FERNANDO MORAIS
ENTREVISTA

Realizada por Carolina Torres Mazzi, Antônio Gaspar de Gouveia e Tomás Nepomuceno

Revisada por Raquel Timponi e Maurício Duarte

Data: 19/06/2008

Conte um pouco sobre a sua trajetória como jornalista.

Na verdade, estou fora do cotidiano de redação há bastante tempo. Ainda trabalho como jornalista, como repórter, os meus livros são todos jornalísticos e a chamada “metodologia para produzi-los” é a de redação. Ou seja, a escolha do tema, a maneira como eu conduzo as entrevistas e as pesquisas, e depois a forma que eu dou ao texto final não guarda grande diferença do que faz um jornalista no cotidiano de uma redação. A grande diferença no meu trabalho como autor e o que se passa numa redação é que eu escolho. Sou meu próprio pauteiro e escolho os temas. O tempo de que disponho para trabalhar, fazer campo e pesquisa, é infinitamente maior, pois um jornal fecha meia noite. Salvo grandes acontecimentos, como a invasão do Iraque, a morte do Papa, a limitação de espaço é muito grande. Se formos olhar os quatro grandes jornais brasileiros (Folha, Estado, Globo e Jornal do Brasil), ou as grandes revistas nacionais, você verá que é muito raro encontrar matéria com mais de 200 linhas.

Como foi o processo de criação do livro O Mago, a biografia do Paulo Coelho?

Esse livro que estou terminando, a biografia do Paulo Coelho, fiquei três anos e meio me dedicando exclusivamente. No último ano e meio me dediquei na produção do texto.

Como foi o início da sua carreira?

Eu comecei muito cedo. Não fiz curso de Jornalismo, pois na época não era exigido. Gostava de escrever. Quando era garoto gostava de ler. Sobretudo ler é passagem obrigatória para quem quer escrever. Ler muito, tudo, o que de der para ler. Ler de preferência Eduardo Galeano. Agora se não der, ler bula de remédio. Eu não conheço ninguém que escreva bem que não seja um grande leitor. Eu lia muito. Embora meu pai não fosse um intelectual - era um bancário -, ele era uma pessoa sofisticada, tinha muitos livros em casa e isso me aproximou da profissão. Eu era office-boy de uma revista de um banco de Belo Horizonte, da revisa interna. Carregava clichês, máquinas de escrever para o redator. Um dia, o único repórter da revista faltou e o editor me perguntou se eu queria ir fazer uma entrevista. Eu tinha 14 para 15 anos. Me assustei com aquilo. Fui, fiz, ele gostou. E aí eu dormi boy e acordei repórter. Em 1965, quando eu tinha 19 anos, já trabalhava como jornalista em Belo Horizonte. Os Mesquita decidiram fazer o Jornal da Tarde (JT) aqui em São Paulo, e o Mino Carta e o Murilo Felisberto trouxeram dois ônibus cheios de mineiros para São Paulo. Eu também vim. No exercício da profissão, sempre preferia ser repórter. Sempre, mesmo quando isso significava algum prejuízo salarial. Fui editor de Seção, editor de Política, editor de Cultura, copidesque durante muito tempo, pauteiro, chefe de reportagem. Porém tudo para tentar ganhar um pouco mais, melhorar o salário. Mas eu preferia reportagem, por achar que é a parte mais sedutora da profissão. O repórter vai até o lugar, é ele quem vê o cadáver em sua frente, ele quem entrevista o sujeito, quem fala com o delegado. Essa efervescência do trabalho me fez permanecer como repórter, praticamente, a vida inteira. Talvez porque eu gostasse desde pequeno de livros de aventuras, se não fosse o que sou, gostaria de ser autor de livros de aventuras. Mas acabei fazendo a minha carreira como repórter.

Como foi sua experiência no Jornal da Tarde?

