DOMINGOS MEIRELLES
ENTREVISTA

Realizada por: Aline Pollilo Giorno Freire; Ana Carolina Barbosa Wanderley; Marília Alves Gonçalves; Priscilla Vale Moraes

Data: 06/2008

Qual o seu nome completo?

Domingos João Meirelles.

Onde e quando você nasceu?

Eu nasci no Rio de Janeiro, no Méier, no dia 08 de maio de 1940. Sou filho de imigrantes portugueses. Minha mãe era empregada doméstica e meu pai, num primeiro momento, trabalhava numa empresa de transportes de carruagem – ele era carregador de pianos – e depois ele virou condutor de bonde. Mais tarde, abriu um comércio, conheceu minha mãe e aí começa minha história.

Qual é a sua formação?

Eu não tenho curso superior.

Você começou a trabalhar com jornalismo em 1965. Como iniciou a carreira?

Comecei na velha Última Hora [jornal impresso], na Praça da Bandeira [Rio de Janeiro]. Na verdade, foi o Golpe de 1964 que me empurrou no sentido de fazer essa escolha. Começaram a ocorrer uma série de cassações de políticos, de funcionários públicos, professores de universidades públicas eram aposentados compulsoriamente. E isso tudo começou a me impressionar. Uma aposentadoria tinha a ver com a vida da minha família: era a de um médico que cuidava da minha mãe, do antigo Instituto Manguinhos, hoje Fundação Oswaldo Cruz. Esse médico era uma pessoa muito frágil fisicamente, uma pessoa inexpressiva. Eu não entendia como uma pessoa tão frágil podia representar algum tipo de ameaça a um governo militar. Eu fiquei tão indignado e pensei que precisava fazer alguma coisa. Eu era vendedor de máquinas de escrever nessa época. Resolvi então procurar a UH, que ficava na minha área de serviço, e me alistei. Pedi para fazer um estágio. Naquela época era assim que as coisas funcionavam. Eu tinha seis meses para provar a mim mesmo e à redação que eu levava jeito para exercer a profissão. Era um estágio não remunerado, eu tinha um bom pé de meia para me sustentar. Logo com um mês e dez dias eles me efetivaram.

Você teve alguma relação com Samuel Wainer nesse período?

Não, o Samuel estava no exílio. Eu fiquei pouco tempo na UH – um ano e sete meses (durante todo esse período Wainer estava exilado). Fiquei logo com o segundo salário da redação, o que gerou um certo desconforto. Depois eu fui para Editora Abril. Na época, a Editora Abril era o que seria hoje a TV Globo. Passei pela revista Cláudia, [revista] Quatro Rodas, e logo em seguida me fizeram um convite que hoje eu não entendo muito bem – eu fui para [revista] Realidade muito jovem. Era talvez a maior publicação da imprensa contemporânea.

Ainda neste período da UH, tem algum episódio que você destaque?

A UH tinha uma característica muito especial: era um jornal que tinha um lado, tinha um rosto. A UH tinha sido o único jornal que não apoiou o Golpe que derrubou o presidente João Goulart. A grande imprensa brasileira apoiou o Golpe. Havia uma relação entre Jango e Samuel Wainer muito grande; ligação afetiva e política também muito estreita. A UH teve a sua redação quebrada. Um grupo invadiu a redação, empastelaram a gráfica e iniciaram até um incêndio na garagem do jornal. O incêndio foi rapidamente controlado, porque os bombeiros ficavam ali na Praça da Bandeira. Então, o Samuel estava no exílio quando eu vou para Última Hora, que tinha essa característica fundamental de ser um jornal também de bachareis. Quase que 90% da redação era formada em direito, mas não exerciam a profissão. Eles tinham também esse sentimento muito arraigado de defesa do estado de restabelecimento das liberdades democráticas, das garantias individuais – um compromisso que era também do advogado. Aquela redação também tinha figuras brilhantes, por exemplo, o Maurício Azedo. Naquela época tinha uma coisa que hoje não existe: o recém-chegado, o noviço, era adotado por um profissional mais antigo. Ele passava a ser o foca. Esse profissional mais antigo ficava sendo responsável pelo processo de formação desse recém-chegado. E isso é Fantástico. Ele levava a sério, ele cobrava, queria ver o texto que você fazia, te dava “esporro”. Isso é uma fase. Hoje com a concorrência, a globalização – a tragédia que vem com a globalização da economia (que é o conto do vigário, a última cartada do capital financeiro internacional), acabou com uma série de coisas. A relação entre as pessoas hoje é mais difícil, na chamada economia de mercado, onde prevalece o lucro, onde o lucro é mais importante do que as pessoas. Essa minha escolha pela Última Hora foi fundamental. Se eu tivesse feito uma outra eu não seria o profissional que sou hoje. Eu acho que o fato de eu saber que aquele jornal tinha uma estrela-guia, tinha um norte, marcou minha vida pessoal e profissional até hoje.

Além disso, Samuel era um apaixonado pela profissão. Ele era até uma pessoa com uma visão um pouco romântica do ofício. Que jornalista te orientou na UH?

Foi o próprio Maurício Azedo. Tinham outras figuras também. O Nilson Lage, que era um professor aposentado da Universidade Federal de Santa Catarina... Mas era o conjunto da redação que era exuberante. Assim, você era naturalmente contaminado por aquelas pessoas com as quais você trabalhava. Eu fiz outras matérias extremamente interessantes. Por exemplo, a própria matéria que me leva a ser efetivado foi pura sorte. O José Amilton Ribeiro, com quem eu trabalhei na Realidade, dizia que o profissional não basta ser bom, ele tem que ter sorte. É feito goleiro de futebol: não basta ser um bom goleiro, ele tem que ter sorte. E eu logo no primeiro mês liguei para vários oficiais do exército. Era o primeiro aniversário da Revolução [Golpe] e eu tinha que recolher depoimentos. Eu liguei pro general Eurico Mourão Filho, que foi o general que ocupou o Rio de Janeiro com as tropas de Minas Gerais, e ele rompia com a Revolução naquela entrevista. Esculhambou com Castelo Branco, com outros militares, dizendo que os militares não tinham honrado o acordo que fizeram com Juscelino. Cassaram Juscelino, o que era um absurdo. Então, eu fiz a matéria e entreguei. Me disseram: “te passaram um trote, você ligou para outra pessoa que não era o Mourão Filho”, e eu pensei “perdi o emprego”, “acabei de fazer uma bobagem”. Mas, na verdade, era o Mourão Filho mesmo e eu fui efetivado naquele dia. Naquele dia, quando o chefe de reportagem vai à casa do Mourão e volta com a entrevista rubricada, o diretor de redação vem para mim e fala “garoto, além da contratação você tem mais 10% de aumento”. Ganhei dois prêmios no mesmo dia: fiquei com o segundo salário da redação com um mês e pouco de trabalho. Mas foi muito interessante o convívio, eram profissionais muito brilhantes.

Você se lembra de algum episódio de censura neste período?

Não, não... A censura, na verdade, começa com o Ato Institucional nº5. Antes disso não havia censura, porque os jornais estavam apoiando o golpe. A grande imprensa apoiava o golpe, com a exceção da UH. É claro que havia intimidações. Militares ligavam para o jornal com ameaças, mas não era a censura institucionalizada que passa a ocorrer a partir do AI-5.

Como surgiu o convite para trabalhar na Editora Abril em 1968?

