CECÍLIA COSTA
PERFIL

Maria Cecilia Barata Costa Junqueira, escritora e jornalista, nasceu no Rio de Janeiro em 31 de março de 1952. Estudou no Instituto de Educação e no Colégio Pedro II. Formada em História na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e em Literatura na Universidade Federal do Rio de Janeiro, é mestre em Literatura Brasileira pela UFRJ, com a dissertação “Viajando com Machado”, defendida em 2012.

Buscou inicialmente a História e a Literatura para tentar se diferenciar em uma família de jornalistas: o avô paterno foi Odylo Costa e o materno, Hamilton Barata; é filha de Álvaro Costa; sobrinha de Odylo Costa, filho; e irmã de Álvaro Filho, o Varô, especialista em automobilismo, e de Octávio Costa, ex-diretor da IstoÉ/Editora Três em Brasília e diretor do jornal Brasil Econômico.

Mas não conseguiu evitar: a partir de 1974, então com 22 anos, Cecilia iniciou uma trajetória de 28 anos em redações, 22 deles no jornalismo econômico, com passagens por Jornal do Brasil, Revista Bolsa, Gazeta Mercantil e O Globo, onde atuou por 21 anos, 15 deles na editoria de Economia, como repórter, subeditora e editora-adjunta.

Em 1998, uniu finalmente a sua formação acadêmica e o prazer de leitora contumaz da juventude com o fazer jornalístico, ao assumir o então recém-lançado suplemento literário Prosa & Verso, que editou durante seis anos, até 2004, ano em que deixou a redação para investir na carreira de escritora – no ano anterior havia lançado o primeiro romance, Damas de Copas, em que retoma acontecimentos de sua juventude, a história da “casa das mulheres” em que morou em Ipanema, na década de 1980.

Em 2000, já havia publicado, na Coleção Perfis do Rio, da editora Relume Dumará, o perfil biográfico Odylo, um homem com uma casa no coração, perfil de Odylo Costa, filho, jornalista, cronista e poeta, seu tio, que fora o mentor da reforma gráfica do Jornal do Brasil, nos anos 1950. Julia e o mago, o segundo romance, semiautobiográfico como o primeiro, mistura a história de sua família com influências diretas de Thomas Mann. Em 2008, tornou-se editora-assistente da Revista do Livro, retomada pela Biblioteca Nacional.

De volta à pesquisa jornalística, lançou em 2012, após dois anos de pesquisas, Diário Carioca — O jornal que mudou a imprensa brasileira, pela Biblioteca Nacional. O livro recupera a história do veículo que circulou de 1928 a 1965 e teve entre seus colaboradores nomes como Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Paulo Mendes Campos, Francisco Pereira da Silva, Carlos Castello Branco, Jacinto de Thormes, Sábato Magaldi, Antonio Bento, Thiago de Mello, Nelson Pereira dos Santos, Nelson Rodrigues, Sérgio Porto, Hélio Fernandes. Atuaram no DC jornalistas como José Eduardo de Macedo Soares, Danton Jobim, Pedro Dantas (pseudônimo de Prudente de Morais, neto), Pompeu de Souza, Luiz Paulistano, Carlos Castello Branco, Armando Nogueira, Ferreira Gullar, Ana Arruda Callado, José Ramos Tinhorão e Janio de Freitas, alguns dos quais participariam, em seguida, da histórica reforma do Jornal do Brasil.

Cecilia é também autora do conto O sétimo mês, na coletânea 25 Mulheres Que Estão Fazendo A Nova Literatura Brasileira, editados pela Record, de um conto infantil, A princesa da pedra da lua, e organizou a coletânea As melhores crônicas de Odylo Costa, filho.

Atualmente, trabalha na Associação Brasileira de Imprensa (ABI), onde chegou a ministrar aulas de jornalismo cultural, e é vice-presidente do Pen Clube do Brasil. Casada com o poeta Ivan Junqueira, membro da Academia Brasileira de Letras, tem um filho. Sua citação favorita é “A palavra salva”.

ENTREVISTA

Entrevista com Cecilia Costa

Realizada por Igor Waltz, Mariana Brugger, Rachel Rimas e Tatiane Costa

Revisada e editada por Itala Maduell

Data: 11/2007

Você é formada em Literatura e História. Como foi sua transição para o jornalismo?

Eu acho que passei por aquela crise de todo adolescente quando entra para a faculdade, tem muita dúvida em relação ao que quer seguir. Principalmente quem é ligado às Ciências Humanas, às Ciências Sociais. Você não sabe se você quer filosofia. Mas, na minha época pelo menos, filosofia era uma opção que não existia. Porque eu nasci em 1952, então, quando eu tinha 17 e 18 anos estava em 1969/1970, que foi o pior período da ditadura, depois do AI-5, no final de 1968. No período de 1964 a 1968, por exemplo, quando ocorreu a Revolta dos Marujos de 1964, do Jango, alguns marujos sofreram um processo normal, mas não foram presos. O processo ocorreu com advogado defendendo. Depois é que alguns foram presos. Agora 1969, 1968, aquela época do Costa e Silva e do Médici, foram anos de chumbo mesmo no Brasil, e a tortura era da pesada. Então, eu entrei para a faculdade, seja a de Literatura, depois a de História, numa época negra, com medo. As pessoas tinham medo na faculdade. Na Literatura, tem até histórias assim... Eu gostava muito de grego, eu era boa em grego, já tinha feito no Pedro II...

Você estudou no Colégio Pedro II?

