PINHEIRO JUNIOR
PERFIL

José Alves Pinheiro Júnior nasceu em Cachoeiro do Itapemirim, no Espírito Santo, em 16 de novembro de 1934. O pai tinha sido comerciante de café, mas com a crise de 1929 deixou o empreendimento familiar. Filiou-se à Aliança Nacional Libertadora e, posteriormente, ao Partido Comunista Brasileiro (PCB). A mãe foi professora primária. A família se mudou para Niterói em 1935, quando José Alves Pinheiro Júnior tinha seis meses.

Em Niterói, José Alves Pinheiro Júnior fez o primário no Grupo Escolar Nilo Peçanha e, na quinta série, foi para o Liceu Nilo Peçanha, onde estudou até o terceiro ano científico. Durante o curso científico, já fazia jornais estudantis. Fez vestibular para o curso de Comunicação oferecido pela Faculdade Nacional de Filosofia, da Universidade do Brasil. Mas a época, o curso que pensava em fazer era o de Arquitetura, mas não se considerava apto para as disciplinas de desenho. Não chegou a concluir o curso de Comunicação, mas teve aulas de Técnicas de Jornal, com Danton Jobim, História da Imprensa, com Lúcio Leão, e com Josué de Castro

José Alves Pinheiro Júnior começou no jornalismo na imprensa comunista, escrevendo matérias para a Voz Operária, jornal do Partido Comunista Brasileiro, em 1949. Em 1955, tinha um parente que trabalhara na revista Diretrizes e que também era amigo do chefe de redação da Última Hora, Paulo Silveira.

Foi selecionado para a redação porque seu parente disse que ele escrevia “muito direitinho” e conseguiu o emprego de repórter. Uma de suas primeiras matérias foi sobre um circo. O navio afundara no trajeto entre a Guiana Francesa e o Rio de Janeiro, e os animais teriam sido comidos pelos tubarões. Destacou-se como repórter em 1957, quando fez a primeira matéria sobre tráfico de drogas no Rio de Janeiro. O título era “Um repórter mergulha no mundo sombrio da juventude transviada”, e quase levou um tiro durante a apuração. Também fez uma matéria sobre o tráfico de cocaína em São Paulo, onde descobriu dentistas que davam receitas para usuários comprarem a droga nas farmácias. Também foi responsável por cobrir a construção de Brasília pelo Última Hora, que era favorável à obra. Pinheiro presenciou e cobriu muitos fatos históricos, como a vinda de Fidel Castro para o Brasil, durante o governo de Juscelino Kubitschek, e o caso “Cara de Cavalo”, que virou roteiro de filme, feito pelo próprio Pinheiro Júnior.

Por ser um dos repórteres do Última Hora, em 1º de abril de 1964, José Alves Pinheiro Júnior foi preso ao voltar de Minas Gerais. Ele estava em um jipe com a logomarca do Última Hora fixado em uma das portas. Quando chegou ao Rio, encontrou o prédio do jornal incendiado. Nos últimos anos do jornal, foi escolhido para ser diretor porque seu nome seria o único que mão tinha implicações políticas com partidos nem organizações políticas.

Após o fim da Última Hora trabalhou em O Jornal, do Diários Associados e colaborou para a reforma gráfica do jornal; depois em O Globo, realizando coberturas internacionais sobre a Rússia pós-stalinista além de ocupar cargos de chefe de redação; trabalhou para A Crítica de Manaus, por um período de três meses; TV Educativa; e trabalhou em O Dia. José Alves Pinheiro Júnior também escreveu livros como Esquadrão da Morte, lançado em 1970, e começou a escrever um livro sobre a história da Última Hora.

ENTREVISTA

Você está com quantos anos?

Eu estou com 73 anos. Eu comecei a trabalhar em 1955.

Onde?

Na Última Hora. Antes eu tinha trabalhado em diversos jornais pequenos, mas profissionalmente, com carteira assinada pela primeira vez, foi na Última Hora. A redação da Última Hora era na Praça Onze, onde é atualmente o metrô. Não tem aquele edifício do metrô? A gente tinha um edifício bonito que todo mundo pensava até que era desenhado pelo Oscar Niemeyer, mas não era. Era feito por um arquiteto do Vaticano. Interessante: com essa volúpia de mudar a cidade, eles derrubaram aquele edifício tão interessante e puseram no lugar dele aquela caixa de fósforos que vocês vêem lá, que é a sede do metrô. Eu comecei a trabalhar ali. Eu estudava na Faculdade Nacional de Filosofia, hoje é um curso de jornalismo. Era um curso pioneiro onde você não era obrigado a se formar, você ia estudando aquelas matérias... Todos vocês fazem comunicação social, certo? É, eu estudava na Universidade do Brasil, atual UFRJ, é a mesma de vocês. Era ali na Presidente Antônio Carlos, número 40. Eu fiz vestibular, passei bem.

Em que ano?

Em 1955, exatamente no ano em que comecei a trabalhar. Eu fiz o vestibular e entrei na Última Hora. Era fácil naquele tempo você conseguir porque não existia diploma. E eu nunca me diplomei. Quando eu cheguei no terceiro ano, eu já estava trabalhando tanto em jornal que eu já não tinha mais tempo de frequentar a faculdade. Daí, quando eu vi que ia repetir o ano, eu falei: “Ah, não vou voltar mais lá não”. Tranquei a matrícula pensando em um dia pegar aquele diploma. Esse dia nunca chegou.

Eram quatro anos naquela época também?

Não. Eram 3 anos e você tinha 1 ano, se quisesse, de especialização. No último ano, era mais ou menos assim, você escolhia: “Ah, eu quero fazer sociologia com o pessoal de sociologia”, “psicologia com o pessoal de psicologia”. O curso de psicologia era mais novo do que o nosso, estava começando. “Geografia com o pessoal de geografia”. Daí, eu comecei a fazer geografia, depois desisti. Sabe como é garoto nessa idade, né? Daí, falei: “Quer saber de uma coisa? Vou fazer psicologia”. Desisti de novo e falei: “Não, eu vou fazer sociologia”. Daí, tranquei a matrícula porque estava muito confuso. Eu queria ganhar dinheiro, que era o mais importante para mim, tinha que me sustentar também... Aí, é trancar a matrícula e trabalhar só em jornal. Eu nunca mais voltei para faculdade. Mas eu confesso a você que só me fez falta uma vez na vida, quando eu conheci um procurador geral da república, durante uma comissão de inquérito. Daí nós ficamos muito bem relacionados e ele falou: “Pô, você tem perfil para trabalhar no Itamaraty para ser adido de imprensa. Basta só você apresentar o diploma, fazer esse concurso...”. Daí eu falei: “Eu não tenho diploma”. Eu poderia ter sido adido de imprensa, ter viajado para um país desse cheio de ouro e tal. Mas eu, na ocasião, não achei muito ruim não porque não me passava pela cabeça ser adido de coisa nenhuma. Eu queria continuar fazendo reportagem. A reportagem é uma coisa que pega a pessoa, não sei se vocês sabem. Quando você começa a fazer reportagem você só pensa em fazer reportagem e quando te colocam numa redação, porque acham que você vai ser chefe de reportagem ou porque você vai ser editor, você acha que aquilo vai ser um castigo. “Esses caras estão me punindo”. Te pagam mais para você fazer aquilo, mas você está sendo punido, porque você vai ficar preso dentro da redação. E o repórter é um animal solto, anda pela rua, faz as reportagens. Hoje em dia não é mais muito assim, não. Hoje em dia a redação exerce uma tirania muito grande em cima do repórter e eu acho que a imprensa atual, embora nós tenhamos ─ desculpa eu estar falando algo, não sei se é bom. Eu acho que a tecnologia de fazer jornal evoluiu muito, mas eu acho que o lado humanístico da profissão regrediu, porque o repórter era muito mais livre e solto do que é atualmente. Atualmente tudo é muito mercenário. Ah, eu vou contar uma história. Durante sete anos eu fui editor de O Globo. Então, o doutor Roberto Marinho, numa ocasião houve uma conversa com ele. Quando eu fui editor do O Globo ele já não era tão acessível como era antes.

E isso foi quando?