Eu começo a trabalhar na Abril em 67. Eles estavam à procura de um repórter habilidoso e novo, e aí eu fui indicado. Até hoje eu não sei exatamente as pessoas que me indicaram – talvez o próprio Maurício Azedo tenha sido uma das pessoas – e aí eu fui. Já entrei com um salário muito grande em relação ao que eu ganhava na UH. Eles pagaram três vezes mais do que na UH. Na época era uma grana boa.

Você sai de uma cobertura política para uma revista de carros e uma revista feminina. Como é que foi isso?

Na verdade, eu sempre fui um repórter político, mesmo trabalhando nessas revistas. Não é a publicação que vai te dar uma identidade, essa identidade já é sua do ponto de vista profissional. Por exemplo, na Quatro Rodas, apesar de ser uma revista de automobilismo, eu fiz matérias políticas. Fiz uma matéria de denúncia sobre um cérebro eletrônico (um computador) que o Detran do Rio compra para comandar a sinalização do centro, e quando o equipamento chegou, eles viram que compraram errado. Aí eu fiz uma matéria de “porrada” mostrando que, na verdade, ali haviam interesses escusos. Depois fiz uma matéria que teve um grande impacto na época sobre o roubo de automóveis no Paraguai. Os carros eram roubados no Brasil e levados pro Paraguai e nunca ninguém tinha publicado nada sobre isso. E também foi por acaso que eu descobri isso. Estou inclusive escrevendo um livro sobre essas matérias. Como, de repente, você olha, acha estranho, depois chega perto, sente o cheiro e pensa “aqui tem uma boa história escondida”. Então, quando você tem um norte político, você pode trabalhar até numa revista de cozinha, que você vai encontrar o seu caminho luminoso.

Você disse que a Realidade foi uma revista muito importante. Por quê?

Era um jornalismo literário. A revista e os profissionais eram brilhantes. Não só do ponto de vista profissional, mas intelectual. A gente dizia que era uma redação de doutores – literalmente de doutores (um era médico, o outro era físico, químico, engenheiro agrônomo). Eu era o único que tinha sido vendedor de máquina de escrever [risos]. Isso foi muito difícil para mim, porque eu tive que desenvolver uma habilidade por não ter o lastro intelectual que eles tinham, eu não tinha a cultura que aquela redação tinha. Então eu tive que desenvolver uma habilidade para compensar esse desnível. Eles tinham me convidado, porque eu tinha ganhado o prêmio Esso também muito novo, com uma matéria a partir de uma carteira de motorista que eu comprei para um cego (foi para revista Quatro Rodas). Isso deu uma confusão aqui no Rio de Janeiro e eu tinha só três anos de profissão. Até a comissão julgadora ficou em dúvida se eu deveria ganhar ou não, porque eu era muito novo. Até me tiraram da premiação, depois me colocaram na premiação... É uma história que eu estou contando pela primeira vez. No final, resolveram me dar o prêmio Menção Honrosa. Então, isso chamou a atenção do pessoal da Realidade – não só a matéria. E aí como é que eu enfrentei aquele bando de feras? Eu desenvolvi uma técnica de escrever uma entrevista com o máximo de detalhes, o que atendia ao chamado jornalismo literário da revista. Eu estou aqui com você, por exemplo, aí eu descrevo o seu anel, a maneira como você está conversando comigo... Eu usei uma técnica quase que cinematográfica para escrever. Como eu não tinha o lastro cultural, o mesmo embasamento que eles tinham, eu então recorri a essa estratégia de descrição “fotográfica”. Então, o leitor via a entrevista como se ele estivesse a vendo, participando dela. Essa foi uma técnica que eu utilizei como uma forma de sobreviver naquele ninho de excelência, de pessoas extremamente competentes. Hoje, de um modo geral, os repórteres usam gravador. Por isso, eles não têm como registrar certos aspectos muito interessantes que estão acontecendo durante a entrevista. Eu raramente usava gravador, mas sempre pegava uma carona em quem usava. O cara que usa gravador está preocupado em ver se acabou a fita e deixa de perceber esses detalhes. Quando eu ia fazer uma entrevista eu anotava tudo. O que eu anotava dava para fazer três vezes mais do que eu colocava no papel. Eu anotava tudo: roupas, mancha na camisa, nó da gravata mal feito, tudo. Porque eu também construía a identidade do entrevistado. Você pode achar que isso hoje em dia é bobagem, mas eu não acho. Às vezes um detalhe é extremamente revelador: um sapato com a sola furada, meias trocadas. Esses detalhes são às vezes muito mais reveladores do que o que ele está dizendo, que pode ser um teatro, mas ele se trai num gesto, na maneira de se apresentar, de se expressar.

E desse período da [editora] Abril tem alguma matéria que você destaque?

Ah, sim. A Abril foi fantástica. Primeiro pela convivência com essa turma. Eu aprendi muito. Vivi os dois grandes momentos da revista Realidade: o momento do apogeu e depois quando ela entra em processo de sangramento. A editora Abril começou a sangrar a revista, para que ela morresse e a Veja pudesse sobreviver. Então, eu acompanhei a revista no seu apogeu e depois nesse processo de autodestruição promovido pela empresa, porque eles precisavam abrir espaço para Veja.

E o que você acha da posição e da postura da Veja hoje em dia?

A Veja está um pouco perdida, mas eu acho que não é só um problema desta revista. O problema é da imprensa brasileira de um modo geral. A Veja está um pouco atrapalhada, eles estão pisando nos próprios cadarços.

Depois você deixa a revista Realidade, quando ela morre...

Quando eu deixo a Realidade ela ainda está viva, mas em processo agônico. Aí já era o Mino Carta o interventor da revista. Eu pedi para ele me transferir para Veja, porque ele dirigia a Veja e dirigia a Realidade. Eu morava em São Paulo nessa época e pedi a ele que me transferisse para Veja do Rio. Ele me disse “não, tem um convite do Jornal da Tarde para você”. O Jornal da Tarde foi fundado pelo próprio Mino. Foi um jornal brilhante, Fantástico. Ele me disse para ir pro Jornal da Tarde, porque era um jornal de grandes reportagens. Ele disse que se eu fosse para Veja, tudo que eu visse ao abrir a revista eu diria “essa vírgula é minha”.

E aí, então, você vai pro Jornal da Tarde.

Sim, depois eu vou para O Globo – fico dois anos n’O Globo – e volto (para São Paulo) para o jornal O Estado de S. Paulo, onde fico 10 anos como repórter especial.

Como foi essa passagem pela reportagem especial no Estadão?