Sim. Eu fiz Instituto de Educação. Minhas irmãs mais velhas tinham sido professoras. Eu tinha passado para o Colégio de Aplicação, o Instituto de Educação e o Colégio Pedro II, e eu escolhi o Instituto porque minhas irmãs tinham sido professoras. Uma depois tinha largado para fazer Engenharia, e a outra, Psicologia. Então, no ginásio, eu já notei que não valia a pena ser professora, naquela ocasião. Hoje, eu gosto muito da ideia de dar aula, e acho que o Brasil precisa de professores. Mas, naquela ocasião, ser professora primária, aquele lado romântico da professora primária que tinha na classe média, quando foi o período áureo do Instituto de Educação, tinha acabado. Então, eu falei: “Não vou ser isso. Quero fazer uma universidade. Não vou fazer a parte final do Instituto de Educação. Eu vou procurar fazer um clássico”. Tentei recuperar, então, a admissão do Pedro II ou do Colégio de Aplicação. Consegui isso no Pedro II, levando em conta o concurso de admissão e a nota de admissão. Primeiro, me botaram no Humaitá. Eu tinha que acordar às 6h da manhã. George Vidor foi dali. Sabia que George Vidor fez jornalzinho no Pedro II do Humaitá? No Pedro II já tinha grego no clássico e, quando eu fui para a Literatura, também tinha grego. Pensava até em estudar grego ou talvez me especializar em grego, mas a professora de Literatura era dedo-duro. Tinha aquele ambiente mesmo de terror, acabou que eu não estudei grego por causa disso, que é uma coisa que até hoje eu tenho pena. Devia ter deixado para lá, devia ter feito depois um mestrado em grego ou alguma coisa assim. Quando eu entrei na Literatura, era o auge do estruturalismo, de Roland Barthes, de Todorov, aquelas coisas. Mas eles pegavam e liam uma página, e você tinha que aplicar nos livros, aplicar num Balzac ou num Proust. E eu era contra isso. Eu tinha uma coisa que eu achava que a gente lia e, ao ler, a gente tinha quase que uma aproximação impressionista, que chama para o sensorial. Eu não queria fazer uma análise sintática, morfológica, semântica de cada livro que eu lia. Eu queria escrever o meu sentimento, o impacto que eu tinha em relação ao livro. Uma coisa que depois eu fui fazer muito no Prosa & Verso. Era proibido também estudar biografia, nesse período, que era o início do estruturalismo aqui: Saussure e coisa e tal. Na Faculdade de Letras, não poderia estudar biografia de escritor. E eu sempre achei que biografia é importante para você entender um pouco mais um Balzac, um Graciliano Ramos, um Guimarães Rosa. Apesar de a obra ser a obra e o homem ser o homem, se lia um pouco o que foi o pai, o que foi a mãe, onde estudou, como é que foi a formação, quais foram as experiências amorosas, como foi o primeiro amor ou o primeiro casamento, o que aconteceu depois. Então, eu gostava de biografia e, nessa hora, a escola dizia que não podia estudar biografia. Eu pensei: “Se eu não posso fazer nada na literatura, então, eu vou para a história. Se é para ser científica, eu prefiro ser científica com a história a ser com a literatura”. A Literatura era até mais rica, porque tinha a Heloisa Buarque de Hollanda, que era da UFRJ [Universidade Federal do Rio de Janeiro], tinha a Marlene Correia, que fez um trabalho muito grande sobre Carlos Drummond de Andrade, tinha bons professores, apesar do terror da ditadura. Fiz outro vestibular e passei para História na Uerj [Universidade do Estado do Rio de Janeiro]. Como a História era bem social e, geralmente, as pessoas eram de esquerda mesmo, eram mais envolvidas com o marxismo, me parecia que os professores tinham sido ceifados. Não existiam. Só tinha ficado certa corja. Era quase que um colaboracionismo. Também foi uma decepção. E aconteceu que minha família era toda de jornalistas. Meu irmão era jornalista, meu pai era jornalista, meu avô era jornalista, meu tio era jornalista. Meu irmão, nas férias da literatura e da história, perguntou: “Você não quer trabalhar em jornal? Pegar só nas férias e fazer um trabalho em jornal?”. Era no Jornal do Brasil, que ficava ainda na Rua Rio Branco. Isso foi em 1972, eu tinha 20 anos. Ele disse: “Você vai lá nos ajudar, ser a secretária da revista econômica”. A revista era com o Aluizio Maranhão, que hoje está em O Globo. Tinha José Cunha do Porto, Altamir Tojal. Eu fui, e fui uma péssima secretária de revista econômica. Eu sou uma grande leitora de romances e, hoje em dia, eu escrevo romances, escrevo contos, mas não sou organizada. Então, uma secretária tem que ser uma artista. Eu brinco até com o Altamir Tojal, que hoje é meu amigo e fez um romance no qual até colocou o nome de uma personagem de Cecília, porque um dia, o Altamir gritou comigo porque eu perdi um papel, alguma coisa, um questionário que ele ia levar para a Globo para uns empresários. Ele voltou e discutiu, falou palavrões e eu chorei. Hoje, quando ele me pede auxílio na literatura, eu falo: “Lembra daquele dia que eu perdi o seu papel e que você ficou muito nervoso?” Aconteceu uma coisa par hasard, foi um acaso. Depois, eu voltei para a faculdade de Literatura e para a de História. No caso, o Aluizio Maranhão – que foi da IstoÉ, de O Estado de S. Paulo e que, hoje, é chefe dos editorialistas de O Globo – estava no JB nessa ocasião, no JB ainda velho, de 1972, no velho prédio. Quando ele soube que, depois dessas férias como secretária da revista econômica, eu não ia continuar, ele até ofereceu para me colocar numa vaga para eu cobrir open market, porque ele queria que eu continuasse. Eu pensei: “Open market? Eu, estudante de história e de literatura? Open market?”. Era uma coisa muito distante da minha realidade.

Ele a convidou para continuar como secretária?

