CORA RONAI
ENTREVISTA

Entrevista com Cora Rónai

Realizada por: Camille Perissé, Débora Ribeiro, Eliza Maia, Gustavo Lacombe, Nathalia Menezes

Data: 06/2010

Você começou a trabalhar em Brasília. Por quê?

Eu fui, porque estava casada e o meu marido, naquela época, quis ir para Brasília. Era médico, passou num concurso de um hospital, e eu fui muito a contragosto mesmo, nunca quis ir para Brasília. Aliás, eu odiei todos os anos que morei lá. E, na época, não sabia nem o que eu queria fazer da vida. Eu fotografava e, um dia, abri um jornal chamado Jornal de Brasília e eles precisavam de fotógrafo. Quer dizer, “precisar de fotógrafo” significava, naquela época, que precisavam de alguém que tivesse equipamento para fotografar, porque o jornal não tinha equipamento. Era uma coisa meio “faroeste”. E aí comecei fazendo fotografia e escrevia as legendas. Acho que eles gostaram das legendas, não gostaram das fotos, eu passei para redação e nunca mais voltei para fotografia. Nisso eu descobri que gostava de jornalismo. Foi assim!

Você fazia que tipo cobertura?

Olha, eu fiz cobertura de tudo, menos duas coisas: Esporte e Economia. O resto tudo, eu fiz. Fiz internacional, fiz polícia, fiz... Cara, o que você imaginar. Congressos, Ministérios...

Não tinha uma área focada ainda, não é?

Até tinha, mas durante esses anos todos eu mudava de área, fazia outra coisa. No fundo, o que eu tinha mais afinidade era a área cultural, mas área cultural em Brasília era não existente. A gente está falando de 1970 e poucos. Nos anos 1970, aquilo realmente era um deserto de ideias. Aí eu fazia outras coisas. Fazia plenário, por exemplo, e às vezes aparecia um intelectual na cidade para fazer uma palestra e eu ia entrevistar. Ficava muito feliz de estar fazendo alguma coisa interessante, inteligente. Era a época dos militares. Era um clima horroroso na cidade. Eu sei que detestei Brasília e fiquei lá o tempo que durou o casamento. Aliás, fiquei até mais, porque, sinceramente, o casamento era para ter acabado antes. E voltei correndo para o Rio, senão ia ficar maluca lá.

Você chegou a sofrer algum tipo de censura?

O clima era sempre tenso. Naquela época eu estava trabalhando em áreas que não diziam respeito à área militar ou política mais dura, hard news. Eu estava cobrindo Educação e Cultura, o ministério. Nessa época, já estava no Correio Braziliense e na Folha de S. Paulo.

Você tinha saído do Jornal de Brasília?

Ah, isso há muito tempo. Foi um breve período, depois eu comecei a trabalhar na sucursal do JB e no Correio. Depois passei um tempo trabalhando na sucursal do JB e da Folha, porque você podia trabalhar em duas sucursais. Havia uma carência grande de repórteres na época. Então era normal você trabalhar em um jornal do Rio e um de São Paulo. Praticamente todo mundo fazia isso. Durante uma época eu editei o Segundo Caderno do Correio Braziliense e, engraçado, porque a Censura era uma coisa muito esquisita. Uma vez, eu fiz uma edição sobre a exibição do cinema soviético porque era uma ótima exibição, os filmes eram maravilhosos. Não tinha nenhuma intenção de provocar, de fazer nada. Naturalmente, eu fui chamada para depor, queriam saber desde quando eu era do Partido Comunista, esse tipo de coisa.

Só porque você foi cobrir?

É eu achei que era interessante fazer um... Falar sobre aquela ótima mostra grátis de bons filmes. E depois eu tive um “arranca-rabo” com um ministro da Educação, que era um general chamado Ludwig, porque eu tive a péssima ideia de perguntar para ele que livro que ele estava lendo. Ele entendeu isso como uma ofensa, enfim. Mas eu não tive esbarrões muito complicados com a Censura, quer dizer, a gente tinha uma lista de assuntos de que era proibido falar através dos quais a gente sabia o que estava acontecendo no país, mas a gente, mais ou menos, ficava dentro daquilo. Quem tinha problemas maiores era quem trabalhava diariamente com hard news. A parte mais dura mesmo era quem mexia com política cotidianamente, o que não era o meu caso. Mas, é claro, que havia aquele clima. E acontecia isso: você fazia uma coisa totalmente inocente e no dia seguinte você estava depondo na polícia. Era uma coisa meio complicada.

Essa história não ficou complicada depois?

Não. Depois, uma vez o Alexandre Garcia me falou: “Poxa, eles têm um respeito louco por você”. Aí, eu disse: “Como assim?”. “Não, porque tive na sala do coronel coordenador da Censura, ou qualquer coisa, e tinha uma parede com exemplos de ‘Comunismo sutil’”. Então, tinham várias matérias minhas porque eu tinha um ótimo amigo na embaixada soviética. Eles me forneciam material de primeira em termos de ilustração, que era uma coisa que a gente não tinha. Naquela época não tinha internet, arquivo de fotografia era uma coisa precária e eles tinham um arquivo de fotos maravilhoso. Então, eu falava do Dia da Mulher, ou qualquer coisa desse tipo, e as melhores fotos que eu tinha, de fato, eram as fotos que a embaixada soviética me oferecia. Então, eles me achavam uma criatura muito disfarçada, muito perigosa, que fazia uma propaganda embutida lá, subliminar do comunismo. Então, eu disse: “Ah, que ótimo, tomara que eles continuem pensando assim. Dá um certo prestígio no currículo”.

Apesar de Brasília, você gostou de trabalhar nesses jornais?

Eu sempre gostei muito de trabalhar com jornal, era o que segurava. Não era inteiramente infeliz, porque trabalhava numa coisa que eu gostava de fazer, que era jornal. Então, enquanto eu tiver emprego em jornal serei uma pessoa feliz. Em qualquer lugar.

E o retorno ao Rio?

Eu cheguei à conclusão que, se eu ficasse em Brasília, eu ia morrer. Olha, para você ter uma noção, eu sou uma pessoa que não bebe, não gosto de bebida. Mas eu já estava começando a beber. Porque você saía da redação e não tinha que fazer, ia para os bares, bebia. Eu tive dias de desespero, dias em que eu parava no meio da Esplanada e me perguntava: O que eu to fazendo aqui? Nesse lugar horroroso... Encontrando aquele bando de deputados, gente corrupta, de quinta categoria. Eu não acho que política tenha que ser assim mesmo, tem gente que diz que tinha que ser assim, mas eu achava que não, então não tinha que conviver com aquelas pessoas. Enfim, tinha uma sensação de estar me violentando o tempo todo por estar morando lá, e, fisicamente, era uma cidade muito infeliz também, porque aquele desenho que as pessoas não se encontram em lugar nenhum era uma coisa horrível. Você só podia se encontrar nos bares e nos shoppings, e eu detesto shopping e não bebo. Era uma receita de infelicidade. Então, um dia eu não aguentei mais. Eu tinha um Fiat 147, botei os meus quadros e a minha máquina de escrever dentro desse Fiat, chamei um caminhão, botei meus livros, meus discos, algumas roupas, o resto eu deixei com o meu marido e vim embora para o Rio.

Você já havia se separado?

Não, eu me separei. Vim de carro pro Rio no Fiatzinho. Uma viagem enorme! E perigosa naquela época.

Havia planejado o que fazer com a sua carreira?

Eu trabalhava na época na sucursal do JB e o [Alberto] Dines era o editor, fui falar com ele, e disse: “Olha, Dines, eu vim embora”. Eles não queriam que eu saísse de Brasília porque precisavam de gente lá. Precisavam muito mais de gente lá do que aqui. “Eu estou vindo embora nem que seja para trabalhar na Manchete!”. Aí ele disse: “Não, calma, também não precisa tomar medidas tão radicais, a gente arranja alguma coisa para você aqui no jornal”. A Folha não me segurou aqui no Rio, quer dizer, era uma sucursal pequena. Mas eu vim ‘na louca’ mesmo, digo: “Não quero nem saber, tô fora!”. E aí vim com essa promessa do Dines de que eles arranjariam alguma coisa para mim lá dentro do jornal.