Eram reportagens políticas... (desânimo) Depois dos 10 anos a Rede Globo me convidou para ser repórter especial aqui no Rio de Janeiro. Isso me causou uma certa perplexidade porque a televisão não estava nos meus planos. Eu não tinha nenhuma ambição, não pensava em fazer televisão. Num primeiro momento, achei que fosse uma brincadeira da redação quando disseram que tinham ligado para mim da TV Globo. Havia um colega que era muito brincalhão, o Maurício Menezes (esse que faz aquele espetáculo, “divisão de sequestro”), e eu achei que fosse mais uma das brincadeiras dele, que trabalhava no Estadão e n’O Globo. Mas na verdade era um convite. Então eu fui conversar com o Armando Nogueira e a Dulce Maria. Até perguntei a eles porque eles estavam me convidando, porque isso não fazia parte do meu projeto profissional. Vendo hoje, acho que fui até um pouco deselegante. Eu disse “ué, mas eu não tenho olhos verdes” – eu não tenho nada a ver com o biotipo do profissional da televisão. E o Armando disse, “olha, não estou interessado nos seus olhos verdes, mas nos seus cabelos grisalhos”. Aí começou uma discussão meio maluca sobre a barba e o cabelo, que batia nos ombros. Então ele disse “vamos cortar então o cabelo”. Depois mandou eu cortar um pouquinho a barba, porque a minha barba era muito grande! E isso tudo não entrava na minha cabeça. Eu não tinha nada a ver com profissional de televisão. Bom, aí eu acabei ficando na TV Globo. Foi uma coisa muito complicada para mim, porque eu fui muito hostilizado pelos meus colegas na redação Rio. Eu fui contratado para estrear no Jornal Nacional dentro de um mês – olha que coisa complicada isso! Você tinha gente lá na editoria Rio que estava há anos sem nunca ter feito nenhuma matéria pro Jornal Nacional, aí vem um cara de fora que não entende porra nenhuma de jornalismo de televisão, e vai pro Jornal Nacional. Isso causou um certo mal estar, um certo desconforto. Mas eu realmente estreei no Jornal Nacional em janeiro de 86. Eu já tinha 20 anos de profissão, não era nenhum amador.

Na verdade, as pessoas que me orientaram na televisão foram meus cinegrafistas – foram os que se apiedaram da minha desgraça. Quando eu ia gravar com eles uma matéria, eu tinha que gravar uma passagem, eu dizia “o que você acha que eu devo fazer?”, e eles diziam “escreve aí o texto”. Aí eu fazia o texto, lia e eles diziam “está muito ruim, uma porcaria”, “você não está escrevendo para jornal”, “você tem no máximo 30 segundos”, “corta isso!”. Eu tinha a humildade de pedir ajuda e de ouvi-los. Aquele era um veículo novo para mim – eu estava aprendendo a andar de patins no gelo, e eles já tinham intimidade não só com os patins como também com a pista. O Toninho Marinho e o Zeca Bahiense, por exemplo, que ainda são cinegrafistas da TV Globo, foram fundamentais. O Toninho dizia assim “lê agora aí de novo”, mas ele não me via, só queria ouvir a voz. Aí “pó, muda... fala igual ao Chapelen”. Eu devo muito aos cinegrafistas esse toque. Até hoje eles são muito meus amigos. Quando eu vou à editoria Rio, todo mundo vem conversar comigo... É uma festa! Porque eu os tratei sempre muito bem. Também sempre tratei os fotógrafos de uma forma muito correta, porque eles eram meus colegas de trabalho, né? Enquanto outros profissionais, não – tratavam os fotógrafos como uma coisa menor, inferior. Eu sempre os tratei como iguais a mim. Eu dependo deles, e aprendi isso em revista. Se o cara não faz boas fotos, ele me derruba. Então, a minha relação sempre - primeiro com os fotógrafos, depois com os cinegrafistas e com as equipes, quando eu vou para o Globo Repórter - foi muito harmoniosa e afetuosa. Essa é a chave.

Você disse que não se imaginava na televisão, então o que te levou a aceitar este convite?

Na verdade eu até disse para o Armando: “olha, Armando, o meu sonho é ser correspondente d’O Estado de S. Paulo em Paris”. Mas aí o Armando disse “mas lá está o Gilles Lapouge, e ele não vai se aposentar porque você está querendo ir para lá. Vai para televisão... é um veículo interessante...”. Então eles tiveram que me convencer que a televisão era uma coisa interessante. E também pelo salário, que representou umas três ou quatro vezes o que eu ganhava no jornal. E aí eu fui para TV. Quando cheguei, não fui recebido como na velha Última Hora. Houve uma certa ciumeira, que, aliás, eu até entendo hoje. Na época eu sofri muito. A minha chefe de reportagem da editoria Rio ficou seis meses sem me dirigir a palavra. Logo depois, fui para o Fantástico. Fiquei lá uns seis meses, o que foi bom para eu também adquirir um pouco de preparo físico – vê como eram feitas as matérias. Eu ainda fiz reportagens para O Globo Repórter e algumas matérias especiais para o Jornal Nacional.

Você passou dois anos no jornal O Globo (1974-1976), na época da Ditadura Militar. Você teve algum episódio de censura? Como ela agia?

Você tinha que ter muito jogo de cintura. Eu tinha uma defesa, que era a soma de todas as minhas experiências. Eu tinha trabalhado na Última Hora, na Editora Abril, no Jornal da Tarde. Então, quando vou para O Globo eu já tenho um referente de experiências. Com isso, pude exercitar algumas habilidades, vamos dizer assim, em lidar com uma nova realidade, que era a censura dentro do jornal. Eu desenvolvi lá (meus colegas contemporâneos podem dizer se eu estou mentindo) o que eu chamei de subtextos. Numa primeira leitura você não percebe que tem alguma coisa era o que a gente chamava de contrabando. Ele era usado nas matérias, e às vezes a própria equipe de reportagem e direção de redação não percebiam. Mas um leitor mais atento iria perceber uma mensagem subliminar que era mais importante que a matéria principal.

E os censores também não percebiam isso?

Não, porque ali não havia censura, os jornais acatavam. Eu vou enfrentar realmente a censura e a figura física do censor no Estadão. Até ali os jornais acatavam as instruções que a Polícia Federal dava por telefone: “olha essa matéria”, “cuidado com ela” ou então, “não pode publicar isso”. Tem um livro chamado Cães de Guarda da professora Beatriz Kushnir que fala muito sobre essa autocensura que os chefes de redação faziam na época. Mas na verdade, eu só vou enfrentar o censor mesmo a partir de 1963.

No Estadão alguma reportagem sua foi censurada?

Não, mas um pouco antes no Jornal da Tarde fiz uma matéria que gerou uma situação complicada. Eu reconstituí a marcha da Coluna Prestes, viajando durante um mês e meio com um fotógrafo. Ela foi publicada em oito páginas! Os militares não cortaram a matéria porque muitos nunca tinham ouvido falar daquela história. Eu tinha como dois elementos o Marechal Cordeiro de Farias e o Juarez Távora, que eram personagens da matéria. Como eles eram tenentes e fizeram aquela marcha rebelde, então isso deu uma certa tranquilidade, como se fosse um habeas corpus. Mas essa matéria me trouxe problemas na época. Ela era uma novidade, que depois virou meu primeiro livro (Noites das grandes fogueiras, Record, 1995). Ele surgiu dessa matéria com vinte anos de pesquisa. Eu fiz uma outra matéria no Jornal da Tarde, em plena ditadura, sobre a inauguração do prédio do BNH [Banco Nacional da Habitação]. Eu fui até lá e encontrei o coronel chefe do Serviço de Segurança e Informações que me sabatinou sobre a matéria. Na hora eu inventei uma história sobre um concurso de projetos em Milão e que o projeto do BNH tinha sido extremamente elogiado e essa era a razão da minha presença ali. Eu fiquei lá um dia e meio, com o arquiteto chefe, visitando o prédio de vinte e poucos andares que ainda não estava ocupado. Era um desperdício de dinheiro inacreditável! Só a sala do gabinete da presidência era de 400m², tinha tapete de pele de carneiro de 15cm de espessura, eles contrataram o escritório de um design holandês para fazer o projeto imobiliário! Então fiz um acordo com o arquiteto de que eu iria levar o texto para ele aprovar, mas eu me atrasei e tive que ler o texto pelo telefone para ele. Eu construí um texto extremamente elogioso e exageradamente debochado, só que ele não percebeu. O arquiteto respondia: “bondade sua”, “a equipe se sente muito envaidecida com seu comentário”. Eu usei de ironia fina no meu texto. Depois eu raciocinei da seguinte forma: se o cara engoliu, os censores de São Paulo podem ou não engolir. Eles engoliram, a matéria saiu e deu uma confusão desgraçada. Os censores foram todos transferidos para o interior do país porque eles não tiveram a sutileza de perceber.