Foi no final da década de 1980. Eu fui de 1980 até 1988 editor de O Globo. Editor de cidades, porque tinham outros editores no Globo. Tinha o editor geral, o editor de política, editor local (o atual editor de Cidades). Então, uma vez, quando houve aquele acidente do Rio Centro ─ que eu nem lembro exatamente as datas, era preciso que eu tivesse minha carteira profissional porque eu consigo ligar as datas por ali ─ uma pessoa lá que era muito ligada ao Roberto Marinho, frequentemente ele reunia todos os editores do jornal num apartamento que ele tinha no último andar. Eu disse: “Ah, doutor Roberto, porque a liberdade de imprensa é uma coisa sagrada”. Saiu essa frase lá. Aí o Roberto Marinho disse: “Meu filho, aprenda uma coisa: em jornal só existe uma coisa sagrada, que é o anunciante”. Bem Roberto Marinho, né? Mas isso é a razão do sucesso de O Globo. Enquanto todos os outros jornais afundavam porque acreditavam na liberdade, O Globo acreditou na submissão. O Globo serviu à ditadura ─ tá aí poderosíssimo. Serviu aos americanos ─ tá aí, poderosíssimo. Muda governo e continua poderosíssimo. Você não viu agora na eleição do Obama, quantos correspondentes de O Globo tinham lá? Só da TV Globo tinha meia dúzia mais não sei quantos. Sabe por quê? É porque tava mudando o patrão. Tava mudando o patrão e é coisa muito importante. Infelizmente é assim, o maior jornal do Rio de Janeiro não é o maior jornal do Brasil. O maior jornal do Brasil é a Folha de São Paulo. O maior jornal do Rio de Janeiro é um jornal que não é brasileiro. Ou é brasileiro até certo ponto. Ele finge. Eu acho que os tempos atuais são muito mais difíceis que os tempos de antigamente. Porque hoje em dia você não sabe onde é que está a verdade, quem é que está falando o certo, quem é o amigo e quem é o inimigo. É tudo meio misturado. O Globo vai para televisão e fala uma coisa completamente diferente. Você está vendo que o jogo dele é outro. É outro, não é verdade? Para iludir o povo.

Mas por que você acha que acontece isso? Por que você acha que antes era diferente?

Eu acho que antes havia uma dose maior de romantismo nos jornais. Esse é o primeiro motivo. Segundo porque os jornais não tinham essa ânsia de se formar em verdadeiros cartéis de comunicação. Você vê: O Globo é a Infoglobo, é o Extra, é o Expresso, é a TV Globo, são essas cadeias todas de televisão pelo Brasil afora e isso significa dinheiro, né? Muito dinheiro. Sem falar nos interesses internacionais, como na Itália. Vocês sabem que O Globo tem um tentáculo na Itália, inclusive aquele ladrão, o Silvio Berlusconi, é um dos caras que apóiam a Globo lá. Então é isso. Eu acho que o mundo ficou mais mercenário. Tinha um escritor que dizia o seguinte: “O espelho não é culpado se temos a cara torta”. Então eu acho que o jornal é o espelho do mundo em que a gente vive. O mundo está torto, então os jornais estão tortos. O jornal não é uma exceção. É o que eu acho. Tem alguma coisa específica que vocês querem saber?

Você nasceu onde? Você serviu o exército antes de entrar para o Última Hora?

Eu nasci em Cachoeiro de Itapemirim, em 1934.

Qual a data?

Em 16 de novembro de 1934. Eu sou da terra de Rubem Braga. E do jornal chamado Cruzeiro do Sul. Havia um único jornal na cidade e era chamado Cruzeiro do Sul.

E você trabalhou nele?

Não, eu saí de lá com seis anos.

E veio para o Rio de Janeiro?

Não, vim aqui para Niterói. Sempre morei em Niterói. Quer dizer, já morei em outros lugares, mas a minha base sempre foi em Niterói. Eu já morei em Porto Alegre, em Brasília, em Curitiba, em Manaus, mas minha família sempre foi de Niterói.

Todo mundo morava lá em Cachoeiro e vieram todos para cá, para Niterói?

Sim, minha família toda morreu para cá. Meu pai perdeu um emprego lá. Meu pai foi um perseguido político. Ele era da Aliança Nacional Libertadora.

Qual o nome do seu pai?

José Alves Pinheiro. Eu sou José Alves Pinheiro Júnior. Então ninguém dava mais emprego a ele, essas coisas todas, e ele resolveu mudar de estado, porque as convicções políticas dele atrapalhavam. Ia haver o Estado Novo, né? Getúlio ia dar o golpe de 1937. Ele era comerciante de café, houve o crack do café, tiveram que queimar o café todo. Daí, nós mudamos a família dele toda aqui para o estado do Rio de Janeiro. Interessante, né, porque o primeiro emprego que meu pai arranjou aqui foi o de vendedor de papéis ─ em branco. Daí depois eu fui ajudar vender papel escrito.

E a sua mãe?

Minha mãe era uma professora. Professora de escola primária lá no Espírito Santo. Quando toda vez que queriam perseguir meu pai, transferiam minha mãe para um lugar mais distante do que você pode imaginar. Então se a gente morava em Chachoeiro, diziam assim: “Manda Dona Aura lá para Colatina!”. Essa história está contada num outro livro meu que infelizmente eu não trouxe. É uma história que conta um pouco da política daquele tempo, né?

E a questão da perseguição do seu pai? Você tinha que se mudar quando transferiam sua mãe?

Fazia-se o seguinte: às vezes a gente ficava com parentes, essas coisas todas, mas normalmente ia todo mundo junto.

E como você fazia para estudar?

Meus irmãos mais velhos estudavam, mas eu não. Nessa época que houve essa perseguição eu tinha cerca de 4 anos, meu outro irmão tinha 6. Minha irmã é que teve esse tipo de problema. Mas minha irmã ficava na casa de um parente em Cachoeiro onde tinha um liceu, Liceu Muniz Freire, onde ela estudava, então não tinha grandes problemas. Mas nós todos éramos muito pequenininhos, daí era fácil acompanhar mãe e pai. E os professores naquele tempo ganhavam muito pouquinho, né, hoje em dia ainda ganham, você imagina naquele tempo de analfabetismo total. Não era importante a pessoa estudar. Hoje em dia é muito importante, eles estão tentando melhorar isso.

Bom, aí eu fiz o primário no grupo escolar chamado Grupo Escolar Nilo Peçanha, que existe atualmente em São Gonçalo. Foi onde primeiro nós moramos, em São Gonçalo. Eu morava em frente esse grupo escolar, então para mim era fácil, só atravessar a rua. Quando cheguei na quinta série primária eu vim estudar no Liceu Nilo Peçanha. Fui até o terceiro ano científico. No terceiro ano científico eu fiz vestibular para a UFRJ, então Universidade do Brasil. Passei bem. Confesso que fiz porque olhei lá a relação [candidato-vaga] e era o vestibular mais fácil que tinha. É verdade, foi isso. Primeiro eu pensei em fazer Arquitetura. A Universidade do Brasil tinha um curso pré-vestibular de arquitetura no diretório acadêmico ali na Urca, era ali na Urca. Eu cheguei a frequentar algumas aulas de Arquitetura e falei: “Vou ser arquiteto”. Mas aí quando eles puseram o tijolo lá na frente e tinha o desenho à mão livre, eu falei: “Poxa, eu não vou ser arquiteto nunca, não sei desenhar esse tijolo”, aí desisti. Daí, olhei lá agenda dos vestibulares e falei: “Bom, esse daqui eu passo fácil” ─ e era comunicação. Fiz e passei.

Mas você disse que tinha trabalhado em alguns jornais antes do Última Hora...

É, antes de entrar na faculdade, eu fiz vários jornais de estudante. Eu fiz alguns jornais no Liceu Nilo Peçanha e quanto a UNE, eu fazia um jornal entre os colégios, chamava-se Unidade Estudantil. Tudo jornal de estudante. Isso em 1948, 1949.

Isso era ensino médio?
É, era ensino médio. Primeira coisa que fiz depois que entrei para faculdade de filosofia foi fundar um jornal que chamava Reflexão. Era o jornal do curso de filosofia. Nós fizemos durante um tempo mas daí começou a faltar dinheiro. Ninguém tinha dinheiro para comprar material. E o jornal era distribuído. Era algo feito de forma bastante idealista.

Mas você trabalhou em outros lugares além de jornal?

