LUIS LOBO
PERFIL

Luiz Jorge de Azevedo Lobo nasceu na cidade mineira de Nova Lima, em 26 de janeiro de 1933. O pai Djalma Quintela de Souza Lobo era arquiteto e a mãe Helena Duarte de Azevedo dona de casa. Quando ele fez 10 anos, a mãe insistiu para ele fazer os exames no Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, no sistema de internato. Foi no Pedro II que aprendeu Inglês, Francês e Latim, conhecimentos que o ajudaram a passar no curso de Jornalismo, da Faculdade Nacional de Filosofia, Universidade do Brasil, hoje Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Luiz Lobo foi da primeira turma de vestibulandos do curso de Jornalismo e teve como professores Manuel Bandeira, Josué de Castro e Simeão Leal. A formação era essencialmente humanística.

Luiz Lobo iniciou sua trajetória no jornalismo como estagiário da Tribuna da Imprensa, onde conheceu Carlos Lacerda e com quem aprendeu técnicas de jornalismo. Carlos Lacerda costumava dar aulas para os profissionais do jornal e adotava Manuel de Redação. Eram os anos 50 e mudanças ocorriam no jornalismo com adoção de técnicas como o uso da pirâmide invertida - o Lead.

Luiz Lobo passou pelas principais redações do jornalismo carioca: trabalhou como colunista no Diário Carioca, de Pompeu de Souza; no Correio da Manhã; participou da equipe que empreendeu a reforma do Jornal do Brasil; e foi chefe de reportagem de O Globo.

Na sua trajetória como repórter, ele relembra a cobertura da morte de Carlos Lamarca, em 1972, que envolveu o amplo trabalho de investigação jornalística no interior da Bahia. A edição final ficou com Roberto Marinho, responsável pelo fechamento da edição, que ganhou oito páginas. A matéria quase teve problemas com a censura, mas Roberto Marinho se responsabilizou diante dos censores pela publicação do material.

Luiz Lobo participou de experiências singulares no jornalismo de revista. Ele foi chefe de redação da Revista da Semana, projeto inovador à época ao priorizar o texto jornalístico ao invés da cobertura fotográfica. Luis lembra que incorporou na revista o conceito do sexto Lead, que era além de responder as perguntas tradicionais responder a uma sexta pergunta: “ e daí?”, “o que você (leitor) tem a ver com isso?”. A revista teve sucesso, por trazer informações sobre leis, decretos e matérias com personagens da cena política como Luis Carlos Preste, quando o Partido Comunista ainda estava na ilegalidade. Mas a revista não pagava os seus profissionais, então Luis abandonou o projeto.

O jornalista participou da criação da Senhor, considerada uma das revistas mais inovadoras no padrão gráfico e no uso da linguagem voltada para o segmento masculino. Foi editor executivo da Senhor junto com Nahum Sirotsky, Carlo Scliar, Paulo Francis. Depois, ele foi trabalhar na Editoria Abril, quando foi chefe de redação da revista Cláudia, que inovou ao trazer matérias de serviço com implantação do Selo de Qualidade para verificar produtos destinados ao consumo. Luis também fez parte da revista Veja.

Em 1972, foi convidado para trabalhar na Rede Globo, como pesquisador e redator do programa Globo Shell, que exibia documentários. Participavam do programa cineastas como Eduardo Coutinho, Walter Lima e o Dib Luft. Na Globo, participou da equipe do Globo Repórter, que sucedeu ao Globo Shell, em 1973, e da equipe do Fantástico. Por divergência na publicação de uma matéria sobre a Independência de Angola, que recebeu uma crítica do ministro português Marcelo Caetano, no jornal O Globo. Luis Lobo enviou uma carta para Roberto Marinho, com críticas duras ao jornal por não ter defendido o programa.Obviamente, fui demitido no ato. Eu já sabia, mas não pude me segurar. Muitos me defenderam, mas Roberto não aceitou a minha ousadia de se dirigir a ele daquele jeito em sua própria casa. Depois, o programa acabou ganhando um prêmio de crítica por aquela reportagem”, relembra.

Depois desse acontecimento, nos anos de 1980, Luiz foi para o Rio Grande do Norte, para cidade de Natal, coordenar a implantação da Televisão Universitária, com Jorge da Cunha Lima, que foi eleito reitor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). É no Rio Grande do Norte que acontece a reconciliação com Roberto Marinho e surgiu o convite para trabalhar no setor de Pedagogia da Fundação Roberto Marinho, em São Paulo. Ele vai participar do programa de educação 0 a 6 anos – O primeiro mundo, em parceria com o Ministério da Educação. O projeto produziu 53 programas e era veiculado semanalmente pela Globo, TVE e TV Cultura.

Nos anos 90, Luiz Lobo foi convidado pelo diretor João Carlos Magaldi para trabalhar na área de Projetos Especiais da Central Globo de Comunicação, no Rio de Janeiro. Ele participou da implantação do programa Criança Esperança em parceria com a Unicef – Fundo das Nações Unidos para a Infância, visando a redução da mortalidade infantil e implantou a campanha da adoção do soro caseiro como instrumento para melhorar a saúde das crianças.

O jornalista vai participou de diversas campanhas comunicacionais com a intenção de estimular princípios de responsabilidade social das empresas e estimular princípios de cidadania. Ele atuou como assessor da Unicef para a América Latina e o Caribe e assessor da Unesco para a área de Educação. Também foi premiado com o título de Jornalista Amigo da Criança, concedido pela Abring e dirigiu o Grupo de Jornalista para a Divulgação da Ciência.

Luiz Lobo é autor de livros na área de psicopedagogia como Escola de Pais: Para que seu filho cresça feliz; Onde foi que eu Errei? O seqüestro das Emoções.
ENTREVISTA

Realizada por Felipe de Carvalho, Mariana Almeida, Marian Ferrari e Renata Turão

Revisada por Andréa Santos e Maurício Duarte

Data: 06/2008

Pode fazer uma apresentação pessoal?

Se você promete que não espalha, meu nome é Luiz Jorge de Azevedo Lobo. Sou mineiro de Nova Lima, nasci em 1933, ano em que o Vila Nova foi campeão mineiro, ganhou do campeão paulista e do campeão carioca. Eu torcia para o Vila Nova.

Qual era a ocupação dos seus pais?

Papai [Djalma Quintela de Souza Lobo] era arquiteto e carioca, mamãe [Helena Duarte de Azevedo] dona de casa e paulistana. Papai foi contratado por engano para trabalhar em uma companhia inglesa, porque ele trabalhava em uma firma francesa no Rio, falava francês muito bem e o contrataram pensando que ele era francês. Quando ele chegou e descobriram que ele era brasileiro, ou “native” como eles chamavam na época, ficaram espantados. Mas papai se adaptou muito bem, logo estava falando inglês, foi campeão de badminton, jogava futebol, mas minha mãe não se adaptou muito bem. Papai foi quem projetou a captação de águas e as obras civis que fornecem água a Belo Horizonte. Nova Lima, hoje subúrbio de Belo Horizonte, foi a primeira cidade do Brasil a ter água corrente em todas as casas. [há dúvida se o pai era arquiteto ou engenheiro, como ele já havia revelado em outra entrevista].

Quando você veio para o Rio?

Quando fiz 10 anos, minha mãe insistiu para que eu fizesse exame para o Colégio Pedro II. Eu achava que não ia passar porque havia sido formado em uma escolinha de interior, embora tivesse sido orador da turma e muito elogiado pela professora. Eram 160 vagas e cerca de 5 mil candidatos, mas eu passei. Então, fiquei sete anos de interno no Rio, no Pedro II, de São Cristovão. Acostumado com a comidinha de casa, detestei a comida do colégio, passava a semana inteira só comendo pão, banana, doce. Chegava sábado e domingo eu comia feito um desesperado.

Você veio para o Rio sozinho?

Vim sozinho. E estudei sempre no Pedro II o que foi uma grande vantagem, porque saí falando inglês, francês e até um pouco de latim. Quando fui fazer o vestibular - o curso de jornalismo antigamente era um curso da Faculdade Nacional de Filosofia - eu passei com uma facilidade enorme. Naquela época, você tinha a formação completa em jornalismo e em rádio e publicidade, que eram obrigatórios.

Quando você entrou na faculdade?