Sobre a sua passagem pela Rede Globo, como era o comando de Armando Nogueira e Alice Maria?

Eram brilhantes, não existe uma segunda Alice Maria e nem um segundo Armando Nogueira. Eles eram pessoas exuberantes, que dominam o segredo do oficio na televisão. Eles sabem o que é notícia de TV e como ela deve ser tratada. Os dois são ours concurs.

Qual era o perfil do Jornal Nacional nessa época?

Era uma outra época, tinha o Cid Moreira e o Sérgio Chapelin apresentando o telejornal. O jornal investia muito em matérias fora do Brasil, as especiais. Quando acontecia um fato aqui na América Latina, eles já mandavam uma equipe. Era um jornal muito presente aqui no continente, como também no mundo. Ele tinha uma grande sucursal. Não tinha como concorrer com o Jornal Nacional. Ele era muito completo, atento a tudo que acontecia no mundo.

Como você avalia o Jornal Nacional hoje?

É um outro momento, as pessoas são outras. Tudo é também uma questão de geração. Eu diria que o Jornal Nacional em que eu trabalhei tinha um outro perfil. Hoje é tudo muito caro. As emissoras (não só a Rede Globo) se preocupam muito com o custo e isso é ruim. É preciso investir. Televisão é um negócio caro por natureza. Mas para ter um bom resultado é preciso investir – não tem mágica em televisão. Ou você investe ou perde qualidade. Mas o Jornal Nacional está dentro do que é hoje a televisão, com as possibilidades que ele tem em fazer um bom telejornal.

Quando você começou a fazer matérias para o Globo Repórter?

Uma vez fiz uma matéria de roubos de automóveis para Globo Repórter que duraram dois programas. Viajei durante dois meses. Isso hoje é impensável. Eu fiz dois programas sobre roubos de aviões. Eles saíam do Brasil, eram levados para a Bolívia e depois para a Colômbia. Esses aviões pousavam no mar do Caribe e tinham vinte minutos para descarregá-lo e passar a cocaína para uma lancha. Isso porque quando você entra no espaço aéreo americano o sistema de defesa funciona, né? Os aviões, a guarda costeira. Essas operações eram feitas à noite e os aviões pousavam na água, perto das Bahamas. Esses aviões estão no fundo do mar até hoje!

O formato do programa naquela época era diferente do que é hoje?

Não, é diferente. Eu me lembro bem que o Armando Nogueira viu uma entrevista que eu fiz, e disse para mim: “Precisamos ir até o Paraguai localizar quem vende armas para o tráfico”. Eu fiquei branco, eu disse que não conhecia e que era difícil. O Armando respondeu: “Não, você consegue!”.

Quem era o apresentador na época?

Era o Celso Freitas.

Recentemente nós vimos uma reportagem da Ana Paula Padrão (O Trem da Escravidão), para o SBT Realidade, sobre o trabalho escravo, que durou quinze dias para ser realizada. Você falou que hoje as reportagens não dispõem de muito tempo para serem feitas. Você acha que isso é um problema da Globo?

Mas essa é uma viagem mais rápida, né? No meu caso foram dois meses. Deve ver qual é a orientação da própria direção do programa, o que eles estão tentando. Por exemplo, hoje eles imaginam pelo que o telespectador do Globo Repórter se interessa. Eles fazem lá suas pesquisas e as suas escolhas. Na minha época era outra coisa. A gente saía mais ou menos com uma pauta, mas a gente ia “escavar” a matéria. Nós não tínhamos nada “mastigadinho”. A gente tinha um tema, discutia mais ou menos, pegava o dinheiro e pé na estrada.

E se acontecesse de não encontrar nada?

A gente fazia uma produção de contatos. Até hoje eu tenho contatos com o exterior, com jornalistas que eram da época da Realidade, de quando eu viajei por toda a América Latina. Esses contatos que eu fiz quando trabalhava na Editora Abril me ajudaram também n’O Globo, quando era repórter especial e viajava muito. Eu tinha um bom caderno de telefones que fez minha vida também na televisão. Ele era bom aqui no Brasil e no exterior. Eu tinha os amigos que me esperavam e ajudavam: os motoristas de táxis, que sabiam tudo e já no aeroporto davam algumas dicas. Era muito interessante. São contatos para a vida inteira.

Você disse que não tem diploma de jornalista. O que você acha da institucionalização da profissão? Você acha que o diploma é importante?

Eu acho que tem que ter um curso superior. É fundamental. Os jornais e algumas empresas são contra isso, porque eles querem reduzir ainda mais o piso salarial. Eles defendem que a exigência do diploma impede que outros saberes se expressem jornalisticamente, por quem não é jornalista. Então que façam artigos, eles não precisam fazer nenhuma reportagem. Alguns jornais querem acabar com o diploma para aviltarem ainda mais o salário profissional. Mas eu acho importante não só por questões de salários, como também de qualificação profissional. A academia hoje, mesmo com muitos defeitos que ela apresenta, sempre é um ganho. Imagina se eu tivesse a chance de ter frequentado uma universidade. Eu tive que me virar, mas se tivesse esta oportunidade eu seria um profissional mais qualificado. A academia tem por obrigação formar um bom profissional e não é difícil exercitar o senso crítico, o que atualmente não acontece nos cursos de comunicação. Os alunos desperdiçam a coisa mais interessante que é exercitar o olhar. Como é que você vai vislumbrar certas matérias, ter visão crítica da própria sociedade... Isso tudo é um exercício. Vocês passam pela vida acadêmica tendo noções de ética, religião, não é por aí que as coisas acontecem. Tem que discutir o real e o concreto, que mundo é esse que você vive. Eu costumo dizer sempre em palestras que nessa profissão você precisa ter um lado. Você vai colocar a sua pena a serviço de que interesses? Do opressor ou do oprimido? De quem explora ou do explorado? Da vítima ou do algoz? Então é necessário ter essa percepção. Isso o jovem não tem, ele sai meio robotizado dos cursos de comunicação e muitos se desencantam. O mercado de trabalho se achata e está cada vez mais difícil. Os jornais estão diminuindo em todo o mundo e em particular no Brasil. Por exemplo, eu fui fazer uma palestra na Bahia e uma menina que me atendeu no balcão da TAM era jornalista, o rapaz do supermercado Extra era jornalista, como também a gerente do Banco Real. As pessoas se decepcionam porque não foram treinados e é claro que também não há emprego para todos. Vão sobreviver aqueles mais qualificados que se preparam e desenvolveram certas habilidades.

Fale um pouco sobre a sua passagem pelo [programa de TV] Fantástico.

Quem me levou para o Fantástico foi o José Itamar de Freitas, que havia sido integrante do júri do Prêmio Esso quando a minha matéria foi selecionada. Foi ele quem lutou (isso ele me conto anos depois) para que a minha matéria fosse incluída entre as selecionadas. Ele tinha uma simpatia muito grande por mim e quando eu fui para a TV Globo, ele me convidou para ir para o Fantástico. Eu viajei muito pelo Fantástico. Uma matéria que eu gostei muito foi sobre o Tenório Júnior, pianista do Vinicius de Morais, que desapareceu na véspera do golpe militar da Argentina. Dezesseis anos depois, eu volto com a mulher dele à procura ou do corpo ou do que tinha acontecido. O pianista não tinha ligação nenhuma com a política Argentina. Eles só o prenderam porque era barbudo e vestia calça jeans, considerada características de um subversivo. Meu tempo no Fantástico foi fantástico! Fazer as matérias era muito bom, elas duravam cerca de 20 minutos, ao contrário do que é hoje.