O primeiro emprego que eu consegui para ganhar dinheiro foi no IPOM, Instituto de Pesquisa de Opiniões e Mercado. Era uma espécie de IBOPE, daquela ocasião. Mas eu não gostei. E nessa ocasião eu consegui emprego no Última Hora. Eu tinha um parente que tinha trabalhado na Diretrizes com o Samuel Wainer, e era amigo do chefe da redação que se chamava Paulo Silveira. Aí ele falou: “Eu vou fazer uma apresentação para você, você escreve muito direitinho ─ eu vou mandar você lá para procurar o Paulo Silveira...”. Daí eu procurei o Paulo Silveira na redação da Praça XI. Eu vi a redação assim quase vazia, o Samuel Wainer estava preso no quartel do regimento Caetano de Faria.

Isso foi em 1955?

Sim, 1955, quando entrei no Última Hora. Daí o Paulo Silveira falou: “Senta aí em qualquer lugar”. Eu sentei num canto e fiquei esperando. Mas como tinha pouco funcionário, porque o jornal estava em crise, ah, me mandavam fazer tudo. E descobriram que eu tinha algum conhecimento de jornal e escrevia sem precisar do copidesque. O grande problema daquela época era o copidesque, né? O redator que reescrevia sua matéria para dar uma uniformidade no estilo do jornal, daí eu peguei rapidamente aquilo.

Você começou direto como repórter, então?

É, eu entrei como repórter. Em março de 1955.

E lembra qual foi sua primeira matéria?

Eu lembro as primeiras. A primeiríssima matéria não. Ali na Presidente Vargas tem um terreno, quase em frente da Praça da República, em que estava armado um circo, então me mandaram fazer uma matéria nesse circo. Quando eu cheguei lá, não tinha nenhum bicho ─ não tinha leão, não tinha elefante, não tinha nada. Daí, perguntei: “Cadê os bichos?”. Os bichos tinham sido comidos no transporte da Guiana Francesa para o Rio de Janeiro. Houve um naufrágio, o navio afundou e os tubarões comeram os bichos todos que caíram no mar. Foi uma matéria interessante. Se não foi a primeira, foi uma das primeiras. A primeiríssima matéria eu não lembro, mas deve ter sido uma matéria de dentro de redação, porque quando os repórteres chegavam, você atendia geralmente as pessoas que iam ao jornal fazer alguma reclamação, para levar uma informação, daí você reapurava para completar a informação por telefone.

E atuação política, você teve alguma?

Eu tinha. Agora eu me lembrei de um detalhe: antes de trabalhar no Última Hora, eu trabalhei num jornal chamado Voz operária. Era o jornal do Partido Comunista. Da seguinte maneira: era muito difícil você conseguir um lugar num jornal e me falaram assim: “Se você quiser, você é muito esquerdista...”. Eu era bastante esquerdista, mais do que sou atualmente, o tempo ensina muita coisa, gente. “Nós arranjamos um lugar para você na Voz Operária”. Nesse tempo chamava-se Classe Operária, daí foi fechado pela polícia e voltou como Voz Operária. Funcionava ali no Edifício São Borja, do lado de cá da Cinelândia, num daqueles andares ali. Então eu trabalhei durante um período, acho que em 1949. Foi muito interessante para mim porque as coisas eram feitas de um jeito muito maluco. De vez em quando um cara vinha e dizia: “Fecha a porta aí que a polícia pode chegar”. Era um negócio de bastante perseguição naquele tempo. Você trabalhar num jornal como o Voz Operária era uma terrível aventura.

Você era filiado ao Partido Comunista?

Não, não era. Eu nunca fui filiado a nenhum partido. Quando eu pensava em me filiar a algum partido, eu começava a ler o estatuto e falava: “Eu não estou de acordo com isso aqui não”. Então, como eu era muito liberal, libertário, eu acreditava que as riquezas tinham que ser mais bem distribuídas, mas não acreditava que as coisas tinham que ser daquela forma. Agora, meu pai não. Meu pai era comunista. Depois da Aliança Nacional, se filiou ao partido comunista. E minha mãe também era do Partido Comunista. Então eu tinha toda uma formação em casa de pessoas que acreditavam que o mundo podia ser transformado. Tem tempo que não falo sobre isso, eu confesso para vocês.

Você acreditava na Revolução Russa?

Eu confesso a você que eu nunca acreditei na Revolução Russa. Uma vez eu fiz uma viagem à Áustria e eu estava visitando um museu ─ nesse tempo a União Soviética estava no auge, Gagarin, aquela coisa toda ─ e de repente apareceram uns russos e tinha um cara tomando conta daqueles russos todos. Eu sou daqueles caras que prestaram atenção no Vigésimo Congresso do Partido Comunista, sobre aquelas denúncias sobre a era stalinista. Então, quando caiu o muro em Berlim e eu falei: “Eu vou lá na Rússia”. Eu estava no Globo ainda e consegui que O Globo financiasse minha passagem e eu fui visitar a ex-URSS para ver como estava aquilo lá. Aí entrevistei a curadora do Museu Stalin, em Tbilise, estava em São Petersburgo, antiga Leningrado e publiquei uma matéria de página inteira no Jornal do Brasil.

No Jornal do Brasil?

Pelo seguinte, O Globo me financiou porque era a eleição do Boris Yeltisin e eu fiz as matérias dele e dei para O Globo. Mas o jornal cortou um monte de coisas da matéria, daí eu fiquei zangado. Por vingança eu pensei “Essa matéria do Stalin que é a boa, eu não vou dar para O Globo”, e por vingança dei para o Jornal do Brasil, que publicou na íntegra, sem mudar nada. Foi aí que eu rompi com O Globo. Eu achei que O Globo estava censurando demais a matéria dos outros. Mas não era culpa do jornal. Era a editora que era muito anticomunista e aí achava que num país que era ex-comunista ainda podia ter algum tipo de influência na matéria e tal, e ela ficou com muitos cuidados dela ser acusada de cumplicidade. Eu acredito que tenha sido isso. Mas daí eu fiquei zangado e decidi não escrever mais para O Globo. Foi a última matéria do jornal.

Você ia falar sobre o conteúdo da matéria...

Existe em Tbilise, que é a capital da Geórgia, o Museu Stalin que tem a história do Stalin, tudo de bom e de ruim que ele fez. Eu chateei essa curadora durante uns 3 dias. Eu ia todo dia lá no museu, que eu sabia que ela estava lá. Ela falava espanhol, era facílimo entrevistá-la, uma mulher muito inteligente. Daí, eu contei que aquele Stalin que todo mundo achava que era um gênio, não era bem assim. Ele tinha problemas de aprendizagem e eu fiz uma matéria mais ou menos neutra do jeito que ela me transmitiu. Mas, lá na terra dele, ele era alguém ainda cultuado. Na terra dele todo mundo achava que ele era o maior. Ele foi o cara que, depois de Lenin, consolidou o governo soviético de uma tal maneira que tirou o país de um regime medieval e transformou numa senhora potência mundial, isso em poucos anos. A custa de terríveis sacrifícios para o povo russo, sem dúvida nenhuma ─ injustiça, assassinato, essas coisas todas que todo mundo sabe hoje em dia, que o próprio Kruschev denunciou no vigésimo congresso. Mas como teria sido o mundo sem o Stalin? Eu fiz uma matéria assim, não era bem uma denúncia. Eu quis fazer uma coisa mais ou menos neutra. Ao mesmo tempo em que ele pode ter sido um tirano ─ e a Rússia tem tradição de ter sido governada por tiranos, os czares todos ─, ele foi uma pessoa que tirou a URSS do regime feudal e trouxe ele para o patamar de uma das primeiras potências do mundo. Falei sobre os planos quinquenais, sobre quanto ele tirava em matemática etc. Acho que ninguém ainda tinha pensado em fazer uma matéria daquele gênero. E essa matéria foi reproduzida em diversos outros locais. Outro dia, há uns 3 meses, uma revista me telefonou e perguntou se eu podia reproduzir aquele artigo sobre Stalin. Eu falei: “É claro”. Porque tem uma porção de livros grossos sobre Stalin, mas parece que essas pequenas coisas que eu conversei com a curadora do museu não tinham nesses livros aí. Mas daí eu dei um pulo, né? [risos]

Só me deixa fazer uma última pergunta referente a essa matéria. Quando você fez essa matéria, você já sabia desses crimes que o Kruschev tinha denunciado?

Eu já sabia. Quando eu fui visitar a Rússia eu já sabia.

Isso foi em que ano?

O Vigésimo Congresso do Partido Comunista. Não consigo me lembrar.

