LÉDIO CARMONA
PERFIL

Lédio Zottolo Carmona, nascido em 6 de maio de 1965, é niteroiense, filho de Germenci Guerrante Carmona e Lucy Zottolo Carmona. Graduado em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, dedicou sua carreira sobretudo às coberturas de futebol. Trabalhou como repórter em diversos jornais impressos e mais tarde começou a atuar nos programas esportivos televisão a cabo, além de ter sido um dos primeiros jornalistas a criar um blog jornalístico dedicado a esportes.

A trajetória profissional de Lédio Carmona inclui a produção de livros relacionados com o seu principal tema de trabalho. Brasileiros Olímpicos foi uma obra organizada com Tiago Petrik e Jorge Luiz Rodrigues, também colegas de profissão, e lançado em 2002 pela Panda Books.Em 2006, junto com Gustavo Poli, lançou o Almanaque do Futebol (Editora Casa da Palavra); com Marcelo Martinez, fez o Livro-Jogo das Copas (Editora Globo), no ano de 2010.

O início da carreira de Lédio, nos anos 1980, está marcada pela experiência da reportagem. No Jornal do Brasil, onde ficou entre 1986 e 1988, foi setorista de times de futebol cariocas, como Botafogo, América, Bangu e outros. Nos dois anos seguintes, passou a trabalhar para a revista Placar, e novamente assumiu o cargo de repórter no JB. Nessa segunda etapa, de 1989 a 1991, foi setorista do Vasco e do Flamengo, além de ter tido a oportunidade de, pela primeira vez em seu ofício como jornalista esportivo, fazer a cobertura de uma Copa do Mundo. A Copa de 1990 foi realizada na Itália, país de ascendentes de Lédio Carmona, o que tornou aquela sua primeira viagem ao exterior ainda mais emocionante e significativa.

Depois de ter saído do JB, Lédio passou um curto tempo em São Paulo, na revista A Semana em Ação, mas não demorou para que voltasse ao Rio, assumindo, em 1991, a chefia de reportagem da editoria de esportes do jornal O Globo. Nessa época, cobriu a Copa de 1994, nos Estados Unidos.

No final da década de 1990, agregou-se à equipe que fundou o jornal Lance! e nesse veículo participou da cobertura da Copa de 1998, na França. Quatro anos depois, já como chefe de reportagem do Globo Esporte, cargo que ocupou entre 2000 e 2003, cobriu sua quarta Copa – a da Ásia. Paralelamente, após receber um convite, passou a atuar, a partir de 2001, como comentarista do canal de TV por assinatura SporTV, e foi nesse canal em que estava na época da Copa de 2006, na Alemanha.

As coberturas de Copa do Mundo são marcas importantes na carreira jornalística de Lédio Carmona, mas também são destaques as entrevistas que ele realizou com Zico, Pelé, Maradona e outros grandes nomes do futebol.

Os frutos do trabalho cotidiano de Lédio passaram a ser conhecidos do público de internautas a partir do ano 2001. Um dos pioneiros na categoria de blogs dedicados à cobertura esportiva, o blog Jogo Aberto ficou no ar até 2009. Em seguida, a página foi substituída pelo Blog do Lédio, hospedada no portal das organizações Globo.

ENTREVISTA

Realizada por Mariana Machado e Augusto Lohmann

Revisado e editado por Fernanda Lima Lopes

Data: 11/2008

Qual o seu nome completo, o local e a data do seu nascimento?

Lédio Zottolo Carmona, Niterói, 6 de maio de 1965.

Qual o nome dos seus pais e a profissão deles?

Meu pai é falecido. Ele se chamava Germenci Guerrante Carmona e era comerciante. Minha mãe, Lucy Zottolo Carmona, era dona de casa.

Qual sua formação profissional?

Fiz jornalismo na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Também tenho curso de locução esportivo e falo quatro idiomas, inglês, italiano e o espanhol.

Como foi na sua juventude a sua relação com a notícia? Lia jornais? Via TV?

Sou da época do rádio. Ouvia rádio esportivo o dia todo. Jornais, lia. A revista Placar, também, mas meu vício era o rádio.

