FERNANDO MOLICA
PERFIL

Fernando Molica nasceu em 12 de fevereiro de 1961, no bairro da Piedade. Jornalista e escritor, desde muito cedo, gostava de ler e escrever, o que o levava a acompanhar as notícias nos jornais. Ainda adolescente, enviava pequenas notas para ser publicado no Jotinha, suplemento infantil de O Jornal.

O gosto pelo jornalismo foi despertado pela leitura de O Manual do Peninha, publicação da Walt Disney, que contava as aventuras de Peninha, o primo jornalista de Pato Donald. Para Molica, o jornalista precisa gostar de ler e escrever. Isso é essencial.

Em 1979, foi aprovado no vestibular em Comunicação, na Escola de Comunicação, da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e se formou no ano de 1983. Na universidade, acompanhou a reorganização do movimento estudantil e a reestruturação da União Nacional do Estudantes (UNE). Fez militância no movimento cineclubista em bairros do Rio, como o Méier. Foi diretor da Federação de Cineclube do Rio de Janeiro e do Conselho Nacional de Cineclube.

As primeiras experiências como jornalista foram como freelancer para a revista Fatos e Fotos, da Bloch Editores. Em 1982, conseguiu um estágio no Estado de S. PauloEstadão e trabalhou por três anos. Em 1985, foi trabalhar na redação da Folha de S. Paulo, no momento de sua reestruturação como Sucursal no Rio de Janeiro.

Fernando Molica considera a experiência na Folha como essencial na sua trajetória jornalística, pelo processo de modernização empreendido pelo Projeto Folha. Nos anos de 1980, o Projeto Folha representou uma inovação ao apostar em um jornalismo menos partidário e com uma linguagem mais objetiva. Na Folha, trabalhou por 11 anos, ocupando cargos de chefia de reportagem e como repórter especial na sucursal do Rio de Janeiro. Durante um ano, em 1990, chegou a trabalhar em O Globo, ocupando o cargo de Chefe de Reportagem.

Em 1996, foi trabalhar na Rede Globo, a convite de Evandro Carlos de Andrade e Luis Horta Erlanger. A ideia era levar para o ambiente televisivo a experiência de repórteres que tinham carreira consolidada no impresso. Na TV Globo, foi repórter televisivo para o Fantástico e telejornais da emissoria. Em 2004, ganhou o Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos com a reportagem sobre o comerciante chinês Chan Kin Chang, que morreu espancado no presídio Ary Franco, no Rio de Janeiro.

Abandonou o trabalho televisivo e retornou, em 2008, para o impresso. Foi trabalhar no jornal O Dia e, atualmente, assina a coluna Estação Carioca.

Com atuação nos principais veículos do país, Molica também participou da criação da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e coordenou a organização das coletâneas 10 reportagens que abalaram a Ditadura Militar, 50 anos de crimes e 11 Gols de Placa, no projeto Coleção Jornalismo Investigativo, publicado pela Editora Record. Para Molica, essas coletâneas têm a função didática de apresentar para o leitor e futuros jornalistas reportagens históricas, algumas somente acessíveis com visita nos acervos dos jornais.

Fernando Molica também tem uma trajetória como escritor. Publicou romances como Notícias do Mirandão, O ponto de partida, Bandeira Negra e o infanto juvenil O misterioro craque da Vila Belmira.

Ele é autor do livro-reportagem O homem que morreu três vezes, que recebeu menção honrosa do Prêmio Valdimir Herzog. O livro conta a trajetória de Antonio Expedito Carvalho Perera, militante gaucho de direita que aderiu a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), foi para o exílio em 1971 e morreu em 1996, na Itália. O livro surgiu a partir de uma reportagem televisiva para o Fantástico. Mas a trajetória do personagem, considerada repleta de contradições, fez o autor realizar uma pesquisa extensa sobre o combate à ditadura militar e é um documento sobre o passado recente do país.

ENTREVISTA

Realizada por Camila Carelli, Carolina Calcavecchia, Maria Clara Machado, Vanessa Guerra

Revisada por Andrea Santos

Data: 11/2008


Como decidiu seguir a carreira de jornalismo?

