MÁRIO MARONA
ENTREVISTA

Realizada por Anny Ribeiro de Souza, Bianca Almeida Mina, Carolina Berger e Raquel Moreira Azalim Gonzáles

Data: 06/2009

Quando e como você começou a trabalhar com jornalismo?

Comecei a trabalhar com 18 anos. Eu tinha acabado de entrar na faculdade de Jornalismo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Acho que entrei com 18 ou 19 anos, mais ou menos, e já no primeiro período, lá a gente chama de primeiro semestre, eu comecei a trabalhar. Eu era bancário e aí consegui emprego de estagiário na Zero Hora, na época, um dos maiores jornais. Fui estagiário durante um ano, ganhando uma merreca. Saí do banco onde eu ganhava bem. Eu era gerente ou subgerente, mas eu queria ser jornalista. Fazer o quê? Até que apareceu uma vaga de repórter ou de redator, não me lembro, e eu entrei, sem ter me formado, porque naquela época não era obrigatório. Eu peguei o período de transição em que o curso de jornalismo não existia e passou a existir. Era bem novo o curso quando eu entrei. Eu, inclusive, não terminei. Eu fiz nove anos de jornalismo e não acabei, porque não era preciso. Eu tinha o registro profissional, que é o que interessava.

Paralelamente você trabalhava na Rádio Continental?

Durante um tempo foi paralelo, mas meus dois primeiros empregos foram, pela ordem, Zero Hora como redator de notícias do interior. A gente pegava por telefone, entrevistava as pessoas do interior. Eu estava casando naquela época, casei com 18 anos, arrumei um emprego na Rádio Continental, uma rádio parecida com a Rádio Mundial no Rio de Janeiro: popular entre jovens de classe média, faixa em que tinha a maior audiência, nos anos 1970 e 1980, numa época em que não existia FM no Brasil. Eles pegaram uma rádio AM, contrataram um ótimo engenheiro, capricharam na qualidade do sinal e fizeram algo parecido com as FMs de hoje. A Rádio Continental pertencia ao Roberto Marinho. Não sei nem se ele sabia que era dono, mas tinha uma rádio lá no Rio Grande do Sul que era dele e eu trabalhei nesta rádio. Gostei muito de trabalhar, porque era um trabalho assim: eu trabalhava sozinho durante quatro horas e escrevia textos dos noticiários a partir do que lia nos jornais ou ouvia de outras rádios mais poderosas. E era obrigatoriamente numa linguagem diferente, mais coloquial, com as gírias usadas pelos jovens da época. A rádio tinha quase cem por cento de audiência na faixa entre quinze e vinte e cinco anos de idade. Era um fenômeno. Eu não sei se é comparável a alguma FM de hoje. Ela tinha uma programação musical parecida com a extinta Fluminense FM no Rio, uma rádio mais de rock’n roll, muito alternativa. O noticiário que fazíamos tinha tanta gíria, tanta gíria, que de vez em quando a gente inventava algumas. Tinha um papel na parede para que um redator deixasse a gíria que inventou e o significado para os redatores que vinham depois.

Vocês seguiam uma linha, um tema?

Éramos comunistas. Eu era trotskista. O PT não existia ainda, mas eu era do movimento que fundou o PT e era de um grupo trotskista que veio a se tornar a Democracia Socialista, uma ala do PT de hoje. Hoje eu não sou mais do PT. Todos os redatores da rádio eram de esquerda, só entrava comunista. Era uma rádio contra o governo, claro, e chegamos a usar o espaço do noticiário para ajudar a eleger um candidato trotskista a vereador, o Marcos Klasmann. Ele foi um dos mais votados. Como era proibido fazer campanha abertamente, a gente inventava que ele tinha sido perseguido por policiais que queriam aprender os panfletos e santinhos eleitorais dele. Com isso, tinha notícia sobre ele de meia hora em hora.

Não incomodava o Roberto Marinho?

O Roberto Marinho nem sabia de nada. O cara que administrava a rádio se chamava Fernando Westfalen, um publicitário muito conhecido e talentosíssimo. Ele era conhecido como “Judeu”. O Judeu era uma espécie de arrendatário da rádio, e também era de esquerda, nem tanto quanto os sujeitos que ele empregava.

Havia ameaças?

De vez em quando, mas muito menos do que a gente temia. A minha geração, embora tenha apanhado em passeatas, chegou um pouquinho depois daquela que pegou em armas e foi torturada ou morreu nas prisões da ditadura. Na época eu até me frustrava com isso, mas por sorte eu cheguei um pouco depois, quando a ditadura já estava numa fase em que era mais seletiva: ela torturava e matava, mas seletivamente. Não pegava muito estudante.

Numa reportagem com a Nelcira Nascimento, na época da redemocratização, mobilização estudantil, houve um episódio em que você apanhou quando foi para a rua para acompanhar as manifestações. Quando foi isso? Você estava na Zero Hora nesta época?

Era legal chegar na redação e contar que tinha apanhado na passeata. Eu era repórter da Zero Hora e redator da Rádio Continental em outro horário. Mas, também militante do movimento estudantil. Não era como repórter que eu apanhava. Como repórter, eu podia ficar na passeata. Os repórteres raramente apanhavam, ficavam do lado assistindo e anotando tudo, gravando, filmando. Quem apanhava era o manifestante e eu era, ao mesmo tempo, manifestante e repórter. A gente não separava, a gente não tinha noção muito na época para separar as coisas. Depois, com o tempo, amadurecendo, fui descobrindo que isto é um erro. Você não deve misturar as coisas. Se eu estiver lá na manifestação como repórter, é como repórter que eu tenho que me comportar. Mas naquela época valia tudo porque era um regime ditatorial. A gente aceitava tudo, até os próprios chefes aceitavam tudo. Então, eu chegava na redação de vez em quando meio lanhado, machucado, porque eu tinha apanhado na passeata, mas eu não tinha apanhado como repórter, porque eu me meti, porque eu me comportei como manifestante. E no meio não tinha muito essa coisa de ser imparcial como a gente discute muito hoje. Até hoje não tem, ninguém é imparcial. Naquela época, ser imparcial significava ser a favor do regime militar. Numa época em que a democracia foi banida, não tinha sentido ser isento. Todo mundo era contra. O dono do jornal era contra, quer dizer, quase sempre. Alguns não, mas grande parte dos donos de jornal era contra o governo. Alguns jornais foram a favor: O Globo, por exemplo. Mas o diretor d’O Globo não; funcionários também não. Dificilmente teria alguém defendendo a tortura, a violência, a cassação da liberdade, a falta de liberdade política. Quando chegava ao nível do dono do jornal, era diferente. Roberto Marinho apoiou a ditadura militar, o jornal que eu trabalhei no Rio Grande Sul, o Correio do Povo, apoiava a ditadura militar. A Folha de S. Paulo apoiou a ditadura militar. A Folha, o jornal mais liberal que se tem aí, não só a apoiou, como ofereceu carros para a ditadura transportar presos pra lá e pra cá. Carros do jornal, kombis que carregavam e que distribuíam a Folha de S. Paulo foram usados pela polícia pra carregar presos. Então, havia uma diferença na época entre os donos, acionistas, alguns dos quais apoiavam a ditadura porque eram contra o regime anterior, achavam que o país estava ameaçado pelo comunismo. De maneira geral, não havia nenhuma censura interna no jornal. A censura era do governo, do regime e a imposta pelo nosso medo de dar a notícia verdadeira. Então, ninguém era isento. Hoje em dia a gente tem que cobrar isenção. Naquela época ninguém cobrava isenção. Se alguém tivesse coragem de defender a ditadura era capaz de apanhar na rua.

Em relação a esta questão da censura tem uma reportagem que vocês fizeram sobre a cassação de Amauri Müller e Lisâneas Maciel, na qual você, junto com a Neicira, José Roberto Garcez e Alda Soares, driblaram a ordem da direção da rádio que obedecia a censura. Como foi ver a reportagem ir ao ar?