E a sua relação com os esportes em geral? E mais especificamente com o futebol? Desde criança você se interessava pelo assunto? Frequentava estádios? Jogava bola? Torcia por algum clube em especial?

Sempre curti futebol. Aos nove anos, decidi ser jornalista esportivo. Ia aos estádios sempre que meu pai permitia. E, após a liberação, morava em estádios. Joguei bola, mas era horroroso. Sou vascaíno.

Você disse que era viciado em rádio na infância. Mas com quantos anos mais ou menos você assistiu futebol pela primeira vez na televisão?

Que eu me lembre, de verdade, Brasil 0 x 0 Iugoslávia, abertura da Copa de 1974. Tinha nove anos.

Antes de ser jornalista, teve algum jogo em particular que mais te marcou? Ou algum gol? Qual foi e por quê?

Sim, dois jogos, Vasco 2 x 1 Cruzeiro, final do Brasileiro de 1974, minha primeira final, e Vasco 5 x 2 Corinthians, volta de Roberto e cinco gols do Dinamite, em 1980.

Em que momento você escolheu ser jornalista? Teve influência de alguém?

Aos nove anos. Influência do futebol. E das rádios.

Nessa escolha inicial, você já queria seguir a carreira de jornalista esportivo ou tinha alguma outra preferência?

Queria ser radialista esportivo. Repórter, tipo Kleber [Leite] e Loureiro [Neto]. Mas a carreira seguiu para jornal e TV. Nunca trabalhei com rádio.

Como e quando começou a trabalhar no jornalismo? Teve alguma dificuldade para iniciar a carreira?

Estava no quinto período, na PUC, quando, em abril de 1986, pintou um estágio não remunerado na editoria de esportes do Jornal do Brasil. Fui e fiquei. Nunca mais saí da profissão.

Já começou nos esportes ou passou por outras áreas? E dentro da área de esportes, já começou com o futebol?

Trabalhei a vida toda com esportes. Começei como setorista do América [Football Club], em 1986. Apenas em 1996, fiquei três meses na editoria Nacional/Politica, de O Globo, como chefe de reportagem. Mas não era a minha.

Apesar de nunca ter tido experiência em rádio, como você explica que, apesar da TV e da Internet, a rádio ainda continue forte na transmissão de eventos esportivos. Muita gente diz que, nas rádios, a forma de narrar causa a impressão de um jogo muito mais empolgante e disputado do que realmente é. Você concorda?

Mais ou menos. Em São Paulo, o rádio continua forte, emocionante e competitivo. No Rio, infelizmente, minguou e perdeu espaço para a tv a cabo.

Você começou direto no jornalismo esportivo, como setorista do Jornal do Brasil. Ainda se lembra do primeiro dia? Ficou muito tenso? Em algum momento teve dúvida se o jornalismo esportivo era a escolha certa?

Foi tenso, mas foi sedutor. No primeiro dia na redação, fiquei separando telex durante a Copa de 1986. Aproveitava e lia tudo. Meu primeiro jogo, pós copa de 86, foi Flu 2 x 0 Botafogo, pelo Cariocão. Me emocionei ao chegar ao Maracanã pela primeira vez como “jornalista”, entrar no vestiário, fazer entrevista. Foi bárbaro. Minha primeira matéria assinada foi com Maurício, aquele ponta-direita. Inesquecível. Saiu num domingo. Meu pai comprou uns 10 jornais.

Você já teve a experiência de ser setorista e de comentar jogos de seu time por diversas vezes. No início, era diferente de cobrir os outros times? É difícil ser isento ou isso vem naturalmente com o profissionalismo?

Isenção é obrigação. Não é virtude. Se você não é isento, não serve para nada. Eu nem falo com quem sei que não é isento. Ignoro. Não gosto de picareta. Meu pai pagou uma faculdade para eu ser sério e não ter ranço de picaretagem. De mais a mais, quanto mais você torce por um time, mais o grau de exigência e cobrança. É natural.

