CID MOREIRA
ENTREVISTA

Realizada por: Nicolly Vimercate Riberio, Igor Gomes Costa, Beatriz da Cruz Nascimento Corrêa e Stephanie Silva de Oliveira.

Data: 06/2010

Quando você começou na locução, você fazia outra faculdade. Como foi isso?

Eu trabalhava com locução, mas precisava estudar alguma coisa. Então, o horário que eu dispunha era de contabilidade. Eu não gostava e nem gosto. Eu só concluí mesmo a faculdade, porque tinha que ter um diploma. Eu tinha um amigo que morava na mesma rua que eu, e o pai dele era um dos diretores da rádio. Na minha cabeça a contabilidade de uma rádio era coisa simples e pedi a ele um estágio na área de contabilidade: “Seu pai não arruma uma vaga para mim? Eu estou estudando contabilidade e queria praticar”. E o pai dele, toda vez que alguém da casa fazia aniversário, os cantores da rádio e os outros funcionários eram convidados. E um dia, durante a instalação dos microfones para o pessoal se apresentar, ele pediu para eu testar. Eu fiquei imitando um locutor da época e ele percebeu que a minha voz poderia servir pra locução. Quando eu pedi pra fazer o estágio, ele disse: “Você está pedindo estágio pra contabilidade, mas eu acho que você deveria fazer um teste para locutor”. No mesmo dia eu fiquei junto com o locutor do horário. Ele lia todos os textos e me dava um pra ler. Na época, como hoje, se ganhava muito mal. Mas para mim, que ganhava mesada do meu pai, estava ótimo. Depois, eu fui trabalhar em São Paulo, na rádio Bandeirantes. E ali eu fazia um noticiário, participava em um jornal de rádio. E lá foi que eu fiquei sabendo que todo mundo que trabalhava na rádio podia se inscrever no sindicato para ter direito de comprar um imóvel, um apartamento, uma casa. Nessa época o sindicato dos jornalistas estava sempre lançando casas ou apartamentos. Eu até cheguei a ver um na época que o Brasil perdeu a Copa para o Uruguai.

Quanto tempo demorou até que você se acostumasse a trabalhar como locutor?

Eu demorei a me acostumar na rádio. Todo profissional que começa a trabalhar em um lugar novo demora. Isso é normal. Faz parte do ser humano. Toda pessoa responsável é inibida. Os irresponsáveis é que são malucos e vão metendo os pés pelas mãos.

O que seus pais acharam quando você deixou a carreira de contabilidade?

Na minha época as carreiras que atraíam as pessoas eram: funcionário do Banco do Brasil (que eu cheguei a pensar), aviação, medicina, direito. Eu até tentei direito, mas acho que não daria muito certo. Medicina também não.

O que você gostava mais de fazer na rádio?

Na rádio eu sempre fiz de tudo um pouco. Jornal, cinema, documentário. Mas o que eu sempre me dei bem foi narração. Uma vez eu gravei um jornal que fez muito sucesso, o Canal 100. Já saiu do ar há muito tempo, mas sempre é reprisado. Desde o início, eu fui o narrador dele. Quando eu comecei no Jornal Nacional, tive que desistir, porque queriam gravar de madrugada, não queriam pagar mais... Eles achavam que eu ganhava muito na televisão e não queriam me pagar mais.

A competição entre as emissoras de rádio era como a que acontece entre as emissoras de TV hoje em dia?

Essa competição por audiência que existe hoje entre as televisões sempre existiu no rádio também. E eu acho que é bom. Se você tem uma emissora de rádio, mas não se preocupa em fazer melhor que a outra... A competição honesta é saudável.

Quando você via a produção e a veiculação dos jornais, você não se interessava em participar desse processo?

Eu nunca me interessei com a produção do jornal. Hoje o William (Bonner) é apresentador e editor, porque ele não pegou a fase que eu peguei. Eu entrei no início da televisão, ganhava muito pouco. Fora da televisão, eu ganhava vinte vezes mais. Eu gravava muitos comerciais, documentários, audiovisual, jingles, spot, e etc. Quando a televisão começou a pensar que o apresentador deveria participar da edição toda, quando pensaram em me chamar pra participar da edição, me perguntaram quanto eu queria ganhar a mais. Eu disse que ia ver quanto eu ganhava fora da televisão e ia voltar com o valor. Quando eu cheguei com a conta, assustei o pessoal. Eles queriam pagar muito menos. O William não viveu isso de gravar comerciais. Ele veio novo já para o jornalismo. Então quando fizeram essa proposta, ele aceitou.