Eu trabalhava na Rádio Gaúcha, que pertence à Zero Hora. Essa empresa hoje é da RSTV, associada à TV Globo. Como acontecia no jornal, a redação também era contra o governo. O chefe da redação, um cara competentíssimo, chamado Luiz Figueiredo, não era de esquerda, mas ele tolerava. Só que ele tinha uma função de controlar o exagero que a gente cometia. E a gente exagerava muito. Chegou até um momento que eu acho que nós paramos de obedecer às normas da empresa. A gente achava que não precisava mais obedecer ninguém, podia escrever o que quisesse e botar no ar o que fosse pra botar. Claro que a rádio passou a reprimir: “espera aí, vocês não podem fazer o que querem. Vocês têm que noticiar segundo a nossa linha editorial”. Nem lembro direito disso, mas era comum a gente entrar em conflito com a linha da empresa e tentar burlar esta linha. Era normal botar contrabando nas notícias. Era assim que se chamava, contrabando: informação que não devia ser exibida, porque a empresa não queria. Mas isso não foi só no tempo da ditadura militar. Este conflito entre uma redação e a direção da empresa às vezes é saudável e deve existir até hoje. Eu já fui chefe em quase todas as empresas que eu trabalhei e, muitas vezes, estive em conflito com a direção da empresa. Não permanente, porque ninguém aguenta isso, mas estava toda hora em conflito. Até pouco tempo atrás, eu estava na TV Bandeirantes e de vez em quando eu discordava do que a TV Bandeirantes pensa. Trabalhei no JB dois ou três anos e também discordava do que o dono do JB pensa. A discordância tem um nível em que ela pode ser negociada. Você negocia e tenta fazer valer suas ideias. O dono tenta fazer valer as ideias dele até que ele bate na mesa e diz: “Não, eu quero assim.” Aí, das duas uma, ou eu aceito, e isso pode acontecer, ou eu pego as minhas coisas e vou embora, que é o que de vez em quando acontece, pelo menos comigo. Por isso que eu tenho trinta e cinco anos de profissão e devo ter trabalhado em quatrocentos lugares. Eu penso assim: sou derrotado numa situação, venço noutra. É assim que funciona. Até que um dia a briga é definitiva. Isso aconteceu no JB entre mim e o Nelson Tanure, que é o dono. Um dia a gente teve uma discussão definitiva. Passou do meu limite. Pedi demissão. Não podia ficar porque, não posso entrar em conflito com o dono da empresa sendo editor-chefe do jornal. Claro que eu posso se for repórter. Eu só faço o meu trabalho e tudo bem. Mas sendo editor-chefe, não. Por isso eu saí do JB, da TV Bandeirantes, da [Rede] Globo.

A censura teve alguma consequência grave para você e para o pessoal da redação?

Não, nada, nunca. Foi divertidíssimo. Vocês vão entrevistar uns caras que vão dizer assim, “oh, sofremos muito na ditadura”. A gente chamava de chaguistas, os caras que vivem mostrando as chagas. “Fui torturado”. A minha geração, não. Ninguém apanhou. Apanhou fora, a não ser em passeata. Ninguém foi torturado, ninguém deixou de crescer profissionalmente por causa da ditadura. Pelo contrário, a ditadura escondeu muita mediocridade. Muita gente medíocre, sem talento se protegeu na ditadura. Por causa da ditadura a gente não perseguia ninguém na redação, não ninguém era demitido, a não ser por razões políticas. Então sempre que alguém era demitido, chegava no bar pra contar a história, “pô, fui demitido”. “Por quê?”. “Ah...porque eu sou de esquerda, sou comunista, sou do sindicato”. Nunca ninguém foi demitido e disse, “ah, porque sou incompetente”. Até hoje ninguém diz que foi demitido por isso. Mas tem muita gente demitida por incompetência, o que não quer dizer que o sujeito seja incompetente por qualquer coisa. Mas a ditadura protegeu muita gente incompetente. E muita gente deixou de ser demitida por causa da ditadura. Viver de uma profissão em que o fundamento da profissão é relatar, pelo menos, a sua verdade, a verdade que você viu na rua, e ser censurado nesta função, neste dever, isso é frustrante. Muita gente bebia. Não era raro, tinha gente que bebia pra caramba porque se frustrava, porque não conseguia contar. A gente via coisas acontecendo e não conseguia contar. Sabíamos que tinha coisa acontecendo, que tinha gente torturada, amigos presos. E a gente não via isso no jornal, os jornais não davam. Esse tipo de frustração existe até hoje, continua havendo sofrimento dos outros e como diz uma música, “a dor da gente não sai no jornal”. Quer dizer, a dor das pessoas continua não saindo no jornal, só as que interessam. Só sai no jornal a dor que sai na agenda da imprensa. A agenda da imprensa neste momento é a dor dos mortos do vôo 447. Quando esta dor passar, daqui a pouco a imprensa vai escolher que dor que tem lugar ali, que dor vai entrar no Jornal Nacional, por exemplo. E não é a dor de todo mundo que entra no Jornal Nacional. Isto não é diferente daquela época. Naquela época, a dor das pessoas vítimas da ditadura, dos estudantes que não tinham acesso, não dos que tinham liberdade para se manifestar, do povo que não podia eleger seus governantes, essa dor, esse sofrimento, frustrava, e frustrava também aos jornalistas, tanto quanto os outros, mas até um pouco mais, porque a gente se sentia limitado na função que achávamos mais digna e bonita que é contar tudo. É quando a gente descobre que não é essa a nossa função também. A gente está ali pra contar o que o dono do jornal acha que é notícia e a gente vai aprendendo com o tempo a pensar como ele. A gente não pensa muito diferente de dono de jornal. Eu trabalhei no Jornal Nacional e não foram muitas vezes que eu discordei com o dono de O Globo. Com a experiência, com a convivência, a gente acaba pensando do mesmo jeito.

Cai num princípio de assessoria de imprensa, o que é noticiável.

Assessoria de imprensa não é jornalismo. Digo isso com isenção, porque hoje eu sou assessor de imprensa. Não considero isso jornalismo. Mas é muito frustrante quando você é assessor de imprensa. Eu já fui e sou há algum tempo. Você acha que tal coisa do seu cliente é notícia, você tem certeza que é. Mas os jornalistas nem sempre acham. Você vai se frustrar.

Na sua época as redações eram divididas entre os jornalistas com diploma e os sem diploma?

Na minha época a maioria não tinha diploma. Quando eu comecei, não era exigido o diploma. Em meados dos anos 1970, foi época da transição, já havia faculdade de jornalismo. Eram as primeiras. Digamos assim, era a primeira geração dos jornalistas. Havia duas ou três turmas de jornalistas formados no país inteiro. Então, tinha uma transição aí. Porque era uma transição, a exigência de diploma não era rigorosa. Por exemplo, eu era jornalista, vivia disso, já trabalhava há três anos e estava fazendo o curso. Aí, quando veio a lei que obrigava o uso do diploma, eu teria que ser demitido. Mas o sindicato ao qual eu pertencia decidiu fazer uma transição durante não sei quantos anos, quem já trabalha comprovadamente na profissão, mesmo não sendo formado, recebeu o registro profissional do Ministério do Trabalho. Uma vez registrado profissionalmente, você não precisava de diploma. E eu peguei esse privilégio e abandonei o curso. Eu só queria mesmo o diploma, não estava interessado de fazer o curso.

Como era esta redação?

