LUIZ MENDES
ENTREVISTA

Realizada por Diogo Cunha, Filipe Macon, Michaell Grillo e Thayan Barreto

Revisado por Raquel Timponi e Maurício Duarte

Data: 06/2008

Gostaríamos de uma breve apresentação.

Meu nome é Luís Mendes. Meu pai se chamava Joaquim Mendes e minha mãe Maria Del Carmen Pineda Mendes. Meu pai era gaúcho do interior do Rio Grande; minha mãe era argentina, nascida na província de Corrientes. Comecei a carreira de jornalista em 1941, editando um jornal que falava em nome da juventude brasileira e se chamava Alerta. Meu primeiro contato com o microfone foi nesse mesmo ano, na cidade de Ijuí, do Rio Grande do Sul, e a emissora era de alto-falantes. Melhor, era chamado de serviço de alto-falantes Rádio Ijuí.

Você começou a trabalhar com rádio nessa emissora?

É, falando no microfone. Foi o primeiro contato com o microfone. Agora na Rádio mesmo, a primeira emissora que trabalhei foi ainda em 1941. No final desse mesmo ano entrei para a Rádio Missioneira, de Santo Ângelo, também no Rio Grande do Sul. Em 1942 eu fui para a Rádio Farroupilha, de Porto Alegre e, em 1944, no dia 2 de dezembro, eu vim para o Rio de Janeiro, onde inaugurei a Rádio Globo. Fui um dos fundadores da Rádio Globo.

No Rio Grande do Sul, como era o ambiente de radiodifusão? Havia muitas rádios naquela época?

Estavam surgindo muitas rádios naquele tempo em que eu comecei e eu ouvia rádios de várias capitais importantes do país e do exterior. Nas do país, eram três emissoras que existiam em Porto Alegre: a Rádio Farroupilha, a Rádio Difusora e Rádio Gaúcha. Nas emissoras de São Paulo, principalmente a Rádio Record e a Rádio Tupi, havia outras, mas essas é que tinham melhor transmissão. Do Rio de Janeiro tinha a Mayrink Veiga, a Rádio Nacional e Rádio Tupi também. De Belo Horizonte, eu ouvia muito a Rádio Inconfidência. Eu ouvia também as emissoras do Uruguai e da Argentina, além de uma lá do Paraguai, que não era da capital não, era de uma cidade chamada Vila Rica. Eu me lembro até do prefixo da rádio que era ZT14. Era esse o prefixo da rádio do Paraguai. Dizia-se “seta t 14”, porque “z” em Espanhol é “seta”, como se fosse escrito com “s”. Eu vejo, por exemplo, meus colegas da televisão. Eles chamam aquele clube da Argentina de “San Lorenzo”, e se diz “San Lorensso”, porque em espanhol o “z” tem som de “s”.

A censura era muito forte naquela época?

Eu não senti a censura na época em que comecei minha atividade. Embora nós vivêssemos sob regime ditatorial do Estado Novo, que era dirigido pelo presidente Getúlio Vargas, era muito benigna essa ditadura. Nunca ninguém entrou na redação do jornal para reclamar de um artiguete que o jornal fazia ou das críticas. Nós tínhamos essa liberdade. Éramos estudantes e, consequentemente, víamos mais os defeitos que as virtudes. E é uma das razões pelas quais eu considero que os estudantes têm uma missão muito importante, que é a de apontar erros, para que depois os adultos não tenham que pegar em armas para derrubar governos. Os estudantes abrem os horizontes para as modificações que devem ser feitas na sociedade. É preciso haver muitos estudantes então.

Hoje, você enxerga isso?

Eu penso até hoje assim. Eu não me conformo que os estudantes sejam tão passivos aqui no Brasil. Vejam, por exemplo, os estudantes da França. Não é para fazer baderna, é para protestar, como já se fez aqui. Eu me lembro que quando se quis a deposição do presidente Collor, os estudantes saíram as ruas de cara pintada exigindo isso, tiveram uma contribuição. Agora, nem para se defender. Por exemplo, eu vejo a profissão que vocês querem, que é a de Comunicação, muito ameaçada, porque os veículos de Comunicação, quer sejam os jornais, rádios ou emissoras de televisão, preferem usar esses ex-jogadores de futebol, alguns deles quase analfabetos, do que um menino que se forma, uma moça que se forma na profissão.

Por que isso?

Porque eles acham que o cara já tem meio caminho andado, ou seja, ele tem o nome de jogador de futebol. Aí eles confundem “alhos com bugalhos”, como dizem os portugueses. Os jogadores de futebol não têm nada que falar sobre futebol. Eles não sabem falar, em primeiro lugar. Eles não têm escola, não têm diploma.

Falta profissionalismo?

Falta apoio ao profissionalismo, isso é o que falta.

Não ia ter uma lei impedindo essa prática?

Já houve essa lei. Mas aí, um companheiro nosso, um cara bem educado, chamado Blota Júnior, resolveu fazer, paralelamente, a lei do jornalista, a lei do radialista. Essa lei do radialista foi tão mal feita que abriu uma janela para que esses “paraquedistas” penetrassem no sistema, e eles entraram. Hoje, tem mais ex-jogadores, ex-árbitros de futebol, que não têm a menor noção jornalística, fazendo funções que caberiam a vocês. Agora, vocês teriam que se unir e partir para as exigências. De que adianta estudar, se vocês não têm emprego? Vocês fazem um estágio, porque os veículos de comunicação lucram com isso, pois pagam ao estagiário uma quantia ínfima. E, quando termina o estágio, eles não renovam. Eles colocam outros estagiários. Já para as posições abertas, eles botam esse tipo de gente. Só porque foi um “fulaninho” quando jogou futebol, foi um “cicraninho” quando apitou futebol, e assim por diante. Vejo nisso aí uma inversão de valores. Tenho sempre minha posição como jornalista que sou. Não fui jornalista formado, como vocês se formarão, em faculdade. Eu fiz o curso da prática, que era por onde se entrava, porque não havia a faculdade de Comunicação.

Como se deu o interesse pela área de jornalismo?

Porque meu pai era jornalista, além de ser advogado. Já que eu não tinha muita vontade de ser advogado, porque tinha que estudar muito. E eu tinha muita afeição pelos estudos; eu gostava de ler. Eu digo mesmo: não completei o curso ginasial. Fiz o primeiro ano do ginásio e parei de estudar, porque a minha família teve que se mudar de um estado para outro. Saímos do Paraná para o Rio Grande do Sul, em 1938. Tranquei minha matrícula e nunca mais cursei nada, mas eu li muito. Eu digo que a leitura é uma grande fonte de cultura e faz você ser quase um autodidata. Eu, por exemplo, me considero um autodidata, porque eu não cursei coisa nenhuma.

Que tipo de leitura você fazia?

Todo tipo de leitura: lia romances, livros de comentários, jornais nem se fala, almanaques. Em mim, os almanaques despertaram essa volúpia que eu sempre tive por conhecimento da minha matéria. O Sérgio Cabral, uma vez, brincando comigo em um debate, disse que não sabia como eu conhecia tantos fatos do passado. Eu não era tão velho para viver o início do futebol brasileiro. Eu disse: “Olha, você também não é tão velho a ponto de viver na mesma época de Pedro Álvares Cabral, mas você também sabe que foi ele quem descobriu o Brasil”. O Sérgio Cabral sabe muito de escola de samba. Ele também não estava presente na fundação de nenhuma delas, mas ele sabe; ele me fez uma gozação eu devolvi a gozação dessa maneira.

Você, então, não começou na área esportiva?

Não, eu comecei fazendo matérias sobre todos os assuntos. Mas também cuidava de futebol, especialmente; não esporte, mas futebol. E, como eu jogava futebol, fui para Porto Alegre. Fiz o teste para locutor esportivo e passei.