Entrei no Pedro II em 1944 e na Faculdade em 1951. Fui da primeira turma do vestibular, porque a primeira turma mesmo foi aberta para jornalistas que queriam tirar diploma. A segunda é a que prestou vestibular.

Como era o curso?

O curso era muito fraco do ponto de vista de formação técnica, como acho que é até hoje, porque os velhinhos do ministério achavam que devia ser um curso de humanidades e não um curso formador. Achavam que matérias técnicas só caberiam em um curso técnico. Eles achavam que a Escola Técnica Nacional, hoje Centro Federal de Educação Tecnológica (CEFET), é que deveria ter um curso técnico de jornalismo. Quando fui a Natal para instalar a faculdade de jornalismo, lutei muito para incluir matérias técnicas e não consegui, não houve jeito, então dei essas matérias técnicas sem que constassem do currículo. Foi muito bom porque da primeira turma que nós formamos lá, todos assumiram cargos de chefia em vários jornais do Nordeste. O curso da Faculdade Nacional de Filosofia era muito bom do ponto de vista humanístico, tinha professores da mais alta qualidade. Meu professor de geografia humana era o Josué de Castro, meu professor de técnica de redação era o Simeão Leal, que depois foi diretor da Escola de Comunicação (ECO).

Teve aula com o Manuel Bandeira também?

Tive aula com o Manuel Bandeira, de português, e até fiz uma inconveniência com ele, porque ele era muito sarcástico, mordaz e, de vez em quando, fazia uns versinhos de pichação contra alguém e um desses eu peguei. Revelei que ele é que tinha feito de molecagem contra um amigo dele. O versinho dizia assim: “Francisco de Assis Pereira, brasileiro tipo sete, no verso e na prosa não deu, não dá nem promete”. Foi uma molecagem dele.

Você conheceu o Pompeu de Souza?

Sim, no Diário Carioca. Ele foi meu chefe.

Mas você o conheceu na Faculdade?

Não, na faculdade não. Ele não era do meu tempo. Conheci o Pompeu de Souza como diretor do Diário Carioca, era um excelente chefe e foi um dos dois introdutores da técnica do lead no Brasil. Ele no Diário Carioca, e o Carlos Lacerda na Tribuna da Imprensa.

Qual foi seu primeiro emprego?

Quando eu tive que fazer estágio, no segundo ano, não quis jornal grande, como Correio da Manhã, Diário de Notícia, Globo, Jornal do Comércio. Quis fazer estágio ou no Diário Carioca ou na Tribuna da Imprensa, que eram os que já tinham técnicas contemporâneas de produção. Então, pedi ao meu professor de Administração, que havia sido ministro da Fazenda, que me desse uma carta de recomendação. Levei na Tribuna da Imprensa e fui recebido por um senhor em mangas de camisa, gravata arriada, despenteado, velho que eu pensei que fosse chefe da portaria e ele perguntou onde eu morava. Respondi que na Tijuca. Ele pediu que eu fizesse uma matéria sobre os problemas do bairro. Eu levei no dia seguinte, foi publicada e ele me disse: “Pode começar”. Eu comecei na mesma hora. Não cheguei nem a entregar a carta ao Carlos Lacerda.

Você começou em que função?

Comecei na reportagem geral, mas, em torno de 15 dias, o editor de Fórum me chamou para fazer cobertura. Cobertura de Fórum naquela época era muito ruim, porque era feita por gente velha, que tinha aquilo como bico, as matérias eram sempre iguais. Então, eu fazia o seguinte: às 6 horas da manhã, eu passava na Imprensa Nacional e pegava o Diário da Justiça, que eu lia procurando nomes conhecidos e ia atrás daquela notícia. Só essa lida do Diário já dava umas cinco, seis notícias por dia. Eu realmente ia às Varas, o que me fez ficar conhecido e, de vez em quando, me davam dicas de coisas que eu corria atrás. A outra coisa que eu aprendi foi a ver a pauta de distribuição dos cartórios para procurar nomes conhecidos. Depois de um tempo, os advogados vinham me procurar e davam informações. Junto comigo, começaram a trabalhar o Armando Nogueira, no Correio da Manhã, e o repórter da Última Hora, Evaristo de Morais Filho. Então, brigávamos entre nós para ver quem era o melhor e foi um período muito interessante.

Como era a redação da Tribuna da Imprensa?

Era uma pocilga como é até hoje. Um prédio muito velho e sujo, máquinas de escrever velhíssimas, quando chegaram umas máquinas mais modernas foi uma festa danada. Eu tinha comprado uma máquina portátil e preferia escrever nela. A redação era muito suja e feia e no fundo dela ficava o gabinete do Carlos Lacerda, que dava aulas para a gente. A Tribuna e o Correio da Manhã eram os dois únicos jornais que tinham Manual de Redação, que nós tínhamos que seguir.

Como eram essas aulas do Carlos Lacerda?

Eram aulas para todo mundo, que duravam meia hora, 45 minutos. Depois das aulas, ele pegava as matérias que já estavam na mesa e fazia críticas. Ele era bastante exigente. Havia expressões que ele não admitia. Expressão como “muito pelo contrário” ele dizia que era pêlo nas costas. Uma vez, ele chegou a demitir um rapaz que insistiu em escrever mal.

Como era sua convivência com ele?

A convivência era diária, ele participava do jornal muito ativamente. Depois de uns seis meses, fui chamado pelo Nilson Viana, que era o editor-chefe, e ele disse para eu cobrir o Carlos, as atividades dele. Eu comecei a seguir o Carlos Lacerda, que já estava em campanha política e tivemos a oportunidade de ficar mais íntimos. O Carlos era uma figura muito engraçada porque não admitia ser chamado de “Senhor”, “Doutor” também, porque nunca havia se formado. Só restava chamá-lo de Carlos porque Lacerda ele também não gostava muito. Então, ele dava muita intimidade para a gente se aproximar.

Como era acompanhar a campanha dele?

Tinha um negócio chamado “Caminhão da Liberdade”. A União Democrática Nacional (UDN) era um partido mais para direita e com gente muito esnobe e besta. Eles iam de carro até o lugar do comício, subiam no caminhão e iam de caminhão até o comício. Eu me lembro de um episódio que o pessoal estava com fome, já haviam feito vários comícios e estávamos para fazer um entre Madureira e Irajá, mas todo mundo pedia ao Carlos para parar para comer. Então, ele comprou um cacho de banana e começou a distribuir. Alguns membros da UDN diziam que subir no caminhão tudo bem, mas que não iam ficar comendo banana.

Quando você foi para o Diário Carioca?

No Diário Carioca, passei pouco tempo, porque eu fui em umas férias da Tribuna, para ver a diferença entre as redações. A do Diário Carioca era muito grande, em um prédio limpinho, e o jornal era completamente diferente. A tese do Pompeu era de que o jornal deveria dar o mínimo de um máximo de notícia. Então, o jornal era muito compacto. Como o jornal era diagramado já pediam para você: “Me dá uma matéria de 10 linhas”. Já se determinava antes o tamanho da matéria. Eu não gostei, não me dei bem com o sistema, que exigia uma disciplina técnica muito grande.

Na Tribuna era mais livre, você trazia a matéria e tentava encaixá-la?

A exigência da pirâmide [invertida] era completa. Porque cortavam pelo pé mesmo, tanto que quando você escrevia uma matéria engraçada você tinha que avisar que era um grifo, porque senão poderiam cortar a anedota do final. Antigamente, publicava-se essas matérias mais soltas, mais engraçadas e era em grifo mesmo, para destacar do resto das matérias. No Diário Carioca, fiquei pouco tempo, acabei fazendo uma coluninha lá, gostei muito do Pompeu, adorei trabalhar com ele, aprendi muito, mas eu não via aquilo como futuro do jornalismo. Não valia a pena ficar em um jornal pequeno que tinha dificuldade em pagar e que não me dava prazer.

Como foi a experiência com a Revista da Semana?