Não. Não era nem estágio. Ele ia me deixar começar a trabalhar. Inicialmente, ia me dar alguns trabalhos, mas no mercado financeiro. Porque eu estava como secretária da revista de economia, eu estava na editoria de Economia. Eu falei: “Não, imagina, open market”. Eu não esqueço o que o Maranhão falou para mim: “Olha, é agora. Você tem que começar agora. Nada de voltar para a universidade. A idade para começar em jornal é 20 anos. Já até passou”. Eu respondi: “Não, eu vou voltar para a faculdade. Eu ainda tenho condição, eu quero voltar para a faculdade. Eu quero ainda estudar”. E brigamos por causa disso. Por uma coisa assim. Ele falou: “Então, desiste de ser jornalista”. Eu nem tinha pensado em ser jornalista. Eu nem pensava em ser jornalista. Eu fiquei pensando: “Open market? Eu? E meus livros, meu Balzac, meu Proust, meu Guimarães Rosa?”. E voltei para a faculdade. Dois anos depois, muita coisa aconteceu na minha vida, muita coisa mesmo, um namoro, uma confusão, meu pai acabou me mandando para a Europa e coisa e tal. Quando eu voltei, em 1974/1975, o Noenio [Spinola] me liga e diz: “Cecília, minha mulher atual” – ele casou diversas vezes, jornalista tem dessas coisas –, “que trabalha na Revista Bolsa, da Bolsa de Valores do Rio de Janeiro” – ainda existia a Bolsa de Valores do Rio de Janeiro, agora, está tudo concentrado em São Paulo –, “está indo trabalhar no BNH [Banco Nacional de Habitação]” – que depois acabou também, a parte toda de financiamento imobiliário foi para a Caixa Econômica –, “você não quer pegar a vaga dela na Revista Bolsa?”. Ele insistia. Era sempre no mercado financeiro. Então, eu pensei: “De novo? Uma vaga na Revista Bolsa?”. Eu já estava acabando a faculdade, já estava mais para o final do curso de Literatura e de História. Estava no terceiro ou no quarto ano, já que tinha interrompido na hora em que eu viajei para a Europa. Nessa época, eu namorava um economista, um francês, Claude. E eu falei com ele: “Claude, eu não vou conseguir”. Ele disse “Eu vou te ajudar”. Como eu nunca tinha trabalhado em jornal, nem em revista, nem nada, eu escrevia na minha máquina meus contos e romances, meus poemas de amor, em vermelho. Eu gostava de botar o tipo vermelho. E escrevia totalmente sem paginação, sem nada. E era máquina, era lauda. Logo quando eu cheguei na Revista Bolsa, eu tive que fazer uma matéria sobre zinco, metais não ferrosos. Era sempre assim, dez páginas. Então, eu saí fazendo pesquisa e o Claude me ajudou. Escrevi em vermelho, sem margem nenhuma. O diagramador me chamou e falou: “Cecília, vermelho”, porque era a lauda que ia para a gráfica, “a gente não enxerga. Tem que ser preto mesmo. Dá para você colocar uma margem?” Enfim, eu tive que aprender jornalismo na raça. Eu sou famosa pelos meus atrasos, minha falta de horário. Um mês depois, eu tinha que entrevistar um homem sobre altos contadores da inflação, já era na época do Figueiredo, e chegou a 3.000%. Então era essa batalha do controle da inflação, até que vieram os planos de estabilização todos: Plano Cruzado, Plano Collor, Plano Bresser, até chegar ao plano que deu certo, que foi o Plano Real. Eu fui entrevistar. Cheguei com uma hora de atraso. Um homem saiu de uma reunião, me entregou um papelzinho que tinha cinco linhas. Eu tinha que escrever dez laudas sobre inflação. Olhei aquilo e falei: “Eu?!?”. Eu estava começando. Hoje, se me dão cinco linhas talvez eu chegue a umas cinco laudas com a minha imaginação, mas naquele tempo eu li, li e fiquei chorando. Então, eu encontrei o meu irmão. Ele, jornalista, já estava no jornal há uns três, quatro anos, me falou: “Você o quê? Chegou atrasada uma hora? Eu nunca vi isso. Agora, você vai ligar para outro economista”. Ele me deu o telefone do Roberto Campos. “Você vai ligar para o Campos”. Eu não conseguia, eu chorava. Eu tive alguns professores no jornalismo. Um deles foi meu irmão. Ele falou assim: “Se você não pegar esse telefone e ligar, agora, para o Roberto Campos, você vai para um tanque. Vai lavar roupa! Casa com um comerciante. Tenha dez filhos e nunca mais pense em trabalhar em jornalismo”. Diante da perspectiva de casar com um comerciante e ter dez filhos, eu preferi ligar para o Roberto Campos, que me deu uma aula sobre economia. Cheguei no horário, obviamente. Ele ficou duas horas me descrevendo toda a economia e o mercado financeiro. Foi uma das primeiras pessoas que me deram aula, pois vários outros me deram aula depois. Com as duas horas, eu escrevi vinte laudas. Eu pude redigir uma matéria enorme com a ajuda dele. Então, o começo foi assim, todo errado.

Nessa época em que você trabalhou na Revista Bolsa, você já estava decidida a trabalhar com jornalismo ou você tinha esperança de voltar para a história e para a literatura?

