JOAQUIM FERREIRA DOS SANTOS
ENTREVISTA

Estou aqui com Joaquim, que é um importante jornalista, que atualmente trabalha no jornal O Globo como colunista. Escreve a coluna do “Gente Boa” no Segundo Caderno do jornal. E a gente vai começar a entrevista perguntando para ele “Quando você descobriu que queria seguir a carreira e a profissão de jornalista?”. Conte um pouco mais sobre sua trajetória, sua formação, o início de carreira...

Eu fiz o clássico na escola, era mais voltado para letras e filosofia, não tinha nada de matemática e química. Eu não sabia nada disso e tinha algum gosto por leitura. Foi na época em que surgiu McLuhan. Saíram alguns livros sobre teoria da comunicação. Foi a época também que surgiu o Tropicalismo, movimento com Caetano, Gil, os (Novos) Baianos e os Mutantes. Era uma mistura de música brasileira, que acompanhava e gostava muito, com literatura. Eles tinham muitas referências, de livros e de dois movimentos da literatura brasileira, o Modernismo, de Oswald e Mário de Andrade nos anos 1920, e também da poesia concreta dos irmãos Campos. Era um movimento muito rico, musical. Porque ligava e chamava para a história da música brasileira e para a história da literatura brasileira. Cada música tinha uma referência que eu não conhecia e eu procurava a referência. E aquilo foi um volume de informação, que fez com que eu me interessasse pelo assunto, por escrever mais. E eu comecei a escrever melhor.

Na escola, os professores já comentavam. Eu gostava de ler as crônicas da Revista Manchete, Rubem Braga. E era uma coisa muito nova. Comunicação era o curso da moda. Pouquíssimas escolas tinham. Nem sei se a PUC já tinha, acho que ainda não. Tinha na UFRJ e na UFF. Eu fiz o vestibular da UFF e passei.

Ótimo. Sempre ouvimos que todo jornalista precisa ler muito. E você acabou de falar um pouco das suas principais influências literárias. Se puder complementar...

Eu sempre li muito. A escola obrigava a ler muito. No início eu não gostava tanto assim de ler, mas eu fui tomando gosto por aquilo. Eu comecei a escrever quando li também os cronistas. Eles todos na publicavam todos na revista Manchete, Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino. E o Antônio Maria, que publicava no O Jornal, que era uma coisa que sempre tinha na minha casa.

E lia aqueles caras e achava aquilo fácil e divertido. Eles falavam coisas do Rio e do comportamento. E eu tomei gosto por aquilo, eu gostava de ler aquilo. E depois eu achei que aquilo era fácil de escrever e que poderia ser prazeroso. Os cronistas são a minha grande influência de início.

Depois uma influência forte para mim foram os jornalistas americanos, do movimento do Novo Jornalismo americano. Jornalistas como Norman Mailer, Gay Talese, Truman Capote. E eu já estava trabalhando e eu queria imitar esses caras, imitar o jeito deles de escrever. E ai eu misturei isso tudo: os cronistas do Rio, os novos jornalistas americanos com muita poesia que eu lia. E a base do meu texto é isso.

E a outra pergunta que se segue é exatamente sobre isso. Quais foram os grandes nomes com quem você trabalhou e algum jornalista que te influenciou ou te inspirou na escolha da sua carreira também. Você acabou de citar alguns nomes...

É isso, os cronistas que escreviam no Rio, Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino e o Antônio Maria, esses caras foram fundamentais, porque eu lia isso. Na escola eu lia os clássicos brasileiros e clássicos portugueses, e eu achava isso chato. Era muito chato para um garoto e eu era obrigado a ler. E esses caras quando apareceram eu falei: “Isso eu gosto. Ler é bom e eu gosto”.

E uma coisa vai trazendo a outra. Você começa com um texto mais simples e vai gostando de coisas mais complicadas. E quando vê, você está aliciado em ler. Eu sou de uma geração que não tinha tantas outras versões, feito internet e TV a cabo. Tinha rádio e pouquíssimas televisões. Televisões só a noite, começava às seis horas a transmitir. E então eu ocupava o tempo jogando bola e lendo. E eu lia porque eu gostava de ler.

