RICARDO KOTSCHO
PERFIL

O jornalista que já atuou em diversos veículos da imprensa brasileira, assumindo as funções de repórter, editor, chefe de reportagem e diretor de redação, além de ter ocupado o cargo de Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República no governo Lula, aos 60 anos de idade, completados em 2008, passou a ser blogueiro. Rendendo-se às transformações tecnológicas proporcionadas pela internet, Ricardo Kotscho passou a escrever no blog “Balaio do Kotscho”, inicialmente hospedado no portal iG e depois transferido para o R7, de propriedade da Record, para quem também aceitou prestar serviços como comentarista político no telejornal Record News. As atividades do blog e do telejornal são acumuladas com as tarefas de repórter na revista Brasileiros. Mesmo após tantos anos de profissão, a intensidade do trabalho é vivida, também, nas frequentes palestras e inúmeros debates a que é convidado a participar.

Nascido em São Paulo, de família com ascendência alemã, Kotscho estudou economia, mas encontrou seu caminho no jornalismo. Sua carreira tem um início modesto, em jornais de bairro, mais vai sendo alavancada à medida que outros profissionais vão reconhecendo sua competência e à medida que vai fazendo amigos no meio da imprensa. Seu primeiro emprego formal como jornalista foi n’O Estado de S. Paulo, a partir de 1967. De lá, saiu para ser correspondente do Jornal do Brasil na Alemanha, entre 1977 e 1978, cobrindo também assuntos de toda Europa. Ao voltar para o Brasil, foi empregado pela revista IstoÉ, e também chegou a trabalhar na Folha de S. Paulo, tendo destaque na cobertura das Diretas Já.

Em razão de sua proximidade com Luís Inácio Lula da Silva desde os tempos do ABC paulista, Kotscho acabou fazendo parte do governo quando Lula foi eleito Presidente da República. Ele exerceu, no período de 2003 a 2004, o cargo de Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República.

Por sua atuação como jornalista, especialmente pelos trabalhos de reportagem, Ricardo Kotscho ganhou os prêmios Esso, Herzog, Carlito Maia e Cláudio Abramo, entre outros. Em 2008, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Imprensa da ONU. Em 2010, teve um livro publicado em sua homenagem: Lugar de Repórter ainda é na rua – O Jornalismo de Ricardo Kotscho, da editora Tinta Negra e dos autores Mauro Junior e José Roberto de Ponte.

Até 2012, acumulou a publicação de 19 livros entre eles, “A Prática da Reportagem” (Ática), bastante adotado em faculdades de jornalismo, e “Do Golpe ao Planalto - Uma vida de Repórter” (Companhia das Letras), que é uma autobiografia.

O jornalista casou-se com a socióloga Mara Kotscho, com quem teve as filhas Mariana, a mais velha, que seguiu os passos profissionais do pai, e Carolina. Até 2012, já tinha três netos: Laura, Isabel e André. É cristão e não esconde que é torcedor fanático do São Paulo Futebol Clube.

ENTREVISTA

Realizada por: Amanda Salles, Lara Monsores, Laura Maia, Maria Clara Senra

Data: 2010

O fato de você ter sido ajudante de jornaleiro ajudou ou influenciou na escolha de sua carreira como jornalista?

O jornal está muito ligado à minha vida desde pequeno, porque meu avô materno, Matheus Rebholz, foi um grande jornalista na época da Segunda Guerra Mundial, onde ele faleceu. Em minha casa se falava muito dele, mas eu não o conheci, pois ele morreu antes de eu nascer. Eu aprendi a ler em português lendo jornal. Eu estudava em uma escola onde só se falava alemão, minha língua materna, e só fui aprender o português com seis anos de idade. Meu pai assinava o Estadão e eu ficava lendo. Depois, eu fui trabalhar como ajudante em uma banca de jornal, onde eu ganhava alguns trocados, tomava conta do estabelecimento e aproveitava para ler tudo também. Revista, jornais, que na época saíam de hora em hora.

Quais eram os jornais que você mais lia?

O Diário da Noite, primeira e segunda edição, Folha da Manhã, Folha da Tarde, Folha da Noite, a Gazeta, o Última Hora. Eram muitos jornais, muito mais do que hoje. Eles saíam em diferentes horários e, hoje, todos os jornais estão cedinho nas bancas. O primeiro jornal que eu trabalhei na grande imprensa foi o Estadão, que era aquele que eu lia quando era moleque em casa.