Eu tive a sorte de os meus pais sempre lerem e assinarem jornal. É fundamental gostar de ler jornal. Se você não gosta de ler, fica muito complicado querer ser jornalista. Sempre gostei muito de ler jornal. Quando eu tinha uns seis, sete anos, o Botafogo estava numa fase boa [risos], então, isso ajudou. É sério. Eu comecei a ler jornal pelo Botafogo! Além disso, uma coisa que fui perceber, anos mais tarde na análise, é que o jornal sempre foi uma ponte para o resto do mundo. Eu sou carioca, criado em Piedade e, naquela época, não havia internet. Então, eu sabia de cantores, movimentos culturais, através do jornal. Essas coisas não chegavam a Piedade, não tinha movimento hippie, não tinha contracultura em Piedade. O píer era em Ipanema, que era quase um outro país. Na época, eu não tinha essa consciência, mas o jornal me permitia estar presente neste universo. Lembro que comprei meu primeiro disco do Milton Nascimento por causa do Nelson Motta, que falava do Milton. Então, o jornal era como um amigo, um irmão mais velho, cumprindo o papel de iniciação em outro mundo, que me permitia fugir do universo suburbano. Gostava muito de ler, de escrever e queria ser jornaleiro, porque um dos meus sonhos era ficar na banca lendo jornal e revistinha o dia inteiro [risos]. Na verdade, eu sempre quis ser jornalista. Tinha esse negócio do Jotinha, que eu mandava uma besteirinha, mas saía com meu nome publicado. Eu tinha o Manual do Peninha [Walt Disney, 1973]. Peninha era o primo jornalista do Pato Donald. Digo que foi o primeiro livro de jornalismo que eu comprei.

Como era o Jotinha?

Era um suplemento infantil como o Globinho, mas era todo feito por crianças, pelos filhos dos leitores de O Jornal. Eu escrevia porque meu pai comprava o jornal, e eles me estimulavam.

Você lia outro periódico?

Eu lia muito O Jornal e, quando eu ficava na casa da minha avó, lia também O Dia. Naquela época, era um outro jornal. O Dia era eminentemente policial, que servia a um grupo político do Movimento Democrático Brasileiro (MDB), de Chagas Freitas, no Rio de Janeiro. O Chagas Freitas tinha dois jornais: O Dia e A Notícia. Eles seguiam a mesma linha de cobertura policial, matérias escandalosas sobre os crimes da cidade, um noticiário mais policialesco. As atuais donas são filhas do Ary de Carvalho, que foi dono de jornais, como Última Hora [que havia sido criado por Samuel Wainer]. Ao comprar O Dia, Ary de Carvalho iniciou um processo de reformulação. O Dia era um jornal mais barato, como até hoje é mais barato que O Globo, e eu o lia muito quando ia para a casa da minha avó e das minhas tias.

Nesses jornais, havia algum jornalista que tenha te influenciado?

Não. Na época, as matérias não eram assinadas. Não havia isso. Assinatura de matéria foi uma coisa que o Jornal do Brasil começou a fazer nos anos 1980. O Globo demorou muito para assinar. Eu li em um livro, acho que do Pedro Bial, que o Roberto Marinho achava que não podia assinar matéria, porque ao identificar os autores das matérias, despertaria o interesse da concorrência por aquele profissional, então era melhor mantê-lo anônimo. Por isso, para lembrar de algum jornalista é difícil. É um horror o que eu vou falar agora, mas havia um programa de televisão do Amaral Neto – ele é parente da Solange Amaral. Ele era um deputado, puxa-saco dos governos militares e tinha um programa na TV Globo, chamado Amaral Neto Repórter. Não podemos dizer que era precursor do Globo Repórter, mas o Amaral Neto se fazia de um super repórter que ia até a Amazônia mostrar os índios, a pororoca... A pororoca do Amaral Neto virou um case na sociedade. É interessante frisar que estávamos em plena ditadura militar, mas não havia ditadura em Piedade. O regime militar chegava à Piedade como sinal de prosperidade. Meu pai, em 1972, trocou um Fusca por um Opala. Era o momento do Brasil grande, do milagre econômico. Eu me lembro de ir ao Maracanã e ver o Médici. E ninguém vaiava o Médici, as pessoas aplaudiam, não só por medo, mas porque a vida melhorava. Eu também gostava de ler O Cruzeiro, que já estava acabando, mas ainda era uma revista razoável. Lia também Manchete. A Veja chega, para mim, bem depois.

Como foi entrar para a Escola de Comunicação (ECO), da Universidade Federal do Rio de Janeiro?

