FERNANDO CALAZANS
ENTREVISTA

Entrevista com Fernando Calazans

Revisado por Daniel Vivacqua e Maurício Duarte

Como foi sua formação profissional?

Eu fiz vestibular para Direito e cursei dois anos, mas não gostei, e então parei. Fiz vestibular para Jornalismo e passei para PUC, onde fiquei um ano. No segundo ano, comecei a fazer estágio no JB [Jornal do Brasil] e eu não tinha muito tempo. Foi então que comecei a reparar que aprendia muito mais no dia a dia do Jornal do Brasil do que talvez fosse, naquela época, a melhor escola de jornalismo do Brasil. E larguei a faculdade no segundo ano, portanto, não me formei em nada. Porém fui contratado pelo JB e iniciei minha carreira lá.

De onde veio o interesse pelo jornalismo?

Veio do interesse por ler e escrever. Eu lia muito as crônicas do Fernando Sabino, do Rubem Braga, do Armando Nogueira e do Nelson Rodrigues nos esportes. Então, esses poderes da crônica, de ler e escrever, foram me conquistando. Logo conheci José Trajano, muito amigo meu, da Tijuca na época, que trabalhava no Jornal do Brasil e me levou para fazer um estágio lá. Eu fiquei.

Por que o jornalismo esportivo?

Por dois motivos: além de gostar muito de ler e escrever, eu adorava futebol. Com o Trajano na seção de esportes do Jornal do Brasil, eu fui para lá e fiquei nos esportes. Fiz algumas matérias para [editoria de] cultura, sobre literatura, escrevia sobre livrosetc. Mas sempre trabalhei nos esportes, esses anos todos, desde 1968.

Onde você trabalhou depois do estágio no Jornal do Brasil?

Depois do JB fui para o Correio da Manhã, que ainda existia na época, fiz a Copa do Mundo do México por lá, junto com José Trajano e João Máximo. Depois, o Correio da Manhã acabou e eu vim para O Globo, voltei para o JB na década de 1970, fiquei até 1986, quando vim definitivamente para O Globo, onde estou até hoje.

Qual foi a Copa do Mundo mais marcante para você?

Deve ter sido a de 1970. Foi o título em que o Brasil ganhou o tricampeonato com uma seleção espetacular, com Pelé, Gérson, Rivelino, Tostão, Carlos Alberto Torres, Clodoaldo, Jairzinho, Paulo César Caju etc. Foi a primeira Copa que fui, e logo com um título do Brasil.

E a derrota da seleção brasileira na copa de 1982?

Eu não fui a Copa de 1982, mas posso falar, pois sei muito bem sobre ela. Foi a derrota mais triste em matéria de Copa do Mundo, porque ela mudou o modo de jogar futebol. O Brasil era a melhor equipe do mundo na época, como foram as seleções de 1970 e 1958, e perdeu jogando muito bem. Criou-se então a burrice, e o futebol mundial começou a pensar da seguinte maneira: “Se o Brasil jogou bonito e perdeu, para ganhar tem que jogar feio”. Por isso o ano de 1982 é um marco na história do futebol, porque ele muda a maneira de jogar futebol. O futebol bonito, bom de se ver e bem jogado passou a valer pouco, e passou a valer mais o futebol de competição, feio, de “agarra-agarra”, a partir desta derrota do Brasil em 1982.

Nestas derrotas é difícil separar o lado “jornalista” do lado “torcedor”?

Não tem nada de torcedor. Quer dizer, até tenho, como no caso de 1982. Eu torço para o time que está jogando melhor, pode ser o Botafogo, o Corinthians, o Flamengo, o Internacional, a seleção da Itália... Se bem que a Itália nunca jogou bem... Mas pode ser a seleção da Alemanha ou da Argentina. Eu torço para o time que está jogando melhor.

Em 2002, quando houve muita pressão da imprensa para que o técnico Felipão convocasse o Romário. Qual foi a sua posição?

Não lembro bem. [Risos] Mas eu gostava muito do Romário. A grande década do Romário foi a de 1990. Em 1990 ele era o maior jogador de área do mundo e o maior artilheiro.Do ano de 2000 para cá, o Romário já não é o mesmo. Então não acho que em 2002 ele fosse fazer tanta falta assim, como não fez, aliás.

A imprensa fez muita pressão na época...