Existe uma corrente de jornalistas que declara abertamente seu time de coração (como Juca Kfouri, Washington Rodrigues, Renato Maurício Prado). Já outros não confessam em hipótese alguma (Fernando Calazans, Galvão Bueno). Você estaria encaixado numa corrente intermediária, ou seja, declara o time se perguntado, mas evita ficar falando. Você acha que o público esportivo no Brasil já sabe diferenciar o lado pessoal do profissional ou declarar o time continua sendo um “problema”?

Infelizmente, o torcedor brasileiro não está preparado para essa informação. Quem me pergunta por email ou na rua, eu respondo. Mas na tv não é permitido dizer. E no blog, não digo, porque acho que muita gente não merece e não tem cérebro para saber. Eu digo para quem sabe viver em sociedade. De mais a mais, basta ter dois neurônios para saber o time de todo jornalista. Nós sempre nos traímos.

Quais trabalhos você considera mais marcantes ao longo de sua carreira? Entrevista com ídolos do esporte? Cobertura de Copas?

A cobertura de cinco Copas do Mundo, duas Copas das Confederações, três Copas América, três Jogos Pan-Americanos, inúmeras decisões etc. Já entrevistei Pelé, Zico, Maradona, Romário. Mas nada é mais emocionante do que viver um evento: que seja um jogo. Ali acontece a história. Fundar o Lance também foi um belíssimo projeto e experiência, muito embora o jornal hoje não seja nada do que imaginamos e planejamos na época.

Sua primeira cobertura de Copa do Mundo foi em 1990, na Itália. A Copa sem dúvida pode ser considerada um dos momentos marcantes na carreira de um jornalista esportivo. Conte um pouco da experiência. Teve algum momento complicado, alguma gafe? E o melhor momento?

Sim. Minha primeira Copa do Mundo foi a da Itália, em 1990. E minha primeira viagem internacional também foi para a Itália. E, para meu azar, na organização da viagem, me caiu a responsabilidade de viajar sozinho. Rio, Paris, Milão, Torino. Até Paris, foi tudo fácil. Mas tenso. Em Milão, tive que pegar um ônibus, hoje, menos duro, pegaria um táxi, até a estação ferroviária. Hoje, dormiria em Milão e iria para Torino no dia seguinte. Peguei um trem Milano-Torino às 18h, hora do rush. E cheguei a Torino sem reserva de hotel. Deveria pagar duas diárias e nossa diária só aconteceria dois dias depois. Chegando ao hotel, cheio de malas, algo que hoje reduziria em noventa por cento, não tinha quarto vago. Nem nele nem em nenhum hotel de Torino. Era a Semana do Automóvel, um evento anual da Fiat, a dona de Torino. Depois de três horas peregrinando pela cidade, uma dona de pensão me deixou dormir no sofá da pousada. Uma merda. E, nervoso, ainda liguei direto para o Brasil. Gastei 100 liras, uma fortuna na época. Depois tudo entrou nos eixos. Mas fiz uma matéria para o Jornal do Brasil contando minha saga de foca.

Em 1994, sua segunda Copa, nos Estados Unidos. O que você achou da experiência do evento máximo do futebol num país onde ele não é popular? E como foi, particularmente, a sensação de assistir “in loco” ao Brasil ganhando uma Copa 24 anos depois?

Cara, quando eu estou numa cobertura me emociono pouco com quem vai ganhar. Nunca fui fanático por seleção brasileira. No fundo, me acho mais italiano do que brasileiro. Eu vibrei por ver minha primeira final de Copa, mas não me emocionei com o título do Brasil. Minha emoção é estar numa Copa, não importa quem ganhe. Em 2006, já cascudo, na quinta Copa, vi seis jogos no estádio. E me lembro de ter me emocionado por estar vendo Ucrânia 1 x 0 Tunísia, um dos piores jogos de todos os tempos. Saber que você estava ali, o esforço do seu pai, que ele estava orgulhoso de vê-lo em mais uma Copa... Não tem preço. Quanto à Copa de 1994, foi a pior que acompanhei in loco. Não gosto do país. Um calor infernal! Na minha escala de valores, está em último lugar.