E acho que hoje as pessoas leem muito menos. Leem muito menos porque elas têm outras coisas para fazer. Tomaram gosto mais cedo por outras coisas, que também são divertidas. Mas não conduzem mais adiante a escrever, ao hábito da leitura. Hoje se joga mais para uma arte visual, para uma tecnologia. Acho que se eu fosse jovem hoje também estaria nisso. Porque é mais fácil de você ser introduzido a esse prazer. Mas quando eu era garoto não tinha isso. Uma das brincadeiras era ler. E eu descobri que era brincadeira boa e gostosa. E eu fui lendo.

Não que eu ache que é uma brincadeira superior às brincadeiras de hoje. Acho que hoje o jovem se diverte mais. Mas não é jogado para a brincadeira da leitura, do escrever. Então as pessoas escrevem na internet e acham que se escreve mais. Acho que joga um monte de palavras, mas isso não é escrever. É uma outra coisa. A colocação da linguagem moral em palavras é outra. A referência não é a literatura, e acho que isso provoca um texto pior. Como em geral se faz hoje se faz em jornais e revistas.

Então eu acho que tem que ler. Tem que ler livro, tem que ler literatura. Porque isso é um outro padrão de texto. Os jornais que eu lia na época eram todos feitos por pessoas que queriam ser escritores. A referência era a literatura. Era uma geração anterior a minha e ela lia mais ainda. E ela escrevia com o requinte literário. Isso também foi me acrescentando coisas. O hábito de ler jornais era um hábito enriquecedor para o texto.

Eu acho que hoje menos. O padrão de texto que se procura de hoje jornal é outro. Tem uma tradição mais oral, quer colocar o texto oral e a fala no texto. E eu não gosto disso, acho meio empobrecedor. Mas é o padrão de hoje.

As minhas referências são essas, os cronistas, como Rubem Braga, o Gay Talese, que é o jornalista americano que teve um livro de perfis e reportagens, lançado no Brasil em 1972 por ai, foi um livro que mudou a minha vida. Li aquilo muitas e muitas vezes. Eu queria escrever daquele jeito, queria apurar com aquele olho. Aquilo foi fundamental na minha vida. É um jornalista que misturava a literatura com a reportagem, com a crônica, o ensaio, o artigo.

Essa geração, Tom Wolfe, Truman Capote, Gay Talese, Norman Mailer. Foram caras que exerceram o jornalismo, mas tinham uma qualidade de texto espetacular e fizeram uma coisa que era literatura, mas era jornalismo. É a minha referência. Assim como cronistas cariocas, que eram literatos, mas escreviam em jornal e revista. E procuravam uma temperatura mais quente para o texto. Então desse cruzamento nasci eu e até hoje eu leio esses caras e gosto muito.

O que é mais trabalhoso ou desafiador, no seu ponto de vista: ser repórter, editor ou colunista?

É diferente. A coluna eu pergunto às pessoas o que elas têm para publicar, eu procuro a informação que está nas outras pessoas. Na crônica, eu procuro as informações que estão em mim. Eu falo das minhas experiências, eu trabalho com as minhas referências, a minha vida, o que eu li, o que eu soube, o que eu vivi. Então a coluna de notas é o que as pessoas podem me dar, o que a cidade tem a me oferecer. A crônica é o que eu tenho. É o que eu já construí para publicar.

Como ter boas fontes e furos de reportagem?

Trabalho com reportagem, no jornalismo, há 41 anos, mas eu sempre fiz reportagem de cidade. Eu fui repórter durante 20 anos. Hoje uma pessoa com 20 anos de profissão já é editor chefe. Eu não, eu fui repórter. E todo dia eu fazia uma reportagem. Isso faz com que você conheça muita gente. Eu conheço a cidade. Eu nasci no subúrbio. Você mora na Zona Sul, atravessa a cidade mais as referências que o trabalho te dá, faz com que você tenha o conhecimento disso. E isso é o meu cacife que é o conhecimento da cidade, das pessoas e da história da cidade.

Existe diferença entre jornalismo cultural e de celebridade? O quê você define como jornalismo cultural?

É diferente, né? A de celebridade é o culto à pessoa, ao que a pessoa faz, mas é superficial. Dos namoros, dos romances, da gravidez, do casamento, da banalidade, da estética, da beleza, das dietas, das festas. O jornalismo cultural é voltado para a crítica, para a reflexão sobre os acontecimentos da produção cultural.

São coisas bem diferentes. Eu não faço nem exatamente uma coisa e nem exatamente a outra coisa. Eu procuro misturar tudo mais notícias de cidade e fazer a minha coluna como se fosse um pequeno jornal. Um jornal sem preconceitos. Não é também uma coluna social, como muita gente acha que é. Então é uma coluna que mistura, é uma coluna de notícias. Que não tem preconceito com as celebridades, nem com o jornalismo cultural e de cidade.