Eu fiquei na Tribuna muito tempo A Tribuna tinha três diretores o Carlos Lacerda, o Maurício Lacerda e o Aluízio Alves, que depois foi governador do Rio Grande do Norte. O Aluízio era o calmo dos três. Eu tinha 21 anos quando ele me convidou para ser chefe de redação da Revista da Semana. Era uma revista que estava quase falida, mas que havia sido importantíssima no Brasil, porque chegou a tirar 500 mil exemplares. Era vendida na América Latina toda. Vendia também A Cena Muda, primeira revista de cinema da América Latina. Vendia também o famoso Eu Sei Tudo, uma espécie de Seleções Reader’s Digest, que faziam álbuns de fins de ano com os fatos mais importantes e que vendia 800 mil exemplares inclusive em Portugal, nas colônias. Só que a filha do dono casou-se com um idiota, um pau de arara burro que conseguiu afundar a revista. Às vésperas da revista fechar, foi feito um acordo com o Aluízio Alves e ele foi dirigi-la com carta branca. Quando nós chegamos lá, a revista era totalmente inviável, tinha dois fotógrafos, como podia então concorrer com Cruzeiro que era uma revista ilustrada? Eu convidei para trabalhar um baiano genial, excelente escritor, Quintino Carvalho, e levei dois repórteres para trabalhar comigo. Nós resolvemos fazer uma revista de texto, em vez de uma revista fotográfica. Teríamos uma ou duas reportagens fotográficas no máximo e nunca sobre os fatos da semana, que seriam abordados em texto. Não era editorializada, mas era uma revista de opinião. Estava começando nos Estados Unidos a moda do sexto lead, que era além de responder as perguntas tradicionais responder a uma sexta pergunta: “E daí? O que que você (leitor) tem a ver com isso?”. Então, nosso foco era em cima da sexta pergunta. Resultou muito bem, principalmente [no aspecto] econômico. A gente também explicava as leis, os decretos. No primeiro número, o Quintino Carvalho, que era comunista, conseguiu uma entrevista com o Luís Carlos Prestes que estava sumido há muito tempo. O Partido Comunista estava na ilegalidade. E nós não conseguimos fazer uma foto colorida dele, então colocamos na capa uma preto e branco com uma chapada vermelha em cima. Foi ideia do Orlando Caramuru, que era o paginador. A revista vendeu horrores, foi um sucesso enorme, o que de certa forma nos obrigou a manter um nível que não tínhamos condição de manter. No segundo número, a reportagem forte era uma investigação biográfica sobre o Benedito Valadares [político, governador, senador por Minas Gerais], porque se dizia que ele era burro e de burro não tinha nada e até escreveu um romance. O Quintino deu um título que, na época, deu um escândalo danado, mas foi muito engraçado. Como o Benedito era um político mineiro típico, então o Quintino colocou: “Benedito Valadares: ele não rema nem sai da canoa”. Tinha na revista uma coluna social assinada pela Elza Maxwell, uma americana muito conhecida, e tinha muitas seções, muitos serviços e bons críticos. Mas não pagava, era um inferno. Eu fiquei lá menos de um ano, mas foi um bom aprendizado.

Depois, você foi para o Jornal do Brasil (JB)?

Voltei para Tribuna e, logo em seguida, o Odylo Costa Filho me chamou para fazer com ele a reforma do Jornal do Brasil. Era um jornal que só tinha anúncio e o Odylo tentou fazer um jornal, chamou o Amilcar de Castro para diagramar e ele fez uma coisa muito inteligente, pois a página do JB era maior que a dos outros. Então, ele fez o desenho no tamanho normal de primeira página e o que sobrava era ocupado por anúncio. O JB inaugurou a fotoreportagem, porque, em futebol, saía foto do time arrumado e de gol. O JB passou a dar fotos expressivas de lances que contavam a história da partida. Eram fotos escolhidas mais por “boniteza” do que por flagrante documentado.

Você estava no JB na época daquela foto do Juscelino Kubitschek com o americano?

Estava e aquilo foi uma sacanagem enorme. O Foster Donald veio ao Brasil e foi recebido pelo JK [Juscelino Kubitschek]. E tinha uma hora para os fotógrafos entrarem na sala e fotografar. O fotógrafo do JB chegou atrasado e perdeu a sessão de fotos, era o Alberto Ferreira. Quando acabou a reunião, o Alberto implorou ao presidente dizendo que não havia conseguido fazer a foto, pediu uma chance argumentando que, caso contrário, perderia o emprego. O Juscelino pegou uma agenda que estava em cima da mesa abriu e fez pose e disse para o Foster: “O Senhor vê a que nós somos obrigados aqui a fazer para atender a imprensa”. E foi feita aquela foto. Quando a foto chegou na redação do JB, nós tínhamos um jornal mural chamado A Pérola. Lá nós colocávamos as besteiras escritas pelos repórteres para ver se melhorava a qualidade da redação e, de vez em quando, colocávamos uma foto. Nesse dia, o Quintino pegou uma cópia da foto e fez uma legenda cujo título era: “Me dá um dinheiro aí”, que era uma marchinha de carnaval de sucesso. Mas era molecagem. O Odylo, que era muito moleque também, gostou e disse: “Vou publicar na primeira página”. Nós todos protestamos, dizendo que era sacanagem com o presidente, mas ele era um udenista ferrenho e publicou assim mesmo. Para mim, foi uma traição ao Juscelino.

Isso prejudicou o JB de alguma forma?

Não, mas prejudicou o Odylo. Ele entrou em uma pressão danada porque a Condessa [Maurina Dunshee de Abranches Perreira Carneiro], embora fosse dona do jornal, não era quem mandava, quem mandava era o ministro Aníbal. Ele não concordava com a mudança e com o tom do jornal. Era um velho caquético, raivoso. Não demorou muito o Odylo pediu para sair. Houve um almoço de despedida com cerca de 40 pessoas prestando solidariedade a ele, mas eu fui o único que saiu do jornal junto com ele.

Qual era sua função no JB?

O problema era esse. No JB, eu fazia um monte de coisa ao mesmo tempo, mas minha função era ser editor da primeira página, às vezes, porque havia vários editores de primeira página, como eu, Jânio de Freitas, Luiz Garcia. Eu fazia parte do copidesk, fazia parte da pauta, cuja responsabilidade era dividida entre várias pessoas, até que o Armando Nogueira assumiu a pauta definitivamente. A pauta dele era intimada por uma informação: “Não vive a vida na flauta quem vive de fazer pauta”. Ele acordava muito cedo para pegar o grande Jornal Tupi que era às seis da manhã e a partir dali ele fazia duas pautas. Ele fazia uma com o Jornal Tupi, com o noticiário da Globo que era às 8 da manhã e com os jornais matutinos e soltava a primeira turma na rua. Depois fazia uma segunda pauta com os vespertinos e terminava com o Repórter Esso que era por volta das 13 horas e pautava, então, a turma da tarde. Foi aí que se especializou a pauta, porque antes ela era feita por várias pessoas, inclusive o Fernando Gabeira. O JB foi o primeiro jornal a estabelecer editorias, antes só o internacional é que tinha uma pessoa especializada e o resto era tudo misturado. Na Tribuna e no Diário Carioca já começavam a surgir algumas editorias como: política, polícia. Mas editoria mesmo com especialização e gente exclusiva daquele setor começou no JB e, depois, na Última Hora.

Existe alguma matéria que você destacaria?

Não, não. Estávamos muito preocupados com a forma, fazer um jornal do zero, do nada. Era uma coisa complicada.

Você trabalhou também na revista Senhor. Como foi a experiência?

