ERALDO LEITE
ENTREVISTA

Entrevista com Eraldo Leite

Realizada por: Bruno Gouveia Motta, Luis Filipe Camacho Valente, Pedro Henrique Barbosa Pessôa

Data: 06/2009

Por que a escolha pelo jornalismo? Quando você se decidiu pela profissão?

Em minha família, meu pai era professor, minha mãe, funcionária pública, e meu avô paterno, médico. Eu e meu irmão mais velho éramos muito chegados ao meu avô e achávamos que iríamos fazer Medicina. Meu avô ficava sempre conversando com a gente e minha avó fazia muita questão que nós fossemos lá, porque os meus primos, que moravam na mesma casa dos meus avós e eram mais velhos que meu irmão e eu, não queriam fazer Medicina. Então, os meus avós diziam que meu irmão e eu seríamos médicos. E nós estávamos mesmo com essa coisa na cabeça. Na época, havia o ginásio e o científico e, quando entrávamos para o científico, escolhíamos entre as áreas de humanas, tecnológica ou biomédica. Eu entrei no científico disposto a fazer biomédica, mas no primeiro ano eu encontrei um grupo de dois ou três caras na minha turma que faziam teatro. A mãe deles era diretora de um teatro lá em Campos (Campos dos Goytacazes, cidade natal de Eraldo Leite), o Teatro de Bolso, que existe até hoje e eles criaram um grupo na nossa turma, para formar um programa de rádio. Um falava sobre cinema, o outro sobre teatro, outro sobre culinária e não havia ninguém que falasse sobre esporte. E eu gostava de futebol, sabia tudo sobre futebol com 15 anos. Eles, então, me chamaram pra falar de esporte. Na época, havia os Jogos Estudantis, e a cidade vibrava muito nos jogos contra Macaé, Itaperuna, São Fidélis. Eu falava sobre os Jogos Estudantis e sobre o Campeonato Carioca. Isto durou três meses, até que um amigo meu, que estudava comigo e também gostava muito de futebol, mas não participava do programa, me disse: “Nós podemos fazer rádio de verdade, lá na Rádio Continental, fazer uma dupla de reportagem e falar sobre futebol”. Ele era dois anos mais velho que eu e perguntei quem ia dar atenção a dois moleques, estudantes do Liceu. Ele disse, “Vamos lá, os caras (radialistas) aqui de Campos são muito antigos, muito velhos, eles vão dar atenção a dois jovens, porque sempre querem fazer uma renovação”. E ele então me convenceu. O nome dele é Élcio Venâncio (radialista e atual presidente da empresa de marketing esportivo SporPlus). Élcio e eu fomos à Rádio Continental, encontramos o chefe da equipe, Paulo Ourives, e, com medo e vergonha, contamos a nossa história. “Ele vai ignorar a gente”. O cara achou a ideia sensacional e nos escalou para cobrir um campeonato de dente de leite (atual campeonato de futebol infantil). Fizemos isto em um primeiro domingo, segundo domingo. Na quarta-feira seguinte, fomos cobrir o campeonato de verdade, o Campeonato Campista. Jogavam Goytacaz e Rio Branco. Chovia que Deus mandava e nós, embaixo de um guarda-chuva, fazíamos a reportagem de campo. Depois, a gente engrenou e decidi, “não vou fazer Medicina coisa nenhuma, vou fazer Jornalismo”. Eu estava no primeiro ano científico, 15 para 16 anos. Fiz os três anos do científico. O vestibular naquela época era unificado, e não tinha faculdade de Jornalismo em Campos. Eu tinha que vir para o Rio.

E como foi sua chegada ao Rio? Quais foram suas primeiras experiências na cidade?

Eu não tinha família aqui, minha família é toda de Campos. Mas meus pais apostaram, se sacrificaram enormemente para que eu viesse estudar, mas eu tinha que passar para faculdade do Governo, não dava para fazer faculdade particular. Fiz o vestibular unificado e fiquei em 21º lugar na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Vim para estudar na ECO (Escola de Comunicação da UFRJ) . A partir desse momento, eu comecei a fazer visitas. Fui à porta da Rádio Globo para me apresentar. “Eu sou um repórter de Campos”. Comecei a fazer uma pontinha no programa Panorama Esportivo, que o Sérgio Morais apresentava e era gravado, no qual eu falava dos times de Campos. Houve, então, a fusão dos Estados do Rio de Janeiro e da Guanabara e os times de Campos – Americano e Goytacaz – passaram a disputar o Campeonato Carioca. Então, eu comecei a ter um pouco mais de contato com o pessoal, pois, morando no Rio, eu transmitia os jogos para a Rádio Continental, em Campos, e me encontrava com outros radialistas. Por exemplo, jogavam Americano e Bonsucesso, no Estádio Teixeira de Castro. As rádios Globo e Continental transmitiam e eu ia me tornando conhecido no meio profissional. Em 1977, o (radialista) José Carlos Araújo saiu da Rádio Globo para criar uma nova equipe na Rádio Nacional. Faltavam dois anos para que eu pudesse completar a faculdade, mas o José Carlos já me conhecia, pois eu estava mais envolvido com a rotina. Eu ouvia muito rádio, treinava muito. Então, pedi a ele uma oportunidade, e ele me deu. Comecei na Rádio Nacional como estagiário, cobrindo o América e depois fui cobrir o Vasco da Gama. Não saí mais, mesmo sem ainda ser formado na faculdade. Fui contratado primeiramente como estagiário e, depois que me formei, fui contratado como profissional.

Você, então, ainda trabalhava na Rádio Continental e só fazia bicos para a Rádio Globo? E como foi a chegada na Rádio Nacional?

Não, eu saí da Rádio Continental, mas o que eu fazia aqui na Rádio Globo não era nem bico, não era nem remunerado. Era só para que eu me mostrasse mesmo. “Olha, eu existo”. Era para mostrar que havia um repórter novo, um garoto de Campos. Até porque os radialistas aqui eram todos mais velhos. O Luis Penido (locutor da Rádio Tupi) era um dos mais novos e tinha dez anos a mais do que eu. O próprio José Carlos Araújo já era terceiro locutor da Rádio Globo e saiu de lá para ser primeiro locutor, buscar um espaço que na Globo não iria ter. Com o Waldir Amaral (locutor falecido em 1997 que exerceu a chefia do Departamento de Esportes da Rádio Globo) e o (Jorge) Cury (locutores) aqui na Rádio Globo, o Zé Carlos não iria ser primeiro, enquanto eles não morressem. E a Rádio Nacional, além de oferecer um contrato muito bom, acenou com a possibilidade de ele formar uma equipe nova, jovem. Assim, o José Carlos levou para a Nacional o Deni Menezes (repórter), o Luis Mendes (comentarista) e o Washington Rodrigues (então repórter e depois comentarista), que à época estava sem trabalhar. Foi nessa equipe que eu apareci com o slogan de “o repórter da juventude”. A partir deste momento, eu começava a me acostumar com o trabalho mais profissional deles, e ao mesmo tempo eles começavam a dar mais chances aos jovens.

Em algum momento, você pensou em desistir da carreira?

Nunca.

Como foi a adaptação ao Rio, quando saiu de Campos?