Não, não, já tinha decidido. E também tinha outra coisa: era a Revista Bolsa, da Bolsa de Valores do Rio de Janeiro, onde, depois, aconteceu todo o processo de privatização do governo Fernando Henrique Cardoso. Era uma revista benfeitinha, bonitinha. Então, pagavam bem. E eu começando, não tinha feito a faculdade. Eu fiquei um pouco presa, porque me pagavam descentemente, porque era editoria de economia. Numa época em que os problemas econômicos estavam todos no auge, a área de economia estava cada vez mais forte. Na época em que eu fui para o JB, em 1972, eu tinha ficado mais ou menos dos 11 anos aos 20 anos lendo. Eu estudava e lia. E lia vorazmente. Quando eu gostava de um autor, eu ficava lendo. Então eu não lia jornal, nem revista. Meu irmão é que lia jornal e revista, não lia livro. Meu irmão, que hoje em dia é diretor da IstoÉ Dinheiro em Brasília, não lia livro nenhum, não lia romance, ele lia revista e jornal, uns quatro, cinco jornais por dia. Eu só lia romances. Eu não sou nem da poesia, sou mais do romance mesmo, de soltar a imaginação com heroínas, heróis. Desde mitologia grega, Sartre, García Márquez e todos os nossos autores também. Então, era literatura. Quando eu entrei na economia, ali naquela época com o Maranhão, eu notei que eu não sabia nada da realidade. Eu não sabia o que era uma letra de câmbio, dívida pública, dívida externa, orçamento, conta corrente, conta de capital, o que acontecia na África. A globalização ainda não estava tão fechada. Eu fiz um caderno sobre globalização, quando a gente começou a sentir mesmo, ainda na economia de O Globo. Na época, tinha o telex, que trazia aquela notícia toda. Deus me livre! Me deu uma tonteira de tanta informação. Eu conhecia a literatura, os autores russos, eu já tinha lido tudo, mas o dia a dia... Eu levei um choque! Eu pensei: “Eu preciso aprender isso também! Senão eu nunca vou poder ser jornalista”.

A economia foi uma escola então?

Ela mostrou a minha ignorância. Aos 19, 20 anos, com tudo o que eu já tinha lido, eu me achava onisciente. Eu achava que sabia mais que a minha professora de literatura, que só tinha lido dois livros de Balzac, e eu já tinha lido a obra inteira. Então, eu achava que sabia tudo na faculdade de Literatura. Quando eu cheguei na economia, eu vi que eu não sabia nada do presente. Eu era mais voltada para o passado, para o século XIX. Eu estava parada no século XIX.

Depois, você começou a gostar de economia?

Essa minha curiosidade me fez ficar presa a economia por 22 anos. Eu fui repórter de economia, fui da Revista Bolsa, depois fui para O Globo, sai de lá e voltei para a Revista Bolsa. Eles não podiam me contratar porque a legislação já exigia a faculdade de jornalismo. Eu trabalhei cinco anos sem carteira assinada. Em O Globo, fiquei três anos sem carteira assinada. A Revista Bolsa não ligava tanto em me contratar, mas O Globo ficou três anos sem pagar o FGTS, sem nada, porque eu não tinha o registro. Então, eu juntei cinco anos de trabalho, levei no sindicato e eles me deram o registro. Você perguntou sobre economia. Eu não sabia nada. Eu não era economista, nunca me formei em economia. São poucos os jornalistas que são economistas, que fizeram faculdade de economia e, depois, de comunicação. George Vidor é um deles. Talvez a Miriam Leitão também seja, talvez não. Talvez toda a formação dela tenha sido mesmo a prática de jornalista, de aprender com os economistas. Então, eu tinha muito o que aprender, para eu ser capaz de chegar para o Pedro Malan e criticar o que ele estava me dizendo. Levei muitos anos aprendendo até ter segurança para ser repórter, subeditora e editora adjunta. Só nunca fui editora de Economia. Fui editora na Gazeta, mas era editora do Rio de Janeiro. Era editora de mercado financeiro, porque eles achavam que eu era meio maluca. Ainda sou. Mas agora estou fora. Estou na ABI [Associação Brasileira de Imprensa]. Eu fui, por exemplo, contra a privatização da Vale do Rio Doce. Eu estava em O Globo e, naquela época, eu era ou editora adjunta ou subeditora. Teve uma reunião com o Roberto Marinho, com o primo dele que era diretor e que se sentou na minha mesa, e eu falei que era contra. A privatização ia correr dali a dois meses, já tinha muita manifestação na rua. Ele perguntou por quê. Eu falei: “Sou contra, porque eu acho que vocês deviam fazer uma joint venture. Vocês podiam até abrir contratos”, como depois a Petrobras veio a fazer, “nós não conhecemos o solo brasileiro todo. Você não sabe quanto tem de minério, de ouro, de diamante. E a gente vai pegar e privatizar isso? Poderia deixar explorar em conjunto. Deixava o setor privado entrar junto, mas não entregava a riqueza brasileira toda assim, sem ter noção direito do que existe”. Me falaram depois: “Você é maluca! Como você diz para o diretor de O Globo que você é contra a privatização?”. Essas coisas me impediram de ser editora. Tem que ficar de boca calada. Eu nunca consegui muito ficar de boca calada. Se vocês quiserem se dar bem na profissão, calem a boca. Briguem na rua, mas calem a boca dentro do jornal, da empresa, da assessoria.

Sua formação em literatura e em história a ajudou de alguma forma no jornalismo econômico? E na sua carreira jornalística depois que você saiu da economia?