Você foi para lá para esse congresso?

Não, eu fui lá quando o Bóris Yeltsin foi candidato para reeleição. Eu propus essa matéria ao Globo. Eu já não estava mais trabalhando no Globo. Depois que eu sai de O Globo, eu fui trabalhar na Crítica de Manaus, me chamaram para ser diretor de lá porque eles iam fazer algumas mudanças, colocar cores, instalar offset etc. e eu já tinha participado disso em diversos outros jornais. Aí me chamaram para Manaus, morei lá um período. Quando eu voltei de Manaus, eu voltei para O Globo, aí fui trabalhar no Segundo Caderno, de O Globo. Um dia, o Rodrigo Meireles passou na redação, inclusive, quem levou ele para trabalhar em jornal fui eu, e perguntou: “O que você tá fazendo aí?”. E eu disse que tava trabalhando em copidesque.

Isso foi quando?

Em outubro de 1989. Aí ele falou que tava precisando de um chefe de redação na TV Globo. Aí fui para lá e trabalhei um ano, um ano e pouco. Não gostei da Globo, não gostei de trabalhar na TV Globo. Achei que era um lugar muito... Eu já estava cansado, na época, essa que era a verdade. Não consegui me adaptar... Naquele mundo, todo mundo tinha que ser estrela e na minha cabeça funcionava que, ou você cheirava pó ou então você era do grupo dos homossexuais. E se você não fosse do grupo dos homossexuais e nem cheirasse pó, você não ia se dar bem na TV Globo, e era um pouco assim de fato. Aí eu pedi demissão. Demoraram 3 meses para me dar demissão. Só me deram demissão porque quando chegou o carnaval eu disse que não ia trabalhar. Aí me deram a demissão, me pagaram tudo certo. Daí eu fiquei um período desempregado e depois fui trabalhar na TV Rio e me pediram para implantar um jornalismo de hora em hora. A TV Rio estava muito mal, então eles queriam fazer um diferencial no ar, então eles bolaram o seguinte: de hora em hora tinha um noticiário. Um trabalho desgraçado. Eu era o gerente de jornalismo, daí começamos a implantar o noticiário de hora em hora. Se você quisesse saber noticia, ligava a TV Rio. Durou pouco tempo porque era muito dispendioso, com muitos repórteres, tinha que ter várias ilhas de edição, eu sozinho comecei a não dar mais conta. Daí eu arranjei uma viagem para os EUA e, quando eu voltei, estava demitido. Daí eu fui para TV Educativa. Fizemos um programa chamado Curto-Circuito. Esse era moleza porque era só uma vez por semana. Depois o Ary de Carvalho, que era dono do jornal O Dia, começou a implantar offset no jornal e como eu tinha experiência disso e tinha trabalhado com ele no jornal, ele me chamou para trabalhar lá. Depois eu sai, fui trabalhar na Tribuna da Imprensa, de pauteiro e era isso que eu queria, uma coisa bem tranquila. Mas um dia, o Mario Rola que era o chefe da redação disse: “Olha, você aqui como pauteiro é um luxo porque a Tribuna da Imprensa não precisa de pauteiro”. E eu fui mandado embora. O último emprego de carteira assinada que eu tive foi na Tribuna da Imprensa.

Isso foi na década de 1990?

Foi na década de 1990. Daí minha filha estava montando essa assessoria de imprensa e me chamou para vir trabalhar com ela aqui. E isso que é bom, ser empregado da filha. [risos] E daí eu também comecei a escrever livros. Escrevi quatro. Tenho mais dois prontos e publicar livro no Brasil não é fácil. Um país de analfabetos é dificil. O Esquadrão da Morte, um livro que eu escrevi com o repórter Amado Ribeiro, um dos maiores repórteres de todos os tempos, foi publicado pela Coordenada Editora do Brasil. Depois escrevi Mefibosete e outros absurdos. Depois eu escrevi esse Aventuras dos meninos Lucas Pinheiro, que tem um pouco da história do meu pai e tal. Aí depois eu escrevi um livro com o Biafra, que não foi publicado ainda. E agora estou escrevendo um sobre a história da Última Hora, desde a fundação até a venda, quando ela foi vendida para a turma do André Asa. Chama A Última Hora como ela era, porque tem muito da história do Nelson Rodrigues. É isso.

Então, voltando... Você havia saído do Voz Operária. O que você foi fazer lá?

Eu não estava nem na faculdade ainda. Trabalhei um pequeno período no Voz Operária. Eu não era comunista, mas meu pai e minha mãe eram, então eu não tinha nenhum preconceito. Embora se chegasse em praça pública e dissesse “eu sou comunista”, te prendiam. Nesse tempo era um crime, né? Período de guerra, então havia um crime ideológico. Embora também a Declaração Universal dos Direitos Humanos garanta que não há crime ideológico e você pode pensar da maneira que quiser e que os países mais desenvolvidos do mundo têm lugares próprios para você dizer o que você bem entende. Na Inglaterra tem o Right Park e você sobe num caixote e a polícia garante que você fale o que você pensa porque isso é a liberdade, é válvula de escape. São tão interessantes essas garantias de liberdade do mundo que eu estava em Nova York em uma ocasião e eu passei pela Washigton Square e um amigo meu que estava lá disse assim: “Está vendo aquele cara ali? Aquele cara vende maconha”. E eu perguntei: “Como é que você sabe disso?”. Ele disse que todo mundo sabia, até a polícia. Mas como em Nova York todo mundo usa muita maconha, tem que ter um lugar separado, porque senão a polícia fica doida. Eles sabem que a aquele cara vende maconha e toma conta para só vender ali, é a válvula de escape. Vocês sabem que nos EUA tem vários lugares que legalizaram a maconha, agora. É mais fácil você controlar um pouquinho do que você reprimir o bastante. Essa é inclusive a teoria da CIA, quando colocam a venda armas em Miami. Porque é mais fácil você saber que ali tem um lugar que vende armas do que ficar comprando armas pelo mundo todo e a CIA tentar tomar conta do mundo todo. É uma teoria de coisas ilícitas: você controlar o pequeno, para não precisar combater o grande.

Ou não combatendo...

Sim, mas é de uma tal forma que quem combate também está envolvido e esse que talvez seja o problema. Mas vamos lá, voltar para a história.

E qual é a sua opinião sobre o governo Vargas?

Minha mãe e meu pai foram muito perseguidos.

Quando você trabalhou na Última Hora, você sabia que era uma ideia de Vargas?

Sabia. Mas o que me atraiu na Última Hora foi o tipo de jornal que eles faziam. Enquanto os outros jornais eram tacanhos e velhos, a Última Hora era um jornal super moderno. O Última Hora era todo colorido, e... Vai na Biblioteca Nacional e pega os primeiros números da Última Hora para você ver como era a diferença entre a Última Hora, por exemplo, e o radical do Globo. Os outros eram jornais velhos, entendeu?, sem nenhum atrativo, uma porção de texto na primeira página. O Última Hora tinha aquelas manchetes grandes, tinha os desenhos, e era todo colorido. Além de que, era um jornal bem escrito. Os melhores intelectuais do país colaboravam com a Última Hora: Vinícius de Moraes, Jorge Amado... O Globo nesse tempo era um jornal muito ruim, muito pequenininho. O grande jornal nesse tempo era o Diário da Noite, do Assis Chateaubriand.

Mas e o Vargas?