Eu queria ser jornalista, mas, em uma época, pensei em ser publicitário. Depois, quis fazer Cinema. Era cineclubista, fazia cineclube no Méier. Mas eu queria fazer minha vida, morar sozinho e pensei que, como cineasta, isso não daria muito certo. Então, resolvi ser jornalista. Eu considerava o jornalismo uma carreira mais segura e promissora. Vocês imaginam qual era a minha situação? [risos]

O que você se lembra da ECO?

Gosto muito de lá. A minha vida é pré-ECO e pós-ECO. Tenho amigos que conheci no primeiro dia de aula e que, hoje, são meus compadres. Oscar Valporto, que hoje está no Correio da Bahia, é padrinho do meu filho mais velho. Sou padrinho da filha mais nova do Sérgio Costa, que foi diretor de redação de O Dia e hoje está na Folha de S. Paulo. São grandes amigos, eu os conheci no primeiro dia de aula. Por um lado, havia todos os problemas. Estávamos na última semana do governo Ernesto Geisel e entrando no governo João Batista Figueiredo. Eu levei um susto, porque entraram dois doidos na sala chamando para uma manifestação contra a posse do Figueiredo. Naquela época, ainda se apanhava em manifestação pública.

Você teve alguma ligação com o movimento estudantil?

Em 1979, o ano em que eu entrei, houve o congresso de refundação da União Nacional dos Estudantes (UNE). Eu era mais ou menos próximo, porque fazia cineclubismo e, na época da ditadura, esse era um espaço de atuação política. O movimento cineclubista do Rio era todo ligado ao Partido Comunista Brasileiro (PCB). Eu fui diretor da Federação de Cineclube do Rio de Janeiro, do Conselho Nacional de Cineclube. Mas nunca fui “organizado”, como se falava na época. Eu nunca participei de nenhuma organização clandestina. Quando entrei na Faculdade, em 1979, já não havia mais luta armada, era um período de mudança. Foi o ano da Anistia Política, um período em que a esquerda brasileira já se organizava de outra forma. Ainda havia minorias “em prol da organização armada do povo brasileiro”, mas eram poucos. As eleições do Centro Acadêmico (CA) eram muito engraçadas, porque havia radicalização pelas tendências, mas cada uma tinha dois, três representantes. Era muito intensa a discussão política, mas era uma coisa que já ia se esvaindo. No mais, era uma faculdade muito precária, nós lutávamos por máquina de escrever. E já havia a velha discussão sobre a divisão entre a prática e a teoria nas faculdades de jornalismo.

O que você acha sobre a obrigatoriedade do diploma de jornalismo?

A primeira grande vitória – e aí o mérito é da Folha de S. Paulo – foi reduzir a questão do curso superior específico ao diploma. Ou seja, reduz a um objeto, ao “canudo”. Acho engraçado como as entidades, o Sindicato, a Federação Nacional de Jornalismo (FENAJ), assumiram essa denominação do diploma. Ninguém fala “ter diploma de médico”, fala-se “estudar medicina”, então “estudar jornalismo”. Primeira constatação: acho que o jornalismo melhorou muito. Do tempo em que eu comecei a trabalhar o jornalismo melhorou muito. Acho que a exigência do curso superior ajudou a melhorar a profissão, a criar um perfil profissional, a diminuir a picaretagem dentro das redações. Acho que o Assis Chateubriand não se criaria na imprensa hoje. Ele até poderia ter um jornal, mas não criaria um império baseado na picaretagem. O leitor rejeitaria. E o curso superior ajudou. Mas há outro aspecto: há muitos cursos de jornalismo. De certa forma, houve uma sabotagem do processo. De um modo geral, o padrão de qualidade é muito aquém do que deveria ser. Não é à toa que os grandes jornais têm cursos para os novos jornalistas. Isso reflete que a qualidade da mão de obra que chega ao mercado de trabalho não está tão preparada assim. Às vezes, em coisas básicas. É como se um médico não soubesse fazer sutura. Vejo hoje com muita simpatia a proposta de um economista fazer um curso de especialização para jornalismo. Acho também que aconteceu uma coisa muito complicada. A minha geração queria trabalhar em jornal. Só houve um cara que eu conheci que quisesse trabalhar em televisão. Era o Ari Peixoto, um cara mais velho, oficial da Marinha Mercante que largou tudo para fazer jornalismo. Quando o conheci, ele trabalhava em rádio e queria ir para televisão. Foi o único. Todo o resto queria trabalhar em jornal. Acho que hoje, dependendo da faculdade, ocorre o inverso. Quando você tem interesse em trabalhar com jornal, você tem que saber escrever, saber apurar. A TV vive, hoje, uma lógica de celebridade. Eu trabalhei com TV também, então tenho isenção para fazer esse comentário. Para discutir a questão da qualificação, do curso superior específico, temos que discutir a qualidade do profissional. Essa é uma discussão que todos perdem se ficar apenas no âmbito coorporativo. Não adianta a gente propor um modelo do século passado. Respeito a posição da Fenaj [Federação Nacional dos Jornalistas], dos sindicatos, de “vamos defender até o fim”. Mas até pouco tempo atrás, queria-se ampliar isso para diagramador, fotógrafo. Não conseguimos segurar nem para texto! É uma luta inglória. Estamos em uma época em que qualquer um de nós funda um jornal, funda um blog. Não temos mais o monopólio da informação.