Nas outras três Copas que você cobriu, 1998 na França, 2002 na Coreia/Japão e 2006 na Alemanha, tivemos o Brasil perdendo uma final cercada de mistérios com aquele problema do Ronaldo, o penta-campeonato em 2002 e uma derrota em 2006 marcada pelo “oba-oba”. Cada Copa é sempre algo especial na carreira do jornalista, ou vai se tornando mais um compromisso e perde a magia? Teria algo mais a destacar na cobertura dessas outras Copas?

Copa é Copa. Vale muito. Sempre fui à Copa desde que sou jornalista. Sei que chegará o dia em que não irei. E será estranho. A melhor, a mais emocionante, para mim, foi a primeira, em 1990. Foi a primeira viagem ao país dos meus antecessores. A da França foi ótima, até porque voltei a ir como repórter e fiz uma ótima dupla com Paulo César Vasconcelos no Lance. Em 1994, fui como chefe e pouco escrevi. E em 2002, fui como chefe da TV Globo, mas participei mais do que em 1994. Adorei aquele mundial. E, em 2006, fiz a cobertura da FIFA. Foi a primeira Copa longe da seleção e adorei. Não gostaria mais de cobrir seleção. É um saco. Não gosto do clima, do ambiente, da Confederação Brasileira de Futebol.

Você já entrevistou nomes como Pelé, Maradona, Romário, Zico. Como é a preparação para entrevistar um grande ídolo do esporte? É possível separar totalmente o ídolo do “cidadão Lédio” e o entrevistado do “jornalista Lédio”?

Eu separo. Sempre separei. Não quero saber. Nesse ponto, sou zero emoção. Aquilo é meu trabalho. Vou e faço. E não sou de tirar fotos com ninguém. Tenho, no máximo, meia dúzia de fotos com gente de futebol. Uma com Roberto, outra com Dunga, outra com Tostão, outra com Roberto Carlos e outra com o Nasa.Eu juro, eu tenho uma foto com Nasa.

Você foi um dos fundadores do jornal Lance. Conte um pouco sobre a ideia, a experiência, porque saiu de lá.

A melhor coisa do Lance foi o período pré-jornal. Toda a preparação e elaboração do jornal. Criamos até o título. Todas as seções. Esses personagens idiotas como Scarlett Breu, Bob Colina, Nilton Severiano. Nasceram das nossas cabeças idiotas. Mas era o máximo. E ainda foi no primeiro ano de publicação. Depois, tudo mudou. Resolveram popularizar o jornal, vendê-lo a qualquer preço. Aí, saí fora.

E na revista Placar, você atuou como repórter e atualmente é colaborador, certo?

Colaborador informal. Muito de vez em quando. Fui repórter na primeira passagem e editor na segunda.

Como chegou a chefe de reportagem da editoria de esportes d’O Globo? Conte um pouco da experiência.

Estava em São Paulo, na Placar, em 1991, quando fui convidado por Cesar Seabra, que assumira a edição de esportes de O Globo, para voltar ao Rio e virar chefe de reportagem. A ideia era mudar a cara do jornal. Tinha 26 anos, muito gás. Topei na hora. E foi ótimo. Acho que fiz bem. No Lance, também fui chefe de reportagem por um tempo e, depois, na TV Globo.

Como foi a experiência de ser chefe de Reportagem da TV Globo durante a Copa do Mundo de 2002?

É diferente de jornal. Uma equipe de TV é dez vezes maior do que a de jornal. Seu trabalho é importante, mas é apenas mais um. No jornal, não: tudo depende do chefe de reportagem. Outra diferença: na TV você precisa chefiar [Pedro] Bial, Ana Paula Padrão, [César] Tralli, [Ernesto] Paglia. Tem que ter, digamos, certo traquejo.

Como você enxergou essa mudança que aconteceu na última década com a chegada da TV a cabo e do pay per view ao Brasil? O futebol foi, durante muitos anos, um evento nobre da televisão, com transmissão de, no máximo, duas partidas por semana, e agora praticamente todos os jogos de todos os campeonatos são transmitidos pela TV, sem contar os campeonatos europeus. Você acha que dessa forma o futebol pode perder sua magia, se tornar comum, ou é da corrente que acha que, para o fã de futebol, quanto mais, melhor?

