político. Não gosto de adjetivos como jornalista esportivo, jornalista cultural. O jornalista deve cobrir tudo. Eu gostava de esportes. Praticava e gostava de escrever sobre isso. A cobertura das Olimpíadas foi uma demonstração de que se tinha que cobrir de tudo. A equipe era composta por mim, Dorrit Harazim e Orlando Brito, fotógrafo. Transmitíamos tudo por telex. Escrevíamos lado a lado, sem correção, com uma hora a menos [de fuso horário] contra nós. Dividíamos por modalidades e íamos escrevendo. Fazíamos a paginação lá mesmo. Foi uma cobertura benfeita. Demos um enfoque que ninguém deu. Procurávamos descobrir, por exemplo, por que determinado atleta sempre ganhava. Aí descobríamos que era porque ele tinha uma audição muito boa e ouvia o tiro do revólver para dar a largada antes dos demais competidores. Já o campeão dos 400 metros com barreiras dava nove passadas entre uma barreira e outra, enquanto os outros davam 10.

Você destacaria alguma outra matéria da Veja nesse período?

A melhor que nós fizemos e que ganhou o prêmio Esso foi sobre os bastidores da sucessão do general Figueiredo, os segredos da eleição de Tancredo Neves. Foi uma edição especial, com capa prateada. Trabalhamos com muito requinte. Fiz com repórteres de Brasília. Foi uma edição perfeita, a única sem erros que já vi.

O que você achou do dossiê preparado por Luis Nassif sobre a Veja?

Existem denúncias muito graves ali. Algumas provas e evidências me pareceram fortes. Acho que a Veja deveria se manifestar fazendo uma matéria sobre isso. A imprensa deve ser investigada e discutida, mas há certo ressentimento dele [Luis Nassif] também. Não posso ter uma opinião formada porque estou afastado da revista, mas o que li achei suspeito. Não acuso a instituição, porque na redação tem gente sem ética. Nenhuma redação é um convento. Todas têm gente assim.

Quando e por que você saiu da Veja?

Saí porque, depois de 12 anos de tantas capas, eu estava indicado para ser o diretor de redação, mas não tinha data para assumir. Não queria ficar como os príncipes japoneses, que assumem com 80 anos de idade (risos). Eu também não sabia direito como era um jornal, principalmente os cargos de chefia. E aí começou a me bater uma coceira para ver como era. Saí sem convite. Depois recebi convites de todos, menos do Estadão. Que curioso. Fiz uma revista para a Abril, parecida com a Caras de hoje, mas vi que não tinha muita criatividade. Depois fui chamado para a sucursal do Jornal do Brasil em São Paulo. Lá era muito mais importante, contava com excelentes jornalistas, como Ricardo Sette, Ricardo Kotscho, Valdir Sanches. Foi feito um belíssimo trabalho. Colocamos São Paulo em um jornal que era essencialmente carioca. Fui, durante um ano e meio, diretor executivo do BankBoston no Rio de Janeiro, mas não gostei. O salário era bom, mas enjoei. Quinze dias depois fui interceptado por um convite irrecusável: modernizar um jornal centenário, com uma situação difícil, para concorrer com a Folha. Foi uma experiência excelente. Mas é sempre pior trabalhar numa sucursal do que na sede. Não se tem a mesma autonomia, as matérias eram submetidas a crivos. Mas foi fascinante dirigir uma redação.

Como era o Jornal do Brasil nessa época?

A redação era a melhor, depois da Veja, em qualidade. Zuenir Ventura, Arthur Xexéo, uma turma brilhante estava surgindo. Interferíamos bastante no jornal, viajamos muito.

Você destacaria alguma cobertura que você tenha acompanhado pelo Jornal do Brasil?

O nascimento do sindicalismo. E fizemos a primeira matéria – e hoje eu não me orgulho disso – apresentando, como figura nacional, o Fernando Collor. A expressão “caçador de marajás” apareceu pela primeira vez no Jornal do Brasil, antes da Veja. Mas de caçador de marajás ele não tinha nada.

Como ficaram as relações entre o governo e a imprensa após a volta do regime democrático?

Mudou a censura, mas o governo continuou pressionando. O governo não quer um jornalismo imparcial, quer a favor.

Até hoje?

Até hoje. Sobretudo hoje. Por isso cria-se a TV Brasil.

O Jornal do Brasil, que possuía uma grande força entre as décadas de 1960 e 1980, foi gradualmente perdendo espaço. A que fatores você atribui essa mudança?

Arrogância. Achar que o concorrente não vai ultrapassá-lo. O Globo foi crescendo com anúncios, investimentos e, de repente, o Jornal do Brasil se viu ultrapassado. O Jornal do Brasil também gastou milhões de dólares para montar uma TV e para comprar um prédio no lugar errado – na Avenida Brasil –, quando todos os jornais estavam indo para a Barra da Tijuca. Foi um erro de gestão.