Eu fui convidado para fazê-la. A revista não tinha nome, não tinha projeto. Nós poderíamos fazer a revista que quiséssemos desde que ela fosse graficamente muito bem feita. Isso ocorreu, porque o dono da grana era o proprietário da Editora Guanabara, e ele queria ganhar a conta do Delta La Rousse, para editar no Brasil com o nome de Delta La Rousse. Só que o La Rousse não tinha confiança na qualidade gráfica brasileira. Então, resolvemos mostrar que poderíamos fazer. Contratamos o Carlos Scliar, um pintor gaúcho que vivia no Rio havia anos e era um dos poucos figurativistas, pois a moda eram os borrões e o tachismo, mas o Carlos queria continuar figurativista. Então, como ele não iria conseguir vender nem expor, resolveu passar dois anos desenhando e pintando só para si mesmo. Nessa época, ele decidiu que um modo bom de criar disciplina era trabalhar em um projeto gráfico, então ele concordou em fazer a diagramação da revista Senhor. Nós discutimos muito, o grupo inicial era Nahum Sirotsky, Carlo Scliar, Paulo Francis e eu. O Nahum queria fazer uma revista de economia e política. O Paulo uma revista de artes, com que o Scliar concordava e eu queria fazer uma revista mais aberta, valendo tudo. Insisti na tese de que o mercado estava procurando uma revista masculina, voltada para os interesses masculinos. Com esse perfil, dava para falar de diversos assuntos como arte, economia, política sem ficar restrito a uma fatia só do mercado. Assim foi feito só que o primeiro número foi um fracasso completo porque cada um deu seu palpite e a revista ficou com cara de ninguém, não agradou nenhum de nós quatro. No segundo número, o Scliar disse que ele iria cuidar do aspecto visual e não queria que ninguém desse palpite, nós nos preocuparíamos só com o texto. Ele deu um ritmo gráfico na paginação e a revista passou a ficar muito bonita. É a revista mais bonita que surgiu no Brasil até hoje. Aí cometemos um erro quando escolhemos o nome Senhor, originalmente ela se chamava Sr. Na banca, o jornaleiro não chamava de revista Senhor, chamava de Sr e tinha naquela época uma pasta de dente que era uma porcaria e se chamava Sr, depois disso passamos a escrever Senhor por extenso. Foi uma experiência muito boa, ganhamos diversos prêmios de editores ingleses, várias capas foram publicadas na revista Graphis.

Como eram as capas? Vocês usavam fotos?

Não, era tudo desenho e pintura do Scliar, e não tinha a ver com o material de dentro. Outros artistas como o Jaguar, também fizeram capas.

E a conta da Larousse ?

Ganhamos a concorrência, e nós ganhávamos pouco pela promessa de um dos donos, que nós ganharíamos a revista quando eles ganhassem o objetivo deles. Assim nós exploraríamos a revista, por nossa conta e risco. Em contrapartida, eles deixariam de colocar dinheiro. Nós achamos que era um investimento que iria valer a pena, então trabalhei dois anos feito doido.O Nahum era diretor, o Scliar diretor de Arte, eu e Paulo editores executivos. Além disso, eu era secretário da revista. Ficávamos na oficina, trabalhávamos muito. E o Scliar foi muito esperto ao escolher a oficina, porque se íamos fazer um projeto gráfico para ganhar outro projeto gráfico precisávamos fazer em uma oficina que depois fosse útil para o projeto futuro. Então, em vez de fazer em rotativa, que era a moda da época, rotogravura, ele foi procurar máquinas planas, antigas. Ficamos na dúvida entre duas gráficas, uma que imprimia bilhete de loteria e uma que imprimia lista telefônica. Quando chegamos lá e explicamos aos funcionários o projeto, foi muito interessante porque eles eram bons impressores, bons artistas, mas imprimiam lista telefônica, havia uma frustração enorme. Quando eles viram o projeto da revista ficaram entusiasmados, então nós tínhamos o melhor controle de qualidade possível, pois eles brigavam uns com os outros para que tudo saísse ajustado, o que fez com que a revista tivesse uma qualidade internacional. Porém, quando ficamos donos da revista, não tínhamos como pagar todos os gastos para os antigos donos da revista, então a revista foi morrendo aos poucos. E eu voltei para a Tribuna.

E então?

O Nascimento de Brito comprou a Tribuna, os lacerdistas pediram demissão, mas eu não tinha motivo para isso, mas fui pressionado de todas as formas a pedir demissão pelo Alberto Dines, que era o chefe de redação, e eu tive que trabalhar na parte feminina como castigo, pois a página feminina era uma porcaria, só tinha receita e coisas bem babaquinhas. Eu tinha uma ideia da nova mulher, a que trabalhava na rua, que tinha responsabilidades. Aí eu comecei a fazer uma página voltada para essa mulher. E deu muito certo, um resultado mensurável, porque a página do turfe às vezes “comia” a página feminina e começaram a observar que nesses dias a venda caía. Eu só contratava mulheres, e, quando era necessário discutir assuntos mais complicados e específicos, eu convidava psicólogas, médicas, engenheiras, arquitetas para escrever sobre um determinado assunto. Quando a página feminina deu certo, o Dines me colocou para fazer Turfe. Eu nunca tinha entrado no Jóquei Clube. Então, resolvi procurar Aroldo Lobo e pedi ajuda, já que não entendia nada sobre cavalo. Ele disse que só existem dois tipos de pessoas que frequentam o Jóquei Clube, os que gostam de jogar e os que gostam de cavalos. Todas as páginas são sobre quem gosta de jogar, se você fizer matérias voltadas para quem gosta de cavalos, vai fazer sucesso. A partir disso, tive uma ideia para minha primeira matéria. Escrevi sobre dois cavalos irmãos heróis da época, Eliaco e Heron, contando o dia a dia deles, pois embora fossem irmãos eles eram completamente diferentes. O Eliaco só dormia de pé, não tomava banho de mar, só de piscina, não gostava de esguicho de água fria antes da corrida, tinha que ser morna. Meus textos eram praticamente sobre os bastidores do Jóquei Clube, custos, a vida do cavalo na baia. Começamos a dar prêmios também para treinadores, competidores. Logo em seguida, fui colocado de castigo de novo e me fizeram escrever sobre polícia. Nessa época, quem escrevia nessa editoria era Antônio Maria, Lêdo Ivo e eu. O Antônio começou a fazer uma seção que, ao invés de crimes importantes, começou a explorar os fatos miúdos do dia a dia, dramas do cotidiano. Fez muito sucesso e depois se descobriu que o Antônio Maria, às vezes, inventava essas histórias. Lembro que uma vez ligou um delegado para a Tribuna dizendo que havia um repórter nosso de polícia que estava preso e exigiu que alguém fosse lá se responsabilizar por ele. Eu fui. O delegado me disse que o repórter chegou na cena do crime antes da polícia e mexeu no corpo, mudando-o de posição e que isso era crime. Quando eu perguntei porque ele havia feito aquilo, o garoto me falou que não lembrava o nome da posição em que o cadáver estava, então botou ele em decúbito ventral para poder escrever a matéria. Descobri que o Nascimento de Brito me perseguia porque na época que eu era secretário da Tribuna. Havia na primeira página um recado de editor ao leitor, e um dia saiu ali uma nota atacando o Brito. Aquilo foi escrito pelo próprio Lacerda, mas eu me recusei a publicar, mas ele ameaçou me demitir se eu não publicasse, então o Brito atribuía a mim essa nota. Depois fui convidado para trabalhar no Jornal do Brasil outra vez. A verdade é que fazia de tudo lá: ajudei a montar pesquisa, a editar a primeira página, participava dos suplementos, trabalhava muito. Além disso, fazia um cursinho para jornalistas iniciantes, pois os estudantes chegavam ao jornal sem saber de nada.Após uns desentendimentos, por eu não ter recebido o aumento salarial que esperava, eu pedi demissão. Em seguida, recebi um convite do Tomaz Souto Correa para ir trabalhar na revista Cláudia.

Na revista Cláudia, qual era a sua função?