Em que ano?

Foi em 1942, e estreei num jogo entre Grêmio e Internacional, o efervescente grenal, e o Internacional venceu por 3 a 0. Eu transmiti, mas sem que me dessem o nome. Pedi aos ouvintes que dissessem por telegrama, por telefone ou por carta se haviam gostado ou não daquele narrador e eu acho que fui aprovado, porque fui contratado logo depois.

Foi a sua primeira experiência ou você já tinha trabalhado em rádio antes?

Eu trabalhava em anúncio, anunciando disco. Tive uma escola de rádio, essa Rádio Missioneira de Santo Ângelo, que me deu muito subsídio para fazer as coisas relacionadas ao tema de rádio. Era uma casa bonita na cidade de Santo Ângelo, na principal avenida. Tinha um estúdio, um prato para colocar o disco desse lado. A discotecária deixava todos os discos que deveriam ser tocados naquele dia e o locutor ficava ali mexendo, ao mesmo tempo, nas carrapetas, como se fosse o operador e fazendo a função de speaker, como era chamado o locutor da época. Eu ficava ali. Se alguém viesse lá na frente, eu me levantava. Enquanto o disco estava tocando, ia atender. As pessoas, às vezes, queriam que tocasse o disco, em homenagem a alguém e isso dava uma renda muito grande. Cobrávamos 20 pratas por cada dedicatória, como era chamado. Então, eu fazia a função de varredor, locutor, operador e atendente.

Até entrar no campo esportivo, não é?

em Porto Alegre, porque abriu uma vaga para locutor esportivo na Rádio Farroupilha. Eu fui aproveitado na Rádio Farroupilha também como locutor de estúdio, porque eles sabiam que eu tinha feito isso. Quando eu cheguei no Rio de Janeiro, só trabalhei como locutor de estúdio, até o ano de 1947.

Você tinha algum exemplo, um ídolo na profissão?

Eu tinha vários ídolos, que admirava à distância. Por exemplo, os argentinos, dois eram muito bons. Em Porto Alegre não tinha ninguém. Acho que fui o primeiro locutor esportivo com alguma condição. Mas quando eu comecei, a gente estava aprendendo. Em São Paulo também havia dois muito bons: eram Pedro Luís e Aurélio Campos, além de outros, como Geraldo José de Almeida, que era da Rádio Record. E no Rio de Janeiro tinha o Oduvaldo Cozzi, na Rádio Mayrink Veiga, o Galeano Neto, na Rádio Nacional e Ari Barroso, na Rádio Tupi. Eu nunca imaginei que viesse depois duelar com eles aqui. Eu trouxe para a transmissão de futebol, o estilo argentino.

Como era o estilo argentino?

Por exemplo, o superlativo em espanhol. Aqui não se dizia “golaço”. Então eu criei o termo “golaço”. Eu achei que ia pegar e pegou mesmo. O som é bom para o público repetir: “Que golaço!”. Tanto que o nosso José Carlos Araújo tenta mudar. Ele diz “golão”. Nunca pegou, e olha que eu trouxe o golaço em 1947 e até hoje o “golaço” permanece, porque é muito melhor que “golão”. Isso aí não é nem superlativo, o superlativo seria “golíssimo”. O Jorge Cury, por exemplo, criou o superlativo do superlativo em espanhol, “golaço-aço-aço-aço”, um grande locutor também. Então no meu modo de ver, o meu estilo modificou muito, porque eu não usava terminologia inglesa. Eu fico triste agora que está voltando todo anglicismo, por causa dos computadores. Eu tirei isso do futebol.Tanto que os argentinos nos chamam até hoje de macaquitos. Não é que tenhamos muitos pretos, não é preconceito racial. Eles acham que somos macacos de imitação, porque nós aqui falávamos à moda inglesa.

Você teve alguma dificuldade nessa mudança, de as pessoas aceitarem essa linguagem?

Não. Tanto aceitaram bem, que mudou. De repente half-direito passou a ser lateral-direito.

Os outros jornalistas ficaram meio que obrigados a mudar...

É só pegar uma crônica de antigamente e ler, para você ver. Eles ou usavam um anglicismo ou o latim. Eu procurei não aportuguesar, mas abrasileirar. E eu acho que levei vantagem nisso, porque acabou mudando completamente a terminologia do futebol.

Essa era uma grande diferença da narração argentina e uruguaia para brasileira?

Sim, os nossos locutores gostavam muito desse pedantismo.

Na verdade, você não mudou o estilo carioca, mas o adaptou ao seu estilo.

É, porque a transmissão argentina e uruguaia era muito rápida.

Do Rio Grande do Sul também?

É. Quando comecei lá, fui uma espécie de pioneiro. O único locutor que tinha feito sucesso lá era o Oduvaldo Cozzi, que era daqui. Ele foi locutor da Rádio Nacional e foi para o Rio Grande do Sul fazer uma transmissão. Lá conheceu uma moça, se apaixonou por ela e ele então se mudou para lá. Foi trabalhar na Rádio Gaúcha, se casou com ela e depois voltou para cá. Mas nessa ida, ele passou brilhantemente por lá. Aí eu entrei com um estilo mais abrasileirado, mas com influências argentinas, e aqui também. Os argentinos tinham um estilo muito interessante, muito próprio.

Você acha que está faltando isso hoje?

Algumas pessoas têm estilo. José Carlos Araújo criou um estilo, cantando, com uma espécie de som, porque na época não existia isso. A transmissão era sequinha, o primeiro som, quem criou fui eu. De cinco em cinco minutos disparava o “cu-co”, aí os caras botavam na Rádio Globo e não queriam saber do jogo, só por causa do “cu-co”. Então foi um sucesso. A Rádio Globo, nesse tempo, não tinha a potência que tem hoje, era a mais fraca de todas. Aqui em Copacabana entrava no ar com dificuldade. Mas, ainda assim, muita gente a preferia, porque o placar era ouvido. Aí é que todo mundo começou a usar recursos de sonoplastia. Outra coisa que ninguém fazia era dar o número de camisa e eu descobri que aqui no Rio de Janeiro havia um pessoal que apostava nos goleadores. Cortavam uns papeizinhos e botavam assim: Flamengo, 10. Era uns cinco números de cada clube, os cinco atacantes: 7, 8, 9, 10, 11. E então, quem pegasse o número do atacante que fizesse o primeiro gol ganhava. Isso chamava bolo. Percebendo isso, comecei a dar o número das camisas. Ninguém fez isso antes, mas aí eu fiz e todo mundo começou a fazer, porque ninguém é mais “macaquito” do que o brasileiro. Isso é uma verdade indiscutível. Muita gente nem sabe que eu fui o primeiro a fazer isso. Eu fiz para caçar ouvinte. Os caras já estavam aqui há anos, conquistando os ouvintes e eu tinha que entrar para enfrentar os “cobrões”. E eu criei muita coisa. Coloquei os comentaristas intermediariamente, e não apenas no intervalo e no fim do jogo, como todos faziam. Ninguém fazia isso. Hoje todo mundo faz, porque o brasileiro tem essa coisa da mesmice. Repare: quem começou com as vinhetas foi a Rádio Globo. A Tupi faz até com o mesmo estilo; a Nacional também. Eles podiam até fazer, mas com outro ritmo. Mandavam os mesmos compositores fazerem. E isso é uma prova do que eu digo. Já hoje em dia, eu posso sair da Rádio Globo e ir para a Rádio Tupi e usar a mesma vinheta.

Que fato o motivou a sair de Porto Alegre e vir para o Rio de Janeiro?

Porque todo mundo me mandava embora de lá. Chegava um cara e dizia: Isso aqui está muito pequeno para você. Eu se fosse você ia para o Rio ou São Paulo, lá que você vai deslanchar”. Todos os meus amigos queriam me ver pelas costas, essa é a verdade. Me mandaram embora e eu vim.