Como foi acompanhar as eleições de 89?

Eu estava no Globo Repórter e fui escalado para acompanhar o Collor. Se ele fosse presidente minha matéria seria exibida e se fosse o Lula [Luís Inácio Lula da Silva], era a do Ernesto Paglia. Eu tive que acompanhar o Collor [Fernando Collor de Melo] já na reta final. Como ele foi eleito, a minha reportagem foi exibida.

E no episódio do debate, você acha que houve manipulação?

Eu estava fora do país e não acompanhei o processo bem, eu cheguei exatamente no meio dessa discussão. Não sei se houve manipulação, porque existem várias versões e eu gosto de expressar a minha opinião quando eu tenho certeza do que eu vi. Como estava fora, não sei exatamente como ocorreu.

O que mudou no jornalismo da Globo com a saída do Armando Nogueira?

O Alberico [Souza Cruz] foi um grande diretor também, soube dar prosseguimento ao trabalho do Armando. Ele era muito esperto. Tinha trabalhado na Editora Abril, no Jornal do Brasil. Era um diretor muito antenado. Eu lembro que cheguei uma vez de Salvador, onde estava fazendo uma matéria sobre o soterramento de um hotel por causa de uma grande enchente. Eu fiquei vários dias lá tentando contar a história. Quando eu cheguei, o Alberico falou para mim: “Não, não vai em casa não! Você daqui a pouco vai viajar para a Colômbia”. Tinham matado alguém por lá, não lembro se foi um juiz... E eu respondi, “mas Alberico, eu acabei de chegar!”. Aí ele disse “não, não... isso tá no seu contracheque, faz parte da sua vida”. Pode procurar o pessoal do núcleo de reportagem lá”. Eu tinha acabado de chegar da Bahia, tava sujo de lama, só tive tempo de comprar um sapato. À noite, eu estava viajando para Bogotá.

Como você conseguia conciliar sua vida pessoal com essa rotina?

É, é complicado... Minha mulher até hoje reclama, dizendo que eu vivi mais para os meus prêmios do que para família. Vocês não terão os mesmos problemas que eu tive, porque vão ficar fora de casa no máximo três, quatro dias... [risos]. Eu ficava dois meses.

Quando e por que você saiu da Globo?

Foi um convite que me foi feito. Era a estreia do Complexo do Anhanguera. O SBT tinha estreado o seu Projac. Recebi o convite de participar do SBT Repórter, onde encontrei grande parte da equipe do Globo Repórter: Cabrini, Zileide Duarte, Hermano Henning e outros colegas. Então eu me senti em casa. Dobraram meu salário e ainda me deram um carro com motorista. Fiquei lá dois anos e depois tive uma rápida passagem pela Record, quando a Marluci me ligou para ir de novo para Globo, alegando que eu não tinha assinado contrato, então tinha que voltar. Isso provocou um certo desconforto na Record, porque eu estava implantando um projeto de um programa (que está no ar ainda), o Câmera Record. Fiquei um ano em casa porque não havia programa para mim e foi quando eu comecei a tocar o segundo livro, 1930: Os órfãos da Revolução, que é de certa forma, uma continuação do meu primeiro livro.

Como foi sua passagem pela Manchete? Como era o jornalismo lá?

Eu não fui para Manchete! [risos] Cheguei a receber um convite. Vejam vocês como é a vida: no mesmo dia, eu recebi três convites – um para fazer uma campanha política, no Rio de Janeiro, do Duda Mendonça, mas eu não quis; recebi um convite da Revista Época, que estava para ser lançada; e o outro era o convite para ir para TV Manchete. Inacreditável! E dois dias depois, recebi um convite da Bandeirantes, que era para substituir o Paulo Henrique Amorim no Jornal da Band, mas eu não podia substituí-lo, porque nós tínhamos uma boa relação na TV Globo. E a briga dele com a casa ia passar... Depois eles iam fazer as pazes. Mas eles não aceitaram muito bem. Era um convite muito delicado. Você brigou hoje, mas amanhã faz as pazes. E eu também tinha os outros três convites para resolver.

Por que você decidiu ir para Record?

Eu acabei indo para Record por causa do salário e do projeto. Ah! Eu recebo o convite da Época, da campanha eleitoral e da Manchete. Aí depois ainda me vem o convite da Record. Então, eu podia me dar ao luxo de fazer uma escolha.

Então você não pôde terminar esse projeto na Record?

Eu implantei e saí. Fiz dois pilotos que não foram ao ar e me tiraram do programa. O primeiro programa era sobre mães que investigavam a morte dos filhos, elas mesmas se reuniam. Muito interessante. E o outro era sobre desaparecidos, pessoas que desaparecem, mas que não são sequestradas. Tinha que discutir esse fenômeno, porque não é um fenômeno só do Brasil, é do mundo. Milhares de pessoas desaparecem pelo mundo sem deixar pistas.

E era você quem escolhia esses temas?

Era sempre eu que escolhia. No Globo Repórter então eu sempre tive sorte. Porque já tinha experiência nesse tipo de matérias na Realidade, no Jornal da Tarde, na Quatro Rodas. Então, eu diria que boa parte do que eu fiz na Rede Globo eu mesmo sugeri. Algumas eram até “remake”, como a matéria do roubo de automóveis com a qual o doutor Roberto Marinho ficou muito impressionado e me convidou para um almoço. Acho que eu fui o único repórter que ele convidou para um almoço. Na verdade, eu tinha feito aquela matéria há 20 anos para Quatro Rodas. Então algumas eu só revisitei com uma câmera, matérias que tinha feito com o fotógrafo. Eu volto aos mesmos lugares com uma equipe de produção. Nesses casos eu já dominava o assunto, já tinha mais maturidade profissional. Sempre tive muita sorte nas matérias que eu fiz.

Cada vez mais a gente percebe que o jornalista além de ser bom, precisa ter sorte...

Eu, por exemplo, até mesmo nos dois livros, acabei desenvolvendo uma técnica... Hoje eu não faço outra coisa senão ir a cursos de história e cursos de pós-graduação em literatura para discutir narrativa, construção literária. Foi uma habilidade nova que desenvolvi. Por exemplo, no curso de história me perguntam “mas como você descobriu esses documentos?”. Aí entra o repórter. Eu abro armários e gavetas que o historiador, em função da sua formação acadêmica, ortodoxa, acha que não tem nada. Mas o repórter tem que estudar todas as possibilidades. Então, armários e gavetas que por eles passaram batido, eu encontrei coisas fantásticas. O primeiro livro tá na 13ª edição, com 60 mil exemplares vendidos, um livro que é um “tijolasso”! Ganhei o prêmio Jabuti na categoria reportagem, em 1996. No segundo, eu desenvolvi uma outra técnica, que eu chamo de cruzamento de leituras, muito interessante. Eu viajo pelo Brasil para explicar como construí esse livro, como eu trabalhei com diferentes olhares para construir essa narrativa. Com ele acabei também ganhando o Jabuti na categoria Ciências Humanas, em 2006. E foi uma surpresa, porque eu competi com profissionais muito mais qualificados do que eu: Marilena Chauí, professor Roberto Romano e até uma professora que eu estava lendo o livro dela, Maria Lucia Garcia Palhares Burke. Ela é mulher de um historiador inglês, Peter Burke. E eu tava lendo um livro que ela escreveu sobre Gilberto Freire, Um vitoriano dos trópicos. E aí de repente eu estava indo fazer uma palestra no Alegrete, no interior do Rio Grande do Sul, e recebi um telefonema da Câmara Brasileira do Livro dizendo que eu estava classificado entre os 10 indicados para o prêmio. Quando cheguei a Alegrete – uma viagem longa de 6 horas – a menina me liga já à noitinha para dizer que eu havia ganhado o prêmio Jabuti de 2006. Eu acho que é uma possibilidade que os profissionais de comunicação devem levar em conta, para desenvolver novas habilidades. E esse é um mercado muito bom. Que diga o Fernando Moraes, Rui Castro, todos jornalistas, que hoje são pessoas extremamente requisitadas pelas editoras para desenvolver projetos. Esse é um negócio novo dentro da nossa área de trabalho, seja escrevendo biografias ou sobre história, que no caso é uma área que eu gosto muito.

