LUÍS NACHBIN
ENTREVISTA

Realizada por Renata Lima

Revisada por Daniel Vivacqua e Maurício Duarte

Data: 06/2008

Qual seu nome completo e data de nascimento?

Luis Nachbin. Eu nasci em 30 de Julho de 1964.

Quais os nomes e as profissões de seus pais?

Minha mãe e meu pai já faleceram, chamavam-se Maria da Graça “Narbin”, na verdade não é Nachbin, é “Narbin”.

Mas se escreve Nachbin, ou você mudou a grafia?

Não, não... A grafia é a mesma, mas se pronuncia “Narbin”, troca o “ch” por esse “r”.

Qual é a origem?

É polonês.

Mas você é brasileiro?

Sou.

Seus pais também?

Do Recife. São recifenses. Eu sou carioca. Minha mãe é Maria da Graça Nachbin, e meu pai, Leopoldo Nachbin. Minha mãe trabalhava com administração de empresas, até ter o primeiro filho. Depois parou, ficou cuidando dos filhos. Somos três irmãos. E meu pai era professor de matemática e pesquisador. Ele dava aula na UFRJ [Universidade Federal do Rio de Janeiro] e também na faculdade de Rochester, que é no estado de Nova York, onde eu nasci. Eu tenho dupla cidadania, sou cidadão americano e brasileiro. Eu só nasci em território americano, mas não tenho nenhuma família lá.E só vivi um ano lá... Não, depois eu vivi nos Estados Unidos – a gente vai chegar lá, talvez, né? [risos] – quando fui fazer mestrado.Em Rochester, eu só vivi o primeiro ano da minha vida.

E seus irmãos, eles fazem o quê?

Meu irmão é professor de matemática também e pesquisador. Ele trabalha no IMPA, que é o Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada, foi criado pelo meu pai. Pelo meu pai e um grande matemático. E minha irmã formou-se em medicina, mas depois se casou com um italiano e foi morar na Itália. Já voltou ao Brasil, com ele, e, hoje em dia, trabalha como tradutora de português para italiano... De italiano para português.

E o que você pensava ser, quando criança?

Primeira profissão? Maquinista de trem. É verdade, eu sempre adorei trem. Minha mãe contava que, quando pequeno... Eu morei só meu primeiro ano de vida nos Estados Unidos, mas como meu pai era professor lá, nós quase sempre íamos, nas nossas férias verão, dezembro, janeiro e fevereiro... E em duas dessas férias, a nossa casa, que a gente alugava, ficava pertinho da linha do trem. Minha mãe contava que eu ficava louco, que quando ouvia o barulho, ela tinha que correr comigo para o jardim para eu ver o trem passando. Hoje em dia, o meio de transporte que mais me empolga é trem. Me põe num trem que eu viajo feliz da vida. Agora, depois disso, profissão séria, eu pensei, no segundo grau, em ser Geólogo... Geógrafo eventualmente... Eu tinha uma tia geóloga, também já falecida, que, um dia, conversando com ela num almoço de família... Ela não me convenceu, mas eu me auto-convenci de que geologia não era o meu caminho.

Mas você foi fazer economia...

Sabe-se lá por que... Porque, como tudo mundo, na verdade, eu estava no terceiro ano e não sabia para o que ia fazer vestibular. Aí uma amiga do colégio, cuja mãe era professora da UFRJ, estava com o programa do curso de economia. Eu achei interessante o fato de ter matérias da área exatas e também da área humanas. E aí eu fiquei totalmente deslumbrado.

Você chegou a se formar?

Me formei... Eu não gosto muito da expressão, mas é a que me vem à cabeça, eu meio que “empurrei com a barriga”, com o objetivo de me formar... No último ano especialmente, porque fiz o último ano de economia paralelo ao primeiro de comunicação. Não tinha muito ideia ainda do rumo profissional que queria tomar e fiz um esforço para terminar... Mas é um curso bom, o curso de economia da UFRJ, é muito bom... É que realmente não me empolgou muito...

Por que você decidiu fazer jornalismo?

Para ser repórter de rádio. Era meu grande sonho. Eu sempre fui um louco por rádio. Ainda adoro rádio... Em casa eu ainda tenho um radinho no banheiro, escovo os dentes escutando rádio, notícias... Eu tenho rádio na cozinha, quando estou cozinhando ou lavando louça, escuto notícias... E transmissão de futebol... Então, queria ser repórter esportivo. Gostava muito de escrever também e achava que levava jeito, os professores me elogiavam nas redações. Então fui fazer jornalismo, mas com o foco bem específico: para ser repórter esportivo de rádio. E foi o que acabou acontecendo. No fim do primeiro ano, já estudando jornalismo na PUC, eu comecei um estágio, que logo se transformou em trabalho, numa emissora de rádio extinta, se não me engano, chamada Rádio Tamoio.

Como você descobriu que queria fazer isso?

Lá pelas tantas, acho, bateu um click e eu comecei a achar que poderia ter muito prazer na vida fazendo o que me dava tanto prazer de consumir... Eu era um grande consumidor de rádio. O que é uma concepção enganosa, né? Porque quando você passa a ter o prazer como trabalho, de certa forma, vira rotina... E não necessariamente vai ser a sua ocupação para o resto da vida... Isso eu percebi com o tempo. Foram dois anos, anos em que trabalhei como repórter de rádio, muito bons, muito legais.

Qual foi seu primeiro estágio em jornalismo?

Em jornalismo, foi na Rádio Tamoio.

Você chegou a estagiar quando estudava economia?

Estagiei na Secretaria Municipal de Saúde, no setor de inspetoria de finanças. Nada a ver comigo... Estagiei seis meses... Nada a ver comigo...

Você começou a trabalhar na TVE. O que você fazia lá?

Eu comecei como estagiário. Lá pelas tantas, um amigo, já formado, me aconselhou a experimentar televisão, a abrir um pouco o mercado... Eu ainda era estudante da PUC... E aí eu apliquei para esse concurso, para estagiário na TVE, passei e levei, por um tempinho, o estágio na TVE, o trabalho na Rádio Tamoio e o curso na PUC. Eu fazia as três coisas. E quando me formei na PUC, a TVE me contratou como repórter esportivo, que era o que eu queria ser, e eu larguei a rádio.

O que te fez largar a TVE para ir para Londres? Por que você foi trabalhar em restaurantes? Trabalhou também num manicômio, não foi?

Não, não. [risos] Asilo! Às vezes com cara de manicômio [risos]... Assim que entrei no asilo, tive a nítida impressão que estava entrando num manicômio. Eu lembro direitinho. Assim que abri a porta, tinha um velhinho numa cadeira de rodas aos berros gritando: “Help! Help!” E eu não sabia que estava indo para um asilo. Cheguei em Londres e comecei a fazer bicos. Aí, descobri uma agência de empregos que encaminhava pessoas para trabalhos diários. Você ia à agência de empregos bem cedinho, às 6h da manhã, ficava lá na fila. O cara da agência recebia telefonemas de empresas pedindo funcionários para cobrir buraco. Aí, ele olhava para as caras das pessoas. E na intuição chamava. Olhou para a minha cara e me chamou. Falou “vem cá”, em inglês, né? Eu estava recém-chegado em Londres. E ele falou “you take this road”, eu entendia que era perto... “left”, eu entendia... Me deu o número...Eu cheguei ao lugar sem ter ideia do que ia fazer... Eu sabia que ia fazer faxina, mas não sabia que tipo de estabelecimento era.