Por que você optou pelo jornalismo investigativo?

Eu não gosto dessa categoria. Reconheço a existência de um jornalismo de característica mais investigativa, sou o diretor de uma instituição que se chama Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), coordeno um mestrado profissionalizante (MBA) em “Jornalismo Investigativo e Realidade Brasileira”. Mas, nunca diria: “sou um jornalista investigativo”. Sou um repórter que, eventualmente, faz matérias que exigem maior teor de investigação, mais cuidado. Não gosto do termo “jornalismo investigativo”. Acho arrogante, pedante e falso.

Como surgiu a idéia de fundar a Abraji?

A Abraji surge depois do assassinato do Tim Lopes, que era uma das figuras mais queridas nas redações do Rio de Janeiro. Ele trabalhou em O Dia por muitos anos, trabalhou na Folha, em O Globo. Em tudo quanto é lugar, o Tim Lopes trabalhou. E estava na TV Globo. Com o assassinato dele, em meio àquela tragédia, nós ficamos sem saber o que fazer. Então, pega um avião e vem para o Rio. Rosental Calmon Alves é diretor do instituto que ensina jornalismo nos Estados Unidos, o Knight Center de Austin, no Texas. Quando chegou, ele chamou alguns amigos para conversar. Chamou o Marcelo Beraba, e nós fizemos um seminário no Sindicato dos Jornalistas. Dessas conversas, surgiu a idéia de criar uma entidade no padrão do IRE (Investigative Reporters and Editors), dos Estados Unidos, que tinha algum histórico de luta, inclusive na questão da liberdade do exercício profissional e da segurança do jornalista. Criou-se um grupo a partir disso, um grupo de amigos, que tinham interesses afins. Então, fizemos um encontro na Universidade de São Paulo (USP). Criou-se uma lista de discussão na internet para tratar de jornalismo investigativo, que incluía desde os limites, desde o “como fazer”, até a questão da segurança. Então, veio a idéia de se criar uma entidade, que acabaria ganhando o nome de Abraji. Essa entidade passou a ter um foco na questão da investigação jornalística, da disseminação de técnicas de apuração etc.

Atualmente, o que você faz na Abraji?

A Abraji é um trabalho voluntário. Na prática, eu sou responsável por organizar dois livros, e estou devendo o terceiro. [risos] Além de participar das discussões, do congresso, eu acabei cuidando disso. Há também muita discussão sobre os rumos da instituição. Participo das debates e ajudo na organização do congresso.

Um desses livros da Abraji é As 10 reportagens que abalaram a ditadura. Há alguma reportagem que tenha chamado a sua atenção?

Não vou me lembrar de todas as dez, mas gosto muito daquela do Marcos Sá Corrêa, sobre os arquivos da ditadura. Na época do caso do Riocentro, eu tinha 19 anos. Para a minha geração, foi um negócio espetacular. A gente comprava O Globo e o JB, porque era como assistir a uma novela que se desencadeava. O papel que os jornalistas desempenharam naquele episódio foi espetacular. Era emocionante comprar jornal e ler cada descoberta, acompanhar cada passo que a imprensa dava. No livro, eu fiz questão de colocar uma nota sobre a história do Puma [carro onde foi colocada a bomba]. Eu lembro que eu vibrei com aquela matéria. Os militares disseram que a bomba estava em uma lata de óleo entre a porta e o banco do Puma. O JB pega um Puma e vê que a porta não iria fechar. Aquilo foi espetacular. Essa matéria é para mim um exemplo de jornalismo. A imprensa destruiu aquele Inquérito Policial Militar (IPM) e construiu toda uma investigação. Quando saiu o resultado do IPM, aquele negócio não se sustentava. Essa matéria, para mim, foi o grande barato. Para mim, dentro da faculdade, inserido nesse contexto de ser jornalista, aquilo foi espetacular. As outras eu li depois. Foi uma relação mais distante.