Foi muito difícil. Principalmente nos primeiros dois anos, quando eu não estava empregado ainda. Eu era um menino, sentia a ausência da família, já que não tinha ninguém a quem eu pudesse recorrer. O que me sustentou foi a minha fé, minha religião. Sou católico e conquistei um grupo de amigos na Igreja São João Batista, fazendo Grupo Jovem e catecismo. Eu me identifiquei muito com esse grupo e essas pessoas foram a minha família aqui. Houve, depois, um momento em que eu balancei porque queria vencer na profissão de jornalista, mas ao mesmo tempo eu tinha que me sustentar. Não era fácil se sustentar no Rio. A vida era muito cara, meus pais tinham dificuldades. Eu fiz, então, concurso para o Banco do Brasil, na época o grande concurso, pois eu teria emprego para o resto da vida. Quem passa no concurso do Banco do Brasil não tem mais preocupação com dinheiro para o resto da vida e faz carreira dentro do banco. Eu fiz e passei. Só que eu fui chamado no mesmo mês em que me chamaram para a Rádio Nacional, em 1977. Antes de ser contratado, eu passei pela experiência na Rádio Nacional e, 20 dias depois, recebi o chamado do Banco do Brasil.

A sua história já conta que você deu muito mais valor ao amor pela profissão do que a estabilidade financeira...

É, meu pai ficou preocupado, porque eu ia desistir da estabilidade e a rádio poderia dar certo ou não, já que eu passava por uma experiência. Mas eu fui sondando as pessoas, conversei com o Zé Carlos. Curioso é que ambas as empresas eram públicas, Rádio Nacional, sob ordem do Ministério das Comunicações, e Banco do Brasil. Quando passei para o banco, me pediram a carteira de trabalho, já assinada pela Rádio Nacional. Avisaram-me que eu deveria dar baixa na rádio, mesmo que eu falasse que queria conciliar. “Você não pode ter dois empregos públicos, então, dê baixa na rádio e traz a carteira”. Estão me esperando até hoje. Nunca mais voltei.

Nunca se arrependeu da sua decisão?

Não me arrependi em momento algum. Construí minha vida toda, minha família, com casa própria e carro, com o dinheiro que consegui trabalhando em rádio. Mudei até de área na rádio, quis cobrir cidade também, como, por exemplo, quando fui da Rádio Globo para a Rádio Tupi. Tive um programa na Tupi e pude negociar um espaço comercial, o que não se pode fazer hoje na Globo. Ganhei um pouco mais de dinheiro com isso. Melhorei um pouco de vida. Enfim, da Rádio Nacional, onde fiquei sete anos, de 1977 a 1984, voltei para a Rádio Globo, com o José Carlos Araújo, já que lá eles decidiram também fazer a passagem do velho para o novo, aposentando o Waldir Amaral, que ainda foi para a Rádio Jornal do Brasil. O Cury também saiu e eles trouxeram a linguagem nova, moderna, que vencia na Rádio Nacional, para a Globo. A gente começou um novo trabalho que durou quatro anos. A Rádio Tupi ainda quis correr atrás para fazer a mesma coisa que a Nacional havia feito e tirar os segundos de cada posição da Rádio Globo. Então a Tupi contratou o segundo narrador, o Penido, o segundo repórter, que era eu, e ainda o Danilo Bahia e o Alberto Rodrigues. Nós ficamos lá por cinco anos. Depois, quando meu pai ficou doente, eu resolvi voltar a Campos, onde fiquei por dois anos. Voltei em 1996 para a Rádio Globo, onde estou há 13 anos.

Qual era a melhor rádio na sua época?

Sempre foi a Rádio Globo. Desde antes de eu trabalhar em rádio, a Globo já era líder. Ela só não foi líder nos anos 1950, quando estava começando, e a líder era a Rádio Nacional, a grande rádio do Brasil, com os grandes locutores, grandes comunicadores. A Nacional era o que é hoje a TV Globo, já que não havia televisão como hoje. A televisão era um veículo que ainda engatinhava. A Rádio Nacional tinha auditório, programas com cantores e orquestra ao vivo, os comerciais eram lidos ao vivo. Ela foi líder durante 30 anos, mais ou menos. Até que apareceu a Rádio Globo, criada no rastro do jornal O Globo e antes da TV Globo. As Organizações Globo se fortaleciam, já que um veículo ajudava o outro, o jornal ajudava a rádio, que ajudava, por sua vez, a TV. E, desde a década de 1970, a Rádio Globo é líder de audiência. Nunca perdeu. A Rádio Nacional quis voltar a brigar no fim dos anos 1970 e começo da década de 1980, mas desde então quem disputa a liderança são sempre as rádios Globo e Tupi.

Voltando à sua época de faculdade, como foram os seus anos de aluno de ECO?

Eu atingia um sonho. Em Campos, as nossas referências eram a UFRJ e a Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro). Passei para a ECO, até em uma colocação invejável, porque eu estudava muito. Sempre fui muito identificado ao estudo, não me atendo só a aprender dentro de sala de aula. Fiz um vestibular com muita consciência, sabendo o que queria, o que me proporcionou quatro anos muito bons, apesar das carências que havia na ECO. Só existia um laboratório de fotografia, mais nada. Não existia laboratório de rádio. Quem estudava na ECO enveredava pelo caminho do jornalismo escrito, do jornal. Da minha turma de 50 pessoas, só eu fui trabalhar em rádio. A Cristina Rego Monteiro depois foi trabalhar na televisão. Ainda havia alguns que gostavam de editoração. Mas foram quatro anos espetaculares.

Quais os conselhos para quem está começando?

Antes de qualquer coisa, deve haver absoluta convicção no que se quer fazer. Não estou ditando uma regra, estou seguindo minha experiência, o que pode se depreender pelo que contei da minha vida profissional. Não se faz jornalismo pensando em ficar rico ou virar astro. “Vou ficar famoso, conhecer o mundo”. Tudo pode acontecer. Pode virar famoso, ficar rico e conhecer o mundo. Eu conheci o mundo, ficar famoso é relativo, tanto que ando de metrô sem ser reconhecido. E não fiquei rico. Mas não tenho do que me queixar, pois tenho meu carro, apartamento próprio e meus filhos estão se formando em faculdades particulares. Fazer jornalismo por quê? Por convicção, entendimento, identificação com a profissão. Eu gosto da notícia. A primeira coisa que eu percebi, quando comecei a ter de decidir o que iria fazer, com 15 anos, é que eu gostava de dar notícias, eu gostava de informar. Gostava de chegar em casa e dizer, “Mamãe, aconteceu não-sei-o-quê-lá” ou “Papai, aconteceu não-sei-o-quê”. E se alguém soubesse a mesma coisa, eu queria chegar na frente, contar primeiro. Isso é vontade de informar, interesse por dar informação, transmitir uma informação. Um dos meus filhos diz ter grande interesse por transmitir o saber. É professor. Se alguém disser que gosta de aparecer, ser apresentador ou fazer o que o faz o William Bonner, tem de lutar por isso. Minha filha é publicitária, gosta de trabalhar com mídias e criar peças. Tem de saber e conhecer os seus anseios, os seus gostos, e o cara que não gosta de nada, o que não é possível, vai ser vagabundo para o resto da vida. Importantíssimo para o jornalista é gostar e saber escrever, conhecer a língua portuguesa. A aula de língua portuguesa deveria existir em todos os períodos da faculdade de Jornalismo, ainda que o cara seja bom em redação. E, depois, o cara deve lutar pelos seus sonhos. Treinar. Eu comecei a fazer jornalismo esportivo narrando jogos de botão. E pode perguntar a todos os locutores esportivos, se eles não começaram narrando jogos de botão. Hoje, como repórter, eu gosto de fazer entrevista, ainda que tenha algumas outras funções. Posso me vangloriar de redigir bem, porque eu gosto de ser repórter, de fazer entrevistas. O mercado sempre dá brechas para os melhores, em qualquer situação. Não se deve cair na esparrela de achar que não conseguirá ser jornalista porque o mercado está saturado. Todos os mercados estão saturados. Meu filho professor só trabalha em uma escola, mas sempre procura distribuir currículos brigando pelo lugar dele, porque é o que ele gosta de fazer.