Você foi sozinho para Londres?

Não, fui com um grande amigo de infância. Aí, entrei no asilo e achei que estivesse entrando num manicômio. E trabalhei durante três dias. Foram três dias de trabalho, contando as horas para acabar.

Era pesado?

Nos dois sentidos, físico e mental. Fisicamente porque meu trabalho era... Era Natal, tinha acabado de terminar o natal, então, era um prédio de três andares e eu tinha que limpar todas as vidraças que estavam decoradas com tintas. Sem exagero, no fim do segundo dia, dos três dias, eu não conseguia tirar a camisa. Porque tinha esfregado janela... Mas, loucamente, me deu saudade do asilo depois... Me deu saudade... E eles gostaram de mim. Umas três semanas depois, o pessoal da agência me ligou perguntando se eu queria ficar fixo no asilo. Aí eu fiquei.

Por quanto tempo?

Duplamente loucamente... Fiquei por um ano e pouco. Eu fiquei no asilo trabalhando como trabalhador ilegal.

Mas por que você largou o jornalismo e foi para Londres?

Eu não conseguia ficar muito tempo fazendo a mesma coisa. Houve um episódio também que precipitou a minha ida para Londres, que foi o seguinte: eu trabalhava no departamento de esporte da TVE. Lá pelas tantas, a TVE entrou em greve, os funcionários todos entraram em greve, quase todos, eu inclusive. E muitos foram demitidos, eu inclusive. Fui demitido do departamento de esporte. Fui demitido, de manhã, e recontratado, à tarde, por outro setor. Uma pessoa maravilhosa que era chefe do setor de chamadas. Quando ela soube que eu estava demitido, me chamou. Falou: “Não, você não pode ficar demitido, você não pode ficar na rua”. Ela me chamou, e eu fiquei no setor de chamadas, que não era muito a minha praia. Demorou uns três, quatro meses, até que eu tomei coragem, larguei tudo e fui para Londres.

Essa experiência o ajudou em sua profissão hoje?

De viver fora?Sim, me ajudou absurdamente. Absolutamente. Primeiro porque eu acho que deixei de ser menino e virei homem. Eu era um típico garoto de classe média alta, com empregada em casa, que não tinha que me virar muito e tudo mais. E, lá em Londres, eu fui à luta e gostei muito. De certa forma, é o que eu faço hoje, né? Vou muito à luta, sozinho, no meu trabalho, por aí. Depois, já no finzinho do meu ano e pouco de Londres, esbarrei com uma menina, que até já conhecia, e a gente começou a namorar e ficou mais uns dois, três meses, juntando grana, num regime bem forte de economia, e foi para Ásia, perambular, mochilar, por quatro meses. Aí, realmente, acho que ali deu a luz do que eu faço atualmente.

Você foi para São Francisco?

O dinheiro praticamente acabou, eu já tinha passagem comprada, Tóquio - São Francisco. Baixamos, ela e eu, em São Francisco. E fui ficando. Logo nos meus primeiros dias de São Francisco, esbarrei com um brasileiro. A Universidade Estadual de São Francisco, a San Francisco State, tem um mestrado muito bom. E eu ficava já com essa pimentinha na cabeça... Agora, ele me fez a cabeça. Uma figura muito legal que eu esbarrei por acaso, lá nas ruas, num café. E resolvi aplicar para o mestrado. Apliquei para São Francisco, apliquei para mais duas ou três universidades. Fui aceito em São Francisco e resolvi investir.

Sobre o que era exatamente seu mestrado? Era em televisão, né?

Em rádio e televisão, muito embora eu não tenha feito nenhuma matéria de rádio. Não havia nenhuma matéria obrigatória. Tive várias obrigatórias, mas de produção em geral. E caminhei especificamente para a produção experimental em televisão. Foi ali, no mestrado, já quase aos trinta anos, que eu peguei uma câmera de vídeo pela primeira vez na vida. Eu sequer fotografava. Fotografava assim, em churrasco. Nunca tive uma máquina boa de fotografia. E acho que tomei muito gosto por fotografia incentivado pelo professor, que acabou sendo meu orientador de tese.

No final do mestrado, você começou a escrever como correspondente de O Globo.

Durante um semestre, que era o semestre pré-Copa do Mundo, em 1994.

Como você começou a escrever como correspondente?

Eu não me lembro de quem fez a ponte, alguém me indicou. O editor do Segundo Caderno entrou em contato comigo e propôs que eu começasse a fazer algumas coisas. Aí, comecei a fazer matérias esporádicas, até que a demanda se tornou praticamente diária, com a proximidade da Copa.

Escrevia apenas sobre a Copa?

Não, escrevi sobre outros assuntos. Mas escrevi muito sobre a Copa do Mundo e São Francisco.

Destacaria alguma matéria dessa época?

Não me lembro... Foram tantas... Destacaria algumas fotos. Eu tenho algumas fotos razoáveis até.

Por que você decidiu voltar para o Brasil?

Porque eu, em São Francisco, jamais me senti feliz. O famoso american way of life não é para mim. Muito embora São Francisco seja uma cidade ótima, linda, adorável, cultural... Tem uma coisa de american way of life, de individualidade, de “o meu espaço é o meu espaço, o seu espaço é o seu espaço”... Enfim, uma certa... Eu chamo de artificialidade no contato com o outro, que me incomodava, que fazia com que eu não me sentisse à vontade. Então, quando eu terminei o mestrado, voltei.

Quando voltou foi ser redator de texto na Globosat?

Fui ser editor/redator por um mês só. Foi meu primeiro trabalho. Fiquei uns cinco meses desempregado, procurando trabalho. Voltei em junho, se não me engano, e lá por outubro, novembro, comecei a trabalhar na Globosat, cobrindo férias. Foi legal.

Como funcionava a Globosat?

Não sei comparar com hoje, mas certamente era uma estrutura muitíssimo menor. A Globosat estava incipiente, o SporTV tinha três anos. Foi em 1994. Acho que o SporTV e a Globosat são de 1991, né? Estava bem incipiente ainda, sabe? Se discutia muito sobre, em linguagem de economista, o prazo de maturação dos canais da Globosat. Quando os canais começariam a dar certo, começariam a gerar lucro... Hoje em dia, o que se vê, é uma máquina funcionando bem. Eu vou à Globosat eventualmente. Fui há um ano, um ano e pouco, para participar de um debate no SporTV e, enfim, é “n” vezes maior do que na época em que trabalhei.

Como você foi para a TV Globo?

Indicado pelo mesmo amigo, que chegou para mim, nos idos da rádio Tamoio, e disse: “Olha, abre um pouco seu campo, faz TV”. Ele trabalhava na TVE e na TV Globo.

Foi o mesmo amigo que viajou para Londres com você?

