CHICO OTÁVIO
PERFIL

Carioca, nascido em 1962, o jornalista Chico Otávio (Francisco Otávio Archila da Costa) trabalha desde 1997 na redação do jornal O Globo, onde já conquistou meia-dúzia de Prêmios Esso. Repórter da Editoria País, ele foi chamado para o jornal quando este buscava formar no Rio de Janeiro uma equipe para cobrir política nacional. Até então, a cobertura da área ficava restrita, sobretudo, aos profissionais que atuavam na sucursal de Brasília.

Enquanto assuntos que se referem à política do estado e da cidade do Rio de Janeiro costumam ser publicados na editoria Rio do Globo, as questões políticas de todo o restante do país, assim como urbanas de outras cidades são noticiadas na editoria País. Desse modo, sem precisar se prender à rotina local, e nem à agenda do Palácio do Planalto ou do Legislativo Federal, o jornalista tem a chance de poder viajar bastante – “meu negócio é estar por aí circulando”, diz ele –, o que facilita a produção de reportagens especiais.

Porém, Chico Otávio destaca que não tem cargo de “repórter especial”. “No jornal não tem nada a ver, cria ciumeira. Todo mundo tem condições de fazer reportagens especiais”, afirma o jornalista, que costuma trabalhar em equipe para aprofundar as apurações, muitas vezes em cooperação com colegas de outros estados. Reportagens sobre a história da ditadura militar; reportagens que comprovam corrupção em instituições como a Legião da Boa Vontade; a má-fé de juízes que julgam de acordo com interesses particulares; o ciclo da madeira na Amazônia, entre outros, estão entre os temas de grandes reportagens que já realizou, com ampla repercussão na sociedade.

O jornalista começou a realizar reportagens de perfil investigativo na Rio 92, a conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e Desenvolvimento. Na época, trabalhava na sucursal carioca do jornal Estado de S. Paulo e, junto com o jornalista Robson Pereira, apuraram o que acontecia além da agenda ambiental, dos preparativos da cidade e do esquema policial. “Nós conseguimos mostrar que, por trás da badalação, havia má-fé dos organizadores brasileiros, gastos irregulares, dinheiro desperdiçado, algumas situações realmente complicadas que nós mostramos na contramão da tendência que o noticiário seguia naquele momento.”

Outra fase importante de sua trajetória, antes do Estado de S. Paulo, foram os seis anos que passou na Última Hora, nos anos 1980, onde pôde conhecer profissionais históricos. Alguns dos veteranos com quem muito aprendeu foram Jorge Miranda Jordão e Milton Coelho da Graça. Segundo Otávio, a Última Hora, fundada nos anos 1950 por Samuel Wainer, foi sua grande escola de jornalismo. Lá, trabalhou em diferentes editorias, como a de polícia, esportes e de questões sindicais. “Era uma tradição da Última Hora cobrir essa área trabalhista”, lembra ele. “A Última Hora nasceu com esse propósito, muito sintonizada com a Era Vargas, com as prioridades do governo de Getúlio Vargas”.

Chico Otávio se formou em Jornalismo pelo Centro Unificado Posicional (CUP), que viria a se tornar a Faculdade da Cidade, depois UniverCidade, fechada recentemente. Tem pós-graduação em políticas públicas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A primeira experiência em jornalismo aconteceu por acaso – sua ideia inicial, ao ingressar no curso de Comunicação, era a de ser publicitário. No entanto, como trabalhava como artefinalista em um jornal de Jacarepaguá, onde ficava a CUP, acabou sendo chamado para participar da cobertura do carnaval na região. “Peguei o bloquinho e a caneta, nunca mais larguei.”

Hoje em dia, é ele próprio professor e já deu aulas no curso de jornalismo da Faculdade da Cidade e atualmente leciona na PUC-RJ. É um dos criadores e foi vice-presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji). Além da série de Prêmios Esso, ganhou muitos outros (alguns deles são: VI Edição do Prêmio AMB de Jornalismo, Prêmio Previdência Social de Jornalismo 1998, Prêmio Cláudio Abramo de Jornalismo 2000, Prêmio Abrelpe de Reportagem 2002, Prêmio Ayrton Senna de Jornalismo 2001).

ENTREVISTA

Entrevista com Chico Otávio

Realizada por Carolina Pádua, Helena Rebello e Patricia Rodrigues

Revisada e editada por Marco Roxo e Rachel Bertol

Data: 11/2008

Qual é o seu nome completo, local e data de nascimento?

Meu nome é Francisco Otávio Archila da Costa. Nasci no Rio de Janeiro em 20 de Março de 1962.

Quais são os nomes e as atividades dos seus pais?

Meu pai é falecido. Ele se chama Hélio Ferreira da Costa e era advogado. O nome da minha mãe é Hilda Archila da Costa e ela é dona de casa.

Qual é a sua formação?

Fiz Graduação em jornalismo no Centro Unificado Posicional, CUP, hoje em dia Faculdade da Cidade, e tenho pós-graduação em políticas públicas de governo pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).

Como foi o seu início no jornalismo?

Eu, quando entrei, pensava em fazer publicidade. Eu gostava demais. Achava que eu tinha talento para isso. Gostava de desenho também e me dividi entre a publicidade e o desenho industrial. Acabei optando pela publicidade. Assim que eu comecei a estudar no CUP, que ficava em Jacarepaguá, eu consegui um estágio no jornal de bairros daquela região, chamado Bom Dia. Ele circulava na Barra da Tijuca e Jacarepaguá, e eu era artefinalista, preparava anúncios, basicamente para clientes do comércio local como o dono da loja de ração, do salão de beleza, da padaria da Taquara, coisa desse tipo. Eles compravam o espaço, forneciam o logo e eu criava um anúncio em cima daquilo ali. Eu adorava fazer isso e até tinha orgulho de ver a minha criação publicada nas páginas do Bom Dia. Mas teve um ano que o jornal resolveu fazer uma ampla cobertura do carnaval na Barra e em Jacarepaguá. Então, a gente usou toda a equipe disponível para cobrir os bares de rua e os clubes tradicionais de Jacarepaguá e os condomínios da Barra, como Atlântico Sul, Barra Mares, Novo Leblon, Nova Ipanema e outros condomínios menores. A gente montou um mega esquema de cobertura para tirar uma edição especial do “Bom Dia Carnaval”. Faltou gente. Como eu tinha uma boa relação com o editor do jornal, aliás, meu amigo até hoje, Vitor Iorio, ele me perguntou se eu não ajudaria, já que eu estava estudando Comunicação. Ainda não tinha chegado nem a época de optar pela habilitação, porque os dois primeiros anos eram básicos para todos os estudantes. Ele, então, me perguntou se eu não ajudaria na condição de estagiário a cobrir uma parte dessa pauta de carnaval. Eu topei. Achei curioso. Era diferente do que eu estava fazendo. Peguei o bloquinho e a caneta, nunca mais larguei. Acabou que a publicidade perdeu ali um artefinalista, porque eu nunca mais deixei de ser jornalista desde esse momento. Foi assim o meu começo.