A redação, eu não sei o percentual. Digamos que ela fosse assim, um terço de gente antiga que nunca pensou fazer curso, gente mais velha, como eu sou hoje. Por exemplo, cinquenta anos, mais de quarenta, que nem pensava em fazer curso. Começou nos tempos românticos em que o jornalismo era uma profissão de qualquer um que soubesse escrever. Muita gente ligada à literatura, letras, quem soubesse escrever podia ser jornalista. Um terço das redações era assim. O outro terço, digamos que fosse gente como eu na época, que estava na transição, que começou nessa fase em que não era preciso, mas estava fazendo curso porque era gente mais jovem que queria ser jornalista formado, ter diploma. E o terço restante, se tanto, de gente realmente jovem que estava começando e só estava entrando porque tinha curso e queria fazer.

Qual a influência desta mistura na redação?

Era boa, porque já que a gente não aprendia nada na faculdade, os professores de jornalismo da época eram ruins porque não tinham sido jornalistas. Era uma redação que tinha muita gente antiga e era com essas pessoas que a gente aprendia. Hoje não tem tanto.

Qual é a diferença entre a redação daquela época e a de hoje?

A redação de hoje é uma redação muito jovem, com algumas vantagens em relação àquela época, é menos romântica. As redações de hoje têm uma noção muito mais precisa de que aquilo é um trabalho, você está ali para trabalhar, você sustenta a sua família a partir do salário que recebe ali. Tem que ter um trabalho digno, bem remunerado (de preferência), com hora-extra, se você quiser hora-extra, em que as leis trabalhistas sejam cumpridas, que a divisão de trabalho seja justa e que você seja recompensado pelo que faz.

Você passou também pelo Correio do Povo, você já era estagiário ou já era repórter?

Aí eu já era repórter. Eu fiquei só um ano na Zero Hora como estagiário, depois fui repórter da Zero Hora, produtor e editor da Rádio Gaúcha, isso tudo com aquela Rádio Continental mais ou menos junto. Tinha uma época que eu tinha três empregos, porque os salários eram muito baixos. Agora também são. Isto é uma coisa que está ficando igual de novo. Hoje em dia estão pagando tão mal quanto pagavam naquela época. Eu peguei as duas fases: a fase romântica, em que se pagavam mal, mas a gente se divertia muito, depois uma fase de profissionalização, muito boa, que coincidiu com a criação dos cursos e a exigência do diploma, que profissionalizou, as redações cresceram, ficaram enormes. Quando eu fui editor-chefe adjunto do O Globo, eu cheguei a ter uma redação com quinhentas pessoas. É gente pra caramba. Hoje O Globo deve ter cento e tantas pessoas. Teve uma fase de inchaço. As redações cresceram muito. Tudo ficou grande. A TV Globo, onde eu trabalhei na época, peguei um pouquinho do início da decadência. Repórter ganhava trinta, quarenta mil. Os contratos que eu assinava com os repórteres eram nesse valor, quarenta mil reais. E eu fui um dos que começou a implantar, em Brasília, como diretor, salários de dois mil e quinhentos, três mil reais. Começou um pouco comigo, quer dizer, todo mundo em Brasília tinha que fazer isso. Quando todo mundo ganha trinta, pouca gente trabalha, tem vaga pra poucos. Começa recebendo. Minha vida profissional começou assim, ganhando mal, depois uma fase intermediária, que os salários eram altos e as redações enormes e passamos, de uns dez anos pra cá. A fase atual é de enxugamento das redações e redução de salários. Hoje, o jornalismo é uma profissão de mulheres. Não tem mais homem fazendo jornalismo. Nas redações tem cada vez menos homens. Porque que tem menos homem? Porque o salário diminuiu, e de certa maneira, os homens continuam sendo a renda principal de um casal. Então a mulher aceita ser jornalista, o homem vai ter que ser engenheiro, funcionário público, fazer concurso, e a mulher vai se aventurar em algo que dá prazer.

Você começou a trabalhar com assessoria nos anos 1980?

Eu trabalhei com o Brizola seis meses, no primeiro governo dele, na Assessoria de Imprensa. Na verdade, essa foi uma assessoria meio diferente do normal, porque eu concordava com ele, eu era brizolista. Eu tinha saído do Partido dos Trabalhadores e virado pedetista [filiado ao Partido Democrático Trabalhista, de Leonel Brizola, PDT]. Foi o único caso que eu concordei até hoje. Na prática, digamos que eu trabalho com o demônio dois, três anos. É quase natural que eu comece a concordar com o demônio, porque eu começo a pensar como ele. Eu tenho que pensar como ele, pra entender o que ele quer. Eu tenho que pensar como ele, pra escrever por ele. Porque uma das funções que um assessor de imprensa tem, é de ghost writer. Eu já escrevi artigos para gente que vocês nem imaginam, piores que o demônio. Uma das coisas que ghost writer nunca pode fazer é dizer pra quem ele escreveu. Senão ele deixa de ser ghost writer.

Como colaborador de colunista?

Não, colaborador de colunista é um profissional.

Mas não levam fama...

Hoje em dia eles até assinam, antigamente não assinavam. Mas o assessor de imprensa de um político, por exemplo, ou de dono de uma empresa polêmica, assessor de imprensa de uma empresa de cigarro, fábrica de cigarro, poucas empresas no mundo são tão criticadas, como fábrica de cigarro, faz mal, causa câncer, causa infarto. Então, assessor de imprensa da Souza Cruz ganha bem, faz um bom trabalho, tem que buscar argumentos a favor da Souza Cruz. Vai chegar um momento em que, sem se dar conta, ele vai concordar com a Souza Cruz, porque ele está pensando como ela. Isso não o torna indigno. No dia em que ele sair da Souza Cruz e passar a ser assessor de imprensa de uma ONG [Organização Não Governamental] que é contra a Souza Cruz, ele vai passar a pensar como esta ONG. Ser assessor de imprensa de alguém, com o tempo, leva você a começar a concordar com essa pessoa. Concordar não, pensar como ela. Se eu sou assessor de imprensa de alguém e tenho que escrever artigos pra ele, como se fosse ele que tivesse escrito, eu tenho que escrever como ele, as ideias dele, não minhas. No caso do Brizola, eu considero uma assessoria diferente, porque neste caso, eu concordava e foi o único caso. Eu era brizolista, gostava do Brizola. Eu vim pro Rio quando ele se elegeu governador pela primeira, em 1982, mas eu vim em 1983. Eu vim porque eu gostava dele, concordava com ele, tanto que ele não me pagou durante seis meses e mesmo assim eu fiquei. Só no sexto mês sem receber é que eu pedi emprego no O Globo. Aí mudei de profissão, sim, porque eu não considero assessoria de imprensa, jornalismo. Aí voltei a ser jornalista.

Quando você foi assessor de imprensa do Senado...

Aí trabalhei diretamente com o Moreira Franco, dei assessoria pro Moreira Franco. Fui diretor de Comunicação Social do Senado em 2001, 2002. Fiquei só três meses. Briguei com todo mundo.

Você recebeu muitas críticas. Algumas pessoas dizem que você manipulava notícias para favorecer o Senado...

