LUIZ PAULO HORTA
PERFIL

Crítico de música clássica e jornalista, Luiz Paulo Horta começou a sua trajetória no Correio da Manhã, depois de ter iniciado o curso de Direito, na Pontifícia Universidade Católica (PUC). Não chegou a concluir o curso e se dedicou, integralmente, ao jornalismo.Nascido no Rio de Janeiro em 14 de agosto de 1963, começou no jornalismo com 19 anos e passou pelas principais redações até falecer em 3 de agosto de 2013.

Trabalhou no Jornal do Brasil de 1964 até 1990. Começou no Departamento de Pesquisa, do JB, que considerava uma das experiências essenciais no desenvolvimento do jornalismo brasileiro, por incentivar o aprofundamento da notícia.

Depois, foi para a seção do Editorial e nunca mais se separou do texto opinativo. Apesar de reconhecer que o editorial reflete o posicionamento da empresa, o jornalista considera que o texto deve refletir aspectos da opinião pública. Como ele afirmava: “O bom editorial é o que dá voz a uma corrente de opinião do povo, uma coisa que você sente que está no ar e você precisa expressar”.

No JB, escreveu reportagens sobre arte, religião e política, sempre com apuração rigorosa e aprofundamento da temática. Também inovou ao escrever perfis de músicos, como o do músico César Guerra Peixe, em 1980. Considerava que o jornalismo deve investir em textos que pudessem ter a leveza do perfil mesclado com o interesse humano. O perfil permitiria apostar na imaginação tanto do repórter como do leitor, que passa a ter acesso a um texto criativo.

Depois que saiu do JB, foi trabalhar em O Globo, onde exerceu funções como editorialista e crítico cultural. Em 1994, foi eleito para Academia Brasileira de Música e, em 2008, para a Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira número 23 que, anteriormente, foi de Machado de Assis, José de Alencar e de Zélia Gattai. Foi o primeiro crítico musical a ser membro da Academia. Atualmente, a cadeira é ocupada pelo músico e professor Paulo Costa Lima, da Universidade Federal da Bahia.

Luiz Paulo Horta era pianista e foi um precursor na divulgação da música clássica. Como crítico cultural, procurava escrever para o público amplo e não apenas uma elite cultural. Em 1986, fundou a Seção de Música do Museu de Arte Moderna, do Rio de Janeiro, e procurou fazer uma parceria com o JB para difundir a música clássica.

Apaixonado pelo universo literário, Luiz Paulo Horta aconselhava os jovens jornalistas a cultivar o gosto pela leitura, pois a formação cultural é o que permite o refinamento do conteúdo e o estilo do texto. Ele escreveu coletâneas para divulgação de música como o Dicionário de Música Zahar (1984), Guia da Música Clássica em CD (1997), Villa-Lobos: uma introdução (1987), Sete noites com os Clássicos (1999) e fez a tradução do Grove´s Dictionary of Music & Musicians, com Luiz Paulo Sampaio (1994). Devido à influência de sua formação católica, coordenou grupos católicos para estudos bíblicos no Centro Loyola da PUC, no Rio de Janeiro. Em 2011, concluiu o livro A Bíblia: um diário de leitura (Editora Zahar). Esse era considerado um desafio pessoal que precisava concretizar, pois queria compartilhar com os leitores as discussões que fez nos grupos de estudos bíblicos durante 10 anos.

Luiz Paulo Horta recebeu o Prêmio Padre Ávila de Ética Jornalística, concedido pela PUC-RJ no ano de 2000; e, em 2010, recebeu a Medalha do Inconfidente do Governo de Minas Gerais. Após a sua morte, em novembro de 2013, foi lançada a coletânea De Bento a Francisco – uma revolução na Igreja (Editora Zahar), com artigos publicados em O Globo sobre a renúncia de Bento XVI e a posse do Papa Francisco.

Horta morreu no Rio de Janeiro, em 03 de agosto de 2013.

ENTREVISTA

Realizada por: André da Silva Tunis de Virgiliis, Daniel de Lima Fraiha, Eduardo Butter Scofano e Pedro Leonardo Gomes de Carvalho.

Data: 06/2010

Primeira edição: Andréa Cristiana

Antes de você trabalhar como jornalista, você cursou direito na Pontifícia Universidade Católica (PUC)?

Foi só um ano. Eu não sabia o que queria fazer, e cheguei ao jornalismo absolutamente por acaso. Na minha família, existia gente que tinha feito direito. Quando eu acabei o colégio, estava numa fase ruim, decidi ir pra PUC. No começo do ano seguinte, em 1963, um amigo da família, que era diretor do Correio da Manhã, perguntou se eu não queria experimentar. Eu estava desgostoso da faculdade, fui e não parei mais.

Você começou como no Correio da Manhã?

Fazendo reportagem de polícia, que era onde todo mundo começava. Eu fui repórter no Correio, mas no fim do ano fui mandado embora, porque o jornal já estava numa crise grande. Os mais novos rodaram. Depois disso, fui para o Jornal do Brasil (JB), tive a sorte de ter uma pessoa que me indicou para lá. Eu também ia ser mandado embora, porque me puseram na editoria para cobrir carnaval. Tinha que acompanhar o Rei Momo, e aí as minhas reportagens não foram boas.

Quais os motivos?