Como e quando você começou a trabalhar na Última Hora?

Eu acho que foi na primeira metade dos anos 1980. Eu não sei exatamente a data, mas provavelmente foi em 1984. Entre o Bom Dia e a Última Hora, eu comecei a escrever para uma revista de economia. Não me lembro como eu fui parar lá. Mas o editor dessa revista de economia também era o editor de economia da Última Hora. Ele gostou do meu trabalho, perguntou se eu não queria fazer um estágio na Última Hora. Eu já estava me formando e, então, topei. Fiquei seis anos na Última Hora. Eu me formei quando eu estava na Última Hora e fui contratado em seguida. É até legal, porque a data da minha contratação é um pouquinho anterior à data do meu diploma. E eu fiquei lá, nunca fui de rodar muito. Para mim, a Última Hora é a maior escola. Era uma redação de médio porte, não era uma redação grande. E eu tive a oportunidade, por ser numa redação pequena, de aprender muito lá. Eu trabalhei em Cidade, fiz muito polícia mesmo. Era aquela coisa bem clássica de crimes, investigações, operações policiais em morros e em outros lugares, no momento em que o crime realmente estava começando a se estabelecer na cidade, no governo Brizola. Eu peguei muito essa fase. Depois, eu trabalhei em esporte. Passei um período em esporte amador. Fiz futebol também. Fui setorista do América Futebol Clube na época que o America ainda tinha um time e treinava ali naquele Shopping Iguatemi. Eu me lembro muito bem. Tino Marcos era setorista de O Dia, e a gente convivia nessa época. Depois, eu fui para Sindical. É uma história interessante, porque era uma tradição da Última Hora cobrir essa área trabalhista desde que o jornal começou na época do Getulio Vargas, do Samuel Wainer. A Última Hora nasceu com esse propósito, muito sintonizada com a Era Vargas, as prioridades do governo de Getúlio. E eu, então, fui cobrir Sindical e acabei me tornando um editor de uma seção fixa de Sindical que a Última Hora tinha na época, num contexto ainda de certa agenda do governo sindical privado no Brasil. Quando tinha greve, campanha salarial, tinha notícia. Hoje em dia, nem tanto. Até porque a organização sindical para esse tipo de emprego se desestruturou muito no Brasil. Mas eu fazia muito isso. Então, foram seis anos de uma experiência muito rica na minha vida.

O que você destacaria desse período na Última Hora?

Eu sempre procurei tirar o máximo do convívio com as pessoas mais experientes. Na época, o editor era o Jorge Miranda Jordão, um cara que tem um nome no mercado ligado ao Samuel Wainer. Ele chegou a ser editor-chefe de O Dia durante um bom período. Havia também outros profissionais experientes, como o Milton Coelho da Graça, que foi meu editor lá, e o Fuad Atala, que também foi meu editor. Era gente que tinha uma estrada, tinha uma experiência boa. Agora, eu acho que o que mais valeu para mim foi essa coisa que eu, infelizmente, não tenho mais: a concorrência. Em um jornal de médio porte, eu era um cara inexperiente e tinha que correr, apurar na rua, junto de pessoas mais experientes de jornais mais importantes. Eu sofria muito com isso. Pensava: “Vou levar um furo, as pessoas têm acessos a dados que eu não tenho”. Eu lembro que, na época, se eu não me engano eu ainda estava na Última Hora, o sequestro do Roberto Medina foi um dos mais importantes, mais famosos do Rio de Janeiro. Como eu sofri naquele dia! Tive que cobrir contra colegas que tinham muito mais prestígio, muito mais experiência, muito mais acesso às informações do que eu. Então, eu aprendi no tranco, né? Nessa coisa de concorrer, de disputar com pessoas que tinham mais experiência, mais nome e mais jornal por trás. Então, eu destacaria isso como um dado relevante na minha vida profissional nesses primeiros anos de redação.

Quando e como surgiu o convite para você trabalhar em O Estado de S. Paulo?

Eu devo isso ao Bruno Barreto. É um diretor de cinema. Entre outros filmes, ele dirigiu O que é isso companheiro. Dirigiu também Dona Flor e seus dois maridos. Ele é da família Barreto, uma família de gente ligada cinema. Acho que é a família cinematográfica, digamos assim, mais importante do Brasil. E ele se casou com uma estrela do cinema americano, chamada Amy Irving, que é ex-mulher do Steven Spielberg. Ela até tem um filho com ele. E, nessa época, um grande amigo era chefe de reportagem do jornal de O Estado de S. Paulo, Agência Estado, do Rio de Janeiro. Nós éramos amigos e, de vez em quando, ele tinha que contratar pessoas para suprir o plantão de final de semana do Estadão, porque não tinha gente suficiente para ele. E, em uma dessas ocasiões, ele queria que alguém fosse para Búzios atrás do casal, que segundo nota publicada numa coluna social qualquer, estaria em férias no Rio de Janeiro, em Búzios. Ela estava grávida do primeiro filho do Bruno Barreto e segundo filho dela. Isso dava numa notinha. Aí, me perguntaram se eu não gostaria de aproveitar o meu final de semana de folga na Última Hora para pegar o carro do Estadão e ir para Búzios atrás do casal, porque eles queriam a matéria, queriam saber se o cara realmente estava lá. Eu topei. Eu conhecia um argentino que era dono de um bar bem badalado de Búzios, chamado Ponto de Encontro. Ele era gente fina para caramba e eu tinha me dado bem com ele. Eu fui atrás do casal junto com o fotógrafo Ronald Theobald. Primeira coisa que eu fiz foi bater no bar do argentino. Ele estava lá e eu dei muita sorte, pois ele deu a dica: “Olha se ele estiver por aqui, está numa casa lá em Manguinhos. A família Barreto tem uma casa lá”. Aí, eu fui. Bati na porta na maior cara-de-pau. Quem atendeu? Bruno Barreto. Falei o que eu queria. Era um tipo de jornalismo que não tem nada a ver comigo, meio paparazzi. Mas eu estava supermotivado. E ele falou: “Olha, cara, eu não vou te apresentar minha mulher, pois ela está muito cansada, ela está grávida, está descansando, não pode falar, mas eu te atendo, sento com você e te digo o que a gente tá fazendo aqui”. Ele foi até educado e me deu algumas dicas sobre eles. Eu apurei. Eu acho até que ele me fez sentar na casa dele. Agora, a pauta era especificamente falar da mulher. A mulher era a novidade, não o Bruno Barreto. E ele, realmente, falou que não ia, de jeito nenhum, me dar acesso à mulher dele. Bom, no dia seguinte a gente voltou e fez plantão nas imediações da casa dele que dava para uma praia. A gente ficou ali na praia, tomando água de coco, jogando conversa fora. Teve um momento em que ela apareceu na varanda de biquíni, com o maior barrigão. Detonamos. Fizemos fotos pra caramba. Depois, voltamos correndo para a redação. Se não me engano, cheguei a tempo de escrever a matéria para segunda-feira e publicamos. O texto, eu fiz. A foto, o Theobald fez. O Bruno Barreto ficou “P” da vida. Ligou para a família Mesquita, que era dona do jornal, para reclamar de mim, eu, um simples prestador de serviço. O jornal me contratou. Aluízio Maranhão, que era o chefe da sucursal, falou: “Olha, jornalismo em excesso não faz mal a ninguém”. E eu fui contratado. Foi nesse contexto, meio paparazzi, que eu fui contratado.