No Senado? É verdade. O Senado tem um clipping que bota as notícias sobre os senadores na imprensa independente e distribui ao país inteiro pela internet. É uma replicação das notícias sobre cada um dos senadores, para que elas sejam lidas por um público maior. Tinha tudo o que saiu na imprensa sobre cada senador. Aí uns caras botaram no clipping notícias contra os senadores. E eu mandei cortar. Os jornais, as tevês podem dar notícia contra os senadores. O Senado, não. Tente imaginar o seguinte, você é assessor de imprensa de uma empresa, e aí você distribui para a imprensa todas as notícias ruins sobre a sua empresa, as denúncias, as críticas. Você não está lá pra isso. Você está lá para responder às críticas que essa empresa recebe e para divulgar notícias positivas. Foi o que eu fiz no senado. A imprensa divulgava, claro. A Folha de S. Paulo dava, o Estadão dava, O Globo, todos os jornais divulgavam notícias ruins sobre o Senado, que, aliás, é a coisa mais fácil do mundo. Eu apenas disse o seguinte, “nós, o Senado, não vamos fazer isso. Nós não vamos divulgar notícia ruim, deixa que a imprensa faça isso, a imprensa independente”. Assessoria de imprensa não pode dar notícia ruim do seu cliente. Ela tem que explicar a notícia ruim do seu cliente. Tentar explicar. Às vezes não tem como. Você não precisa proibir ninguém de entrar pra fazer a matéria, isso eu nunca fiz. As pessoas entravam à vontade, faziam a matéria que quisessem, perguntavam o que quisessem perguntar, entrevistavam qualquer senador. Só que no boletim do Senado não sairia notícia ruim. Um exemplo de notícia ruim que saiu foi quando eu tive um ataque. O Suplicy na época estava se separando da Marta. E ela estava traindo ele com um francês. E saiu na Folha de S. Paulo uma notícia falando que ele era corno, revelando que ele estava sendo traído pela Marta, sua mulher. E isto saiu no boletim do Senado. Isto não é notícia para sair no clipping do Senado. Nós não temos que dar divulgação a isso. E foi aí que eu passei a fazer censura. E foi mesmo, censurei. Não nego isso. Só que eu não aguentei trabalhar lá no Senado.

Estas críticas partiam dos funcionários?

Do Partido dos Trabalhadores, dos funcionários petistas, protegidos do Jáder Barbalho. Petista adora uma boquinha quando se junta com o que tem de pior, pra proteger o emprego, pra se manter. Como tinha chegado da TV Globo e não era da patota, daquele grupinho do PT, eles me tratavam como inimigo, como o cara que veio para profissionalizar a Assessoria de Imprensa. O que eu de fato queria fazer, mas eu não pensava que fosse tão difícil. Se eu soubesse que era tão difícil nem teria tentado.

De onde partiu o convite pra você trabalhar lá?

Do presidente do Senado, na verdade de um headhunter, um cara que eu não conheci, um pesquisador aí, foi chamado pelo presidente do Senado e disse, “eu preciso de um chefe, de um diretor de Comunicação Social”. Aí o cara procurou no mercado e por acaso eu tinha acabado de sair da TV Globo, em Brasília. Estava desempregado e ele me chamou. Eu não conhecia nenhum deles. E aceitei, porque era uma grana boa. Só que me arrependi. Foi o pior emprego que eu tive até hoje.

Você acabou saindo de um não jornalismo para um jornalismo?

Qual?

Do Senado...

Não. Eu saí da TV Globo, que é jornalismo, e fui para assessoria. Eu falo que assessoria não é jornalismo, mas eu não falo de maneira preconceituosa. Tanto que eu faço sem problema algum. Se o trabalho for digno e suportável, eu faço. Eu estou fazendo isso hoje. Estou fazendo consultoria, que não é jornalismo, pois o que eu escrevo não é verdade. Se eu sou assessor de imprensa do Mc Donald’s, o eu que escrever ali não é verdade. O que eu escrever ali é o que o Mc Donald’s quer que eu escreva. O meu release é de interesse do Mc Donald’s. Se é de interesse do Mc Donald’s não é verdade. Pode ser verdade. Mas quem recebe no jornal tem que desconfiar. “Por que eu vou acreditar no release de assessoria de imprensa do Mc Donald’s?”. Se for uma coisa polêmica, se for anúncio de lançamento de novo sanduíche, aí não interessa. Mas se alguém acusou o sanduíche de não ter carne, por exemplo. Uma polêmica, aliás vive tendo essa polêmica, “a carne do Mc Donald’s na verdade é de soja”, o que é uma sacanagem com o Mc Donald´s. Eu acho que tem carne mesmo. Eles não iam cometer essa maluquice com todo mundo podendo denunciar. Polêmica, o Mc Donald’s tem carne ou soja? O assessor de imprensa vai dizer assim, “estudos feitos...têm tantos por cento de carne...”. Quem recebe isso em um jornal precisa desconfiar. Pode ser útil, mas tem que desconfiar. Não é uma informação verdadeira necessariamente porque ela parte de alguém interessado. Por isso não considero jornalismo.

Como foi seu início n’O Globo? Você falou que deixou de receber...

[Brizola] passou seis meses sem me pagar, aí eu fui pedir emprego em O Globo. Consegui o emprego de redator de política.

E como estava estruturada a redação nessa época? Era diferente da redação de 1970?

Não. Era totalmente antiga. Não existia computador nessa época. Você não deve imaginar que existia um mundo sem computador e sem celular. Incrível isso. Não tinha telefone celular. Ninguém tinha telefone em casa, a gente entrava na fila e demorava dois anos para conseguir, quando não passava disso. E já estava pago. A gente só falava de orelhão. Computador não tinha e sim máquinas de escrever em mesas de ferro.

E como era entrar na redação de O Globo?

Eu não sei. Eu tive sorte.

E como era O Globo, nessa época?

Já era o jornal mais vendido do Rio, o segundo maior jornal do país em tamanho. Era mais ou menos como é hoje, o primeiro ou o segundo, brigava com a Folha de S. Paulo. Mas o Jornal do Brasil também era um jornal muito importante. O Globo vendia mais, mas o JB tinha mais prestígio. Era muito disputada vaga na sua redação. Mas, como te falei, a redação era grande. Na época, tinha muita gente trabalhando nos jornais. Sempre tinha um saindo, outro entrando. No dia em que eu fui pedir emprego lá não tinha vaga. Os lugares em que eu conversei não tinham vaga. Só que aí, por acaso, eu estava indo embora e tinha um cara na redação, um carioca que morou comigo no Rio Grande do Sul três meses e nós brigamos. Foi morar comigo na época em que as pessoas se juntavam para alugar apartamento juntas. Esse cara trabalhava em O Globo. Ele me viu e eu nem vi que ele estava lá. Eu entrei, saí, ninguém me deu o emprego, fui embora e aí ele foi perguntar para o cara com quem eu tinha falado e ele disse que conhecia o Marona. Aí ele me indicou pra ser o redator de O Globo. Por acaso tinha uma vaga, ele me indicou e eu entrei. Não teve nada de currículo, foi por acaso. Aí virei redator de política.

Você permaneceu dez anos em O Globo?

Onze anos.

Onze anos com política?

Não. Eu trabalhei em assessoria de política primeiro. Depois fui para Brasília onde trabalhei em nacional, que é diferente de política. Política é só política mesmo. Nacional inclui previdência social, aposentadoria, saúde, outras áreas.

E você começou na política?

Comecei na política, como redator. Aí fui coordenador de política de Nacional na sucursal de Brasília. Depois voltei para ser editor adjunto de política no Rio. Voltei dois anos depois. Eu perdi a ordem das coisas, mas também não tem como lembrar a data. Aí briguei e saí do Globo. Fiquei quase um ano fora. Briguei, pois fizeram uma sacanagem comigo, aí saí. Fiquei nove meses fora. Aí voltei para ser chefe de reportagem de Cidade, da editoria Rio, como chamam aí. Depois fui editor de Cidade, editor de Esportes, durante a Copa de 90, isso eu lembro. Depois fui editor de Política e depois fui para o aquário, como dizem lá, quando você vai para o comando da redação. Aí fui editor executivo e virei editor chefe adjunto quando saí para ir para a TV Globo para ser editor chefe do Jornal Nacional.

Quais são as principais diferenças entre essas editorias?