Como foi a primeira edição do Jornal Nacional, que você apresentou?

Não dá para dizer o que marcou a primeira edição do Jornal Nacional. O pessoal da parte técnica estava muito preocupado. Mas para mim era a mesma coisa que eu sempre fiz. Eu já apresentava um jornal local, chamado Jornal da Globo. Eu assinei um contrato em maio de 1969, o Jornal Nacional foi ao ar em setembro.

Nessa época era comum aproveitarem as pessoas e a programação do rádio...

Era normal eles aproveitarem gente que já estava no ambiente de rádio, teatro... A televisão ficou com jeito de rádio durante um tempo. Antigamente, um locutor que não pronunciasse o “r” nem o “s”, não era locutor. Quem ficasse mais tempo sustentando a letra era melhor. Mas eu sempre procurei adequar essa linguagem, quanto mais natural, melhor.

Tem uma história que você ficava aquecendo a voz enquanto ia para o estúdio...

Tanto no rádio quanto na televisão, era preciso aquecer a voz. É como afinar um instrumento. Se você for a um teatro que tenha orquestra, você vai que antes do espetáculo eles afinam os instrumentos. Com a voz é a mesma coisa. Eu comia alho, cebola, cravo, gengibre, sal grosso. Todo mundo fazia a mesma coisa na época do rádio.

Como ficava o clima na redação do Jornal Nacional quando acontecia alguma coisa grave, como o sequestro do embaixador americano?

Sempre que acontecia algo como o sequestro do embaixador norte-americano, a redação ficava tensa. O que é normal em uma situação dessas. Nessa época, eu ia lá e apresentava o jornal. Quando eu chegava o jornal já estava pronto. Chegava até atrasado. Ganhava muito pouco, ficava gravando em outros lugares e quando acabava tudo ia para lá gravar o jornal. Eu só apresentava o jornal, eu não era editor.

O Jornal Nacional foi criado para competir com o Repórter Esso. Qual você acredita que foi a principal diferença trazida pelo Jornal Nacional?

O Repórter Esso veio com uma tradição do rádio, porque na época existia uma rádio chamada Rádio Nacional, que era o padrão de rádio naquele tempo e primava muito pelo horário. Principalmente, pelo horário do Repórter Esso. Já aconteceu de eles interromperem a apresentação de cantores internacionais por conta do horário do Repórter Esso. Quando o jornal foi pra TV Tupi, foi mantida a mesma característica. Então todo mundo acreditava nele. As pessoas certavam o relógio pela hora do Repórter Esso. A Globo lançou o Jornal Nacional, que entrava no ar quinze minutos antes do Repórter Esso. Então a Tupi resolveu brigar mesmo com relação do horário com a Globo. Ela adiantou o horário do jornal pra entrar no ar ao mesmo tempo em que o Jornal Nacional, e colocou uma novela em cima da novela da Globo. E ainda me fez uma proposta. Vamos dizer que eu ganhasse 3 mil na Globo, a Tupi me ofereceu 20 mil. Mas eu ganhava mais gravando outras coisas. Então eu disse a eles: “Olha, para ser sincero não vai me interessar. Mas vocês podem me ajudar a ganhar um aumento. Pode fazer onda”. Por coincidência, a Globo queria reformar o contrato também. Eu ganhava 1,5 mil e queriam passar para 6 mil. Uma pessoa da Globo veio me procurar e disse: “Olha aqui, o contrato pra você assinar. Eu olhei: 3 mil”. Aí, eu disse: “Olha, tem um cara da Tupi aí no bar ele está me oferecendo 20 mil”. Então ele foi avisar ao Armando [Nogueira], que ligou para o Walter Clark. O Walter mandou chamar o Boni, que tinha fama de “dar esporro” em qualquer um. Se ele não fosse com a sua cara... Era um cara explosivo. O Armando me chamou para a sala dele e disse: “O Walter pediu pra você ficar aqui na minha sala, que o Boni tá vindo aí pra resolver essa parada”. Eu perguntei: “Mas como é que ele vem? Vem de gracinha comigo?” Na época, o Silvio Santos estava montando o SBT. O Boni chegou lá mancinho, e falou: “Estou recebendo uma proposta do SBT, vou levar metade da comissão. Mas eu acredito mais nessa casa aqui”. Eu falei: “Eu também, só que estão me pagando mal e a Tupi me oferece 20 mil”. Ele falou assim: “Mas, nós não podemos cobrir isso aí não. Nós podemos te dar 8 mil”. Eu estava com 1,5 mil, ia pular pra 8 mil e não estava acreditando na Tupi. Então eu disse “tudo bem, então me manda o contrato, que eu assino”.