Como foi a sua volta para O Estado de S. Paulo como diretor do jornal?

Saí como repórter e voltei muito mudado.

Você foi um dos responsáveis pelo processo de renovação do Estadão no final da década de 1980. Que elementos impulsionaram as reformas?

O medo de sucumbir ao avanço da Folha e de ver o leitor envelhecido. Quando assumi, 34% dos leitores tinham mais de 35 anos, o que é perigoso num país jovem. Fui o primeiro diretor que não tinha o sobrenome Mesquita. Sem a profissionalização, eles morreriam.

Você enfrentou resistência para implementar as mudanças? Quais?

Muita. Da vertente da família [Mesquita] que hoje está no Jornal da Tarde.

Como foi sua relação com a família Mesquita?

A família se dividia entre o Estadão e o Jornal da Tarde. Enfrentavam-se, e eu ficava no meio. Mas foi excitante.

Como você avalia os resultados da reforma?

Garantiram a sobrevivência do Estadão. Ele passou a ser imparcial e objetivo, a opinião se restringiu ao editorial. Com isso ganhou-se credibilidade.

Como foi o processo de informatização da redação do Estadão? O que mudou na profissão depois da introdução dos computadores nas redações?

Mudou tudo. Aumentou a velocidade, encurtou etapas. Antes, um escrevia, outro reescrevia. Depois, era cada um por si e pronto. Agora não há mais babá de marmanjo. O jornalista passou a assumir mais responsabilidade com o processo como um todo.

Como você avalia a cobertura do Estadão das eleições presidenciais em 1989?

Acho que foi muito difícil, pois todos na redação eram petistas e o dono do jornal era conservador. Eu fiquei no meio, querendo controlar os dois lados. A cobertura foi errática, acabamos sendo parciais. Cada hora para um lado. [A cobertura] não foi isenta e desatendeu aos leitores, os mais prejudicados.

Como foi sua experiência no jornal Zero Hora?

Foi mais fácil, porque não havia concorrente forte e eu já tinha experiência. Não havia conflitos familiares. Mas enfrentei o conservadorismo do gaúcho. Troquei muita gente na redação porque não podia mandar ninguém embora, por contenções de despesas. Cheguei a remanejar 43 pessoas no 110º dia em que eu estava lá. Duzentos foram substituídos. Mas lá fiz o que mais me deixou orgulhoso no Sul: coloquei no poder uma geração talentosa que era subjugada pela tradição.

Por que no Zero Hora você decidiu lançar um manual de redação e estilo que era também um código de ética? Quais eram as principais orientações do documento?

Eu tinha feito um manual no Estadão, mas achava que faltava a parte ética. Discuti com a redação sobre os assuntos e os codificamos para transformá-los em manual.

O que mais destacaria do período em que trabalhou no jornal?

Isso que eu falei: o fim da ditadura dos velhos jornalistas.

A imprensa gaúcha é muito diferente da imprensa carioca e da paulista?

Os gaúchos são muito focados em sua região. Se um gaúcho ganha uma medalha, foi um gaúcho que a ganhou, não um brasileiro. Antes de serem brasileiros, são gaúchos. Mas acho que os jornais têm que cobrir sempre o local.

Como foi sua experiência com televisão? Você apresentou uns programas na TV Bandeirantes, não foi?

Sempre tive um trabalho secundário na TV, nunca o principal, pois gosto muito de escrever. Mas me sinto cada vez mais atraído pela repercussão do meio e pelo fato de que na TV você só conversa (risos), não tem tanto trabalho. Agora estou estudando possibilidades na TV Cultura e na Record. Comecei em 1978 e nunca mais parei. Mas faço episodicamente, com exceção do programa de entrevistas Roda viva, que apresentei por dois anos.

Você chegou a trabalhar em outras emissoras? Quais? Fazendo o quê?

Atuei na Bandeirantes, na TV Cultura, na Gazeta – num programa chamado Veja entrevista –, na Globo.

Você trabalhou na revista Época? Quando? Como foi a experiência?

João Roberto Marinho me convidou para assumir a Época. Eu era colunista, mas fui convidado a assumir a direção. Fizemos uma “tropicalização” da revista, para deixá-la com uma cara brasileira. Saí com uma ruptura, por discordâncias.

Como foi o seu retorno ao Jornal do Brasil? Como você descreveria as mudanças sofridas pelo jornal?

Ao mesmo tempo em que lamentei a decadência do Jornal do Brasil, achei estimulante poder recuperá-lo. Ele não voltou a ser o que era, mas não está mais em agonia, nem em estado terminal. Eu não o curei, mas ajudei a tirá-lo da UTI. Hoje o JB não é tão importante. Será um dia? Não sei.

Você ganhou um Prêmio Esso em 2005 pelo Jornal do Brasil. Como foi?