Claro que não. TV a Cabo substitui o rádio hoje em dia. Quanto mais futebol na TV, mais popular ele vai ficar. A tendência é que tenhamos mais canais especializados em futebol.

Pelo mesmo motivo citado ainda, o jornalismo esportivo cada vez mais atrai os jovens e os estudantes de jornalismo. O mercado de trabalho nessa área vem crescendo bastante, como você analisa o momento da profissão (com relação aos jornalistas já consolidados no mercado) e também com relação aos jovens que estão tentando iniciar a carreira?

Com internet e TV a cabo, daqui a um tempo teremos mais oferta de emprego, no lugar de jornais e rádios, que tendem a minguar. O problema são os baixos salários. Isso, eu não sei se irá melhorar. Mas creio que há uma tendência maior de profissionais liberais: o “pessoa jurídica”. É um bom caminho.

Você tem um blog que é um dos mais acessados do país, não somente no campo dos esportes, mas em todas as áreas. Além disso, foi um dos pioneiros nessa retomada dos blogs que surgiram no início da década. Foi uma febre temporária entre os adolescentes e agora aparece como uma grande ferramenta de interatividade nesses tempos de web 2.0. Como surgiu a ideia de iniciar o blog? Você já era ligado em computador, internet? Conte um pouco da trajetória do blog, desde a idealização, até hoje.

Era ligado, mas nunca havia pensado em ter blog. Até que um dia fui convidado informalmente pelo Globo Online para ter um. Fui, gostei e nunca mais larguei. Nunca concorri a prêmio nenhum. Até porque nunca me inscrevi em nenhum. Não confio nesses prêmios. São políticos, na maioria. Meu blog tem média de 18, 20 mil acessos únicos, com picos de 40 mil em dia seguinte aos jogos.

Com o blog, você passou a ter contato direto com seus fãs/leitores, bem como com os admiradores de esporte em geral. Como é, para um jornalista, essa experiência de saber, praticamente em tempo real, a opinião do público sobre seus textos e matérias? Enfim, como é a relação com os frequentadores do blog?

É excelente, muito embora tenhamos que ler coisas horríveis. Mas as coisas boas, inclusive as críticas equilibradas e certeiras, compensam os ataques covardes. É uma ferramenta única.

Quantas pessoas trabalham com você no blog, auxiliando a mantê-lo atualizado por vinte e quatro horas? Como é a rotina de funcionamento?

Apenas dois estagiários. Não tem uma rotina. Os estagiários fazem o auxílio quando não estão na faculdade. E eu cuido quando não estou na TV, o que tem sido difícil.

Para obter o sucesso que você conseguiu, é necessário dar uma atenção diária, com atualizações frequentes. Às vezes, quando a rodada do campeonato acaba já é quase meia-noite. Aí você ainda vai pra TV comentar no Sportv News e, depois, ainda tem tempo de comentar os jogos no blog. Como é conciliar essa rotina com a rotina da vida “normal”, com a família, os amigos?

Não tenho muita vida social. Quase não vou mais ao cinema. Agora, decidi não trabalhar mais pela manhã. Fico com minha mulher e meu filho. Depois, só trabalho. Na madrugada, também não trabalho mais. Os meninos fazem. No dia seguinte, dou a minha visão. Só escrevo à noite quando não estou no Sportv News. Vou organizar isso melhor. Mas é uma escravidão que curto.

Após uma longa carreira sempre por trás das câmeras, como foi a adaptação para, em 2006, começar como comentarista do Sportv? A experiência na frente das câmeras é muito diferente de suas experiências anteriores?

Jamais imaginei ser comentarista de TV. Nunca mesmo. Relutei muito antes de aceitar. Sou tímido, sou míope, meio gago, apesar de ter melhorado nesse aspecto. Mas, modéstia à parte, tenho muito conteúdo. E isso numa TV a cabo é tudo. E ganhei espaço. A TV me prestigia e me dá mais confiança. Acho que estou vencendo mais esse desafio. E sei que nunca serei comentarista da TV Globo. É outro padrão, outra demanda, você precisa ser comunicador, além de jornalista. Eu fico feliz por estar na TV a cabo.