Em termos de técnica, quais as principais diferenças entre as rádios de Porto Alegre e as do Rio de Janeiro?

Por incrível que pareça, a rádio melhor equipada em termos técnicos na época era a Rádio Farroupilha, de Porto Alegre. Inclusive, era a estação mais forte do país. Ela já tinha 25 KW quando aqui, a que tinha mais, tinha 20 KW. A Rádio Nacional no começo não era forte como foi depois. Depois com o dinheiro do governo, ela passou todo mundo para trás. Entrava em todo o país, enquanto as outras não entravam. Só à noite que as outras entravam.

Você sempre teve essa voz marcante?

Eu sempre tive essa voz, eu nunca mudei e nem impostei a minha voz.

Hoje, a voz é importante para a locução?

Já foi mais. Na televisão não há a necessidade, mas é bom que tenha uma boa voz. Por exemplo, William Bonner é um cara que tem um bom aspecto e uma voz bonita. Luis Jatobá, que foi uma das vozes mais bonitas do rádio e posteriormente apresentou noticiários na televisão, era um cara muito feio. Para o rádio ele era perfeito, mas você ver um cara feio na televisão, que não era nem simpático, fica desagradável. Na televisão, voz é importante, mas não é o mais importante. Mas, para o rádio, o mais importante é a voz. E agora estão usando umas meninas para ler. Só os grandes locutores é que liam o programa Globo no Ar, hoje, qualquer menina entra e faz o “Globo no Ar”, gagueja. Antigamente você tinha que ter primeiro, voz e agora, não exige muito isso.

Como foi a fundação da Rádio Globo?

O Galeano Neto tinha um sonho de fundar uma rádio, mas ele não tinha dinheiro para isso. Então ele convenceu o doutor Roberto Marinho a comprar a Rádio Transmissora e colocou logo o nome Rádio Globo e aí, O Globo encampou. Ele ficou dois anos e pouco, eu que o substituí como locutor esportivo.

Então, você já trabalhava na rádio?

Eu já estava na rádio.

Foi o seu primeiro emprego aqui no Rio?

Foi na Rádio Globo.

Trabalhou em outras?

Mais tarde, dei uma volta pela Rádio Tupi e Rádio Nacional. Na televisão eu trabalhei na TV Rio, na qual fui também fundador em 1955; também na TV Educativa, por 12 anos. Fui eu que introduzi o esporte lá. Trabalhei também na TV Globo. Inventei a Grande Revista Esportiva Facit. Fiquei lá um ano e dez meses na Rede Globo sem ter saído da TV Rio. Fui emprestado pela TV Rio à TV Globo. Eu acho que foi o único caso de empréstimo.

Você percebeu diferenças entre a Rádio Nacional e a Rádio Globo?

Quando eu fui para a Nacional ela já não era a grande estação de antes. E a Rádio Globo já era líder de audiência. Foi em 1977. Das três emissoras, a melhor equipada era, indiscutivelmente, a Rádio Globo. E até hoje eu acho que é a melhor do Estado.

Como foi a adaptação à cidade do Rio?

Não tive problema nenhum. Aqui no Rio de Janeiro ninguém deixa de se adaptar com facilidade. Claro, no começo eu tive um pouquinho de saudade dos amigos, de moças, namoradas, a família que ficou lá, essas coisas todas. Mas a minha família não morava em Porto Alegre, morava no interior. Eu quando queria ver meu pai e minha mãe, eu pegava um dia de folga e ía para o interior. Pegava um trem, um ônibus e ia para Ijuí. Dos meus pais eu não tinha essa necessidade de presença, porque lá eu já não tinha. Mas de amigos e namoradas, sim. Eu vim para o Rio e não conhecia ninguém. Então não foi fácil nesse início, mas não que eu sentisse a necessidade, desejo de voltar. Quando eu cheguei, disse: “Só saio daqui vitorioso”. Eu não tinha a menor vontade de fracassar ou de pensarem que eu havia fracassado.

A carreira falou mais alto?

Sim, e a convicção de que eu chegaria num ponto satisfatório também. Eu fui mantendo a minha convicção e subindo gradativamente e com um pouco de sorte. Sim, eu tive sorte de ser locutor esportivo. Fui escolhido por um comerciante que era dono da primeira loja de crediário que houve aqui, chamada A Exposição. Ele tinha um texto que dizia assim: “Basta ser um rapaz direito para ter crédito na Exposição”. Eu li esse texto e o dono disse: “É esse que eu quero que leia meu texto”. Porque eu falava, gaúcho que sou, todas as sílabas e o carioca não tem esse cuidado de falar sílaba por sílaba. O carioca não diz Vasco da Gama e sim, “Vasdagama”. Economiza sílabas. O crédito nunca saía crédito. Parecia credo. Eu ía para o estádio; Galeano transmitindo e eu do lado. Quando ele fazia assim para mim [gesto] eu entrava: “Essa transmissão é da Exposição. Basta ser um rapaz direito para ter crédito na Exposição”. Um dia estava lá esperando a chegada do Galeano. Era um dia primeiro de maio de 1945 e oEstádio de São Januário cheio, com os portões abertos. Entraram os operários, Getúlio Vargas estava na tribuna e nada do Galeano. Aí, o Francisco Marcos, que era o coordenador, ligou para a rádio e disse: “O Galeano não veio. Não vai poder haver transmissão”. Mandei dizer: “Eu transmito”. “Oh, o Luis Mendes está dizendo que transmite”. Aí o cara de lá disse: “Ele transmite então”.

Era um jogo importante?

Era São Paulo e Flamengo. Campeão do Rio e campeão de São Paulo. O Flamengo havia sido campeão de 1944 e o São Paulo também. Um baita jogo no melhor estádio da época: São Januário. Comecei a transmitir. Terminou o jogo, cheguei na rádio e lá tinha uma ordem para no dia seguinte eu comparecer ao Globo para falar com o doutor Roberto Marinho. Ou eu tinha feito uma bobagem muito grande ou fui muito bem. No dia seguinte, de manhã, eu fui lá. A sede O Globo funcionava ali no Largo da Carioca, um verdadeiro galpão de alvenaria. No fundo ficava a redação do Globo. Fui recebido e o Roberto me perguntou: “Qual é a sua idade?”. Disse que tinha 20 anos. Perguntou se eu estava estudando. Aí eu menti. Disse que estava. Aí ele disse: “Vou mandar esconder você na programação e você vai ser o nosso locutor esportivo”. Perguntei: “Como esconder”?“Você vai fazer a hora da ginástica, às cinco da manhã, com o professor Osvaldo Diniz Magalhães e com o pianista Rubens de Souza Paiva”. Eu abria a programação com a cabeça batendo na mesa de sono até às seis horas, quando eu tinha que entrar para ler textos. Quando eram sete horas e terminava o programa eu dava o encerramento e me mandavam para casa. Fiquei assim quase dois anos. Em 1947, o Galeano, que tinha o sonho de ter a própria emissora, fundou a emissora Continental. Ele e o Rubem Merado compraram. Aliás, o Rubem já era dono da Rádio Clube Fluminense e se associou com o Galeano. Galeano entrou com a organização e o Rubem, com o equipamento e fizeram uma estação cem por cento esportiva.

Então, eu entrei no lugar do Galeano. Sabe por que o Galeano não chegou naquele dia? Não foi por ser relapso. Ele morava em Petrópolis e, ao descer de carro, furou o pneu. Botou o estepe e furou outro pneu. Como ele não tinha outro estepe, não dava para chegar ao estádio. Então, ele ficou lá no alto da serra e eu tive a minha chance. É aquela coisa do Fluminense agora, que ficou desclassificado quando o placar estava 0 a 0; quando ficou 1 a 0, a decisão ia para os pênaltis, não estava classificado; quando estava 1 a 1 não estava classificado; quando estava 2 a 1 a favor não estava classificado; e no último minuto é que ele fez um gol e se classificou. Comigo foi a mesma coisa. Foi uma sorte!