O que você destacaria da época em que você esteve no Estadão?

Sem dúvida nenhuma, a Rio 92. Foi a coisa mais importante que eu fiz na condição de repórter do Estadão no Rio de Janeiro. Praticamente, eu fui, dos repórteres da sucursal, o que fez a interface com os organizadores da conferência, até o início dela. De toda a preparação, tanto na parte de infraestrutura como da agenda, dos temas, depois a cobertura inteira, da megaconferência que reuniu, sei lá, 140 chefes de Estado (Bush, Collor de Melo, Fidel), todo mundo. Foi fundamental. Acho que foi a conferência internacional mais importante que o Brasil já organizou. Tenho certeza disso. E eu adorei fazer, porque foi um trabalho exaustivo, mas me fez aprender bastante. E uma participação muito secundária, muito mixuruca, mas com a qual eu aprendi também, foi uma série do William Waack. Aliás, a primeira edição do Caderno Especial que nós lançamos sobre a Rio 92 foi uma matéria minha com o William Waack, que era repórter do Estadão na época, correspondente do Estadão em Bonn, na Alemanha. Ele foi malandro à beça nessa época, mais ou menos, um pouquinho antes, quando o Império Soviético se desintegrou. William Waack malandramente foi à Rússia e bateu na porta do Arquivo Nacional de Moscou. Chegou lá, o Arquivo estava franqueado ao público, por conta da abertura política. Com o fim do regime soviético, os canais se abriram e o William Waack, então, pediu a pasta do Brasil. Ali, havia toda a história da relação da União Soviética com o Brasil desde os primeiros tempos, lá na virada de 1910 para 1920 até a Segunda Guerra Mundial. Havia revelações assim fundamentais, comprovando o fluxo financeiro de dinheiro soviético para a derrubada do capitalismo no Brasil, a missão da Olga Benário no Brasil. Ela foi uma espécie de auditora desse dinheiro aqui. Era um material fantástico, chamado Os Arquivos Secretos de Moscou. O jornal preparou um Caderno Especial, publicado no domingo, e eu fui chamado a São Paulo para fazer toda a repercussão. Eu fiquei uma semana em São Paulo preparando toda a repercussão do caderno. Quando o caderno saiu no domingo já tinha uma repercussão pronta para a semana seguinte inteira. Eu fiz isso. E, nessa semana inteira, eu convivi com o William Waack, acompanhei o processo de fechamento. Eu tive uma participação hipersecundária, mas acho que foi uma experiência marcante na minha vida. O Caderno assinado pelo Waack ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo com todos os méritos, porque foi fantástico mesmo. E eu tirei casquinha disso, porque eu aprendi bastante. É outra experiência que eu considero assim marcante nessa minha passagem pelo Estadão.

Como você avalia a imprensa brasileira nas décadas de 1980 e 1990?

Talvez uma das viradas mais fundamentais na história da imprensa brasileira escrita aconteceu exatamente nesse período. Acho que uma primeira grande virada foi nos anos 1950, com a reforma no Diário Carioca, a introdução do modelo norteamericano, a separação do jornalismo informativo e o jornalismo opinativo. O impacto foi fundamental. E o outro impacto fundamental posterior foi muito sincronizado com as mudanças políticas do país. A ditadura acabou em 1985. Em 1988, o congresso nacional produziu uma nova Constituição. Aqui no Brasil, se restabeleceu o conceito de cidadania e esse conceito – que tem também um viés ético, de abertura e de possibilidade de ação – impactou as redações. As redações foram obrigadas a fazer uma grande reformulação ética, editorial e gráfica por conta dessas mudanças que o país sofreu nesse período. Nos anos 1990, há a internet. Aí, já é outra história, outro momento. Nesse primeiro momento, nos anos 1980, houve – eu diria assim – uma grande mudança no campo ético, no campo da liberdade de ação da imprensa brasileira.

Quando e como surgiu o convite para trabalhar em O Globo? Qual foi o seu primeiro cargo no jornal?

Eu acho que, claro, o convite para trabalhar em O Globo tem muito a ver com o que eu fazia no Estadão. Eu sempre fui um cara muito proativo, que sempre está pensando em coisas legais para fazer, que não fica refém de pauta burocrática. Eu tinha o maior prazer de procurar os jornais locais, de publicar uma matéria em São Paulo e obrigar os jornais daqui a aceitarem essa matéria. Várias vezes cobri pelo Estadão, por exemplo, os chamados escândalos precatórios. Eram títulos que alguns estados emitiram ilegalmente. Foi um tremendo escândalo financeiro que o Estadão deu na frente. Pode ser que isso tenha a ver com o convite. O fato é que eu fui convidado para trabalhar em O Globo em 1997, quando eles estavam reestruturando, criando e reforçando a equipe de repórteres na sede do jornal. O Globo não tinha uma linha de trabalho para a área nacional na sua própria sede, na redação; estava muito vinculado à Brasília. Foi nesse contexto que eu acabei sendo contratado, em 1997, para trabalhar em O Globo na editoria onde eu me encontro até hoje, a Nacional. Foi meu primeiro e único cargo em O Globo.

Qual era a estrutura da redação de O Globo nesse período?

Era bem parecida com o formato de hoje. As mudanças na redação não foram tão grandes. Agora sim, está havendo uma mudança um pouco mais significativa por conta das questões da convergência de mídia. Mas o formato da redação que se tinha em O Globo é mais ou menos parecido com o que eu tenho hoje no jornal. Pouca coisa mudou em termos de estrutura de trabalho. Muito pouca coisa mudou.

Quem fazia parte da redação?