Por que “nem que fosse na Manchete”?

Porque a Manchete era um lugar horroroso, que não pagava os colaboradores, tinha uma péssima fama entre os jornalistas como um péssimo lugar de trabalho. Então, era aquele lugar para o qual você ia trabalhar se já não tivesse nenhuma esperança na vida. A “ala dos mortos-vivos”. Não se recebia salário. Então, era um desespero absoluto. Mas eu estava a fim de vir para trabalhar como tradutora, revisão, eu ia fazer qualquer coisa, mas se eu continuasse em Brasília eu ia acabar me matando, me jogando embaixo do trem que nem existia. Enfim, não dava para continuar morando lá.

Você veio direto para o Jornal do Brasil?

Os meus pais tinham um apartamento no bairro Peixoto, eles tinham acabado de se aposentar, e estavam morando em Friburgo. Esse apartamento estava abandonado e estava caindo mesmo. Tanto que, depois, ele foi derrubado porque tinha uma diferença de 60 metros entre a frente e o fundo. Aí eu cheguei com meus parcos haveres, dei uma demão de tinta nele, e fiquei morando lá. Fiquei no JB meio sem ancoradouro, depois fiquei no segundo caderno.

Você retornou a Brasília há pouco tempo. A sua visão continua a mesma?

Vou te dizer uma coisa, eu passei muitos anos sem voltar. Fui uma vez para o aniversário de 70 anos do Castelinho, que já morreu há uns 20 anos, sei lá. Então você imagina quanto tempo faz isso. Porque o Castelinho realmente foi uma pessoa que me deu muita força e que eu adorava. Quando ele me chamou para os 70 anos, eu fui. Fui para festa e voltei no dia seguinte. E dessa vez agora, o Itamaraty e a UNESCO me chamaram para mediar um seminário sobre ‘Criança e Internet’, que é um tema que me interessa muito. Eu achei o convite interessante e me interessava ver o que havia de novidade nessa área, e não há muita novidade. Criança e Internet é o seguinte: os pais tem de olhar o que a criança está fazendo, e fora disso, não tem muita alternativa. Mas esse seminário discutia também algumas ações governamentais e a questão legal, enfim, e eu achei que seria uma boa oportunidade para pescar um pouco disso. Então, aceitei. Saí daqui meio-dia, e voltei às oito da noite, fui direto para o Itamaraty e voltei direto às oito da noite. Porque, realmente, eu não me entendo com aquela cidade. Achei que as árvores cresceram e estão muito bonitas, mas foi tudo que eu consegui observar da cidade e mais não pretendo observar. É muito fria e não é uma coisa feita na dimensão humana, esse é que é o problema. É uma coisa que eu detestava e que deve estar mudada forçosamente por causa da questão imobiliária, mas era aquela coisa de cada quadra ser de uma profissão diferente.

Bem diferente do Rio...

Aqui no Rio você convive com todo mundo. Você vai para praia e está junto com o filho do porteiro, o cara da favela, com o filho do milionário, alguém que é filho de médico, com outro que é filho de empresário, enfim. Então, as crianças crescem com uma ampla perspectiva do mundo. Em Brasília você vai ao clube da Imprensa, você mora numa quadra onde só tem jornalista, onde só tem médico, onde só tem militar, onde só tem não sei o quê. Era uma coisa desagradável e eu, realmente, tenho uma ‘coisa’. Eu acredito muito em ‘vibração’. Durante muito tempo, morei a dois prédios desse aqui. Era um apartamento menor. Aí, quando os meus filhos começaram a crescer e eu comecei a ter algum dinheiro também, eu decidi mudar para um maior. Se fosse possível eu teria comprado só mais um quarto e grudado naquele, mas como não era, esse era um apartamento que dava para eu comprar. Os outros daqui desse negócio [prédio] são todos um por andar, esse aqui eu tinha condição. Esse aqui já foi uma grande sorte. Era difícil vagar apartamento, porque só esse que tem dois por andar e outro lá na frente, que eu não gosto da arquitetura. Então, apareceu um. Eu entrei e não gostei das vibrações, não comprei. Aí apareceu outro que, por um acaso, tinha obras demais, mas, quando vi, esse daqui era horroroso. Quando eu comprei, as pessoas tinham posto móveis de alvenaria e era uma decoração etrusca. Essas colunas todas estavam feitas com gesso como se fosse uma coisa etrusca, a parede era vermelha. Você não consegue imaginar o “esparrento” que era isso aqui. Mas tinham umas vibrações “totalmente ótimas”. Quer dizer, era um apartamento “feliz”.

Como assim?

É difícil explicar esse conceito porque eu não sou uma pessoa religiosa. Eu sou atéia inclusive, eu não acredito em Deus. Mas eu acredito muito na vibração dos lugares. Aí eu disse: “Feito, eu quero esse apartamento”. Minha mãe olhou e disse “eu não acredito”. Eu disse: “Mamãe, isso aqui tudo a gente põe abaixo. Mas as vibrações da casa são muito boas”. Aí, quando eu fui assinar a escritura, a proprietária disse para mim: “Ai, você sabe que eu estou vendendo com muita pena esse apartamento porque nós fomos tão felizes nele...”. Está vendo, eu não estava enganada. E estou sendo muito feliz nesse apartamento e ele é um apartamento feliz, ele tem um clima legal, e isso independe da decoração. É o “espírito” do apartamento. E Brasília, para mim, tem vibrações muito negativas. Então, em qualquer lugar que eu estivesse, eu estava sempre muito infeliz.

Já havia esse histórico, não é?

Você sabe que eu tenho um problema, sou uma pessoa feliz por natureza. Acho que isso aparece nas minhas crônicas, não sou uma pessoa ligada a depressões, nada com muitas elucubrações sobre o lado sombrio da existência. Porque tem, né? Se você quiser puxar por esse lado a vida é uma tragédia contínua, mas eu prefiro ver o lado bom. Mas, em Brasília, eu era incapaz de fazer isso. A minha lembrança de Brasília são oito anos de infelicidade. Devo ter tido momentos felizes, acredito, porque ninguém consegue ser infeliz seguidamente durante oito anos. Mas a lembrança que eu tenho é de oito anos de infelicidade, de uma coisa que eu não era, de um lugar que não era meu. E eu sou muito carioca, eu adoro o Rio, tenho esse problema. Apesar de todos os problemas do Rio, eu não me vejo morando em outro lugar, adoro acordar e olhar essa vista, sair, andar por Ipanema, conheço cada pedrinha.

Essas vibrações já aconteceram antes de escrever ou de receber alguma notícia?

Não.Essas vibrações são uma coisa que pertencem ao lugar. Eu às vezes chego à casa de alguém e penso: “Que lugar ótimo!”. Chego à outra casa e digo: “Ihh... Ruim...”. É uma coisa muito esquisita, eu não sei te explicar o que é. Uma questão de empatia minha com aquele lugar. E não passa pela decoração, não passa por nada, porque esse apartamento, infelizmente, foi uma das poucas épocas em que eu estava sem câmera fotográfica para eu ter documentado o horror que era o apartamento. Mas ele tinha aquela coisa de boas vibrações. E eu precisei de certa coragem, porque tomei uns empréstimos meio escalafobéticos e que em nenhum momento foram pagos e eu continuo aqui.

Foi no Rio que surgiu seu interesse por tecnologia?