Qual foi o primeiro clássico que você narrou no Rio?

Foi Botafogo e Flamengo. Num jogo que o Botafogo perdia por 3 a 1 e virou para 5 a 3.

Foi aí que você se tornou botafoguense?

Não. Eu já vim do sul botafoguense. Tinha um jogador que era amigo da nossa família que veio jogar no Botafogo e a gente passou a torcer para ele e, consequentemente, para o time dele.

Qual é o seu time no Sul?

Sou Grêmio.

Qual é a grande diferença do grenal para os clássicos do Rio de Janeiro?

Diferença não há. Só que lá tem mais rivalidade. Se não colocarem um isolamento, sai briga todo jogo na arquibancada. Eu me recordo de um escândalo que foi aquela partida que queimaram um banheiro. Aquilo foi uma resposta da torcida [gremista], porque a torcida do Internacional foi ao campo do Grêmio no primeiro grenal do ano e destruiu os banheiros. Souberam que o Grêmio iria revidar no jogo do Beira Rio. Então o Internacional teve uma atitude “inteligente”: “Vamos fechar os banheiros e colocar banheiros químicos”. A torcida do Grêmio queimou tudo e fez um incêndio nas arquibancadas. A verdade é que o grenal é muito diferente nesse aspecto.

É muito parecido com a Argentina...

É, só que na Argentina tem mais clubes. Tem o Independiente, de grande torcida; tem o Racing; tem o San Lorenzo, que já foi grande e tem o Vélez. O torcedor argentino torce com muita força para o clube dele, seja lá qual for o clube (em grande maioria River Plate e Boca Juniors), sendo o maior público o do Boca Juniors. O River está para o futebol argentino assim como o Fluminense está para o futebol carioca e o Boca é o Flamengo de lá.

No campo, a diferença do futebol carioca para o gaúcho, naquela época, era grande?

Era. Aqui tinha São Januário. O campo do Flamengo era isso mesmo que temos aí; o do Botafogo era menor, um campo pequeno que ficava onde hoje é o shopping [Rio Sul] e o do Fluminense era isso mesmo que tá aí, pequeno. Então não tinha um grande estádio, a não ser o do Vasco, que foi um estádio grande. O Vasco já recebeu 52 mil pessoas. Não encolheu, mas colocou cadeira em quase toda a extensão. Diminuiu a lotação. Quando tem cadeira, onde cabem três passa a caber apenas um torcedor. É o caso do Maracanã, que bateu recorde de público com 189 mil no jogo Brasil e Paraguai, e de interclubes bateu com um Fla-Flu, 177.020. Esses dois recordes jamais serão batidos porque não existe estádio para receber esse público. O Internacional deu 103 mil torcedores no Beira Rio, na inauguração, hoje, cabem 70 mil no máximo. No Grêmio já entraram 80 mil pessoas, hoje não cabe mais do que 55 mil. Tudo em função de atender a uma ordem da FIFA.

Acha correta a redução?

Eu acho correto. Dá conforto, segurança. Você precisava ver no campo do Vasco como era. Ele ficava cheio, aí você chegava, comprava uma entrada de arquibancada, entrava e não tinha lugar para você. Às vezes, você podia ficar junto ao alambrado. Eles [os torcedores] pegavam você e te levavam por cima da cabeça dos torcedores. Eu cansei de ver isso. Era impressionante! Você vê, descia nas mãos da torcida. Era um perigo tremendo. O cara que caísse de lá podia quebrar a coluna no cimento do estádio. Hoje não. Há muito mais segurança. Então havia muita diferença. Para responder à pergunta [anterior], entre os estádios do Sul, que eram pequenos e não davam mais do que 20 mil pessoas, isso quando dava. Eu acho até que aquilo era mentira. Eles ficavam com vergonha de dizer que dava 15, 16 mil.

O futebol jogado também era muito diferente? Mais “pegado”?

Não, não. O futebol gaúcho foi sempre futebol bem jogado. Depois é que apareceram uns técnicos lá, que começaram a criar o chamado “futebol coxo”. Principalmente técnicos que íam fazer curso na Alemanha e que tinham nomes alemães. Kroner era um deles. Eles então levaram um estilo alemão para dentro dos clubes. Os gaúchos se adaptaram bem.

Nos anos 1940 ainda não tinha esse estilo?

Não. Era o estilo brasileiro. E tinha jogador de muita habilidade. Todo jogador gaúcho que vinha para cá...

Tesourinha...

Tesourinha. Qualquer um que viesse, logo “pegava” a condição de titular. Sempre eram bons jogadores, desde antes de Tesourinha. Martin Silveira, esse me fez torcer pelo Botafogo. São Paulo estava cheio. Depois eles foram criando um estilo próprio. E hoje o futebol brasileiro está todo nesse estilo: pancada, velocidade, preparo físico. Na época em que eu transmitia futebol, me lembro que eu dizia assim: “Vai marcar!”. Quando era o Ademir, por exemplo, que era infalível na frente do gol, eu dizia: “Vai marcar! Chutou! É gol!”. Dizia é gol, assim, como quem diz: “É gol”. Não estava falando que ele ía marcar? “É gol”. Quando o cara era apenas bom, mas não era infalível, eu dizia “pode marcar” e quando o cara não era de marcar coisa nenhuma, eu não dizia absolutamente nada. “Vai chutar. Chutou!”.

Você já afirmou que cobriu as Copas de 1950 a 1998. É verdade?

Todas essas Copas, de 1950 até 1998. Em 2002, eu não fui ao Japão e eu até fiz uma comparação com aquela frase do Alcorão. Vieram chamar o profeta Maomé, porque tinha um problema para resolver na montanha, uma epidemia, e disseram: “O senhor não deve ir lá, porque é muito longe”. E ele disse: “Mas a montanha não pode vir a mim. Se a montanha não vem a Maomé, Maomé vai à montanha”.No caso do futebol, eu não podia ir ao Japão, porque o Japão estava vindo a mim. Eu não fui ao Japão porque o Japão veio. Japão e a Coréia. E eu vi mais jogos na Copa de 2002, do que havia visto em todas as outras. Pude ver toda a Copa. Sentei na frente de um aparelho de televisão e vi toda a Copa, porque eles colocavam horários que não eram os mesmos. Nunca tinha dois jogos simultâneos. Houve uma Copa, que eu ouço o cara dizer: “Eu nunca vi um juiz dar um pênalti e voltar atrás”. Pois eu vi! Vi na Copa de 1982. O Shaike entrou em campo e estava marcado o pênalti contra o time do Qatar. O Shaike entrou em campo e o técnico era o nosso Carlos Alberto Parreira. Então eu vi isso! Até isso eu vi! Isso agora que está fazendo sucesso de o cara bater pênalti sem ser direto, eu já tinha visto. Naquele jogo da Holanda, eu estava presente. Aquele em que o Creuff fez até tabelinha para fazer gol. Eu vi muita coisa. Eu vi um Mórmon. Dizem que é o cara mais verdadeiro que há, e até se casa virgem (para você ver a seriedade com que eles exercem a religião). Um jogador brasileiro e teve uma boa bola lá em Goiás. O Brasil ganhou de 7 a 0 do Paraguai e esse cara fez um gol, cabeceando a bola. A bola entrou pela rede, furou a rede do lado de fora e entrou no gol. Ficou lá dentro da rede. Aí, os jogadores do Paraguai reclamaram: “A bola não entrou, a bola passou por fora”. O bandeirinha pensou que entrou; todo mundo pensou que entrou. O juiz então foi perguntar a esse jogador que era Mórmon. É Mórmon, está vivo até hoje. E ele, ao invés de dizer que a bola não entrou, estava 6 a 0, perdeu a oportunidade de cometer um ato digno, sabe o que ele disse? Que a bola havia entrado. Foi o Tita, aquele que jogava no Flamengo, jogou no Vasco, Internacional, Grêmio.