Só o assunto. É tudo a mesma coisa. Tem funções muito diferentes. Por exemplo, tem uma função que é muito ingrata que é a de chefe de reportagem de Cidade, naquela época. Hoje eu não sei como é porque tem pouca gente. Eu fui chefe de reportagem em uma época que tinha 46 repórteres. Era uma função muito difícil, porque você chega às oito da manhã para trabalhar e tem que ter pauta para 46 pessoas. Um grupo desse tamanho, de 40 pessoas - sempre tem uma ou outra de folga, chega na sua frente todo dia de manhã ou ao longo do dia, alguns chegam à tarde, chega na sua frente e pergunta, “E aí? O que é que eu vou fazer?”. “Ah você vai cobrir o choque de ordem na Tijuca”.. para 46 pessoas não é fácil. E tem que ter. Nessa época, o jornal ainda tinha uma coisa que hoje não tem mais, o pauteiro. É o cara que fica de madrugada bolando coisas. Na verdade, ele não bola muita coisa. Ele escreve em um papel e coloca no computador aquilo que é obrigatório fazer. Por exemplo, agenda: “Dilma Roussef estará no Rio, amanhã, às dez da manhã, para inaugurar uma obra do PAC”. “Sérgio Cabral inaugura ao meio dia não sei o que”. “Eduardo Paes vai derrubar um prédio junto com Rodrigo Bethlem no Recreio dos Bandeirantes, que é um prédio ilegal”. Essas coisas já ajudam, pois você pode pensar: vou colocar esse repórter aqui e tal. Tem jornal que não tem mais isso. Você tem que estar com isso na cabeça. Na véspera, você tem que ir fazendo isso enquanto está planejando, fazendo o jornal do dia. Então, essa função é muito cansativa.

As mudanças entre essas editorias são comuns?

É muito comum. No Globo é muito comum. Hoje, já não sei se é tanto. Na época que eu trabalhava era comum. Você ficava um ano em um lugar, o jornal tinha interesse em fazer rodízio. Pelo menos com aquelas pessoas que o jornal apostava profissionalmente. E colocava para fazer cursos, mandava para o exterior estudar. Essas pessoas escolhidas pelo jornal, um grupo de dez, quinze, vinte pessoas, ele fazia circular pelo jornal inteiro porque no fundo está preparando essas pessoas para escolhê-las para funções maiores. No meu caso foi assim. Eu fui treinado no Globo. Entrei como redator e saí treinado para acabar sendo editor-chefe adjunto. Teoricamente, se eu tivesse continuado lá eu teria virado editor chefe, se eu não tivesse feito meio que uma besteira, mas eu saí.

É o chefe de reportagem que divide os grupos para fazer as matérias?

Sim. Por exemplo, ontem ou anteontem que esse avião caiu, eu tenho que mandar repórter para, digamos que tenha sedes em locais diferentes, a sede da Air France no centro do Rio. Tem que mandar porque lá vai ter muita coisa acontecendo. Eu tenho que mandar pelo menos uns três repórteres para o Galeão porque lá vai ter muito parente de gente que viajou chegando.

Não necessariamente vai haver apenas um repórter para cobrir matéria, não?

Eu estou dando um exemplo de que apenas um só não basta. Não dá para mandar só um repórter para o Galeão naquele dia que caiu o avião. Um só não vai conseguir. Chega um parente chorando, ele aborda o parente, “e aí, tudo bem? Qual é a emoção de perder um parente em pleno vôo?”. Enquanto você está abordando um parente podem ter mais três ou quatro chegando mais importantes, porque, infelizmente, as pessoas têm importâncias diferentes. Pode chegar algum parente de alguém como eu, por exemplo. “Morreu o jornalista Mário Marona”. E daí? Cinco linhas. Mas pode chegar o parente do cara da Michelin, o presidente recém nomeado da Michelin da America do Sul morreu também. Só um repórter vai enlouquecer fazendo isso ou vai fazer uma coisa que é muito ruim no jornalismo que é trocar figurinha. Você ficar pedindo ajuda para colegas. “Eu faço uma, você faz outra e depois a gente troca”. Como ato de sobrevivência entre os repórteres, não tem outra coisa para fazer, tem que fazer mesmo. Mas, para o jornalismo, é ruim porque você apura um pedaço e rouba de outros o que não foi apurado e oferece o que você apurou para eles. O ideal, em um caso como aquele, é mandar pelo menos três repórteres para o Galeão. E, depois que esses três tivessem terminado sua jornada de trabalho, eu os substituiria por outros três. Eu teria mandado mais um para aquele hotel Windsor, onde os parentes estão sendo mandados. Enfim, aí tem que colocar gente para ouvir especialistas que a gente chama de “ólogos”: sociólogos, politicólogos, comunicólogos, gente que entende de qualquer assunto. Então, tem que colocar um para ouvir especialista de acidentes, um para ligar para o fabricante da União. Isto é uma cobertura que mobiliza até dez pessoas ou, pelo menos no meu tempo, mobilizava quando se tinha dez pessoas. Eu fui editor- chefe do Jornal do Brasil dois anos atrás e o JB tinha dez repórteres. Portanto, não dá pra colocar os dez em um assunto, pois outras coisas vão deixar de ser feitas. O JB não pode colocar dez repórteres para cobrir um evento, pois o jornal não tem esses repórteres trabalhando na empresa. O Globo ainda tem. A fase ruim do JB já tem 15 anos. Eu peguei um pedaço dela. Eu peguei agora, há dois anos e meio atrás. Demiti um monte de gente. Demiti 39.

Isso facilita para “trocar figurinhas” entre os jornalistas...

Facilita. Para a empresa é bom, para o jornalismo é péssimo. Para que eu vou mandar dez, se eu sei que você vai chegar lá e vai trocar com os outros de qualquer jeito? Eu vou te cobrar tudo. Você vai ter que trazer todos os parentes, uma frase de cada um. Você vai ter que se virar e conseguir. Aí você vai pedir pelo amor de Deus, vai trocar por beijos, sei lá. De alguma maneira você vai trazer informação sobre os dez. Não quero saber como você conseguiu. Mas é ruim. O ideal é levar mais dois contigo. Vocês se dividem. “Eu fico aqui, você fica ali”. Só para terminar, pra você ver como isso é importante. As melhores histórias você não consegue fazer e por quê? Você vai pegar duas linhas de cada um, nome, quem era e uma choradinha lá. O cara dá uma choradinha básica você anota e acabou. E a história espetacular que algum daqueles caras pode ter? O vôo que ele perdeu, o segundo acidente que ele está passando porque ele também já perdeu a mãe...a vida da pessoa, que é o que interessa no dia seguinte, uma história maior, mais densa, ninguém tem tempo de fazer. Você está sozinho, como você vai fazer? Com mais gente, faz. Essa madrugada eu ainda estava lendo histórias muito legais que estão aparecendo, mas que já tinham de ser contadas no primeiro dia. Mas não dá tempo, pois não tem repórter para fazer. Eles vão descobrindo aos poucos.

Nas editorias que você trabalhou, teve alguma preferência? Esporte é mais divertido?

É quase a mesma coisa, né? A técnica de trabalho nas editorias é basicamente a mesma. O estilo de trabalho é outro. Esporte, por exemplo, é a única editoria do jornal que as pessoas se divertem trabalhando. Quem faz Esporte gosta de esporte. É a única editoria do jornal que as pessoas saem do jornal e continuam falando do trabalho. Quando você trabalha na política, por exemplo, vai para um bar beber com os amigos, você vai falar sobre a vida, você não vai falar de política. Esporte não. Você continua falando do Adriano que joga melhor que o Ronaldinho...os caras gostam tanto de esporte, os caras porque no meu tempo a maioria era homem. Hoje até isso já está mudando, com bastantes mulheres, embora menos que homens. Homens e mulheres gostam de esportes. E aí falam muito de esportes. Só falam disso, não pensam em outra coisa. É o único lugar que você chama o cara para trabalhar fora do horário dele, ele vem numa boa. Esporte é diferente do resto. De certa maneira, Segundo Caderno, eu nunca trabalhei, mas eu sei, é um pouco assim também. O cara que faz cinema, as pessoas que trabalham lá adoram cinema. Ninguém precisa mandar ele ver o filme. Provavelmente ele já viu, já pegou na internet, pois quer saber logo do filme. Ele é ansioso por isso, ele gosta disso. Agora, Política, Economia, Internacional, Cidade são assuntos que as pessoas podem até gostar, mas elas não pensam nisso vinte e quatro horas por dia.