Foi, mas aí nós já estamos falando dos anos 80, porque eu vim embora de Brasília em 80 e, em 1986, alguns amigos meus começaram a comprar computador. Eu comecei a achar aquilo interessante. Tinha uma máquina de escrever elétrica e em 1987 ela morreu. Era uma máquina da IBM e custava mil dólares. E aí estava conversando com um amigo que eu tinha que comprar uma máquina nova. E mil dólares naquela época era mais do que mil dólares hoje. No fim de 1986 e início de 1987 seriam uns 5 mil reais hoje. Era uma coisa que fazia muita diferença no orçamento. Tinha aquela situação de reserva de mercado, de inflação muito grande, mas basicamente tinha uma reserva de mercado. Não tinham computadores para comprar em loja. Computadores eram coisas exóticas que contrabandistas traziam. O mercado era muito fechado. Você não podia trazer nem disquete, que é uma coisa que nem existe, vocês nem conhecem [risos]. Então, esse amigo me disse: “Em vez de comprar uma máquina de escrever, compra um computador. Você tem muito mais o que fazer num computador. Pode escrever, fazer planilhas...”. Eu nem sabia o que era fazer planilhas. Aliás, continuo sem saber, porque não tenho nenhum interesse por planilhas e nenhum uso para elas.

Você se decidiu pelo computador mesmo assim.

Achei aquilo ótimo e perguntei quanto era um computador. Ele disse: “Meu contrabandista traz tudo para você”. O resultado é que eu me ferrei em termos de dinheiro porque o computador saiu por 2.200 mil dólares sem o monitor. Aí eu chiei com esse cara, disse que estava no vermelho e que não teria como ter esse dinheiro. Ele disse que tinha um monitor usado que poderia me emprestar, porque tinha acabado de trocar de monitor e me emprestou um monitor de fósforo verde e o computador que eu comprei só tinha o The Base que é um programa para programação com banco de dados. Eu não tinha a menor ideia do que iria escrever com aquilo. Tentava, não conseguia e liguei para ele. Ele disse que tinha que ter um programa. Aí que eu tomei conhecimento que tinha uma coisa chamada programa, para vocês terem uma ideia do que era naquela época, você partia do zero. Era uma coisa em descoberta. Eu fiquei tão empolgada com aquilo que no fim acabei aprendendo a programar em The Base, acabei programando em Pascal, até acabei depois aprendendo um pouco de C++ e cheguei à conclusão que programação não era a minha praia. Não era o que eu queria fazer. Eu queria usar a máquina, não queria programar a máquina. Mas até antes do computador que está na minha mesa agora, eu que fazia os meus computadores, eu que montava, comprava as placas... Depois, acho que o computador virou “linha branca”, hoje você compra em 36 prestações no Ponto Frio, aí eu já nem tenho mais interesse em montar essa máquina. Seria como montar uma geladeira ou um fogão. Perdeu a graça para mim. Então tenho um amigo que eu chamo e ele faz as coisas que preciso, que sejam feitas e pronto, acabou. Mas durante muito tempo eu era uma “escovadora de bits” e nerd até não poder mais.

Como era ser uma mulher dentro de um mundo tecnológico? Havia muitas?

Poucas. Era um meio essencialmente masculino. Era engraçado, porque a cobertura de tecnologia era feminina, havia bastante mulheres cobrindo. Mas havia poucas mulheres realmente mexendo com as máquinas.Porque era uma cobertura basicamente econômica. Durante muito tempo, o que se cobria de tecnologia no Brasil era aquele negócio: “IBM abriu uma fábrica, o novo diretor é fulano”. Mas não havia nada voltado para o usuário final. E eu comecei a perceber uma lacuna enorme nisso, porque queria ler alguma coisa para o usuário final, porque eu era uma. E comecei a chatear o Marcos Sá Correia, que era o editor do Jornal do Brasil, para a gente escrever alguma coisa para o povo que estava usando computador. E o Marcos achava que aquilo era a coisa mais chata do mundo, que não tinha nada a ver. E eu enchendo o saco. Aí o Marcos, por favor, eu percebi que ele fez aquilo para não me chatear, porque ele gostava de mim, falou para eu escrever uma coluna. Mas era uma coluna que às vezes saía na náutica, às vezes saía na economia, tinha dia que saía na segunda, às vezes saía na terça... A minha mãe não encontrava a coluna, para você ter uma ideia. Ela só não saiu nos classificados, em todos os outros cantos do jornal ela saiu. Ninguém queria uma coluna de informática. Chamava-se Circuito integrado.

E fez sucesso?

Ela fazia um sucesso, um sucesso enorme entre as 30 pessoas que usavam computador no Rio de Janeiro. Era um nicho, era um grupo de pessoas extremamente reduzido que, volta e meia, se encontrava em Água Santa, onde morava um sujeito que havia sido da IBM e se aposentou por invalidez e que, na época, na qual ainda era possível isso, tinha todos os programas que saiam no mundo. Porque, cada vez que um de nós viajávamos e trazíamos um programa, a primeira coisa que a gente fazia era levar lá. Ele se chamava Capitão Gancho por causa dos piratas. Então a gente levava os programas lá e ele copiava. Todos nós contribuíamos com aquilo. Levávamos caixas com disquetes. E qualquer programa que a gente queria, qualquer manual, o repositório era lá. Então aquele foi um dos ambientes mais democráticos que eu já vi, porque você chegava lá e tinha Fusquinha, tinha Mercedes, tinha BMW, tinha bicicleta, moto, tudo na porta. E quando você entrava tinha gente de 13 a 80 anos discutindo os programas, conversando sobre computador, levando caixas com disquetes para copiar tudo e levando programas. Eu levei muitos programas para lá, contribuí muito. Eu viajava bastante por causa das feiras de computador, então trazia muita coisa. Eu cheguei a ter o AutoCad, que é um programa de arquitetura, porque naquela época havia poucos programas realmente. E a gente queria ter todos, eu não tinha interesse nenhum. Hoje em dia, o computador virou linha branca e não passa pela cabeça de ninguém do tipo da gente ter AutoCad, é coisa para arquiteto. Não tem porquê você ocupar um espaço enorme do disco rígido com AutoCad. Mas naquela época, nós tínhamos um interesse universal por tudo que podia ser feito no computador, então até AutoCad eu tinha. Abri três vezes o AutoCad e cheguei à conclusão que eu estava olhando para uma coisa que, absolutamente, não compreendia. Aí, reformatei os disquetes, porque eram dez disquetes, e disquete era caro, e acabei copiando outras coisas nos disquetes.

Você sempre foi autodidata?

Fui. Autodidata em termos, porque sempre houve esses amigos com quem eu trocava ideias. Mas não era uma coisa que a gente aprendesse de uma forma estruturada. Por isso eu acho que o Brasil perdeu uma geração importante com essa estupidez da reserva de mercado, porque nessa época em que estávamos fazendo essas experiências, os Estados Unidos já faziam parte do currículo universitário quando você ia estudar informática. Você sabia como era um computador, sabia como usar... E a gente aqui com essa burrice de preservar o mercado porque meia dúzia de amigos do Sarney fazia computadores, então um computador brasileiro custava o preço de dez computadores americanos, e eram dez vezes piores. E isso gerou distorções incríveis. Eu me lembro que tinha amigos que trabalhavam no CPD (Centro de processamento de dados), que era a área de tecnologia das empresas, e o CPD das empresas ficavam atrás de uma porta escrito “senhoras” ou qualquer coisa assim, porque a Receita Federal fazia incertas e apreendia todos os computadores das pessoas, apreendia caixas de disquetes... Aí você ia conversar com o pessoal da receita e tinha Macintosh na mesa da secretária. Eles pegavam e distribuíam entre eles, sempre aquela sacanagem de Brasília, né?! Então, era uma área complicada, essa.

Antes dessa coluna, você escrevia sobre o quê?

Eu fazia crítica de televisão. E fazia uma crônica sobre a cidade uma vez por semana.

Era uma coisa mais cultural?

