ERIC NEPOMUCENO
PERFIL

Milton Eric Nepomuceno nasceu no Rio de Janeiro em 1948. Filho de Lauro Xavier Nepomuceno, físico, e Luisa de Arruda Nepomuceno, fonoaudióloga, é o mais velho de cinco irmãos. Morando em São Paulo, testou suas primeiras aptidões jornalísticas escrevendo para o jornal do tradicional Colégio Dante Alighieri. Aos 17 anos, saiu de casa e teve diferentes empregos, como vendedor de livros e entrevistador de agência de pesquisa de mercado. Frequentou três cursos superiores, dois de filosofia e um de propaganda e marketing, mas não concluiu nenhum. Com menos de 20 anos, começou como revisor no suplemento feminino do jornal O Estado de S. Paulo. Trabalhou em seguida na revista mensal Artes, que faliu, até que, no início da década de 1970, ingressou no Jornal da Tarde, que considera sua primeira grande escola de jornalismo. Na redação do jornal que pertencia à família Mesquista, também dona de O Estado de S. Paulo, conheceu profissionais que marcaram sua trajetória, como o próprio Rui Mesquista, o proprietário, Murilo Felisberto, o diretor da redação, além de Sandro Vaia, Fernando Portela, Miguel Jorge, Ivan Ângelo.

Entre 1973 e 1976, foi correspondente do Jornal da Tarde em Buenos Aires, onde também começou a escrever para a imprensa local, notadamente reportagens sobre a ditadura militar no Brasil, o que tornou inviável sua volta ao país na época. Na capital portenha, trabalhou na revista mensal Crisis, de cultura, dirigida pelo escritor uruguaio Eduardo Galeano, que considera seu melhor amigo, um “irmão de adoção”. A revista contava com a colaboração de antropólogos, poetas, sociólogos, escritores, cineastas, músicos, entre os quais alguns dos principais intelectuais da América Latina, como Julio Cortázar e Carlos Fuentes. Na época com 25 anos de idade, Nepomuceno considera sua passagem pela revista como uma “pós-graduação em jornalismo, que eu não trocaria por uma bolsa em Princeton, Harvard ou Cambridge”. Trabalhando na publicação, ele conta ter aprendido a “ter uma visão de América Latina”. Ainda na Argentina, teve a chance de frequentar uma série de cursos de aperfeiçoamento no jornal diário La Opinion, o que também contribuiu para a sua formação.

Em 1976, Nepomuceno foi contratado como correspondente internacional da revista Veja, então dirigida por José Roberto Guzzo. Entre 1976 e 1983, realizou coberturas na América Central, no México e na Espanha. Cobriu os golpes de Estado no Uruguai, no Chile e na Argentina, bem como a luta dos grupos clandestinos de esquerda que se opuseram a esse processo.

Esteve também nas guerras civis ocorridas em países da América Central, como em El Salvador, Guatemala e Nicarágua. Outro conflito em que trabalhou na cobertura foi a luta da Frente Polisário contra o Marrocos pela libertação do Saara Ocidental. Na Espanha, colaborou com os semanários Cambio 16, Triunfo e Cuadernos para el Diálogo. Regressou ao Brasil em 1983, como editor-adjunto do novo Jornal da Globo, da TV Globo, onde trabalhou até 1986 e adquiriu experiência com meios audiovisuais.

Desde então, não teve mais relação de emprego na imprensa. Chegou ainda a colaborar com o Caderno B, do Jornal do Brasil, em 2004, quando o cartunista Ziraldo esteve em sua direção. Foi correspondente e atualmente colabora com o jornal espanhol El País e com o portenho Página 12. Fora do jornalismo, passou a viver da produção e comercialização de documentários, vídeos institucionais e tradução de livros. Nepomuceno, que também é escritor, traduziu mais de cinquenta livros de autores latinos-americanos importantes como Julio Cortázar, Eduardo Galeano, Mario Benedetti, Juan Gelmán e Gabriel García Márquez, com os quais cultivou fortes vínculos de amizade.