O JT foi uma escola de Jornalismo para todos nós, porque foi um jornal revolucionário que se preocupava em primeiro lugar com a forma, o desenho. Era um diário que tinha preocupações de revista e, ao mesmo tempo, era extremamente exigente com o conteúdo, com a elegância do texto. Eu me lembro que a primeira reportagem que fiz foi acompanhar uma carrocinha de cachorros na periferia de São Paulo. Era a época em que começava a hidrofobia, então saía a carrocinha caçando cachorros nas favelas, nas vilas. Eu acompanhei a carrocinha um dia e era dramático, porque é um método muito violento, primitivo, com que caçam os cachorros. Além disso, para a maioria das crianças, aquele cachorro é o único “ente” que têm. Estou falando de pessoas muito pobres que não têm brinquedos. Eu me emocionei muito com aquilo, fui para a redação e escrevi o suficiente para uma página inteira. Sentei ali achando que estava escrevendo o Pulitzer. Entreguei o pacote de laudas para o editor. Ele pegou, rasgou, jogou no lixo. Falou que estava ruim e pediu que eu reescrevesse. Retruquei dizendo que ele nem havia lido. Ele me disse que toda primeira matéria é ruim. E tinha uma outra coisa: você entregava sua matéria para o editor ou para o chefe de reportagem. Ele lia e dizia: “Isso está errado, o melhor desta matéria está no fim. Você deveria ter chamado para a abertura”. Lá se aprendia de verdade. Aprendia o que perguntar e como escrever. Então foi uma experiência muito boa. Em 1970, quando eu tinha 22 para 23 anos, os militares resolveram abrir a Transamazônica, que era a “nova muralha da China”. E o jornal que valorizava muito a grande reportagem, destacou a mim e ao repórter Ricardo Contijo, e o fotógrafo, Alfredo Rizzuti, para irmos à Amazônia acompanhar a aventura dos operários na construção da estrada.

Foi com essa reportagem que lhe valeu o Prêmio Esso?

Nós passamos três meses numa época em que a Amazônia não era moda, dormindo em rede, barraca. Fomos presos e só soltos depois que checaram em São Paulo nossa situação (e isso levava dias, porque não tinha comunicação nenhuma, nem telefone!). Voltamos para São Paulo, escrevemos, e aí é mostrado um pouco a diferença entre o jornalismo daquela época e o de hoje. Nós escrevemos 20 páginas do jornal. Todos os dias, durante cinco dias, o jornal publicava um caderno de quatro páginas, sem anúncio, com a nossa série. E a série ganhou o prêmio ESSO.

Como se deu sua ida a Cuba e como ela alterou sua profissão?

Eu fiquei no Jornal da Tarde até 1974, quando fui cobrir a Revolução dos Cravos, em Portugal, a derrubada do salazarismo. Estava em Lisboa quando soube que o embaixador de Cuba queria falar comigo. Ele disse que o meu visto para entrar em Cuba estava autorizado. Liguei para o Brasil e falei com o pessoal da revista (trabalhava na revista Visão, na época) que tinha recebido um visto de entrada e que se a revista tivesse interesse eu iria lá e faria uma série. E, se não houvesse interesse, tiraria férias e faria por minha conta. Disseram que tudo bem. Então encerrei meu trabalho em Portugal, peguei um avião e passei três meses em Havana. Queria contar tudo: como as pessoas viviam, Fidel Castro, enfim tudo. Voltei para o Brasil e escrevi, em forma de série, para que a revista publicasse. Mas o dono da revista não gostou, achando que a reportagem fazia proselitismo da Revolução Cubana. Eles me demitiram da revista. E eu saí, com a ideia de publicar em outro lugar ou publicar um livrinho. O livro (A Ilha) saiu e eu achava que ia vender mil exemplares, se muito três mil. Vendeu três mil no primeiro dia. Foi um tremendo sucesso, vendeu quase um milhão de exemplares até hoje. Foi aí que começou a “pintar” dinheiro dos direitos autorais. Pensei: “Por que não me dedico exclusivamente a isso”? Ali eu senti que havia um caminho alternativo à redação.

Como nasceu a obra Olga?

Resolvi ir atrás de um assunto que ouvia falar desde garoto, que era a história da Olga. É uma história muito romântica, pois ela vem para proteger o Luis Carlos Prestes, para ser guarda costas dele. Ela se apaixona e fica grávida dele e já estava com a barriga grande no dia em que fracassa a Revolução Comunista e a polícia os cerca. No momento em que vão atirar em Prestes ela pula na frente, barriguda. Me chamava a atenção não haver nada no Brasil sobre ela. Eu resolvi ir atrás, fazendo o mesmo que se faz numa redação de jornal, exatamente a mesma coisa. Peguei uma fonte, ela me indicou uma coisa, me levou à outra fonte. Descobri que, para descobrir coisas sobre Olga, teria de sair do Brasil. Fui para a Alemanha Oriental, Estados Unidos, Itália, França, Argentina. Todo lugar onde havia uma pegada dela, um rastro, uma impressão digital, eu fui atrás. E quando o livro saiu foi um sucesso fora do comum. Foi aí que virei autor de livros.