A crônica já era parecida com minhas crônicas de hoje. Elas eram mais voltadas para a cidade, porque saíam em um caderno chamado cidade, então era uma coisa focada no Rio. Hoje eu escrevo bastante sobre o Rio, mas escrevo sobre outras coisas também. E eu fazia críticas de televisão, porque um dia o Zuenir descobriu que eu não via televisão, aí ele perguntou: “Você não vê televisão nunca?”, e eu disse que não, então ele disse: “Ahhhh... Que ótimo! Então você vai fazer crítica de televisão”.Eu disse que detestava ver televisão e ele disse que seria muito interessante ter o ponto de vista de uma pessoa que não via televisão. Então eu comecei a fazer crítica de televisão e tive que assistir a televisão. E fez muito sucesso, porque, até hoje, é incrível, isso tem 20 anos e, às vezes, eu encontro um pessoal das antigas que falam que adoravam essas críticas de televisão e eu já nem lembro mais o que escrevia. Eu fiz isso durante um bom tempo, mas sempre não gostando de ver tevê. Gostando até de escrever, porque era fácil escrever sobre uma coisa que eu não gostava afinal de contas. Mas um dia, me lembro disso muito claro, eu vinha insistindo com o Zuenir que não queria mais fazer aquilo, que aquilo já estava horrível, que não aguentava mais ver televisão... Não é por uma postura elitista, ou qualquer coisa. Eu sempre tenho medo com isso porque as pessoas acham que não ver televisão da minha parte é um esnobismo cultural e não é. É porque o dia tem só 24 horas, e não sei se vocês repararam, mas tem um bocado de livros nessa casa, e o que eu gosto de fazer é ler. E todo tempo que eu passava vendo televisão me roubava o dos livros. Os livros iam se acumulando, iam ficando pilhas de livros e eu não tinha tempo, tinha que ver televisão. Aquilo ia me dando uma aflição, uma angústia. E eu ficava assistindo a televisão com um bloquinho na mão, porque eu iria escrever sobre aquilo. Aí um dia eu estava vendo uma moça chamada Lídia Brondi, nunca vou esquecer esse nome, e anotando ali... E o Sarney tinha falado uma frase a respeito de não sei o quê: “O destino me trouxe tão longe...”. Uma daquelas besteiras dele. E eu disse: “Cara, o destino não me trouxe tão longe para eu me preocupar com a Lídia Brondi, sinceramente”. Aí fechei o caderninho e, no dia seguinte, cheguei para o Zuenir e disse: “Olha, o destino não me trouxe de tão longe para me preocupar com a Lídia Brondi, eu não faço mais crítica de televisão”.

Deve ter se surpreendido...

Ele ficou totalmente desesperado e eu disse que não faria mais, acabou. Não tinha mais o que dizer. Porque também chega uma hora em que você vai se repetir. Porque como as novelas eram todas iguais, são sempre os mesmo vícios. Elas não são iguais, mas é sempre a mesma estrutura, os mesmos clichês e os mesmos vícios. As coisas que estão erradas em uma, estão erradas na outra também. E, no fim, eu já achava que estava reescrevendo o que já tinha escrito há um ano ou dois. Nessa época, eu já estava escrevendo sobre tecnologia, e fiquei fazendo ali minha crônica, e muito pouco tempo depois, o Evandro me chamou para trabalhar, isso foi em 1998. O Evandro Carlos de Andrade era o chefe de redação do Globo e eu não o conhecia. Quem me chamou foi o Uberval, que tinha sido meu colega em Brasília, e conheço o Uberval acho que há 30 anos, pelo menos, muito tempo... Ele também trabalhou em Brasília, começou na mesma época que eu. Ele me telefonou e disse que o Evandro queria falar comigo. Na época, o Jornal do Brasil era tão mais importante que O Globo que... Não era nem importância, é que a gente tinha uma relação com o Jornal do Brasil que era afetiva, que eu nunca vi com nenhum outro jornal. Não era como trabalhar em um jornal, era como pertencer a um clube, era uma coisa de privilegiados. Quando a gente dizia que trabalhava no Jornal do Brasil, era uma coisa que todo mundo morria de inveja. Era uma coisa heroica! Eu acho que foi o fim do jornalismo romântico. E as pessoas que saiam do Jornal do Brasil para O Globo, a gente meio que não ouvia mais falar dessas pessoas, porque, realmente, a Zona Sul do Rio de Janeiro só lia Jornal do Brasil.

Então...

E aí, o Evandro me chamou e disse: “Olha, eu queria que você viesse trabalhar aqui, não vou te dizer o que é, só quando você me disser que topa trabalhar aqui”. Ele disse o quanto estava disposto a me pagar e era dez vezes mais do que eu ganhava no Jornal do Brasil. Eu ganhava muito mal. Para você ter ideia de como a gente adorava o Jornal do Brasil, o que eu ganhava lá mal dava para pagar um táxi de ida e volta e cobrir minhas despesas. Eu vivia fazendo freelance para lá e para cá feito doida, fazendo revisão... E tinha um namorado, que era o Millôr, e isso também me ajudava muito. Continuo tendo um namorado chamado Millôr e isso ainda me ajuda muito, mas enfim. Na época, isso me segurava muito bem, quer dizer, Millôr me dizia: “Não, faz o que você gosta”. Tinha essa rede de segurança que era uma coisa boa. Aí, eu fui lá falar com o Millôr e disse: “Olha, eu fui falar com o Evandro e ele me ofereceu dez vezes mais do que eu ganho no jornal e não sei exatamente para o que é, mas é dez vezes o que eu ganho”. Aí ele disse: “É muito simples! Você pede o dobro do que ele te ofereceu. Porque você não quer ir para lá, mesmo. Então se ele te pagar o dobro do que ele te ofereceu, aí também você não pode recusar...”. Apesar disso, eu ainda fui falar com o Zuenir Ventura. O Zuenir trabalhava no Jornal do Brasil, eu perguntei o que ele achava, se eu ia para o Globo ou não ia. Era a esse ponto que era o Jornal do Brasil. Fui falar com o Luiz Paulo Horta e com o Chico Caruso, que já tinham ido para O Globo antes, e os dois: “Vem para cá, vai ser ótimo ter companhia aqui!” E no final o que pesou foi a opinião da minha mãe que é a sábia coruja das “high lands”. A gente chama “high lands” porque ela mora em Friburgo, que é na serra. Então, eu liguei e disse: “Olha, preciso do seu conselho, a situação é essa: O Globo me chamou, mas eu não sei se vou para lá porque, afinal de contas, é o Jornal do Brasil...”. “Vem cá, você ganha quanto no Jornal do Brasil?”. “Eu ganho x”. “E quanto te oferecem no jornal O Globo?”. “Dez x”. “Então não estou entendendo qual é o teu problema!”. Aí eu segui o conselho do Millôr, voltei no Evandro e disse: “Evandro, eu topo, mas por 20x”. Eu não sei mais quanto que era, porque era uma coisa em Cruzeiro, Merrecas, sei lá... Aí ele disse: “Cara, isso eu não posso te pagar! Não tenho condição”. Aí ele chamou alguém dos Recursos Humanos e tal e depois disse: “Então você vai fazer para mim também uma crítica de cinema uma vez por semana”, porque televisão eles nem queriam que eu mantivesse a mão porque a Globo era a Globo, afinal de contas, mas ele queria uma crítica de cinema por semana e acabou pagando 15x. E com isso eu fui para O Globo, não me arrependo em nenhum momento, hoje adoro O Globo. Curiosamente, é o jornal onde encontrei as melhores condições de trabalho de toda a minha vida e tenho paixão pelo O Globo hoje.

E qual era o trabalho?

Aí, ele disse o que era, fazer um caderno de informática. Já era o Informática e ETC.

Então essa ideia não partiu de você?

Não, mas teve uma coisa em 1991. O detalhe é o seguinte: em 1990 eu tinha apresentado para o Jornal do Brasil um projeto para o caderno. Levei um jornal de banca, chamado Balcão, de classificados, 64 páginas só com anúncios de informática, porque a edição de informática saia às quintas-feiras. Então, eu disse: “Olha aqui. Este é o mercado que temos no Rio para isso e eu tenho esse projeto aqui para a gente fazer um caderno de informática”. E o JB sentou em cima daquele projeto, disse que não havia mercado no Rio de Janeiro para fazer um caderno de informática.