Eu assumi com uma condição: queria a redação limpa, sem ninguém. Meu objetivo era tirar os medalhões que faziam seção, não os jornalistas. E isso ocorreu. A mãe do Luís Carta escrevia críticas em italiano que a gente tinha que traduzir para publicar, e só falava de livros europeus, ou seja, era uma porcaria. A amante de um diretor só comprava matéria de revista americana, aquilo não interessava. Eu tinha que assinar um contrato de dois anos, durante esse período eu teria que aumentar as vendas de 20 mil para 50 mil e aumentar o número de páginas de 10 para 30. Se eu não atingisse, eu seria demitido sem indenização nenhuma. Mas eu já tinha um projeto editorial da revista na cabeça. Eu tinha ficado três dias com o pessoal da publicidade para saber qual era a revista que eles achavam mais fácil vender, qual o conteúdo melhor para eles e chegamos a ideias ótimas. Uma delas era fazer testes com geladeiras, fogão, batedeira. Fizemos contrato com o Instituto Nacional de Metrologia Qualidade e Tecnologia [Inmetro] e foi um enorme sucesso, tanto que se criou o selo de qualidade da Cláudia, isso realmente melhorou a qualidade dos produtos. Eu levei algumas mulheres que trabalhavam comigo na página feminina da Tribuna, uma delas começou a escrever coisas que provocavam escândalos. Dois artigos dela foram marcantes, um sobre homossexualismo feminino, que gerou protestos na Igreja, e o outro surgiu por que eu perguntei para ela: “Por que mulher tem medo de barata?”. E ela escreveu. Nós inclusive colocamos uma foto enorme de uma barata que gerou protestos. Tinha também uma seção de antologia do conto moderno, com traduções excelentes de autores ainda pouco conhecidos, certas coisas são para dar repercussão à revista e outras coisas, como os contos, eram para dar qualidade. Depois de um ano, já tínhamos conseguido cumprir o contrato. No final de dois anos, recebi a proposta de largar a direção da revista Cláudia e fazer a capa da revista Veja, que era nova na época.Mino Carta que fez o convite, ele era irmão de Tomas Carta diretor da revista Cláudia. Porém, estavam precisando de editor nas sessões de vida moderna e de esportes da revista Veja, então a pedido de Mino passei a ser editor. Apesar de ganhar muito bem, eu não estava feliz.Quis voltar para Cláudia, mas o Tomaz enciumado não concordou. No tempo da revista Senhor, eu esqueci de dizer uma coisa que era importante, um dos grandes sucessos da revista é que nós pagávamos muito bem autores nacionais para escreverem com exclusividade para a revista. Então Jorge Amado escreveu Quincas Berro d’Água, inclusive houve um episódio interessante, pois o título original era A dupla morte de Quincas Berro d’água. Eu achava muito ruim e sugeri A morte e a morte de Quincas Berro d’água e a Zélia Gatai convenceu o marido de que esse título era melhor que o dele. Mas os melhores escritores brasileiros escreveram para a gente matérias inéditas: Clarice Lispector, Guimarães Rosa e outros.

Como foi o episódio da sua prisão?

No Correio da Manhã, eu fazia a página e fazia um artigo, uma crônica, e um dia escrevi um artiguete chamado O regime não presta, que era a história de um sujeito que chegava para um grupo de amigos e dizia: “O regime não presta, o regime é uma porcaria”. Os amigos diziam: “Cala boca, fala baixo!”.

Qual era o ano?

Em 1970. Nisso que ele está dizendo que o regime não presta chega um baixinho segura ele pelo braço e diz: “Vamos para a polícia política porque o senhor está preso”. E ele diz: “Tá vendo, o regime não presta”. Chegando na polícia política, havia um coronel atrás de uma mesa que era amigo do cidadão preso. O coronel levantava e fazia uma festa danada: “E aí fulano, que bom te ver!”. O baixinho já ficava meio desconfiado, então o coronel perguntava ao amigo o que ele estava fazendo ali e ele respondia:“Eu vim trazer esse baixinho que estava no meio da rua dizendo que o regime não presta”. E o baixinho não tinha coragem de desdizê-lo. O coronel disse ao baixinho: “O senhor está preso”. O sujeito pediu ao coronel para falar com o baixinho e ele disse: “Claro, você pode tudo”. Aí ele chegou para o baixinho e disse: “Não falei para você que o regime não presta?”. Bom, fui chamado para depor na polícia política, depois não aconteceu nada. Três dias depois, às cinco horas da manhã, bateram na porta da minha casa e eu estava preso. Eu fui levado para a segunda delegacia norte, em Pilares, fui entregue à polícia e fiquei lá sentado num banco. Quando entrou o comissário, vi que ele tinha sido meu colega no Pedro II. Eu fui falar com ele numa boa, mas ele disse que não falava com corrupto nem com terrorista, eu argumentei que não era nenhuma das duas coisas, mas ele me mandou calar a boca. E eu me lembrei que ele era um antigo torturador de gatos. Ele era conhecido no Pedro II por pegar gato vivo, enfiar quatro estacas no chão, amarrar as patas e abrir a barriga do bicho vivo. Isso me deu um certo susto. De fato, eu fui para uma cela que tinha quase um palmo de água, não tinha banco, não tinha cadeira, não tinha cama, não tinha nada. E eu fiquei sem comer, sem dormir, sem sentar durante três dias e três noites.

Sozinho na cela?

Sozinho na cela. De quinze em quinze minutos vinham me buscar para ver tortura. Eu pensei: “Não vão me deixar sair daqui, sabem que eu sou jornalista, estão torturando presos, se eu sair eu vou contar, eles não vão me deixar sair”. O primeiro momento foi de grande medo e até pânico, num segundo momento eu estava morrendo de fome, estava com sede, com fome, pedia para comprar um sanduíche e ficavam zombando de mim. E num terceiro momento, eu já estava tão pau da vida que qualquer coisa que acontecesse era vantagem. Eu estava certo de que eu não ia sair dali vivo. Então, eu estava em um estado de irritação muito grande quando veio um oficial de cavalaria, reconhecível pelas pernas tortas e pela imbecilidade, para me questionar. E a primeira pergunta dele foi: “O Brasil perdeu ontem da União Soviética no basquete (o campeonato mundial estava acontecendo aqui no Rio), você está feliz?”. Eu disse: “Não seja imbecil, porque eu haveria de estar feliz?” (eu quis bater de frente mesmo). O oficial disse: “Porque o senhor é comunista”. Eu disse: “Quem lhe disse que eu sou comunista? Vá perguntar ao coronel fulano, ao coronel cicrano quem eu sou”. Tempos depois, eu soube que a ordem da minha prisão partiu do Orlando Geisel, irmão do presidente, que achou que aquilo (o artigo) era desmoralizante para as Forças Armadas etc. O Exército não quis me prender, a Marinha também não e a Aeronáutica também não. Então, eu fui preso pela OBAN, que também não tinha o que fazer comigo, me jogaram na delegacia de polícia e me deixaram lá. O Exército só foi saber que eu estava preso no terceiro dia, e aí aconteceu uma coisa muito curiosa, como eu fui preso de madrugada, eu não acordei minha mulher para não causar escândalo e minha sogra que ouviu o movimento e desceu ainda ofereceu um bolinho para os safados. Quando nós estávamos saindo, eu tinha em casa, como tenho aqui, a gloriosa bandeira rubro negra e um dos sargentos disse: “Eu também sou torcedor do flamengo, não vai acontecer nada, eles só querem te dar um susto”. Mas eu achei que já tinha passado de susto. Então, eu enfrentei esse bobalhão (o oficial de cavalaria), que eu soube que era major, e que chegou a coronel, e comecei a bater de frente com ele. E entre outras besteiras, ele disse: “O senhor sabe a letra do hino nacional?”. E eu respondi: “Vamos fazer uma apostinha entre nós dois, vamos começar a cantar hinos patrióticos, quem desistir primeiro perdeu, quem errar primeiro perdeu, porque eu sei inclusive o hino das armas do exército e duvido que o senhor saiba algum, além do da cavalaria”. Ele ficou espantado e disse: “Por que da Cavalaria?”. “Porque evidentemente que o senhor é um cavalariano”. Aí pegou pesado, e eu fui engrossando, engrossando, aí que eu percebi que tinha alguém dentro da sala que disse: “Chega!”. Eu olhei para trás e vi que tinha um camarada, ele disse para o cavalariano sair e me perguntou o que me havia sido perguntado. Eu relatei que o oficial de cavalaria disse: “O senhor é comunista, o senhor foi a Moscou”. Eu fui a Moscou como jornalista, como fui aos Estados Unidos e não sou capitalista. Este outro camarada disse: “O senhor pode ir embora”. Eu pensei que teria que voltar para cela, quando eu ia andando para lá ele disse: “Você pode ir embora, embora mesmo”. Depois, acabei amigo desse sujeito. Mas aconteceu uma coisa curiosa, minha mulher quando acordou e soube que eu tinha sido levado, ligou para o Odylo Costa Filho, que tinha muito relacionamento dentro do Exército. O Odylo ficou de me achar, me procurou, falou com o chefe do DOI-CODI, que disse que eu não estava preso nem no Exército, nem na Marinha e nem na Aeronáutica. Sugeriu que eu era de algum movimento de esquerda e talvez tivesse sido sequestrado. Minha mulher negou que eu era de algum movimento e disse que eu fui levado num carro preto com antenas. O chefe do DOI-CODI disse ao Odylo que se tratava então da Operação Bandeirantes, a qual ele não controlava. Quando eu saí e minha mulher me contou o que tinha acontecido, eu fui na casa do Odylo para agradecer e acabei contando das torturas que vi. Ele perguntou se eu estava disposto a contar isso para um amigo dele, ao que eu respondi: “Eu conto para qualquer um”. Então ele me disse: “Você vai saber quem é o chefe do DOI-CODI”. Eu tomei um susto, só que na verdade eu o conhecia muito bem e me dava muito bem com ele, tratava-se do coronel Adyr Fiúza de Castro. Mas mesmo assim não quis conversar com ele, ainda mais sabendo que ele era do DOI-CODI, mas o Odylo insistiu, falou no fim da tortura, até porque nessa época já tinha vindo a ordem para se acabar com a tortura. Aí eu acabei contando para o Fiúza o que eu havia visto e ele disse que isso era coisa de polícia e não do Exército, enfim, aquelas desculpas de sempre.