Você tentou assemelhar seu estilo ao de alguém, um ídolo na profissão?

Treinando nos jogos de botão, eu imitava a voz do Jorge Cury, Waldir Amaral e José Carlos Araújo. Mas, quando eu decidi que queria seguir aquele caminho profissional, as pessoas em quem eu me espelhava eram o Deni Menezes e o Washington Rodrigues. Eles eram repórteres de campo, que era o que eu queria ser. Até cheguei a ser narrador, mas sempre quis trabalhar no campo. Antes de ser contratado pela Rádio Nacional, havia, por exemplo, na Rádio Globo, sete ou oito narradores ao mesmo tempo – Waldir Amaral, Jorge Cury, Antonio Porto, José Carlos Araújo, Edson Mauro, Cezar Riso e Ayrton Rebello. Estes sete narradores na mesma equipe. Há jogo para todos? Então, eles faziam tudo: basquete, Fórmula 1, jogos de juvenis, preliminares. Como repórteres, havia o Deni e o Washington, na Rádio Globo, e Kléber (Leite, dirigente do Clube de Regatas do Flamengo) e Ronaldo (Castro, diretor de esportes da Rádio Bandeirantes), na Rádio Tupi. Não tinha mais ninguém surgindo e eu percebi que este era o caminho mais curto para mim. Se eu quisesse ser narrador, iria ficar muito tempo na fila, até ter oportunidade, como o próprio José Carlos Araújo ficou.

Você trabalha com o mesmo grupo de locutores e repórteres desde que começou?

É, o Deni, hoje, já está em fim de carreira, quase aposentado, o Washington Rodrigues deixou de ser repórter, para ser comentarista e o José Carlos Araújo é o top de linha. O Cury e o Amaral morreram e outros vêm aparecendo. Eu venho galgando o meu lugar até ser, atualmente, da primeira linha de repórteres. Mas, aos poucos, já estou trocando de função. Não faço mais cobertura de clubes, vivendo aquele dia a dia de noticiários. Hoje, sou apresentador de programas, depois de seguir uma progressão natural. Como repórter, eu sempre me inspirei mesmo no Deni, pela forma como ele transmitia, e no Washington, pelo conteúdo. Para o Deni, o texto tinha de ser conciso e o repórter não podia gaguejar. Assim, eu tomei muita bronca dele, porque eu titubeava, falava sem pensar nas palavras. Ele foi meu professor, meu mestre. Iata Anderson foi outro mestre, outro repórter que me ajudou muito também. Nós nos gostamos, nos damos bem. Somos como jogadores de futebol: depois do jogo, todos se abraçam, saem juntos, as famílias jantam juntas. Mas, na hora do jogo, o pau come, porque, quando estamos brigando pela audiência, cada um de nós busca fazer o seu melhor, tentando as melhores entrevistas, e até sabendo explorar o ponto fraco do adversário, ou melhor, do concorrente.

Como foram seus primeiros anos de repórter esportivo?

Eu comecei como repórter de cobertura em clube, em 1977. Naquela época, um pouco hoje também, você almeja cobrir o Flamengo, que é o clube de maior torcida, maior audiência e com maior repercussão do que você faz. Além de cobrir seleção brasileira e fazer Copa do Mundo. Eu comecei cobrindo o Vasco. Fiquei sete anos. No meu primeiro ano de cobertura em rádio, em 1977, o Vasco foi campeão com um timaço – Roberto Dinamite, Dirceu, Abel Braga, Orlando, Mazarópi. O clube, quanto melhor ele está, melhor é para o repórter que cobre porque é o clube com o maior espaço no noticiário e, consequentemente, seu trabalho aparece mais. Depois, fui cobrir o Flamengo em 1983. Naquela época, considerava-se assim: o melhor repórter cobre o melhor time. Melhor time entre aspas, considerando aquele de maior torcida, maior audiência. E o Flamengo foi campeão brasileiro e eu fui cobrir a venda do Zico (ídolo e ex-jogador do Flamengo) para a Itália. Foi o meu maior furo de reportagem. O Zico era o maior jogador do Brasil. Não havia transferências de jogadores como hoje, em que qualquer jogador com 18 anos já é logo requisitado para ir para a Europa. Antes, só tinha ido o Falcão (Paulo Roberto Falcão) para o Roma (clube italiano de futebol) e mais ninguém. E o Zico foi contratado pela Udinese (clube italiano de futebol). Foi o maior furo de reportagem que eu dei pela Rádio Nacional. O Flamengo tinha sido campeão com o Zico como o grande jogador. Antigamente, os campeonatos eram invertidos: o campeonato Brasileiro era no primeiro semestre e o Carioca, no segundo. Havia uma entressafra de 20 dias até começar o Carioca. Eu ia ao clube todos os dias. Os outros repórteres iam, às vezes não iam. Numa quinta-feira, eu estava chegando à Gávea, era o único repórter de rádio, e o presidente do Flamengo, Antônio Augusto Dunshee de Abranches, convoca a imprensa para uma coletiva. Eu tinha um programa na Rádio Nacional que o Washington Rodrigues apresentava. Naquele momento, estavam na sala eu, três repórteres de jornal, um de O Globo, um da Última Hora, outro do Jornal do Brasil e dois fotógrafos. Ninguém de televisão e ninguém de rádio, somente eu. Não tinha SporTV na época, nem TV a cabo. Era só a TV Globo, que não tinha noticiário diário, só passava noticiário no Jornal Nacional se fosse uma bomba, um furo, uma grande notícia. Então, o Dunshee de Abranches abre a entrevista dizendo: “Eu chamei a imprensa aqui porque eu tenho uma informação preocupante. O Flamengo recebeu uma proposta de US$ 2 milhões para vender o Zico e eu não sei o que eu faço”. Quando ele terminou a primeira frase eu já peguei o telefone da mesa dele, liguei para o estúdio da Rádio Nacional e fiz uma entrevista com o presidente, no ar, durante uma hora. Isso durou 15 dias e o Zico acabou vendido por US$ 4 milhões. O Flamengo recuou, não quis vender e a Udinese foi aumentando a proposta, até pagar os quatro milhões. Não existia jornal on-line, não era como hoje em que a notícia já vai direto para a internet. Então, a Rádio Nacional, durante uma hora, teve a maior audiência do país porque todo mundo queria ouvir o que estava acontecendo. Horas depois, é que foram chegar os outros repórteres para dar a notícia que, para mim, já era velha.