Eu estava um pouco fora do meu ambiente, não sou exatamente carnavalesco (risos). Eu levava livros para o baile de carnaval e ficava lendo. É claro que não podia dar certo. Mas eu tive uma sorte muito grande, a vida depende muito de acasos. O JB, em 1964, estava criando o Departamento de Pesquisa, que foi uma coisa nova na época. Hoje, é comum. A ideia era dar certo aprofundamento à notícia. Era responsabilidade do Murilo Felisberto, um baita jornalista. Ele gostou de mim, eu comecei a escrever. A pesquisa era uma coisa incrível, houve uma época que tinha uma redação dentro da redação, nós tínhamos 15, 16 redatores. Renato Machado, Mario Pontes, Sergio Augusto, Argemiro Ferreira. Se eu te falar todo mundo, você vai ficar espantado com o time que tinha ali. Era uma outra época do jornalismo, mais calma, a gente podia ficar pesquisando três dias para fazer um texto. O Nelson Rodrigues ficava gozando a gente, fazia umas crônicas sacaneando o pessoal de Pesquisa.

Você tinha quantos anos nessa época?

Tinha uns 20 e poucos. Eu fiquei bastante tempo na pesquisa e de lá fui para o editorial. Isso foi uma coisa que me marcou muito. Eu fui para o editorial muito moço, normalmente você fazia editorial com mais idade. Eu fui com 30 e poucos anos. Nunca mais me separei da opinião, que é uma coisa que eu gosto e é o que eu tenho feito até hoje. Depois disso, fui editorialista e crítico de música do JB. Quando eu vim para o Globo, no final de 1990, eu vim para executar as mesmas funções. Fiz editorial bastante tempo, depois eu fui editor da página de artigos. Tudo na área de jornalismo de opinião.

Quando você começou no Jornal do Brasil, fazia o editorial sozinho? Você tinha liberdade?

O editorial é a opinião da empresa. Você tem que se acostumar. No começo,estranhava, ficava com a cabeça quente. É como ser pianista: você toca a partitura do outro, mas você sempre tem uma interpretação própria. Cada pianista toca Beethoven de um modo. Depois que você se acostuma com a empresa, descobre seus grandes princípios, fica mais fácil. Eu já fiz, inclusive, muitos cursos para estagiários e quando surge essa questão do jornalismo de opinião, eu sempre digo que é uma atividade mal compreendida. Sempre acham que o editorial é uma armação da empresa, para vender alguma coisa. Não é assim. O editorial é uma coisa que reflete muito a opinião pública. O bom editorial é o que dá voz a uma corrente de opinião do povo, uma coisa que você sente que está no ar e você precisa expressar. De volta a minha carreira, no Globo, quando você faz 60 anos, você se aposenta, fecham o seu contrato. Agora, então, estou como colaborador, faço minhas críticas de música e, uma vez por mês, tenho um artigo na página 7. Mas continuo na redação, continuo gostando. Uma coisa que fiz muito foi treinamento. Comecei em 1997, foram as primeiras turmas que eu peguei. Tinha um projeto interessante chamado Calandra. Eu pegava um grupo da redação e dava um treinamento especial. A gente fez isso em ciclos, já que em jornal tudo é ciclo. Essa primeira turma foi na época que o dólar estava em paridade com o real, um para um. Fizemos um convênio com a Universidade de Columbia, que era talvez a melhor de jornalismo da época. Eu levei duas turmas para os Estados Unidos (EUA), era o começo da Internet, tudo era novo. Fiz esse treinamento com turmas de estagiários e funcionários da redação. Não vou dizer que estou pendurando as chuteiras, mas estou com um ritmo mais calmo. O último treinamento que fiz foi com uma turma de estagiários, que está circulando pela redação.

Qual a sua impressão sobre quem está chegando na redação?

Olha, quando você pega muita gente, a impressão é meio chocante. Teve uma época que eu fazia prova para estagiário. Todo ano tem 600 a 700 candidatos. Eu fazia umas perguntas eliminatórias para não ter que corrigir 600 provas, e vinham coisas absurdas, erros amadores. Eu falava: “Que é isso? 7ºe 8º período, como pode fazer uma coisa dessas?”. Mas, quando acaba o processo seletivo, vem gente boa, a maioria da PUC e da UFRJ.

Você lembra de casos que te marcaram por ter que escrever coisas que divergiam das suas ideologias?

Não. Na verdade, eu me lembro do contrário, de ficar feliz pelas coisas que precisava escrever. Por exemplo, na campanha das Diretas Já!, da redemocratização do país.

O começo da ditadura militar coincidiu com o começo da sua carreira. Houve algum tipo de interferência?