Mas antes você trabalhou em um jornal de bairro?

Eu comecei bem cedo, ainda quando estava na banca, trabalhei num jornal que era distribuído gratuitamente, chamado Gazeta de Santo Amaro. Antes, surgiu um outro jornal chamado Folha Santamarense. Eu fui lá, na cara de pau, pedir emprego, porque na época não era tão brigado como hoje, e também não exigiam diploma de jornalista. Os caras falaram “Vamos ver se você sabe escrever...”. Me deram uma matéria para fazer e eu acabei ficando, mas a Folha não durou muito tempo e, então, depois fui para a Gazeta de Santo Amaro, que era o jornal mais importante da região. O dono do jornal, Armando da Silva Prado Neto, está lá até hoje. Depois entrei na redação da Revista Realidade, que era, na época, e até hoje (sic) é a maior publicação do país. Foi uma revista mensal de reportagens que durou muito tempo. É mais ou menos como é a revista brasileira, que se inspira muito nesse tipo de reportagem. Me deram um bilhete para eu procurar o editor Milton Severino da Silva, que me recebeu com muito carinho e é meu amigo até hoje. Ele disse, “Olha, você aqui não tem chance. Aqui só tem “cobra”; é a seleção brasileira do jornalismo. Você que está começando agora tem que trabalhar em jornal”. Ele me deu outra cartinha para ir ao Estadão, que era bem perto. Chegando lá, tinha uma pauta para fazer que estava sem repórter. O chefe de reportagem me deu a pauta e, por coincidência, era sobre o vestibular da USP. Eu estava no vestibular e acabei ficando na Escola de Comunicações e Artes.

Como foi escolher Comunicação, já que você fez faculdade de Economia antes?

Quando eu entrei em Comunicação, eu já tinha passado por Economia, que era um desejo da família. Eu tinha um tio-avô que era o homem rico da família, não tinha filhos e era meu padrinho. Então, ele queria muito que eu fizesse economia para poder cuidar dos negócios dele, mas eu não tinha a menor vocação. Quando eu entrei na ECA [Escola de Comunicação e Artes da USP], eu larguei Economia.

Você permaneceu no Estadão por mais de 10 anos. Como foi se desenvolver desde muito novo em um jornal tão grande?

Naquela época, nos anos 60, o jornalismo era a segunda profissão de muita gente. Não é que nem hoje, em que ou o cara é jornalista ou é advogado. Mas eu só estudava de manhã e faltava muito às aulas para ir trabalhar. Por isso que, até hoje, eu não me formei. Eu ficava o dia inteiro dentro do jornal e tudo o que aparecia eu queria fazer. Essa é uma característica que tenho até hoje. Qualquer redação que eu trabalhe, eu fico procurando quando tem um assunto bom para se fazer. Naquele ano foram acontecendo várias coisas importantes e sempre era eu que estava lá. Não tem tu, vai tu mesmo. Dei sorte de acertar nas minhas coberturas e, a partir daí, já comecei a ser escalado.

Você já ganhava salário?

Nos primeiros seis meses, o estagiário não era remunerado, mas acabei ficando amigo de um dos donos do jornal, o Luiz Carlos, que convidava todo mundo para ir para um bar à noite. Um dia, nesse bar, meus colegas elogiaram uma matéria minha para ele e falaram “O Ricardinho não ganha nada, ele não tem carteira assinada, nem nada”. Ele resolveu me ajudar dando dinheiro do próprio bolso, mas não tinha ideia da quantidade que deveria ser paga e o bolo de dinheiro que ele me dava era mais do que o salário dos outros, que eram registrados. Então, eu também não tinha muita pressa para me registrar. Depois de seis meses, eu acabei tirando minha carteira profissional.

Como era a estrutura do Estadão na época?

O Estadão tinha uma edição só, que circulava bem cedo, e na mesma época também existia o Jornal da Tarde, que saía mais ou menos na hora do almoço, com os mesmos donos e o mesmo grupo. Era um jornal completamente diferente, revolucionário e onde eu queria trabalhar. O pessoal do Estadão também era mais velho, eu era o caçula. Durante anos, eu pedi para trabalhar no Jornal da Tarde, não só por causa da idade, mas porque o estilo de jornalismo dele era muito mais parecido com o meu. Era mais livre, mais solto. O Estadão era um negócio quadrado, um jornal centenário, cheio de regras que hoje nem se usam mais. O Jornal da Tarde era completamente o oposto, com grandes reportagens, viagens, mas nunca me deixaram sair e eu acabei ficando por mais de 10 anos no Estadão.