O que nós definimos como notícia é publicado. A graça é essa, que jornalismo não é ciência. O que eu classifico como notícia pode não ser o que você classifica. É isso que diferencia as pessoas que trabalham em jornalismo. Algumas têm um critério mais atraente e interessante do que as outras. Mas você pode também dizer que o que eu publico não é notícia, assim como outras, também está certo. Qual é a graça da sua notícia e da minha que está na contabilidade do julgamento.

Você é considerado um importante jornalista brasileiro e é também reconhecido pela autoria de inúmeras obras literárias. Há algum livro que considere mais especial que os outros?

Dos meus, o que fez mais sucesso foi um chamado “Feliz 1958, o ano que não devia terminar”. É um perfil do ano de 1958, quando o Brasil foi campeão do mundo pela primeira vez, quando João Gilberto fez a Bossa Nova, Juscelino ainda estava fazendo Brasília, o Rio ainda era a capital federal. Foi um ano de glamour do Rio, um ano de muita felicidade. O Rio sempre vivendo situações traumáticas e difíceis... Foi um momento em que as pessoas se encontraram com a cidade, que já foi muito feliz e bonita e glamorosa, e que tem todo potencial para continuar sendo, mas que vive enrolada para resolver seus problemas.

Então é um livro em que as pessoas lembraram “Ai, como era bom” e elas perceberam que ainda pode ser bom. Então foi o livro que juntou tudo isso. E as pessoas gostaram e que vendeu. Até hoje tem edições. E ano que vem vai ser transformado em musical. Com o título e o enredo do livro. Então é um livro marcante.

Eu fiz também o perfil Leila Deniz, outro do Antônio Maria e lancei livros de seleção de crônicas que eu publiquei em jornal.

Como conciliar a carreira de escritor e jornalista? O que ambas têm em comum?

Acho que têm tudo a ver. Por causa desse jornalismo que eu faço, que eu te falei das referências literárias, é o que fez com que eu também aparecesse. Tem uma tradição literária por trás das notícias que eu publico, na maneira de escrever, embora eu não tenha qualquer pretensão de ter uma carreira de escritor.

Eu acho que o texto jornalístico tem seu valor, pode ser um texto legal. Nunca achei uma coisa menor. Como eu nunca tive vocação para ficção, eu empreguei tudo nesse texto que é meio jornalismo, meio literatura, que é uma confusão de estilos, é uma mistura de estilos, eu não sei se eu respondi a pergunta. Qual era mesmo?

Como conciliar a carreira de escritor e jornalista? O que ambas têm em comum?

E livros eu publico nos intervalos que eu tenho do jornal porque me dá muito trabalho. Eu escrevo de noite, no fim de semana e durante as férias.

Mas é uma chance que aparece. Ano que vem eu vou fazer um que tem origem em Crônicas sobre minhas amigas. Eu fiz uma série de crônicas que é assim “Eu tenho uma amiga...”. Conta uma histórias de amigas minhas em que metade é verdade, metade ficção. Pediram que eu aumentasse esse livro. E é o que eu vou fazer agora em janeiro para sair no final do ano.

Mas eu não tenho uma ambição literária. O jornalismo resolve. E bom de ser bom, bacana... Você tem vários outros bons jornalistas que viraram escritores. Mas muda só o veículo, né? Sai do jornal e teu texto sai em livro, mas você escreveria daquele jeito em jornal também.

E este título “Em busca do borogodó perdido”?

É um livro de crônicas. Eu sempre guardei muito essas palavras antigas, feito borogodó. São palavras da minha infância. São as coisas por aí. Não sei explicar, mas são as coisas que vão ficando, é o que você vai recolhendo pelo caminho. Se eu soubesse que ia ter meia página para escrever toda semana, eu tinha recolhido e anotado mais coisas. Tudo que eu escrevo é pela memória, não que eu tivesse anotado.

E borogodó é uma dessas palavras. Tinha um comediante, o Zé Trindade, que era um comediante muito feio, um nordestino baixinho e ele dava muita sorte com as mulheres. E nos programas de televisão davam esse personagem para ele.