Como é sua rotina para o trabalho no dia da transmissão de um grande jogo? Tem que chegar ao estádio com muitas horas de antecedência? Tem algum ritual ou superstição?

Que ritual? Pára com isso. Meu ritual é trabalhar. Chegamos duas horas antes e saímos duas horas depois. É cansativo. Eu estudo em torno de três a quatro horas para cada jogo.

Ainda sobre os grandes jogos, pra você, qual o maior clássico do futebol brasileiro? E teve algum clássico especificamente, já como profissional, que tenha sido marcante? Por qual razão?

O maior clássico, o de maior rivalidade, é o que nunca pude ver no estádio, Grêmio versus Internacional, no Rio Grande do Sul. Mas, para mim, a nível de ser humano [risos], é Flamengo versus Vasco.

Você participou das transmissões da Eurocopa 2008 pela Sportv. Essa sua participação foi bastante elogiada. Pode-se dizer que você é um dos grandes especialistas de futebol internacional no país. Como você consegue acompanhar tantos campeonatos ao mesmo tempo, saber onde joga cada jogador, como joga, quais suas qualidades e defeitos? Você dedica muito tempo do seu dia a estudar o futebol e a assistir jogos?

Eu navego o dia todo na internet. Até pelo celular. Estudo. Entro em sites russos, japoneses, ingleses, espanhóis, italianos, franceses. Por isso eu “linko” tanta coisa no Jogo Aberto. Eu leio, gosto e “linko”. Claro que não entro em todos diariamente, mas em pelo menos 20 espaços internacionais e nacionais eu dou às caras todo dia. Amo o que faço.

Ainda sobre a participação como comentarista na Sportv, já aconteceu de ser reconhecido nas ruas por algum fã? Teve alguma experiência engraçada ou curiosa?

Já, a todo momento. Sempre acho que vou levar uma porrada. Mas até agora escapei. Comentarista e locutor são os reis dos garçons e dos porteiros.

Saindo um pouco do futebol, como é sua relação com os outros esportes?

Gosto um pouco de tênis e de Fórmula 1. Mais nada. E corro.

Você participou da cobertura de três Pan-Americanos. A preparação é muito diferente da cobertura de um evento como a Copa do Mundo?

Cara, pra mim é diferente, porque não amo nem domino o evento. Não curto mesmo. Fiz profissionalmente, mas não tive nenhuma paixão naquilo. Não troco nenhuma Copa do Mundo ou Eurocopa por uma Olimpíada. Posso ser doido, mas não faz falta no meu currículo não ter ido aos Jogos Olímpicos. Apesar de acompanhar tudo na época das competições. Minha paixão é o balípodo [futebol].

Sobre o Pan-Americano realizado no Rio de Janeiro, qual a sua avaliação do evento em comparação com os outros dois que cobriu? Acha que, pela experiência do Pan, o Brasil está realmente preparado para eventos de grande porte, como Copa do Mundo ou Olimpíadas?

Duvido. Sou contra. Nem o torcedor está pronto para isso. Quem vai Turquia x Polônia, no Maracanã? E Trinidad x Suécia, no Morumbi? Fala sério. Brasileiro gosta do time dele e de jogar bola.

Bom, ao longo de toda a sua carreira, quais seriam os pontos positivos e negativos de cada um dos meios com os quais você trabalhou como jornais e revistas, TV e internet. Tem alguma preferência pessoal por algum deles?

Gosto de todos, mas hoje não me vejo mais em jornal. Só como colunista. Os jornais esportivos não souberam acompanhar as mudanças. Gosto dessa minha simbiose TV/Internet.

Você recentemente teve um filho. Você torce pra que ele herde o gostinho pelo futebol e seja jornalista esportivo como o pai ou mesmo jogador de futebol?

Numa boa? Torço sim. Adoraria. Mas o que quero mesmo é que ele tenha um trabalho que o emocione e que lhe gere paixão, ética e caráter. É o melhor legado.