É autor de A Palavra Nunca, 40 dólares e outras histórias, Coisas do Mundo, Quarta-feira, novelas e ensaios biográficos como Madrid no era una fiesta, sobre Hemingway na Espanha, e Tierra y Libertad, sobre o líder revolucionário mexicano Emiliano Zapata. Também escreveu ensaios como Cuba: novas anotações sobre uma Revolução, Nicarágua, um país acossado, além de diversos contos.

Em 2007, lançou pela editora Planeta o livro O Massacre – Eldorado do Carajás: uma história de impunidade, que retrata a atmosfera política que envolveu a morte de 19 sem-terras em confronto com a polícia militar do Pará, em 1996. O livro é ilustrado com fotos de Sebastião Salgado e tem depoimentos e dados que demonstram a impunidade que envolve os conflitos pela posse da terra no Norte do Brasil.

Eric Nepomuceno foi Secretário Nacional de Intercâmbio e Projetos Especiais, do Ministério da Cultura, e Assessor da presidência da Petrobras entre os anos de 1995 e 1998. Ganhou diversos prêmios, entre eles o de Third World Media, de Londres. Como escritor e tradutor obteve três prêmios Jabuti, concedido pela Câmera Brasileira do Livro, por traduções de contos de Cortázar e García Márquez.

ENTREVISTA

Entrevista com Eric Nepomuceno

Realizada por: Antônio Gaspar de Gouveia, Carolina Torres Mazzi e Tomás Nepomuceno.

Data: 19 de junho de 2008

Qual foi a influência dos seus pais na sua escolha profissional?

Eu acho que não houve influência nenhuma, porque meu pai ou minha mãe nunca disseram: “Você vai ser arquiteto”, “Você vai ser médico” ou algo assim. Eles diziam que nós seríamos o que quiséssemos e seríamos da melhor maneira possível. A influência, se é que houve, se deve ao fato de minha casa ser uma casa onde sempre se lia muito. Comecei a ler livros aos 8, 10 anos de idade e sempre li muito. Minha vida é toda feita de leitura e, portanto, da escrita. Teria sido a única influência. Meu pai é físico, minha mãe hoje é fonoaudióloga, tenho um irmão arquiteto, um irmão professor de inglês, uma irmã professora de arte e um irmão publicitário. Ninguém foi físico, ninguém foi fonoaudiólogo.

Qual a sua formação?

Eu tenho três cursos universitários incompletos, dois de filosofia e um de propaganda e marketing. Porém, em 1965 quando eu comecei a fazer jornalismo, havia duas grandes escolas de jornalismo no Brasil, duas escolas fundamentais. Aqui no Rio de Janeiro havia o Jornal do Brasil e em São Paulo o Jornal da Tarde. E eu, como estava morando em São Paulo, fiz o melhor curso possível de jornalismo, que era o curso do Jornal da Tarde. O “reitor” era o Rui Mesquita (proprietário do jornal), o “diretor do curso” o Murilo Felisberto. Antes tinha sido o Mino Carta. Os meus “professores catedráticos” foram Sandro Vaia, Fernando Portela, Miguel Jorge, Ivan Ângelo. E, depois, quando eu precisei sair do Brasil, tive a chance de fazer o que, na época, era o melhor curso de pós-graduação de jornalismo de toda a América Latina que era a revista Crisis, de Buenos Aires, dirigida pelo Eduardo Galeano. Ainda pude fazer vários cursos de aperfeiçoamento no jornal La Opinion de Buenos Aires. Como vocês estão vendo, eu não acredito em curso de jornalismo, eu acredito em redação. Eu não conheço ninguém que tenha saído bom jornalista de qualquer faculdade de jornalismo. Eu conheço muitos que se revelaram grandes jornalistas aprendendo nas redações.

Como o senhor entrou no mundo do jornalismo? O fato de ter saído cedo de casa influenciou sua escolha?