E os galãs dos filmes perguntavam para ele assim: “Mas você é muito feio, esquisito, baixinho, gordo... como é que você conquista essas mulheres todas?”. E ele dizia: “Porque eu tenho borogodó”. E nunca foi explicado exatamente o que era borogodó. É um charme, uma maneira de se aproximar, de ser gentil que conquistava as mulheres. Não era pela beleza. Os outros tinham beleza, mas não tinham borogodó e ele tinha o borogodó.

Então é uma palavra mágica, como têm várias outras palavras mágicas pela literatura. E eu gosto dessa palavra, porque tem uma associação com as mulheres assim. É uma palavra toda redonda, feito as mulheres. E eu achava bacana. E a sonoridade de borogodó...

Ai tem o livro “Em busca do tempo perdido” do Proust. E eu fiz em “Em busca do borogodó perdido”, que é a busca desse prazer de ser carioca, de manejar essas palavras, de ter uma cidade menos violenta. Então borogodó era esse, em busca do Rio perdido. Em busca da felicidade de ser carioca, que a gente perdeu, e que tenta reconquistar sempre.

E são as palavras antigas. Fiz várias crônicas sobre palavras que se perderam. E eu dizia que assim como você tem o IPHAN e IBAC, órgãos para preservar a arquitetura da cidade, deveria ter uma maneira de preservar a língua. Não deixar que palavras saborosas como borogodó desaparecessem, por preconceito, porque ficassem antigas e tudo mais. Como eu vivo disso, como vivo das palavras e da falta de preconceito em relação às palavras. Todas as palavras me interessam. Eu posso dizer, essa menos e essa mais. Então eu cultuei borogodó.

E depois essa palavra voltou. O Manuel Carlos botou na boca de vários personagens de novelas dele, mas se não fosse eu essa palavra estava desaparecida. Porque eu me lembrei dela e botei no jornal.

Qual foi a sua motivação ao escrever um livro sobre a Leila Diniz?

Minha motivação, em tudo que eu escrevi, foi prazo. Alguém me pediu, mandou e pagou. Eu nunca escrevi, eu nunca escrevo nada em casa. Nunca. Eu escrevia quando era garoto para namorada essas coisas, mas eu nunca escrevi uma linha que não fosse alguém pedindo para escrever.

Então o da Leila Diniz também. Foi um editor, chamado Hélio Gaspari, que foi meu editor na Veja, um editor muito importante na minha vida. E ele pediu que eu escrevesse um livro e foi ele a pessoa que sugeriu que fosse a Leila Diniz. E eu disse que escolhi por causa dele. Ele tinha me ensinado muitas coisas e eu fiz por causa dele. Como os outros livros eu fiz porque me mandaram escrever.

A ideia do 1958 é minha, mas é porque me pediram um outro livro sobre a Aida Curi, uma mulher que foi assassinada em 58. E eu pensei: “Sobre a Ainda Curi eu não vou escrever porque é muito triste, mas vou escrever sobre 1958, que é um ano de felicidade”. O resto é isso. Sempre alguém pedindo, mandando. Eu não chego em casa e escrevo. Eu não chego em casa e tenho uma ideia, uma inspiração. A crônica eu escrevo, tenho que escrever meia página. Abro o computador, penso, espremo a cabeça e sai uma ideia, que estava lá, né?

Eu tenho uma história que é a do Rubem Braga. Alguém viu o Rubem Braga escrevendo um texto assim em 40 minutos e a pessoa disse: “Em 40 minutos você escreveu uma crônica e ganha um salário para escrever”. O Rubem Braga disse: “Eu não escrevi em 40 minutos. Eu estou trabalhando há 40 anos para chegar e escrever uma crônica em 40 minutos”.

É algo que eu não faço. Eu estou recolhendo histórias há 40 anos para abrir o computador e escrever uma delas.

Você foi editor das revistas “Domingo” e “Programa”, do “Jornal do Brasil”. Qual o seu parecer a respeito do fim da circulação impressa deste importante jornal?

Acho triste porque foi acabando aos poucos. Eu trabalhei lá em duas etapas, uma nos anos 80 e entre 2000 e 2001. Foram períodos muito bons. Era um jornal incrível, eu aprendi muito. Conheci grandes jornalistas lá e eu tinha muita liberdade de se trabalhar. Na verdade, em geral, eu tive bastante liberdade em todos os jornais que eu trabalhei.