Não, não. O que foi para Londres é um amigo de colégio, chamado Ricardo. E o que me indicou é um cara fundamental na minha vida profissional, trabalha até hoje no Globo Esporte, é o Roberto Aranha, que é uma figura maravilhosa. Ele soube que eu tinha voltado. Demorei a fazer contato com ele. Lá pelas tantas fiz. Imediatamente, ele me indicou para uma entrevista com o Telmo Zanini, que hoje é comentarista do SporTV e que, na época, era chefe de redação do esporte na Globo. Fui lá, o Telmo gostou da minha experiência e disse: “Olha, assim que pintar uma vaga, eu te chamo”. Aí me chamou, um mês depois. Fui ser repórter de esporte.

Qual sua primeira matéria na emissora?

Foi uma matéria no Maracanãzinho, véspera da final de basquete do estadual do Rio, Campeonato Estadual do Rio. No primeiro dia, fiz uma matéria da preparação do estádio, o clima antes da final; e depois, eu cobri os jogos da final.

Como estava estruturada a divisão de esportes na TV Globo?

Também muito diferente da maneira como está hoje. Era uma época, 1994, em que os eventos, o setor de eventos, era bem menor. Os eventos eram esporádicos, né? Um pouco depois, uns dois, três anos depois, os eventos, por exemplo, no Esporte Espetacular, começaram a se tornar rotineiros. Toda a semana, agora, no Esporte Espetacular, há um grande evento, há a transmissão ao vivo de um grande evento. Um jogo de basquete, um jogo de futebol de salão, maratona... Futebol muito raramente, futebol de campo, às vezes, futebol de salão. Futebol de campo é quarta e domingo, né? Na época, quando eu comecei a trabalhar na Globo, era quarta e sábado. Sabe, o setor de eventos estava incipiente, mas estava começando a crescer. E já se sabia que ia se tornar um setor muito forte, como, de fato, se tornou.

É um departamento dentro do esporte?

Dentro do esporte, importantíssimo. Não sou um especialista no assunto, mas imagino que a maior parte das verbas no esporte seja canalizada via eventos, mais do que publicidade, ao longo do Globo Esporte ou do Esporte Espetacular. Hoje, o SporTV, agora nas olimpíadas, por exemplo, vai ter seis canais, me parece, né?

Da época da Globo, que nomes você destacaria?

Do esporte, destacaria, em primeiro lugar, os cinegrafistas, que foram meus grandes mestres, as figuras que mais me ensinaram: Roberto Índio, Antônio Gil, o Cléber Schettini. Vários nomes. Não é só como puxa-saquismo [risos], mas destacaria também o meu chefe, meu chefe principal, que era o chefe de esporte da Globo: o Luís Fernando Lima, que acreditou piamente na ideia que eu passei a seguir quando me desliguei da Globo, que é a do videojornalismo, da produção independente. Assim, me lembro como se fosse hoje, Luís Fernando é uma pessoa muito rigorosa, muito dura. Eu acho isso bom. Ele é um profissional muito duro nas críticas. Estou me antecipando um pouquinho, mas um dia mostrei a ele a primeira produção experimental que eu tinha feito na Índia, com os pioneiros do Brasil no futebol de lá, e ele se empolgou muito. Foi a primeira vez que o vi assim. Abriu um sorriso e teceu só elogio.

Qual foi sua primeira reportagem ao vivo?

A minha primeira ao vivo, se não estou enganado, foi num torneio de atletismo no estádio Célio de Barros, no Rio de Janeiro. Você sabe? Você tem a resposta? [risos]

Não, não tenho a resposta... [risos]

Ah tá... Uma competição de atletismo, no Célio de Barros, dentro do Esporte Espetacular. Já na era dos eventos, dos eventos semanais.

E como foi?

Como foi? Nervosa, nervosa para burro. Quando eu acabei o vivo, teve que vir alguém para separar os meus dedos do microfone, sabe? [risos] E também a pressão que eu fazia no microfone... Estava nervosíssimo.

Da época da Globo, ainda como fixo, que matérias você destacaria?

Eu destacaria a última, porque a última foi a que abriu caminho para a minha vida independente (matéria sobre os brasileiros pioneiros no futebol da Índia). Destacaria uma matéria que fiz na véspera de quebrar a perna. [risos] No dia 29 de julho de 1995, foi ao ar no Esporte Espetacular, que era veiculado aos sábados, uma matéria com um boxeador que mora, ou morava, na Rocinha. Uma matéria muito legal, uma entrevista com um cara inteligente, simples, sensível; uma ótima produção do Lenildo, que é um dos grandes nomes... Um dos três grandes nomes. Nem sei como me esqueci de falar no Lenildo agora há pouco.

Lenildo...

Ele assina só como Lenildo. Nem me lembro do sobrenome, mas o crédito dele é “Lenildo”. Lenildo é uma figura ótima. É produtor, editor. Um baita editor. Figura maravilhosa.

As pessoas não exerciam apenas uma função na Globo, nessa época, né?

Algumas sim. No Esporte Espetacular havia essa ambiguidade, produtor–editor. A figura que cobrisse a matéria a semana inteira e, no fim da semana, ia lá e montava a matéria que ele mesmo acompanhou.

Acompanha a edição ou realmente edita?

Edita, edita. Os semanais da TV Globo, Fantástico, Esporte Espetacular e talvez outros, usam essa metodologia.

Ainda?

Que eu saiba, sim. Eu acho muito bom. Muito legal. O Lenildo e outros produtores/editores, nesse modelo, são diretores também. Eles não assinam como diretor, mas dirigiam a situação, dirigiam a mim, repórter, dirigiam os cinegrafistas, comandavam toda a situação até a hora de botar no ar.

Você destacaria alguma outra matéria?

Gosto muito da matéria que eu fiz na final da Copa do Brasil, entre Flamengo e Grêmio, no Maracanã. Uma matéria em dueto, o dueto formado pelo Régis Rosing, que é repórter de esporte da Globo até hoje, e por mim; gosto muito daquela matéria. Hum... Gosto muito de uma matéria que fiz num Botafogo e Vasco, eu sou o Botafogo convicto, e o Botafogo ganhou do Vasco por dois a zero, dois gols de Túlio, que era o grande artilheiro do Botafogo na época, Túlio Maravilha. Gosto muito daquela matéria. Acho que é uma matéria bem pontuada, bem construída, bem legal.

Você acompanhava a edição também?

Sempre que podia, sempre que podia.

E como era estruturada a TVE?

É uma pergunta difícil de responder, porque faz tempo. A TVE foi nos idos de 1987, nos faz 21 anos. Eu era garoto, estudante, depois recém-formado. Eu não prestava muita atenção na estrutura como um todo.

Você destacaria nomes da TVE?

Roberto Aranha, Roberto Aranha e Roberto Aranha [risos]. Luís Carlos Pinto, que era o meu chefe de reportagem, me ajudou muito, uma figura ótima também, chefe de reportagem do esporte. Silvio Braun, que é uma figura ótima, que de vez em quando presta serviço lá no Futura, também tenho que destacar com todas as letras. Acho que é esse trio: Roberto Aranha, Silvio Braun e Luís Carlos Pinto.

Você, ao longo da sua carreira, reencontra essas pessoas?