No começo não interferiu muito, porque mesmo tendo a censura, eu fiquei muito tempo na Pesquisa. Era um pouco background. Quando veio o editorial, em 1976, era o auge da ditadura, aí era mais complicado. As coisas mudam muito. Naquele tempo, O Globo era o jornal que apoiava os militares, o JB era o que tentava fazer oposição. Só que você não podia fazer oposição 100%. O Correio da Manhã tentou fazer isso e quebrou. O jornal fazia oposição, digamos, educadamente, sabendo onde estava pisando, para não bater de frente. Esse foi um período difícil do editorial. Aí entra a coisa da opinião, você tem que achar o tom. Quando você está fazendo reportagem, tudo bem, você tem que ter um estilo, mas não é tão importante. A reportagem é mais na base do fato, da apuração. A opinião é nuance, é detalhe, são coisas que você não diz abertamente, mas diz nas entrelinhas. Esse período foi mais difícil. Mas, nesse sentido, eu tive sorte, porque quando eu fui para o editorial já havia começado o processo de abertura. Era o Ernesto Geisel, eu não peguei a fase do Ato Institucional (AI-5) como editorialista. A coisa estava mudando, o JB trouxe o Elio Gaspari, de São Paulo, para ser editor político. Se o Elio veio para ser editor político, é porque se podia fazer política.

Quando você entrou no jornalismo, ainda era uma época em que os interesses comerciais e empresariais influenciavam na linha editorial. Era a época de Assis Chateaubriand, Samuel Wainer... Você chegou a pegar isso?

Você está falando de jornais pequenos. Tanto o Correio da Manhã nunca foi grande, quanto o Última Hora era um jornal meio artificial.

Mas tinha uma grande penetração nas camadas populares...

Era um jornal muito marcado. A Última Hora nasceu no bojo do getulismo, era um jornal feito para apoiar o governo de Getúlio Vargas. Já a Tribuna da Imprensa era um jornal que atacava o governo, com o Carlos Lacerda. Mas eram empresas pequenas, sujeitas a influências de fatores comerciais, de empresas. O que marcou o JB e depois O Globo foi o fato de serem grandes o bastante para terem as próprias linhas. Quando eu era editorialista do JB, o dono do jornal era o Nascimento Brito. Ele fazia o que tinha que fazer, batia no governo quando achava que devia. Eu acho que isso é uma coisa importantíssima porque, apesar de estar muito tempo afastado do meio universitário, experiências antigas me mostram lá uma visão ideológica do jornalismo, que produz umas coisas meio esquisitas. Por exemplo, a ideia do lucro. A grande imprensa jornalística tem que ter lucro. Isso é uma coisa que o JB fazia mais ou menos, e O Globo fez muito bem. Você tem que ter lucro, porque senão fica dependente do governo. Se você sai do eixo Rio-São Paulo, o panorama muda completamente. Em Minas Gerais, um estado importantíssimo, os jornais são meio vulneráveis, e sofrem influência do governo. Essa visão antilucro não se sustenta. Você tem que ter lucro, tem que ser uma empresa profissional, caso contrário, você fecha como o Correio da Manhã, ou fica moribundo como o JB atual. Vi quando o JB começou a quebrar, passou a receber influências de todos os lados. Teve a fase Maluf [Paulo Maluf], que mandava no jornal. O jornal estava afundando, então dependia de quem botasse dinheiro. Acho que isso é uma coisa que hoje no O Globo é muito consciente. Acho que, em São Paulo, também, você tem que ser uma empresa que dê lucro. Isso é o preço da sua independência editorial. Durante anos se fazia pesquisa sobre a questão da credibilidade do jornal, durante anos o JB tinha uma boa credibilidade, O Globo não tinha, porque tinha sido ligado, foi ligado aos militares. Hoje, isso mudou completamente, porque O Globo não depende de empresa, não depende de governo, não depende de anunciante. É o preço que você paga para ter uma empresa lucrativa.

O que mais te influencia no jornalismo é a música?

Não, música eu gosto, eu gosto muito de música, é um prazer. Mas você não vive de música, pelo menos em jornal. Não existe isso.

Você estudou piano. Chegou a ter vontade de ser pianista?

É eu sempre fiz música, eu nasci fazendo música. Pensei, pensei... Ainda bem que não fiz isso. Quando tinha 20 e poucos anos, cheguei e disse: “Vou ser músico”. Quer dizer, não é que não seja um bom caminho. Eu tenho um filho que é músico, e minha filha mais moça está querendo ir pelo mesmo caminho. Eu não vou dizer para eles: “Não façam música”. Mas acho que tive sorte na minha carreira e estou satisfeito. A música sempre foi uma paixão da minha vida, é uma coisa que eu sou outro, eu me sinto músico. Mas nunca pude viver de música ou do que eu escrevo sobre música, mesmo, por exemplo, se eu fosse do segundo caderno. Eu nunca fui 100% do Segundo Caderno, eu escrevo para o Segundo Caderno. Se eu fosse de Segundo Caderno eu não ia viver de crítica de música. Por exemplo, o Eduardo Fradkin, que agora é de música clássica, faz 200 matérias e, lá no meio, faz a matéria que ele quer. Mas ele não vive de música.

Você compõe?

Compor? Não. Nunca compus nada, mas sempre toquei piano.

Os jovens têm contato suficiente com a música clássica?

Música clássica? Eu acho que têm pouco, né?

Que estratégia você acha que poderia ser usada para aumentar isso?