O instrumento era a máquina de escrever, mas em sua biografia Do golpe ao Planalto, você conta que houve resistência de alguns jornalistas.

Quando eu comecei no Estadão, muitos dos jornalistas escreviam à mão. Grande parte deles se recusava a usar a máquina de escrever, assim como mais tarde se recusaram a usar o computador. Tem colegas meus famosos que até hoje escrevem em máquina de escrever, como o Washington Olivetto. Dava mais trabalho, porque os textos desses caras tinham que ser relidos e entendidos para serem publicados.

Nessa sua trajetória no Estadão, qual foi a matéria que mais te marcou?

É muito difícil responder essa pergunta e, dependendo do dia, eu falo uma coisa e depois falo outra. Uma que me marcou muito foi uma tragédia que aconteceu em Caraguatatuba. O Vale da Serra do Mar “despencou”, matou mais de 400 pessoas e acabou com a cidade, que eu conhecia. Logo depois, veio a morte do Castelo Branco, ex-presidente do Brasil, que tinha acabado de deixar o cargo. Para vocês terem uma ideia da dificuldade, o meio de comunicação entre os repórteres e a redação era o telégrafo. Era uma briga danada para ir até os Correios e mandar os telegramas, além do fato de não poder escrever muito, assim como é hoje na internet.

Tinha alguma editoria que você não gostava de fazer?

Eu sempre gostei muito de reportagem geral. Por ironia, eu nunca gostei muito de política, igual à economia, que eram as editorias nobres de todos os jornais. Eu gostava de tudo que fosse geral. Música, teatro, esportes e outras matérias em outros lugares. Comecei a fazer reportagens voltadas para problemas sociais e outros também começaram. Foi quando se fez matérias sobre os sem-terra, os índios, os garimpeiros, etc. Eu falei nos jornais que as pessoas precisavam saber o que acontecia na vida desses homens, que não eram mostrados nas grandes mídias. Me chamavam de repórter pipoqueiro, que era aquele que cobria o outro lado da notícia. Havia o repórter principal, que vai pegar a parte importante da história e esse outro. Eu fazia os bastidores, o que acontecia em volta. Isso acontecia também no futebol, onde ao invés de pegar o jogo, eu pegava a torcida, o que acontecia fora dos estádios. Uma vez, o presidente Costa e Silva ficou doente e passou o final de semana enclausurado no palácio. Era um domingo e época da ditadura, então, não havia muito a se fazer. Eu comecei a bater papo com o pipoqueiro que estava na porta e ficava perguntando “Você sabe quem é que está aí?”. Ele não sabia de nada e eu acabei escrevendo uma matéria sobre isso. Eu fiz a matéria sobre o que aconteceu fora do palácio onde estava o Costa e Silva. Essa matéria saiu no Estadão na terça-feira, porque naquela época não tinha jornal de segunda. Então eu tinha que escrever de um jeito que durasse dois dias. Escrevi da maneira que hoje chamam de jornalismo literário. E a história girava em torno do pipoqueiro. Teve gente que gostou, teve gente que odiou e começou a me chamar de “repórter do pipoqueiro”. Mas eu prefiro realmente contar a história das pessoas que estão do lado de fora do palácio do que das que estão do lado de dentro do palácio.

Mas como foi cobrir a morte do presidente Castello Branco? Por que foi você que foi lá?

Eu estava lá na redação e teve que ser eu. O repórter precisa ter sorte também de estar no lugar certo e na hora certa. Eu lembro que a viagem demorou muitas horas, umas doze horas, num avião fretado. Mas, já naquela época eu procurava pegar coisas que os outros repórteres não pegavam. O último lugar que ele havia ficado foi a fazenda da Raquel de Queiroz, no interior do Ceará, e ela acabou me contando a melhor história da cobertura que foi sobre o caça militar que estava numa zona militar onde ele não poderia estar. E aquilo era um mistério, as últimas horas de vida de Castelo Branco eram um mistério. Então, quando você pega uma história dessas, você fica muito feliz, você consegue algo que ninguém tem, um outro lado da história. Eu li num manual de redação que quando você vai cobrir uma guerra é muito mais interessante contar a história de um soldado que morreu, matou ou salvou alguém do que contar a história de um batalhão, das táticas, das estratégias de deslocamento.