Posso falar da minha editoria? O editor da nacional era o César Seabra, que está na TV Globo hoje. Ele me chamou para trabalhar no jornal e saiu um mês e meio depois, porque recebeu uma proposta do editor-chefe do Lance e aceitou. Eu falei: “César, você não vai fazer isso comigo, vai?”. Ele disse: “Você fica tranquilo que vai dar tudo certo para você”. O cara que me convidou, meu avalista, meu padrinho em O Globo, estava me deixando. Era a primeira vez que estava trabalhando em uma redação de grande porte, na sede. Foi meio barra ficar assim sozinho na pista. Os repórteres eram o Carter Anderson, que hoje virou editor adjunto, e o Aziz Filho, que depois foi dirigente do Sindicato dos Jornalistas e, hoje, é diretor da TV Brasil. Éramos três.

Qual o perfil das matérias que eram publicadas nessa editoria?

A gente tem duas frentes de trabalho. Uma é a cobertura da agenda política. A gente vai prevendo toda a campanha eleitoral. A gente cobre também a agenda do congresso, as CPIs [Comissões Parlamentares de Inquérito], os grandes escândalos políticos, como o caso do mensalão, por exemplo. Fiquei um mês fora cobrindo o mensalão, metade dele passado em Minas e a outra metade, em Brasília. Há a repercussão da cobertura, a agenda do Lula, os ministérios, os tribunais superiores, o supremo, o STJ [Superior Tribunal de Justiça], o Tribunal de Contas da União, o Ministério Público Federal. Então, tudo isso aí é o nosso foco. Há também as questões nacionais: tudo aquilo que é assunto importante e que não acontece só no Rio de Janeiro. Por exemplo, a epidemia da dengue, a princípio, é a editoria Rio que cobre. Mas, quando a epidemia acontece não só no Rio, mas também na Amazônia, é um tema nacional. MST [Movimento Sem Terra] invade fazenda no Sul do Brasil é nacional. Assalto a banco em Fortaleza, nacional. Assalto a banco na cidade do Rio de Janeiro, Rio.

A editoria Nacional é chamada de País?

Sim. País é o nome técnico da minha editoria. É assim que aparece nas páginas do jornal desde que eu entrei. Sempre ouvi falar assim: “é Editoria País, não é Nacional”. É uma tradição do Globo. Quando cheguei no jornal já era assim.

Como era o comando da redação sob a direção de Merval Pereira e Ali Kamel?

Eu tive pouco contato com o Merval. Merval nem trabalhava dentro da redação. O meu maior contato era com o Ali Kamel. Um dos melhores editores com os quais eu convivi, figura inteligentíssima, brilhante e, além disso, um incentivador. É um cara que faz questão de acompanhar o seu trabalho. Eu me lembro de uma matéria que ele me pautou. Eu fiquei meses apurando a matéria. Era a manchete de um domingo. Quando chegou a hora de escrever, ele então sentou ao meu lado, para me acompanhar escrevendo. E aí, no meio da minha dura missão de escrever a matéria, ele, lendo, disse assim: “Chico, isso no máximo é uma notinha de pé de página”. E eu ganhei o Prêmio Esso com essa matéria. Ele é assim. Esse é o Ali Kamel, entendeu? Ele sempre me incentivou muito. Tenho saudades desse período. Gosto muito de convívio com o Rodolfo Fernandes [falecido em 2011], meu atual editor. Ele é um cara que também me incentiva bastante. Mas foi muito legal.

Como foi a matéria “Máfia do INSS ainda lucra com bens bloqueados”? Foi o seu primeiro prêmio em O Globo?

Foi uma coisa legal, porque tem muito a ver com impunidade. A gente já tinha toda uma história na mídia de publicação de reportagens que mostravam a ação dessa máfia que atuava na Previdência Social. Eu lembro muito bem que eu ainda era repórter do Estadão quando esse escândalo estourou em 1990. Os caras foram condenados, foram presos, estavam cumprindo pena, mas continuavam atuando e arrecadando dinheiro por conta da atividade mafiosa deles. Eu ataquei essa questão. Mesmo presos, eles continuam atuando como mafiosos. Foi bem legal.

Quando você começou a trabalhar como repórter especial?

Um primeiro detalhe fundamental, eu não sou repórter especial, eu sou repórter. Não tem essa categoria no Globo. Eu acho até bacana. É como criar uma “tropa de elite”, mas no jornal não tem nada a ver, cria ciumeira. Todo mundo tem condições de fazer reportagens especiais. Eu talvez faça um pouco mais pela chance que eu tenho, na Nacional, de poder viajar. Como os assuntos de cidade são publicados pela Rio, meu negócio é estar por aí circulando. Por isso que ficou um pouco dessa ideia de repórter especial. Mas, na verdade, eu sou um repórter como outro qualquer do jornal.

Quando você começou a fazer matérias com perfil investigativo?

No Estadão. Mas eu não me considero um repórter investigativo. Eu me considero um repórter motivado e curioso. Porque até para descobrir a Mulher Melância dá trabalho. Eu comecei na Rio 92, que foi a conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e Desenvolvimento. E, na época, os jornais estavam muito preocupados com a agenda ambiental, com os preparativos da cidade, com o esquema de segurança, com os grandes temas que envolviam essa conferência. E eu também me preocupei com os gastos que esse evento representou para o governo. Eu fiz uma parceria com um colega meu, Robson Pereira, que nem está mais no jornalismo. Nós conseguimos mostrar que, por trás da badalação, havia má-fé dos organizadores brasileiros, gastos irregulares, dinheiro desperdiçado, algumas situações realmente complicadas que nós mostramos na contramão da tendência que o noticiário seguia naquele momento. Então, tem 16 anos a primeira matéria que eu fiz.

Qual é o peso das matérias investigativas no jornal O Globo?

Têm um grande peso. Com certeza. Elas são importantes, principalmente para marcar a diferença do Globo com relação aos demais jornais. Normalmente, as matérias investigativas são matérias exclusivas. As outras, não. Por exemplo, as matérias referentes à tragédia de Santa Catarina são parecidas com aquelas da Folha, do Estadão, com algumas diferenças. As matérias sobre a montagem do governo do Obama também não são tão diferentes, até porque dependemos muito daquele material que vem das agências internacionais. E eu posso te dar outros mil exemplos. As matérias investigativas, não. Elas normalmente são exclusivas do jornal, e o leitor sabe que só vai encontrá-las no Globo. Obviamente que eu usaria o mesmo raciocínio para outros veículos. Então, para mim, essa é uma situação muito característica. Não sei se respondi.

Todos os seus prêmios Esso você ganhou depois que estava no Globo. Você acha que a maior visibilidade do veículo te ajudou?