Naquela época, não havia nenhum pudor? Pegou o telefone mesmo...

Tinha-se um relacionamento mais cordial. Hoje em dia é muito duro. Mas enfim, ali, ele querendo ou não, eu peguei o telefone direto da mesa dele e liguei. “Washington (Rodrigues), me bota no ar porque o Flamengo está vendendo o Zico”. Ele pensou que era brincadeira e falou: “Aproveita e dá o endereço do presidente que é para a torcida do Flamengo ir toda para a casa dele”. E eu falei: “Não estou brincando, me bota no ar, corta as manchetes, não bota nada, me bota no ar”. E foi: “Vamos abrir o programa direto da Gávea com Eraldo Leite...”. E eu fui entrevistando o presidente.

Foi o maior furo que você deu?

Esse foi o meu maior furo de reportagem, pois se tratava do maior jogador do Brasil na época. E teve uma repercussão muito alta. A própria Itália não sabia. Foi um furo mundial. Antes disso, a cobertura mais significativa para mim, o sonho de todo jornalista, foi cobrir Copa do Mundo. Cobri a Copa de 1982, na Espanha, com apenas 25 anos.

Pela Rádio Nacional?

Pela Rádio Nacional. Porque em 1980, o Washington deixou de ser repórter para ser comentarista e eu passei a ser o segundo repórter. Era com o Deni e comigo. Em 1981, foi meu batismo de fogo em viagem internacional. Foi uma viagem para cobrir a seleção brasileira em partidas de teste. Era um jogo em Londres, um em Paris e outro em Stuttgart. Pegaram três potências no mundo – França, Inglaterra e Alemanha – para saber se aquele time do Brasil era forte para a Copa do Mundo. Em 1982, então, foi minha primeira Copa. De lá pra cá eu fiz todas. Em 1986, no México; em 1990, na Itália. Em 1982, eu estava na Rádio Nacional. Em 1986, eu já estava na Rádio Globo. Em 1990, na Itália, estava na Rádio Tupi. Em 1994, já havia voltado para a Rádio Nacional. Em 1998, na França, eu já estava na Rádio Globo para onde eu voltei em 1996. Eu estava em 2002, na Coréia e no Japão e, em 2006, na Alemanha.

Você fazia a cobertura diretamente dos países, indo a todos eles?

Todos. Sempre cobrindo seleção.

E nessas primeiras coberturas você já se sentia preparado?

Na primeira, eu tinha um anteparo que era o Deni. Ele ia conduzindo e eu era uma espécie de fiel escudeiro. Era ele quem comandava todas as pautas. Eu ia fazendo com ele e aprendendo. Em 1986, eu passei junto com ele. Em 1990, eu já era o repórter principal da Rádio Nacional.

Foi uma das coberturas que você mais gostou de fazer?

É, a Copa do Mundo. Porque eu só não tinha feito Olimpíada. O rádio cobre muito pouco a Olimpíada, hoje um pouquinho mais, mas ainda bem pouco em relação à televisão. Até 1992, em Barcelona, o rádio não cobria Olimpíada. Como você vai transmitir salto em distância? Como você vai transmitir uma prova de natação no rádio? É difícil. A televisão não mostra a imagem, não precisa falar nada e já mostra o recorde. Mas, em 2000, eu fui fazer Sidney, na Austrália. Foi minha única Olimpíada e a primeira que o rádio cobriu mesmo. Porque se você não consegue transmitir as provas, você pode fazer entrevistas com os atletas e foi por onde eu fiz uma cobertura muito legal, também. Embora eu tenha acompanhado mais o futebol do que os outros esportes, vivi o clima da Olimpíada.

Nunca teve vontade de fazer nada diferente?

Nunca tive, mas, em 1985, eu estava cobrindo a seleção brasileira na Toca da Raposa, em Belo Horizonte, porque a gente cobria os treinos da seleção que eram períodos de 20 dias a um mês, antes da Copa. Os treinos não eram na Granja Comary (local de concentração e treinamento da seleção brasileira, em Teresópolis-RJ), mas na Toca da Raposa (local de treinamento do Cruzeiro, de Minas Gerais), em Belo Horizonte. Eu estava cobrindo os treinos da seleção para a Copa de 1986 e morreu o presidente da República, Tancredo Neves. Ele tinha assumido a Presidência, teve diverticulite e morreu. Tancredo era mineiro de São João del Rei. O país ficou paralisado, todos os noticiários de rádio, televisão e jornal só falavam na morte do presidente. A Rádio Globo não tinha correspondentes como tem hoje. Eu, então, abandonei a seleção e fui cobrir as autoridades mineiras porque era o berço de Tancredo Neves. Eu fiquei durante cinco dias só fazendo política. Cobri até a missa de corpo presente de Tancredo Neves, quando ele chegou a Belo Horizonte. Eu transmiti pela Rádio Eldorado (que pertencia ao Sistema Globo de Rádio), que tinha como a CBN hoje um foco mais na notícia. Foi outra grande experiência que eu tive. E, agora, estou tendo com o Globo Cidade, que eu tenho feito há três meses. É um programa de uma hora de duração, diário, que fala sobre cidade, futebol, mas não só futebol. E está sendo uma experiência interessante, também.

Além do esporte, quais são hoje as suas responsabilidades na Rádio Globo?

Eu continuo sendo o coordenador de esportes da Rádio Globo com contribuições administrativas. E, além de apresentar o Enquanto a Bola não Rola, um programa de esportes aos domingos, tenho agora esse programa diário sobre cidade. Então, mudou um pouco o meu foco de ações. É uma nova linguagem, está me exigindo aprender algumas coisas, estudar um pouco mais a linguagem, falar sobre Secretaria Municipal de Saúde, Secretaria de Transporte. Exige uma reeducação do meu palavreado na minha maneira, na forma de eu me dirigir ao público.

Além do rádio, você já se enveredou por outros meios?

Nunca quis fazer televisão. Jornal, eu tenho tido há dois anos e meio a experiência de fazer uma coluna que tem sido muito legal, também. Mas nunca quis sair da rádio para o jornal ou sair da rádio para a TV.

Você tem uma coluna de jornal?

No jornal Extra. É uma coluna chamada Na Cara do Gol. Ela fala sobre futebol, duas vezes por semana, aos domingos e às terças-feiras. Tem sido uma experiência muito legal e é o meu assunto, uma coisa de que eu gosto de fazer porque exercita o texto e não só a fala.

E como é a sua interação com as novas tecnologias?

Eu tenho um blog da rádio, mas eu não trato ele como poderia ou deveria porque não dá tempo. É impossível. Eu faço um texto por dia e, assim mesmo, não consigo fazer todo dia. Os textos são depois da rodada, depois do jogo de quarta-feira, quando tem um assunto bom, mas eu não consigo aquela coisa de interagir, discutir, debater os assuntos com os blogueiros.