A matéria das mordomias é a matéria com que você abre o livro [autobiografia]. Por que você escolheu essa matéria para a abertura?

Na verdade foi o editor quem escolheu. Ele me chamou para escrever isso quando eu estava no governo, e queria que eu escrevesse minhas memórias quando eu saísse do governo. Ele deu muitos palpites no livro desde a abertura até o título. Inclusive o título que havia escolhido era muito melhor que este que foi dado.

E qual era o seu título?

Era “Antes que eu me esqueça”, porque seria um livro de memórias. Mas ele não queria um livro de memórias, queria um livro mais de política porque saiu num ano eleitoral de 2006, e ele queria dar um caráter mais político ao livro.Por isso este título “Do golpe ao Planalto”, que um monte de gente não sabe que golpe é esse, aí tem que explicar. E na avaliação dele (do editor), a matéria das mordomias tinha esse caráter político. Foi a primeira matéria de denúncia do que acontecia na ditadura militar. E outro episódio que eu gosto mais, que eu acho que foi o grande momento da minha geração de participar da vida política do país, da transformação do país, foi na campanha das Diretas, quando todo mundo participou. Quer dizer, todo mundo não, porque teve gente que resistiu. Mas essa foi uma matéria exclusiva para o Estadão que eu acabei ganhando o prêmio Esso na época.

Como é que foi a sua saída do Estadão e a ida como correspondente para o Jornal do Brasil?

Foram várias circunstâncias. Eu queria deixar claro aqui que a vida da gente não é planejada. As coisas vão acontecendo. Eu sofria uma pressão muito grande, escrevia coisas que os militares não gostavam. E eu recebia recados. Naquela época todo jornal tinha seu setorista na câmara municipal, no Senado e no Exército. E nessa área militar, o Fernando Cavalcanti me dava os recados: “olha, estão de olho em você”. E aí houve a morte do Manuel Fiel Filho nas mesmas condições da morte do Vladimir Herzog. Mas o Manoel Fiel filho era um operário desconhecido e tentaram abafar o caso. E eu consegui levantar a história. A partir daí a coisa começou a ficar pesada mesmo. E na mesma época, o Jornal do Brasil estava procurando um correspondente na Alemanha e só o Estadão, onde eu trabalhava, tinha correspondente na Alemanha. E o único jornalista que eles conheciam que era alemão era eu. Aí me convidaram, ofereceram um bom salário e era a terra dos meus avós maternos. Mas foi complicado, eu já tinha duas filhas, ninguém falava alemão, só eu. Hoje eu não faria isso.

E você se arrepende de não ter participado de alguma coisa aqui no Brasil durante a ditadura?

Não. Alguns colegas meus de faculdade foram para a luta armada. Outros viraram hippies, mas eu tinha que trabalhar, fazer o jornal, só sabia fazer isso e nunca fui de política não, nunca me filiei a nenhum partido político. Trabalhei no governo, mas nunca fui de me filiar a partido não. Eu torço pro São Paulo Futebol Clube, mas não sou filiado, não sou sócio [risos]. A única coisa de que eu me arrependo é não ter ficado mais tempo na Alemanha. Minha mulher e minhas filhas queriam ficar por lá, mas eu morria de saudades do Brasil.

E tem alguma cobertura durante a sua estadia na Alemanha que tenha te marcado mais?

Embora eu tenha ficado pouco tempo, aconteceu muita coisa. Logo que eu cheguei estava uma onda de terrorismo na Alemanha, um grupo de extrema esquerda, que fazia sequestros. Era um país traumatizado. E quando eu cheguei, não tive nem tempo de deixar as malas no hotel, já tinha uma pauta para fazer. E tive muita ajuda do correspondente do Estadão que estava lá, o meu amigo William Waack. Então, eu comecei a cobrir as primeiras semanas do terrorismo e depois passei a cobrir Europa, não mais somente a Alemanha. Aí morreram dois Papas num ano [Paulo VI e João Paulo I], uma coisa rara de acontecer. Quando morreu o primeiro Papa eu fui lá cobrir, fiquei um mês em Roma. E poucos dias depois que eu voltei para casa, me ligaram do Rio dizendo: “olha, se prepara para voltar para Roma porque o Papa morreu”. E eu pensei: “de novo?” Aí depois disso eu decidi voltar para o Brasil. Mas me deram uma folga, fui passar uns dias em Portugal e caiu o governo do Mário Soares. Teve ainda a questão da bomba de nêutron, que eu não entendia “porra” nenhuma, mas eu ia cobrir tudo. Não tinha uma cultura de corresponde estrangeiro.