Eu comecei de verdade a escrever no jornalzinho do colégio, como muita gente começou. O fato de eu sair cedo de casa influenciou que eu começasse a trabalhar cedo. Eu saí de casa porque quis e meu pai era muito rígido com essas coisas, quer dizer, saiu de casa é dono de seu nariz. Eu saí e fui morar numa casa que era dele, ia almoçar em casa, minha roupa era lavada em casa, eu ficava sem dinheiro, mas tinha meu avô, meu pai... Era uma saída de casa meio entre aspas, mas eu não tinha mesada, por exemplo. Meu pai e meu avô me emprestavam dinheiro e me cobravam depois. Então eu tinha de ganhar alguma coisa. Eu escrevia no jornalzinho do colégio Dante Alighieri de São Paulo e era meio intelectual porque eu era leitor, mas na verdade meu primeiro emprego nem foi no jornalismo. Mas, evidente, tinha que ser no campo intelectual: fui vender livros para uma editora de um amigo do meu pai. Era uma editora de livros técnicos e na verdade eu só consegui vender quatro livros, porque eu era garoto e ia com aquela malinha de livro e me perguntavam sobre o conteúdo e eram todos tratados sobre física, matemática, engenharia civil, e eu não entendia nada, não conseguia vender nada. Então eu fui trabalhar com pesquisa de mercado, pra ganhar dinheiro, ia fazer entrevistas, tipo um Ibope. Logo depois eu me apresentei no jornal Estado de S. Paulo pedindo emprego e eu fui muito específico: eu escrevia poesia, estudava no curso clássico, ia entrar na faculdade de Filosofia e com aquela modéstia típica dos 17, 18 anos, e reivindiquei um lugar no suplemento literário d’O Estado de S. Paulo, na época um dos mais importantes do Brasil. Para minha grata surpresa, 15 dias depois eu consegui uma vaga importantíssima no departamento suplementos d’ O Estado de S. Paulo, só que no suplemento feminino. Eu tinha de corrigir receita, ver se não tinha açúcar com dois “s” e fiquei meio frustrado, porque achava que estava um pouquinho acima daquilo que tinham me dado. Depois, eu fui trabalhar numa revista mensal que chamava Artes e que faliu, claro. Então, o fato de eu ter saído de casa não influenciou. Devemos considerar várias coisas: eu, com meus 60 anos, sou da última ou penúltima geração realmente alfabetizada do Brasil antes que o Golpe (de 1964) desmantelasse todo o ensino do país. Não só eu, mas minha geração lia e escrevia muito mais. Eu, por exemplo, fui trabalhar em jornal porque gostava de escrever e achava que podia viver disso. Não era profissão, era ofício. Eu acho que o jornalismo é quase um gênero humano. Abandonei o oficio há 22 anos, mas eu não conheço nenhum ex-jornalista. Assim como não conheço nenhum ex-japonês, ou nenhum ex-negro – a não ser o Michael Jackson. Eu acho que é um gênero do qual eu me orgulho de ter praticado no meu cotidiano e de ter me livrado desse cotidiano depois.

Como foi sua experiência fora do Brasil?