Qual foi a Copa que mais o emocionou?

Foi a de 1958. Porque a gente tinha aquela lembrança ruim de perder Copa aqui. Depois perdemos para a Hungria também. E eu tinha uma mágoa muito grande, porque eu tinha aconselhado o Zezé Moreira, que era muito meu amigo: “Zezé, leva o Garrincha que você acaba com o time húngaro”. O Garrincha estava jogando há um ano, desde 1953, fazendo aquelas tremendas jogadas que ele fazia. Então o Zezé disse: “Não, eu vou levar o Maurinho, porque o Maurinho joga nas duas pontas”. Ele não sabia, mas o Garrincha também jogava, tanto que a estreia do Garrincha na seleção, em 1957, foi jogando na ponta esquerda. Por isso que ele tinha o número 11 na Copa de 1958. Por que ele queria levar um cara que jogasse nas duas pontas? Porque ele achava que o Julinho era o titular da ponta direita e o Rodrigo, da ponta esquerda. Ele queria um ponta que podia substituir tanto um quanto outro. Foi uma injustiça! Ter o Garrincha e levar o Maurinho? Era uma brincadeira...

Na Copa de 1950, maior “trauma” do futebol brasileiro, qual foi o papel da imprensa?

Foi feita uma cobertura dentro do que se tinha de possível na época. Nós da Rádio Globo fizemos um esquema de ter um microfone em cada uma das cinco cidades, onde seriam realizados os jogos. Aí, o que nós fizemos? Eu me lembro que tinha umas ideias. Eu ía lá no Globo, propunha e se a ideia fosse boa, eles aprovavam. O Roberto [Marinho] sempre usou o seu prestigio, não só para nós. Transmissor da Hora do Brasil, o governo brasileiro comprou para mandar o som do Rio de Janeiro, do Departamento de Imprensa e Propaganda, para todas as emissoras do Brasil. A entrada era das 7h às 8h da noite, o que hoje é a Voz do Brasil. Então, ele pediu e o governo, claro, com a força do Globo, emprestou aquele transmissor. Nós já tínhamos garantia de que o nosso som, partindo do Maracanã, seria ouvido em qualquer estado. Em Porto Alegre, Curitiba, Belo Horizonte, São Paulo e Recife, as cidades onde seriam realizados os jogos. Os únicos lugares que não precisavam desse transmissor eram São Paulo e Belo Horizonte, que já tinham ligação telefônica. Mas nem foi preciso usar ligação telefônica, porque o transmissor abrangia tudo.

A Rádio Globo tinha um prestígio tal que conseguiu passar todas as emissoras?

Não era a Rádio Globo, era a Organização Globo, o jornal.

Já em 1950, O Globo tinha esse prestígio?

Já sim. Tinha desbancado A Noite, que era o jornal do governo. Os Diários Associados nem chegavam ali. Tinham muitos jornais: o Correio da Manhã - jornais de tradição - o Diário de Notícias, o Diário Carioca, o Vanguarda, a Folha Carioca, A Noite, O Jornal, o Diário da Noite.

A imprensa também influenciou na vinda da Copa para o Brasil? A Europa estava destruída após a Guerra...

Por isso é que trouxe a Copa.

A Argentina estava brigando também...

A Argentina não podia ganhar. Ela tinha mais recursos que nós. Os estádios da Argentina, na época da Copa de 1950, eram esses mesmos que estão lá. Claro que para a Copa de 1978 eles fizeram fora de Buenos Aires. Mas em Buenos Aires, eles tinham estádios pequenos, do Independiente e do Racing. O San Lorenzo tinha um estádio para 70 mil pessoas lá no Velho Gasometro. Esse que fizeram agora é o novo [Gasometro].Eles tinham recursos, só que brigaram com a FIFA e não compareceram ao campeonato de 1938 e já estavam certos de não comparecerem ao de 1950. Eles iam nos ganhar, porque eles tinham um futebol muito melhor que o nosso nessa época.

Dizem que a Argentina seria a grande favorita nas Copas de 1942 e 1946.

Era. A grande vantagem que o Brasil teve para ultrapassar os argentinos foi, primeiramente, trazer jogadores argentinos e uruguaios. Aqui chamaram uma época de “platinismo”. Todos os clubes tinham jogadores argentinos e uruguaios, a ponto de se ter feito uma lei que dizia que não podia ter mais que dois.

Isso agora está voltando, existem muitos clubes aqui...

Agora estão permitindo três. Então, isso aí deu outro estilo para o futebol brasileiro. Outra coisa que eles não têm e nós temos. E isso é vantagem para nós: nós temos negros nos nossos times. Para mim é a raça que tem mais condições estruturais, do corpo, o jogador negro. Em qualquer esporte, menos nos esportes que não possuem fácil acesso, como, por exemplo, o tênis. No atletismo o negro ganha, é sempre o melhor; boxe, eles são melhores; basquetebol, eles são melhores; são os melhores no futebol, pode reparar. O maior jogador da primeira época do futebol brasileiro foi Friedenreich, que era filho de uma negra com um alemão. Ele era “sarará”; tinha o cabelo aloirado, como aquele Biro-biro, que jogou no Corinthians, e os olhos bem verdinhos (eu o conheci). O segundo grande ídolo foi Leônidas da Silva e, simultaneamente, Domingos da Guia. Vejam vocês que, até agora, só citei negros. Depois, Zizinho, também negro; Pelé. O próprio Garrincha, que branco não era, mas também negro não era. Era, como dizem hoje, afrodescendente. O pessoal tem medo de falar a palavra “negro”. Eu não tenho medo. Assim como eu digo “branco” eu falo “negro”. Não estou ofendendo ninguém. Não estou mentindo, eu não tenho medo. Eu digo sempre: a raça negra é aquela melhor talhada para jogar futebol e para qualquer esporte. Eles são bons no esporte, essa é que é a verdade. Essa é a nossa vantagem hoje sobre a Argentina; eles não têm negros. Eles têm índios. Naquela região de Mendoza, Córdoba ainda tem muito índio: o norte da Argentina, Tucumán, e pelos arredores. Então eles fazem uma mescla nesse sentido, mas é muito pouco. O Maradona, tá na cara que tem sangue indígena. Ele parece um índio.

O Che Guevara também...

O Che Guevara ainda era um cara mais branco. Quando ele veio aqui, eu o conheci bem de pertinho, como eu estou vendo vocês. Ele era uma pessoa que tinha uma cara de um sujeito que não era deste mundo. Estava sempre com aquele olhar longe. Garanto a vocês que se ele entrasse aqui, ele nem via que tinha este vaso, por exemplo. Ele tinha uma abrangência no olhar que talvez fosse a abrangência de seu pensamento, porque quando viu que estava vitorioso em Cuba, resolveu ser vitorioso na Bolívia. Então ele aí escolheu a morte.

Na Copa de 1950, houve de fato esse “já ganhou” na imprensa?

Claro. Chegou a sair jornal com o título de campeão, fotografia do time. O Obdúlio Varela (capitão do Uruguai) pegou aqueles jornais todos e colou no banheiro.

No rádio também teve esse clima?