Como surgiu a idéia para fazer o primeiro livro?

Essa idéia de criar a Coleção de Jornalismo Investigativo tem várias vertentes. Mas uma das principais vertentes foi para facilitar o acesso a essas matérias. Muitas dessas matérias só são conhecidas lendo jornal antigo. Hoje, há a facilidade da internet, muitos jornais disponibilizam seus arquivos. Mas, antes, não existia isso. Foi o maior sufoco para conseguir as dez matérias. Outro dia, eu soube do Movimento, que era um jornal alternativo da época. Descobri uma matéria sensacional. Se eu soubesse dela antes, teria colocado no livro. As pessoas falam: “ah, tem aquela matéria das mordomias”. Era uma matéria conhecidíssima. Eu já tinha ouvido falar. Era uma matéria de 1974, eu acho. Tinha 13 anos, nunca tinha lido a matéria. A matéria é espetacular. Então, vamos publicá-la. Eu me surpreendi muito com essas matérias. No livro 50 anos de crimes, percebi que é possível avaliar não só uma mudança nos crimes, na maneira de praticá-los, mas no jornalismo e na maneira de cobrir esses crimes. Só percebi isso quando o livro ficou pronto, por isso ressaltei na introdução. Quando eu estudei jornalismo, não havia isso. A gente não pegava matéria dos anos 1940, dos anos 1950 para estudar.

O primeiro lugar em que você trabalhou foi o Estadão?

Não. Meu primeiro trabalho foi como freelancer em uma revista de cinema, que nunca me pagou, chamada Luz e Ação. Quando tinha 20 anos, comecei a fazer freela para Bloch Editores, porque lá podia assinar matéria sem ser formado. Comecei a fazer uns freelas para lá, principalmente para a revista Fatos e Fotos, que na época tinha o projeto Fatos e Fotos Gente. Um dia, meu amigo Oscar conseguiu uma vaga no JB de estagiário, e eu comecei a querer trabalhar em jornal. Um dia, procurei a sucursal do Estadão. Não conhecia ninguém lá e dei de cara com a porta. Fui num plantão de feriado, não sabia que existia isso. Aí disseram para procurar o Ayrton Baffa em um outro dia. Então, vi um fotógrafo, que jogava bola com meu pai, na redação e fui falar com ele. Eu não sabia que ele trabalhava lá. Mas foi ele quem me apresentou ao Baffa, que era o secretário de redação do jornal. O Baffa, para a minha sorte, achou que eu tinha cara de jornalista e me prometeu um estágio. Falou que existia uma vaga, mas que estava ocupada. Então, de tempos em tempos, eu passava no jornal, só para não se esquecerem de mim. Ficava indo, indo. Foi quase um ano fazendo isso. Um dia, a vaga abriu, e eu fiquei no Estadão. Tive sorte. No exato momento em que eu estava me formando abriu uma vaga, que era do Luis Fernando Lima, que é diretor de esporte na TV Globo [Em 2009, ele assumiu a Central Globo de Esportes, mas, atualmente, não ocupa essa função]. Fiquei lá por um ano como estagiário e mais dois como repórter. Então, a Folha estava em um processo de reformulação, vi um anúncio, e o salário era o dobro do que eu ganhava no Estadão.

Esse foi o único motivo que te fez mudar?

Foi.

Como era trabalhar na Folha na época do Projeto Folha?