É difícil de dizer, porque a gente vive em um mundo completamente diferente. Quer dizer, teve a coisa da televisão, com a internet, o computador. Antigamente, você tinha mais chance de encontrar a música clássica. Você, para gostar de música clássica, tem que ter um pouco de vivência. Música popular não, ela entra pelo ouvido. Mas a música clássica você tem que se acostumar um pouco. Então, antigamente, você podia chegar em casa e seu pai, sua mãe ou seu tio podiam estar ouvindo uma sinfonia de Beethoven. Hoje, é mais difícil. Você chega em casa e cada um tem o seu quarto, a sua televisão. Claro que você pode baixar tudo pela internet, mas você só vai baixar depois que você gostou daquilo e se acostumou. Então, isso é uma coisa que a gente fala muito nos meios de música, a questão de formação de plateia, que não é uma coisa muito fácil. Eu não sei, por exemplo, nessa área de CD, mas isso não foi só na música clássica. A área de CD foi uma catástrofe para todos os gêneros de música. Hoje, você baixa música. Então, Modern Sound, que é uma loja que sempre foi maravilhosa, está para fechar. Vai virar uma casa de show. Sempre viveu de vender discos, porque não se aguenta mais vendendo. Então é complicado, não sei te dizer. Se você me perguntar qual é o futuro da música clássica, eu digo que não sei. Espero que não morra, porque é uma coisa maravilhosa, de uma riqueza fantástica, mas não sei, o mundo está tão diferente. Não sei o que está na cabeça, vocês que podem dizer o que está na cabeça da juventude.

Você fala com grande paixão da música clássica. E no jornalismo, existe alguma outra paixão concreta?

Paixão... Eu gosto de texto. Eu sempre fiz música e sempre li. Com sete anos, já estava lendo. Então, tenho meus autores. No texto de opinião, ele não é muito pessoal, mas quando eu faço esses artigos para página sete, eu procuro fazer algum tipo de texto que seja interessante em si mesmo. Isso eu acho que está ligado à leitura. Eu sempre falo com essas turmas de jornalistas com quem eu trabalhei: vocês têm que ler. Ler coisa boa, porque se você não ler o teu universo cultural estreita e o recurso de estilo estreita. Você pode me dizer que hoje estilo é para o jornal papel, eu acho que não. Acho que o jornal papel se apoia mais no texto, a internet usa mais imagem, mas eu acho que o texto também vai valer para a internet, inclusive porque na internet você tem, às vezes, a possibilidade de fazer textos mais longos do que no jornal papel. Quando eu tinha essas turmas de estagiário e de gente da redação, do Calandra, a gente tinha sempre um roteiro de leitura; pelo menos três, quatro livros por ano. Fiz eles lerem, às vezes, umas coisas que davam um certo trabalho. Outros, não. Eles adoraram A Sangue Frio, do Truman Capote. É um livro fantástico. Até jornalistas experientes – nessas turmas às vezes eu pegava gente experiente – ficavam fascinados. Porque é um texto, é um exercício de texto do maior interesse para o jornalista e como trabalhar um texto longo.

Você gosta do jornalismo literário?

Jornalismo literário? O que se faz nos jornais? Não gosto muito, não.Eu acho uma coisa muito abstrata...

Mas o Capote foi um dos que liderou o New Journalism, que no Brasil é chamado assim...

Ah, você está falando nesse nível, pensei que você estivesse falando dos suplementos de livro aqui no Brasil. Adoro. Norman Mailer fez muito essa coisa. O Capote é um caso típico. Mas eu gosto mesmo é de um bom romance. Encontrei o Carlos Heitor Cony, que eu conheci quando era um jovem jornalista, na Academia de Brasileira de Letras. Quando eu estava começando em jornal, o Cony era novinho e estava escrevendo os primeiros romances dele: Matéria de memória, Informação ao crucificado, O ventre.Era fantástico, porque era uma literatura moderna, completamente comunicativa, ágil, leve. Depois ele passou uns anos meio perdido lá na Manchete e escreveu um livro que eu considero sua obra-prima, chama-se Quase memória.É uma obra-prima. É um texto leve, ele podia ser um grande jornalista.

Como é esse relacionamento de jornalistas de veículos diferentes? O Cony, que hoje escreve para Folha, e também foi jornalista, e vários outros jornalistas de outros veículos.

O Cony foi mesmo da Manchete. A Manchete era um mundo meio à parte, que era o Adolpho Bloch. Eu era do JB. A gente não levava a Manchete à sério. Na época, a gente achava - na verdade eu continuo achando - um jornalismo meio superficial. É um jornalismo de revista, mas de revista assim no sentido pejorativo. Não era a Veja. Eu não gostava das coisas deles.

Quais são a grandes revistas brasileiras?

Eu já gostei muito da Veja, mas acho que depois... As revistas estão em crise, não é só aqui, no mundo inteiro.

E os jornais estão em crise também?

Não, acho que não. Se fala muito na crise do jornal. Eu acho que hoje a gente tem um desafio grande, isso é o nosso dia a dia da redação. Como é que você separa os gêneros? Porque você tem essa coisa eletrônica que é um universo, então é evidente que o jornal papel não pode ser mais o que era antes. A notícia do dia seguinte, se você tiver entrado no online, já vai ter sido lida. Então, o que você faz para o dia seguinte? Isso é um desafio que a gente ainda não resolveu.

Como que vocês discutem isso dentro de um jornal?