Naquela época a gente já tinha uma ideia diferente. A gente achava que o Getúlio Vargas tinha sido um tirano, mas a gente sabia que, para a época, ele foi uma evolução para o país, porque ele fez uma porção de coisa que o país precisava: as leis trabalhistas, por exemplo. E ele era um presidente que, na medida do possível, defendia as instituições nacionais, defendia as coisas nacionais. Quando os americanos quiseram que o Brasil participasse da Guerra e ajudasse a invadir a Itália, o Getúlio negociou a ida dos pracinhas em troca de uma fábrica de vidros planos (para você ver como o Brasil era atrasado: ele nem fabricava vidro plano), que foi feita aqui em São Gonçalo, a Covibra, e a Companhia Siderúrgica, que funciona até hoje em Volta Redonda. Quer dizer, ele era um cara que tinha a cabeça. O Brasil, para produzir, vai precisar de aço. “Ah, eles querem soldado da gente? Então ajuda a construir uma Companhia siderúrgica lá”. Tem gente que até diz que o Getúlio trocou o sangue dos soldados brasileiros pelo aço que o país precisava para se desenvolver. Por isso que foi tão importante a participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial. Os soldados que morreram lá, eles estavam contribuindo de certa forma a emancipar o país. Foi o início da emancipação econômica brasileira. Vocês vão dizer assim: “Ah, mas ele ficou quinze anos aí, se ele não fizesse pelo menos isso...”. Realmente. Ele fez coisas horrorosas, que ele tinha um chefe de polícia chamado Filinto Muller ─ já ouviu falar, né? Mas a gente sabia que a Última Hora tinha influência de Getúlio. Só que, quando eu entrei lá, ele já tinha se matado. Já fazia dois anos que ele tinha se matado. A Última Hora estava numa crise terrível e o Juscelino Kubitschek era governador de Minas e queria ser presidente da República e tinha um pensamento parecido com Getúlio ─ você vê que ele fez Brasília, foi desenvolvimentista, essas coisas todas, ajudou a indústria automobilística. Tem uma porção de coisas que ele fez de errado, mas, se você somar tudo, você vai ver que ele foi muito importante. O Juscelino foi um Getúlio moderno. Esse cara ajudou a reerguer a Última Hora. Antigamente era um mistério danado, rapaz, mas hoje já se sabe que quem ajudou a levantar a Última Hora quando a Última Hora estava na pior foi o Juscelino. Teve uma porção de capitalistas desses aí a financiar, a instalar de novo máquinas para o Última Hora. Vocês conhecem a história da Última Hora?! Quando o Samuel Wainer montou o jornal, ele conseguiu empréstimos em vários locais, sendo que o empréstimo maior era o do Banco do Brasil. Quando o Banco do Brasil cobrou os empréstimos que já estavam vencidos, pressionado pela UDN que já estava no poder, quando eles executaram a dívida da Última Hora com o Banco do Brasil, eles levaram tudo. A Última Hora teve que se mudar lá para a Praça da Bandeira e começar tudo de novo, começar do zero. Já ouviram falar em Tião Maia? Tião Maia era o maior criador de gado do Brasil, dono daquele frigorífico T. Maia. Em 1964, ele foi tão perseguido pela ditadura que levou o rebanho dele todo para a Austrália, sabia disso? [risos] Ele embarcou o rebanho dele todo para a Austrália! [mais risos] [Os frigoríficos] eram no mesmo lugar que a Última Hora. Quer dizer, ele cedeu para a Última Hora uma parte dos prédios que ele não usava mais. O Tião Maia era amigo do João Goulart. É por isso que eu estou contando isso para vocês: a imprensa brasileira, qualquer que seja o veículo, ela serve a algum tipo de senhor, entendeu? Pode ser partido político, qualquer um. Mas enquanto os outros serviam aos americanos, a Última Hora pelo menos servia aos capitalistas brasileiros.

Mas o varguismo pegou a Última Hora pela mão até quando?

Até 1954. No dia em que o Getúlio deu um tiro no peito, a Última Hora começou a definhar, porque era um jornal muito perseguido. O Lacerda, que era um tribuno extraordinário, começou uma campanha contra o jornal. Ele ia para televisão e denunciava coisas incríveis, algumas eram verdade e outras completamente mentira. Era muito difícil você separar verdade e mentira. Aí, foi feita uma Comissão Parlamentar de Inquérito, acho que uma das primeiras do Brasil. Nesse tempo é que foi inventada a CPI. O Congresso Nacional se reunia no Palácio Tiradentes, aqui no Rio de Janeiro. O Samuel foi lá e eles queriam que ele dissesse o nome dos financiadores da Última Hora. Isso antes do Getúlio se matar. Eles queriam que o Samuel dissesse assim: “Quem me deu o dinheiro foi o Getúlio, que mandou o Horácio Lafer, presidente do Banco do Brasil, me emprestar o dinheiro”. O Samuel Wainer alegou segredo ético ­─ um jornalista não revela a sua fonte ─ e não disse quem era o financiador. Ele saiu dali preso por desacato à CPI e foi levado para o Quartel Caetano de Faria, ali na Frei Caneca. Foi ali que eu conheci o Samuel, inclusive. O Carlos Lacerda também arranjou aquela história de que o Samuel não era brasileiro. A Constituição da época dizia que você, para ser dono de jornal, tinha que ser brasileiro nato. Aí o Carlos Lacerda fez isso para acabar com a Última Hora. Ele tinha aquele jornal, a Tribuna da Imprensa, que naquele tempo era um jornal muito reacionário ─ era fascista, a Tribuna da Imprensa era um jornal fascista. E a Última Hora era um jornal esquerdista, então os dois eram inimigos natos. O Lacerda tinha sido comunista também, que naquele tempo era a moda, todo mundo era comunista porque o comunismo era a esperança do mundo. O mundo era muito injusto, o operário era muito maltratado, tinha havido a matança de Chicago. Isso nos Estados Unidos, que era a pátria da democracia. Você imagina como era a situação do operariado na Europa, que era um lugar muito mais atrasado, como era no Brasil. Operário não podia falar nada, só podia trabalhar. Aí aqueles ingleses foram visitar a União Soviética, isso em mil novecentos e vinte e pouco, e quando voltaram era aquilo: “Puxa, lá é bacana, hein! Os operários estão no poder! Lá, o presidente é um operário!”. Essas coisas todas. Então, os caras voltaram dizendo: “Olha, não tem mais ninguém passando fome na Rússia!”. Eles não sabiam que não tinha ninguém passando fome, mas tinha gente presa que não era brincadeira. [risos] À custa da falta de liberdade, estavam matando a fome no mundo. Talvez até fosse necessário naquela época esse tipo de repressão. Era o tempo do Stalin. Esse tipo de propaganda corria o mundo inteiro e por isso é que virou moda ser comunista. Você pode pesquisar as vidas desses caras todos que estão por aí. Em algum momento da vida, eles foram comunistas, em algum momento eles acreditaram que o mundo tinha que mudar. Hoje em dia já se sabe que não precisa ser assim. Você pode mudar sem precisar matar os outros nem perseguir ninguém ─ nem sair prendendo todo mundo em um gulag, aqueles campos de concentração na Sibéria. O Hitler também quis mudar o mundo, mas quis daquela maneira tenebrosa: matando os judeus todos e prestigiando o capitalismo. Completamente diferente do comunismo. Era uma moda no mundo que você deveria abraçar uma ideologia que salvasse a humanidade, porque a injustiça era muito grande. A guerra de 1945 deu uma melhorada nisso: as nações todas se uniram. Ignoraram o mundo oriental, né? A Declaração Universal dos Direitos Humanos ignorou solenemente o Japão. A China teve um representante lá, mas era um país muito combalido. Os países mulçumanos não estavam presentes, sabia disso? Olha que coisa inacreditável. Hoje se fala em direitos humanos, em Nações Unidas e os mulçumanos começam a rir: “Nós não somos das Nações Unidas”. Eu acho que... Isso é uma opinião em que eu tava pensando outro dia. Eu acho que deveria haver uma revisão, uma revisão, uma reciclagem da ONU. E por quê? Ora, porque nem os Estados Unidos respeitam mais a ONU. Quando eles invadiram o Iraque, a ONU foi contra ─ mas eles invadiram assim mesmo. Por quê? Ora, porque eles são mais poderosos do que a ONU. Então, eu acho que deveria haver um conselho em que os países se reunissem de novo, chamassem os países do Oriente ─ o Japão não estava presente, o Japão era um país derrotado ─, todos aqueles países do Leste Europeu. Os direitos universais do homem estão defasados. Por exemplo: a mulher nos países mulçumanos é considerada um ser de segunda classe, e todo mundo acha isso bastante natural. Mas, se você ler a carta, vai ver que isso está errado. E por quê? Porque os mulçumanos não aderiram e é um problema de religião. Na Índia tem as castas. Pela Carta dos Direitos Humanos isso não pode. Todo cidadão não é igual, independentemente do credo, da ideologia, da raça? Não Índia, não: se você nasce pobre, você só pode entrar pelos fundos.

Voltando um pouco no tempo, o que os seus amigos da faculdade achavam? Eles queriam trabalhar na Última Hora, na Tribuna da Imprensa... onde?