Ah, isso não é questão de visibilidade do veículo. Quando você trabalha em sucursal, as chances são menores, mas não é impossível. O Estadão tinha um pouco dessa filosofia de agência de notícias. Cobria-se tudo, porque o material era todo distribuído. No Globo, você tem possibilidade de fazer uma coisa mais diferenciada, mais específica. Evidentemente, nessas condições, as chances aumentam. E trabalhar na sede de um jornal dá muito mais possibilidades. Eu trabalhava numa sucursal. E como o Estadão tinha muito essa mentalidade de agência de notícias, em que você fazia tudo para distribuir esse material para “n” clientes como falei antes, era mais difícil. Você tinha menos tempo para se dedicar a algo mais trabalhado, mais profundo, mais detalhado. No Globo, não. Você tem chance, porque você reveza. Hoje, eu estou com uma matéria do dia a dia, mas amanhã eu vou estar com uma especial. Essa chance de revezamento, a chance de estar ali em contato, fazer aquele trabalho de corpo a corpo junto ao seu editor, pedir espaço, lutar pela pauta, trocar com ele o tempo inteiro, obviamente traz benefício para o resultado final do seu trabalho. Talvez isso explique porque os resultados que eu tive no meu período no Estadão não tiveram a mesma correspondência dos que eu tive no Globo. E outra coisa também: eu era mais inexperiente. Fui adquirindo experiência. Na época do Estadão, eu era novo. Agora, eu amadureci e aprendi a abordar melhor, a selecionar melhor, a entrevistar melhor, a escrever melhor.

Em 1998, você teve uma matéria entre as finalistas do Prêmio Esso. Você achou que merecia mais do que estar na final?

Ah, eu acho. Eu adorei essa matéria. A gente conseguiu observar todo ciclo da madeira na Amazônia. Éramos duas duplas. Uma foi para o Pará. A outra para o Estado do Amazonas. Nós, assim, conseguimos entender todo o processo e seus vários personagens. O seringueiro desistiu de extrair borracha para cortar madeira, o garimpeiro, o indígena, a situação da fiscalização do Ibama, o madeireiro, o pequeno empresário. Assim, a gente fechou o ciclo da madeira. Foram 18 dias de reportagem. Eu acho que nunca fiz uma série tão grande, assim de tanta repercussão.

Foi necessário algum tipo de cuidado especial, de disfarce?

Eu não escondo a minha identidade para obter as informações e para fazer as matérias. Mas respeito a posição de quem recorre a esses expedientes, porque não é fácil fazer jornalismo investigativo no Brasil. É bom ressalvar isso. Acho que depende da situação. Eu acho que não existe uma razão geral que explique o uso desses expedientes. Eu entendo que existem circunstâncias que talvez expliquem o seu uso. Agora, o uso exagerado não é bom. Muitas vezes, o repórter fica tão viciado que prefere usar esses recursos antes mesmo de tentar um contato às claras, usando todas as suas prerrogativas e não escondendo nada. Muitas vezes, o jornalista prefere a segunda opção, achando que a primeira não vai dar certo. É ruim isso. Eu sou contra essa produção em massa de jornalismo através desse tipo de expediente.

Com relação à série de reportagens que você fez na Amazônia, quais foram as principais dificuldades do trabalho nessa região? Você recebeu algum tipo de represália?

Eu nunca sofri nenhuma represália. E as maiores dificuldades da região se referem ao deslocamento e ao custo. Se você não tiver um bom planejamento, em 15 dias você não consegue nem sair de Manaus. Aquilo ali é uma imensidão. E você tem que fugir do lugar-comum, porque já se escreveu muita coisa sobre a Amazônia. Eu acho que, dependendo da tua pauta, dependendo do foco, é preciso que você faça um planejamento muito bem amarrado, prevendo deslocamento aéreo inclusive, ou via fluvial, para que você aproveite da melhor forma possível aquele tempo que você tem na região, que normalmente não é grande. Duas semanas numa redação hoje em dia é uma eternidade. Na Amazônia, não é nada. Às vezes para você ir de, sei lá, vou chutar, não sei se é isso não, de Manaus até São Gabriel da Cachoeira, de barco, você gasta uma semana de viagem. De Manaus até Tabatinga era uma hora e vinte de jato. Você viaja sem sair de dentro da Amazônia. São grandes as distâncias naquela região.


Como foi a série de reportagens sobre o caso do Riocentro?

Nós partimos de uma decisão da Procuradoria Geral da República, no sentido de reabrir o caso. Era uma decisão que não tinha, a princípio, muita repercussão na imprensa. Era apenas um posicionamento do Ministério Público. E, a partir desse posicionamento, nós começamos a rever o caso. Eu tive acesso a todo o processo. Fui até Brasília, ao Superior Tribunal Militar. Li tudo que tinha a respeito e voltei aos personagens da época. Estou achando muita gente viva de 1968. Você imagina os que são de 1981. Então, 20 anos depois, as pessoas já tinham um pouco mais de facilidade de falar das coisas. Eu, por exemplo, entrevistei o próprio médico legista que examinou o corpo do sargento. Eu vi esse corpo. Foi uma das primeiras cenas que eu vi mais chocantes da minha vida. Eu fiquei, assim, completamente paralisado com essa cena que eu testemunhei. A cena é triste. E o médico disse que, realmente, o resultado da investigação era uma farsa. Todo mundo sabia que era uma farsa mesmo, mas dito pelo cara que fez o laudo é um fato novo, né? Foi horrível. Essa cena eu vi de perto. O cheiro de pólvora no ar. Ele deixou a bomba explodir no colo. O que o legista especulou é que ele teria deixado fechar o circuito da bomba com o relógio de pulso. Ele tocou e fechou o circuito da bomba. Aí, explodiu no colo dele. Era um cara do DOI-CODI [Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna].

Como foi o trabalho ao lado dos repórteres Ascânio Seleme e Amaury Ribeiro Jr.?

Ótimo, porque foi um trabalho complementar. Nós fizemos uma coisa mais ou menos articulada, em que cada um fazia uma parte do trabalho. Eu fiquei com os personagens da época. Ascânio fazia um pouco o STM [Superior Tribunal Militar] e a Procuradoria Geral de Justiça Militar. E Amaury, os generais de Brasília. Ele é um cara muito determinado. Foi um trabalho coletivo muito bem harmonizado, digamos assim, em que cada um conseguiu cumprir bem o seu papel.

Qual foi o resultado da publicação dessa série de reportagens?

O novo IPM mudou a versão histórica sobre o episódio e concluiu que o sargento e o capitão eram os mentores e não as vítimas do atentado. O capitão continua solto, já virou coronel e está na reserva. Agora, ele jamais seria preso porque tem toda essa discussão sobre o alcance da Anistia. Tanto é que nem o brilhante Ustra, militar claramente envolvido em tortura, nem ele até hoje foi preso.