É empírico. A gente não faz seminários para discutir isso, não. É uma discussão de todo dia. Eu acho, e isso não é uma opinião só minha, que em termos de jornal papel – eu continuo muito ligado ao jornal papel, e à essa altura vou morrer no jornal papel, não estou interessado em ir para internet nem nada – o texto analítico vai ter mais importância, já está tendo mais importância do que tinha antes. Isso é o que você tem de novo. Eu não gosto muito da Folha. O Marcos Sá Corrêa, que foi meu colega no JB, costuma dizer que a Folha é o jornal da Pontifícia Universidade Católica (PUC) feito com um pouquinho mais de dinheiro. No sentido de que é uma coisa solta. Na universidade você pode inventar o que você quiser, mas para fazer um jornal para vender é diferente. Eles são meio porra louca mesmo. Mas é um jornal vivo, que está se saindo bem. Mas tenho que ler todo dia os jornais todos. Eu pego a Folha e vou para a página dois, eu gosto daqueles artigos do Carlos Heitor Cony, Clóvis Rossi, Fernando Barros e Silva. Eu gosto, acho viva aquela parte da Folha. Já a parte de artigos do Estadão, acho um pé no saco, porque são artigos longos demais. E o Estadão tem uma cabeça paulista quatrocentona, mas acho um jornal legal. É um jornal que tem material de leitura. Se o jornal papel vai funcionar para leitura, para você ler – porque a notícia rápida você vai pegar em qualquer lugar, Tv, internet -, tem que ter material de leitura. Acho que, nesse sentido, o Estadão ganha do O Globo.Você pega o Estadão e tem um tempo de leitura razoável, O Globo você lê mais rápido. Está faltando mais artigo. Agora, eles criaram mais algumas páginas no Segundo Caderno, mas eu não sei se eles já acertaram a fórmula. Há muita matéria nova no Segundo Caderno. Mas acho que, nessa “crise do jornal”, vai ser questão de definir funções: o que vai ser função da internet, o que vai ser função do jornal papel. O futuro do jornal papel está ligado ao jornalismo analítico, o jornalismo de opinião, talvez porque eu faço isso há tantos anos.

O que você acha da obrigatoriedade do diploma?

Não sou a favor não. Acho que a faculdade de jornalismo melhora o nível, o que eu sou contra é à obrigatoriedade do diploma. Acho que vira um cartório, o jornal vira um cartório, já vem com cartas marcadas. Acho que você pode pegar pessoas de outras profissões. Mas não acho que isso vá afetar tanto a profissão, porque, no fundo, quem é que vem fazer prova de estágio aqui? É o estudante de jornalismo. Quem fez medicina não vai fazer prova para o estágio do Globo. Então, naturalmente, sempre haverá mais gente vindo das faculdades de jornalismo. Mas eu e uma porção de colegas somos contra a obrigatoriedade do diploma, aliás é a opinião do jornal também. Fica uma coisa mecânica: tem diploma, pode trabalhar; não tem diploma, não pode trabalhar. O que a gente ganha com isso?

Você já teve vontade de fazer jornalismo na TV, no rádio?

Já me chamaram para TV, rádio não.Fiz uma vez um programa na TVE, eu fazia um bloco de música clássica em um programa de cultura que eles tinham, mas foi uma coisa rápida. Depois o Luis Edgar de Andrade, que foi editor do Jornal Nacional muitos anos, na Globo, queria que eu fosse o editor internacional do JN. Ai me levou lá na TV Globo e, na época, trabalhava lá o Otto Lara Resende, que era muito meu amigo, uma figura maravilhosa. A gente passeou, acho que já era na Lopes Quintas, e eu na dúvida dizia: “Ô Edgar, eu sou jornalista de texto...”. E ele: “Não! Vamos conversar com o Otto que ele vai convencer você”. Entramos na sala do Otto, que era muito gozador, e o Edgar explicou: “Otto, trouxe aqui o Luiz Paulo, para ver se vem aqui para o Jornal Nacional”. E o Otto: “Luiz Paulo... Isso aqui é uma fábrica de zumbis!”. Porque naquele tempo trabalhava-se loucamente na TV. Ele falou brincando, mas não era a minha, eu sou de texto. Sou jornalista de texto. E, à essa altura, não vou mais mudar.

Você dirigiu a Seção de Música do Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio de Janeiro de 1986 a 1990, e ainda escrevia para o JB. Como foi conciliar as duas atividades?

Bom, eu misturava as duas coisas. Mas acho que foi uma experiência ótima. É uma questão da música moderna, da música contemporânea, que normalmente a gente tem ambientes. Você fazer, por exemplo, um canto contemporâneo no Theatro Municipal, tem uma dissonância. Eu acho que o MAM deu certo por varias razões, uma delas foi porque a gente tinha apoio, o jornal dava apoio e dava cobertura. E porque era música contemporânea em um lugar que é completamente moderno. Acho que o MAM é mal aproveitado até hoje, nunca conseguiu acertar o foco. Então, a gente fez coisas do arco da velha, a gente usava todos os espaços, eu usei muito salão que era um antigo restaurante. A gente fez ali no fundo do MAM, onde tem umas palmeiras, coisas ao ar livre, foram coisas fantásticas. Então, deu certo, durou cinco anos e aí eu já estava começando o meu processo de saída do JB. Mas foi bom, enquanto durou foi muito bom.

Qual a matéria que mais te marcou?