Uma pena uma má administração, o jornal foi decaindo por causa disso. As pessoas não se conformavam. Morreu uma coisa que era tão importante para elas. Para mim foi fundamental. Foi um jornal que eu li na época que eu estava me interessando por jornalismo. Recortava matéria, recortava fotos. O Caderno B foi marcante para a minha geração, para o aprendizado, para a formação de jornalistas da minha geração.

Acabou, foi triste. E vamos em frente. Viva os jornais que souberam se administrar. Os que mantiveram a sua integridade editorial, sua liberdade de se opinar.

Acha que este é o futuro dos jornais? A internet vai acabar com o impresso?

Nós estamos no meio desse furacão. Ainda vai acontecer muita coisa. Os jornais já estão se transformando muito. E as pessoas sempre vão querer ler notícias. Pode ser que o tipo de notícia que está se transferindo para a internet seja mais essa notícia instantânea, acho que vai ficar muito ali. Mas o jornal vem falando o que isso significa essas notícias. Acho que vai sempre existir. Não sei se vai ser de papel, se isso vai passar tudo para a internet, para uma mídia digital.

Mas eu acho que esse tipo de trabalho que a gente tem, acho que isso existirá sempre. Isso sempre. Talvez exista sempre o formato papel, não sei. Mas vai ter muito menos peso do que tem hoje com certeza. O iPad vai mudar muito a vida das pessoas, esses tablets todos, mas vai ter ali o jornal. Mas ainda é cedo, o momento é de transformação. Daqui a um ano já é outra coisa. Mas notícia, jornalismo, a necessidade de transmitir as histórias do tempo para as pessoas, acho que isso vai continuar. Talvez não no papel, todo dia, na tua porta, mas você apertando um botão no tablet e aparecendo o jornal.

Você já recebeu propostas para trabalhar na TV? Aceitaria?

Uma vez recebi sim, para o Fantástico. Mas eu estava no jornal. É legal receber propostas, mas não rolou. Na verdade, a minha formação mais forte era de artes visuais, mas eu não tive encaminhamento para isso. Eu gostava muito mais de fotografia. Eu tinha um laboratório em casa. Eu fotografava, copiava as minhas fotos e não tinha talento para desenhar. Como eu iria trabalhar com artes visuais assim? Mas eu fotografei e fotografo.

E eu estagiava em um jornal chamado Diário de Notícias, mas ainda era muito contido. Consegui um estágio lá, entrei para produção de cara. Eu estava trabalhando lá seis meses sem ganhar nada, todos os dias. Eu estava no primeiro ano da faculdade.

Mas o que eu queria mesmo ser era o editor de imagem do programa do Chacrinha, que era meu grande ídolo, um cara chamado Pavão. Era aquilo que eu gostava, eu achava aquilo bem mais prazeroso que ler, do que você sentar e ler um livro. Eu queria comunicar, eu acho que era a mesma coisa, era a comunicação pela imagem. E eu consegui um estágio com o cara. A garota que fazia televisão no jornal conseguiu um estágio com ele para mim. Incrível essa história porque a semana que eu consegui, foi a semana que eu fui efetivado no jornal.

Só que tinha dinheiro. Eu ia receber e seria o início de uma profissão. Ai eu fui, mas se fosse uma semana antes, um mês antes poderia ter feito outra coisa. Hoje eu tenho uma filha que é editora de TV, que é exatamente o que eu queria fazer na época.

Quais as principais diferenças entre os jornais que você já trabalhou?

Não tem muita diferença. Eu trabalhei na Veja que era muito diferente porque era uma sucursal. Você mandava a matéria que era editada em São Paulo. Jornal do Brasil, O Globo... não tem diferença nenhuma. Eu faço as matérias e elas são publicadas com a mesma liberdade. Com a mesmo “faça o que você acha que deve ser feito”, sempre com muito respeito dos editores à liberdade.

Imaginamos que seja muito gratificante trabalhar em um dos jornais mais expressivos e importantes do país. Poderia nos contar um pouco do seu dia a dia no jornal O Globo?

Eu chego aqui nove e meia, leio os jornais, abro o computador, falo com as pessoas e vou selecionando o que eu acho. Falo com os repórteres, que também estão fazendo a mesma coisa. Tem uma hora em que eu seleciono o que vai sair e o que não vai sair. Jogo noventa por cento fora e publico dez por cento. É um trabalho exaustivo, é um trabalho bastante pesado.

Qual sua opinião sobre a lei que decretou o fim da exigência do diploma para exercer o jornalismo?