E na volta ao Brasil você veio trabalhar na [revista] Istoé, onde foi chefiado por Mino Carta?

É, foi por acaso também. Eu estava na casa do Reali Júnior, que era correspondente da rádio Jovem Pan, quando recebi uma ligação do Mino Carta. Alguns amigos que já sabiam que eu queria voltar foram falar para o Mino que a antiga turma do Estadão ia se reunir para trabalhar comigo na Istoé, que era o Clóvis Rossi, Eraldo Gomes. E eu já voltei para o Brasil com um lugar certo para trabalhar. Foi nesse período também que estava surgindo no ABC paulista um cara chamado Lula, que eu não conhecia pessoalmente. E o Mino Carta me falou: “presta atenção nesse cara aí, gruda nele, porque o que acontecer no Brasil nos próximos anos vai ter a ver com ele”.

E teve o Jornal da República também?

Foi a mesma turma da Isto É, naquela época o fechamento da edição era sempre na sexta-feira e o Mino Carta saía para jantar à meia noite, para jantar e voltar para fechar a revista. Que escolha que eu tinha? Não adianta ficar aqui na revista, o Mino que decidia tudo. Então a gente ia jantar junto. Aquele bando de gente, tomava vinho, comia. E em uma dessas noites, o Mino resolveu criar um jornal. Ele achava todos os jornais uma merda e que ele tinha de fazer um bom jornal. Convenceu os outros a fazerem e em três meses colocar o jornal nas bancas. Só que não tinha ninguém: um administrador, um capitalista, um empresário.

Teve uma edição do jornal com o Garrincha, não foi?

Isso aí foi uma sorte, outra sorte do caramba. O Mino me chamou e disse “ preciso de uma matéria de capa para chamar a atenção do Brasil. Nós temos pouco dinheiro, então tem que ser uma matéria que repercuta , que seja diferente dos outros”. O jornal ia sair na segunda-feira e normalmente o sábado e o domingo são os dias mais fracos de assunto. Então, fizemos uma reunião e alguém comentou que o Garrincha tinha sumido. Onde é que anda o Garrincha? Aí eu fui encarregado de encontrar o Garrincha. E acabei achando o Garrincha no interior do estado do Rio, numa clínica bem pobre. Ele me contou a história, que ele era alcoólatra e estava ali para se recuperar. E no final da entrevista, ele me falou que ia jogar futebol no próximo domingo e falou para eu encontrá-lo às quatro horas da tarde de sábado, no hotel Danúbio, na Avenida Brigadeiro. Eu fui, ele jogou dez minutos e caiu duro. Mas deu para tirar foto dele jogando com calção, chuteira e essa foi a capa do jornal.

Como foi para se adaptar à escrita de revista?

É porque no jornal, eu estava acostumado a escrever muito depressa e colocar o máximo de informação possível num menor espaço. No jornal você quer colocar tudo, aquele monte de informação que você apurou, naquele espaço. E depois de um tempo que eu estava lá, o editor chegou para mim e falou que tinha informação demais. Eu nunca tinha ouvido falar nisso, que tinha informação demais. No jornal, eles reclamam quando tem informação de menos, que isso é “encheção de linguiça”, que é cascata... E perguntam “cadê a informação?”. Na revista é o contrário. Você coloca uma, duas, três informações e está de bom tamanho.

Como foi trabalhar na Folha [jornal Folha de S. Paulo] e a campanha das Diretas já?