Então, eu, por acaso, tinha um projeto pronto. Isso não foi o maior problema. O problema foi que, quando o Evandro conversou comigo e a gente fechou, isso já era no começo de fevereiro. E o caderno tinha que estar nas bancas no dia 1º de março porque o comercial já estava vendendo. Eu tinha que formar uma equipe, tinha que aprender a usar o sistema do Globo... Enfim, era uma coisa um pouco desesperada, né?! Eu tinha uma amiga, a Cristina De Luca, e acho que ela é uma das melhores repórteres de tecnologia que já houve neste país. Ela já tinha ido para uma empresa privada e eu tive o trabalho de convencer ela a vir para o Globo ganhando menos do que ela ganhava na empresa privada. E chamei caras que eram meus leitores no Jornal do Brasil, mas que eu sabia que escreviam muito bem, porque a gente trocava muito email. Então, chamei o Carlos Alberto Teixeira, que até hoje escreve no Globo, chamei o B. Piroco, um engenheiro que durante muito tempo fez uma coluna de enorme sucesso no Info e ETC, porque ele respondia as perguntas técnicas das pessoas. Ele era realmente o cara técnico, que explica tudo. Naquela época, a cobertura era um pouco diferente, porque a gente se prendia mais em velocidade de processadores, explicava a diferença entre um processador e outro. Era uma cobertura para um clube de micreiros. Chamava-se micreiro quem mexia com micros. E assim foi, eu saía três ou quatro horas da manhã do jornal toda noite até a gente conseguir colocar esse no ar. Escrevia em quase todo jornal. Depois, ele entrou nos trilhos.

Quando houve a abertura de mercado?

Em 1988, houve uma pequena abertura para alguma coisa, depois em 1990, mais ou menos.

Como foi isso?

Fez diferença, mas a maior... Isso não foi a maior diferença, porque o que havia de mercado pirata era uma grandeza. Era como o ipad hoje. A gente está escrevendo sobre o ipad hoje no jornal, mas você não vê um ipad numa loja, porque não tem ipad entrando legalmente no Brasil. Agora, só na Vivo, você sabe quantos ipads tem registrados? São 5.000. Eu tive essa informação ontem. Por acaso, estive na Vivo ontem num lançamento. É tudo mercado cinza, é contrabando porque não está entrando oficialmente. Eu tenho um ipad e não comprei em viagem, comprei com um contrabandista, como sempre. Eu acho que toda universidade brasileira deveria ter uma estátua do contrabandista anônimo na frente, porque a reserva de mercado só não prejudicou mais o país, porque a gente sempre teve contrabandista trazendo computador e bem de informática. Isso é essencial para o desenvolvimento tecnológico do país. Eu acho que todo contrabandista que traz tecnologia para o país é um herói. Não me envergonho de comprar com contrabandista, porque acho que um país burro, como o nosso, que taxa a tecnologia, como o nosso taxa, merece os contrabandistas que tem. Vai fazer o quê?

Essa política inibiria a competição...

A gente tem uma falta de competitividade absoluta nesse setor porque você tem imposto em cascata em cima desses produtos. O governo não se deu conta que é melhor recolher menos e vender mais do que recolher mais com meia dúzia de coisas vendidas. Essa é a situação de todo mundo que depende de alguma coisa que vem do exterior aqui no Brasil. A taxação é injusta, é absurda e antipatriótica. Pintor precisa de tinta importada porque não tem jeito que a tinta brasileira não é igual, músico precisa dos instrumentos... Qualquer profissão vai precisar de alguma coisa que venha do exterior porque não adianta que a qualidade dos produtos brasileiros não é igual. Até que em tecnologia está parecido, mas, mesmo assim, tem muito componente que vem de fora. A gente tem um atraso nisso que é ridículo. Quanto mais computador você tiver nas mãos das pessoas, melhor. É aí que está a salvação do país, é na educação, é nas pessoas se interessarem por tecnologia, por fazer as coisas e não em plantar mais soja. Plantar soja é muito importante, mas não é tudo. Eu acho que é burrice mesmo. Esse governo não tem como prioridade a educação. A ideia de educação política também é inteiramente errada, porque a ideia de educação é fazer escola.

Errada em que sentido?

Construir escola não é educação, isso é outra coisa, é arquitetura e engenharia... Mas a qualidade do ensino é o que há de mais importante. Eu estive na Índia recentemente e fiquei muito impressionada. Eu vi escolas funcionando embaixo de árvores, a professora com as crianças embaixo de uma árvore. Acho que eles nem têm caderno, estavam com um quadro negro. Depois, fui num palácio de marajás, lindo, e o pátio funciona como escola. Você não precisa construir uma escola, o importante é a vontade de ensinar e a qualidade do ensino. Você chega à Índia e metade das crianças não está na escola. Aqui no Brasil quase todas as crianças estão na escola. A diferença é que lá as crianças estão aprendendo e aprendendo muito bem. E a metade das crianças, lá, é dez vezes o que a gente tem aqui no Brasil. Então, eles estão formando engenheiros, médicos, técnicos a uma velocidade que a gente nunca vai conseguir porque o nosso ensino é deplorável. Essas taxas em cima de coisas de aprendizado, de bens de cultura, ela faz parte desse processo, que ninguém liga para a educação, essa é a verdade. Tirando uma ou outra iniciativa privada você não vê nada que realmente pense alguma coisa em longo prazo. Na primeira vez em que eu estive na Coreia, os produtos coreanos eram considerados cópias vagabundas de produtos ocidentais, era sinônimo de porcaria mesmo. Em vinte anos você tem a Samsung, a LG, todas lançando tecnologia de ponta. Tela Plana você não teria se não fosse a Coreia. Ontem eu fui ao lançamento do Samsung Galaxy Setup, que é um tablet para concorrer com o ipad, é um tablet muito mais completo que o ipad. Os caras estão, hoje, com uma tecnologia absolutamente de ponta, mas isso não se fez demagogicamente, foi um projeto de longo prazo. O cinema coreano hoje é um cinema espetacular, você pode achar os roteiros violentos, ou não entendê-los, mas em termos de técnica não tem para ninguém, som, câmera, é espetacular. Eu sou aficcionada pelo cinema coreano, porque acho que ali tem uma tecnologia poderosíssima em ação. Agora, você tem que ter uma visão de governo de longo prazo e você tem que realmente se interessar em tirar as pessoas da miséria intelectual, o que nesse país eu não vejo ninguém fazer.

Como surgiu a ideia de criar um blog?

Aí já entra no meu interesse por tecnologia e tudo que é tecnológico. Apareceu essa coisa chamada blog. Na época eu não fazia ideia do que era, porque só havia sites. Os blogs apareceram em 2000. Eu abri um blog, mas não entendi qual era a do blog de primeira, achei que fosse um diário e nem tinha o que colocar lá dentro. No começo de 2001, O Globo entrou com um site no ar, que tinha umas pequenas notícias e eu escrevia algumas sobre tecnologia. Aí eu resolvi juntar essas notícias num blog, assim ele funcionava. Então, já tinha uma massa crítica de blogs e de leitores, aí ele se justificava, porque não existe blog sem leitores. Enquanto o leitor não entende o que é o blog, você não pode fazer um. Eu abri o meu em 2000, mas coloquei para funcionar mesmo em 2001. Aí, teve o 11 de setembro, que foi quando o mundo descobriu os blogs, eu já estava no ar e o blog continuou no ar. Fui a primeira jornalista a ter um blog no país, mas foi por acaso, não foi por vontade de pioneirismo, foi por interesse de ver o que era aquilo. Em 2001, você não tinha muitos blogs para ler nem as redes sociais. Comentário era uma coisa complicada de fazer, essa ferramenta ainda não tinha sido disponibilizada pelo Blogger. Várias pessoas faziam uns plugins que eram de comentários. O Fábio Sampaio, um brasileiro que mora em Nova York, criou um sistema de comentários, o Falou e Disse, que existe até hoje. Mas hoje ele só mantém o meu blog e de uns três ou quatro amigos, aí não é muito trabalho. Eu agora não quero mudar de sistema, está ótimo, está funcionando. Já há algum tempo, o Globo quer que eu leve o meu blog para lá e ele está sofrendo um pouco com isso, porque eu mesma estou sem saber o que fazer com ele. Estou com uma barreira no Globo, porque gosto muito de atualizar o blog pelo celular e a ferramenta deles não permite a atualização por telefone. Então, estou resistindo, por causa disso. Mais cedo ou mais tarde, vou ter que levá-lo. Penso, ainda, em manter os dois, um como espelho do outro para não tirar o InternETC do ar direto.