Olha só: a minha turma era uma turma bastante heterogênea. A Ana Arruda ─ já ouviu falar dela? Ela foi minha colega de turma. A Ana Arruda foi chefe de redação em um jornal chama O Sol, então era mais uma interessada em jornalismo. Mas não era todo mundo. A maioria entrava no curso porque via como uma forma de ter uma instrução a mais depois do ensino secundário. As nossas aulas de Publicidade eram muito boas, e aquilo teve uma influência muito grande, fazendo muita gente querer ser publicitário porque achava que dava dinheiro. Era uma coisa muito heterogênea. Meus professores eram professores ótimos. Danton Jobim era professor de Técnicas de Jornal, Lúcio Leão era professor de História da Imprensa e hoje é imortal, o Hélio Silva também era professor. Deixa eu ver se eu me lembro de mais algum... Ah! Josué de Castro ─ sabe quem é Josué de Castro? Era professor de geografia. Você assistia a uma aula do Josué de Castro e era como assistir a uma conferência. Ele era representante do Brasil na UNESCO. Ele tinha dois assistentes que davam aula por ele, mas ele também aparecia. E era aquela coisa: “Olha, o Josué de Castro vai dar a aula hoje!”. E vinha gente até de outros cursos. Ficava gente até na porta para assistir à aula de geografia dele, entendeu? Era realmente um curso muito interessante no meu tempo. Hoje eles elitizaram bastante o curso de Comunicação. Eu tive muita sorte de conhecer esses professores. O Lúcio Leão era um professor sensacional, cada aula dele era um verdadeiro comício. Bom, aí eu saí da faculdade, fui trabalhar na Última Hora. Trabalhei lá fazendo reportagem. Em 1957, apareceu um repórter, um redator, dizendo que estavam acontecendo coisas estranhíssimas em Copacabana e perguntou se o Samuel não podia mandar alguém para fazer uma reportagem. Então, me deram dinheiro e o Samuel falou assim: “Some da redação!”. Nesse tempo a Última Hora já estava se levantando, já tava lá na Rua Sotero dos Reis, já tava financeiramente bem de novo, já podia chegar e financiar um repórter para ficar fora da redação. Aí eu fiquei fora mais ou menos uns 45 dias. Só aparecia no jornal quando o dinheiro acabava ou qualquer coisa assim. Rapaz, eu fiz uma série de reportagens que tiveram uma repercussão danada. Chamava-se Um Repórter Mergulha no Mundo Sombrio da Juventude Transviada. Foi a primeira denúncia sobre tráfico de drogas entre a juventude que foi feita no Brasil.

No texto que você publicou no jornal de comemoração do centenário da Associação Brasileira de Imprensa, você cita uma reportagem sobre o tráfico de cocaína. É a mesma reportagem?

Não. Essa é uma outra que eu fiz em São Paulo. O Última Hora de São Paulo estava nascendo e, como eles precisavam de repórteres, eu fui trabalhar lá. Eles achavam que eu tinha mais experiência e me mandaram para lá. Essa é uma ocasião muito complicada, porque me deram tiro e tudo. Quase que eu morro, então eu custei muito para contar essa história. Você fica muito marcado por esse negócio. Essa não está nesse capítulo do livro não. Essa história está lá pelo quinto ou sétimo capítulo. Eu não trouxe os capítulos desse livro, que é sobre a história da Última Hora, para mostrar a vocês porque está com o Maurício Azedo, presidente da ABI, que ele vai fazer o posfácio. O Maurício Azevedo também trabalhou na Última Hora. Ele era cronista esportivo. Tinha uma seção chamada A Crônica da Leonor, que fez um sucesso danado. Leonor era a bola, um dos apelidos da bola.

Como vocês tratavam o esporte no Última Hora?

A Última Hora era um jornal muito esportivo. Foi o primeiro jornal carioca diário a dar tanta atenção ao esporte. O Última Hora destinava quase todos os dias da semana várias páginas finais ao esporte ─ todos os esportes. Tanto era assim que o João do Pulo depois foi trabalhar no Última Hora para escrever sobre atletismo. Você imagina isso? Em 1959, uma coluna de atletismo. Só o Última Hora que tinha. Mentira, não era o João do Pulo, não: era o... Ademar Ferreira da Silva! Lembra que ele foi o primeiro campeão mundial brasileiro de salto triplo? O Ademir da Guia ─ sabe quem é ele, um do Vasco? Também tinha uma seção no Última Hora. Ele escrevia. Quer dizer, não escrevia: ele contava lá e tinha um redator que escrevia por ele. Isso até 1960, quando o Juscelino deixou o governo. Aí Brasília foi fundada e o Última Hora começou a se expandir muito. Tinha a Última Hora de Porto Alegre, a de Curitiba, já tinha a de São Paulo, que foi fundada quase junta à do Rio de Janeiro, tinha a de Brasília e tinha também a Última Hora de Recife, que era um jornal espetacular. Vocês sabem que esses pernambucanos não são fáceis não, né? [risos] Era um jornal espetacular.

Você chegou a trabalhar em outras publicações?

Uma vez, em 1957, assim que eles lançaram a Última Hora de Porto Alegre, me mandaram para trabalhar um pouco lá. Depois me mandaram para a Última Hora de Curitiba. É que tinha uma espécie de intercâmbio. Em compensação, pessoas de lá vinham para cá para saber como é que era e tal. E quando Brasília foi fundada, que fundaram a Última Hora de Brasília, eu também trabalhei lá um pouquinho. Eu fazia uma seção chamada Diário de Brasília. Isso antes de Brasília ser inaugurada. Às vésperas de Brasília ser inaugurada, quer dizer, um ano antes, eu fui enviada para escrever sobre tudo que estava acontecendo: subiu mais um pedaço do Palácio da Alvorada! Subiu mais um pedaço do Palácio do Congresso! [risos] Juscelino veio aqui, sobrevoou a cidade, falou com não sei quem! [risos] Chegavam umas peruas para visitar Brasília, cheias de mulheres da sociedade, porque o Juscelino tinha que convencer o Brasil de que o Brasil tinha que se mudar para o Centro-Oeste. A Última Hora foi colocada a serviço disso. A Última Hora pregava isso o dia inteiro. O jornal nem era lá, eu escrevia para o Rio, que depois distribuía uns exemplares lá, de graça.

E a rivalidade do Última Hora com os outros jornais?

Os outros jornais? Em 1951, quando a Última Hora foi fundada, os outros jornais se sentiram ameaçados de duas maneiras: uma era que o Samuel era um estranho no ninho, porque todos os jornais brasileiros eram dirigidos ou eram propriedade de pessoas da elite. Você pode verificar: só pessoas ricas é que tinham jornal. O Samuel era um judeu pobre, cuja nacionalidade era contestada e que além de tudo ainda era metido a esquerdista. Ele tinha traduzido um livro que era muito pouco conhecido. Chamava-se Marx nos Sindicatos. Olha só, que mancha no currículo! [risos] Ele fez uma tradução de um dos artigos do Marx sobre como é que deveriam ser os sindicatos. Era um negócio mais filosófico do que propriamente ideológico, político. Marx até hoje é um filósofo que não perdeu a atualidade de jeito nenhum. Continua vivo do mesmo jeito, né? Acabou a União Soviética, o mundo anda meio desmoralizado, mas ele continua sendo um filósofo importante. Bastava você dizer “Marx!” que os caras ficavam desconfiados. Então o Samuel tinha tudo isso: não era elite, era pobre, e para completar ainda era esquerdista. E também era amigo de Getúlio Vargas quando todo mundo sabia que ele queria volta. As oligarquias tinham um ódio contra Getúlio. O maior ódio contra Getúlio era que ele tinha feito a CLT dando direitos aos trabalhadores que os caras das indústrias todas brasileiras nem faziam ideia. É o que até hoje eles combatem. De vez em quando vocês não lêem por aí: “É impossível ter um empregado com tantos direitos!”. É errado isso? Se todo país do mundo tem, por que é que o Brasil não pode ter? Eu sou favorável à CLT. Durante o governo do Fernando Henrique Cardoso se falou muito na revogação da CLT. Ficou aquele vai acabar, vai acabar, vai acabar. O Lula foi eleito e não se fala mais nisso. Qual era mesmo a sua pergunta? [risos]

Era sobre a relação com os outros jornais.