Qual foi o prêmio que a série sobre o Riocentro recebeu?

Prêmio Esso de Reportagem. Foi em 1999. Foram 18 anos depois, pois, como eu falei, as pessoas têm mais liberdade para falar.

Séries de reportagens, como o caso do Riocentro, apresentam um caráter histórico. Como você avalia o papel da investigação histórica no jornalismo?

Eu adoro. Olha só, o Brasil tem um potencial muito grande, ainda pouco explorado pelos jornalistas por razões diversas. Primeiro, falta uma cultura. O jornalista não frequenta os arquivos públicos, não frequenta as bibliotecas, frequenta pouco os institutos de pesquisa. O Rio é um núcleo, um centro de referência nessa área. O Arquivo Nacional está no Rio. A Biblioteca do Exército, o Arquivo Histórico do Itamaraty, o Arquivo Estadual, o Arquivo da Cidade do Rio de Janeiro, o Museu da Imagem e do Som, todos ficam na cidade. Então tem muita coisa, né? E a gente pouco frequenta esses lugares. Ali, há um manancial de boas matérias. Se a gente olhasse com mais atenção, muita coisa sairia de lá. Agora mesmo, eu estou tentando contar com a ajuda do Arquivo Nacional para uma série sobre os 40 anos do Ato Institucional Nº 5, AI-5. Então, tem esse problema da falta de cultura. Qual é o outro problema? É a cultura do gestor público. Esses lugares não têm, digamos, um interesse de dialogar mais com a mídia. As informações ainda são calcificadas, as leis são restritivas, as autoridades se sentem donas da informação, os processos de informatização são lentos, muitas vezes as estruturas são paquidérmicas. Então, só não se faz mais investigação histórica no Brasil por conta destas dificuldades que eu apontei aí. E o papel desse tipo de investigação é fazer a verdade emergir. Por exemplo, no caso do Riocentro, nós mudamos uma posição oficial sobre o episódio. Acho que esse talvez seja o grande barato da nossa missão: revolver, “re-analisar”, acrescentar um dado novo, lançar luz sobre determinados episódios. É isso.

Fale um pouco sobre a série de reportagens “A Justiça que não julga”.

Foi uma das matérias mais difíceis que eu fiz. Tive que consultar centenas de documentos jurídicos, porque, muitas vezes, o juiz, quando age de má-fé, se vale da linguagem codificada para cometer um ato ilícito. Ele sempre alega que, na verdade, está exercendo o seu poder de julgamento, quando na verdade está usando de má-fé para beneficiar escandalosamente determinados interesses. Fazer essa distinção, até onde vai a liberdade do juiz de decidir, até onde começa a má-fé, foi o meu maior desafio. E isso demandou muito tempo perdido e energia queimada dentro de cartórios, dentro do Ministério Público. Esse foi o meu grande desafio, mostrar que juízes associados a advogados transformavam a Justiça Federal em nichos de negócios. Eles iam atacando questão por questão, saque do FGTS [Fundo de Garantia por Tempo de Serviço], aí eles limpavam o cofre da Caixa Econômica, depois pulavam para outra coisa que desse lucro. E sempre com uma tese jurídica para justificar essa má-fé. Fazer essa distinção, mostrar que aquilo ali, na verdade, não era liberdade de decidir coisa nenhuma e sim má-fé, foi o maior desafio dessa matéria. Demorei mais ou menos três meses escrevendo ela, de janeiro ao finalzinho de março.

E a matéria sobre LBV e o império da Boa Vontade?

Começou com uma carta anônima que o editor recebeu. Nós já tínhamos recebido outras cartas anônimas que não foram levadas a sério em ocasiões anteriores. Essa o editor acreditou, realmente. A gente não publica carta anônima. Carta anônima não é prova, mas ela serviu de referência para a nossa pauta. E nós, com uma exaustiva apuração orientada pela carta anônima, conseguimos comprovar o conteúdo e publicar uma matéria que não precisou usar uma referencia da carta anônima e sim tudo aquilo que apuramos no caminho.

Você poderia falar um pouco sobre a matéria “Sinal Verde para o Contrabando”?

Um relatório feito por fiscais da Receita Federal. Um grande relatório. Um trabalho realmente muito bem feito. Os fiscais estavam indignados com a sistemática do problema. Era um problema que se repetia, de liberação de cargas. Na verdade, a gente fala em contrabando, que é uma expressão mais forte, mas o grosso do problema era o descaminho, ou seja, eram mercadorias lícitas que entravam no país sem a devida tributação. O contrabando não, contrabando é AR-15, cocaína, ecstasy, esse não pode mesmo. Mas esse percentual de contrabando era pequeno. O grande volume era de descaminho. E os fiscais foram colhendo dados para um grande dossiê, mostrando quais eram as grandes brechas que permitiam isso. A gente decodificou esse relatório e fomos ver o que havia de vida real por trás dele. Essa é a matéria. Inclusive eu funcionei como um repórter, mas o dossiê originalmente foi recebido pelo Ricardo Boechat. Nós ganhamos o prêmio juntos.

Como surgiu a ideia para o Caderno Especial “Retratos do Rio”?

Um acerto do jornal, através da Flávia Oliveira – que hoje é editora de uma seção de Negócios do jornal e, na época, era repórter de economia – com os três organismos que estavam envolvidos no levantamento desses dados. Foi um grande inventário das condições de vida, do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) do Rio de Janeiro. Era a Organização das Nações Unidas, através do PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), a Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro e o IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), que é um órgão do governo federal.

Qual a importância de você ter sido premiado em três categorias numa única edição do Prêmio Esso?

Para mim, é fantástico. E outra coisa, é prestigio que você ganha. As portas se abrem com mais facilidade. Você tem mais credibilidade. E, tendo mais credibilidade, você tem mais acesso às fontes, mais acesso à informação. As pessoas passam a confiar mais e te ver como uma referência. Isso é bom porque é informação chegando. Acho que essa é a maior vantagem.

Como foi a série de reportagens “Sentenças suspeitas”?

Muito desgastante. Porque você tocou no poder mais sensível, que é o Judiciário. Pouco se investiga sobre o Poder Judiciário no Brasil. O motivo é óbvio, né? Imagina o efeito que uma matéria dessas pode provocar em termos de demandas jurídicas. Um desembargador processar um repórter é uma situação diferente de uma pessoa comum processar um repórter. Ele talvez tenha um poder de influência muito maior. E esse foi o maior desgaste: segurar a onda, a reação que veio depois, de represália, tentativa de desqualificação, processo judicial. Mas represália dentro do campo institucional, ninguém me cercou na rua ou me perseguiu.