É, mas eu não participei desta pressão toda não. Eu já achava que o Romário, ainda muito bom, como sempre foi, já não era mais o craque excepcional que tinha sido.

Em 2006, a imprensa ficou em cima da seleção brasileira, chegando a noticiar com exaustão o caso das “bolhas do Ronaldo”, querendo saber de tudo o que acontecia na preparação para o mundial. Você acha que isso atrapalhou o desempenho do time?

Não acho que foi a imprensa que atrapalhou não. Eu acho que a imprensa até atrapalha em muita coisa, mas em 2006 acho que não. Acho que quem atrapalhou foram os jogadores, a CBF [Confederação Brasileira de Futebol] e o técnico Parreira. Essa cobertura intensa é assim mesmo e será assim daqui para frente. O futebol virou um espetáculo. Mas não é culpa da imprensa. Em 2002 também tinha essa badalação intensa e o Brasil ganhou. Foi culpa da CBF que fez uma festa no local da preparação e a imprensa apenas acompanhou... A cobertura da imprensa é excessiva, mas estes canais de esportes, que ficam 24 horas no ar, têm que fazer essas coisas. Ali houve absoluto descaso dos jogadores, como Adriano, Ronaldo Fenômeno e aquele outro lá, que chegou gordo. E o comando da seleção, do Parreira e do supervisor, foi um comando fraco, que não soube tirar os jogadores que não estavam prestando. A culpa ali foi principalmente da comissão técnica e dos jogadores, que chegaram pouco ligando para a seleção brasileira e a Copa do Mundo.

Lendo as suas colunas, percebe-se que você faz uma espécie de “autocrítica”, analisando e criticando o jornalismo.

É um conjunto que eu critico. É a imprensa e o futebol brasileiro. É que vejo o futebol brasileiro caminhando muito errado e ao mesmo tempo uma imprensa pouco crítica. O que vejo de mais errado na imprensa hoje em dia, não é na imprensa escrita, é na imprensa oral, sobretudo na televisão, na qual os comentaristas são loucos por táticas e técnicos de futebol, têm uma paixão inexplicável pelos treinadores e os badalam. Eles analisam o jogo como se fossem técnicos de futebol. Jornalista tem que analisar o futebol como jornalista, e não como técnico. O que você mais vê hoje é o comentarista querendo ser técnico de futebol. Isto atrapalha muito, porque paramos de admirar o jogador que sabe jogar melhor e admiramos as táticas, brucutus e jogadores que não deixam jogar. A imprensa passou a admirar... Talvez uma imprensa mais jovem, não por ser jovem, mas por não ter uma referência, não conhecer o que o futebol brasileiro é, suas raízes. O futebol brasileiro não tem nada a ver com esses brucutus que infestam os times, fazem faltas, dão pancada, e são muito elogiados.

Falta um pouco desta sua atitude crítica para os jornalistas brasileiros?

Há até alguns que fazem a crítica, mas acho que podiam ver um pouco mais como está indo a imprensa. Também não é só a imprensa esportiva que tem problemas não. Estamos, a meu ver, escrevendo um pouco pior do que antigamente. Então acho que a imprensa deveria sim, fazer essa reflexão, uma “autocrítica”, como você colocou anteriormente. Eu também tenho meus defeitos [risos]... Estou julgando os outros, mas também tenho os meus. Não me incomodo que os outros me julguem, e podem falar de mim o que quiserem. Talvez alguns falem de mim... Não falam muito, mas podiam falar.

Você acha que já foi mal visto na imprensa, por criticá-la?

Não sei, porque eu não ando perguntando por aí. [Risos] Mas acredito que sim, que crie um certo mal-estar. Mas com a imprensa que conta, acho que me dou muito bem.

Você também defende muito um futebol “limpo”...

Isso, principalmente, deveria ser seguido. O que está acontecendo de pior no futebol brasileiro não é nem a violência, pois essa sempre existiu, como numa entrada violenta, um carrinho, uma pancada ou uma cotovelada, como a famosa do Pelé em 1970. O problema hoje no futebol é a quantidade de faltas. É a falta como recurso, não mais a falta como choque normal do futebol. Os árbitros e a imprensa são coniventes com isso. A imprensa enxerga tudo isso, mas não fala para não contrariar o tecnicozinho que ela gosta.