Eu vivi dez anos e meio fora. É uma coisa complicada de dizer, porque ela tem muitas vertentes. Fui embora do Brasil porque eu quis, em fevereiro de 1973. Fui pra Buenos Aires. Na época, ainda trabalhava no Jornal da Tarde e lá eu comecei a escrever para a imprensa de Buenos Aires sobre a ditadura brasileira e aí não pude mais voltar. Em 1979, quando saiu a Anistia, eu não quis voltar, porque então meu interesse estava em outro lado do mundo. Foi uma experiência profissional muito boa e uma experiência de vida muito boa, mas também houve momentos muito amargos, de saudade, de não poder voltar. Foi no fundo muito enriquecedor. Agora, eu quando fui, fui para ir. Então em cada cidade em que morei, como Buenos Aires, Madri ou Cidade do México, sempre escrevi muito para a imprensa local. Tanto que hoje o único jornalismo que eu pratico é para Buenos Aires e para Madri. Eu escrevo para o El País, de Madri, que é um dos dez melhores jornais do mundo. Eu me orgulho muito de estar a 28 anos como colaborador deles, e escrevo muito para um jornal de Buenos Aires chamado Página 12, de esquerda, muito bem feito e onde eu faço parte da prateleira dos “matusaléns”, junto com Juan Gelman, Oswaldo Baier, Eduardo Galeano, quer dizer, a turma da velha geração. E pensar que naquela época eu era o caçula do grupo. Hoje já faço parte da turma da velha geração e a gente tem liberdade total para escrever o que nos der na veneta. Foi um período muito enriquecedor para o ofício trabalhar como correspondente estrangeiro, que é uma profissão que hoje não existe mais no Brasil, é muito interessante. Tanto em jornal diário, como, depois de 1976, estando em Buenos Aires, fui contratado pela revista Veja. E aí mudou a minha cabeça. Em vez da corrida do hard news, da noticia diária, virou um negócio de semana, o que era complicadíssimo. Eu ficava vendo todo mundo escrevendo e só tinha uma vez por semana para escrever. Achava o mundo injusto. Todo mundo tinha todo dia e eu só uma vez por semana. Mas foi muito interessante e importante para mim. Depois, eu não pude aplicar nada disso no Brasil quando eu voltei, porque evidentemente o país era outro, a imprensa era outra. Eu saí daqui com um policial dentro da redação, lendo e censurando o que você escrevia e a gente fazendo um esforço tremendo para driblar aquele censor. Quando eu voltei, a censura já não estava mais na ditadura do Estado, era uma censura da empresa. E é muito mais fácil driblar a censura de imprensa do que a censura de empresa. Eles botam um jornalista pelo menos tão bom quanto você para examinar o que você escreve e aí fica complicado driblar.

Como foi a sua experiência como correspondente internacional em guerras?

Eu sempre fui um correspondente muito cômodo para meus patrões, porque eu disputava lugar que ninguém queria ocupar. Todo mundo queria ser correspondente em Paris, Nova York, Londres, Roma. Já eu queria ir pra El Salvador, América Central, onde ninguém queria ir. Eu cobri a ditadura na Argentina, acompanhei os enfrentamentos bravos da esquerda armada contra Exército, polícia e grupos paramilitares, numa carnificina brutal. Na Espanha, eu peguei o período da redemocratização, para mim de uma riqueza incrível, por aprender como se faz uma democracia. Mas, para não perder o hábito, enquanto eu morava na Espanha, eu cobri a guerra no deserto do Saara. Estive lá cerca de oito vezes em três anos, era bastante frequente. Quando eu fui morar no México, em 1979, na verdade fui para cobrir a América Central e foram quatro anos de guerra civil sem interrupção. Em EL Salvador, na Guatemala, na Nicarágua, não a revolução sandinista, mas os contras, armados pelo Reagan e que sabotavam o governo sandinista. Foi uma época barra pesada, de muita violência. Eu me lembro, por exemplo, que, em 1981, eu fiz as contas: passei 112 dias na minha casa no México e nunca mais do que 20 dias seguidos. Eu passava o tempo inteiro na América Central. Era uma coisa realmente muito violenta. Eu lembro que, quando eu ia para casa no México, eu tinha dificuldade para dormir nos dois primeiros dias, porque eu estava acostumado a esperar barulho de tiro e de bomba para saber onde seriam os confrontos naquelas cidades pequenas. O silêncio me atordoava.

Poderia falar sobre a revista Crisis?

Era uma revista mensal de cultura, onde, primeiro, para lá confluía a América Latina inteira. Eu conheci tudo o que eu sei de literatura, de arte e de cultura latinoamericana ali. Tínhamos antropólogos, poetas, sociólogos, escritores, cineastas, músicos, jornalistas, tudo. Segundo, aprendi a ter uma visão de América Latina. Terceiro, era uma época em que o mundo estava com as atenções muito voltadas para a América Latina, tinha o Chile do Allende, a ditadura no Uruguai, aquele peronismo muito confuso na Argentina e pela revista passava todo mundo. Você atendia ao telefone era o Cortázar; chegava carta do correio, era o Carlos Fuentes mandando um texto. Era tudo, e eu na época muito menino, com 25 anos, encarei como uma pós-graduação que eu não trocaria por uma bolsa em Princeton, Harvard ou Cambridge.

Como foi a experiência do Jornal da Globo?