A história sempre ajudou. O que um jornalista faz? Um jornalista conta histórias todo dia. Depois, tem o new journalism, que tem o lead, sublead, mas que não voltou ao nariz-de-cera do passado, e você tem uma matéria mais autoral. Não se está mais tão preso àquela objetividade científica do jornalismo dos anos 1950, que saiu do jornalismo romântico do passado e criou um novo texto. A reforma jornalística no Brasil tem a ver com Prudente de Morais Neto e Luiz Paulistano, no Diário Carioca, e depois com Odylo Costa, filho, Janio de Freitas, Carlos Lemos, no Jornal do Brasil. Você sai daquela linguagem totalmente romântica, prolixa, do jornalismo do Império, do jornalismo do início do século XX, para um jornalismo dos anos 1950. O que ajudou muito essa secura, essa notícia seca, de certa forma, foi a Guerra de 1940/1945. Quando a FEB [Força Expedicionária Brasileira] foi, quando os nossos soldados foram guerrear, era muita notícia, e eles tinham que secar, enxugar as notícias e ser objetivos. Na própria Europa e nos Estados Unidos, mudou a concepção do jornalismo. Mas, hoje em dia, a tendência é voltar um pouco a ser mais autoral e não tão científico. Mas, de qualquer maneira, você fica com uma linguagem, o lead e o sublead, aquelas cinco questões que você responde no lead. E depois o sublead, que dizem que foi uma criação nossa, brasileira, a explicação do “como”, que seria uma questão nova. Seja o científico, seja o prolixo, você está contando histórias. É a literatura e a história, tudo junto. O que faz um jornalista investigativo? Ele faz uma pesquisa sobre o presente, contando o presente, de repente um pouco do passado. O que faz um historiador que vai escrever sobre Pedro I ou Pedro II? Ele faz uma pesquisa. Ele vai no Arquivo Nacional ou no Instituto Histórico e Geográfico. Nós somos pesquisadores ou do passado ou do presente. O jornalista é um pesquisador do presente. A História tem informações para contar uma história para o leitor. Nós jornalistas também somos contadores de história. A minha formação não me atrapalhou em nada, até ajudou com textos, ao longo da experiência, quando eu perdi o medo, a insegurança de ser jornalista, o texto pode ficar mais saboroso, porque eu tenho essa formação literária toda, o texto pode ficar mais rico por conta dos livros que eu li. Eu acho que tudo caminha junto: história, literatura e jornalismo. Você vai é definir, porque o jornalismo atrapalha a ser um escritor, um romancista, um contista. Ele também tem um imediatismo que o historiador, para fazer uma pesquisa, vai levar muito mais tempo, três, quatro, cinco anos. Então você não tem esse tempo para uma pesquisa jornalística. Você tem só um dia para procurar, só um dia para contar uma história. Vão lhe dar uma pauta, então seu trabalho tem que ser muito rápido. O trabalho do historiador é mais lento. Enquanto o contar história de um escritor, de um contista é mais rico em termos da linguagem, uma linguagem artística que não vai caber em um jornal. Eu acho que tudo ajuda. Um ajuda o outro.

Atualmente, está voltando a tendência de demonstrar um pouco mais a opinião. Você acha que isso possibilitou a volta de um jornalismo mais literário?

No dia a dia, não há como fugir de uma objetividade. Infelizmente, vocês mais jovens estão num momento em que a possibilidade de trabalhar em jornal de verdade, eu digo, papel, ou até mesmo em um site, é cada vez menor, principalmente no Rio de Janeiro. Você tem a possibilidade das outras mídias, mas o sonho de trabalhar em jornal, que foi o início da história da imprensa, para vocês jovens está ficando cada vez mais difícil. Temos no Rio um número enorme de faculdades de Comunicação, e todos que se formam vão querer disputar uma vaga no Globo. O grande jornal no Rio hoje é O Globo. Tem O Dia também, que hoje está mais fraco, com uma tiragem de 40/50 mil, ou o JB, que também não vai muito bem. Enquanto isso, na década de 1950, havia 30 jornais no Rio de Janeiro. Faltam jornais aqui no Rio. Ainda que fossem jornais empresariais, ou até culturais, para se poder exercitar o “jornalismo antigo”. Hoje em dia, quem se forma tem que se preparar para realizar trabalhos na área de on-line, ou na área de televisão, que, apesar de ser pequena, há pelo menos uma concorrência maior do que o jornal de papel no Rio. Aqui no nosso estado, a única voz que é ouvida é O Globo, pois já não há mais a força do JB. Quando eu era mais nova, havia O Jornal do Brasil e O Globo, além de outros, como o Diário de Notícias. As pessoas que eram contra o governo, por exemplo, na época da ditadura, eram leais ao JB. E isso se manteve como uma marca do JB durante muito tempo. Havia suspeitas de que Roberto Marinho teria feito o acordo Time-Life, dos EUA, enquanto o JB era tido como independente. Portanto, havia dois jornais fortes aqui, assim como temos a Folha e o Estado em São Paulo. Agora temos apenas um jornal, apenas uma voz. É um monopólio da palavra. Apesar de O Globo, no qual eu trabalhei por 21 anos, ser um jornal muito benfeito graficamente, o momento de jornalismo que a gente está vivendo no Rio é triste, por haver apenas um jornal forte. É triste para as novas gerações que estão se formando. É ruim para o mercado de trabalho e para a capacidade crítica também, pois não há com o que comparar.

Como você vê esta crise do Jornal do Brasil?