Que temas você aborda?

Desde 1987, eu faço críticas de produtos de informática, o que é um pouco diferente do resto, porque não é aquela coisa completa. Eu falo da minha experiência como usuária. É o que eu fiz desde o começo, porque acho que há um tipo de leitor que se interessa por isso. Eu tenho uma ótima relação com a Nokia, pelo fato de gostar muito dos seus produtos. Então, eles sabem que contam, no mínimo, com uma observadora amistosa. É uma coisa quase ideológica, assim como a Apple tem seus admiradores e detratores. Eu realmente tenho um carinho especial pelos produtos da Nokia, que gosto muito, apesar de estar um pouco decepcionada com os últimos celulares. Depois que me mandaram para a redação, nunca mais pude fazer fotografia. Houve uma época em que fotógrafo e repórter eram funções diferentes, e continua sendo assim, mas hoje se aceita a ideia de que o repórter precisa ser multimídia. Naquela época, isso era muito mal visto porque os colegas achavam que você estaria roubando o emprego de alguém. Aí, voltei a fotografar com os testes de celular, câmera digital e com a minha crônica. E voltei a fotografar para jornal, com o intuito de publicar fotos, mas nunca parei de fotografar num modo geral, porque sempre gostei muito. Durante um tempo, meu fotolog foi um dos mais vistos do mundo, era uma Internet muito pequena. Eu adorava o meu fotolog. A distinção da minha vida pessoal e profissional é uma linha muito tênue, não sei onde começa o meu trabalho e o meu lazer, porque os dois estão no mesmo lugar.

E a notícia?

Essas tecnologias mudaram a forma como a gente encara a notícia, como as pessoas se relacionam também e aumentou a idéia de colaboração. As pessoas acham que a Internet faz com que elas se isolem do mundo, mas eu acho o contrário, que elas aumentam o seu horizonte de conhecimento. Tem muita gente que se conhece pela Internet e acaba se conhecendo em pessoa, eu conheci muitos amigos meus pela Internet. E sou a favor da colaboração dos leitores há muito tempo. Há alguns anos, eu propus ao Globo que a gente fizesse um concurso de fotografia com os leitores e distribuísse câmeras para os melhores. É impossível um jornal ter repórteres em todos os bairros da cidade ao mesmo tempo. Mas o jornal não estava preparado para distribuir câmeras para os leitores, acho que o meu projeto era meio megalomaníaco e não foi em frente. Eu sugeri ao Ancelmo que publicasse fotos dos leitores, ele topou, e você vê o sucesso que isso faz. O Eu-repórter, do Globo, é uma conseqüência da disseminação de câmeras digitais. A minha ideia de distribuir câmeras acabou acontecendo sem que o jornal o fizesse, os leitores acabaram comprando. A questão da câmera e dos celulares é importante, porque você tem a fotografia na hora e pode enviar para o jornal. Eu acho fundamental essa interação dos leitores com os jornalistas e que eles não vão tomar o lugar dos profissionais. Fala-se que o jornal vai acabar, mas o negócio do jornal não é vender papel, é vender notícia. O grande problema, a grande dúvida dos jornais é como ganhar dinheiro com as notícias na Internet, esse é o grande “x” da questão. Mas o jornalista é absolutamente necessário, porque a notícia precisa ser confirmada, repercutida. O leitor tem pessoas cuja opinião ele quer.

Sobre o seu livro Caiu na Rede, em que você fala da questão da autoria, de pessoas que acabam trocando o nome do autor pela credibilidade. Você acredita que os jornalistas também têm esse problema de terem textos trocados?

Volta e meia acontece, mas acho que cada vez menos, porque todas essas coisas, na internet, são febres, não é? A autoria falsa caiu em descrédito. Depois que se chamou a atenção, com Veríssimo, Jabor, a sociedade vai se educando na rede. Então, num primeiro momento, as pessoas caem nessa, depois elas começam a desconfiar, e daqui a pouco isso morre por completo, porque, para você mandar um texto de alguém, você vai ter de mandar um recorte de jornal, provando que foi mesmo escrito pela pessoa.

Tem textos muito bem escritos que a própria pessoa fazia e colocava o nome de outro, de alguém mais famoso...

Tem alguns textos que as pessoas escrevem dando as suas opiniões e, para que os outros acreditem, elas trocam o nome. Elas têm muito pouca confiança de que alguém vai ler. Eu acho que o texto icônico disso foi o texto do “Use Filtro Solar”. Aquele texto foi escrito por uma moça chamada Mary Schmidt, do Chicago Tribune. Aquele texto começou a circular como texto do Kurt Vonnegut, saiu na Time, como Kurt Vonnegut. Por acaso, naquela semana eu tinha conversado com um amigo meu, professor de uma universidade americana, e disse: “Cara, não consigo achar o texto do Kurt Vonnegut no MIT. Será que ainda não subiram a página?”. E ele me disse: “Ah, esta semana descobrimos que o texto não é do Kurt Vonnegut, é da Mary Schmidt”. Então eu tinha uma notícia mais certa do que a revista Time, fiquei toda contente, e foi na mesma semana. Ninguém soube, mas tudo bem, eu fiquei orgulhosa mesmo assim. Naquela época, a internet era toda cabeça, era o pessoal da minha geração, que adorava Kurt Vonnegut, o MIT era “O” centro interessante de tecnologia, então, se Kurt Vonnegut não chamasse atenção, o MIT chamaria. Então alguém achou aquele texto maravilhoso, mas sabia que se mandasse para as pessoas como “texto maravilhoso de Mary Schmidt”, você iria dizer “ah, a roleta acabou”, enquanto Kurt Vonnegut, do MIT, todo mundo iria ler imediatamente. Foi o único que eu entendi, realmente, quando eles trocaram a autoria, porque é um texto maravilhoso mesmo, muito bom. E coitada da Mary Schmidt, nem ficou mais famosa, as pessoas não lembram, você acha que o texto é do Bial, todo mundo no Brasil acha que foi o Bial quem fez. Na verdade, o Bial traduziu a versão musicada do Baz Luhrmann, e o Baz Luhrmann também achou que fosse do Kurt Vonnegut. Quando os agentes dele entraram em contato com o Kurt Vonnegut, levaram um passa fora. Aliás, foi uma atitude muito deselegante, porque ele negou a autoria e também o valor do texto, o que não é verdade, porque o texto é excelente. Então foi isso, o texto deu a volta ao mundo das formas mais equivocadas.

Você falou que adora tecnologia, celulares, câmeras. E os livros? Você continua nos impressos, por quê?