Sempre gostei muito de fazer entrevistas. Acho que uma coisa que funciona bem no jornal papel é o perfil. É algo que as pessoas gostam de ler, tira você do dia a dia, obriga você a usar a imaginação, a ter um texto criativo, um approach criativo, a trabalhar o seu personagem. Então, fiz alguns perfis de gente de música, que depois eu até transformei em um livro. Começou com César Guerra Peixe, um grande músico, um grande compositor. A música clássica não tem tanto acesso assim à imprensa, e você fazer um bom perfil com um bom músico, como eu fiz com Guerra Peixe, com Edino Krieger...

Isso poderia ser uma alternativa para divulgar a música clássica?

Pode ser, você aprofunda um pouco. Mas não estou pensando só na música clássica, acho que o perfil é legal. Uma coisa que fiz em uma época que também deu certo, mas que você só pode fazer de vez em quando, é a chamada entrevista imaginária. Por exemplo: “Morreu Salvador Dali”. Eu nunca poderia entrevistar o Salvador Dali, mas aí eu pegava textos do Dali, imaginava perguntas e usava os textos como respostas. Foi uma coisa que deu certo, mas em certas ocasiões, não se pode fazer isso sempre. Essa área do perfil eu acho legal, rende em termos até de interesse humano.

Ao escrever as críticas, você pensa em um público ou em alguém que não tenha o conhecimento?

Procuro fazer as duas coisas. Porque, o que é o público de música clássica no Rio de Janeiro? Vinte mil pessoas, 30 mil pessoas? Quando se escreve no Globo você escreve para 250 mil pessoas. Então, o que eu procuro fazer – e isso eu faço com muita convicção – é uma crítica que vá agradar ao entendido, também não quero só o bê-a-bá,mas que desperte nas pessoas o interesse do concerto ao vivo. Acho que o problema hoje da música ao vivo, da música de concerto, é que você tem o DVD. Hoje, por exemplo, eu não me sinto mais obrigado a ir a Salzburgo. Hoje, pego uma ópera feita em Salzburgo e está na minha casa em uma tela boa, em um som bom. Então se a tendência for essa, vai matar a música ao vivo. Mas eu acho que por melhor que seja o DVD, a música ao vivo tem sempre uma emoção especial. Então, não faço uma crítica técnica, tem até gente que reclama, mas estou escrevendo para 250 mil pessoas, pensando nos jovens. Quando comecei a fazer texto de música clássica, ainda tinha um estilo meio pedante, meio terno e gravata. Tinham os críticos antigos que diziam: “Você vem ao concerto sem gravata? Como pode fazer isso?”. Eu acho que se aplica ao estilo, e como eu sou jornalista, fazia um texto sem gravata, procurando dar a emoção do concerto ao vivo. Esse foi um trabalho que eu tentei fazer. Outra coisa que eu briguei muito, e que eu acho que eu estou começando a conseguir, é acabar com este negócio de música erudita. Música erudita é um horror, é um termo inventado pelo Mário de Andrade que só existe no Brasil, acho que afasta as pessoas. Aqui, no Rio, quase acabou, porque eu já batalhei muito por isso. Em São Paulo, tem mais. Mas outro dia eu consegui uma vitória. Em São Paulo, tem uma revista chamada Concerto, revista boa, muito boa mesmo, mensal. E o subtítulo era “Guia Mensal de Música Erudita”. Aí eu fiquei batalhando, falando para eles pararem com isso, porque era um horror. Dois números atrás, o subtítulo mudou, agora é “Guia Mensal de Música Clássica”, que é como se chama no mundo inteiro. Não tem nada de música erudita, que ideia! É daquele tipo de coisa que só existe no Brasil. Mas não é uma ideia de popularizar, mas tornar mais acessível. O meu texto de música clássica é muito conscientemente voltado para 250 mil pessoas, só que dentro deste texto eu preciso ter a informação que interesse ao conhecedor. Mas eu não estou escrevendo para uma elite.

Já teve vontade de dar aulas?

Eu já tive, mas agora não dá mais. Eu estou escrevendo um livro, tem um outro que eu quero escrever...

Você está querendo escrever um livro sobre a Bíblia, e até hoje você não escreveu sobre religião...

Tenho dois livros de crônicas, algumas são sobre religião. Há alguns anos, percebi que a Bíblia era o livro. E vi que as pessoas têm dificuldades enormes de se aproximar da Bíblia, sobretudo no meio católico, na linha protestante é mais fácil. Aí eu resolvi fazer um grupo em uma casa que eu tinha em Botafogo para ler a Bíblia, mas sem a menor pretensão. Eram dez ou 12 pessoas. Aí começamos a ler e eu fazia, às vezes, o papel de moderador, alguém tem que ser o animador de auditório (risos).

Mas eram amigos seus?