Eu realizei uma pesquisa sobre o Diário Carioca, para a produção de um livro que ainda vai ser editado, e levantou-se esta questão. O que aconteceu na década de 1950 que houve uma redução tão drástica no número de jornais? Era uma questão que todo jornalista procurava responder. Mas na verdade isso aconteceu porque houve uma maior administração empresarial das empresas jornalísticas. Antes, na época de Assis Chateaubriand, dos Diários Associados, não havia um compromisso de pagar em dia o salário dos jornalistas. Houve um caso em que Chateaubriand vai ao caixa para tirar o dinheiro para pagar os jornalistas, e acaba gastando tudo em uma joia para sua amante, deixando todos sem pagamento. Outro caso, o dono do Diário Carioca, Horácio de Carvalho Junior, que foi casado com dona Lily [de Carvalho Marinho], era conhecido por ser dono de fazendas, cavalos, mas várias vezes não pagava os jornalistas. Ele vivia uma vida muito confortável, hospedando-se num dos hotéis mais luxuosos de Paris. Havia casos de jornalistas que batiam na porta de seu quarto em Paris para pedir o salário, e ele tirava do bolso o pagamento, enquanto a maior parte aqui no Rio ficava sem pagamento. Depois desta época, houve uma maior profissionalização, em que o dono administra o jornal tal qual uma empresa. Ocorreu uma passagem do jornal romântico, do jornalista que não era pago, com o dono com dívidas e dependente do governo para importação de papel, para uma empresa mais lucrativa. E nesta passagem os pequeninos desapareceram, permanecendo apenas os jornais grandes. O Globo, entre outros, conseguiu realizar bem esta passagem, porque soube dar “um pulo” para a formação de um empresário de jornalismo. Não mais o dono que encarava seu jornal meramente como mais um de seus negócios, ou como um meio de ganhar mais visibilidade política. O jornal deixa de ser apenas mais um braço político do dono para pressionar o governo. Nesta passagem o JB não foi tão bem-sucedido, pois Nascimento Brito manteve a mesma postura perdulária, não se preocupando em reinvestir o dinheiro que ganhava em seu jornal. Levava uma vida luxuosa. Não se preocupava em fortalecê-lo empresarialmente. Nascimento Brito não teve a mesma visão empresarial que Roberto Marinho teve. Apesar de tudo, não se pode criticar Roberto Marinho como empresário. Ele era um empresário de visão, enquanto Nascimento viveu um “vidão” que Marinho só foi se permitir mais ao final da vida. Além do mais, os filhos de Nascimento Brito brigaram entre si sem parar, dividindo a empresa, enquanto Roberto Marinho ensinou aos seus filhos que eles tinham que se entender de qualquer maneira, pois, caso eles não se entendessem, e rachassem a empresa entre si, a empresa teria ido “para o espaço”. A marca do JB está se acabando. O que o novo dono do jornal está fazendo é acabando de matá-lo, está enterrando-o. Só o verdadeiro empresário consegue sobreviver com uma cadeia jornalística, e isto requer muito capital. Uma coisa pequena e romântica não sobrevive. O que é triste, porque no fim das contas sobram apenas alguns poucos poderosos, e não sobra espaço para um jornalista com uma visão mais apaixonada. Este não sobrevive nesta guerra de grandes conglomerados e multinacionais que a gente vê hoje com a globalização.

E quanto à reforma do JB, à mudança de formato?

O JB encolheu. Para mim ele está morto. Está dando os seus últimos suspiros. Ele não tem mais o peso de antes. O Globo poderia fazer o que quisesse, mas o Caderno B era quase que uma “leitura obrigatória”. Era obrigatório ler o Caderno Idéias. Havia um grupo de mulheres maravilhosas trabalhando no Caderno B, cobrindo a área de cultura, cinema etc. Hoje em dia você só tem a opção de ler o Segundo Caderno, o Prosa & Verso. Enquanto eu trabalhava no Globo, não conseguíamos derrubar o carisma que tinha o JB, de certa forma, pelo Globo ter compactuado com a ditadura e pelo JB ter formado uma resistência. Chegou um tempo em que O Globo, graças a sua força financeira, conseguiu ser mais crítico ao governo que o JB, mas mesmo assim conseguiu manter seu carisma graças à sua história do passado. Durante os seis anos em que trabalhei no Prosa & Verso, quem fazia o Caderno Idéias era Cristiane Costa. Nós do Globo tínhamos muito mais estrutura para fazer os cadernos, e o JB já estava decadente. Mesmo assim a Cristiane era uma concorrente séria, que me perturbava. Ela fazia um caderno bonito, com boas matérias. Muitas vezes ela conseguia ter ideias que eu não tinha tido, e eu ficava brava. Mas ela também ficava brava comigo por causa de algumas matérias minhas. Agora, tudo se acaba; o jornal encolhe. Acaba virando um tabloide. É diferente de lançar um tabloide novo na banca, ressuscitar um jornal no formato de tabloide. Quanto a isso, tudo bem. Mas um jornal que foi grande, que marcou com a reforma gráfica em 1958, que sempre foi considerado muito mais bonito esteticamente do que O Globo, e de repente encolhe, é um absurdo. Um jornal que teve em seu suplemento dominical Ferreira Gullar, Reynaldo Jardim, entre outros. Houve a morte do Jornal do Brasil. Ainda há amigos meus que trabalham lá, que vão ficar até o final. Talvez até por esperança de ressuscitar o jornal. O jornalista é um viciado. Eu também sou uma viciada em jornal, morro de saudade de trabalhar em jornal. E acaba que o patrão se faz por causa disso (risos). A gente acaba aceitando trabalhar por causa da paixão.

Como foi a sua passagem para o jornalismo literário, já que você ficou tantos anos trabalhando no econômico?