Gostei muito. Foi um prêmio por audácia, por uma capa. Aquilo mostrou que você pode planejar uma reportagem que fica com cara de furo. Pedi para fotografar uma fila no INSS que cobrisse, de ponta a ponta, o jornal. O ministro Berzoini tinha declarado que não via filas, então nós mostramos.

Como foi a organização do livro de memórias de Samuel Wainer? O que mais o marcou durante o trabalho?

Esse foi o livro que eu gostei mesmo de fazer, pois era o mais complicado. A Pink Wainer tinha gravado horas de entrevistas feitas com seu pai e estava com 1.200 laudas datilografadas. Ele [Wainer] estava viajando e não estava prestando muita atenção às perguntas. Havia redundâncias, coisas confusas. Ela então me perguntou se eu poderia indicar algum jornalista para organizar o texto. Vi o material e achei espetacular. Disse que topava mexer com aquilo, mas se fosse com o meu pai eu não publicaria, era preciso mudar muitas coisas. Demorei dois anos para escrever o livro. Trabalhava na Veja e escrevia de madrugada. Foi um dos últimos livros a ser escritos antes do computador. Só mantive os diálogos. O texto é todo meu, tive que mudar tudo. Tive que reduzir a trezentas e poucas laudas e procurei dar um tom ágil à narrativa. Fiz inversões, mas mantive a essência.

Como você avalia a figura do jornalista Samuel Wainer?

Foi o criador do primeiro e único jornal popular brasileiro, no qual reuniu um time de primeira: Nelson Rodrigues, Rubem Braga etc. A maior reportagem de Samuel Wainer foi a sua própria vida. Ele estava sempre no local em que coisas aconteciam. Tinha muita sorte, que é o que todo repórter precisa ter. Sua biografia é muito interessante. É também a história do jornalismo e do Brasil.

Em sua opinião, existe hoje outro jornal popular com a qualidade e a identificação com o leitor, como foi Última Hora?

Os outros jornais só se dizem populares. Confundem jornalismo popular com escândalos e casos de polícia. Jornal popular é o que fala como o povo entende e trata de tudo: economia, política. Ser populista é diferente de ser popular.

Como você avalia a relação entre jornalismo e política no Brasil?

Acho que na época do Samuel [Wainer] era muito promíscua. Hoje essa relação nem deve existir, deve ser mais distante. Eu não sou amigo de fontes. Quando você se aproxima demais, acaba comprometendo a relação ou corre o risco de fazer um jornalismo parcial.

Você publicou também um livro sobre Tancredo Neves e outro sobre Luís Eduardo Magalhães. O que o impulsionou a escrever sobre essas personalidades?

O livro sobre o Luís Eduardo Magalhães é uma biografia do parlamentar contando como ele foi como deputado. Foi uma encomenda do Congresso. A Editora Globo também se interessou. Ele foi uma figura muito interessante. Provavelmente seria presidente da República, se sobrevivesse. Já o livro sobre Tancredo Neves faz parte da coleção Grandes Líderes. Não posso comparar os dois. A biografia de Tancredo eu fiz com material já existente, sem uma pesquisa paralela.

Você esteve no comando de vários veículos de comunicação com posicionamentos distintos, o que deve ter lhe proporcionado uma ampla visão sobre o jornalismo brasileiro. Qual a maior conclusão que você tira dessa experiência?

Acho que, se o diretor da redação for independente, pode fazer carreira sem ser desonrado. Sempre defendi a publicação da verdade dos fatos. Todo dono de jornal tem o direito de ter sua visão política, mas isso só interfere no editorial. Na revista é mais fácil, pois não há editorial. Já no jornal você tem vários editoriais, o patrão é mais presente. Mas, desde que você não interfira nos negócios do patrão, não há problema.

Tendo em vista sua preocupação com o exercício ético da profissão, como avalia o fazer jornalístico no Brasil hoje? Os veículos são éticos? Que situações desvirtuam os meios hoje?

Basta ser verdadeiro, não escrever mentiras. Não adianta código, lei de imprensa; você tem que aplicar a lei contra o cara que mente, e muita gente faz isso. Tem gente sem ética em todo lugar. Não há uma fórmula para combater esse problema. O que falta no Brasil é caráter.

Em uma entrevista ao site www.cosmo.com.br, você elogiou o trabalho da imprensa na cobertura da crise política de 2005. Ao longo dos últimos anos, que diferenças você percebe na cobertura dos jornais sobre a corrupção no governo? A imprensa não teria dado uma amplitude maior à questão somente no governo Lula?

Ainda bem que a imprensa conseguiu cobrir com desenvoltura essas coisas. Imagina o Brasil sem imprensa nesse momento. As únicas instituições que estão preocupadas em devassar o que acontece no pântano são a imprensa e o Ministério Público. Qual dos ministros que roubou está na cadeia? Nenhum. É graças à imprensa que se sabe a origem do mensalão. Mas ela não tem o poder de polícia, não prende nem condena. O jornal também não é elástico, não pode publicar tudo. A dinâmica de quem rouba é ágil.