Como você vê essa questão de um esportista que se aposenta e vira comentarista?

Acho ótimo. Tenho que fazer uma declaração de princípio aqui. Acho dispensável o diploma de jornalismo. Eu não sou a favor da exigência do diploma. Não sou contra a existência do diploma. Já fui. Eu já fui até contra a existência do curso. Minha posição antigamente era que não deveria existir curso de jornalismo. As pessoas deveriam fazer cursos mais sérios e qualificados. Por exemplo: engenharia, direito, medicina, curso de ciências exatas, que têm mais cultura e fazer um ano de extensão em jornalismo, como era nos EUA. Nos EUA tem curso de jornalismo, mas também você pode ser jornalista assim, você se forma em direito e gosta muito de escrever, tem vocação para isso, gosta e escreve bem, por exemplo, ou gosta de televisão. Você faz um ano de técnica de televisão, técnica de jornal. Já que você aprendeu direito, você aprende a escrever para gente, não para advogados, você aprende a fazer textos fáceis de entender, sem perder densidade, você se prepara para ser jornalista, aprende técnicas de jornalista. Em minha opinião, você pode em um ano de um curso bem feito aprender todas as técnicas que o curso de jornalismo ensina em quatro anos e meio na faculdade. Acho que dá. Estou falando de técnicas, não de cultura como as teorias da comunicação. Teoria você pode passar a vida inteira estudando. Então, eu sempre fui contra o diploma obrigatório. Hoje eu defendo a existência do diploma. Acho que o jornalista tem que ter diploma universitário, não necessariamente de jornalismo. Portanto, acho ótimo que o Tostão, para dar um exemplo, que é médico e sabe escrever, escreve super bem, o texto dele é agradável, acho muito bom que ele seja comentarista de futebol. O cara não é só médico, ele sabe escrever e se tornou jornalista, faz isso já faz mais de dez anos e foi um dos maiores jogadores de futebol que o Brasil já teve. Ele ganhou uma Copa do Mundo em 1970. Esse cara sabe mais de esportes do que qualquer jornalista de esportes. Não tem como ele não saber, ele estava lá. Ele sabe o que pensa um jogador, como reage e a relação do técnico com os jogadores dentro e fora do campo, no vestiário. A informação dele é extremamente útil. Por mim, ele pode ser jornalista. E, nesta função dele ninguém pode ser melhor do que ele. A não ser que ele seja burro. Ou seja, ele passou tanto tempo fazendo isso e não aprendeu nada. É o caso da maioria dos jogadores. Minha opinião pode ser até preconceituosa, mas a maioria dos jogadores de futebol é gente despreparada culturalmente, está vivendo as coisas e não está entendendo nada. Não é a toa que um jogador como o Adriano ganha um milhão e quinhentos mil reais por mês na Itália e abre mão disso para ganhar 200 mil para ficar perto da favela onde ele nasceu. Isso pra mim só tem um nome, ignorância. Acho que o Adriano não tem a menor condição de ser jornalista. Mas o Tostão tem. O Tostão já era inteligente antes de ser jornalista. Ele era inteligente como jogador. Quem mais é inteligente, por incrível que pareça, acho o Ronaldo inteligente. Ele é meio maluquinho, mas é inteligente. Não pode ser burro o cara que faz o que ele faz. Quebra um joelho, seis meses depois está de volta. Quebra o outro e seis meses depois está de volta. Isso não é uma coisa só física, é mental também. Acho que esse cara terá condições, se souber escrever, de ser um bom jornalista. Tem o Falcão, por exemplo, na [Rede] Globo. Ele é bom comentarista e nunca fez jornalismo. Ninguém pode ser proibido de ser jornalista. Você pode ser proibido de ser médico, mas jornalista não, porque não é uma ciência exata. É bom senso, curiosidade, capacidade de escrever ou de contar uma história. Aí estou dando uma colher de chá pra quem é de televisão. Tem gente que é de TV e não sabe escrever. Mas sabe contar uma história. Pois bem, pode ser jornalista de TV, mas não de jornal.

Você trabalhou na Sucursal de Brasília de O Globo. Gostaria de saber como era a organização da cobertura política.

A grande diferença é que tinha mais gente. Tinha mais gente também por razões óbvias. Eu trabalhei na sucursal de O Globo no tempo da Constituinte, em 1988, quando era natural ter muita gente na [editoria de] Política. Na verdade, eu não era da Política, era da Nacional. Minha equipe tinha dez repórteres. A equipe de Economia tinha mais ou menos dez também e a de Política, uns vinte repórteres porque era a Constituinte. Se não houvesse a Constituinte, na época, ela ia ter também uns dez repórteres. Era um período atípico, o país inteiro estava preocupado com a nova constituição, a cobertura era parecida com o que é hoje. Eu ousaria a dizer, mas não me arriscaria muito, que naquela época era uma cobertura mais isenta. Os donos dos jornais tendiam a concordar mais na época com o que se chama de centrão, as pessoas politicamente de centro. E as redações eram de esquerda, como são até hoje. Naquela época, as redações eram petistas ou gostavam do PT. E os donos eram da Arena [Aliança Renovadora Nacional], de direita. Sempre foi assim. Os donos de jornal são mais conservadores do que quem eles pagam para fazer o jornal. E aí tem que ficar controlando os caras se não vira bagunça.

Você voltou para a Editoria Rio...

Não. Eu saí de Brasília e fui para a editoria de Política do Rio. Fui para editoria Rio só quando eu saí de O Globo. Briguei, saí e voltei. Foi no início dos anos 1990.

A violência já tomava conta da maior parte do jornal?

Não. A violência não tinha muita importância. Não era tão importante assim utilizar a violência para atacar os governadores da época. O jornal não gostava do Brizola, mas não precisava atacar o Brizola pelo lado da violência. Atacava por outras coisas. O jornal mentiu durante anos que o Brizola era ladrão. Mentira, ele não era ladrão. Mas o ataque ao Brizola era por esse caminho, ladrão, corrupto. Aí depois veio o Moreira Franco, do gosto do jornal. Depois do Moreira veio o Garotinho. Aí a violência passou a ser importante com o Garotinho. Não porque ela aumentou, ela continuou sendo tão ruim como ela era antes, só que o Globo precisava de algum motivo para atacar o Garotinho. Aí passou a tratar a violência como algo importantíssimo, mesmo não sendo. Os jornais passaram a tratar a violência como um escândalo. Criar uma sensação de insegurança muito maior do que a real. E é de fato maior do que a real. O medo que a gente tem no Rio de Janeiro é muito maior do que o medo que o Rio de Janeiro deveria provocar. E o Rio de Janeiro não é mais violento que o Recife, Belo Horizonte, Porto Alegre. Mas a gente pensa que é o lugar mais violento do mundo porque a imprensa faz a gente pensar assim. Interessa porque é uma maneira de atacar os governos. Agora está melhorando, parece. Mas só porque o jornal gosta do governador Sergio Cabral. Então vai aparecer que a violência diminuiu. Nem aumentou naquela época e nem vai diminuir agora, vai continuar igual. Certamente está aumentado. A cidade aumenta, as favelas aumentam. A capacidade do tráfico cresce e tudo vai aumentando. As pessoas passam a consumir mais drogas e pagar mais para os caras. As pessoas continuam comprando mais drogas, patrocinando a compra de armas. A violência vai aumentar normalmente, se é que existe alguma coisa normal nisso. Só que dependendo do interesse político do jornal, parece que aumentou muito mais. Toda matéria sobre tiroteio em algum lugar aqui no Rio sobe o som de tiros. Parece que você está no Iraque. Eu fiz isso na TV Globo. “Dá um brilho aí nesses tiros”. Bala traçante é uma só, mas ela passa quinze vezes. Eu estou há vinte e cinco anos no Rio e nunca fui assaltado. Meu filho foi assaltado uma vez só. Tinha aula no Fundão, apontaram a arma na cabeça dele e não fizeram nada. Ele entregou o que tinha e nem o carro os caras quiseram. Em Porto Alegre, meu irmão do meio foi assaltado três vezes e as três vezes com arma na cabeça de um filho de três, quatro anos de idade. Até que na terceira vez, ele se mudou para o interior de São Paulo. Ele chegou à conclusão que Porto Alegre está insuportável. Porto Alegre é violenta. É uma cidade de dois milhões de habitantes e o Rio tem oito. Então, alguma coisa está errada nessa sensação de insegurança nossa. Isso não quer dizer que qualquer um de nós não esteja sujeito a ser assaltado, mas em qualquer lugar do mundo acontece. Menos em Nova York, que agora tem mais policiamento. Em Paris, se não for para o subúrbio, dificilmente você vai ser assaltado.