Não, no rádio não. Por exemplo, na nossa rádio, eu não deixei acontecer isso. Eu me lembro que, quando o presidente em exercício da CBD reuniu a imprensa para perguntar se achávamos boa a tabela escolhida pelo técnico (o primeiro jogo com a Suécia, o segundo com a Espanha e o terceiro com o Uruguai), eu perguntei: “Por que o terceiro jogo é com o Uruguai?”. Ele disse: “Porque o Flávio (Costa), técnico da seleção, acha que o Uruguai é mais fácil”. Eu aí contestei: “O Brasil, no mês passado, jogou três partidas com o Uruguai e quais foram os resultados?”. Eu vi que ele não se lembrava dos resultados. Então eu disse a ele: “Nós perdemos em São Paulo, por 4 a 3, ganhamos no Rio duas, uma por 1 a 0 e outra por 3 a 2. O que isso mostra? Superioridade imensa? Eu acho que não. Aí começa o quadrangular. O Uruguai joga com a Espanha e empata de 2 a 2; nós jogamos com a Suécia e ganhamos de 7 a 1. Então o Uruguai joga com a Suécia e ganha de 3 a 2; nós jogamos com a Espanha e ganhamos de lavada por 6 a 1 e aí vamos para final. Quando vamos para a final, quem me ouviu dizer isso, chegou a dizer que era gauchada minha, que gaúcho e uruguaio têm muita afinidade. Eu disse: “Não é gauchada não, é porque eu conheço. Esses caras são muito mais corajosos que qualquer povo, porque eles viveram sempre de forma pequena”. Tem um episódio na história deles que se chama “33 orientales”. Enquanto o Artigas reunia as forças para enfrentar o exército espanhol para proclamar a independência do Uruguai, 33 sujeitos que estavam num forte, no centro do país, entraram no caminho desse exército. Artigas mandou dizer a eles que iriam morrer, se fosse preciso, para manter o exército espanhol ocupado. E eles caminhavam com forças para vencer esse exército. Eles morreram, os 33, mas mantiveram o combate por horas e mais horas, dando tempo do Artigas chegar. Esse é um povo que não se pode deixar de aplaudir, de admirar e de considerar, como eu considerei. Um povo muito mais furioso que nós. Nós somos muito passivos. As pessoas fazem o que querem com a gente. Lá não se faz o que quer não. São 2 milhões e 800 mil habitantes, desde que eu me conheço por gente. Um milhão e meio na capital e o restante no interior, mas assim mesmo eles mantêm suas tradições. Então eu pedi para inverter, porque eu os conhecia de vizinhança. Até de jogar futebol, de colégio nosso com colégio deles. Eles batiam na gente. Cada “porrada” que você precisava ver. Eles jogam futebol misturado com rugby, o jogo deles é parecido com rugby. Nesse jogo nós empatamos em 3 a 3 com eles. E olha que eles estavam perdendo por 3 a 1. Imagina o que eles fizeram para empatar aquele jogo, aqui dentro do Brasil! Não tem outro povo assim.

Mais que os argentinos?

Muito mais que os argentinos! O argentino joga mais futebol do que eles, mas a Argentina perdeu muitas vezes para eles: no campeonato mundial de 1930, na decisão das Olimpíadas de 1928. Os argentinos foram para a final duas vezes com eles. Tinham mais time, mas não ganharam. O mesmo caso aconteceu com o Brasil. Nós tínhamos mais time, mas não ganhamos, porque eles têm outra mentalidade.

Como foi o Maracanazzo? O Maracanã todo em silêncio, lotado, com 200 mil pessoas presentes. Como foi sua narração do gol?

Eu narrei o primeiro gol. O Gigghia pegou a bola, driblou duas vezes o Bigode, foi a linha de fundo, deu a bola para trás. O Schiaffino emendou e fez o gol. Aí [no segundo gol] a jogada se repetiu igualzinha. Só que o Gigghia ia fazer a mesma jogada e o Barbosa pressentiu que isso iria acontecer. Ele deu um passinho para a direita e abriu um vão entre a perna esquerda dele e o poste. O Gigghia, que tinha levantado o pé para centrar a bola, fez o reflexo e “deu de bico”. Pode reparar que ele não chuta de peito de pé, ele chuta de bico, um chute reto. E o outro não tem tempo para voltar, porque a lei da gravidade não permite. Se ele tivesse tido um reflexo de colocar o pé, provavelmente teria impedido o gol, mas não deu. Então eu vinha narrando: “Gigghia dribla Bigode, chega perto da linha de fundo, vai cruzar. Atenção! chutou. É “goool!”. Então dei um gol normal, mas aí me lembrei: “Estamos perdendo a Copa do Mundo”, porque faltava pouco para terminar o jogo. Então retruquei: “Gol do Uruguai?”. Perguntei para mim mesmo. E respondi: “Gol do Uruguai, gol do Uruguai senhores, gol do Uruguai”. Eu fiz nove inflexões diferentes, aí comecei a sentir que o estádio todo estava sofrendo um colapso, um silêncio. A gente ouvia um silêncio que dava para se ouvir os soluços de gente chorando. E o time tentando por todos os meios, mas sabe quando o time...

O time sentiu...

Sentiu que estava perdendo. Bastava fazer um gol que voltava o título, mas não havia maneira. O Ademir que era um jogador que não errava. Chegou na frente do gol e chutou por cima da trave e depois deu uma cabeçada no chão. A bola bateu no chão e subiu por cima do travessão. Então, o time tentou tudo e não conseguiu. Depois do jogo, passados mais de um mês, nas ruas do Rio só se ouvia as buzinas dos automóveis. Não se ouvia ninguém conversando, todo mundo andava em silêncio. Foi uma tristeza só. E dizem que isso aconteceu em todo o Brasil, principalmente no Rio Grande do Sul. Os gaúchos ficaram de vítima ali, ficaram de recheio de sanduíche.

Será que os paulistas ficaram tão tristes assim?

Ficaram. Eles tinham jogadores na seleção.

O Friaça, que fez o gol, não era titular.

O Flávio cometeu muitos erros. Quando perdeu o Tesourinha, que era um ponta extraordinário, tinha que ter convocado o Cláudio, do São Paulo, que era um ponta maravilhoso que jogava pelo Corinthians. Alguém perguntou isso para ele, por que não convocava o Cláudio e ele disse: “Não, com o que eu tenho eu resolvo”. Então ele tentou adaptar um ponta. O Friaça era centroavante, não era ponta. O técnico colocou o Friaça na ponta. Primeiro colocou o Alfredo II no jogo com a Suíça, que também não era ponta. Ele até fez um gol, mas não jogou nada. Só fez aquele gol, que foi o gol de empate.

No Pacaembu, o resultado foi 2 a 2...

No Pacaembu, o Brasil estava perdendo por 2 a 1. Chovia muito e, atrás do gol, estava um repórter nosso com uma bota. Eu estava na cabine, aquela que fica do lado direito. Eu me lembro que tinha reparado aquele sujeito com a bota e o fotógrafo que vinha até aqui. Como chovia, ele estava com a razão de estar com a bota. Veio uma bola que ia sair pela linha de fundo e saiu. Mas ele estava com o pé em cima da linha, tocou, sem querer na bola, e ela foi para o Ademir. O Ademir cruzou para o outro lado e o Alfredo II fez o segundo gol. Assim foi o gol de empate. Senão o nosso time seria eliminado ali. Talvez fosse melhor, porque nós não iríamos sofrer tanto. Me recordo que o técnico Flávio botou o Friaça, experimentou o Maneca, que era meia no Vasco. Fez todas as besteiras possíveis. Deixou Nilton Santos de fora, que já era campeão em 1948 (carioca), o maior lateral-esquerdo do Brasil. Nilton Santos era o reserva do reserva. Então o Bigode era o titular e o reserva era o Noronha, que era dez vezes melhor que o Bigode. O reserva do Noronha era o Nilton Santos, também infinitamente melhor do que o Noronha. Era quem tinha que jogar, mas cometia o crime de jogar no Botafogo, do qual o Flávio Costa tinha ódio.

Ele nunca treinou o Botafogo?