E você já foi professor, também?

Essa foi outra coisa que, também, aconteceu por acaso. Eu nunca quis ser professor, embora seja filho de professor, meu pai era professor de matemática. E me foi apresentada a oportunidade de um curso, na verdade. Era transmitir experiências. Contar para os alunos, por exemplo, como foi meu primeiro furo de reportagem, o que é pauta, o que é reportagem, como se faz um programa de estúdio, como se faz uma transmissão de externa. Então, eu montei um curso, com oito aulas, uma vez por semana, toda terça-feira.

E qual é o nome da instituição?

Escola de Rádio. O site é www.escoladeradio.com.br. Ela é de um amigo meu que trabalhou comigo aqui na rádio, o Ruy Jobim. Ele tem vários cursos: de locução que é a praia dele porque ele é locutor de FM, tem o curso de produção de rádio, até de dublagem. Ele pega cada profissional dessas áreas. O Edson Mauro (locutor da Rádio Globo) começou agora um curso específico sobre narração. Montei o curso de reportagem esportiva, ele aprovou e tem dado algum resultado legal.

E já pensou em ser professor universitário?

Universidade exige mestrado e eu não tive tempo de fazer. Aliás, eu não me atinei para isso. Eu já estava no mercado de trabalho, tive que cuidar do meu aperfeiçoamento no mercado e não me dediquei. Não tive esse veio de derivar para o lado acadêmico. Só no ano passado, em 2008, até pela Cristina Rego Monteiro (coordenadora do ciclo básico da Escola de Comunicação, ECO, da UFRJ), foi me aventada a possibilidade. Enfim, é uma coisa que ainda está na poupança, está escondida na caixinha de projetos futuros. Não tenho, nesse momento, tempo e condição, mas quem sabe, no futuro, posso me enveredar pelo caminho de ser professor universitário. Eu creio que não quero, simplesmente, dar aula por dar aula. O que eu for fazer, se um dia eu for fazer, vai ser com condição de fazer bem feito.

Tem algum professor que você marcou na ECO?

O professor Nilson Lage. Foi o maior de todos. Também, a Heloísa Buarque de Hollanda. O Nilson Lage ia dar aula sem nenhum papel na mão, sem livro. Ele não recomendava livro. Ele ensinava jornalismo. Ensinava a vivência dele. Acho que é um pouco isso que eu faço na Escola de Rádio. Eu não tenho a didática de preparar aula e o Nilson Lage era assim. Ele tinha uma didática própria. Ele falava de jornalismo, não falava de teoria. Ensinava como era o jornalismo na prática. Foi quem mais me marcou.

Você já é jornalista esportivo há muito tempo, não?

Desde os 15 anos de idade. Bom, na verdade, profissionalmente, desde 1977, há 32 anos.

Por que, então, se lançar a Presidente da Acerj (Associação de Cronistas Esportivos do Rio de Janeiro)?

Eu não me lancei, fui lançado. Como todas as coisas que acontecem na minha vida, as coisas vão caindo no meu colo. Eu jamais quis, jamais pretendi ser presidente da Acerj. Embora admirasse alguns ex-presidentes, como Oldemário Touguinhó (jornalista esportivo do Jornal do Brasil, falecido), meu conterrâneo, nunca tive esta pretensão de ser líder da classe. Eu tenho o meu espírito de liderança natural entre os colegas.

Quando foi isso?

No fim de 2007. A associação estava passando por um processo de degradação e deixando de ser reconhecida. Já não era reconhecida no Vasco. O credenciamento do Vasco era feito pelo Vasco, não era feito pela Acerj. Deixou de ser aceita no Botafogo, quando o Botafogo passou a ser dono do Engenhão (Estádio Olímpico João Havelange que, hoje, pertence ao Botafogo, clube de futebol do Rio de Janeiro). Quem credenciava jornalistas no Botafogo era o Botafogo, no lugar da Acerj. E ia-se perder o Maracanã. Isso já tinha sido sinalizado pelo Eduardo Paes (prefeito do Rio) quando ele era secretário de Turismo, Esporte e Lazer, antes de ser candidato a prefeito. Iam descredenciar a Acerj, e eu falei: “Calma, nós vamos ter novidades na Acerj”. Porque o presidente da entidade já tinha perdido todos os canais de negociação. Não tinha mais nem diretoria. Era ele sozinho e uma série de coisas que não convém estar expondo muito para o público. Enfim, é uma coisa interna, nossa, que eu já abri, já contei, já expus para que todos saibam.

Era o Pedro Costa?

Pedro Costa. E expus durante a campanha. O grupo resolveu que alguém teria que tomar uma posição. A Acerj não poderia ficar naquele estado. Foram feitas reuniões periódicas, elaboramos um programa com dez itens e, com esses itens, nós reunimos esse grupo para levar a todas as redações. E visitamos todas as redações. Esse grupo de 20 pessoas foi diminuindo, 12, dez, cinco e o grupo resolveu me colocar como candidato a presidente. Eu e Marcos Penido, do jornal O Globo, como vice. Nós representávamos dois veículos, rádio e jornal. E, então, nós íamos a todas as redações mostrar estes dez itens e o que estava acontecendo na Acerj naquele momento. Uma eleição turbulenta porque os detentores do poder não queriam os cargos, até para não expor as mazelas que estavam lá. Nós ganhamos a eleição em abril de 2008. Levamos seis meses fazendo campanha, organizando e estruturando o grupo e chegamos à eleição estruturados, com gente sem qualquer passado que pudesse manchar a entidade. Hoje, a situação da Acerj, um ano depois, é outra. Com transparência, com site que expõe balancete publicado. É uma nova entidade. Estamos criando uma biblioteca e temos uma série de avanços que a partir do site se pode conhecer. Voltamos a credenciar em São Januário. Hoje, é a Acerj quem credencia. Voltamos a credenciar no Botafogo. E, temos com a Suderj e a Secretaria de Esportes e Lazer um maior e o melhor relacionamento possível. Fomos recebidos pelo presidente de honra da Fifa, João Havelange, para mostrarmos nossos projetos. Ele deu uma série de indicativos de como conduzir uma entidade. Ele, mais do que ninguém, pode ditar uma forma de agir, pois pegou a Fifa como um nada e, hoje, a Fifa é o que é, uma das maiores potências entre as melhores do mundo.

Qual é a função da Acerj?

A Acerj é a entidade encarregada de credenciar os cronistas esportivos para os jogos de futebol no Rio de Janeiro.

Só futebol?

Só futebol. Mas, hoje, a gente já tem uma abertura com as federações de basquete e de vôlei. Porque não há competições. O futebol é que tem competição todo dia. O vôlei e o basquete têm competições eventuais e são competições de nível nacional como a Liga Nacional de Basquete, Liga Nacional de Vôlei. Não há uma competição estadual, então, não tem muita necessidade de a Acerj intervir.

E para você foi uma função totalmente diferente, de técnica empresarial...