Ah sim! Essa era a razão principal. Eles tinham raiva do Samuel por causa disso. A segunda razão era: a Última Hora foi uma revolução quando apareceu. A verdade é essa, foi uma revolução. O Samuel catou bons desenhistas, foi na Argentina buscar os melhores diagramadores, e eles desenharam um jornal bonito! Era um jornal muito bacana. Você pega os primeiros números e vê. Eu ia trazer para vocês um fac-simile do dia 13 de novembro de 1968, dia do AI-5, quando os censores foram para dentro da Última Hora e proibiram de sair tudo que a gente tinha feito. Aí a gente botou retrato de santo, gente tomando banho na praia, coisas assim.

Mas vocês falavam, eram amigos dos jornalistas de outros jornais?

Falávamos. Com todos. No dia 11 de novembro de 1955. É isso? È, no dia 11 de novembro de 1955 o Juscelino estava eleito presidente da República. Aí, foi armado um golpe para impedir a posse dele porque eles achavam que ele ia voltar ao esquema Vargas. Então, a Última Hora virou centro das atenções. Aí o Marechal Teixeira Lott colocou os tanques na rua para garantir a posse do Juscelino. E como a Última Hora apoiava esse pessoal todo que tava sendo derrubado ela virou o centro das atenções. Todos os jornais nos procuravam para saber as notícias. Em frente da Última Hora, que era na Praça XII, tinha aquele edifício balança mais não cai, que existe até hoje. Debaixo do “balança mas não cai” tinha uma choperia. Nossa, ficava assim de jornalista! A gente tinha acesso ao ministro da justiça, que era gente ligada ao Juscelino. O jornal também falava pelo telefone com o próprio Juscelino, o jornal tinha acesso ao Lott, que morava ali no Maracanã, onde era a residência do ministro da guerra. Não tem ali o Rio Maracanã? Ali à esquerda do rio não tem umas casas do exército? Pois é, o Lott morava ali. Você chegava lá e tava toda a imprensa lá na frente. Chegava o Alderaban Cavalcanti, que era um repórter, falava com o soldado ali na entrada, o soldado ligava lá para dentro e lá ia o Alderaban falar com o Lott. Então, esses caras lá na porta estavam sem informação e o Última Hora sabia disso e distribuía para todos os outros jornais. Não havia essa rivalidade entre os jornalistas. A rivalidade era no sentido de destruição do jornal.

Mas até que ponto isso se refletia no dia a dia da redação mesmo?

Para mim, não refletia em nada. Se bem que eu entrei um pouquinho atrasado. Quando eu entrei, o grosso da reação contra a Última Hora já tinha passado. Getúlio já tinha se matado, o Samuel já ia ser solto, disseram que ele tinha todo o direito de não revelar a fonte dele. Ele era acusado de falsidade ideológica porque a certidão de nascimento dele teria sido forjada, mas não havia nenhuma prova disso.

Como era tratada dentro do jornal essa questão da nacionalidade dele?

A gente brincava, a gente brincava. A gente falava assim: “Ó, o bessarabiano tá te chamando lá, ó!”, porque ele teria nascido na Bessarábia. “Olha, lá vem o bessarabiano!” [risos] A gente brincava, era uma brincadeira. Ninguém acreditava muito nisso. Numa ocasião, o Moacir Werneck de Castro ─ já ouviu falar nele? Ele é inclusive um dos tradutores do Gabriel García Márquez ─ era o redator-chefe do jornal. Era um cara importante. Uma vez, nós estávamos indo para São Paulo. O Samuel tinha um fusca. Então, eu e o Moacir fomos com ele para São Paulo. Eu estava sentado no banco de trás, o Samuel sentado na frente. Quando nós passamos ali na altura de Guarulhos, o Samuel falou assim: “Olha, eu nasci por aqui!”, e fez assim com a mão, ó. Do outro lado de Guarulhos, uma região. Porque nessa ocasião se falava muito ainda que ele não teria nascido no Brasil. Aí ele disse que tinha nascido naquela região lá, antes de São Paulo. Chamava-se... Ah, eu não me lembro... Bom Retiro!

Como foi a sua trajetória dentro do jornal?

Comecei como repórter. Fiquei como repórter até mais ou menos 1960, 1961. Aí, eu fui trabalhar na rádio Mayrink Veiga, que tinha sido arrendada pelo Leonel Brizola, que instalou uma cadeia da legalidade. Lá eu tinha um colega que fazia um programa chamado Repórter Petrobras, em oposição ao Repórter Esso. Como o Repórter Esso era considerado um jornal agente do imperialismo americano, então, tinha que ser feito um jornal nacionalista, que era o repórter Petrobras. Eu trabalhei lá.

Onde você estava no dia do Golpe em 1964?

No dia 31 de março de 1964 eu estava voltando de férias. Eu trabalhava de manhã na rádio Mayrink Veiga, ao meio-dia eu ia para a Última Hora. Aí eu apareci lá, fiz lá uma materinha e no dia seguinte, 1º de abril, me mandaram para Juiz de Fora para fazer uma entrevista com Vaca Fardada, o Emílio Mourão Filho. [risos] Ele próprio se autodenominava A Vaca Fardada e se dizia um cara completamente ignorante. Me mandaram fazer a entrevista e eu fui preso lá na 4ª Região Militar. Me soltaram, e eu voltei para o Rio. Chegando aqui eu encontrei a Última Hora incendiada, isso no dia 1º de abril. Era um jornal que foi destruído e reconstruído várias vezes. Eu participei dessas coisas todas.

Como essa instabilidade do Última Hora influenciava no dia a dia do jornal?

Nossa, muita gente saía e ia embora.

As pessoas ficavam sem emprego?

Ficava todo mundo com salário atrasado. Numa dessas ocasiões durante a ditadura, estávamos com o salário atrasado; e como tentativa para resolverem o problema, houve uma reunião na redação e apareceu o gerente do jornal, Raimundo Resende — de quem todo mundo tinha raiva e, por isso, colocava nas costas dele tudo o que dava errado no jornal. Ele falou: “A Casa Garçom (tipo Casas Bahia) está devendo dinheiro à gente”. A crise de 64 não batia só em cima do jornal, não. Batia em cima do comércio também. Havia quebra-quebra também. Invadiram as Lojas Americanas, destruíram tudo, incendiaram a embaixada americana. Foi uma guerrilha na cidade do Rio de Janeiro, que na época era chamada de “cidade vermelha”. Havia uma reação muito grande. O Lacerda teve que se refugiar dentro de um navio para não ser caçado pela rua. Quando Raimundo Resende chegou à redação, disse que havia uma maneira de nos pagar: “A Casa Garçom está dando para a gente fogão, geladeira, televisão. Quem quer receber isso?”. Eu podia, não tinha muito compromisso, e se ganhasse aquilo daria para minha mãe, então aceitei. Recebi um papelzinho, fui à loja que se localizava na Cinelândia, cheguei lá com carro e peguei fogão, ventilador, entre mais coisas que somadas davam mais do que dois salários que a gente recebia no jornal. Era uma coisa feita assim, muito informalmente. Ninguém ficava muito zangado. Agora, aquelas pessoas que queriam mais formalismo iam embora do jornal.

Pode falar um pouco sobre essa matéria da cocaína? Que história é essa que você levou um tiro?