Conhecidos. Aí começou a crescer, passaram a ter 20, 30, 40 pessoas e, de repente, minha sala estava cheia. Fizemos isso por dez anos. Não era todo dia, era normalmente uma segunda-feira, e fazíamos ciclos. A gente pegava Isaías, aí eu fazia um ciclo Isaías. Terminava, descansávamos e começávamos outro. E assim a gente foi... Não vou dizer que fizemos a Bíblia toda, nem precisa ler a Bíblia toda, mas vou dizer que fizemos uma volta. Quando a gente terminou depois de dez anos e íamos começar outra coisa, pensei: “Puxa, mas isso foi tão legal”. Porque você lendo em grupo, eu dava a partida, mas tinha o retorno do que pega as pessoas, do que é dúvida, o que não é dúvida. E quando eu achei que foi tão legal que eu resolvi iniciar um livro, que queria que o nome fosse “Uma iniciação na Bíblia”. Não era uma coisa erudita, e comecei a fazer. Mas aí minha vida virou de pernas para o ar, eu perdi a minha mulher, foi um período complicado. Eu parei e agora estou voltando. Quero ver se - em mais um ou dois anos - eu termino. É um livro de 180 páginas, não mais do que isso. Mas é um livro que eu quero terminar. Porque se você abrir a Bíblia no escuro, vai começar por onde, vai ler a Bíblia de A a Z? Ninguém vai ler de A a Z, vai começar por onde? Vai ler o quê? Então eu vou fazer meio que um roteiro. [O livro A Bíblia: um diário de leitura foi lançado pela Editora Zahar, em 2011].

É mais ou menos como na música clássica? (risos)

É mais ou menos isso mesmo, tem toda a razão, foi o que sempre quis fazer com a música clássica.

A ligação com o catolicismo veio desde pequeno?

A minha família era muito católica, e eles foram me levando. Mas, aos 18 anos, levei um tapa com a morte da minha mãe, que era uma pessoa a quem eu era muito ligado. Aí comecei a achar que só era católico, porque meus pais eram. Tive a minha fase marxista. Então, casei com uma moça cujo pai era um orientalista. Era um professor da PUC, advogado, dava aula de psicologia, mas era um orientalista. Eu comecei a ler coisas da filosofia oriental como budismo, hinduísmo, que eu achei fascinante, numa época em que o mundo abriu para o Oriente, os anos 70. Acho que os Beatles foram à Índia, tinha aquela coisa no ar. O que hoje é a coisa mais comum do mundo, você vai à livraria e tem livros do Dalai Lama, naquela época era novidade. Eu entrei neste caminho, acho que fiquei fascinado, e acabei voltando para o cristianismo via Oriente (risos). Pelo lado de fora, você tem oura visão da sua cultura, das suas origens... Uma coisa que sempre gosto de dizer nas minhas palestras é que hoje você tem o mundo todo, antigamente era só o Ocidente e o Oriente. Hoje, está tudo unido. O Oriente importa, olha só o papel da China, qualquer coisa que a gente comprar é made in China...

Hoje você ainda tem contato com a cultura oriental?

Continuo gostando, de vez em quando eu leio. Mas voltei ao cristianismo. Acho muito complicado você sair da sua cultura. Tudo bem, você pode até ser budista, o budismo é até uma coisa light, ser hinduísta, por exemplo, é quase impossível. Ou você vai ser muçulmano aqui no nosso mundo ocidental? Mas eu continuo lendo, gosto de ler, mas eu voltei para as minhas origens. E estou escrevendo esse livro sobre Bíblia.

Além do livro, mais algum projeto futuro?

Esse eu tenho que terminar. Eu tinha vontade de fazer um dicionário pequeno de música clássica. Eu participei de dois projetos de dicionário de música, um foi o Zahar, saiu nos anos 1980 [Dicionário de Música Zahar, 1984]. Foi o primeiro dicionário de música moderna aqui no Brasil. Depois, foi o Grave´s Diciotonary of Music & Musicians [coordenado com Luiz Paulo Sampaio], que é o maior dicionário de música, com 20 volumes. A gente editou uma tiragem concisa que é de um volume. Traduzir um dicionário para a própria língua é um trabalho infernal. Cada instrumento tem milhões de peças, e cada peça tem uma nomenclatura. Você tem que sair correndo atrás dos especialistas, para fazer um livro grande, de 700 páginas. Como já tenho esta experiência, queria fazer um livro meu mesmo, porque estes dois foram adaptações. Algo em torno de 300 páginas. Eu gostaria de fazer uma história da música bem levinha. Eu fiz um livrinho que até deu muito certo, é o Guia da Música Clássica em CD [Zahar, 1987]. São pequenas biografias de compositores, as obras principais, que se eu mexer um pouquinho, vira um livro pequeno de história da música. É o princípio de Lavoisier (risos).

Qual a sua opinião sobre o momento atual da Igreja?

Recentemente escrevi um artigo exatamente sobre isso, Tempestade Sobre Roma. Eu acho um momento muito difícil mesmo. Não estou dizendo que vai morrer, mas é um impacto muito forte. Eu poderia falar meia hora sobre isso, mas prefiro que leiam o artigo.

E o trabalho que vem sendo desenvolvido pelo papa Bento XVI?