Muito pouco. Roberto Aranha muito pouco. Silvio Braun no Canal Futura, de vez em quando. Mas sempre que reencontro é ótimo, é um carinho e tanto.

Como foi cobrir o Gran Prix de Vôlei, na China?

Traumático, traumático. Porque aquela cobertura não foi bem estruturada para um homem só, como eu.

Você foi sozinho?

Fui sozinho, fazendo câmera, fazendo tudo.

Nessa época, você já era freelancer?

Eu era freela, já estava freelando. O Gran Prix de Vôlei foi em 1999. Já estava freelando há um ano e meio, mais ou menos. E aí, o que aconteceu foi que tudo deu errado. Quer dizer, as matérias foram ao ar. Não acho que tenham sido boas matérias, mas foram ao ar.

Foi uma das suas primeiras matérias como freela para a Globo?

Não, já tinha feito várias, ao longo de 1998, e algumas, ao longo de 1999. Eu acho que aquela cobertura foi muito impulsionada por uma boa cobertura, modéstia à parte, que a gente fez, eu, como videojornalista, e equipes da Globo, nos jogos pan-americanos de Winnipeg, no Canadá, um pouquinho antes. Eu voltei dos jogos pan-americanos de Winnipeg exausto, exausto, exausto... Porque a gente viajou para lá basicamente para botar uma matéria ou outra em telejornais e ponto final. Globo Esporte, claro, cobertura do Globo Esporte, uma matéria aqui no Jornal Nacional, uma matéria aqui no Jornal da Globo... E assim que a gente chegou lá, chegou também um aviso que haveria um boletim diário de 20 minutos para um telejornal específico dos jogos pan-americanos a ser preenchido por duas equipes convencionais, repórter, cinegrafista produtor, tal... E por mim. Então, eu fazia três pautas por dia. Fazia uma pauta de manhã, uma a tarde e uma pauta a noite. Quando terminou esse período de duas semanas e pouco, eu estava, assim, absurdamente exausto, exausto. Cheguei ao Brasil num domingo, de volta do Canadá, e na segunda me liga Luís Fernando Lima me propondo que eu fosse na sexta-feira para China para cobrir o Gran Prix de Vôlei. Aí, ao meu cansaço, se juntou, na minha opinião, um planejamento deficiente da cobertura. Para início de conversa, eu não tinha editor. A ilha que montaram para mim funcionava no sistema PAL, e minha câmera, naturalmente, funciona no sistema NTSC. Foi difícil esse trabalho, muito difícil.

Para o Canadá foram mais duas equipes com você e para a China você foi sozinho?

Isso, mas esse não foi o problema. Ia dar conta da cobertura, porque era só, basicamente, ali, no ginásio, os jogos acontecendo. Já era fase final, então eram oito seleções nas quartas de final, ou quatro, nem me lembro, nas semifinais, já afunilando. O que eu tinha que cobrir era o Brasil, o clima do Brasil, o jogo do Brasil, um ou outro jogo, mas a Globo estava sendo alimentada aqui com imagens dos jogos, então... O problema que houve foi um planejamento torto ali, na logística da coisa.

E qual foi a primeira matéria que você fez para a Globo como freela?

Como freela, o futebol na Índia. Eu viajei em julho de 1997. O que eu fiz foi o seguinte: em 1997, eu ainda era funcionário TV Globo, trabalhava no Globo Esporte, fazia reportagem e tudo mais. Aí tirei férias, peguei minha câmera, uma Hi-8 que eu tinha na época, e fui para o estado de Goa, sul da Índia, para... Fiz pesquisa nenhuma, fui tentar achar uma história. Então, eu tinha uma ideia muito amadora. E muito romântica. Aliás, o que eu sinto falta hoje em dia, de ter mais romantismo nas minhas viagens, mas isso é outra história. E lá, dei muita sorte de encontrar os tais pioneiros no futebol da Índia, dois jogadores, um técnico e um preparador físico, que iam disputar a semifinal da Copa da Índia, num outro estado, no nordeste do país, longe de Goa. Aí eu fiz toda a documentação de Goa, gravei bastante, peguei o voo, fui para lá com os caras, para uma cidade a uma hora de Calcutá, de avião. E ali se montou uma história bem interessante e bem dramática, porque era época de chuvas das monções, já tinha chovido horrores, era lama pura, os brasileiros eram figuras, assim, doces e sofridas ao mesmo tempo. Então, o pauteiro anjo da guarda ajudou muito. Tive muita sorte em encontrar essa história. E essa história, gravada na Índia em julho de 1997, acabou indo ao ar no Jornal Nacional e no Esporte Espetacular.

Mas você era funcionário ainda, não?

Foi ao ar em janeiro, quando eu já não era mais funcionário, mas ela foi editada dentro da TV Globo, enquanto eu era funcionário.

Você rodou o mundo fazendo matérias sobre esportes: mulheres que jogam futebol no Irã; bicicletas de Pequim, Festival Naadam de Esporte na Mongólia. Você destacaria alguma dessas matérias?

Eu destacaria as que você citou [risos]. Destacaria as três. Naadam, na Mongólia, eu destacaria sem a menor dúvida.

Era um festival de esportes “estranhos”?

Esportes estranhos a nós, tradicionais para eles. É como se fosse o Carnaval, porém desportivo, da Mongólia. O país para durante três dias. São três esportes: luta, em que ganha quem derruba o outro, sem socos, sem pontapé... É derrubar o outro, é o outro cair no chão, então são figuras bem gordinhas, são “n” lutadores, são centenas de lutadores, há uns magrinhos que disputam uma luta e são eliminados porque caem com dois segundos. Hum...Luta, corrida de cavalos, muito peculiar porque é corrida de cavalo disputada ao longo do planalto, ao longo de 28 quilômetros e os jóqueis são crianças entre quatro e 12 anos. Espetacular. E arco e flecha, são as três modalidades. E as regras, os equipamentos, praticamente tudo funciona exatamente como, vou dar uma referência, como na época do famoso Gengis Khan, em mil duzentos e alguma coisa. Então é um festival milenar, uma tradição que se mantém, incrivelmente, até hoje. A minha sensação é que eu estava num filme de época o tempo inteiro.

E o vestuário?

É bem específico, bem específico. A não ser os lutadores, os outros usam chapéus, chapéus bem típicos, com uma haste na parte de cima, as roupas são relativamente estranhas aos nossos olhos, estranho, bem clássico.

E as bicicletas em Pequim?

As bicicletas de Pequim foi também umas das mais especiais pela onda que foi... Fiquei lá, de bicicleta, em Pequim, durante um dia e meio. Foi um tiro muito curto, só durante um dia e meio de produção, mas acabou também se tornando uma matéria especial, não só pela onda audiovisual que foi, pelo menos para mim, como também por ter originado o Passagem Para.... A Ana Lúcia Gomes, do Futura, viu a matéria As Bicicletas em Pequim no ar, no Esporte Espetacular, e aí me ligou, perguntando sobre o material bruto, o que eu já tinha feito, porque achou que aquele material teria a cara do Canal Futura. Exatamente assim que nasceu o Passagem Para..., porque ela viu essa matéria.