Depois desse episódio, você continuou atuando como jornalista no período de censura.

É, eu perdi o emprego no Correio da Manhã.

Por causa do artigo?

Sim, e por ter sido preso. Eu acho que eu sou um dos quatro ou cinco que foram torturados perderam o emprego e não ganharam nada com isso. Quando o sindicato me ofereceu, eu disse que achava um absurdo o Estado, o povo, me pagar por uma posição que era minha. E foi minha sorte ter sido preso naquele dia, porque o artigo do dia seguinte era muito pior, eu ia falar de um manicômio militar, onde tinha um sujeito que subia em um mastro segurando uma colher e mexendo o conteúdo de uma latinha. Um general perguntava o que ele estava fazendo e o sujeito dizia que na latinha tinha cocô e ele estava misturando para fazer um capitão. O oficial perguntava por que ele não fazia logo um general e o sujeito respondia que não dava porque a merda era pouca para isso.

Como ficou a redação nessa época de ditadura?

O Correio da Manhã era uma das maiores vítimas da censura, lá nós começamos a publicar versos de Camões no lugar das matérias censuradas, depois veio inclusive a proibição de se publicar os versos. E tinha coisas das mais idiotas possíveis. Vocês não conseguem imaginar o que era a boçalidade de um censor, que via subversão em tudo, até nas coisas mais bobas e não adiantava discutir porque eles tinham o poder na mão. Mas depois de um certo tempo os censores foram amansando e foi dando para publicar algumas coisas.

Como avalia a decadência do Correio da Manhã?

Nessa época, o jornal já estava uma porcaria. Segundo a tese do Carlos Lacerda, um jornal leva 10 anos para morrer, e o Correio da Manhã já estava na altura do seu oitavo, nono ano de queda.

O que fez quando foi demitido?

Aconselharam-me a procurar emprego no Globo, porque doutor Roberto Marinho tinha o que a gente chamava de “seus comunistas”, dava cobertura a eles. Foi o que eu fiz, e me deram emprego, me convidaram para o cargo de chefe de reportagem, que eu ocupei por quase dois anos.

Qual matéria você destacaria?

Nesse intervalo o que aconteceu de importante foi a morte do Carlos Lamarca. Acontece que O Globo nessa época era vespertino e não circulava aos domingos. No plantão de sábado, havia pouco a se fazer, na qualidade de chefe eu sempre me colocava no plantão de sábado. No dia da morte do Lamarca era sábado, eu cheguei às seis horas da manhã e só havia um “materista”, que era como a gente chamava o sujeito que ficava no telefone, ligando para a polícia. Ele estava muito nervoso e disse que haviam matado o Lamarca, eu pensei: “Deve ser a décima quinta vez que o Lamarca é morto”. Mas ele insistiu dizendo que o prefeito da cidade onde o Lamarca havia morrido era pai de um repórter do O Globo e havia ligado para a redação. No sábado nada funcionava, liguei para casa do doutor Roberto Marinho, mandei o mordomo acordá-lo e disse a ele que eu já estava convocando repórteres, que precisávamos ir à Bahia, que o Lamarca tinha sido morto, mas que não havia dinheiro. As linhas para a cidade onde precisávamos ir estavam suspensas, pois havia um temporal em Salvador. Doutor Roberto autorizou que eu alugasse um avião e tive o cuidado de formar a equipe com uma menina que era dedo duro do O Globo para o Cenimar, um ex-sargento do Exército que era dedo duro para o Exército e um rapaz que era dedo duro da Aeronáutica. Então, fui cercado por gente do regime, para não ser acusado de ser contra o regime. Levei também o filho do tal prefeito. Só nós conseguimos chegar lá, não chegou equipe de nenhum outro jornal. Os outros grandes jornais tiveram que trabalhar com equipes locais, que eram uma porcaria.

Vocês foram até o lugar do tiroteio?

O filho do prefeito foi e fez uma reportagem excelente, o resto da equipe ficou em Salvador, para onde o corpo do Lamarca estava indo. Doutor Roberto pediu ao então governador Antônio Carlos Magalhães facilidades na transmissão de matérias que, naquela época, era feita por Telex. Alguém tinha trazido do Japão mini gravadores, que nós usamos escondidos no bolso da camisa para gravar tudo, por ordem do Doutor Roberto. Foi o que fizemos. O clima do Exército era de grande vitória, eles estavam totalmente despreocupados do problema político e eu consegui declarações interessantíssimas. Nós fomos construindo pedaços da história. Quando eu cheguei no Instituto Médico Legal, o corpo do Lamarca estava nu e todo cortado. O responsável disse que os cortes eram de bala, então desvendamos que ele foi morto dormindo. Conseguimos fazer um quadro completo do que havia acontecido. A única coisa que eu não consegui lá foi o diário do Lamarca, que estava com um oficial da Aeronáutica. Encontramos o tal oficial no aeroporto e ele já havia selecionado uns trechos, que eram justamente os que mais nos interessavam. Eu comecei a me comunicar diretamente com doutor Roberto, ele ficou muito entusiasmado, mas o diretor de redação estava sofrendo de câncer e não havia ninguém para fechar a edição, pois eu já estava acumulando a chefia de reportagem com a de redação. Roberto Marinho foi pessoalmente para a redação fechar a edição. Foi ótimo porque nós daríamos no máximo duas páginas, ele deu oito, o jornal era dele, podia fazer o que quisesse. Então, todo o material que enviamos foi publicado. Chegando no Rio, fomos presos e um coronel muito ignorante começou a nos pressionar quando entrou doutor Roberto dizendo: “Se alguém tem que ser preso, esse alguém sou eu, fui eu que mandei cobrir, fui eu que editei, o jornal é meu”. Começou a dizer: “Eles não são comunistas inclusive aquela moça ali é informante do Cenimar, aquele outro do Exército..”. Isso foi uma desmoralização completa porque eles mesmos não sabiam que a gente sabia. Por fim, ele disse que tinha tudo gravado. Essa é uma das mágoas profissionais que eu carrego, porque o Alberto Dines, esse grande defensor da liberdade da imprensa, era o encarregado de coordenar o prêmio Esso. Eu apresentei a candidatura e ele pediu para que nós tirássemos a matéria porque o Exército estava pressionando. Ele manobrou e fez de tudo, pediu para gente apresentar no ano seguinte, não aceitamos e ele acabou tirando nossa candidatura, que era a favorita. Nós deixamos de ganhar um prêmio Esso por causa da covardia do Alberto Dines.

Que outras matérias d’O Globo você destacaria?

O que aconteceu de mais importante nem é uma matéria em si. Fui procurado por um jovem professor, dono de um cursinho pré vestibular, que me disse que conseguia através de uma equipe de professores me entregar, duas horas após o encerramento das provas, um gabarito completo. Naquela época, a Cesgranrio só divulgava gabarito 72 horas depois. Certamente nos interessava dar o resultado em 24 horas. A primeira prova foi a do Instituto Militar de Engenharia (IME). Eles me deram a prova respondida e me alertaram que havia uma questão errada, com uma formulação mal feita. Então eu coloquei uma chamada na primeira página: “Terceira questão da prova do IME está errada”. Foi nota oficial para lá, nota oficial para cá, deu uma confusão danada, mas eu mandei ouvir dez professores e ficou dividido. Acabou que o IME anulou a questão. Deu muito certo essa ideia de publicar as respostas e começaram a haver filas na porta do O Globo, os vestibulandos não queriam esperar o jornal sair, queriam que a gente pregasse o gabarito na porta.