Para mim, não foi tão doloroso, porque eu estava no Rio de Janeiro. E, quando eu cheguei, o “banho de sangue” já tinha passado. Foi em 1984, logo no início da implantação do Projeto, tanto que o diretor da sucursal do Rio era um cara de absoluta confiança do Otavio Frias Filho, o Matinas Suzuki. Era engraçado ter que perguntar a idade de todo mundo. [risos] A Folha inventou uma cobertura de Copa do Mundo, acho que de 1984 ou 1986, em que o gol era apenas um detalhe. Ela fazia uma contagem, então se o time jogava tantas bolas pela linha de fundo no ataque, aquilo valia um determinado número de pontos. No final, eles faziam uma conta complicadíssima e se chegava a um placar do jogo como “3,4 contra 2,2”. [risos] Então, tinham essas coisas meio folclóricas. Agora, apesar de o Estadão ter sido o jornal onde eu comecei a trabalhar – e tenho por ele toda a minha gratidão, todo o meu carinho –, a minha formação principal foi na Folha. Porque a Folha discutia jornal. Esse era o grande barato do Projeto Folha, que já não era o projeto original, mas inspirado na imprensa americana. Nos anos 1980, a imprensa européia tinha o grande jornal do Partido Comunista Francês, o L´Humanité. Havia uma tradição de imprensa partidária, uma imprensa opinativa, em oposição ao modelo americano, de uma tendência menos partidária e mais objetiva. A Folha trouxe essa lógica, que virou regra para todo mundo. Esse processo de modernização acabou se estendendo. Isso foi muito interessante. Tenho profunda gratidão. Foi muito bom para a minha vida ter ficado 10 anos na Folha.

Por que você ficou só um ano em O Globo e voltou para a Folha?

Eu já estava meio de saco cheio, estava há seis anos na Folha. Agostinho Vieira me chamou para ser chefe de reportagem de O Globo. Eu nunca tinha trabalhado em um jornal do Rio. Era uma coisa interessante pegar uma redação grande e, nessa época na Folha, já era chefe de reportagem. O salário era maior, mas o trabalho foi enlouquecedor. Imagina tomar conta de 40 repórteres? É a pior raça que tem! Por isso eu gosto de ser repórter. [risos] Não se manda em repórter, ainda mais em 40. Fora os motoristas. Na Folha, eu era chefe de dez repórteres, pessoas um pouco mais velhas. E a sucursal, por definição, cobre assuntos selecionados. Em O Globo era bem diferente. Minha vida estava começando a ficar muito complicada. Então, com 11 meses em O Globo, o Marcelo Beraba, que era secretário de redação na Folha, me chamou para conversar e a proposta evoluiu para ser repórter especial da sucursal do Rio.

Você escreveu muito sobre Igreja. Como foi isso?

A Folha tem uma tradição de escrever muito sobre Igreja. O Marcelo Beraba também cobria muito Igreja, ele foi seminarista. Ele foi autor de “O Silêncio Obsequioso do Leonardo Boff”, quando a Igreja mandou o Boff calar a boca. O Beraba já estava em São Paulo e eu herdei isso, que sempre foi uma coisa que gostei muito de fazer. Foi uma época muito legal, porque foi um período de transição, em que a Teologia da Libertação entrava num declínio forte. O João Paulo II jogou pesado contra a Teologia. E o Rio era um centro disso por causa do Dom Eugênio Sales. Ele articulava muito com o Papa para quebrar a Teologia da Libertação. Foi um momento muito bom. Há uma matéria de que eu gosto muito, feita em Recife. O Papa fechou seis seminários por causa da Teologia da Libertação, e eu fui até o Recife ver como foi isso. Eu queria uma personagem que fosse mais careta, mais tradicional. E aí Deus ajuda, né? Entrevistei um rapaz todo certinho, família classe média alta de Recife, que sonhava em ser padre. Então, eu perguntei “Qual o seu nome?”. Ele falou: “João Paulo” – nome de batismo! Foi muito legal trabalhar com a Igreja nesse período. Outro momento também bacana foi quando a Igreja Universal do Reino de Deus começou a botar as manguinhas para fora. Eu gostei bastante de acompanhar.

Em seguida, você foi para a TV Globo.

Foi em 1996. Houve uma mudança na direção de O Globo. Evandro Carlos de Andrade, com quem eu trabalhei no O Globo, e o repórter Luis Erlanger, que eu conhecia da rua, foram para a TV Globo e tentaram levar gente de jornal para lá, mudar um pouco o parâmetro da cobertura da televisão. Um dia, fui representar a Folha em uma inauguração de um monumento em homenagem ao Otto Lara Rezende, o Evandro e o Erlanger estavam lá. Conversei com eles e, quando eu cheguei na redação, o Erlanger me ligou perguntando se eu não queria ir para a Globo.