Quais eram os principais temas da editoria de Cidade?

Depende do gosto do editor. Eu, particularmente, não gosto de fazer noticiário só de violência. É um saco. Tem assuntos que são muito óbvios. Eu tento evitar. Eu gosto muito de matérias de comportamento, tendências, novidade no Rio. Histórias humanas, personagens da cidade, perfil de gente interessante. Eu gosto muito. É um interesse até pessoal, de urbanismo. Eu acho que em uma cidade como o Rio, tem que ter isso. Não pode deixar de dar a violência para não ficar uma coisa muito frufru, muito fresca. Mas tem que equilibrar um pouco. Ninguém aguenta pegar o jornal todo dia e só ler notícia de polícia. Se eu for pegar o Globo hoje, só tem dois tipos de notícia, a policial mesmo ou de choque de ordem, que também é violência. Ambas as notícias são importantes, mas falta alguma coisa. Essa cidade é uma cidade de praia, uma das cidades mais bonitas do mundo. É uma das poucas cidades do mundo que você pode andar de bermuda e chinelo. As pessoas andam com pouca roupa. É uma cidade bonita, as pessoas são bonitas, os homens e as mulheres são bonitos e isto não aparece no jornal. Uma cidade que tem sol. O perfil do Rio de Janeiro não aparece no jornal. Não aparece mesmo.

E como você analisa a abordagem do RJTV, por exemplo?

Eu não vejo mais. Eu não posso acusar o RJ de seguir essa mesma linha. Eu vi, algumas vezes, o RJ do meio-dia e tem uma mudança recente que me agradou, com muitas entradas ao vivo. Isso eu acho bem legal. Para um noticiário local, eu acho bem legal mesmo que seja pra falar de coisa ruim, “estamos aqui na Baixada Fluminense, está faltando água aqui”. Problemas locais da comunidade, mas com entradas ao vivo e com uma informalidade bem maior entre os dois apresentadores. Isso não é do meu tempo, no meu tempo não era assim, era mais rígido. Tudo era imitação do Jornal Nacional. O RJ precisava se soltar um pouco e isso está me agradando. Agora não posso dizer se o conteúdo é o que eu estou defendendo. Eu não vejo todo dia. Desde que eu passei para a televisão, eu tenho evitado ver televisão. Eu não gosto tanto de televisão quanto gosto de jornal. Eu gosto de jornal, eu gosto de escrever. Para mim, a essência da profissão é texto. Televisão também é texto, mas é outro tipo de texto. Televisão tem uma coisa que me desagrada que é a superficialidade. O jornalista de TV é o mais superficial de todos e isso me incomoda um pouco. Eu fiz oito anos de TV.

Você disse que é impossível ter uma TV neutra, né?

É impossível ter qualquer coisa neutra. Há uma diferença entre neutro e isento. Neutro é quando você divide exatamente ao meio. Metade das opiniões de um lado e metade das opiniões de outro, sendo que essa metade não foi escolhida por mim, é a metade que o sujeito quer. Eu entrevisto vocês duas e vocês estão disputando qualquer coisa, digamos que seja o Diretório Acadêmico. Eu escuto você e a ela e dou metade do tempo para cada uma. Mas eu tomo cuidado para selecionar as declarações que mais interessam a ela e as declarações que mais interessam a você. É Impossível isso. Você sempre vai achar que em uma declaração que você deu, ia ser convincente e ia conseguir alguns votos, mas eu não botei. Eu não vou conseguir ser neutro. Eu só vou conseguir ser neutro se eu entregar para vocês a matéria. “Façam a matéria, cada uma tem um minuto e cinquenta segundos”, digamos. Isto é ser neutro, mas isso é impossível. Na dá para ser porque a TV tem dono e jornalistas. Nós não podemos abrir mão da nossa obrigação de escolhermos o que é importante. Isso é uma função do jornalista. Não é o povo que sabe o que é importante no jornal. O povo sabe o que e importante para a vida dele. Elege o Lula, o Serra o Collor, faz o que quiser, vai para o seu sindicato protesta. Agora, somos nós que sabemos fazer jornalismo somos nós e serão vocês em breve. Vocês é que tem que saber o que interessa à opinião publica e o que é de interesse público. Porque se não, não precisa de jornalista. Na internet já acontece. Se eu pegar, por exemplo, as mais lidas de cada site e fizer um jornal com as mais lidas teoricamente estou fazendo um bom jornal e não é verdade. Eu estou atendendo ao interesse do público, mas não estou necessariamente atendendo ao interesse público. Neutralidade não existe mas isenção pode existir. Você pode ser tão isenta quanto é possível ser ao fazer a matéria das duas e não dedicar o mesmo tempo as duas, mas um tempo semelhante e tentar escolher uma declaração que eu saiba que foi aquela que ela pensou melhor e uma declaração que a outra escolheu melhor também, desde que as duas declarações correspondam a minha pauta. Vocês vão falar sobre o que eu quero. Isso não vai mudar. Esse autoritarismo vai continuar existindo. Tudo o que vocês falarem eu vou escolher aquilo que me interessa, que interessa ao meu assunto. Não adianta chegar lá e perguntar sobre a doença da Dilma. “Tudo bem eu acho da doença da Dilma isso, mas eu queria também dizer que acho que o Serra...” Isso não me interessa. Pode interessar a ela mas pra mim não porque meu assunto é Dilma.

E a sua cobertura de esportes? O ápice foi a Copa do Mundo de 1990?

É. Péssimo ápice. Perdemos a Copa.

Como foi chefiar a cobertura da Copa?