Vamos falar um pouco sobre o Linha Direta. Como surgiu o convite para apresentar o programa?

Na verdade, o Linha Direta foi quase um projeto meu. Eu estava fora da emissora e tinha mandado uma carta para Marluci Dias (na época, diretora geral agora é consultora da diretoria) propondo um programa mais ou menos parecido com o Linha Direta, mas o projeto não foi avante. Passado um tempo, ela ligou me chamando para voltar, mas com o Linha Direta já pronto. Era uma outra proposta editorial, outros profissionais.

Qual eram as diferenças entre as duas propostas?

Na verdade, era um mix das duas. Tinha um pouco do Globo Repórter, do programa Jovens Detetives. O programa que eu pensei não era exatamente igual ao Linha Direta, mas estava dentro da proposta conversada anteriormente.

E você acompanhava a produção do programa?

Não. O Linha Direta era pautado pelo público. As pessoas ligavam, expunham seus problemas, suas frustrações. A redação entrava em contato, confirmando ou não a história. Então, a produção contactava o juiz e o promotor que estavam participando do processo e mandavam um repórter lá. O Linha Direta era uma soma: tinha a Central Globo de Produção, que cuidava da parte de dramaturgia, Central Globo de Jornalismo, que eram os repórteres que faziam as matérias. Era um trabalho conjunto de várias centrais. Televisão não se faz sozinho, é uma obra coletiva. Essa ideia de “o programa leva a minha marca” não é bem assim. Um programa de televisão tem várias impressões digitais, ele é fruto de um trabalho coletivo: tem o câmera, o editor... Você pode até fazer o melhor programa, mas se não tiver um bom cinegrafista vai ficar fora de foco. O Linha Direta era um programa que preenchia um vazio do poder público, que não tem um cadastro nacional de foragidos. Alguém comete um crime aqui, vai morar em Ribeirão Preto e ninguém acha mais. O programa tinha essa função social, permitia a localização de pessoas que tinham contas a prestar com a justiça. Um programa muito polêmico, muita gente criticou, mas sem conhecimento de causa e isso me irritou muito. Até mesmo o mundo acadêmico. Diversos professores fizeram trabalhos sobre o Linha Direta sem sequer se aproximar da equipe para saber como o programa funcionava. O melhor trabalho foi feito por um jovem estudante de jornalismo em sua monografia de conclusão de curso. Ele me ligou de Ponta Grossa e demonstrou ter uma visão meio equivocada do programa, então eu pedi que ele viesse ao Rio assisti-lo.Além da monografia, ele fez um livro (eu escrevi o prefácio) sobre a linguagem dramatúrgica e literária que já ganhou três prêmios. Enquanto os outros professores que “esculhambaram” o programa não ganharam nada! O livro dele está sendo comercializado pela Universidade Estadual de Ponta Grossa. O rapaz se chama Thiago Cruz. A diferença dele para os demais foi a preocupação em saber como as coisas se processavam antes de escrever a respeito. A pessoa faz uma leitura superficial e acha que já pode escrever um livro! Não é assim. Por isso, levei 20 anos escrevendo o meu primeiro livro [A noite das grandes fogueiras] e 10 no segundo [1930: Os Órfãos da Revolução], mas eu ganhei dois prêmios. Eu esfolei o cérebro para escrevê-los, me martirizei. Tinha todo um trabalho de pesquisa: abri todas as portas, todas as gavetas, revisitei cenários, consultei arquivos que ninguém imaginava que existissem. Agora, se eu for fazer um livro ligeiro, fica superficial.

Quais eram as dificuldades de apresentar o Linha Direta?

Para mim? Nenhuma.

Você se envolvia, de alguma forma, com os casos?

Não, as histórias eram realmente muito tristes, eu as deixava lá quando saía.

A gente nem gostava de ver porque tinha medo! Era tão real que pensávamos que podíamos ver aquelas pessoas na rua! [risos]

Ah, então vocês tinham medo de vocês mesmas, do que vocês eram capazes de fazer.

Eram situações que podiam acontecer com qualquer um, além das simulações que eram muito realistas...

É, eles depois de um tempo, atenuaram um pouco, mas era um programa muito bem feito. Foi, inclusive, indicado ao “Oscar” da televisão, para o Emmy internacional. E isso não aconteceria se o programa fosse ruim... Foram quatro programas indicados na categoria documentário: um programa italiano, outro feito no Iraque, um americano e o nosso. Olha que bonito, então acho que há muito preconceito de classe com a Linha Direta, porque ele falava muito sobre a pobreza e isso é uma coisa que incomoda as pessoas. Ninguém gosta de miséria. O programa tinha um compromisso social muito forte e acho que ele exerceu essa função com muita competência durante o tempo em que esteve no ar.

Alguma história te marcou?

Todas eram histórias muito marcantes, mas teve uma que me impressionou, uma das mais dramáticas. Era sobre uma mulher muito bonita que tinha uma clínica de estética na Baixada Fluminense. Em uma dessas salas de bate-papo de Internet, ela começou a se relacionar com um americano. Ele veio para o Brasil, começaram uma relação e ela e um amante o matam. A família do americano continuou mandando e-mails para ele e ela os respondia como se fosse ele. Uma irmã dele, evidentemente, percebeu e entrou em contato com a polícia americana e com a Embaixada dos EUA no Brasil. Eles mandaram uma equipe e descobriram. Isso foi um dos últimos programas do ano passado e me impressionou porque era uma mulher bonita, de razoável padrão sócio econômico. O que a teria levado a cometer esse crime? Ela começou a sacar dinheiro da conta corrente dele, a usar os cartões de crédito... Só Deus sabe os demônios que frequentavam aquela alma.

E você teve algum problema com essas famílias das histórias apresentadas?

Não, não. As famílias ficam muito gratas. Era como se eu tivesse resolvido. Procurava deixar claro que o programa não prende ninguém, quem prende é a polícia. Era muito comovente quando ligavam ou mandavam cartas. Davam ao programa uma representação mágica: “só o Linha Direta pode resolver o meu problema”. Aí eram quase 8 mil telefonemas por dia. Até procura se estendeu até agora o programa sair do ar. Infelizmente, os problemas continuam acontecendo, sem nenhuma solução, o que as leva a crer que o programa substituía o Governo, dando a ele até uma representação exagerada.

E quais eram os impasses do dia a dia?