Nunca, ele tinha ódio do Botafogo, pois o Botafogo ganhava muito dele.

Em 1948, ele era técnico do Vasco, quando perdeu a final para o Botafogo?

Sim, era técnico do Vasco.

Nilton Santos disse que o pessoal tinha medo do Flávio Costa, que era durão.

É. Além dessa besteira da ponta direita, ele tinha um centroavante. Ele podia colocar o Ademir para jogar na ponta direita, e também esse centroavante, que acabava com os treinos. Era um “negrinho” que jogava no Internacional e depois jogou no Flamengo, chamado Adãozinho. Era um azougue, que jogava uma bola muito redonda. Ele cometeu tanta besteira, que a gente acabou sendo vice. No futebol você não pode pecar. Se você pecar, você perde.

Com essa derrota o jornalismo esportivo no Brasil deixou de evoluir?

Não, deixar de evoluir, não.

Teria sido diferente se tivesse vencido?

Provavelmente sim, porque a euforia ia fazer com que a imprensa tivesse mais aceitação popular. O povo ia gostar mais de ler jornais, porque os jornais perderam muito. Uma das forças do jornalismo é a parte esportiva, tanto que eles têm cadernos de esportes. Se, por exemplo, em 1950 o Brasil houvesse ganhado, eles iam vender jornal por todo o ano. Porque naquela época não tinha televisão.

Poucas pessoas tinham televisão?

Em 1950 e 1951 foram vendidos pouco mais de mil aparelhos aqui no Rio de Janeiro, uma cidade que já tinha dois milhões e meio de habitantes.

Você falou que existia o clima de “já ganhou” aqui no Brasil. Existia o mesmo clima na imprensa internacional na Copa de 1950?

Todo mundo tinha o Brasil como favorito. Só os uruguaios é que não. A imprensa uruguaia achava que eles podiam nos enfrentar.

Ainda em 1950, quando surgiu a televisão, houve prejuízo para o rádio esportivo?

Não. No começo, não. Hoje é que a televisão tem a preferência. O rádio tem seu público. Por exemplo, em certos lugares, onde a televisão não chega, não tem problema; nas praias, as pessoas não querem na hora do jogo deixar a beleza da praia, a força do sol, o encanto das meninas de pernas de fora e de biquínis. Os homens não saem. Ficam ali mesmo e ouvem o rádio; os táxis também e as pessoas que estão viajando. É claro que diminuiu muito o potencial de audiência do rádio. Há alguns telespectadores que preferem ligar o rádio, mas esse é um porcentual pequeno.

Mas no começo, em 1950, o rádio ainda continuou com força...

Continuou. Até os anos 1960 o rádio tinha mais audiência que a televisão. E a televisão também não transmitia todos os jogos. Já hoje é a televisão que manobra o futebol.

E quanto ao horário?

Você acha que se os clubes decidissem, iriam escolher os jogos às 22h e 10 min da noite? Agora, por exemplo, eles vão colocar três jogos, no mesmo horário, às 21h e 50.

Depois de tanto tempo trabalhando no rádio, quais foram as principais diferenças que você encontrou nesse novo meio: a televisão? Você se adaptou com facilidade?

Eu me adaptei. Primeiro, os americanos vieram aqui, nos botaram numa escola de televisão para os brasileiros. Eles queriam vender seu equipamento para o Brasil adotar. E o Brasil acabou adotando o sistema alemão. E eles mandaram os equipamentos para a Escola Nacional de Engenharia, ali na Urca, na Praia Vermelha. Eles montaram, para a gente aprender. Eu me lembro de ter ido lá fazer o cursinho, porque eu sabia que o equipamento iria ser utilizado na TV Rio. Já estava tudo acertado e a TV Rio já estava trazendo o equipamento.

Eu não senti muita diferença na televisão. O Cozzi, quando foi da Rádio Mayrink Veiga para a TV Tupi, iniciava as transmissões de rádio assim: “Senhoras e Senhores, muito boa noite”. Mas ele entrava na televisão do mesmo jeito. Eu digo: “Se uma pessoa entrar na minha casa falando assim, eu desligo na hora”. Então, eu sempre dizia:“Minha gente, muito boa noite”. No rádio a locução da frase: “Miinha Gente, muuito boa noite”, possui diferença até na tonalidade e ênfase da voz. No rádio, é preciso projetar a voz, que é a única forma de comunicação com o ouvinte. E na televisão não é preciso projetar a voz, é preciso falar coloquialmente. Então, eu me adaptei rapidamente à televisão e também na forma de fazer transmissão de futebol. Eu não dizia assim: “Cabeceou fulano”. Eu dizia: “Afastou bem fulano e a bola cai, olha só, tá na linha média do Fluminense, que bonita jogada fez o fulano, que passe perfeito, olha só vai dar na intermediária do time tal, no jogador beltrano”. O jogador nem sempre é identificado, porque na televisão, como na época a imagem era transmitida em preto-e-branco, era uma dificuldade; quando tinha algum sol, o jogador parecia um palito de fósforo correndo em campo. Olhadas de cima, as cabeças eram todas iguais. Às vezes, não se via nem uniforme. Então era necessário dizer quem tinha a bola, onde estava, porque também não havia câmeras como hoje, em que se abre bem a imagem e se vê onde a bola está. Você tinha que dizer o esquema de jogo do time que estava jogando. Antigamente não se via isso. Hoje se vê, hoje eu olho aqui de casa e digo se o time está jogando no esquema tático 4-4-2 ou no 3-5-2. Mas havia uma diferença. Quando o jogo era bonito, eu não gritava: “Goooool”. Nada disso. Isso não precisa na televisão. Isso é para o rádio. E todos os locutores repetem isso.

Hoje, está mais parecido com o rádio.

É, eles estão fazendo rádio fotografado. Eles falam, falam, e não seguem o conselho dos americanos. Os americanos aconselhavam que nunca se divorciasse a imagem do som. Hoje o Galvão Bueno está falando assim: “Não porque...”, explicando outras coisas e o jogo acontecendo simultaneamente. Então a imagem está completamente divorciada do som. Hoje a transmissão pela televisão está como uma colcha de retalhos, penso eu. Para que o grito: “É gooooool”? Todos estão vendo! É por isso que eu criei esse: “É gol”. Eu dizia: “Chutou”. “Pode chutar para o gol, chutou, é gol! Bonito gol! Que beleza de chute de perna direita que deu fulano”. Essa é uma forma de descrever, que era usada pelo Raul Tabajara, em São Paulo, na Record, que para mim foi um dos que melhor se adaptou à televisão.

Isso na TV, já no rádio...

No rádio não, no rádio é aquela coisa da narração descritiva.

Como na TV Rio.

É, na TV Rio. Aliás, eu ganhei muitos prêmios. Eu acho que eu fazia direitinho, porque eu ganhei quase todos os prêmios que existiam, de uma série de revistas que surgiram.

E a Facit, que foi criada na televisão. Como é que surgiu essa ideia?