Tive de usar muito meu feeling mesmo, meu sentimento, minha maneira de entender as coisas com transparência, com simplicidade, com correção, tentar entender mecanismos, trazer o contador da empresa que estava afastado porque eu não entendia como a coisa era feita, promover uma auditoria interna na entidade. Tive a sorte de ter um companheiro como o Penido, que participou de todas as ações, que gosta de lidar com números, de organizar e é um cara que dá uma tranquilidade enorme em relação a isso, contas a pagar, contas a receber, projeção de gastos, projeção de despesas, projeção de arrecadação. E tem o Jorge Eduardo que cuida mais da parte de publicação, também, e tem uma facilidade enorme para arregimentar todas as pessoas e fazer chegar nossas informações, nossos projetos a essas pessoas, trazer parceiros para fazer nossos projetos. Não se faz nada sozinho. Eu disse para eles: “Se me deixarem sozinho, eu também vou embora. Nós somos um grupo”. E não vou ser presidente daqui a alguns anos, como o antigo presidente, que fez uma manobra no estatuto para se perpetuar. Ele já estava no seu quarto mandato.

O mandato é de dois anos?

Três anos. E ele já estava lá há doze anos e queria continuar porque elaborou uma cláusula no estatuto que não estabelece fim. E isso eu quero modificar para estabelecer que um presidente só fique na entidade o primeiro e mais uma reeleição, ou seja, no máximo, dois mandatos.

E o que moveu você a fazer isso tudo?

Idealismo. A nossa entidade não pode ficar na boca do lixo, não pode ser desrespeitada. Ela ia acabar e nós vamos ser representados por quem? Então, alguém precisava fazer alguma coisa.

Fale um pouco sobre os projetos futuros da Acerj?

Estamos montando a biblioteca. Vamos fazer um grande apelo aos colegas cronistas para fazer doações. O trabalho é filantrópico, é idealista. Cada um faz a sua parte para a gente fazer uma entidade forte e grande. Nós temos alguns projetos como fazer um campeonato de futebol promovido pela Acerj, fazer cursos de capacitação profissional. Fizemos um apenas, experimental, que foi muito legal, pegando profissionais consagrados e oferecendo palestras, com técnicos de futebol, preparador físico, médico, advogado que entende de legislação esportiva. Foram cursos de dois dias.

E você disse que não pretende se perpetuar muito.

Não, não vou ficar. Vou ficar o meu mandato apenas. Deve haver uma linha sucessória, alguém do nosso grupo que venha. Também não vamos botar a casa em pé agora e entregar de novo na mão dos bandidos.

Qual imagem você pretende deixar do seu trabalho lá na Acerj?

Que a gente reestruturou e que nós podemos fazer uma entidade sólida, competente, capaz de defender os nossos interesses. Hoje em dia, a gente senta para decidir como vai ser o credenciamento junto com a Federação do Campeonato Carioca, junto com a Confederação Brasileira de Futebol, para decidir como vai ser o credenciamento do Campeonato Brasileiro e dos jogos da seleção. A Acerj não fazia (credenciamento) em eliminatória de Copa do Mundo.

Você acha que mudou a relação que você tinha com alguns colegas antigos e com os jornalistas, de um modo geral?

Não sei, é difícil saber. Eu acho que as pessoas me veem agora como um representante da classe, alguém que pode defender a Acerj nesse período. No que eu puder ajudar a entidade, ajudarei sempre, mesmo depois de deixar a Presidência. Agora, talvez eu tenha ganhado alguns inimigos também. Aqueles que não eram jornalistas e se faziam passar por jornalistas, que usavam a condição de jornalista para conseguir objetivos outros, como levar amigos para ver jogo de futebol, não simplesmente o vizinho, mas o amigo que pode dar algum proveito para ele em outra situação.

Então era esse seu principal objetivo?

Sim. Limpar a tribuna de imprensa dos bicões. A tribuna de imprensa do Maracanã era uma festa de bicões como big brothers, artistas, empresários, gerentes de banco. Um cara que era jornalista pedia – “Deixa eu levar dois convidados meus?” – e um jornalista como o Fernando Calazans, perto da hora do jogo, queria um lugar na tribuna para sentar e fazer a crônica dele, e não tinha. O lugar estava ocupado por um gerente de banco, por um dono de oficina mecânica. Esse é um orgulho de que eu tenho. A gente acabou com essa situação. Hoje, vai para a tribuna de imprensa quem é jornalista. A gente tem os nossos projetos. Um projeto com as universidades, professores que levam os alunos para ver um jogo, para fazer um treinamento. “Como funciona o trabalho de campo do repórter? E na cabine de rádio? E do jornalista que escreve?”. Os professores fazem um acordo conosco para levar esses alunos. Tem que ser grupos pequenos, revezar jogo sim, jogo não, para que possa caber todo mundo lá. E outro projeto é o Cronista do Futuro, que são filhos e netos de jornalistas, também em número limitado por jogo, para que eles possam ver como é o trabalho do pai ou avô deles.

Como você via a classe antes do seu mandato na Acerj e qual a sua leitura, hoje, dos cronistas e repórteres esportivos?

A minha passagem pela presidência da Acerj não vai mudar a classe. A classe é a classe, com seus problemas e virtudes. Tem o bom e o mau jornalista, como tem o bom e o mau médico, e vai continuar sendo assim.

De caráter ou qualidade?

De caráter. De qualidade também. Assim como tem o craque de futebol, tem o jogador de média capacidade. A nossa profissão lida com o futebol e é muito próxima dele também. Só não é na questão financeira (risos). Ninguém fica milionário no jornalismo. Talvez um ou outro, mas são pouquíssimos. Eu estou me referindo à questão do caráter. Ninguém vai melhorar seu caráter porque eu passei pela Presidência e se espelhou em mim. Eu também não tenho essa pretensão. Só tenho a pretensão de dizer: O mau-caráter, comigo aqui, não vai se criar”. Não vou dar guarida a um mau-caráter que quer tirar vantagens pessoais usando a sua condição de jornalista. Agora, na questão técnica, o jornalista é tão melhor quanto mais ele se identifica e se dedica, quanto mais ele tenta se aproximar dos melhores. Eu mirei um ideal: Deni Menezes. Para mim, era o melhor repórter, foi nele em que eu me mirei. Kléber Leite também, mas tinha um outro estilo. Só que eu não trabalhei muito diretamente com o Kléber, ele sempre foi meu concorrente. Eu estava na Nacional, ele na Globo; eu vim para a Globo, ele foi para a Tupi. Então, a gente sempre andou na contramão. Eu mirei no meu espelho – quem era, para mim, o melhor repórter de rádio – e fui buscar aquele ideal. Serve para todo mundo, tanto quem está começando quanto para quem já está no meio precisando melhorar. Tem os bons, os mais ou menos, os ruins, mas nada que alguém não possa melhorar.

Quais as diferenças você vê na profissão, do final da década de 1970 e começo da década de 1980 em relação ao que vê hoje?