Não havia impasses. Os programas eram feitos em um espaço de tempo extremamente curto, produziam-no e editavam-no em uma semana, dois casos. Era de uma rapidez fantástica.

E como eram escolhidos os casos?

As pessoas escreviam ou então deixavam na redação do programa e uma equipe os analisava.

Mas como era feito? Escolhiam-se os piores?

Não, não sabíamos muito sobre eles. Eram escolhidos os que, do ponto de vista dramatúrgico, fossem mais fáceis de serem feitos. “O meu marido está desaparecido, ele esteve em Nova Iorque, depois ele pegou um avião e foi para Paris”, ai já complicou. “Ele sumiu entre Nova Iorque e Roma”! Então, a gente via problemas que poderíamos resolver dentro de um certo tempo.

Como surgiu a ideia de fazer o Linha Direta Justiça?

Foram outras fórmulas que surgiram, eram casos já resolvidos que não envolviam a localização de desaparecidos. E depois, teve o Linha Direta Mistério que eu também gostava muito. Era um programa muito bem feito.

Mas essas novas vertentes foram em função de alguma coisa? Tipo...

Perda de audiência? Não, eram experiências que a própria direção resolveu fazer. Eles estão sempre fazendo e vocês não percebem. Uma escalada no Jornal Nacional, colocam uma matéria maior do que as habituais. Eles estão sempre testando novos formatos dentro do mesmo produto. No caso do Linha, era fácil perceber, pois era muito bem demarcado: casos já resolvidos ou misteriosos, não era localização de foragidos. A gente fazia questão de mostrar para o telespectador que se tratavam de programas distintos.

Tiveram algum problema com justiça, denúncia ou ameaça?

Não, não. Na verdade, eram quase todos crimes passionais. Esse tipo de crime tem um rito, uma liturgia. São pessoas aparentemente normais como nós que em determinado momento acontece alguma coisa e eles cometem todos os tipos de desatino. Perdem razão e sentido e o desfecho é sempre extremamente dramático. Ai vira uma tragédia grega.

Essa linha entre a ficção, como você falou que era uma coisa construída dramaturgicamente...

Aquelas pessoas que escrevem sobre o programa não sabem que aquela dramaturgia era expressão dos autos porque o corpo de advogados da casa é muito rigoroso. O programa pronto era submetido a uma apreciação de advogados. Tinham vezes que eles devolviam o programa e diziam “essa fala de fulano está aonde no processo?”. Então, o que essas pessoas escreveram sobre o programa sem ter conhecimento mais profundo de como era a mecânica do Linha desconhecem essas particularidades, que todas as falas reproduzem os autos. Não é nenhuma invenção e os advogados eram tão severos nisso para evitar processos. A pessoa pode entrar com um recurso, dizendo que não falou isso, que não foi bem assim ai move uma ação por perjúrio, calúnia, difamação e vai por ai.

Por que o Linha Direta saiu da programação?

Essa pergunta você tem que fazer para direção da emissora [risos].

Mas como foi o processo da retirada do programa do ar?

Eles alegam que o programa já tinha oito anos, mas não saiu definitivamente do ar, havendo grandes chances voltar. Isso foi dito há dois meses atrás. O programa saiu por um período, espero que seja verdade. Mas eles perceberam que o substituto do Linha não teve a mesma audiência. Nós nunca perdemos e hoje, o que está no lugar dele leva uma sova toda quinta-feira. Era o único programa que emissora que nunca perdeu para concorrência. E hoje toda quinta-feira é um pesadelo, mas eles é que tem que responder.

Deixa só eu falar uma coisa porque como se trata de Internet. O que eu acho dessa profissão? É um ato de doação. Você só será bem sucedido, não é porque tem sorte e nem porque está no lugar certo. É quando você sinceramente pensa em ajudar o seu semelhante. Isso tem que ser uma coisa muito sincera, não pode ser teatro. Quando você está sinceramente preocupado em resolver ou tentar ajudar o seu semelhante, eu diria que o universo conspira ao seu favor. Essa profissão exige uma determinação muito grande, uma extraordinária capacidade de doação. Pensar para quem será feita a matéria: para você mesmo ou para o próximo? Isso eu aprendi com um colega no Globo Repórter; quando a gente sentava para discutir a matéria pensávamos: “Esse programa vai fazer as pessoas entenderem melhor o problema? Por exemplo: Fizemos um programa sobre doenças do coração. Tivemos o cuidado de fazer um programa voltado, não só para o cardíaco, mas também para o cidadão comum. Talvez por isso, o Globo Repórter sempre tenha sido campeão de audiência, por pensar muito no outro. Pensávamos como poderíamos ajudar o espectador a entender melhor o mundo em que ele vive, que o explora e o submete a privações e humilhações. Perguntávamo-nos: “O que nós podemos fazer para que ele cresça como cidadãos para que tenha consciência dos seus direitos e lute por eles?”. Se você tem essa visão você terá, consequentemente, boa audiência. As suas matérias serão lidas. Você terá sucesso porque você estabeleceu um link com o cidadão. Uma vez uma professora me disse “Você é muito bobo! Como você pôde abrir as suas fontes assim?” A primeira coisa que lhe disse era que as fontes não eram minhas e que o público tinha o direito de tomar conhecimento delas para melhorarem suas vidas. As minhas fontes foram usadas muitas vezes como viés para teses de mestrado, doutorado, etc. E é nessas ocasiões que as fontes que eu observei de um ponto de vista podem ser analisadas por outro olhar, e tomar rumos diversos ao que eu dei a elas. Essa profissão é um ato de doação. É meio missionária, meio jesuítica. Digo ainda que seja mais do que doação, pois você abre mão de uma série de coisas suas em benefício do público. Estive lendo o livro de dois jornalistas alemães editado em 2001, As armadilhas da globalização. Ele mostra como nós caímos no conto do vigário aqui no Brasil. Eu já estou com este tema na cabeça para transformá-lo em num formato de modo que o meu povo possa entender. Não sei, talvez utilizar um blog, ou qualquer outro meio que possibilite o entendimento das pessoas daqui.

Queria, agora, que você falasse um pouco sobre suas experiências no Sindicato dos Jornalistas. Qual o seu papel nos dias de hoje?

Fazer parte do Sindicato dos Jornalistas foi muito complicado, pois o contexto em que vivíamos não favorecia os interesses da classe jornalística. Era época de ditadura. Hoje o papel do sindicato não é mais o mesmo, se descaracterizou. Alguns estão tentando reconquistar o prestígio. É o caso do Sindicato do Rio de Janeiro que está tentando acertar o passo. O Assis [antigo presidente] fez uma boa gestão. A atual gestão está desenvolvendo um trabalho interessante. Os sindicatos não podem tratar só de assuntos políticos. Hoje o sindicato é muito preocupado com a profissão, o que é bem legal. É lógico que ele não pode se desvincular de suas questões políticas, seus compromissos. “Nem tanto ao mar, nem tanto a terra”, acho que a profissão merece um pouco mais de questionamentos: Para onde vamos? O que nos espera? Qual será o amanhã? Acho que o Sindicato do Rio de Janeiro tem feito isso muito bem. O jornalismo tem um problema sério: Ele não se recicla. São poucos os profissionais que se preocupam com a reciclagem. O próprio jornalista não se preocupa. Então eu acho que o papel do sindicato é muito importante no sentido de fazer com que o profissional se expanda e se preocupe com outras questões.

Fale-nos um pouco sobre a sua trajetória na Associação Brasileira de Imprensa (ABI).