Após 22 anos em Economia, eu já me sentia mais segura, e acabava incomodando as pessoas que eu entrevistava. Eu já fazia perguntas que davam certo trabalho aos entrevistados. Eu também fui crescendo, assumindo cargos de direção. Já tinha saído da reportagem, estava só em edição. E eu não podia assumir a editoria no Globo, pois a competição era muito pesada. Eu nunca fui ambiciosa, nunca soube lidar muito com competição. Eu seria incapaz de ser desonesta com a pessoa por causa do salário, ou para ficar com a cadeira. Bem, chegou um momento que a minha posição como jornalista de economia tinha chegado ao limite. Eu sabia que não seria a editora de Economia. E, ao mesmo tempo, aconteceram alguns fatos que me reaproximaram do livro. Não era nem o fato de ser casada com um presidente da ABL [Academia Brasileira de Letras] e poeta [Ivan Junqueira], porque ele já me conheceu como jornalista de economia. É muito rude ser jornalista de economia, estar ajudando no orçamento da casa como jornalista de economia. Mas é que o livro era uma espécie de objeto mágico, por causa da relação da minha família com ele. Eu tinha medo de lidar com o livro. Já da economia não tinha nenhum medo, não tinha nenhum peso familiar. Então me mantive meio afastada do livro. Até que chegou uma hora em que comecei a ter vontade de escrever para o Segundo Caderno. Algumas coisas de arte, de livro... Por exemplo, eu era fascinada por uma escritora inglesa que usava o pseudônimo de George Eliot. Saiu um livro dela e o Segundo Caderno não deu matéria. Eu fui falar com eles e me sugeriram que eu escrevesse. E eu comecei a escrever um pouco para eles. Eu viajava, ia para a Europa e escrevia alguma coisa. Comecei a me aproximar um pouco do caderno, isso quando ainda estava na Economia. Aí houve uma reengenharia no jornal, achavam que todo mundo trabalhava pouco (risos). O Luciano [Trigo], que criou o Prosa & Verso, se demitiu. Então falei para o Ali Kamel: “Que tal me dar um livro de presente?” E o Ali sabia que eu gostava muito de livro, conversava muito sobre literatura comigo. E ele achou que eu podia fazer. Mas cheguei ali sem saber nada de como fazer um caderno literário. Aprendi na marra, como em economia. Isso foi em 1998. No mesmo momento, de 1998 para 99, me aconteceu outra coisa: o Luiz Garcia foi fazer um livro sobre meu tio Odylo Costa, filho e a reforma do Jornal do Brasil. E o Luiz Garcia não tinha tempo para isso, era editorialista do jornal e cuidava da parte de correção. Ele sugeriu que eu fizesse o livro. Na hora, achei que escrever um livro sobre meu tio seria algo muito próximo. E também eu já estava com 22, 24 anos de jornalismo, mas nunca tinha escrito um livro. E, como era sobre tio Odylo, parecia que ele estava me permitindo escrever um livro. Então, escrevi. Depois, por causa disso, me deu vontade de voltar a todos os meus escritos do passado. Peguei um texto que tinha escrito havia 20 anos, quando umas mulheres brigaram na casa em que eu morava. Uma delas veio pra cima de mim, e achou que ia me matar. E o que eu tinha começado a escrever tinha dado briga, porque coloquei as mulheres com filhos. E elas disseram: “Você foi dar filhos para a gente, você é maluca! Você se acha acima dos mortais!” [risos]. Era uma história mágica. Mas ficou engavetada. E aí, quando fui fazer o Prosa & Verso, eu tirei da gaveta e comecei a escrever mesmo. E aí deu origem ao romance Damas de Copas, que saiu em 2003. Então, além de escrever um livro de pesquisa jornalística, que foi a história do tio Odylo, também escrevi um romance. Fiquei tão acelerada que o jornal não gostou muito, não [risos]. Porque é difícil. Romance e jornal é sempre um choque, mesmo sendo um jornal literário. O jornal literário é escrever sobre o livro dos outros. Chegam a você 200 livros, é impossível ler e controlar aquilo tudo. Você vai ficando louco com aquilo, e vivendo só o livro dos outros. Eu queria escrever meus livros. E eu sabia que, se quisesse ter uma vida de escritora, eu não poderia estar no dia a dia do jornal. Houve toda uma situação em que acabei saindo do jornal. Eu achava que o caderno tinha que ser maior. O Caderno Mais! [da Folha] tem dez páginas, o caderno de cultura do Estadão tem 12. O Globo, com todo o seu poderio econômico, ter seis é ridículo. Há uma produção de livros no Brasil enorme e rica. Tem feiras de livros pipocando pelo Brasil todo. Tem um mercado editorial que gera R$ 2 bilhões de receita por ano. Então, você tinha que ter um caderno de livros mais forte no Globo, que é tão forte. E aí eu comecei a brigar por isso. Essa briga me exauriu um pouco e me deixou em dúvida se eu deveria continuar escrevendo sobre o livro dos outros. Eu queria fazer minha pesquisa sobre o Diário Carioca, queria escrever meus próprios romances... E eu sabia que, se ficasse na adrenalina permanente do jornal, para eu escrever meus romances ia ficar muito difícil. Não era impossível, mas ia demorar mais. E eu já estava acima dos 50 anos. Era uma coisa que eu ia ter que definir. De qualquer maneira, houve um grande problema lá. E eu fui muito agitada, muito rebelde. Havia coisas pequenas e coisas grandes... E tinha que ver, porque era produto global, eles apostam naquilo! Eu não via Big Brother, me recusava! Falava: “Leio um romance, mas não vejo Big Brother!”. Eu fui anárquica e rebelde. Comecei a fazer um mural na minha parede, botava Che Guevara... [risos] Minha rebeldia não deu, ficou incompatível. Nunca tive problema com João Roberto Marinho, é um empresário que admiro. Mas, na redação, minha rebeldia começou a ser um problema grande. Então acabou que saí. Tem três anos que eu saí. Acabei a pesquisa do Diário Carioca, mas não foi editada. Acabei um romance, que é autobiográfico, uma história do meu pai e outras coisas. Fiz um conto. Tenho vários contos, mas esse vai ser editado. E estou trabalhando em cima de um romance que se chama Apaixonada, que fala sobre a minha grande fraqueza, que é ser apaixonada por tudo. E ao mesmo tempo, imaginei hoje talvez numa novela que vai se chamar O Candidato. Eu conheço muito a carreira do candidato da ABL, por causa do meu marido [Ivan Junqueira, ex-presidente da ABL]. Eu sei como é a tortura, a ambição, o sonho e o papel das mulheres para ajudar ou atrapalhar. Como o meu Apaixonada está me dando um pouco de sofrimento, estou pensando em fazer também O Candidato.

Como foi sua ida para a ABI?