Em janeiro de 1983, a TV Globo me fez um convite esdrúxulo, ligou para o México me pedindo para ajudar a produzir um programa sobre o México, que ia para um jornal novo que eles estavam pensando em lançar, que não tinha nem nome ainda. Foi assim que começou minha relação com a TV Globo. Esse jornal novo viria a ser o Jornal da Globo, que foi por algum tempo uma experiência muito importante do telejornalismo brasileiro. Começou em novembro de 1983 e durou até meados de 1985. Deu tão certo e mostrou o quanto era possível você ter uma alternativa ao jornalismo que era praticado pela emissora, que eles acabaram pasteurizando o programa. O Jornal da Globo, que era muito diferente do Jornal Nacional na apresentação, nos textos, nos enfoques, nos temas, nos tipos de matéria, no tipo de edição, deu tão certo que não podia ficar na TV Globo. Mostrava que é possível ter vida inteligente lá dentro, coisa que para eles é algo insuportável. Mas foi muito bom para mim, eu aprendi a trabalhar num ofício novo, trabalhar com audiovisual. Tanto que depois, quando eu saí da TV Globo, em fevereiro 1986, nunca mais tive emprego em imprensa. E durante muito tempo, e ainda hoje, eu faço e fiz muito documentário. Fiz muito vídeo institucional para ganhar dinheiro e aprendi a escrever para imagem que é outra coisa completamente diferente. Eu sou da geração Gutenberg, do papel, mas aprendi com a geração Lumière.

E como foi trabalhar para a revista Veja?

Quando eu estava lá eu trabalhava com Zé Roberto Guzzo, que era o diretor de redação, e Elio Gaspari, que nunca foi meu amigo, mas sem duvida é um profissional de muita competência. Depois deles, a Veja começou a acabar, até virar esse corpo insepulto e putrefato que circula nas bancas hoje em dia. Aliás, também na TV Globo eu tive a sorte de pegar uma geração de pessoas que considero muito bons profissionais de televisão. José Antonio Severo e Paulo Henrique Amorim eram pessoas de muita categoria.

E a sua crônica semanal no Jornal do Brasil?

Isso ai foi o seguinte: o Ziraldo chamou um grupo para tentar reformular o Caderno B, de um jornal que também estava meio moribundo, e eu sou uma espécie de coveiro. O que me interessou nisso era que eu sempre quis ter um exercício fixo, um compromisso de escrever o que me desse na veneta, ou seja, fazer uma crônica ou uma coluna. Eu fiz durante um ano. Algumas coisas que eu escrevi, eu gosto e, quando isto começou a me aborrecer, eu fui embora. Logo depois mandaram todo mundo embora. Acho que eu fui o único que tive tempo de me demitir. Os outros foram demitidos quando o Ziraldo se afastou do jornal.

O senhor sofreu muito por ser um jornalista simpático à esquerda nos anos de ditadura militar?

Não precisava ser simpático à esquerda. Eu era simpático à esquerda, mas não precisava. Bastava ser simpático à decência, ser simpático à democracia, ser simpático a uma vida minimamente aceitável. Era muito complicado, porque você tinha a realidade dos fatos, você tinha a opinião do patrão e, principalmente, você tinha uma censura brutal. E eu acho que as gerações de hoje em dia não têm muita ideia do que era. Muitas vezes, a gente ficava sabendo das coisas pela proibição. “Fica expressamente proibido...”, mas ninguém tava nem sabendo daquilo. Quando a censura endureceu muito, os jornais tinham seus subterfúgios. O Jornal do Brasil publicava anúncios do próprio Jornal do Brasil. Uma vez proibiram uma matéria de capa e saiu um anúncio enorme da Rádio JB dizendo “Agora é samba”. O Estado de S. Paulo publicava Camões, os Lusíadas; o Jornal da Tarde, como era mais criativo, publicava receita de cozinha. No começo, os leitores estranhavam muito. Eu lembro, porque eu era um dos que escreviam as receitas e eram receitas inviáveis. Meu grande êxito eram as Laranjinhas Recheadas. Abre-se uma laranja, tira todo o conteúdo, deixando só a casca. Depois, você pica uma melancia, um melão, um abacaxi, dois mamões e põe tudo lá dentro. Obviamente, não cabe. No começo, alguns leitores descuidados escreviam dizendo que as receitas eram impossíveis: pudim de ovos que não levava ovos, manjar branco sem leite de coco, só maisena com água no freezer. Era um negócio surrealista, a ponto de começarem a censurar as receitas. E havia os truques para driblar o “tira” da redação, por exemplo, o nariz de cera. Eu mandava coisas de Buenos Aires como “agora que acabou o comunismo no Chile, o governo do generalíssimo Pinochet tem se esforçado para trazer de volta a normalidade. Há primavera no Chile, há frutas no mercado, as moças se vestem de maneira bonita. Enquanto isso há denúncias de tortura e assassinato, mortandade”, e às vezes isso passava. Mas o leitor tinha que sacar isso, tinha de ler até o fim. Era muito sacrificado o ofício, mas havia uma decência muito grande entre nós, jornalistas, também. Éramos todos de uma determinada formação, não estou dizendo política nem ideológica, estou dizendo formação profissional. E para exercer aquela nossa formação, a gente tinha de ir contra energúmenos totais que você driblava assim.