Essa história é bem parecida com a anterior, porque também foi uma trama de amigos. Uma parte da turma que trabalhava no Estadão e foi para IstoÉ ficou desempregada quando o Jornal da República acabou [em 1980]. E Cláudio Abramo me botou na Folha depois do fechamento do Jornal da República. Ele chamou o Octavio Frias de Oliveira e falou: “este aqui é um repórter bom do Jornal da República para você contratar”. O meu chefe era o Boris Casoy. Mas talvez esse tenha sido o melhor período da minha vida profissional. A Folha era o grande jornal da abertura. E me deram liberdade para fazer o que eu quisesse. Aí foi quando começaram a me chamar de Kotscho. E as Diretas foi o grande momento do país, o divisor de águas entre a ditadura e a democracia. E eu já estava cobrindo movimento social, CUT, movimento contra carestia, movimento da anistia e esses vários movimentos sociais acabaram confluindo para a campanha das Diretas. E aí entraram os partidos: o velho MDB, o PT.Eu fiz uma pauta, como se fosse uma pauta qualquer, sugerindo ao meu chefe de reportagem, que era o Adílson Laranjeira, que a Folha se engajasse nessa campanha e fizesse a cobertura. Aí ele falou: “isso aqui eu não posso resolver. Você leva para o senhor Frias”. O senhor Frias topou na hora e me encarregou das matérias sobre isso todos os dias. A Folha foi o primeiro jornal, e durante muito tempo foi o único. O resto da imprensa demorou a perceber a importância desse movimento. A televisão, principalmente, que só entrou no final, enquanto a Folha esgotava nas bancas todos os dias no Brasil inteiro. Foi um grande momento da minha carreira, do Jornal [Folha de S. Paulo] e do país.

Sobre a assessoria no governo Lula: porque abandou a reportagem e foi ser assessor do Lula?

Eu nunca abandonei a reportagem. O que acontecia era o seguinte: eu fazia a campanha junto com o Lula, ele perdia e eu voltava a fazer reportagem. Isso aconteceu várias vezes. Como essa história começou foi o seguinte: no final de 1988, eu trabalhava no Jornal do Brasil, na sucursal de São Paulo, e fui visitar o Lula que tinha feito uma cirurgia - acho que de apêndice – no [hospital] Sírio Libanês. Fui só fazer uma visita e ele disse: “olha, eu já estou bom e se prepara que você vai trabalhar comigo na campanha à presidência de 1989”. Essa era a primeira campanha presidencial da nossa geração. Nós nunca tínhamos votado para presidente: nem ele, nem eu, nem ninguém daquela idade. A última eleição para presidente no Brasil tinha sido em 1960 e aí a gente já estava em 89. Eu tomei um susto, porque pensei: eu nunca fui assessor de imprensa de ninguém e nem gostava disso também, mas o Lula é muito convincente com todo mundo. Na verdade não foi bem um convite ele falou: “você vai trabalhar comigo”. Os outros amigos também falavam: “você tem que ir”. E no jornal me deram a maior força. O chefe era Ricardo Sérgio, um grande jornalista, e falou: “se eu fosse você, eu iria, porque esse é um momento histórico pro país. Você é amigo do Lula”. No entanto, outros amigos e parentes falavam: “Kotscho, você vai se queimar, você nunca mais vai arranjar emprego em lugar nenhum. Trabalhar pro Lula e pro PT é fim de carreira, vai acabar a sua carreira”. Isso não aconteceu, como eu falei, trabalhei na campanha, achei muito legal, viajamos o Brasil inteiro. Perdemos no fim por muito pouco. Foi triste a coisa do Collor. E o Jornal do Brasil tinha me dado uma licença não remunerada. Na semana seguinte da campanha, voltei a trabalhar e ainda me deram aumento, ou seja não só não perdi o emprego, como ainda me deram aumento. Fiquei no Jornal do Brasil até a campanha seguinte, em 1994. E quando acabou a campanha de 94, eu estava meio desencantado, não queria mais voltar para a redação pelas coisas que tinham acontecido durante a campanha, o comportamento dos colegas e dos jornais. Eu briguei com muita gente. Eles falavam muita mentira sobre o Lula. Os caras cumpriam pautas: vinham para cobrir algo com a pauta já determinada. Eu fui pegando bronca disso, de todo mundo, dos jornais... Eu não queria participar disso. A imprensa tinha mudado. Antigamente, cada um de nós era responsável por aquilo que escrevia e assinava a matéria, ou seja, era responsável em todos os sentidos. Se você assinava a matéria, juridicamente você era responsável. Além disso, era respeitado o estilo da gente. Nessa campanha [1994], eu vi vários colegas dizendo: “não! Essa matéria que está assinada aí, não fui eu que escrevi. Eu escrevi, mas os sujeitos mudaram na redação”. Como é que você aceita isso? É o fim da picada. Sai seu nome num negócio e não foi você quem escreveu. Foram vários episódios assim, e isso aconteceu com vários colegas e em vários veículos. Enfim, foi uma campanha muito desgastante e eu falei: bom, agora não vou mais voltar para a redação. Resolvi trabalhar como freelancer. Naquela época, muita gente começou a fazer isso: trabalhar avulso, atender encomenda. Fazer reportagens para a revista do Bradesco... Sei lá. Eu fiz uma revista inteira da Fiesp [Federação das Indústrias do Estado de São Paulo]. Me chamaram para fazer uma matéria, aí eu olhei a pauta e falei: pode deixar que eu faço todas. Foi sobre o cinquentenário do Senai [Serviço Nacional de Aprendizado Industrial]. Ganhava meu dinheirinho ali. Não tinha chefe, não tinha patrão. Mas aí uma amiga, Mônica Teixeira, que estava criando o SBT Repórter, me chamou para participar da equipe dela. Eu disse que não queria mais emprego, mas ela: “não, a gente têm umas matérias aqui e a gente paga por matéria, se você não quiser mais, você sai, sem compromisso”.Mas eu comecei a gostar do SBT Repórter. É tipo o Globo Repórter e acho que existe até hoje. Naquele ano, a gente ganhou o prêmio de melhor programa do ano da Associação de críticos de Arte e tal. Um velho colega meu de ginásio, José Carlos Martinez, que era dono da Rede CNT/Gazeta, me convidou para dirigir o jornalismo dessa rede. Era uma rede pequena, mas que estava crescendo. Naquela época foram para lá: Galvão Bueno, Marília Gabriela. Ele era meio maluco, então começou a contratar meio mundo e aí me convidou também, mas tinha de ficar em Curitiba. Aí eu pedi um salário muito alto, porque eu não queria ir morar em Curitiba, justamente para ele não aceitar, mas ele aceitou. E o pessoal falou: “você tá maluco, ele não vai te pagar”, mas pagou. Fiquei dez anos lá, ganhei super bem, foi a época que ganhei melhor na vida. Até construí uma casa na praia [risos]. E com a mesma equipe de jovens, que não tinha muito dinheiro lá, a [TV] Bandeirantes me chamou em São Paulo. Fui dirigir a Bandeirantes em São Paulo. Eu trouxe uma boa parte desses jovens para cá [São Paulo] comigo e hoje a maioria está trabalhando na TV Record. Ainda sobre a CNT/Gazeta, a gente deu muitos furos de reportagem. A gente fazia reportagens que as outras redes não podiam fazer: acompanhamos grandes ocupações de terra, que é um assunto proibido até hoje MST. A gente acompanhava porque tinha as informações de dentro, junto com os caras. Então eles iam ocupar uma terra a gente ia junto. Só que o pai do José Carlos Martinez era um dos maiores fazendeiros e tinham invadido terras, inclusive, da família dele. A gente tinha mais audiência, durante algum período, que o jornal do Boris no SBT. Talvez por isso que me convidaram para ir para Bandeirantes, com uma equipe pequena e poucos recursos, a gente ganhava da SBT. Eu sei que ganhar da SBT, que era uma rede grande e do Boris Casoy e é uma alegria, até porque eu já tinha divergências com ele já da época da Folha.