Continuo nos impressos. Entrei numa fase, no fim do ano passado, porque, você sabe, fim de ano a gente arruma gaveta, essas coisas. De repente, vi a quantidade de gadgets que eu tinha antigo, PDAs... e eu digo “Gente, que besteira”. E o M95 também me deu muito que pensar, porque é um celular com o qual eu estou desde que foi lançado, há três anos, e eu nunca passei tanto tempo com um celular, em geral troco a cada seis meses, porque preciso estar por dentro do que está rolando em termos de tecnologia. Então, eu digo: “Isso é uma loucura. A humanidade está entrando em um caminho impossível. Isso tudo é lixo não reciclável”. Me deu um sacode aquilo, sabe? De a quantidade de porcaria que eu estava juntando em casa e como é que eu estava embarcando nessa onda de obsolescência planejada da indústria. Ninguém precisa consumir tanto, ninguém precisa de tudo isso na vida. Isso é ridículo. E me deu essa trava em comprar eletrônicos. Foi nessa época que surgiu o Kindle e eu disse: “Não vou comprar Kindle, não preciso de Kindle, vai ser mais um peso morto”. Eu tinha um leitor, que comprei em 99, se chamava Rocket eBook. Não li sequer um livro e disse: “Vai ser outro Rocket eBook na minha gaveta”. Mas aconteceu que eu estava em São Paulo, na casa da Mônica Figueiredo, amiga minha, jornalista, e, por acaso, ela tinha ganhado um Kindle de presente e disse: “Ah, não me acertei com esse troço, leve embora”. Aí, comprei um livro para ele, li e não achei a experiência legal. Sabe o que é? Você pega esses dois livros e tem uma diferença enorme entre eles. Tem uma hora em que eu tenho tempo e disponibilidade para ler uma coisa desse tamanho, e tem uma hora em que eu estou totalmente cheia de trabalhos e que eu vou pegar uma coisa deste outro tamanho aqui. Porque você não pega um livro só pelo título. Quando você é “onívoro”, em termos de livro, você pega muito também pelo tamanho, número de páginas. Eu dou uma “scaneada”, quer dizer, a gente dá essa folheada, a gente lê uma frase ou outra, e, enfim, você tem uma noção do que o livro é. Às vezes, eu leio a última página para ver como acaba. Enfim, essa diferença você não percebe no e-book. E ela é fundamental quando você começa a ler alguma coisa. Para mim, ela é. O Kindle tenta resolver esse problema, ele põe uma barrinha embaixo e te mostra quanto por cento você leu. Esse livro tem 629 páginas, esse tem 135, mas esse é um número que não te diz nada. Essa informação vem imediatamente quando eu pego o objeto, e não vem com o e-book. Além disso, eu ainda acho o contraste da tela do Kindle ruim, mas a verdade é que eu experimentei o da segunda geração, e o da nova tem um contraste bem melhor. Agora, dito isso, o Kindle tem grandes vantagens. Para você ler artigos da internet, essas coisas, ler no computador é muito chato. Hoje eu baixo todos os artigos que eu quero ler no ipad, leio no ipad.

Mas o livro...

Livro, eu ainda prefiro a experiência em papel. Acho que não tem nada igual, gosto da sensação de virar as páginas, gosto de saber o quanto eu tenho para ler pela frente, quando gosto muito do livro eu leio mais devagar quando está chegando ao fim, para ele durar mais. Enfim, na minha geração não sei como isso vai poder ser substituído. Eu vejo a sobrevivência do livro de papel em duas pontas. Nas edições de bolso e nas edições de luxo. Este tipo de livro eu acho que vai acabar, porque não é nenhuma edição muito caprichada para você guardar, mas uma edição encadernada, de capa dura, já é outra coisa.E o livro de bolso, porque a gente não vai sair carregando ipad e kindles dentro do ônibus. Não é só no Rio de Janeiro. A maior parte das grandes cidades, hoje, não é um ambiente tão seguro para você sair com um eletrônico caro por aí. Eu acho que a maior parte das pessoas que gostam de ler dentro do ônibus, no metrô, vai preferir ler o livro a sacar o seu ipad ou o seu galaxy tablet e ficar lendo, eu não me sentiria segura. Eu mal me sinto segura passando sms dentro do ônibus. Tenho sempre celulares bons. Até o M95 eu tenho coragem, porque ladrão, hoje, já sabe o que é mais antigo. Mas eu uso um iphone 4 também, e o iphone 4 eu não tiro no ônibus, eu não sou louca. Antigamente, as pessoas tinham sapato, tinham calça. O sapato não tinha marca, você vai comprar calçado, só isso. Quando você cria uma marca, como Nike, como Reebok, você gera uma cobiça, aquilo é vendido como item essencial à tua felicidade. Antigamente, o menino via outro calçado, se ele tivesse um calçado, ele não iria roubar, mas o tênis Nike é outra coisa. Tanto que hoje, no Rio, a maior parte dos garotos que vão à escola a pé já não vai com o tênis “não sei das quantas” porque aquilo pode colocar a vida deles em risco. Agora, imagine um iphone 4 dentro do ônibus? Não dá certo. Então, eu acho que o livro de bolso tem uma sobrevivência muito por aí.

E os jornais e revistas? Você acha que eles também sobrevivem em papel?

Eu acho, acho que sim. Pelo mesmo motivo. Estamos falando de duas coisas diferentes. Uma coisa é Suíça, Suécia, Noruega, Dinamarca, Finlândia. Nesses lugares, posso questionar isso, porque você tem uma segurança total. Você pode abrir o seu Macbook Air no meio do metrô, ficar trabalhando e ninguém vai roubar aquilo de você. Agora, eu não vejo isso acontecendo na maioria dos países. Ao mesmo tempo, você compra uma revista, você lê aquela revista, passa para sua amiga, ela passa a ser uma coisa de leitura comum, você vai ao cabeleireiro tem aquelas revistas todas. Eu não vejo ipads espalhados pelo cabeleireiro, como não vejo as pessoas que vão ao cabeleireiro cada uma com seu ipad, de novo, pelos riscos de sair com um produto caro no meio da rua. São coisas que estão integradas com a vida urbana. Não acho, também, que seja só uma questão de segurança, embora ache que a segurança tem um grande fator na sobrevivência das revistas e dos jornais. Mas acho que há um prazer na leitura do papel, que é a questão física, que a gente não pode descartar. É possível que gerações futuras não façam questão disso, aí já não sei. Eu prefiro ler a revista no ipad, mas prefiro ler jornal no papel.

Quantos livros você escreveu?

Eu não tenho muitos livros. Tenho muitos para crianças. Quando meus filhos eram crianças, eu contava muitas históricas para eles, aí aproveitava e publicava. Mas acho que o que eu escrevo está no jornal. A relação do que eu escrevo é a relação com o jornal. O jornal tem uma circulação gigantesca que o livro nunca vai ter. Às vezes eu penso em reunir as crônicas, me dá uma certa preguiça, mas esse ano eu estou pensando nisso porque as pessoas têm me cobrado. Minhas editoras me pedem, então vou levar isso um pouco mais a sério. Tem um livro que eu estou querendo publicar, que é um pouco do blog que fiz, enquanto estava na Índia, e acrescentei mais algumas coisas, tem umas fotos também. Acho que daria um livro de viagem interessante. Então, entrei em contato com a Lúcia Rippe, que é agente literária, e vou ver se sai alguma coisa esse ano. Mas em geral, não sou muito da publicação de livros, porque a gente escreve para ser lido, e eu acho que estou sendo bem lida no jornal.

O seu pai foi um intelectual muito importante. Você se inspirou nele?

Não é nem questão da gente se inspirar. Minha mãe também é uma fera, ela era professora de geometria descritiva na arquitetura da UFRJ, sempre se interessou em filosofia, falava seis línguas. Mas a gente nunca prestou muita atenção nisso, porque meu pai falava doze, então minha mãe era meio que a ignorante da casa. Mas era uma casa onde se lia muito, eu cresci cercada de livros. Não é nem uma questão de inspiração, eu nasci em uma biblioteca, e, para mim, o livro é uma extensão da minha vida, faz parte do meu DNA. Não consigo viajar sem levar dois ou três livros, posso fazer a viagem mais curta do mundo, mas sempre leio dois ou três livros ao mesmo tempo. E a coisa que mais me apavora é ficar sem ler e, em segundo, é ficar com um livro que eu enjoei. Às vezes, começo a ler e não era o que eu estava pensando, e não ter outro para pegar na sequência me dá uma angústia terrível. Eu sei que, na maioria dos lugares, vou conseguir encontrar livros, mas cada louco tem sua maluquice, não é? Mas meu pai tem toda a influência, pelo fato dele gostar tanto de livros. Quando eu era criança, ele lia histórias para gente e sempre houve, na casa, a ideia de que livro é um grande prazer, então isso foi uma coisa que ele ensinou querendo e sem querer também. Foi pelo exemplo, por sempre trazer livros para a gente, então era uma coisa natural. O livro era uma coisa natural na nossa família. O pai do meu pai era livreiro, então você vê que é uma coisa de gerações antigas.