Está sendo polêmico. Acho que ele é um grande teólogo, um intelectual de uma Escola importantíssima da teologia. Mas ele foi posto naquele lugar para terminar o período de João Paulo II, no qual ocupava a posição de presidente da Congregação da Doutrina. O período que o antecedeu foi muito difícil, diretamente ligado ao ciclo marxista. Era o auge da Guerra Fria, quando você tinha a presença do marxismo em tudo, inclusive na teologia. A Teologia da Libertação tem várias linhas, algumas delas marxistas. Certos livros do Leonardo Boff são livros marxistas, é a teoria marxista aplicada à Igreja. Isso, na época, foi um problema sério, não são coisas que você possa misturar. Você pode acreditar que Marx é importante para a análise do sistema capitalista, mas fundir marxismo e cristianismo é muito complicado. Isso abalou muito a Igreja depois do Concílio Vaticano II e Paulo VI ficou perplexo com isso tudo, ele era um intelectual. Quando João Paulo assumiu o cargo, veio batendo muito firme porque vinha de um país comunista. Ele sabia o que era a ligação entre marxismo e cristianismo em um país comunista, e ele não queria aquilo. Foi frontalmente contra, deu uns toques na Teologia da libertação. E quem trabalhou com ele nessa época foi o Ratzinger - hoje mais conhecido como Bento XVI. Eles chamaram a atenção de Boff que por sua vez deixou a Igreja. Vieram, então, os escândalos de pedofilia. Eles lidaram muito mal com o assunto, o foco de atenção deles ainda era outro. Acharam que a transferência dos padres envolvidos para outras dioceses seria suficiente para resolver o problema. Eles estavam em outra briga, na briga ideológica. Foi uma coisa mal tratada. Acho também que, por várias razões históricas, centralizou-se muito a administração da Igreja em Roma. A Igreja é uma multinacional gigantesca, supõe-se que tenha um bilhão de seguidores. Como que de Roma, em uma cúpula basicamente formada por bispos italianos velhinhos, vai administrar o mundo inteiro. Por que um caso que acontece em Milwaukee, EUA, tem que ir à Roma para ser resolvido? É mais ou menos o que acontece aqui com o Supremo Tribunal Federal, qualquer causa pequena vai bater lá. Por isso cada ministro do Supremo tem 10 mil casos por ano para julgar, não julga. Então eu acho que é uma questão de administração. Teria que se aplicar melhor certas coisas do Concílio Vaticano II, como, por exemplo, a tese da colegialidade, que os bispos devem ter mais participação no governo da Igreja do que têm atualmente. Hoje ficou uma coisa muito monárquica. É uma questão de estrangulamento das decisões, não há mais capacidade de lidar com coisas que acontecem no mundo inteiro. Para uma próxima eleição de papa, isso vai vir à tona. É preciso descentralizar, devolver a autonomia aos bispos. No começo do cristianismo, os bispos que resolviam. Roma era uma coisa distante, os bispos eram a última instância em tudo.

O que significou você ser eleito para a Academia Brasileira de Letras e ocupar hoje a cadeira que um dia pertenceu a Machado de Assis?

É uma coisa que não se espera, quando acontece você pensa: “É comigo?”. Foi legal, eu acho que aconteceu porque eu tinha amigos na Academia, pessoas que eu conhecia há muito tempo. Acho que teve alguma influência nisso o fato de que a Academia nunca tinha escolhido ninguém de música, eu sou a primeira pessoa de música que chega à ABL. Manuel Bandeira há 50 anos já dizia: “Está na hora de termos um músico”. E não tinha. Também influiu o fato de que eu fiz uma campanha bem planejada. Eu tinha um técnico bem melhor que o Dunga, meu amigo Tarcísio Padilha que é uma pessoa muito respeitada na Academia. Tem que trabalhar. Tem gente que acha que é só se candidatar. Claro que se você for o Guimarães Rosa, é só se candidatar que você vai entrar, mas eu não sou o Guimarães Rosa. Foi um pouco por isso, não tinha ninguém de música e se achava que estava na hora. Já havia entrado o Nelson Pereira dos Santos, de cinema, Sábato Magaldi, de teatro. Foi uma série de fatores. Eu também não concorri com nenhum monstro sagrado, então estou ali. Realmente, você pensa: “Puxa, eu sentado aqui! Que coisa!”.

Quais conselhos você daria para um jovem que está entrando no jornalismo?

Tem que ler, que se informar e procurar escapar de certas armadilhas. Eu acho que hoje está mais fácil, vocês estão em uma era mais pluralista. Quando eu comecei em jornal você só tinha duas possibilidades: você era marxista ou antimarxista. Eu não era nenhum dos dois, depois virei marxista. Naquela época, isso era muito marcado, você ia para um jornal onde 90% eram marxistas, você ia para um jornal para mudar o mundo. O Luiz Garcia, que é um mestre aqui da redação, costuma dizer que jornalista não está aqui para mudar o mundo e que, se conseguirmos dar uma informação boa, bem qualificada, está ajudando a mudar o mundo para melhor porque se está informando bem as pessoas, mas antes você tinha uma coisa muito militante. É importante ter uma mentalidade aberta para se analisar as coisas, porque existem sempre armadilhas. Se eu pudesse dar um conselho, seria que você, como jornalista, tem que ter certa dose de frieza, de distanciamento. Luiz Garcia é mestre nisso. Por isso que eu o acho um jornalista incrível, ele chegava lá com um editorial mais ou menos óbvio e dizia: “Olha, pode ser diferente. A outra linha pode ser verdadeira”. Você tem que ver o outro lado, o contraditório. Não é só ouvir os dois lados, isso é uma coisa mecânica. Você ouve um, ouve o outro e o leitor escolhe. É você ser capaz de procurar enxergar a questão por mais de um aspecto. É uma coisa meio de ceticismo. Procurar se informar ao máximo, ler muito e procurar manter certa distância dos fatos, porque, senão, você vai na corrente. E aí a corrente às vezes...