Sou diretor econômico-financeiro da ABI. É uma experiência complicada, também. Eu tive um pouco de experiência em gestão na Cooperativa Jornalística dos Profissionais do Rio de Janeiro que durou de 1978 a 1986. Consegui ser eleito para gestão por dois mandatos quando eu fui para Globo, mas não consegui conciliar os cargos. Quando eu fui para ABI, estive não só na gestão financeira, mas também na administração do prédio, que é tombado pelo patrimônio como o marco da moderna arquitetura brasileira. E foi uma experiência muito prazerosa para mim. Eu reformei todo o terceiro andar, onze banheiros, coloquei novos elevadores, reformei todo o auditório e a biblioteca.

Você acredita ter trilhado algum caminho específico que te levou a ganhar esses prêmios?

Não trilhei nenhum caminho específico para receber prêmios importantes como o Esso de jornalismo. Foi uma consequência natural do trabalho. Eu já ganhei 28. Alguns foram surpreendentes para mim, outros não. Já perdi prêmios que julguei merecer. Com a Coluna Prestes não ganhei nenhum. Todos que liam a matéria feita para o Jornal da Tarde diziam: “Você já ganhou o prêmio Esso com essa matéria!”. Mas a comissão julgadora era composta de pessoas ligadas a militares, ou seja, fingiram que não viram-na. Eu ganhei o prêmio da rede Espanha de TV, o maior prêmio da língua espanhola e portuguesa, que foi fantástico. Ninguém na TV Globo tem um esse prêmio. Recebi das mãos do Rei e da Rainha em Madri por uma reportagem que eu fiz sobre o assassinato de posseiros no sul do Pará. Havia mais de quatrocentos inquéritos policiais parados e confesso que quando chegamos estávamos perdidos, não tínhamos ideia do que iríamos encontrar por lá. Os espanhóis gostaram muito. Eu ganhei uma medalha de honra do exército que muito general não tem. Estava pesquisando na biblioteca do exército quando um sargento veio me dizer que o general gostaria de falar comigo. Eu fui. Ele disse: “Você vem por aqui de vez em quando e eu nunca vi nenhum profissional de TV pesquisar por aqui. O que o senhor está pesquisando?”. Eu falei para ele sobre o que era a minha pesquisa e ele me disse que daqui a quinze dias levariam cerca de cem pracinhas para visitar o campo da Itália em comemoração aos cinquenta anos da segunda Guerra Mundial. Em um primeiro momento, a pauta não pareceu ser interessante para o jornal. Então, pedi ao Coronel responsável pela viagem que falasse com o Ministro, muito amigo do doutor Roberto Marinho, sobre a matéria. No dia seguinte, o responsável pela redação perguntou-me: “Como era mesmo aquela matéria sobre a qual conversamos outro dia?”. E eu acabei ganhando dois prêmios com ela, inclusive a Medalha de Honra do Exército. A matéria contava a história de um grupo de pracinhas que revisitavam a Itália em busca de antigas relações, lembranças afetivas, moças que haviam conhecido durante a guerra. Aconteceram coisas engraçadas durante as gravações. O primeiro dia foi um desastre; houve uma discussão entre eu e o coronel que reclamava da demora das filmagens antes mesmo de elas começarem, e acabou impedindo a conclusão da matéria toda. Fiquei muito preocupado com o Alberico, o responsável pelo jornal que iria “chupar meu sangue”. Foi aí que eu tive um estalo! No dia seguinte, fui a uma cerimônia de bandeiras que teria a participação de militares do mundo inteiro. Eu vi um desfile de carros militares e comentei “Vamos pular neste carro e gravar os velhinhos dos carros!”. Acabamos descobrindo que não eram militares, eram apenas colecionadores de carros de combate. Durante um almoço com eles, perguntei se eles nos alugavam cinco jipes para transportar os pracinhas aos locais a serem visitados. Eles toparam. E ficou uma matéria linda no ponto de vista da edição. Eu já havia decupado previamente todo o material que tinha sobre a Segunda Guerra e nós conseguimos mesclar as imagens antigas com as que fizemos no local. Envelhecemos as imagens novas e ficaram iguais as antigas confundindo o público. Eles nunca sabiam quando nós iríamos aparecer. Ficou uma maravilha!

Você está escrevendo algum livro agora? Qual é o assunto abordado?

Estou fazendo um livro sobre a Revolução Paulista de 32 e sobre a construção de trens blindados de combate. Tem previsão de lançamento para 2012. Eles fizeram um movimento armado contra Vargas que não foi honrado pelo Rio Grande do Sul e Minas Gerais. São Paulo pediu auxílio a engenheiros do Rio de Janeiro de vários segmentos para a construção desses blindados. E criaram uma verdadeira máquina de guerra contra o Estado. Para explicar um pouco desta história, eu mergulhei de verdade para saber cada detalhe do que me foi contado para poder passar para o leitor. Por exemplo: cada máquina daquela era guiada através de uma série de esquemas telefônicos para auxiliar o maquinista, que não conseguia ver absolutamente nada a sua frente. Para confirmar esta informação, procurei engenheiros que me falassem exatamente como funcionava. O que marca a gente mesmo é o livro, o jornal. Quando eu editava na TV com outros repórteres sempre alertava: “Faça um livro! Pois quando sua matéria for para o ar, ela vai para o espaço! Literalmente!”. Percebi que a TV não faz memória, mesmo. Isso é terrível! Quando descobri isso, comecei a escrever. É claro que a TV me paga um salário bom, mas o que me preocupava era a minha imortalidade. Pois quando você escreve acha que será imortal, eterno.

Algum conselho que você possa dar aos futuros jornalistas?

Nessa profissão é fundamental a leitura. Quem não lê, acabou – pode começar a fazer outra coisa. Quem lê sabe organizar melhor os seus pensamentos, hierarquiza melhor as suas ideias, se expressa com muito mais clareza e vai entender melhor o mundo em que vive. Ele vai ter um olhar mais afinado e perceber melhor as coisas. Só o tempo e o exercício diário são capazes de oferecer essas habilidades, esse feeling. Não tive experiência acadêmica, não tive um diploma, mas sempre fui um bom leitor. Eu lia gibi. Uma vez fiquei responsável pela biblioteca e aproveitei para ler muito. Muito do que eu li nesta época foi usado como referência nos livros que escrevi. É fácil construir um bom leitor? Não, não é. Acho que é uma questão de querer. Tem um frentista que trabalha em um Posto Shell que eu sempre abasteço. Um dia, ele me perguntou se eu tinha escrito um segundo livro. Eu pensei “Peraí. Isso quer dizer ele sabe do primeiro!”. Ele veio com outra pergunta que me surpreendeu ainda mais “E o tema é sobre o tenentismo? Você pega qual ciclo? O de 35?”. Ele conhecia os ciclos do tenentismo! Eu falei sobre o que era e ele perguntou se eu autografaria o 1930: Órfãos da Revolução da próxima vez que fosse ao posto. Peguei um livro no banco de trás e fiz uma dedicatória: “Ao amigo Higor Bahia, amigo e cidadão leitor”.

Você tem alguma dica de livro para a gente?

A leitura é imprescindível. Não tem como exercer a nossa profissão sem o hábito da leitura. Existem livros maravilhosos, como por exemplo, a biografia de Assis Chateaubriand que é um bom livro para se ler, assim como O Anjo Pornográfico, muito bem escrito, por sinal. Além do mais, vocês não terão que ler sobre Física Quântica, são temas ligados à profissão. O livro do Samuel [Wainer], por exemplo.