Sabe que aqui no Brasil, a gente tem uma frase que é espetacular, que é: “Nada se cria, tudo se copia”. Estava havendo uma eleição aqui no Brasil e lá na TV Rio convocaram Oliveira Bastos, que era o cronista político da Tribuna da Imprensa, Murilo Melo Filho, que era da própria TV Rio e da Manchete, Villas-Boas Correia, do Correio da Manhã e o Castelinho, do Jornal do Brasil. Eles estavam discutindo sobre as eleições. Dentro da sala do Walter Clark estavam sete ou oito sujeitos, todo mundo. Eu comecei a pensar: “E se a gente fizesse isso com o futebol? Reunisse umas pessoas famosas para discutir sobre os jogos? A gente podia ter isso toda semana. Essas pessoas só vêm de quatro em quatro anos, quando tem eleição”. Aí eu virei para o Walter e, quando entrou o intervalo, falei: “Walter, eu acho que a gente podia fazer isso aí no esporte, no futebol. É só colocar uns caras bons e tal”. O Walter olhou para mim e não me deu bola. Ficou quieto. Depois do intervalo, ele virou para mim (ele me chamava de gaúcho). “Gaúcho, você sabe que achou um veio de ouro!”. Ele deve ter ficado pensando para ver se era interessante mesmo. Então sentiu que era. “Terminando esse programa aí, nós vamos sentar aqui e vamos escolher os caras para fazer esse programa. O patrocínio eu já tenho”. O Scassa, que foi um dos escolhidos, tinha um programa na Tupi, chamado Ídolo de todos os tempos. E a Tupi não queria mais fazer o programa, porque já não tinha ídolos. O programa já tinha cinco ou seis anos, sem mais ídolos para fazer. E ele foi lá na TV Rio oferecer o programa. O patrocínio era da Facit, do vice-presidente do Flamengo. Ele era o diretor sul-americano do grupo Facit: máquinas de escrever e de calcular, com fábrica em Juiz de Fora. Com o patrocínio, faltava escolher os nomes. “Vamos escolher quem?”, perguntei. Seu Walter disse: “Eu já tenho aqui um nome muito bom: Nelson Rodrigues”. Eu pensei. “Tá louco, Nelson Rodrigues não falava, era gago, só escrevia bem”. Então eu disse: “Seu Walter, o Nelson Rodrigues é gago”.O Walter disse que o cara de maior saliência na televisão, participando de debates, que era diretor do Detran, era gago de gaguejar duas vezes na mesma palavra, e era a maior atração na televisão. Ele disse: “Ele é gago, porque o Nelson Rodrigues não vai ser bom; vai defender o Fluminense.” Aí ele falou assim: “Outro bom é o Armando Nogueira”, que também é muito gago, até hoje é gago. Eu falei: “Você também quer fazer um programa de gagueira?”. Ele disse: “Não, mas esse é muito bom...”. Aí tinha que ter um para defender o Botafogo. Embora o Armando fosse Botafogo e eu também, eu não ia defender. Nunca fiz, meu trabalho é equilibrado. Eu nunca fui clubista de vestir camisa no trabalho. O Armando também é assim. “Então vamos escolher o João Saldanha”, que tinha sido técnico do Botafogo e estava trabalhando como comentarista, sem nenhuma evidência, na Rádio Guanabara. Aí ele disse: “Você é louco, vai botar o João Saldanha. Já dizem que eu sou vermelinho” [porque o Saldanha era comunista]. O Walter era acusado de ser, mas não era. Ele era de esquerda, mas não era comunista. Aí escolhemos esses, além do Vitorino. O Vitorino trabalhava na Facit também, era o vascaíno. Arranjamos mais uma pessoa para apresentar as notícias internacionais, que era da Francepress. E apareceu aquele que chamavam de “marinheiro sueco”, que falava sobre futebol espanhol. Então fizemos o programa e lançamos no ar das 22h30 às 00h.

Em qual dia?

Domingo. A gente fazia o boxe, de 8h às 10h e, depois desse programa, eu fazia os dois. Os dois programas de maior audiência aconteciam na noite de domingo. Foi assim que surgiu a Facit. Foi um programa que marcou época, muito interessante. O Nelson Rodrigues às vezes dormia. Então, em um dia ele estava dormindo, o Scassa falou: “Câmera, pega este moço dormindo!”. A câmera pegou, ele percebeu, acordou. E o Scassa: “Tá vendo, tá dormindo aí”. Ele disse: “Scassa, até dormindo eu sou mais inteligente que você”.

Como você avalia as mesas-redondas de hoje?

Eu acho que elas são todas iguais. Parece que são aqueles sujeitos que ficam sentados na delegacia, para receber a ficha criminal. Todos eles ficam em linha. Na Facit, nós tínhamos um cuidado, tínhamos cenário direitinho. Era outra coisa e numa época em que a gente não tinha muito recurso.

Hoje, fica todo mundo em cima do muro.

E dizem certas coisas que... Outro dia eu vi aquele menino, que eu gosto muito e acho bom. O Escobar. No programa, perguntaram se o Grêmio tinha condições de ser campeão brasileiro. Ele disse: “Eu acho que não, o Grêmio não fez nada até agora no Campeonato Brasileiro. Ganhou um jogo em casa, do Náutico, mas antes empatou em com o Flamengo”. Aliás, ele não deve ter visto o jogo, porque aquele jogo foi uma injustiça. Era para o Grêmio ter ganhado de três, quatro, mas o goleiro pegou tudo, contra o São Paulo. Então disse outra pessoa: “E ele não ganhou do São Paulo no Morumbi, mas contra o time misto do São Paulo”. Mentira, foi o time inteiro, menos o Adriano, que foi o único que não jogou. Então, os apresentadores não podem dizer isso, e eles dizem muita besteira.

A que se deve a escassez de programas de mesa-redonda nas TVs abertas, principalmente no Rio de Janeiro?

Eu vou dizer o porquê. O Boni tinha pavor desse tipo de programa e não gostava de mim, porque eu fazia esse tipo de programa lá. Eu até coloquei isso no meu livro. “O único sujeito que não gosta de mim...”. Não gostava de mim, porque ele sabia que eu botava o Walter Clark, mandava mais que ele e gostava de futebol. Eu é que colocava no ar, no domingo à noite, os dois programas: um de boxe e o outro de futebol. E ele queria fazer outra coisa. Outro dia até encontrei com ele. Ele estendeu a mão para mim e disse: “Como vai Luiz Mendes?”. Eu respondi: “Bem, e você”. Mas ele fez de tudo para me incomodar, para me chatear. Me criava problemas em cima de problemas.

Foi difícil mediar a mesa-redonda Facit?

Não, a gente tinha uma equipe. Por exemplo, eu olhava para o Augusto, que era o produtor. Quando o assunto estava ficando chato, ele já sabia que estava olhando para ele. E fazia: “Corta esse assunto”. Passava para outro assunto. Como tinha uma pauta, então ficava fácil. Eu, de vez em quando, jogava uma lenhazinha na fogueira, que era para eles discutirem.

Eram figuras de um nível de inteligência alto.

Por exemplo, o Nelson Rodrigues, no dia em que houve um pênalti contra o Fluminense, eu sabia que ele ia dizer que não houve pênalti. Então mandei separar o teipe. Era um pênalti do Oliveira, que deu uma tesoura voadora, pegou assim pela cintura o Jairzinho, e o juiz deu pênalti. E o Botafogo ganhou por 1 a 0 com esse pênalti. Quando chegou à noite no programa, o Nelson: “O árbitro errou, deu um pênalti que não foi”. Eu digo: “Nelson, é capaz de o videoteipe estar aí, vamos ver no replay se foi ou não foi”. “Se é possível, pode botar”. Eu disse: “Vamos botar sim”. Então colocava e todo mundo disse que foi pênalti. Ele contestou: “O videoteipe provou que foi pênalti?”. Todos contestaram: “Provou, claro que provou”. “Então o vídeoteipe é burro, não foi pênalti”, ficou célebre essa frase dele.

Nessa época, você chegou a trabalhar simultaneamente na televisão e no rádio?

Sim, em 1970, eu voltei a fazer rádio como comentarista na Rádio Globo, substituindo Rui Porto, que tinha ido para Tupi. O Waldir Amaral me ligou e me pediu. Eu achava que rádio era diversão de cego. Estava tão entusiasmado com a televisão... Para mim o rádio já era coisa do passado. Hoje eu não penso assim. Acho que rádio tem muita força. Ele entra pela internet e vai para o mundo inteiro. Tem essa vantagem que a televisão nem sempre possui.

Pela primeira vez como comentarista, em 1970?

É, porque eu aí não quis vo