Eu fui chamada para dar aula de jornalismo cultural, pelo Maurício Azêdo e pela Gisele de Matos, e eu dei aula por seis meses. Aconteceu em um período em que eu ainda estava abalada por causa de minha saída do jornal. Eu saí do jornal em 2004 e fiquei dois anos fazendo a pesquisa sobre a história do Diário Carioca. Na verdade, ainda preciso pesquisar mais sobre a história do jornal. Tive que pensar em como dar aula para 20 alunos, mas foi muito legal. Eu ainda estava muito machucada devido à saída do jornal. Foi doloroso deixar o jornal depois de 22 anos. Eu sentia falta daquele ambiente, do fechamento do jornal, de ficar na redação até de madrugada. Aquilo era uma paixão para mim. Quando fui da área de economia foi uma paixão, e depois no Prosa & Verso, com meu encontro com a literatura. No curso de jornalismo cultural da ABI, a proposta era fazer um jornal. Nós fizemos a reunião de pauta e eu estava acostumada a fazer o jornal com toda a parafernália que tem em O Globo: um computador enorme, um diagramador do meu lado. No final consegui que me deixassem fazer um caderno de cultura da ABI, o ABI Cultural. Os alunos todos foram supercomprometidos: fizemos a reunião de pauta, eles trouxeram suas matérias. Mas tinham várias dificuldades: primeiro ter que usar o Pagemaker [programa de computador para fazer diagramação de páginas de jornal], e eu era totalmente dependente do Paulo [Paulo César, um dos organizadores do curso]. Me dava nervoso mexer no Pagemaker, porque eu não dominava o programa. O jornal ia ficar muito bonito, os alunos foram maravilhosos. O curso foi rico para mim e rico para eles. Mas o sonho de fazer o jornal eu não completei por trauma, maluquice, por esquizofrenia jornalística, porque eu decidi que teria uma matéria de capa sobre o Pan. Inicialmente a matéria de capa seria uma entrevista com o Ferreira Gullar. Botei na minha cabeça que tinha que ter uma matéria sobre o Pan. Eu pensei: “Aposto que o Pan tem um programa cultural (na época, estava acontecendo a Copa do Mundo na Alemanha, e vi que eles tinham um programa cultural). O Pan ia jogar o jornal para a frente, para o futuro, porque as matérias dos alunos eram sobre coisas que já tinham acontecido. Então eu resolvi que teria essa matéria sobre o Pan. Eu deleguei essa matéria para uma das alunas, que depois de tentar falar com Ministério da Cultura e com outras instituições não conseguiu obter informações necessárias. Logo, eu tive que entrar no circuito. Achei a mulher que estava fazendo o programa cultural, que era amiga de uma amiga minha. Mas ela ficou me enrolando até dezembro [o jornal estava sendo confeccionado em meados de julho]. Toda hora ela falava que estava fechando e que ia me passar, mas isso nunca acontecia. Mas eu estava com aquela ideia fixa do Pan na cabeça, porque com o Pan conseguiríamos anúncios e poderíamos financiar o jornal. Quando chegou janeiro, meu computador pifou, e todo o projeto do jornal estava nele. Fiquei de junho até janeiro com a ideia do Pan na cabeça, e no fim não aconteceu. Mas sabe o que foi tudo isso? Carência de jornal. Porque, se eu tivesse um jornal para sair em junho ou julho, e não tivesse Pan, não teria Pan. Eu não teria essa margem de espera. Eu estava com saudade do jornal, de mexer com jornal. Eu acho que ainda estava fraca emocionalmente para mexer com jornal de novo, e no fundo acho que eu emburaquei. Os alunos chegaram a brigar comigo por causa da ausência do jornal. Eu falei para eles que às vezes os sonhos não acontecem. Mas não é possível que eles tenham tido dois meses de aula e não tenham aprendido nada. Quando ainda estava no Globo, trabalhando no Prosa & Verso, pediram para eu fazer um caderno do ano 2000. Estávamos em dezembro e eu tinha que fazer um caderno que falasse sobre o que iria acontecer no ano 2000 na política, na economia, no esporte, no Rio de Janeiro. E também iria haver a comemoração dos 500 anos do Descobrimento do Brasil. Eu desenhei um caderno de oito páginas. O caderno iria ser rodado no Ano Novo. No dia 10 de novembro, fechei o caderno inteiro e entreguei. Então, com o caderno já pronto, Ali Kamel [editor-chefe] me chamou em sua sala e começou a gritar comigo e com a outra editora, porque, para fazer a matéria do Descobrimento, eu havia pedido ao [cientista político e historiador] José Murilo de Carvalho um artigo, e também pedi ao conde português Luiz Felipe. Ele elogiou todos os eventos que seriam realizados para comemorar o Descobrimento. Já o José Murilo dizia que os 500 anos do Descobrimento não eram nada, que o Brasil não havia sido descoberto e que já havia os indígenas aqui. Como a empresa estava superligada à comemoração dos 500 anos, quando o Ali Kamel viu o José Murilo criticando os 500 anos, derrubou o caderno inteiro. Depois eu fui falar com ele do trabalho de todas as pessoas que estavam envolvidas no projeto. Ali Kamel não queria que aquelas reportagens saíssem em um caderno especial, mais eu consegui com ele que saísse em forma de editorial. Eu acho que o jornal deveria ter mostrado a polêmica, porque ela aconteceu durante todo o ano. Mas ao mesmo tempo tivemos uma grande sorte: na parte internacional, o Trajano de Moraes havia feito uma matéria sobre as eleições na Rússia, e ele fez um perfil de cada candidato. Mas, em 31 de dezembro, Vladimir Putin deu o golpe e assumiu o governo na Rússia. Logo, nós iríamos entrar no primeiro dia de janeiro com uma matéria velha. Fomos salvos pelo gongo. Jornal é isso: alegrias e decepções.