A diferença básica é que o jornalismo, hoje, cobra um pouco mais da ética. Eu sempre fui assim, tanto que em 32 anos de jornalismo, eu não tenho amigo jogador de futebol. Nunca fui na casa de um, ninguém veio na minha casa, não foi no meu casamento, nem no aniversário do meu filho. Só há uma exceção para essa regra. Foi um jogador que provavelmente vocês nunca ouviram falar, o Ivan, zagueiro do Vasco, jogou no final da década de 1970, em 1979, 1980 1981, por aí. Ele era de Piracicaba, veio do XV de Piracicaba e foi meu amigo, de frequentar a minha família e eu, a dele. O único. Nem o Zico, nem o Roberto Dinamite, que são pessoas que eu considero amigas, mas são amigos de futebol, de trabalho, que eu respeito e eles me respeitam. O jornalista tem que saber lidar com o binômio intimidade versus distância. Você tem que saber perguntar as coisas boas e as difíceis, e ele saber que você está ali não só para perguntar as coisas boas. Esse binômio intimidade versus distância tem que ser muito bem trabalhado na cabeça e na vida de um profissional de jornalismo. Eu procuro ser isso, trabalhar com a maior clareza, isenção, honestidade, sem privilegiar esse ou aquele. No nosso caso, de quem trabalha com futebol, temos que ter muito cuidado com a questão de torcer pelo seu time. “Foi pênalti ou não foi?”. Se o seu coração falar mais alto, vai ser sempre a favor do seu time. Eu dei sorte de nunca cobrir meu time, o Botafogo. Eu cobri Vasco, Flamengo, nunca cobri o Botafogo, embora tenha feito a transmissão de alguns jogos como Vasco X Botafogo. Sempre trabalhei muito isso na minha cabeça, de não me deixar influenciar pela paixão, pelo interesse de torcedor. Não tem jornalista que não torça por time nenhum, ou ele não estaria no meio. Nenhum médico desconhece quem é Ivo Pitangui, referência na medicina, na cirurgia plástica. Ninguém é arquiteto sem saber quem é Niemeyer, nem faz balé sem saber quem é Ana Botafogo. Então, você tem seus ídolos, seu clube, você torce por alguma coisa. Agora, torcer é quando você está fora do microfone, quando não está no trabalho.

E em relação à técnica, o que você repara nas diferenças?

Tecnicamente, a inclusão do digital. Eu sou do tempo em que a gente trabalhava com um gravador de fita cassete. Hoje vocês estão me entrevistando com um gravador digital, que cabe dentro de um bolso. Eu trabalhava com um gravador enorme. Na edição, no estúdio, tinha que passar de uma fita para outra. O processo de edição levava horas e hoje a gente bota a gravação no computador, ela vira um gráfico. Você vai lá e edita aquele gráfico, tirando um S, um L, uma letra ou palavra da declaração de uma pessoa. Isso obriga a você ser multimídia também, tem que saber usar a ferramenta do computador, saber editar. A edição de áudio era coisa de outro profissional, o operador de áudio. Hoje, o jornalista tem que saber utilizar a ferramenta que era do operador de áudio. Então, hoje o jornalista é um multimídia, tem que saber editar, não só simplesmente criar um texto, fazer uma pergunta ou falar o português correto. Tem que saber algumas coisas mais. Eu fui para a Copa do Mundo de 2006 com um computador na mão e sem saber como mexer nele. Aprendi fazendo, quebrando a cara, levando horas para fazer, mas fui aprendendo. Eu ficava o dia inteiro. Trabalhava, no barato, 18, 19 horas por dia. Dormia duas, três horas e acordava, porque tinha que aprender aquilo e não tinha instrução, não houve um treinamento para eu usar. Eu comprei o meu computador e embarquei para a Alemanha e, com os companheiros que estavam um pouco mais adiantados do que eu, fui aprendendo.

Quais as qualidades que você destacaria para o repórter de rua e para o de estúdio?

Primeiro de tudo: você não pode ter preguiça. Quando você fica na redação, tende a ficar um pouco preguiçoso, a usar só o telefone, a internet. O repórter de rua é mais ágil, vai em busca da notícia. Você está em um lugar e sabe que na delegacia tal, em outro bairro, tem um cara que pode te dar uma declaração, você tem que pegar o carro e ir para lá. Não pode ter acomodação. O tempo todo você tem que estar em busca da informação, esteja ela onde estiver. Hoje, o telefone celular te ajuda, o computador te ajuda, você pode sair já pautado, mas às vezes eu percebo uma acomodação no repórter. O acomodado vai chegar atrasado em relação a quem é mais ágil, para quem não existe dificuldade, distância, tempo. A notícia não tem hora para acontecer e o repórter que dá as costas para a notícia vai ser furado. Tem que estar o tempo todo acordado. Eu jamais desliguei telefone celular, durmo com ele ligado. Tenho quatro, um de cada operadora, porque se um não pegar em determinado lugar, o outro pegar. Ninguém pode dizer “não te achei”. Eu sempre vou ser achado em algum lugar. Meus telefones não desligam, meu computador está ligado. Já recebi uma bomba às 3h da manhã. Era meu telefone de casa, porque, na época em que não tinha celular, eu dava meu telefone de casa para as minhas fontes. Às 3h da manhã tocou meu telefone, era um dirigente que estava em Roma negociando um jogador do Flamengo. Eu recebi a ligação e entrei no ar às 3h da manhã, às cinco, às seis. O programa era da Cidinha Campos (radialista e deputada estadual no Rio de Janeiro), eu estava na Tupi. Eu entrava no programa e ia atualizando a notícia. Meu concorrente que acordou às 8h. Estava cinco horas atrasado em relação à notícia.

Das mídias que a gente conhece, o rádio foi a que menos mudou?

Acho que não. Mudou. Não tem mais o locutor, não há mais essa necessidade. Antigamente quem trabalhava em rádio? Quem tinha boa voz e sabia ler. Hoje não, você precisa ser jornalista, ter formação jornalística. Essa coisa do diploma que aconteceu agora, para mim foi o maior dos absurdos da história do jornalismo. Eu não vou procurar mais médico diplomado. Eu sei o que tenho de fazer quando tenho dor de cabeça. Não preciso mais de médico. Quando eu me machucar na pelada, não vou mais ao ortopedista. Não preciso mais de médico. Eles não precisam mais de jornalista diplomado. Mas, enfim, o rádio mudou sim. Hoje não basta mais você ter uma boa voz. Tem que ter formação jornalística, conhecimento multimídia, uma série de requisitos para trabalhar em rádio. Na época do Oduvaldo Cozzi (locutor esportivo dos anos 1940/50), o Ary Barroso não era só um radialista, ele era um ator, apresentava um programa de calouros e era narrador esportivo. Tinha uma boa voz e nunca entrou em uma faculdade. Até a minha geração, até a época do Deni Menezes e do José Carlos Araújo, não existia essa coisa de se procurar nas faculdades, na formação acadêmica, o profissional de rádio. No jornal, já foi um pouco mais cedo, mas rádio não. Bastava ter boa voz. O cara vinha aqui, fazia um teste. “Eu quero trabalhar aqui na rádio”. O Waldir Amaral dizia assim: “Entra lá naquela cabine e lê esse texto aqui”. O cara lia o texto. Se ele tivesse boa voz, iria para um segundo texto. “Agora narra uma partida de futebol”. Ele ia fazendo por testes de voz. Se tivesse fluência e boa voz, ele era chamado para um teste de verdade, no ar, sem ser contratado. Hoje não é assim, você não precisa mais fazer impostação de voz. Você fala ao natural, como fala no seu dia a dia. As pessoas às vezes me encontram e dizem: “Sua voz é igual à do rádio”. É, porque eu nunca impostei a voz. A gente aprende a colocar a voz, porque, com o uso demasiado, às vezes você tem que colocar em falsete. Você aprende a ter cuidados com a voz, não é mais como antigamente.