Eu nunca tinha feito esportes. Faltava uma semana para a Copa e o diretor do jornal me chamou e me disse que o editor de esportes tinha uma doença renal e estava impedido de trabalhar na Copa. Eu era chefe de reportagem ou editor de Cidade e disse que nunca tinha editado esportes na vida. Eu sou gaúcho, gremista, não tenho nada a ver com futebol carioca. Eu achava o futebol carioca uma bobagem. E acho mesmo. Futebol, para mim, é coisa de macho, tem que dar porrada. Não concordo com o que se faz aqui, essa badalação. O jogador joga bem, no dia seguinte ele está com um pé na seleção. Não acho o jornalismo esportivo daqui legal. “Não interessa, você tem que assumir porque daqui a uma semana é a Copa e nós não temos nenhum projeto de caderno”. Tem um caderno especial da Copa e não tinha nenhum projeto. Caí de pára-quedas. Aí acabei me divertindo até. Fui editor de Esportes e fiquei dois anos. Assumi uma semana antes da Copa. Evidentemente que apoiei o Dunga. O Dunga foi jogador e capitão da seleção. Eu o apoiava porque ele é gaucho e embora fosse do Inter, eu sou contra o Inter, mas eu gostava do estilo dele, dando porrada para tudo quanto é lado, xingando todo mundo. Os cariocas detestavam o Dunga. O JB lançou um título que ficou famoso, a “era Dunga”, a pior do futebol brasileiro. Era de uma grossura, mas competitivo, de cotovelada, de porrada. O que interessava era ganhar a qualquer preço, não importava a beleza do esporte. “Esporte é uma competição e não um espetáculo”. Essa é a visão que o gaúcho tem do esporte, e o carioca não tem. O carioca acha o esporte uma coisa bonita. Acho que as duas coisas têm sentido, tem que misturar as duas. E aí, o JB lançou a “era Dunga” como um negócio pejorativo contra o Dunga. E eu passei a defender o Dunga. Então, O Globo defendia o Dunga e o JB esculhambava. Perdi essa briga porque nós fomos eliminados. Só que eu dei um jeito de provar que o Dunga não errava passe. Tinha uma teoria de que o Dunga era incapaz de acertar um passe. Ele era muito bom para desarmar os adversários, mas não sabia passar a bola, não tinha técnica. Aí eu fiz um programa de computador, hoje em dia isso tudo é automático, naquela época era à mão mesmo, e coloquei dois caras na frente da televisão vendo um jogo. Aí, cada vez que um jogador passa bola, você dava certo ou errado, yes ou no. Foi a primeira vez que O Globo fez essa estatística. A minha única intenção era provar que o Dunga não errava passes. Aliás, provei. Na seleção brasileira era o jogador que mais acertava passes. E eu cometi um vexame também. Foi o seguinte, quando o Brasil venceu não sei que seleção e foi para as oitavas de final com a Argentina, eu fiz àquelas placas animadas que diziam assim, “que venham os argentinos”, em tom de desafio. Foi a manchete do caderno. Os argentinos vieram e nos ganharam. Eu tive de fazer uma manchete assim, “e eles vieram”. O Brasil foi eliminado. Enfim, não foi muito bem sucedida a minha campanha pelo esporte. Foi engraçado e tal, mas...

Quantos jornalistas O Globo enviou para a cobertura?

Tinha uma equipe lá de dez repórteres. Aliás, foi outra mudança. Naquela época mandavam dez, quinze, vinte pessoas. Acho que tinham dez. Hoje mandam dois ou três e acabou.

E tinha algum tipo de dificuldade técnica na cobertura essa época?

Tinha. A telefonia era ruim. Não tinha celular, lembra? Os computadores eram péssimos. Não tinha MSN ou essas coisas que você conversa assim. Não tinha internet nesses termos que tem agora. Você mandava mensagem para o computador. O computador era aquele com a tela preta e letrinhas verdes. Era isso. Tinha laptop, mas era grande, pesava pra caramba, uns três quilos. Era moderno para nós, na época, mas não dá para comparar. Hoje, em qualquer lan house você faz uma cobertura. Você pode fazer a cobertura de uma Copa do Mundo sozinho, em qualquer lugar do mundo. Basta ter uma lan house. Você grava, anota, entra no computador e passa.

Como que foi cobrir a crise do governo Collor? Você chefiou também, né?

Chefiei. Eu gostei muito, pois eu detestava o Collor. E alguns chefes meus votaram no Collor. foi muito interessante.

Você trabalhava em que editoria?

Política. No dia em que ia ser votado o impeachment dele, demoraram seis meses as discussões. A cada dia descobriam uma denúncia. Todo jornal fez a mesma coisa, um resumo da história desde o começo. Aí vão dez páginas. “Tudo começou no dia tal”. Aquele caráter de documento que o jornal tem geralmente você põe na gaveta e nunca mais lê. Aí eu achei que deveria fazer algo diferente. Ao invés de gastar papel e colocar texto, texto e mais texto, se a única coisa que interessa é saber se ele caiu ou não. Eu vou fazer uma história em quadrinhos. Eu trabalhava com junto com [o cartunista] Aroeira, hoje é de O Dia, mas era de O Globo. “Aí, Aroeira, vamos fazer o seguinte, vamos contar toda a história do Collor até hoje em quadrinhos. Eu faço o texto e você faz o desenho”. Aí nós fizemos e me orgulho disso, pois foi a primeira vez que um jornal contou uma história do que está acontecendo e não depois, com uma história em quadrinhos. E ficou bem bacana. Ele fez o desenho dele e eu fiz o texto. Então, começou assim, por exemplo, “natal de 1987. Em Pequim, Collor e três amigos, Falcão, Claudio Humberto e Renan Calheiros, comem um pato laqueado e apostam que chegarão ao poder em 1989”. “Collor vira Caçador de Marajás, empolgando o país com uma campanha contra a corrupção”. Em quatro ou cinco linhas a gente contou a história toda da campanha do Collor. Não precisava contar assim, “dia tal disse isso ou aquilo”. Havia um desenho lá, “aos 35 milhões de patos laqueados”, os eleitores da época. Enfim, contamos a história desse jeito.

Teve uma reportagem grande do César Seabra...

César era sub-editor de política. Trabalhava comigo.

Nós vimos uma entrevista com ele sobre uma reportagem de dez páginas. Ele ganhou uma viagem, um prêmio pela reportagem...

Deve ter tido. Eu era chefe dele, me lembro que aconteceu, mas não me lembro que reportagem foi essa. Isso não quer dizer que nós não fizemos páginas e páginas sobre o assunto. Nós destruímos não sei quantas florestas cobrindo esse assunto. Aliás, é o que se faz hoje em dia com o jornal impresso: derrubar árvores.

A gente assistiu a um vídeo do presidente Collor com a Sônia Bridi...

Ah, mas isso já é no Jornal Nacional. Isso foi um negócio muito legal. Acho que ele [Collor] a chamou de filhotinha. Foi péssimo para ele. Ele saiu muito desmoralizado porque a Sônia Bridi mostrou uma coragem impressionante porque era ao vivo.

Ao vivo? É porque a gente leu que ele [Collor] para não ser editada...

Não. A entrevista foi ao ar gravada, mas ela foi feita ao vivo. Não foi gravada assim “vamos gravar”. Ela estava entrevistando o Collor e foi gravado. Durou sete a oito minutos e nós decidimos colocá-la integralmente no ar. Foi gravado um pouco antes do jornal ir ao ar. Mas foi ao vivo, porque aconteceu ao vivo, sem combinação, sem dizer assim, “pode gravar, fala agora”.

No site falava que ele pediu para a entrevista passar na íntegra e que não foi o que aconteceu. O material foi editado.

Mentira. Foi na íntegra. Fui eu que botei no ar. O Collor é um mentiroso.

Porque ele aceitou dar a entrevista se ele estava tão preocupado?

O Collor se acha muito competente no relacionamento com a mídia. Tem gente que é assim. O Lula é assim também. Acredita ser tão bom, tão melhor do que o jornalista, que acha que pode enfrentar qualquer situação de desconforto, que ele vai ganhar. O Collor achou que ia ganhar da Sônia Bridi. Ele não conhecia a Sônia. A Sônia é uma pessoa muito educada, muito calma. Aí ela começou a entrevistar ele com calma e ele deve ter pensado assim, “essa aqui eu vou tirar de letra”. Só que aí as perguntas foram ficando desagradáveis para ele, cada vez mais desconfortáveis e ele foi perdendo a calma. Ao mesmo tempo em que ele se acha o superior a todo mundo, ele detesta ser afrontado. Ele vai perdendo a razão. Foi o que aconteceu com ele. Ele ficou agressivo, chamou a Sônia de filhotinha. Quando o cara diz “filhotinha”, ele perde a razão completamente. Nós colocamos a íntegra no ar, a entrevista durou sete minutos, eu acho. Eu tive que pedir autorização para o meu chefe, na época, para não cortar. O normal seria cortar mesmo, editar. A gen