Qual o segredo do sucesso do Jornal Nacional?

O segredo é que a Globo é uma grande organização, que leva a sério as coisas. O Sílvio [Santos] também fez a organização dele baseada na Globo e se deu bem, ficou por muito tempo em 2º lugar.

Como foi a sua adaptação às novas tecnologias que surgiram ao longo dos anos no Jornal Nacional?

No caso do teleprompter, instalaram mal o aparelho, então ao invés de olhar pra baixo tivemos que olhar pra cima. A imagem é transmitida em frente à lente e o monitor está em cima, então através de espelhos conseguíamos ler. Era assim, agora acho que não é mais. Enfim, eles colocaram o monitor em cima, mas não o espelho. Então a gente olhava pra cima e olhava pra baixo. Todo mundo estranhou isso. O ponto eletrônico surgiu mais ou menos nessa época, mas era pouco usado. Fizeram uma forma do ouvido de cada um. Quando o computador chegou foram ministrados cursos, eu fiz, todos fizeram. Foi bem difícil e tem gente que ainda se recusa a usar. Hoje em dia eu gravo, uso o computador, gravo e mando [arquivo em formato] .mp3 pra lá. Mas o pessoal da minha idade tinha uma aversão ao computador. É natural, coisa nova. Quando eu cheguei lá tudo era feito com máquina de escrever, datilografia, mimeógrafo.

Como foi a edição especial do JN após a morte do Carlos Drummond de Andrade?

O Jornal Nacional tem um departamento de arte. Eles bolaram essa ideia de fazer diferente. Só que eu acrescentei ao diferente algo mais, que foi o que marcou. Mudamos o formato, foi apresentado em pé, aquela coisa toda, mas a inflexão que eu usei foi o diferente. Ao invés de falar “Boa Noite” no final, eu sussurrei “E agora, José?”. Eu combinei com o operador de som, não falei nada para mais ninguém. Não falei nada com o Armando, nem com o departamento, nem nada. Só falei com o operador: “Isso aqui é só entre nós dois, ok? No final você aumenta o volume, porque eu vou sussurrar”. Ele fez e depois tinha uma fila para me cumprimentar.

Você fez muitas amizades no JN? Como era seu relacionamento com os colegas?

O Armando era o chefe, então tinha que puxar o saco dele... [risos]. Brincadeira, eu era amigo dele, a gente jogava tênis e tudo, a gente se entendia, éramos colegas. Mas não sou muito de receber os amigos em casa. O [Sérgio] Chapelin, por exemplo, nunca veio na minha casa. Eu fui uma vez na casa dele. Eu estava interessado em um apartamento no prédio dele, fui lá ver, então fui à casa dele. Semana passada nós fomos ver um terreno lá em Pedro do Rio e falaram: “o William Bonner mora ali”, eu perguntei: “qual é a casa dele?”, responderam: “Ah, é ali”, aí eu disse: “Ah, então eu vou lá falar com ele”. Cheguei lá e perguntei: “Alô, o William está aí?”, “Quem é que quer falar com ele?”, “Diz que é o Cid.”, “Cid de quê?”, “Cid Moreira.”. A empregada ouviu o barulho e disse: “Olha quem está aí!”. Daqui a pouco ele veio lá correndo, ele estava lá. Estava lá com as crianças... A Fátima [Bernardes] está na África do Sul. Passamos a tarde lá com eles e foi muito agradável. Ele quer que eu faça uma casinha lá por perto, mas eu arrumei uma outra, que é perto também, mas não é no mesmo condomínio.

No livro, você conta que houve uma vez em que você estava no ar e o estúdio pegou fogo. Como é que foi?