E o Caderno Especial “Planeta Terra”?

Uma paixão que eu tenho pela Amazônia. Eu também não fiz sozinho. Nada disso eu fiz sozinho. Foram todas as matérias em parceria. Eu cito vários amigos que dividiram sua competência, amigos que dividiram esses êxitos. Bernardo Vila Penha eu faço questão de citar. Além dele, havia também Rubens Valente, hoje repórter da Folha de S. Paulo, Flávia Oliveira, Ana Lúcia Azevedo. No caso da série sobre a Amazônia, Marcelo Saião, fotógrafo, Ascânio Seleme, Amaury Ribeiro Jr., Ricardo Boechat, todo mundo ali, de certa forma, teve um papel fundamental. Eu não ganhei isso sozinho. Eu ganhei isso com eles.

Você já sofreu algum tipo de censura? Em qual episódio?

Existe um conflito entre dois artigos da Constituição. Um deles, eu acho que é o Artigo 5º, garante a qualquer cidadão o direito à informação, todos têm direito à informação. E outro artigo diz que todo cidadão tem direito à privacidade. Era uma conversa gravada clandestinamente, sem autorização do Judiciário, que é o que a lei manda, provavelmente feita por arapongas, em que Garotinho, candidato à governador na época, conversava com alguém sobre a possibilidade de burlar uma lei tributária. Então, nós julgamos que era grave e que, mesmo sendo uma conversa gravada clandestinamente, era direito do cidadão de saber quem era aquele que pretendia ser governador do Rio de Janeiro. E depois deu no que deu. A Justiça preferiu, provocada por ele, entender que aquilo era uma fita clandestina, portanto, não passível de divulgação e nos proibiu. Existe uma corrente jornalística que considera esse tipo de decisão judicial uma forma disfarçada de censura. Outros acham que a lei é para todos, que não existe uma licença especial para o jornalista cometer um crime para fazer a informação chegar ao leitor. Aí, vocês tirem as conclusões que acharem mais conveniente sobre isso. É complicado. A gente publicou a série sem precisar reproduzir os diálogos. Mas como ele foi contestando, contestando, contestando, chegou um momento em que a gente resolveu divulgar o diálogo. Aí, ele foi para a Justiça. Nós fomos até o Supremo e perdemos em tudo quanto é instância.

Você participou da edição extra do Globo sobre os atentados de 11 de Setembro? Qual foi a repercussão dessa edição?

Eu fiz poucas coisas, mas fiz sim. Eu acho que o inusitado dessa edição foi o fato de ser uma edição vespertina, coisa que a imprensa brasileira já não fazia há muito tempo. Havia uma cultura de jornais vespertinos no passado, mas tantas foram as transformações na imprensa brasileira que isso ficou meio para trás. Então, eu acho que, a exemplo do 11 de Setembro e da morte da Lady Di, o jornal mostrou que ainda não esqueceu a forma de produzir algo em poucas horas, com aquilo que tem disponível. Evidentemente que o fuso horário ajudou. O horário lá do evento. Mas, fora isso, eu não acho que O Globo tenha feito diferente do que os outros jornais do mundo inteiro fizeram naquele momento.

Você também participou do caderno especial sobre o Golpe de 64? Como surgiu a ideia para esse caderno?

Grandes efemérides nunca passam em branco no jornal. A gente está sempre tentando fazer um produto que trate do tema. E, assim, o que eu busquei naquele momento, o que eu continuo buscando, é certo ineditismo. Os 40 anos do Golpe Militar já tinham sido um tema bastante explorado pela mídia, principalmente naquilo que diz respeito à investigação sobre os abusos praticados pela ditadura militar. Os documentos secretos, o material todo do sistema de informações, Doi-Codi, Cisa (Centro de Informações e Segurança da Aeronáutica), Cenimar (Centro de Informações da Marinha), CIE (Centro de Informações do Exército), SNI (Serviço Nacional de Informações), tudo isso já tinha sido bastante explorado. A gente procurou ângulos novos. Procurou novas abordagens, como foi também com Getúlio Vargas quando a morte dele fez 50 anos. A gente sempre procurava garimpar alguma coisa inédita, ainda que a gente esteja olhando para trás, fazendo uma espécie de jornalismo histórico.

Você destacaria algum outro caderno especial publicado pelo Globo?

Eu adorei fazer um com uma ideia que foi minha. Eu convenci o jornal a abraçar esse projeto. Fui à Terra Santa. A gente até brincava que eu ia descobrir um fato novo do julgamento de Cristo. Eu fui às universidades, procurei mostrar até onde a história havia avançado, no sentido de entender melhor aquele momento da história da Humanidade, até onde a arqueologia bíblica conseguia comprovar alguns fatos, algumas passagens da Bíblia. E teve a maior repercussão. O caderno foi vendido para 14 jornais brasileiros. Quando O Globo lançou o suplemento, outros 14 jornais brasileiros lançaram o mesmo suplemento em conjunto e pagaram por isso. Eu adorei fazer. Li vários livros. Eu digo que eu gostei de todos os cadernos. O dos 500 Anos foi um mergulho na identidade do brasileiro. Também de novo procuramos fazer diferente, não ficar com uma abordagem apenas histórica. Eu tento fugir daquilo que você já acha dentro do Google. Você achou no Google, para mim, está no mundo. Achou nas enciclopédias ou nos livros, está no mundo, está na vida. A ideia é sempre procurar um fato novo. Eu estou quebrando a minha cabeça agora com o Ato Institucional Número 5, tentando garimpar ainda um fato novo, algo que não foi exaustivamente explorado.

Quando e onde você começou a dar aulas nas faculdades de jornalismo? Que matérias você leciona?

Foi no segundo semestre de 2002, na UniverCidade em Ipanema. A minha disciplina é Técnica de Redação em Jornalismo. O nome antigo era Técnica de Redação e Jornalismo Gráfico. É uma disciplina de quinto período, obriga os alunos a escreverem, tem uma rotina de produção de texto semanal. É difícil botar a garotada para escrever, mas gosto e assim eu troco muito. Ontem, eu estava comentando com um entrevistado meu, que também foi professor universitário, que essa troca é permanente. Eu ouço muito e aprendo muito com meus alunos.

Ser professor mudou sua percepção como repórter? E, por outro lado, ser um repórter ainda em atividade o torna diferente daqueles que são somente professores?