E a outra, que você destacou, foi a das mulheres que jogam futebol no Irã.

Foi, porque foi uma produção dificílima e muito legal de fazer. Dificílima porque eu, homem, branco, ocidental, resolvi investigar o universo feminino, desportivo, num país bem fechado, como o Irã. O anjo da guarda sempre tem que ajudar, se não as coisas não vão para frente, e aí me colocou diante de uma mulher, uma produtora iraniana ótima, super bem disposta, gente boa, boa nessa história de entrar nos bastidores das histórias, boa para viabilizar as coisas, porque eu precisava de autorização diferente para gravar em cada bairro. E aí foi fascinante, absurdamente fascinante. Entrar no universo feminino e conversar e documentar e tudo o mais.

Você foi videojornalista da TV Globo. De que forma acha que contribuiu para a mudança na linguagem das reportagens documentais nessa emissora?

Eu acho que talvez tenha contribuído para, primeiro, expandir um pouquinho nosso universo de pautas. Há histórias bem legais nos confins, acho que essa é uma contribuição. Estimular, talvez seja a mesma coisa dita de outra forma, mas estimular a busca de histórias desconhecidas, né? O absolutamente desconhecido, o que teoricamente não nos interessa em nada, interessa sim. Por que vamos falar na Globo, que é uma televisão de grande apelo popular, sobre os nômades da Mongólia? Ninguém é nômade, há poucos nômades, imagino, no Brasil. Então o oposto interessa sim, o absolutamente desconhecido interessa sim, isso não é uma novidade. Enfim, talvez tenha estimulado nesse sentido. E foi a sementinha também para que nem sempre fosse necessário o envio de uma grande equipe para cobrir essas histórias. Eventualmente uma equipe menor, a Globo ainda não trabalha com videojornalistas, mas uma equipe menor, mais informal, trabalhando de uma forma mais espontânea.

Você quer dizer que a Globo ainda não trabalha com videojornalistas fixos, contratados da casa, né?

É, eventualmente sim, tem um ou outro que faz matéria. No SporTV há, na Globo, canal aberto, um ou outro, de vez em quando. Outro dia um editor/produtor, não me lembro agora o nome dele, fez uma matéria no Fantástico.

Você era encarregado de entregar seis matérias especiais por ano. Como foi essa experiência? Quem o pautava?

Foi nosso acordo inicial. A experiência foi boa, foi ótima. Eu me pautava, aí levava as propostas para uma reunião de pauta e no início ia e vinha o tempo todo, produzindo e voltando, produzindo e voltando, produzindo e voltando... Hoje em dia, continuo indo e vindo, mas eu paro mais, para acompanhar o processo, com mais calma. Eu sempre acompanhei todo o processo, mas no início o pique era maior.

Quando decidiu parar de cobrir apenas esportes?

Quando o telefone tocou um certo dia e do outro lado da linha era o Alberto Renault, me convidando para fazer uma série de matérias no Muvuca, que havia saído da Regina Casé, que havia saído do casarão e estava tentando resgatar, de certa forma, a proposta do Brasil Legal. O Brasil Legal era um programa mensal na grade da TV Globo. O novo Muvuca era um programa semanal, então eles precisavam de alguns jornalistas para poder compor o programa. E foi ali que eu comecei a me afastar do esporte e abrir para coisas mais amplas, mais gerais.

Como é ser um videojornalista?

Tem que dominar os vários requisitos de produção de rua, né? Saber filmar, saber apurar, ter já, imagino, um grau de experiência para poder coordenar essa dualidade de filmar e apurar ao mesmo tempo. O videojornalismo é apenas produto de alguma experiência, nada mais do que isso. E tem que, importante também, se sujeitar a fazer trabalho braçal. É o grande obstáculo, na minha opinião, para o desenvolvimento, para que a gente tenha uma geração de videojornalistas maior. O recém-formado, em geral, se propõe a ser videojornalista, parte deles,... Pegar uma câmera, deitar, correr, carregando 4 quilos de câmera, mochila... Mais depois, aos 30 anos, 35, 40, quem se propõe a fazer isso? Pelo menos na nossa cultura, em que a classe média, média alta, não gosta ou não se acostumou ainda fazer trabalho braçal... Porque o trabalho braçal sempre foi muito mal remunerado, há um certo preconceito em relação ao trabalho físico no ambiente da TV.

E o que você faz como videojornalista?

Hoje em dia ou antes?

Mudou?

Mudou... Porque, na época da Globo, eu fazia tudo, de fato, viabilizava a pauta, personagem, fazia todos os contatos. Eu tive, em duas ou três viagens, a ajuda de estagiários; chamava, em geral, um ex-aluno ou aluno da época e essa pessoa me ajudava. No mais, eu fazia tudo, tudo, tudo, da autorização à viabilização das trilhas. E tudo mais. Eu escrevia o roteiro, eu fazia a decupagem. Hoje em dia não dá mais. Hoje em dia são, para dar exemplo desse ano, 2008, são 20 programas de 30 minutos no ar, que têm que ser colocados no ar até novembro, ficar prontos até novembro, no Futura. Então, não dá mais. Antes eram sete matérias. Eu não tenho a minutagem na cabeça, mas a minutagem que eu colocava no ar, nos tempos da TV Globo era bem menor que a minutagem atual.

Como um jornalista deve se preparar para ser um videojornalista?

Eu acho que, para começar, ficando bem próximo dos bons cinegrafistas, dos bons cameramen ou camerawomen e observar bastante o trabalho de rua, o trabalho de rua e a ilha edição. A ilha de edição é a melhor escola, tudo afunila para a ilha de edição. A ilha de edição é o lugar onde se tem todo o feedback do que deu certo, do que deu mais ou menos certo e do que deu errado.

Como você passou a ser um videojornalista freelancer?

Pedi demissão, aí fiz um acordo com a Globo, com o Luís Fernando Lima, que me propôs que eu fizesse os dois, continuasse como funcionário, como repórter e, eventualmente saísse, como freela. Pensei um pouquinho, mas logo percebi que não daria certo, porque a carga lá é bem grande. Então, conseguiria escapar uma vez ou duas por ano, e não era o modelo que eu queria. Aí me desliguei e comecei a freelar.

Como definiria a linguagem de suas reportagens? Como você chegou nessa linguagem de hoje? É verdade, que você seguia a linha do New Journalism?

Eu acho que sim, eu acho que segue a linha do New Journalism. É claro, há uma evolução, espero, né? [risos]. E não um retrocesso na linguagem que eu venho construindo nesses anos como videojornalista.

Como você pensou nessa linguagem?

Não pensei. Não enxergava uma linguagem para o meu trabalho. Tinha, é claro, as minhas referências audiovisuais, absorvidas ao longo da vida. Foi intuitivo o início do meu trabalho. Hoje, eu concordo com você, o meu trabalho vai, relativamente, pela linha do New Journalism e buscando o tempo inteiro... É... O máximo de espontaneidade, o máximo de informalidade, concomitante a uma boa construção fotográfica, sabe? Eventualmente se critica o videojornalismo pela deficiência de se ter uma boa imagem, de ter uma boa construção audiovisual. E dá sim para o videojornalismo ter uma boa construção audiovisual e ao mesmo tempo ser espontâneo, ser informal, ser solto. Entende?