Quais foram os grandes nomes que o inspiraram, ou ainda inspiram, a realizar o jornalismo esportivo?

João Máximo e Armando Nogueira. Teve também o José Ignácio Werneck, o Nelson Rodrigues... Quer dizer, o Nelson Rodrigues não inspira ninguém. Não há nada igual ou parecido com Nelson Rodrigues. Ele foi tão único no seu modo de trabalhar que nunca procurei nem tentei me influenciar por ele, porque não tem como eu prosseguir com aquilo que Nelson fazia. Já o Armando e o João Máximo dá para fazer, porque são jornalistas “normais” feito eu. O Nelson era um gênio, um criador, muito mais um dramaturgo genial do que cronista esportivo.

Dos jornalistas atuais, quem você acha que desempenha um bom papel?

Há muitos, não pensem que eu não gosto dos jornalistas jovens não! [Risos] Tem muita gente boa. Aqui no O Globo tem muita gente interessante, como o Felipe Auwi, o Fábio Jupa e toda essa turma nova. A turma antiga está aí também... O José Trajano, que foi outro que me ensinou muita coisa, e com que trabalho hoje em dia na ESPN Brasil. Os jovens ainda não chegaram ao ponto em que eu cheguei, mas vão me substituir um dia, mais cedo ou mais tarde. Não tenho um nome jovem que eu possa destacar como colunista, mas há sim muitos bons jornalistas e repórteres. Os jovens estão chegando aos pouquinhos, e vão tomar o meu lugar, o do Sérgio Noronha e do Renato Maurício Prado.

Qual a importância destes grandes nomes para os jornalistas que estão surgindo agora?

Não sei, acho que eles não ligam muito... Se você liga, você é uma exceção. [Risos] Eles não leem muito, acham que é um jornalismo superado, porque não enfatiza a tática. Pode ser que alguns deles até achem que o Nelson foi uma besta quadrada...

Muitos acham que vocês são nostálgicos, que pararam no tempo...

Isso aí é muito triste para mim. Como eu escrevi em uma coluna há pouco tempo, se um crítico de cinema fala de Bergman, Hitchcock e Fellini, vão achar que ele tem uma cultura maravilhosa. Se o crítico de literatura fala do Machado de Assis e do Proust, acham que é um crítico extraordinário. Mas se eu falo do Garrincha, do Didi ou do Nilton Santos, sou saudosista. A cultura do futebol está muito apagada e decadente no Brasil, por falta de leitura. A imprensa deveria falar mais e o público de esportes deveria procurar saber um pouco da cultura do futebol brasileiro, como você está fazendo.

Você acha que os próprios jogadores de futebol não têm essa cultura?

Não tem nenhuma. O Robinho, o Alexandre Pato e Lúcio mesmo já disseram que não conhecem o time brasileiro de 1958. É um desleixo com a profissão, mas é uma consequência da falta de leitura da população brasileira em geral...

Você acha compreensível?

É, de uma certa forma. Não é só no futebol que isso está acontecendo. O Felipe Auwi fez uma matéria para o Globo em que mostrou que o brasileiro está lendo cada vez menos, seja jovem ou velho, então não é pecado do jovem não. Por isso acham que não tem importância saber como foi o Didi, o Zizinho e o Nilton Santos. É uma pena, pois estão todos eles morrendo. Se continuar assim, daqui a dez anos não se sabe nem quem foi o Zico... Não é verdade?

Como colunista de O Globo, você tem liberdade total para escrever?

Nunca me falaram nada, nem fizeram recomendações ou censura. Nada disso.

Você gosta da crônica esportiva, de um espaço somente seu para expor ideias?

Eu gosto muito. Gosto de ler e escrever como já disse. Como não tenho talento para ser nada melhor que isso... [Risos) Não sei ser um escritor melhor que sou, ou escrever sobre ficção, que é o que gosto mais, mas não tenho talento para isso, então me contento. E acho que já estou fazendo alguma coisa quando escrevo sobre futebol.

Como é a resposta dos leitores à sua coluna?

Recebo muitos e-mails. Muita discussão, xingamentos, elogios e críticas.

Como você encara as críticas?

Acho que são normais. Depende do grau de educação das pessoas. Eu respondo quando é algo bem colocado, converso, discuto e debato. Mas tem alguns que não dá.