Como ocorreu o processo de escrita de O Mago? Ele é diferente dos outros livros?

Pensei no Paulo Coelho, porque eu queria saber que mistérios têm nesse homem que é o maior vendedor de livros do mundo. É o único autor vivo que teve mais obras traduzidas do que Shakespeare. É um fenômeno mundial. Não se trata de um livro de análise crítica da obra dele, não! Quem é esse sujeito? Ele mora fora do Brasil já faz um tempo. Então fui para a Europa, passei seis semanas com ele. Paulo estava lançando um livro novo e dei uma volta ao mundo com ele. Fomos para dezenas de lugares, queria ver ele junto com o público. Depois fui para a casa dele, para ver como ele é no cotidiano. Como é com a mulher, com os vizinhos, como se comporta, como se veste. A tradicional composição de uma biografia. Todos os amigos, inimigos, namoradas, desafetos, todos estão no Rio de Janeiro. E comecei a ir para lá, até que descobri que estava ficando muito caro pagar avião, hotel e táxi. Fiz as contas e cheguei à conclusão de que era melhor eu me mudar para lá. Aluguei um apartamento em Ipanema e fiquei oito meses morando no Rio. Quando terminei os dias no Rio, voltei para a Europa, para afinar o que tinha levantado. Perguntar coisas novamente e voltei para o Brasil, para escrever. Estava começando a escrever, com o texto final definido na cabeça, quando uma noite, conversando com Paulo Coelho, pela internet, ele fez uma menção a um Testamento. Aí fui ler o testamento. A certa altura leio: “Na minha casa no Rio de Janeiro, tem um bauzinho, trancado com dois cadeados. As chaves estão no Unibanco de Copacabana. Imediatamente após a minha morte, esse baú deve ser incinerado com todo seu conteúdo”. Aí eu me perguntei o que havia dentro do baú. Ele disse que não interessava, que era coisa de infância. Disse: “Como que não interessa? Tem um baú que você mandou incinerar e não interessa a mim que estou escrevendo sua biografia?!”. Eu insisti várias vezes, até que ele me ligou e falou o seguinte: “Se você descobrir quem foi o milico que me torturou no Paraná, em 1969, em Ponta Grossa, eu te dou as chaves do baú”. Fui lá, descobrir quem era o militar. O entrevistei, fotografei, mandei a entrevista e fotografia para o Paulo e disse que ele tinha de me dar as chaves do baú. Ele falou: “Eu cumpro a minha promessa”. Cheguei lá e era um baú de navio, que as pessoas usavam para carregar roupa. Eu abri e, lá dentro, havia 170 cadernos, com diários dele dos dez aos 50 anos. Aí o livro mudou de cara! Virou um livro com revelações absolutamente surpreendentes com relação a satanismo, suicídio, sexo, drogas, tudo! E o que eu imaginava que ia ser um livro de 200 páginas virou um livro de 600. Achei que poderia vir a ser um dos melhores livros, mais revelador. E se você reparar verá que esse livro carrega uma grande herança do jornalismo. Qual é o primeiro principio de uma reportagem jornalística? O ineditismo, descobrir informações desconhecidas sobre ele.Isso continua me seduzindo muito, pois é a essência da reportagem.

Você atingiu um nível profissional em que escolhe como, onde, e de que forma trabalhará. É o sonho de todo repórter, não?

Eu descobri que podia exercer a minha profissão, sem ter patrão, sendo meu próprio pauteiro, meu editor. Eu estabeleço que tamanho vai ter a reportagem e quanto tempo preciso para fazê-la, o que, no fundo, é o sonho de todo repórter. Se você perguntar para 10 repórteres: “Qual é o seu ideal de trabalho?”. Os 10 vão responder: “Primeiro escolher o assunto que eu gosto, segundo ter tempo suficiente para apurar, e terceiro ter espaço para publicar”. Não adianta chegar à redação de um jornal com uma tremenda história que eles não vão te dar mais do que uma página.