Como avalia a relação que havia entre O Globo e o regime militar?

O Globo originalmente apoiou a Marcha dos Cem Mil, apoiou o golpe e, quando viu o golpe se transformar em ditadura, se arrependeu. Depois do Costa e Silva, O Globo passou a ser oposição e a gente sofreu bastante. Mas doutor Roberto sempre foi muito independente, sempre foi muito cioso da independência do O Globo, tanto que o episódio dos “Meus Comunistas” é absolutamente verdadeiro. Ele tinha vários comunistas lá sob as asas dele e, aliás, todos foram ingratos com o doutor Roberto.

Você acompanhou e entrada do Evandro Carlos de Andrade n’O Globo?

Não só acompanhei como sou culpado. O diretor de redação estava muito mal, com câncer e doutor Roberto estava preocupado com a sucessão, mas não quis fazê-la enquanto o tal diretor ainda estivesse vivo. Eu indiquei o Evandro, mas alertei que não se tratava de uma pessoa fácil de lidar. Eu achava que ele era a solução, pois escrevia muito bem, era um jornalista extremamente competente e conhecia Brasília como poucos. Pediram para mostrar algo dele, mas eu só tinha um artigo do tempo da revista Senhor, no qual ele falava sobre um cravo no pé.Na área política, o Evandro era muito respeitado e O Globo estava precisando dar uma levantada junto à classe política. Eu pedi ao doutor Roberto que, quando o Evandro viesse, ele me dispensasse, pois embora nos déssemos bem (nos conhecemos no Diário Carioca) eu queria ir para a televisão e já tinha uma proposta. Eu fui para televisão, mas fiquei fazendo no O Globo a coluna de esportes do João Saldanha, que havia saído do jornal.

Você teve um convite para ir para TV?

Eu fui para TV trabalhar no comercial, porque o Globo Shell era um programa do comercial e não do jornalismo. Foi idealizado como um programa jornalístico, como um documentário com dois objetivos: ganhar uma grana boa da Shell e incorporar cineastas brasileiros à Globo. Os maiores cineastas brasileiros foram convidados para fazer documentários. Só o Paulo Gil Soares, o Walter Lima Júnior e um terceiro toparam. Havia um preconceito da intelectualidade contra a televisão. Entre os mais preconceituosos estava o pessoal do cinema, que quis fazer cinema na televisão, e a fórmula é péssima. Televisão é televisão. As primeiras experiências, com exceção do Paulo Gil, foram ruins, pois o pessoal foi para fazer documentário de cinema e não documentário de televisão.

Qual era a periodicidade do Globo Shell?

Era todo mês. Eram documentários de assuntos brasileiros relevantes. Havia dois ou três pesquisadores por programa que faziam a pesquisa, o redator fazia o roteiro e o diretor filmava. Acontece que, no primeiro ano do programa, todos os grandes prêmios da crítica foram para o Globo Shell, como sendo um programa jornalístico. Isso despertou uma ciumeira danada no jornalismo da Globo. E o Armando Nogueira, que era o mais raivoso de todos, queria transformar o Globo Shell em programa de jornalismo da Globo. Assim, surgiu o Globo Repórter.

No Globo Shell, qual era a sua função?

Pesquisador e redator. Fiz várias pesquisas e roteiros. Além de fazer parte de um grupinho fechado que dava palpite nos temas e fazia um certo controle de qualidade.

Quando se tornou Globo Repórter a equipe continuou sendo mista, composta por cineastas e jornalistas?

Continuou, mas não havia mais cineastas que quisessem fazer. O Eduardo Coutinho, o Walter Lima e o Dib Luft foram as exceções. Mas não havia o interesse em ser funcionário da Globo.

Tem alguma matéria do Globo Repórter que você destacaria?

Destacaria logo o primeiro Globo Repórter que foi uma coisa muito engraçada. Eram quatro ou três temas dependendo do tamanho. Um dos temas do primeiro Globo Repórter foi baseado no fato dos índios pele vermelha terem feito uma revolta nos EUA. Nós ligamos para uma agência de notícias e eles tinham 42 minutos daquele assunto, estava perfeito. Eu sentei à máquina e fiz um texto com base em documentos históricos sobre a matança dos índios, mesclando a matança histórica com a situação daquele momento. Quando a fita chegou eram 42 minutos repetidos, quando nós limpamos tinha 7 minutos de material, mas o texto era, modéstia à parte, muito bom. E o Paulo Gil, que era o diretor do programa, disse que resolveria. Ele se trancou na moviola e ficou fazendo o programa. Quando foi ao ar, foi uma surpresa enorme, porque todas as cenas históricas de massacres de índios ele fez com cenas de massacre de índio do cinema americano. Eu só tive que acrescentar duas frases para explicar que o preconceito contra o índio era tão grande que, no cinema americano durante 40 anos, o índio era sempre o mau, o errado, sempre perdia e era massacrado. Esse programa fez um sucesso danado.

Existe alguma matéria que você destacaria?

A outra grande matéria que nós fizemos quebrou com a tradição de contar como tinha sido o ano. Nós dividimos todo material do ano em grandes temas: o progresso do homem, a violência do homem, o riso do homem. Ficou muito bom. Tudo que foi progresso do homem naquele ano nós juntamos em uma matéria só e assim por diante. E fizemos um negócio melhor ainda: uma cabeça para esses programas com personalidade muito reconhecidas do exterior e que davam uma respeitabilidade. Trouxemos por exemplo o Isaac Asimov, escritor americano de ficção científica, para falar sobre o progresso do homem. Pegamos um grande humorista americano para falar sobre o riso do homem.

Vocês enfrentaram problemas com censura na época do Globo Repórter?

A censura interna da Globo era muito forte. Como era uma concessão que podia ser cassada a qualquer momento, a gente não tinha a mesma coragem que no jornal. A única vez que a gente teve problema sério com a censura externa, eu estava na chefia, recorri e ganhei. Tinha uma cena de um parto natural filmado de frente, e foi dito que aquilo era imoral. Como eu jamais ia admitir que chamassem o nascimento de algo imoral eu protestei e ganhei. Era um programa lindo sobre a importância do parto natural versus cesariana. A repercussão foi enorme. Outro programa interessante foi sobre a Ferrovia do Aço [rede de malha ferroviária que interligaria Minas Gerais a Rio de Janeiro]. Na época o Amaral Neto tinha um programa na Globo, que era puxa-saco da ditadura. Ele fez um programa sobre essa ferrovia e nós fizemos um programa desmentindo tudo que ele havia dito. Dissemos que a ferrovia do aço era inoperante, gastava dinheiro e não mostrava resultado. Naquela época, não se podia dizer isso, pois o governo militar patrocinava o projeto. Esse programa deu problema. Outro que deu problema foi um programa sobre a Transamazônica. Nós mostramos a verdadeira Transamazônica, toda precária, e dissemos que ela só serviu para concentrar a miséria na beira da estrada. Mas, de um modo geral, a gente tinha muito cuidado.

Você pode nos falar um pouco sobre o Fantástico?

O Fantástico foi criado pelo José Bonifácio Sobrinho (Boni), que tinha muito carinho pelo programa. Ele queria um programa que seria uma revista, que passasse um olho nos assuntos da semana, tivesse um belo musical, número de teatro, e fosse bem variado. Nós começamos a fazer o programa assim. A Globo tinha um grupo de balé, composto quase completamente por bailarinos do Teatro Municipal, e uma orquestra maravilhosa. Então, fazíamos musicais da maior qualidade. Mas o miolo do programa sempre foi um problema, porque falar dos assuntos da semana que o jornalismo já tinha explorado muito não estava dando bom resultado. Nós começamos a fazer pautas para o Fantástico fora dos assuntos da semana e começou a melhorar, mas para isso precisávamos de gente e o Boni não liberava.

Quais eram essas pautas?