Você já teve algum problema com torcedor mais nervoso devido a algum comentário sobre futebol?

Graças a Deus não. Tinha um que eu conhecia vagamente e mandava e-mails muito grosseiros. Mas ele parou e eu deixei para lá.

Sobre o seu trabalho no Linha de Passe, da ESPN Brasil, você acha que é um espaço privilegiado?

É, porque as pessoas que me abordam na rua, embora eu seja muito mais antigo no O Globo do que na ESPN, falam mais da ESPN que do O Globo. A televisão é imbatível, tem uma visibilidade incrível. Eu não gostaria que fosse assim. Sou muito mais um homem de jornal, de texto, do que de televisão. Não vejo graça nenhuma em televisão. Agora estou um pouco mais solto, mas tenho muita dificuldade. Não é o meu veículo, não é aquilo para qual eu tenho jeito... Mas gosto do Linha de Passe e da ESPN Brasil. Gosto do enfoque da ESPN e de sua posição crítica.

É um programa mais longo que os outros e faz uma análise mais profunda do futebol. O Linha de Passe tem realmente uma visão diferente?

Tem e procura ter. Uma visão mais crítica e independente. É muito inspirado na grande Mesa-Redonda Facit, que foi a maior que já teve no Brasil. Ela tinha quatro caras como José Maria Scassa, Armando Nogueira, João Saldanha e Nelson Rodrigues. Foi a pioneira e era um espetáculo. Foi um programa de televisão que na época [anos 50 e 60] todo mundo via, inclusive as mulheres e as moças. Era imperdível, pelo nível do debate. Falava-se de tudo e tinha pessoas muito preparadas e inteligentes. Essas quatro pessoas eram os grandes nomes da imprensa esportiva em geral. Tinha também o Luís Mendes, que apresentava o programa. O Linha de Passe não tem convidados, nem música. É um debate entre jornalistas, e é por isso que eu participo dele.

Esse debate mais profundo falta à imprensa esportiva?

Faltar, não falta não. Tem muita coisa em discussão na imprensa. Tem dois canais, como Sportv e ESPN Brasil, 24 horas no ar. Tem debate até demais. [Risos].

O debate da ESPN parece diferente dos outros...

É. Ele é mais crítico, tem mais posição, independência, e pode falar mais de assuntos que envolvam negócios. Mas tem debates bons em outros canais, gosto muito do Redação e do Troca de Passes da Sportv. Há coisa boa e coisa ruim. Em todo lugar é assim, seja no O Globo, no Estadão, na Folha ou nos canais esportivos.

Você lançou um livro, O nosso futebol. Pretende seguir carreira como escritor?

Eu lancei este livro, em 1998, como uma coleção de crônicas minhas, mas não fiquei muito satisfeito com o resultado. Tenho convites do Antônio Nascimento [Editor de Esportes do Globo] para fazer outro livro, mas dá preguiça. Se eu soubesse, escreveria sobre ficção. De futebol já estou um pouco cansado. Não sei se faço mais um livro de crônicas sobre futebol, estou pensando.

O que você diria para um jovem que está começando no jornalismo?

No caso do jornalismo esportivo, eu acho que ele tem aprender um pouco mais do que se sabe hoje, sobre a história do futebol brasileiro. Não digo para ficar guardando datas, mas saber como nasceu o jeito brasileiro de jogar, que encantou o mundo inteiro, e que tínhamos 20 ou 30 craques, como são o Ronaldinho Gaúcho ou o Kaká. Nós tínhamos 60 jogadores brilhando aqui, ao invés de seis brilhando no exterior. Devido a isso as pessoas passam a gostar do Obina, do Ygor e do Arouca...

Existe muita badalação nesses novos jogadores?

Muita. A imprensa, como não tem muita referência, vê um jogador desses aparecer e eleva logo às alturas. A escassez e a falta de referência da juventude levam a isso. Não é culpa dela também, ninguém é obrigado a nascer a tempo de ver o Pelé ou o Zico. Falta essa referência para ver que o futebol brasileiro foi dez vezes melhor do que esse que está aí agora. E eu estou vendo com um certo pessimismo, pois estou percebendo uma piora. Em outros lugares melhora um pouquinho, e no Brasil piora. Não sei se será fácil o Brasil conquistar outras copas, como já conquistou essas cinco.