E o Millôr? Ele também te influenciou?

Muito. O Millôr foi uma das maiores influências da minha vida, porque ele me ensinou uma das coisas fundamentais em relação à escrita, que a gente sempre pode cortar o que a gente escreveu. Eu tinha uma tendência a usar artigos demais, advérbios demais, e ele disse “corta, corta, corta”. Assim que eu cheguei aqui no Rio e comecei a namorar ele, foi quase imediato. Na época, eu era repórter do caderno B, e repórter do caderno B era alguém que sabia escrever, que tinha chegado lá. Então, estava toda toda, me achando uma grande escritora. E um dia, fiz uma reportagem enorme, e digo: “Milorzinho, você gostou?”, “Gostei”. Mas não era um “GOSTEI!”. Então, ele disse: “Bom, você quer que eu te diga o que eu achei?”. E eu disse: “Quero”. E ele: “Então, sente aqui”. Então, ele começou: “Aqui, quando você escreveu ‘alvo’, você quis dizer ‘branco’, use a palavra mais simples, mais direta, isso é preciosismo. Esse artigo corta, essa frase inverte, não sei o que”, foi um arraso. Terminou e eu estava aos prantos, confesso. Eu disse: “Gente, eu só sirvo para ser secretária executiva do Banco do Brasil, vou largar o jornalismo”. E ele disse: “Não, em comparação com o que está no resto do jornal, está muito bom. Mas você disse para eu te dizer o que achei”. Então, escrevi uma outra reportagem logo em seguida, aí ficou aquele fantasma do Millôr na minha cabeça, foi o texto mais difícil que eu escrevi na vida. Aí ele disse: “Aha! Está melhorando”. E até hoje eu escrevo para ele. Porque a gente sempre escreve para um leitor preferencial, e eu sempre escrevo para o Millor, porque eu penso: “Tem um artigo a mais; não, essa palavra está muito pernóstica”. Às vezes, olho para o meu texto e digo: “gente, acho que estou com o vocabulário reduzido demais”. Porque acabo optando pela forma mais simples de escrever a frase para ter uma comunicação mais direta, e acredito piamente nisso. Às vezes eu digo: “Tenho que usar uma frase mais complicada, ou vão achar que eu nem tenho vocabulário”.

Mas a coloquialidade também é uma marca do seu texto...

Sempre foi. Sempre escrevi de uma forma muito coloquial e tive muita dificuldade em escrever textos impessoais, aquele texto com lead, sublead, aquilo para mim é mais difícil de fazer do que o texto coloquial. Porque sempre escrevi crônicas, ao longo da vida inteira eu estive em uma área. A área de cultura é mais solta mesmo e eu tenho uma dificuldade em escrever sem dar minha opinião sobre o assunto. Acho que o distanciamento... Eu sou capaz de escrever um texto impessoal, mas acho que falta alguma coisa, acho que eu conseguiria fazer melhor que aquilo. Sempre acho que a conversa é mais divertida do que o relato. Em outras palavras, nunca fui repórter. Eis a questão. E a coisa curiosa é que eu tenho uma filha que é absolutamente repórter, ela é produtora do Jornal Hoje, e era do Fantástico, e tudo que ela quer são os fatos, ela é incapaz de escrever um texto em primeira pessoa, o negócio dela é o relato. É uma coisa muito gozada, eu percebo que são personalidades diferentes, são estados de espírito diferentes que a gente tem para exercer as várias funções de um jornal.

Só essa filha seguiu o jornalismo?

O meu filho seguiu o computador. Eu influenciei meus dois filhos [risos]. E eu devo dizer que ele foi mais esperto, porque meu filho está muito bem de vida. Foi para os EUA, tem uma empresa de software, emprega 30 pessoas só aqui no Brasil, e mais não sei quantas lá em Sri Lanka, na Índia... Sabe qual é o negócio? Eu fico dizendo, descobri muito cedo a tecnologia. E, naquela época, tive amigos que descobriram também e olharam para aquilo e disseram: “Nossa, eu tenho que ganhar dinheiro com isso”. E eu olhei e disse: “Nossa, eu tenho que escrever sobre isso”. Os que foram ganhar dinheiro continuam ganhando dinheiro e eu continuo escrevendo, quer dizer, cada um erra em algum lugar. Se eu tivesse comprado ações da Apple, você imagina...

A gente estava falando de ler, ouvir música, no ônibus, tirar foto com celular, você acha que o futuro é esse, de aglutinar tudo em um lugar só?

Acho. Aglutinar tudo em certa medida. O celular nunca vai substituir uma Nikon, com suas lentes e tal. Mas ele vai substituir as câmeras compactas, com certeza. Acho que a gente está vendo as últimas câmeras compactas. Eu acho até que, tirando meia dúzia de pessoas mega aficionadas por som, para a maioria das pessoas, o toque do CD, o troço vai morrer, você vai ter uma coisa feito a que eu tenho ali, da Bose, que eu boto o meu Ipod. Agora, televisão e computador, por exemplo, que convergem em muitos pontos e, até tem uma televisão que está se tornando interativa e tudo, eu acho que esses dois aparelhos nunca vão convergir completamente. Sempre vai ter alguma coisa como computador e alguma coisa como uma televisão. Porque as experiências são diferentes, e a postura da gente é diferente em frente a cada um. Quando você está vendo televisão você está em geral com seus amigos ou com sua família e você está jogado no sofá, ou deitado no chão... O computador é uma experiência individual, você ou está trabalhando ou conversando com seus amigos e você não quer nem ninguém olhando. É uma experiência individual ao extremo. E sua postura em frente ao computador é uma postura de trabalho também, você está sentado em outro tipo de cadeira, com uma posição completamente diferente e tudo isso condiciona a forma como você pensa e coisa e tal. Não acho impossível que amanhã você esteja na televisão e tenha um teclado ou um tablet e, se você precisar do endereço de um restaurante, vai ver [no tablet]. Mas eles nunca vão exercer as mesmas funções, vai ser uma coisa a mais, uma capacidade de interatividade, mas vão ser sempre dois instrumentos diferentes.

E o futuro do jornalismo?

Eu acho que o jornalismo continua como sempre foi. O jornalismo sempre abraçou as novas mídias. Quando começa a rádio, por exemplo, tem uma coisa que toca música, que dá notícia, tem um radiojornalismo ali. Quando aparece a televisão, tem aquela coisa de teatro, mas logo aparece o noticiário na televisão. Os jornais hoje estão todos na internet. Os jornalistas estão fazendo uso das mídias sociais, da internet. Agora mesmo, eu escrevi uma matéria, estou só esperando que os caras me mandem a foto, dois jornalistas do Financial Times em Bombaim estão escrevendo uma matéria no Facebook. Não estão usando o Facebook para fazer perguntas, mas estão escrevendo a matéria. Então, é uma experiência muito interessante, de um grande jornal abraçar a mídia social. Acho que o grande jornalista vai trabalhar assim, mais afinado com o leitor, porque o leitor, antigamente, era uma coisa que só chegava na redação por carta. Hoje, o leitor está praticamente dentro da redação. Ele ajuda a escrever e também está pautando a gente. Você vê toda essa série aí do jornal, o leitor está pautando a gente: “Olha, isso aconteceu aqui” e você está indo lá. A apuração é do jornalista, tem coisas que eu acho que vão ser o forte dos jornais. O jornal muda de acordo com o tempo. No dia seguinte da morte do Kirchner, a capa de O Globo estava: “E agora, Argentina?”. Isso é influência direta da internet. Eles partem do pressuposto que o leitor sabe que o Kirchner morreu. Há alguns anos, a manchete teria sido: “Morre Kirchner”, “Enfarto mata Kirch