E o que o senhor acha da obrigatoriedade de diploma para exercer a profissão?

Basta você ver a imprensa de hoje e a imprensa de trinta anos atrás. Em minha opinião, decaiu muito. Eu sou a favor de o jornalista ter uma formação a mais ampla possível, o jornalista tem que ter o mínimo de base para poder relatar, não opinar. Relatar a verdade dos fatos. Do esporte à cultura, da economia ao hábito social. Quanto mais informação e mais sólida for a formação dele, melhor. Mas diploma não quer dizer nada. No mínimo, deveria haver uma cota, até porque, que eu saiba, da minha geração ninguém tem curso de jornalismo, como nem todos tem sequer curso superior. Não estou fazendo apologia do analfabeto que vira presidente. Só estou dizendo que uma formação acadêmica é importante, mas também é importante você ter ma formação de vida, uma formação cultural e, sobretudo, uma formação profissional. Fernando Morais não acabou o curso superior e eu continuo achando que ele é o mestre da reportagem, não só da minha geração, mas do Brasil contemporâneo. Estou dando um exemplo, poderia dar trinta. Eu jamais me deixaria operar por um médico sem diploma, eu jamais chamaria um engenheiro para calcular a parede da minha casa se eu não souber que ele tem um curso, mas se eu fosse dono de um jornal eu chamaria quem é bom. No fundo o principal é ter de saber escrever e ser muito bem informado. Os preceitos básicos do jornalismo você aprende exclusivamente em um curso de comunicação. Você vai aprender tudo sobre a teoria. Vão saber de comunicado, comunicante, o signo, a semiologia e Umberto Eco. Isso não é importante. Vai para a esquina cobrir um acidente, vai ver quantos tiros levou um cara, vai ver a vida como ela é, porque é aquilo que você vai ter de relatar. E bem escrito. Hoje em dia tem uma coisa que causa urticária que é ler sobre um negócio chamado “jornalismo investigativo”. Isso para mim é a mesma coisa que “catolicismo cristão”. O jornalismo é investigação em si. E não ficar na redação esperando para praticar o tipo de jornalismo feito hoje no Brasil: o “jornalismo arquitetônico”, que são as colunas e onde uma repete a outra, e o “jornalismo agrícola”, as noticias plantadas. As pessoas ficam na redação, ligam para um procurador de Justiça doido para aparecer, que vai dizer qualquer coisa e dizem que isso é investigação. Hoje o jornalismo comete verdadeiras barbaridades porque deixou de ser investigativo. Qualquer energúmeno delegado de policia diz alguma coisa e aquilo vira verdade. Qualquer promotorzinho público planta uma notícia, sai no jornal e, baseado no que saiu no jornal, ele abre uma causa pública, acaba com a vida de alguém e ninguém investiga nada. Ninguém corre atrás de nada. Desconfio que não corram nem atrás das moças da redação. Não correm atrás de nada.