Dizem que o seu videojornalismo parece inspirado pelo cineasta Dziga Vertov e pelo Cinema Novo. O que acha disso? Quem inspirou seu trabalho?

Bom, O homem com uma câmera, do Dziga Vertov, é um documentário que eu já vi umas 15 vezes, não sei quantas vezes eu vi. O Tarkovsky é uma outra referência típica na minha pequena videoteca. Os filmes do Tarkovisky são relativamente lentos, eu não assisto aos filmes inteiros todo mês, mas eu vejo cenas. Então, com muita frequência, eu faço esse exercício, antes de viajar, ou um pouquinho antes de viajar, eu pego referências fotográficas e vejo. Outra referência videográfica constante é Nós Que Aqui Estamos Por Vós Esperamos. É um documentário maravilhoso, maravilhoso, de uma hora. Sobre a vida, sobre o nada e sobre tudo, ao mesmo tempo. Então, são as mais imediatas que eu citaria agora.

E videojornalistas, você teria algum nome?

Infelizmente, não. É uma pena, não tenho.

E o documentário Transiberiana, A Estrada de Ferro Mais Longa do Mundo, que renovou a linguagem do Globo Repórter.

Talvez tenha trazido algum frescor, não sei, na medida em que havia ali uma condução um pouquinho mais informal do que a linguagem tradicional do Globo Repórter, de construção de programas e tal. A Transiberiana, aquele documentário, é um marco, talvez tenha sido o marco, ao longo desses anos, porque foi a partir dali que eu me senti com confiança para construir um programa inteiro, até então eu me sentia com confiança para construir matérias, quando o programa não dependia de mim...

Quanto tempo você levou para fazer esse programa?

Dois meses. E as condições eram bem adversas, assim, era auge do inverno, na Sibéria, com temperaturas... Cheguei a pegar –35º, mas também pegava –20º, –25º o tempo todo, pelo menos boa parte do tempo. Então ali eu comecei a perceber que poderia fazer outras coisas, poderia fazer construções mais amplas.

Como era estruturado o Globo Repórter nessa época e o que mudou?

Não sei se mudou muita coisa na maneira que o Globo Repórter é estruturado. Eu acho que abriu uma janelinha ali, a partir do Transiberiana, para se buscar uma ampliação do formato.

Como ele é estruturado, então?

O Globo Repórter tem bastante autonomia. Há uma chefe de redação, ou editora chefe, que é a Silvia Sayão. E, no mais, é uma estrutura bem parecida com a de um telejornal, com a diferença de que, no Globo Repórter, existem as figuras dos diretores, diretor/produtores. Talvez, parecido com o Esporte Espetacular, o Fantástico, produções mais parrudas, maiores, as demandas são maiores também. Todos os produtores do Globo Repórter, pelo menos na época, eram produtores bem experientes, não necessariamente velhos, mas bem experientes, com 5 anos, 10 anos de profissão, de experiência,de estrada. É uma estrutura muito bem desenhada, planejada, porque não é fácil, né? Colocar um documentário de 45 minutos, um programa de 45 minutos, toda semana no ar.

Mas também eles compram bastante, né?

Compram, têm comprado mais. Não sei até que ponto a Transiberiana, como o primeiro documentário que eu vendi, incentivou um pouco, talvez tenha incentivado um pouquinho isso.

Você acha que deu um gás novo então?

Ao Globo Repórter? Difícil de dizer, difícil de olhar. De alguma forma sim, um pouco, mas a dimensão desse “gás” é muito difícil de avaliar. Ao mesmo tempo, eu acho que, por exemplo, ao veicularem o documentário que a Conspiração fez, que é um Globo Repórter legítimo, que é um Globo Repórter que foi reduzido para caber na grade, também é um belíssimo Globo Repórter. Também traz frescor, né? Também dá uma ampliada no horizonte.

O Globo Repórter dos cineastas nos anos 1970 já havia revolucionado a linguagem dos documentários de TV. Fala-se que seu documentário Transiberiana e outros que ajudaram a seguir reinventando a linguagem do Globo Repórter, que estaria, inclusive, decadente. O que acha disso?

Mas essa comparação é delicada. Eu entendo a crítica. Tenho, eventualmente, as minhas críticas também. Mas essa comparação é delicada, porque a realidade dos anos 1970 era absurdamente diferente da atual. O Globo Repórter é muito cobrado, semanalmente, em relação ao famigerado nível de audiência. Todos são cobrados. O Muvuca, no qual eu trabalhei durante um ano, quando eu saí do esporte, saiu do ar, perdeu o espaço na grade porque alguém achou que a média estava baixa, com 20 pontos, 21 pontos. E era um programa ótimo, ótimo.

Mas uma média de 20 pontos não é ruim.

Não, não é ruim, se eu não me engano, não tenho exatamente o número na cabeça, para o horário de dez e alguma coisa, que ia ao ar. Então, é uma disputa ingrata, nesse sentido. Tem que colocar um Globo Repórter que dê minimamente a audiência “X” por semana. Então, o espaço para experimentação existe sim, mas tem que ser muito cuidado.

Por que e em que momento você criou a Nach Vídeo?

Para dar vazão à nova demanda que surgiu com o Passagem Para.... Eu já era pessoa jurídica apenas porque me foi feito esse pedido, para me tornar pessoa jurídica na época que eu trabalhava na TV Globo, mas eu não tinha um escritório. Hoje em dia eu tenho um escritório, tenho uma produtora funcionando, com várias pessoas contratadas e tal, para dar conta do Passagem Para...

Como funciona a Nach Vídeo?

Funciona com uma pesquisadora, ela faz toda as pesquisas das viagens do Passagem Para...; uma roteirista/assistente de direção, a mesma pessoa, fixa também, minha assistente; uma produtora e dois estagiários.... somos, comigo, 6 pessoas fixas, ali, o ano inteiro. O restante da equipe é contratado temporariamente. Dois editores são contratados no período de seis meses, começou agora, de junho a novembro/dezembro; o trilheiro também começou a trabalhar agora, fazendo trilha para todos os programas; tem uma diretora de arte... Quem mais? Há uma equipe técnica que trabalha eventualmente, para a gravação das entrevistas dos imigrantes dos países, que a gente grava aqui no Rio. Basicamente isso. São dois editores e uma assistente de edição.

Que fatos históricos internacionais você presenciou em suas viagens?

Nenhum grande fato importante, não. Já cobri eleições para presidente na Costa Rica e eleições municipais em El Salvador, na América Central. Nos planejamos para isso, né? Para ter essas imagens quentes, factuais. Se não o nosso programa é todo, digamos, frio, né? Que mais? Acho que ainda não cobri um grande fato internacional. Eu penso muito isso, para que aconteça.

Devia ter ido para Cuba antes. [risos]

É. [risos] Que Fidel possa viver por muito tempo, mas se por acaso... Algum dia ele vai passar para outra dimensão, eu penso em viajar na primeira notícia, tentar entrar no primeiro avião, chegar lá para documentar, para o Passagem Para..., ou, se demorar muito tempo, se o Passagem Para... não existir mais, para o que eu tiver fazendo na época.