Com certeza. Estar em contato com a universidade, com o campus, com aquele centro de produção de saber, para mim, é importante. Mas fazer a ponte entre redação e universidade, muitas vezes, é difícil. Estar nessa ponte, passando por ela constantemente, para mim, é muito bom, muito proveitoso. Claro, tem sempre um diferencial. Por exemplo, agora, eu cobri intensamente a campanha eleitoral e organizei junto com uma colega minha da PUC, Carla Siqueira, um debate sobre a cobertura da campanha eleitoral. Veja bem, não foi um debate sobre eleições, candidatos, cidade do Rio de Janeiro. Foi um debate sobre a cobertura, a forma de abordar os assuntos, a atuação do jornalista. Eu levei esse debate para a universidade. Então, nesse ponto, é importante, porque eu, de certa forma, levo para sala de aula um pouco do clima da redação. Agora, é obvio que outros professores que não estão na redação têm o seu diferencial também, mais forte no campo da teoria. Eu acho isso importante para o aluno.

Qual é a sua opinião sobre a obrigatoriedade do diploma de jornalista para o exercício da profissão?

Não tenho uma opinião formada. Eu acho que, ao mesmo tempo, que o diploma protege o profissional, é um instrumento garantidor do pouco que a gente conseguiu conquistar, em termos de reconhecimento profissional, na relação, inclusive, com os nossos empregadores. A liberdade de expressão prejudica um pouco essa espécie de reserva de mercado que o diploma criou. E você tem hoje tantos meios de inclusão, tantas plataformas de informação, que eu acho que fica até uma tarefa inglória você fiscalizar onde a lei está ou não está sendo cumprida. Eu acho que o estudante universitário não tem que se preocupar com isso. Se cair a exigência do diploma, na verdade não vai mudar muito para ele, porque as redações querem profissionais prontos já no primeiro momento e com capacidade de discernir. E só a faculdade é capaz de preparar o aluno para isso, não é a vida e nem é outra profissão. Então, eu acho que não há muito que temer. Eu não gosto muito dessa coisa coorporativa, não gosto. Eu tenho reservas em relação a isso.

Você acha que teve uma formação acadêmica consistente e voltada para o mercado?

Olha bem, uma coisa é você me perguntar se a minha formação acadêmica foi consistente, a outra é perguntar se a minha formação acadêmica foi voltada para o mercado. Eu acho que eu tive uma formação, realmente, muito voltada para o mercado, mas não sei se ela foi consistente o suficiente para me oferecer todos os subsídios que eu preciso para ser um bom jornalista, um bom cidadão, um cara ético, culto, preparado. Nesse ponto aí, eu acho que a universidade falhou. Do ponto de vista técnico não, eu acho que ela realmente atendeu às expectativas. Mas existem diferenças entre as duas coisas.

Fale um pouco sobre a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji). Você participou da criação dessa associação? Qual é o objetivo da Abraji? Que profissionais integram a Associação?

Eu participei da criação. Apoiei totalmente. Óbvio, eu estava lá desde o primeiro momento. Eu fui o primeiro vice-presidente da Abraji. Acho que é uma entidade importante. Acho que é importante principalmente na garantia do exercício profissional. Você tem um cara ameaçado lá no interior do Pará, como aconteceu, e ele efetivamente pode, ao acionar a Abraji, gerar uma rede de protesto, uma rede nacional e internacional, de denúncia contra o tipo de agressão que está sofrendo, capaz de criar para ele uma certa proteção e garantia do exercício profissional. Nesse ponto, de oferecer proteção, de dar uma certa cobertura, uma certa garantia profissional para quem está ralando, sofrendo pressão em qualquer ponto do Brasil, o papel da Abraji é fundamental. E há outro aspecto também muito legal: a troca. Eu acho muito proveitoso a troca de informações, a permuta, o contato. Isso vai contra uma tradição que a imprensa tem de nunca trocar. As redações são ilhas isoladas e competitivas. Essa é uma cultura que só interessava, de fato, aos nossos patrões. Nesse ponto, a Abraji também acertou. A única restrição que eu faço, não à Abraji, mas a esse modelo de jornalismo investigativo, é o uso exacerbado desse tipo de instrumento ou de modelo de trabalho. Porque você não pode querer denunciar o tempo inteiro, nem sempre a vida é assim. Muitas vezes, a sede de denúncia, porque o profissional se acha repórter investigativo demais, pode levá-lo a cometer injustiças. Ainda mantenho contato com alguns profissionais que integram a associação, com uma parte deles, da atual diretoria, com certeza. Inclusive, a presidente é minha colega no Globo.

Em sua opinião, qual o papel do jornalismo investigativo e de denúncia? Quais os desafios desse tipo de trabalho?

O papel é cobrar transparência, ética na vida pública, e, de certa forma, indiretamente, corrigir as injustiças. O desvio de recursos é uma injustiça social. Nesse sentido, o balanço que eu faço é positivo. O maior de todos os desafios é não errar. É um jornalismo que envolve e é capaz de destruir reputações. Tem um papel social importante e, nesse sentido, eu acho que a gente tem que tomar muito cuidado e jamais errar. Dizer “vou repetir” para não cometer injustiça. É um efeito cascata de erros. Começa com a injustiça que se comete contra o denunciado, o falsamente denunciado, e vai chegar à reputação do próprio jornal e do repórter. Fora o que você vai empurrar goela do leitor abaixo. Então, é uma cadeia de consequências.


Qual foi o impacto da morte de Tim Lopes entre os repórteres no jornalismo investigativo?

Evidentemente que todos ficaram, até determinado momento, mais cautelosos. Mas, infelizmente, a nossa memória é curta. Alguns já esqueceram e andam até cometendo algumas estripulias, digamos assim.

Quais as principais diferenças entre a apuração de agora e a apuração de antes? Você acredita que ferramentas de busca, como o Google, podem deixar o processo de apuração mais superficial?

As possibilidades cresceram largamente. Claro, com a informatização da vida, você hoje é capaz de fazer uma reportagem investigativa, sem levantar da cadeira da sua redação. Você tem acesso a documentos até de cartório, documentos bancários, documentos fiscais, documentos de arquivo, entrevistas, tudo sem precisar sair do seu computador. Nesse ponto, a internet e essa revolução tecnológica foram uma maravilha para o jornalista. É uma coisa que eu jamais imaginaria 20 anos atrás. Você não é obrigado a confiar no Google. Eu não confio no Google. Sempre se faz necessária uma apuração. Se o cara ficar só no Google, o processo de apuração pode ficar mais superficial, sim. E é o que eu acabei de te falar, está no Google, está no mundo. O nosso papel é ir além. E, se você apenas reproduzir aquilo que já esta no Google, a sua matéria não vai interessar, o seu jornal não vai vender, porque as pessoas já tomaram conhecimento daquilo. O desafio é ir além. Nesse sentido, a internet pode ser um caminho para o repórter, mas não um fim.