Sobre a amizade com Lula e a assessoria do Presidente Lula:

Se tem uma coisa que eu não recomendo a ninguém, nem ao político, nem ao jornalista, é trabalhar com amigo. A gente brigava muito. Eu posso dar um exemplo mais recente dessa época que trabalhei no governo, em 2003 e 2004. Tinha muita divergência, muita briga. Era começo de governo e ninguém se entendia direito, ninguém sabia direito mexer com essa imensa máquina que é o Brasil, o poder público brasileiro e tal. Depois que eu saí, se fixou lá o Franklin Martins, que é ministro da área de imprensa e comunicação. E sempre que eu encontro com o Lula e com o Franklin, eu falo a mesma coisa: que minha saída do governo foi boa para os dois lados. Porque melhorou o governo, que ficou bem melhor no segundo, e minha vida também. Eu não tinha nascido pra fazer aquilo. Eu fui para ajudar. Tinha combinado de ficar um ano para montar uma equipe, uma estrutura, informatizar a secretaria que não tinha nem site. Mas não deu para fazer isso em um ano só, e eu acabei ficando até o final de 2004. Muita gente acha que eu briguei com alguém. O cara que sai do governo é sempre porque brigou ou porque aprontou. Eu não briguei, eu queria era ir embora, voltar pra casa, para São Paulo. Minha família não tinha ido para Brasília. Eu fiquei morando sozinho por dois anos, o que é terrível. Mas foi uma grande experiência de vida. Outro dia encontrei o José Gregori, que foi ministro do Fernando Henrique... Uma coisa importante da minha vida foi trabalhar na Igreja, na época dura da ditadura com João Paulo Evaristo Arns. Então, eu já conhecia o José Gregori, que depois virou ministro da justiça do [governo] Fernando Henrique. Quando a gente tá no governo, a gente sofre muito, mas depois a gente tem muita história pra contar. É verdade: o governo é bom depois, não na hora que você está lá. Mas não é bom ser amigo de quem você está assessorando. É melhor ter uma relação só profissional. Isso vale para o jornal também. Toda vez que eu trabalhava com amigos como chefes, eu brigava muito. Também não é bom trabalhar com a mulher da gente. Tem que separar as coisas. Por exemplo, eu briguei muito com a minha mulher na época que eu trabalhava na Folha. Ela criou o DataFolha, o departamento de pesquisa, eu era repórter, e tinha muita gente que eu gostava e ela odiava. Então, não é legal. Acho que tem que separar o trabalho da vida mesmo, dos amigos, da família.