Que lugar você achou mais parecido com o Brasil?

Vários, na América Latina. Se tivesse que escolher um, acho que diria México.

Por quê?

O jeito das pessoas, a informalidade... México... Em segundo lugar, quase ali empatado, a Colômbia. São países assim, com o estilo de vida bem informal. A ginga é parecida.

Europa? Ásia? São bastante diferentes?

Sim e não. Eu digo, não, porque acho muito parecido em alguns lugares, pelo fato de eu me sentir a vontade em tantos lugares da Ásia, tantos, tantos. Camboja, Índia, Malásia. Tem alguma coisa no modo de viver lá que talvez me remeta à vida aqui.

Você não saberia dizer o quê?

O cheiro. A luz. A interação. O jeito das pessoas olharem umas para as outras. O toque.

Você não tem barreira com as línguas?

Tenho, bastante. Eu contrato, quando preciso, nas capitais em geral não tenho problemas, mas quando eu vou para o interior, eu contrato um tradutor para viajar comigo.

Que lugar mais o impressionou? Por quê?

Mongólia, porque era um país de nômades. Metade da população ainda vive dessa forma.

O que busca nos lugares que visita?

Interação, contato com as pessoas. Ser um antropólogo, ainda que por um dia, ou por três dias, ou por sete dias, ou se eu tiver dois meses, muito melhor para contar. Me sentar com uma pessoa num café, como agora nessa entrevista, e conversar, trocar ideias. A ideia é essa.

Você tem muitos desses personagens no Passagem Para..., né?

Acho que acabo tendo. E o fato de estar sozinho ajuda, nesse caso, ajuda, em comparação com uma viagem em dupla ou em equipe.

Pretende fazer reportagens em que lugares ainda?

No mundo inteiro. Por toda a África, por toda a Oceania, alguns países da Europa e onde puder. Mas a Oceania e a África estão na minha cabeça atualmente. Para a Oceania, eu nunca fui. E, na África, eu só fui a Tunísia, África do Sul e Zimbábue.

Por volta de quanto tempo você fica em cada lugar para fazer suas reportagens?

É muito variável. Fico, no mínimo, quatro dias e, no máximo, até agora, dois meses.

Você pode falar um pouco sobre o documentário da guerra contra o terror?

Putz... É um documentário na gaveta. É um documentário. Eu preciso resolver isso na análise, de alguma forma, que eu parei, aliás. [risos] E aí, está na gaveta. Eu não sei por que está na gaveta. Precisa de pouca coisa para finalizar. Não sei, preciso resolver algum entrave em relação a ele. Eu estava no pique de montagem desse documentário até começar o Passagem Para..., que me ocupa muito, claro. Mas dá para terminar o documentário, mesmo com o Passagem Para....

Ele fala sobre a relação das pessoas...

Com a guerra ao terror. É um Road movie. Eu cruzo todos os Estados Unidos, de ponta a ponta. Tinha uma pessoa mostrando, né? Que dirigia o carro. Eu vou de Nova York a São Francisco, variando paisagem e reflexões sobre a guerra ao terror. Então, mudam paisagens e reflexões sobre a guerra ao terror, de costa a costa. Seria, mais ou menos, a sinopse do filme.

Para que lugares costuma trabalhar?

Hoje, só para o Futura e para a PUC [Pontifícia Universidade Católica], onde eu dou aula.

Há peculiaridades entre fazer vídeo para os lugares em que trabalhou como freela? Foram três, na verdade, né? Rede Globo, SporTV e Canal Futura?

Há bastante, bastante. No Passagem Para... se formou uma linguagem. O Passagem Para... tem uma linguagem narrativa super formada. Uma linguagem narrativa ótima ou péssima, aí é outra discussão [risos]. Mas tem uma linguagem narrativa estabelecida. Estabelecida não quer dizer que o programa está pronto para sempre, né? A linguagem tem que se renovar a cada temporada, tem que evoluir. Eu acho que no esporte da TV Globo houve a formação de uma linguagem, sim, porque ali houve uma continuidade também. Foram muitas matérias colocadas no ar no Esporte Espetacular, muitas, muitas e muitas. No Globo Repórter houve um início do desenvolvimento de uma linguagem, mas precisaria de mais tempo.

Mas quais seriam as diferenças básicas entra essas linguagens?

No Esporte Espetacular eu era um garoto deslumbrado, viajando atrás de histórias de esporte, com muita narração em off, eu falava o tempo inteiro e interagia em português praticamente o tempo inteiro. Entrevistava muito jogador, esse foi meu foco durante muito tempo. Estava na China, mas a língua que mais se ouvia era português, na Índia a mesma coisa... Aos poucos isso foi mudando, mas ainda assim era, acho, o menino deslumbrado atrás de histórias de esporte. No Globo Repórter já houve algum amadurecimento em relação à linguagem. De certa forma, eu também me adaptei a linguagem do Globo Repórter, um programa no horário nobre, com cortes mais rápidos, com um certo dinamismo de edição, que não é exatamente a linguagem do Passagem..., né? O Passagem... é mais reflexivo, o Globo Repórter é mais informativo, informação/entretenimento. O Passagem Para... não, o Passagem Para... éum formato um pouquinho mais... Que pode ser um pouquinho mais denso, pode ser mais reflexivo, tem claramente, ao longo de todo o programa, o formato de diário, né? Em que eu coloco percepções, opiniões, informações, na primeira pessoa. No Globo Repórter havia também o formato de diário em alguns momentos, mas não o tempo todo. O formato de diário, no caso do Transiberiana se dava a cada fim de bloco, quando eu, no trem, escrevia trechos no meu diário. Acho que basicamente isso...

Quais reportagens você destacaria?

A Transiberiana. Na época da Globo ou de uma maneira geral?

De uma maneira geral.

Índia, Os Brasileiros Pioneiros no Futebol da Índia, foi minha primeira experiência e eu gosto muito do resultado, a Transiberiana, O Festival de Esportes Naadam, na Mongólia, As Mulheres Desportistas no Irã... Destacaria a série Passagem Para... Colômbia, destacaria a série Passagem Para... Guianas, especialmente a da ex-Guiana Holandesa, Suriname e Guiana Inglesa que virou só Guiana, gosto do Panamá também, destacaria Passagem Para... Argentina, acho legal, acho a série Argentina, densa e divertida ao mesmo tempo. Destacaria a série construída no Chile, Passagem Para... Chile... E claro que espero que o que está sendo feito atualmente também se tornem destaques, né?

Quais seus projetos atuais e futuros?

Atualmente o Passagem Para... 2008, com 20 programas, 20 documentários com meia hora de duração. Para o futuro, a montagem de um site, até hoje não tenho site, nem blog, nem nada na internet. Estou bem atrasado. Estou bem atrasado mesmo. Eu tenho que aprender a administrar um pouco melhor o meu tempo. O site vai surgir, em breve. Daqui a um mês, sei lá, ou dois, ou três. [risos]

Luís Nachbin ou Passagem Para...?