Qual sua opinião sobre o nível do jornalismo brasileiro impresso?

Fico muito espantado. De vez em quando, eu vou falar para estudante de comunicação ou mesmo para profissionais. Quantos jornais essas pessoas lêem por dia? Quantos jornais? O garoto chega hoje a uma redação e quantos jornais ele lê? Nós éramos obrigados a ler cinco. Até hoje eu leio oito jornais todos os dias. O cara lê o jornal dele, para ver se o nome dele saiu, para ver se a matéria dele está lá. Não existe mais o editor, não existe mais o copidesque. Ou seja, basta você pegar todos os jornais de Rio e São Paulo, Rio Grande do Sul e Brasília e o nível é rasteiro. Eu acho que há dois produtos jornalísticos, estou falando da imprensa em papel, realmente de qualidade, nitidamente superiores: o Valor Econômico e O Estado de S. Paulo. O resto eu acho uma bobagem. A Folha tem um problema de estilo e as principais característica de estilo do jornal são denúncias fáceis, ser contra qualquer coisa e, sobretudo, é um “new journalism”, um estilo totalmente novo, em que o titulo não corresponde à matéria. Há no titulo algo que a matéria não diz. Você lê: “SECA EM ALAGOAS”. E não há uma só linha dizendo há quantos dias não chove, como estão os reservatórios de água. Eu acho o nível chinfrim, para não falar nos desvios de conduta, que viraram uma praga da imprensa feita hoje no Brasil. A revista Veja é o melhor exemplo disso. O Brasil é o único país que eu conheço que passou de um regime autoritário para uma democracia representativa, formal, cuja imprensa não tem alternativas. Você não tem na imprensa brasileira diferentes pontos de vista sobre a realidade, sobre o sistema dominante. Existem ecos da mesma voz, do mesmo sistema. Ecos. A Espanha se democratizou. Você lê hoje o ABC e nota um jornal conservador. A raiz dele é católica, monarquista e é um jornal bastante bem feito. Você tem o El Mundo, que obedece à nova faceta do franquismo remodelado. Você tem o El País, um jornal democrata, de centro-esquerda. No Brasil, me explica, cadê essas alternativas? Aqui,, qual a diferença de alguém ler a Folha, O Globo ou Zero Hora? São todos ecos da mesma voz. É uma imprensa pasteurizada, mediocrizada e que mediocriza o leitor. Se você cria gerações que só comem mamão, as pessoas vão achar que mamão está ótimo: suco de mamão, pudim de mamão, sorvete de mamão. Um dia descobrem a goiaba, aí é um Deus me livre. Por isso não podem descobrir a goiaba. Eu dou ao leitor o que leitor quer. Mas alguém perguntou o que esse leitor quer?

O senhor escreve contos, poemas, livros, além do jornalismo. Como são essas novas formas de escrita? Elas lhe dão prazer? O que o senhor mais gosta de escrever?

Gosto muito de escrever conto, de escrever ficção, gosto de tradução. Eu tinha prometido a mim mesmo não escrever livros de não-ficção, livros de reportagem e acabei sendo tentado a escrever um de que gosto muito O Massacre, o livro mais trabalhoso que fiz na vida. Meu oficio é escrever e por sorte posso viver do meu oficio. O que eu mais gosto de escrever é o que estou escrevendo hoje. E sempre que estou terminando um trabalho, estou pensando no outro, doido para esse aqui acabar para começar o outro.

O senhor é um dos melhores tradutores hoje. Traduz grandes nomes como Garcia Márquez e amigos seus. Como é esse processo de traduções?

Traduzir é escrever. Estou escrevendo no meu idioma o que você escreveu no seu. Eu não sou tradutor profissional, só traduzo meus amigos, só traduzo quem eu gosto, então só traduzo quem tem a ver comigo. Há uma afinidade muito grande. As maiores dificuldades que tenho nas minhas traduções nem sempre são técnicas, muitas vezes são emocionais. É muito emocionante traduzir fulano ou beltrano, pois eu lembro da minha vida, dele. Sou um contista que traduz, sou um escritor que traduz, não sou um tradutor.