Em São Paulo, nesse ano de 1957, era difícil você encontrar uma pessoa que fizesse uso de cocaína. Você conhecia isso muito de literatura. A notícia que se tinha era de que São Paulo era onde tinha maior uso de cocaína. Então, o Samuel, que estava morando lá pela Última Hora paulista — que estava crescendo — foi porque, como repórter, podia chegar lá, comprar cocaína, chegar nas fontes para contar como funcionava o negócio, ir às boates na avenida Paulista e rua Augusta ver de perto o pessoal que transava cocaína. Eu fiz isso muitas vezes. Eu conheci um homem que sofreu um acidente e machucou a perna. Depois disso, ele se dedicou só ao tráfico. Fiz uma amizade com ele. Eu conhecia o irmão do Stanislaw Ponte Preta, o Sérgio Porto, que se chamava Flávio Porto. Todo mundo dizia que ele cheirava cocaína e ele aceitou dar algumas entrevistas: “É só não falar do meu irmão”. Conseguia fontes e assim fazia umas reportagens interessantes por lá. No final, quando essas reportagens começaram a sair, o governador do estado era Jânio Quadros. O Jânio Quadros ficou indignado com matéria, mandou demitir o delegado de entorpecentes, mandou prender o dentista que eles identificaram como o dentista que receitava cocaína para ser comprada na farmácia. Os traficantes até faziam isso — isso foi contado na reportagem —, porque o dentista receitava um grama de cocaína para passar nos dentes quando o paciente sentisse dor na gengiva, por exemplo. Assim, facilmente, na farmácia, comprava-se um grama de cocaína e misturava com pó-de-osso, sal de fruta, transformava em dois gramas. Comprar um grama de cocaína com receita médica era baratíssimo, mas nas boates era caríssimo. Na farmácia, R$ 5, fora, cada grama custava R$ 50. O tráfico era uma coisa muito incipiente, ou então se esperava alguém da Bolívia trazer cocaína. Foi a primeira reportagem sobre uso e tráfico de cocaína no Brasil. Na reportagem que fiz em Copacabana falei de maconha e anfetamina. Usava-se anfetamina para “ondas de coração verde” (ela tinha esse formato). Usava-se aquilo e ficava-se sem dor por mais de um dia. Maconha era vendida em clubes, por exemplo, era uma coisa muito ingênua, não era como hoje em dia. E dava uma reportagem com espírito de aventura, porque, para comprar maconha, tinha que subir uma escadinha, deixar o dinheiro num lugar e pegar o negócio em outro. A reportagem era nesse gênero. E nessa reportagem, não falei sobre cocaína. Agora, lá em São Paulo tinha até uso de heroína. Tinha um cidadão que era filho de uma família de plantadores de algodão muito famosa. Ele jogava polo e usava cocaína com regularidade. Uma vez ele foi a Santos, comprou um grama e usou. Mas era heroína, que é muito mais forte. Ele teve parada cardíaca e morreu. Isso foi o gatilho da reportagem em São Paulo, a morte deste cidadão. Ele cheirou pensando que fosse cocaína. [risos]

Qual matéria você estava fazendo quando chegou a levar um tiro?

Foi na matéria em Copacabana. Nunca chegamos a descobrir quem atirou, porque nunca houve interesse nem por minha parte nem da parte do cara, porque... Coitado. Eu sentava para a reportagem ali no Snack Bar, na rua Raul Pompéia, no posto 6, e fiquei lá uma noite. Pensando que fosse desconhecido, apareceu um cara e disse que eu não podia ficar ali, dizendo que eu era dedo-duro, que ali não era lugar de repórter. Levantei para ir embora, mas o carro do jornal, que nesses tempos era um jipe, era pintado de azul, escrito “Última Hora”. Um escândalo danado. Fui para o carro e o fotógrafo veio atrás de mim. Quando a gente estava indo embora, um cara numa lambreta começou a seguir a gente. Nós ouvimos um tiro. Aí o cara da lambreta bateu ali na Raul Pompéia, onde estava sendo construído um túnel, o cara subiu e sumiu atrás do tapume — isso tudo eu estava vendo —, mas ficou uma moça caída no chão. Aí vimos que ela estava ferida, colocamos dentro do carro e a levamos para o hospital Miguel Couto. Por pouco o tiro não pegou na espinha dela. E nós chegamos à conclusão de que aquele tiro tinha sido para a gente. Mas como a lambreta estava próxima, o tiro pegou a moça que estava na garupa da lambreta. Foi uma confusão danada: na polícia, nesse tempo, havia o delegado Waldir de Matos Dias, que era um lacerdista danado, que deve ter pensado: “Poxa, agora eu vou meter esses caras em cana”. Esse caras eram o fotógrafo Estrela e eu. Aí ele tentou indiciar a gente, mas acontece que nós paramos para socorrer a moça, apareceu um carro da patrulha da polícia militar e viu a gente socorrendo. Então, se estávamos fazendo aquilo, aí mesmo que nós não atiramos. Esse Waldir ficou alongando o processo, mandou buscar nossa ficha, foi uma grande confusão.

Qual o nome do fotógrafo?

O nome do fotógrafo era Waldir dos Santos Braga, de apelido Estrela. Ele tinha sido tenente da guarda territorial de Guaporé e andava com uma estrelinha. Ele tinha sido fotógrafo do jornal O Dia, que pertenceu ao Ademar de Barros. Ele fechou o jornal e não pagou a ninguém. Então o Estrela levou a máquina fotográfica como indenização. Mas ele foi denunciado por furto lá em São Paulo. Quando houve esse “processo da juventude transviada” (se chamava assim), eles prenderam o Estrela. Esse tempo ainda era o tempo da perseguição ao Última Hora; era 1957. Tinha muita gente que odiava o Última Hora. O promotor que ofereceu denúncia contra o Estrela morava aqui no “saco” de São Francisco. Eu falei: “Vou lá conversar com esse promotor”. Fui na casa dele, nesse tempo São Francisco tinha umas casas de muro baixo com portãozinhos; ele veio me atender de short, expliquei para ele que eu era repórter, queria contar sobre a verdade da iniquidade sobre o Estrela. “Eu sei que esse Ademar de Barros é um vigarista”. Aí ele disse: “Vou mandar arquivar esse processo, porque eu sei quem é esse Ademar de Barros”. Não interessava mais a gente saber quem tinha atirado na moça, porque estava muito complicado. O cara que apareceu lá foi inicialmente apontado como o cara que deu o tiro. Ele era um bancário, mas não tinha nada a ver. Deram um tiro a esmo, não era para matar ninguém, era só para assustar. A bala era de calibre 32.

Pode falar um pouco sobre o livro “A Última Hora como ela era”?

Esse livro já tem 200 páginas escritas, estou no capítulo 7. Mas eu me senti um pouco cansado para escrever porque essas coisas mexem muito com a nossa sensibilidade, mexem com a memória também, porque tem coisa que a gente tem que parar para lembrar. Eu tinha parado exatamente nessa história da reportagem sobre cocaína em São Paulo. Lá em São Paulo me deram um endereço de um traficante. Eu era muito ingênuo e aceitei fazer a entrevista quando me perguntaram se eu queria. Fui lá — olha a minha sorte. Toquei a campainha da porta do sujeito, mas ele não estava em casa. Perguntei em volta e disseram que ele estava na Praia Grande, no litoral do Espírito Santo. Eu disse: “Volto outro dia”. Cheguei ao jornal e disseram: “Não faça isso, você é maluco, o cara vai te matar se você aparecer lá; some dessa”. Aí eu larguei. O Samuel soube que eu já estava nessa de entrevistar traficante e disse: “Volta para o Rio”. E então você perde um pouco a noção do perigo, porque vai dando tudo certo, aí quando você vê pode estar entrando numa fria, foi o que pode ter acontecido com o Tim Lopes, que trabalhou comigo, quando eu fui editor d’O Globo. Excesso de confiança e falta de orientação da TV Globo. Deveriam ter falado: “O quê? Você vai filmar um baile funk, está maluco? Os caras vão te matar”. Porque ser repórter não significa que você esteja blindado.

Como era a sua relação com Samuel Wainer?

Muito boa. Era uma relação de amigos. Ele era um cara muito igual. Ele vinha para a redação, sentava, ele era meio maluco. Era diferente dos outros donos de jornal. Quando eu trabalhei n’O Globo, eu via o Roberto Marinho só quando era chamado, como se fosse a presença de um rei, para almoçar com ele e ouvir as coisas. Era muito diferente. N’A Crítica de Manaus, o Calderaro, o dono, também era gente boa. Saí com ele várias vezes, mas o Samuel era diferente: sentava com você, tomava a reportagem para reescrever um pedaço. Ele era louco, gostava de fazer reportagem, era o repórter, que eventualmente, como ficou amigo de Getúlio, virou dono de jornal. Nunca foi rico, todo dinheiro que ele ganhava empregava no jornal, morreu pobre. Morreu muito pobre. O único apartamento que ele tinha era da esposa dele, a Danusa leão. Mas ele não era um bom administrador, porque eu não sei até que ponto esse igualitarismo dele era importante e bom para o jornal, para nós, porque o jornal não sobreviveu à ditadura, em 1972, o Andreazza achou que o Última Hora ia suprir sua vontade de ter um jornal bem popular, e ele ainda tinha a mania de ser meio Getúlio, aí comprou o título Última Hora e colocou dois empreiteiros, Maurício e Marcelo Alencar (que chegou a ser prefeito). E tentaram lançar o jornal, mas ele não tinha capacidade administrativa para isso. O jornal saiu da mão do Samuel e ficou marcado. “Não há mais o Última Hora, ele aderiu à ditadura.” Então o jornal morreu. Depois esteve na mão do Delfim Neto; isso foi no t