Luís Nachbin. E eu tenho que terminar o Guerra ao Terror, ele está sempre na ordem do dia, mas eu não consigo tocar adiante.

Quando e por que decidiu ser professor?

Quando eu terminei o mestrado, eu me sentia seguro de que eu queria dar aula. Aí eu voltei ao Brasil, tinha sido aluno de jornalismo da PUC, deixei meu currículo lá e fui chamado, seis meses depois, para dar aula.

Como concilia suas viagens com as aulas?

Coloco um substituto.

Você criou a TV PUC. Como surgiu a ideia?

Surgiu através do departamento de comunicação social lá da PUC. Eu dava aula, na época, de telejornalismo, agora eu dou aula de laboratório de telejornalismo, que é como se fosse telejornalismo II; e aí o diretor do departamento de comunicação social, professor César Romero, convidou a mim e a outro professor, Arthur Ituassú, para criar a TV PUC, montar a estrutura e, mais importante ainda, a linha conceitual da TV. E assim ficamos, Arthur e eu, Arthur por menos tempo, eu por dois anos e meio... 1999, 2000, 2001... Eu saí em 2001, no início de 2001, porque não estava mais conseguindo conciliar, né? Não era difícil colocar um substituto no meu lugar para dar aula por duas semanas, um mês, mas era difícil de colocar alguém na TV PUC.

Você era diretor?

Eu era diretor da TV PUC, coordenador, o nome do cargo. Coordenador geral da TV PUC. No início a TV PUC tinha nove estagiários e a demanda começou a crescer, o espaço na TV universitária, maior. Hoje em dia eu nem sei o número de estagiários, mas são, com certeza, mais de 20, acho que mais de 25.

E qual é a programação?

Da TV PUC, não sei dizer com precisão. Sei que há um telejornal semanal, com notícias variadas, como se fosse uma revista eletrônica, né? Semanal. E sei também que há, como havia já na minha época, um programa monotemático, como se fosse um Globo Repórter de meia hora, ou um Passagem Para..., semanal também. Pega um tema, seja qual for, e analisa e discute e informa, ao longo de meia hora. Mas há mais programas. Acho que há um programa de entrevista, não sei exatamente qual é a linha do programa de entrevistas, se são vários temas, um tema, apresentado, se não me engano, por um professor da PUC.

Mas como foi a criação?

Prazerosíssima, muito interessante e muito dura também. Enfim, como qualquer projeto, sempre sobra ideia e falta verba, né? Normal, normalíssimo. Nosso orçamento era enxuto, no início a gente tinha que trabalhar só com uma câmera, depois a gente passou a ter duas câmeras, no início nem tínhamos ilha de edição, lá na PUC, editávamos numa produtora, aqui pertinho, em Botafogo. Então eu ficava no trânsito PUC / Botafogo com frequência. E começamos a fazer a TV PUC sem piloto, para valer. Sabe: “Vamos lá, vamos lá”. Contratamos estagiários, selecionamos, e vamos botar no ar, para valer, e aos pouquinhos a gente foi achando, mais ou menos, a linguagem, o propósito da programação.

Para que mercado pretende formar seus alunos?

Para o mercado real, o mercado que existe, mas ao mesmo tempo sem os princípios... Eu me preocupo com a criação, né? A gente trabalha num ramo, que é um ramo de criação. O que mais me preocupa em relação à vida, ao futuro dos meus alunos, é uma eventual automação, na maneira de produzir, no modo de conduzir o dia a dia de trabalho. Mesmo os que estão com a mão na massa, os que estão nas redações de televisão ou nas produtoras, que não se tornem automatizados, né? Sempre criem, sempre pensando em renovação de linguagem, sempre pensando em colocar um dedo autoral de alguma forma, seja na produção, seja na concepção da ideia, seja na edição, ou no texto, seja no que for. Essa é minha grande meta em relação aos alunos.

Qual a sua opinião sobre a obrigatoriedade do diploma de jornalista?

Não considero necessário, não. Acho que um bom jornalista pode estar formado em antropologia, sociologia, engenharia de produção, economia.

E qual seria então o papel da universidade na formação do jornalista?

Formar bem, formar bem, discutir ideias, né? Alguma formação técnica é importante também, claro que sim. Nas universidades há boas discussões teóricas e conceituais. É claro que o aluno se satura se for só isso, tem que haver matérias práticas também, com certeza absoluta. Conceitual e prática. Eu levo discussões conceituais para a sala e em seguida eles vão para rua para aplicá-las, ou não, ou quebrar as discussões eventualmente, né?

E colocar o dedo autoral?

Colocar o dedo autoral. Colocar o dedo autoral, mas o mercado... Pelo menos no início da vida profissional, nem sempre concede esse direito, de colocar o dedo. Geralmente não.

Quais as diferenças nas maneiras de fazer jornalismo nos lugares que visitou?

Difícil responder. Houve um programa específico, no Peru, em Lima, em que o ponto de partida era as notícias diárias.

Você fez amizade com a dona de uma banca, né?

É, com a Maria [risos]. Esse era o ponto de partida, pré-concebido. Eu quase que forcei aquela amizade [risos]. Na verdade, a Maria, por coincidência, ficava na banca em frente ao meu hotel e aí... Maria adorava futebol, um foi logo com a cara do outro, então se forjou uma amizade. Mas foi uma amizade, digamos, até necessária, para ela avançar a pauta e, a partir do que saía nos jornais, eu ia atrás da construção do Passagem Para.... Mas é difícil te responder. Eu teria que fazer uma análise mais densa, mais profunda dos veículos de comunicação no Peru, Camboja.

Mas você lê ou assiste aos jornais, nesses lugares?

Assisto bem na medida do possível. No Peru, eu lia em Lima, por conta desse programa. Eu lia todos ou quase todos os jornais. Mas, em geral, eu leio um jornal, lá, comprado, que eu leio no café da manhã.

Você acha a linguagem diferente?

Nada que eu pudesse destacar. Olha, no Equador... Aliás, Equador é uma boa série, que eu também gosto muito, Passagem Para... Equador, esqueci de dizer agora há pouco, gosto muito da série Equador. Não consigo te dizer uma referencia forte. Teria que ter mais profundidade.

Além do fator financeiro, quais seriam as vantagens desse tipo de cobertura videojornalística?

De estar sozinho? Vantagens para a produção ou para mim, para a minha formação?

Os dois, na verdade...

Para mim é o velho clichê, mas é uma baita de uma verdade, de olhar mais para mim mesmo, né? Me conhecer melhor, me entender melhor. Ao viajar para lugares tão diferentes, ter contato com gente tão diferente, eu acho que me ajuda muito a entender as diferenças domésticas, as nossas diferenças, entre mim e você, eu e o outro, eu e... Solidão faz bem, de vez em quando, saudade é um bom ingrediente, inclusive para as relações pessoais, para os namoros, para os casamentos. Saudade, se bem medida, é um ingrediente bacana. E para o jornalismo, há a interação que se dá de uma outra maneira, né? Acho que esse é o grande benefício, uma interação um pouquinho mais espontânea, entrar nas situações pelo que talvez não entrasse, ou entraria de uma outra maneira. Acho que é basicamente isso.

E dificuldades?

Solid?