Em algum momento você teve receio do rádio acabar?

Nunca. Sempre achei uma balela, isso. O rádio é o maior companheiro de todas as pessoas porque ele vai para qualquer lugar. Você já viu alguém dirigindo ler jornal? Ou ver televisão? É um cara que está correndo grande risco. E um cara dirigindo ouve rádio. Tomando banho, alguém vê televisão? Tem alguma televisão no banheiro? Não tem. Então, tomando banho, fazendo suas necessidades, dirigindo ou fazendo qualquer outra coisa, o cara ouve rádio. Então ele não vai acabar nunca. Ele tem que encontrar caminhos. Com o advento da televisão, os grandes anunciantes saíram do rádio e foram para a TV, porque ao mesmo tempo em que tinha áudio, tinha imagem. O rádio foi buscando soluções. Hoje, a televisão está, desde as transmissões da SporTV ou mesmo da TV Globo, tentando fazer o que o rádio faz como a transmissão do treino, a viagem do ônibus, a concentração no estádio, nos grandes jogos. Isso o rádio fazia. Então, o rádio tem que encontrar alternativas. Vai andar sempre na frente e vai sempre encontrar. Se acontece um acidente aqui na rua agora, você pega um celular e entra no ar. A televisão vai ter que deslocar o equipamento em um micro-ônibus para poder transmitir. O rádio vai falar sempre na frente. Ele tem que lidar com a atualidade e com a emoção, porque a televisão não lida. Essa história de que o rádio vai acabar, eu ouço desde que comecei.

O rádio entrou na era digital e as rádios Globo e Tupi já transmitem em FM. Comente, por favor, essas novidades.

O rádio digital é uma coisa, o rádio FM é outra. Eu tenho discutido esse assunto com algumas pessoas e muita gente, os conhecedores do assunto, acham que o rádio digital não vai pegar. Ou ele vai custar caro demais, ou ele não vai adquirir tecnologia, como o telefone celular, que no princípio só os grandes empresários tinham. Hoje, qualquer pessoa tem celular. O rádio digital parece que não vai chegar nesse momento. Outras mídias virão atropelando, inclusive o telefone celular, o MP4. Mas, o rádio FM, há muitos anos eu ouço o José Carlos (Araújo) dizer: “A gente tem que transmitir em FM”. Porque em alguns setores da cidade, o AM sofre interferências muito sérias. Barra da Tijuca, enfim. E o FM não sofre. Mas eu não vejo isso como um grande problema. Há uma tendência de se transmitir também em FM, mas o AM não vai morrer.

Você acha que o FM é uma tentativa do rádio de se adequar principalmente a essa nova tecnologia, por exemplo, do MP4 e do celular, que não pegam AM?

É isso. E é uma luta da Abert (Associação Brasileira de Rádio e Televisão) para que isso mude, para que os fabricantes de equipamentos eletrônicos insiram componentes para transmitir AM. Por que tiraram os componentes dos radinhos de celular? Por que só tem de FM? Para baratear o custo. Então a tecnologia vai ter que avançar de tal maneira que possa inserir o AM também sem um aumento no custo, mas isso é a evolução que vai dizer.

Hoje as transmissões da Rádio Globo já são digitais?

Já são todas digitais. Os equipamentos são digitais, não os receptores do áudio, mas as transmissões já são. A gente percebe isso quando você ouve um gol narrado por Edson Leite na Copa de 1958 e um gol narrado hoje pelo José Carlos Araújo. A qualidade do som é disparadamente melhor.

Sobre a questão do diploma, qual a sua opinião como jornalista formado?

Eu acho um absurdo, como já disse. Reafirmo que acho um absurdo que um advogado, um médico, um arquiteto precisem de um diploma e um jornalista não precise. Ele é tão profissional quanto os outros, precisa de informação tanto quanto os outros. Não aceito essa coisa de “o jornalista é um artista”. Não é. O jornalista é um técnico, ele tem que aprender a fazer a profissão dele. Não pode pegar qualquer pessoa. A gente está regredindo, andando para trás, para 1950, quando o cara tinha uma boa voz, chegava na porta da Rádio Globo e dizia “Eu tenho uma boa voz”, fazia um teste de locução e era contratado. Eu acho uma derrota para o jornalismo.

Você acha que o próprio mercado vai excluir esse profissional? Por exemplo, a Rádio Globo não contrata quem não tem diploma...

Não contrata. Até hoje não contratava, não sei o que vai acontecer. Já soube de uma primeira declaração, do presidente das Organizações Globo, dizendo que vai manter esse critério de continuar exigindo profissionais formados em faculdades. Espero que seja assim, mas já ouvi declarações de diretores da rádio achando que não precisa ter diploma.

Quais são os seus projetos futuros?

Às vezes eu penso na aposentadoria, mas acho que ela está longe ainda. Se eu tivesse rico, compraria uma rádio no interior, lá na minha cidade, e ia morar de maneira pacata lá. Mas a vida é um turbilhão. Hoje não sou só eu, tenho meus filhos também, quero acompanhar a evolução da vida deles. Não sou uma ilha, não vivo sozinho. Gostaria de ser dono de uma rádio lá no interior e viver de maneira pacata, mas se um dia isso acontecer, vai ser muito no fim da vida, se é que eu vou chegar lá.

Seus filhos nunca te cobraram mais atenção?

Não, nunca cobraram. Eles procuram me acompanhar onde podem estar comigo. Nenhum deles é jornalista. Tem uma publicitária, um professor de História e o mais novo está estudando informática na PUC. Eles me acompanham. Segunda-feira à noite eu vou jogar a minha pelada, meu filho mais novo vai comigo. Minha filha, quando pode, me acompanha em outras situações em que a gente pode ir. Enfim, nunca houve cobrança, até porque eles nasceram no meio disso.

Então, seu plano para o futuro profissional é isso, continuar trabalhando...

Continuar trabalhando até onde a profissão me deixar, porque chega uma hora que a profissão te aposenta. Não é você que se aposenta. Há uma necessidade de renovação. Um dia vocês estarão no meu lugar. Isso é da lei da vida, é natural. Vai acontecer um dia, só espero estar com a minha vida bem resolvida, não dar trabalho para ninguém. Peço a Deus que nunca me limite os movimentos, para que eu possa viver por minhas próprias pernas, por minha própria cabeça. Que eu não fique impossibilitado e causando problemas para outras pessoas. Quando vier o final da vida, que venha de uma vez só. Sempre tive medo da velhice. Quando eu comecei a trabalhar e a formar minha vida, perto dos 30 anos, eu achava que ia viver até os 50. Porque, depois disso, começaria a dar trabalho para os outros. Já passei desse prazo. Estou com 52. Acho melhor não estabelecer prazo de vida e ir fazendo até onde eu puder fazer, puder ser útil.