Ah, é! Eu e o Chapelin.Foi um plástico que botaram perto da lâmpada. Aquilo foi aquecendo e começou a pegar fogo. E aí a gente não sabia se continuava, ou se parava de apresentar o jornal. Mas aí botaram um slide e a gente saiu, porque estava muita fumaça.

E teve também um episódio de uma mosca no estúdio...

Isso era muito comum, até que houve uma proibição que o sujeito que levar qualquer coisa de comer pra dentro do estúdio é demitido. Não é chamado não, é demitido mesmo. É perigoso até engolir um desses insetos. O Hummel [Marcos Hummel de Castro] uma vez engoliu uma. Ela entrou na boca dele no meio do programa, ao vivo, ele não sabia o que fazer, resolveu engolir. Aí é problema dele, né. [Risos]. Eu teria vomitado ali no estúdio mesmo. E não era mosquinha não, era um moscão! Ele disse que estava meio salgadinha [risos]. E foi por conta dessas coisas que surgiu a expressão “Desculpem a nossa falha”, porque nem sempre a falha era da técnica, né. Uma mosquinha, por exemplo, que tinha a ver com técnica?

Como foi a edição do telejornal que você apresentou com a Nair Belo?

Ah, isso foi antes do Jornal Nacional. Foi na TV Excelsior. Eu li as notícias e ela comentava levando para o humor e aí eu tinha que me segurar, né. E tinha um outro jornal também que eu apresentavana porta da televisão, em Ipanema, também na TV Excelsior. E parava ônibus em frente, era criança, eu nem ouvia o que eu estava falando. E tinha audiência, hein!

Já aconteceu de você se deparar com um notícia muito engraçada e ter que se controlar para não rir diante das câmeras?

Não. O que já aconteceu foi de um dos câmeras arriar as calças naminha frente durante o programa. E eu não achei graça não, eu fiquei com raiva. Foi o Renatão, aquele câmera do Faustão.

Como é a sua relação com a Globo e o Fantástico?

Hoje mesmo eu dei uma entrevista dizendo que eu devo a Bíblia que eu gravei, todas essas produções, eu devo à popularidade ao Jornal Nacional, mas o Fantástico mostrou outro ângulo meu. No Jornal Nacional, a notícia era mais rápida, com o mesmo dinamismo do rádio, diferente de hoje. E o Fantástico, durante um longo período, teve o José Itamar como diretor, e ele escrevia muito bem. Ele pegava uma matéria, e fazia um comentário sobre aquilo, e aquele era o “Boa noite” do Fantástico. Era uma crônica, que até mostraram outro dia no Sport TV. E todo mundo gostava. Graças a essa participação eu comecei a receber convites para gravar outras coisas, como o meu primeiro sucesso, que foi o “Desiderata”, que está sendo cogitado agora de ser regravado pela Sony. O Fantástico começou comigo, fui o primeiro apresentador. Eu devo muita coisa ao Fantástico. Hoje em dia estou afastado, mas recebo para ser exclusividade da Globo.

Já aconteceu de você ler um texto com o qual você não concordava de alguma forma?

Bom, eu vivia corrigindo os redatores, e muitos não gostavam. Às vezes eu mudava coisas no ar mesmo, na hora da leitura. Eu trabalho muito com o ouvido, então, certas palavras, se não forem observadas, o som acaba se transformando num cacófato. Para evitar isso, eu troco as palavras. Uma vez eu gravei um CD para a Polícia Federal e tinha lá uma palavra: ubilubilados. “Os olhos ubilubilados” que significa lacrimejando, e eu quis mudar, porque ninguém ia entender o significado dessa palavra. Nas gravações da Bíblia, mesmo sendo na linguagem de hoje, eu tenho que procurar inverter algumas coisas, mas sem fugir do conteúdo, para evitar esse choque. Eu inventei que não podia separar as sílabas do texto para a TV, porque a gente ia ler e a palavra estava dividida, dava logo pra notar.

Em 27 anos de locução, você nunca teve vontade de produzir conteúdos como repórter?

Não, tinha gente lá que era pago para fazer isso. Talvez, se tivessem pagado o que eu queria, eu ia me dedicar a fazer isso aí. Como agora. A produção da Bíblia eu dirigi tudo, a parte musical, o texto, tudo. Um trabalho de seis anos que me dá bastante prazer. São fases. O trabalho com a Bíblia hoje é algo com que eu me identifico mais.