Eu gosto em parte disso. Acho que deveria ter um curso de pós-graduação em jornalismo. Você deveria fazer qualquer especialidade. Acho que você deve ter um curso superior sim, para dar uma nivelada nesse pessoal. Em seguida você poderia fazer em um ano um curso de aperfeiçoamento em técnicas de jornalismo.

Eu sou do tempo em que as redações tinham advogados, professores de letras, médicos e que levaram essa formação para a redação. E isso é bom. Uma redação precisa de gente pensando em coisas diferentes. E hoje estão todos formados em comunicação. Todo mundo mostrando tudo da mesma coisa. Então eu gostaria que tivesse mais diversidade. Eu gostaria que fosse mais aberto isso. Que não tivesse essa exigência. Que você tivesse uma formação posterior. Um advogado, pessoas de letras, de cultura, um professor de português, de história, que ai você aprendesse como colocar essa linguagem jornalística, que é muito simples. É só ter uma capacidade de escrever, de narrar suas ideias. E um advogado tem, um professor tem.

Você acredita que o jornalista, no Brasil, possui liberdade para expressar plenamente os seus pontos de vista?

Total.

Qual sua opinião acerca do ensino do Jornalismo nas universidades? Ele é adequado à realidade do mercado de trabalho?

Não tenho muita informação sobre como está o ensino, mas acho que falta mais cultura geral maior, falta uma cultura livresca, como eu estava falando. Uma cultura literária, de texto e de escrever. Não de texto oral. De referências literárias, de referências do texto clássico. As pessoas escrevem muito seguindo a língua oral. Elas transportam para o texto o que elas falam. Isso não é escrever. Isso não tem requinte nenhum. Isso vai tornando a língua embrutecida, chata e previsível.

Qual foi o maior desafio da sua carreira? E quais você acha que ainda estão por vir?

Não sei qual foi o maior desafio. Eu tive bons desafios que eu fui conseguindo fazer, que eu editei tudo, que eu fiz tudo em um jornal. E tudo de início parecia uma complicação que eu não conseguiria dar conta. E o bom é você ir dando conta e partindo para novos desafios, novas dificuldades. Não sei qual vai ser a próxima, mas espero que apareça.

Você acredita que já cumpriu todas as suas metas profissionais? Quais seus objetivos para o futuro?

Não sei o que eu posso fazer no jornal. Reportagem é sempre bom. É sempre muito renovador. Mas na minha vida profissional, eu quero testar essa capacidade visual que eu te falei. Não sei, talvez fazendo foto. Mas isso eu pretendo aprofundar. Acho que eu queria fazer esse teste, acho que eu posso fazer e estar ligado ao que eu faço. Eu diagramo. Acho que ali tem alguma coisa. Quando eu diagramo tem uma sugestão visual que é dessa formação visual que eu tenho. Mas eu poderia trabalhar mais isso. Principalmente com foto. E eu vou fazer isso.

Você ainda não possui blog ou página virtual.Pretende se aventurar pela internet ou não tem interesse?

Tenho, tenho interesse. Mas isso é uma coisa ainda a se pensar com o jornal, com o tempo que eu tenho.

Quem é a pessoa mais "gente boa" que você já conheceu? Por quê?

O conceito de “gente boa” é muito vago. A minha coluna surgiu por isso, eu estava pensando. Porque antes era uma coluna social, mas o jornal não queria mais uma coluna social. Não que essas pessoas fossem gente má, essas pessoas da coluna social. Mas é só um tipo de pessoa. É gente rica, da Zona Sul, de bons apartamentos. E eu fui chamado para fazer uma coisa mais democrática, mais aberta.

E eu pensei nesse nome “gente boa”. E “gente boa” é uma saudação carioca, que é meio vago. É uma gente não é metida. Pode ser uma pessoa rica. “Gente boa” é uma pessoa que contribui para o seu contexto. O cara pode ser rico e contribuir para o seu contexto. Iniciar um bom trabalho, dar alguma ajuda, construindo alguma coisa que não seja só para ele, em benefício dele. Um chá de casamento, essas festas que eram publicadas. Então é isso. “Gente boa” não é gente boazinha. Não é um beijo no coração. Um abraço na alma. “Gente boa” é o cara que contribui para o seu momento, com os seus parceiros geográficos e de tempo. Um cara que faz alguma coisa. Um cara que interfere no sentido do bem. Um cara que tem humor, que tem uma presença agradável. Que está imbuído em transformar o seu tempo de alguma maneira, com o que estiver ao seu alcance.