Sua mais recente obra, O Massacre, resultou de um longo processo, fruto de muito estudos. Conte um pouco a respeito.

É uma longa reportagem. Um amigo meu aqui do Rio me ligou perguntando se eu não queria fazer um livro a respeito do julgamento de Eldorado de Carajás. Eu perguntei se estava ocorrendo outro julgamento ao que ele respondeu que não, que se tratava do mesmo julgamento. Quando ele me ligou, eu estava no meio da redação de um texto para o documentário Vinícius de Moraes (dirigido por Miguel Faria Jr.) e, assim, disse que estava muito ocupado, mas que me deixasse pensar. Comecei a me lembrar do massacre de Eldorado e me dei conta que estava esquecendo. Aí eu disse que queria fazer um livro não apenas sobre o julgamento, mas sobre tudo. Por que aconteceu? Como aconteceu? O que aconteceu com as pessoas que sobreviveram? Elas ganharam a terra? Como vivem hoje em dia? Fiquei três anos trabalhando nesse livro dos quais uns cinco meses para escrever e o resto do tempo lendo, pesquisando, entrevistando. Fui lá, conversei com sobreviventes, conversei com testemunhas. O Massacre, na realidade, tem uma estrutura de cinema. Conversando com amigos cineastas me dei conta de como devia ser a estrutura do livro.

O senhor acha que a computação e a eletrônica pioraram o texto escrito?

O Gabriel Garcia Márquez começou a usar computador no livro Amor nos tempos de cólera, que terminou em 1983 ou 1984. O que o computador piorou o texto dele? O Eduardo Galeano começou a usar computador faz dez anos. O que o computador piorou o trabalho dele? O computador não piorou o trabalho de ninguém, facilitou a mediocridade dos medíocres.

Conte alguma história interessante que o senhor viveu trabalhando como jornalista.

Uma vez, quando eu morava na Espanha, em janeiro de 1977, um amigo meu me liga e diz: “Escuta, a Frente Polisário, me pediu para organizar um grupo de cinco correspondentes na Europa para ficar uma semana cobrindo guerra no deserto”. Ele tinha chamado um jornalista do The New York Times, uma da BBC – Londres, uma italiana, um espanhol e eu. Ele queria me ajudar, sabia que eu estava chegando lá triste, exilado. A instrução dele era toda clandestina, toda James Bond. Eu tinha de pegar um avião em Madri, ir para Palma de Mallorca, onde no aeroporto eu iria ser contatado para ir para Argel. Perguntei como era o contato e meu amigo disse: “O cara te conhece”. Eu disse “Como que ele me conhece”, e a resposta dele: “Lembra a última vez que a gente tava tomando café, então, ele ficou te olhando e guardou bem tua fisionomia”. Chego ao aeroporto e nada. A única instrução era que em Argel eu não podia dizer a ninguém que eu ia para o deserto. Chego a Palma de Mallorca, e nada de contato. Faltava meia hora para o meu vôo sair. Eu me anunciei: “Señor Eric Nepomuceno, por favor, comparecer al mostrador de Ibéria”. E fiquei grudado no balcão da Ibéria ver se alguém me procurava. Nada. Cheguei em Argel completamente perdido. Não sabia para onde ir, não sabia nada. Quando cheguei no aeroporto de Argel estava sem visto. Fui preso. Quando deu nove da noite me levaram para uma salinha cheia de árabes e os homens que antes só falavam comigo em francês ou espanhol, os policiais, só falavam em árabe comigo. Aí eu comecei a ficar francamente apavorado. Uma hora eu chamei um que tinha cara de chefe e falei: “Olha aqui, vamos esclarecer, eu sou um convidado da Frente Polisário”. Era tudo o que eu não podia falar, mas eu já estava perdido mesmo. Ia passar a noite naquele cafofo e não ia sair vivo dali. Mas mudou da água para o vinho. Em 15 minutos, uma Mercedes me buscou e me levou para um hotel de 48 estrelas. No dia seguinte, eu fui para a guerra, para o deserto. Fiquei lá dez dias e fui parar na Mauritânia, porque teve batalha e a gente foi fugindo, fugindo.