Qualquer coisa que gerasse muita atenção. Fizemos uma matéria sobre diabetes. Nunca havia sido feita uma pesquisa aprofundada sobre a doença no Brasil e descobriu-se que um quinto dos habitantes era diabético. Usamos casos extremos de diabetes, isso foi útil para alertar pessoas que possuíam a doença e não sabiam. A repercussão desse programa foi muito grande.

Você chegou a trabalhar em outros programas?

Não.

Quais eram os programas importantes da Globo nessa época?

É preciso destacar que os programas considerados importantes nessa época eram aqueles que davam IBOPE e geravam lucro, não sendo necessariamente os mais interessantes. A Globo fez uma lista enumerando os "Campeões de Audiência", expressão que foi repetida a exaustão nas vinhetas desses programas. E para agradar ao grande público, havia muita porcaria também, programas popularescos. Como também havia programas interessantíssimos que, por não serem tão populares, não tinham altos níveis de audiência.

Quando você deixou a Rede Globo?

Eu saí da Globo demitido pelo patrão. Estava na pauta do Globo Repórter um programa sobre a independência de Angola e o repórter encarregado de fazer a matéria, Luiz Edgard de Andrade, apesar de ser excelente, se deixou contaminar pela visão dos portugueses. Quando chegou o material, ele era uma louvação ao colonialismo, ao governo português, ao papel do branco na África e eu pensei: “Não vou colocar isso no ar”. Eu quis que o programa caísse, mas o Boni não permitiu, porque já havia exibido chamada sobre ele. Então, tive que me virar. Um amigo cineasta francês tinha bastante material filmado, inclusive do dia da derrota dos portugueses. O material era sensacional, eu comprei e nós fomos montá-lo na Globo. Não queria fazer algo às avessas do que havia feito o Edgard, então fiz algo pontual, contrapondo os benefícios e as mazelas que o governo português havia deixado em Angola. O programa ficou muito bom, o Boni achou formidável e sugeriu que, na chamada, mostrássemos apenas o lado positivo ao português, ao invés de seguir na linha equilibrada. Ele queria atrair o público para que todos os portugueses assistissem ao Globo Repórter e ficassem embasbacados. Só que, entre aqueles que viram a chamada e acreditaram na abordagem colonialista estava o chefe, Roberto Marinho. E o ex-ministro português, Marcelo Caetano, estava no Rio e foi convidado por Marinho para assistir ao programa em sua casa. No dia seguinte, abri o jornal e tinha uma carta de Caetano em duas colunas criticando duramente o Globo Repórter, e não havia uma linha nos defendendo. Eu escrevi, então, uma carta pessoal a Roberto Marinho e a enviei para sua casa. Ela fazia críticas duras. Obviamente, fui demitido no ato. Eu já sabia, mas não pude me segurar. Muitos me defenderam, mas Roberto não aceitou a minha ousadia de se dirigir a ele daquele jeito em sua própria casa. Depois, o programa acabou ganhando um prêmio de crítica por aquela reportagem.

Quando você ingressou na Fundação Roberto Marinho?

Depois desse episódio da minha demissão, fui para Natal. Jorge da Cunha Lima foi eleito reitor da faculdade e me convidou para coordenar uma TV Universitária. Um dia, ele me perguntou em que Roberto Marinho era doutor. Eu lhe disse que ele não era doutor em nada, e resolvemos dar um titulo Doutor Honoris-Causa em Direito. Roberto Marinho foi convidado a comparecer e atribuiu a mim a ideia de lhe dar o título, mas, de minha parte, só fiz o discurso do reitor. No coquetel que se seguiu à cerimônia, ele me perguntou quando iríamos trabalhar junto de novo. Eu lhe disse que só faltava ele me chamar. Pouco depois, Carlos Fernandes diretor de educação, da Fundação Roberto Marinho e meu amigo, perguntou se eu iria para São Paulo para trabalhar na Fundação. Ele pediu que fizesse o projeto de um programa de educação para vender ao Ministério da Educação. Fiz e foi aprovado e nós produzimos o 0 a 6 Primeiro Mundo, destinado aos pais que tinham filhos para educar. Com isso, fui me especializando nessa área.

Quando e como você ingressou na Central Globo de Comunicação (CGCom)?

Depois da morte de meu filho, eu quis ir embora de São Paulo. João Carlos Magaldi, secretário geral da Fundação e diretor da CGCom, me convidou para trabalhar com ele.

O que era a CGCom nessa época?

A CGCom fazia toda a comunicação da Globo e estava começando a se instalar e se estruturar. Magaldi era publicitário, inventou Roberto Carlos e a Jovem Guarda. Era um serviço que estava se estruturando para fazer a imagem da Globo, bem abalada depois do programa que exibiu o debate entre Lula [Luís Inácio Lula da Silva] e Fernando Collor, nas eleições de 1989. A reação popular foi: "O povo não é bobo, abaixo a Rede Globo". A emissora estava em primeiro lugar em audiência, mas em último em boa imagem.

Que cargos você ocupou na CGCom?

Fui assessor do diretor-geral em 1992 e diretor do Departamento de Projetos Especiais, a partir de 1993.

Como se deu o desenvolvimento do Criança Esperança?

Entrou na Globo um representante da UNICEF que questionou o papel social da empresa. Revidei as críticas deles, dizendo que suas ações no Brasil se restringiam a vender cartão de natal. Tive, então, a ideia de convidá-lo para criarmos um projeto juntos. Eu fiz, levei ao Magaldi e foi aprovado. O maior problema das crianças no Brasil era o alto índice de mortalidade e desnutrição. Levamos uns dois meses discutindo e decidimos partir de um fato que não dependia do governo para tentar melhorar a realidade da saúde infantil no Brasil. A ideia do soro caseiro surgiu porque era barato, qualquer um podia fazer e não dependia do governo. Esse foi o tema do primeiro Criança Esperança.

Como você avalia os resultados do Criança Esperança?

O resultado final foi muito bom. O Criança Esperança ajudou a reduzir a mortalidade infantil logo em 20%. Ano a ano, ela foi diminuindo. Descobrimos que o maior sucesso da receita do soro caseiro era entre as crianças. A campanha deslanchou e partimos para outras, como a em favor da vacinação.

Qual é a responsabilidade social de um grupo de mídia como as Organizações Globo?

Ninguém ajuda o pobre só para ajudar. Estamos sempre atrás de uma compensação. A responsabilidade social é algo relativamente novo na mídia, e, na Globo, nós desenvolvemos a ideia de "Lucro Social". As empresas que tem essa consciência fortalecem sua marca e obtém ganho mercadológico não só em dinheiro, mas também em prestígio. Acho fundamental que toda a empresa tenha essa preocupação social porque vai ser melhor para ela em todos os aspectos.

Quais foram as mudanças mais significativas pelas quais passou o jornalismo nos últimos anos?

Vejo uma mudança para pior. A qualidade do texto só piora, em todos os veículos. Absurdos de português surgem porque as pessoas não sabem o valor das palavras. Acham que técnica de redação e português são as mesmas coisas, então juntam essas matérias na faculdade. Mas você pode ser um literato muito bom e não escrever bem para jornal. Estamos perdendo, cada vez mais, em qualidade da palavra, usando muita gíria e incorporando tratamentos errados e estrangeirismos. Um povo não sobrevive sem o respeito a sua Língua. Além disso, o Brasil demorou a descobrir que um jornal é uma empresa como outra qualquer e, se não se comportar como tal, ela não terá vida longa.

Como você avalia a obrigatoriedade do diploma de jornalista para o exercício da profissão?

Acho muito importante estudar, seja para o que for. A minha grande mágoa é que temos curso para tudo, menos para aprender a se comportar como pai e mãe. Esse curso sim seria muito importante para formamos bons cidadãos. A educação familiar é a base de tudo e, cada vez, damos menos importância a ela. No caso do jornalismo, acredito quea formação é fundamental. Mas a mentalidade brasileira é ruim, não damos importância ao conhecimento e sim ao título. A faculdade de jornalismo é de "humanidades", então a pessoa, quando se forma, vai para a redação sabendo praticamente nada do trabalho. Então, que formação é essa que não capacita para o trabalho? Sou contra esse tipo de formação que é dada. Acho importante você saber humanidades, mas a faculdade também deve promover a prática jornalística, ensinando a questionar, pesquisar e desenvolver seu próprio conhecimento. Mesmo assim, hoje é melhor ter essa formação do que não ter nada.