Em um trecho do livro [autobiografia], você diz que, de brincadeira, sugeriu o nome do [Antônio] Palocci como ministro e ele acabou realmente sendo chamado. Como é acompanhar a vida política do país tão de perto e, de certa forma, influenciar a política?

Todo mundo perguntou “como é que é isso de indicar ministro?”. Mas quando você está em um grupo, um grupo de amigos, que você está junto todo dia, toda hora, as coisas acabam acontecendo naturalmente. Foi o seguinte: o [Antônio] Palocci, a partir de determinado momento da campanha de 2002, que foi a primeira vez que o Lula ganhou a eleição, era coordenador do Programa de Governo, mas ele queria também viajar com a gente. O bom da campanha são os comícios, as viagens. O Palocci era muito engraçado, divertido, bom astral, o que geralmente os políticos não são. Aí, lá pelas tantas, todo mundo já sabia que o Lula estava quase ganhando, e começou a dar palpite. Por que não botar não sei quem no ministério tal? Aí, eu falei: “pô, também queria indicar alguém”. Me perguntaram de brincadeira quem eu queria indicar e eu disse: “ah, eu quero indicar o Palocci”. E disseram: “Mas por que o Palocci?” e eu falei que ele era um cara engraçado, divertido. Aí o Palocci veio e perguntou “você tá dizendo que eu tenho cara de palhaço?”. Eu disse que não, que ele era um cara cheio de bom humor. Corta. Passados uns meses, nós estávamos discutindo a formação do governo, Palocci já nomeado ministro, eu cheguei para os dois e falei “vocês não dão muito valor para assessor de imprensa. Eu indiquei um único ministro e já emplaquei”. Eu só não imaginava que fosse para Fazenda, porque o Palocci é médico sanitarista. Ninguém imaginou que ele fosse para o Ministério da Fazenda. São essas coisas do Lula, que no início ninguém entende, mas no final acaba dando certo.

O Lula tinha uma imagem muito boa no exterior, mas a imprensa brasileira estava criticando muito as decisões dele. O que você fez como assessor para tentar salvar essa imagem? E por que ele fazia tanto sucesso fora do país?

Isso foi assim no início do governo e é assim até hoje. A grande imprensa brasileira nunca aceitou o Lula como Presidente da República. Nem os donos, nem os comunistas, nem os editores. Eles acham um absurdo. Como é pode um cara com a história de vida do Lula, com a formação dele ou a falta de formação dele, ter virado Presidente? Eles não aceitam. É uma questão de classe. Não é uma questão ideológica. Até porque não se pode chamar o Governo Lula de esquerda, de revolucionário... Não é. Pelo contrário. Todo mundo melhorou de vida, inclusive os donos de jornais, de televisão. Não aceitaram na primeira eleição, muito menos da segunda. E agora então que o Lula tem uma candidata que é favorita, eles estão histéricos, não sabem mais o que fazer. Não conseguiram derrubar o Lula no primeiro governo, nem no segundo. A aprovação dele só aumentou, nunca tinha acontecido isso na história do país. Ele teve 85% de aprovação, esse índice sempre cai um pouco no fim do mandato. De outro lado, a imprensa estrangeira tem bons correspondentes, bons jornalistas, que não estão engajados nem para um lado, nem para o outro. Tanto faz PT, PSDB. Contam as histórias da vida real brasileira. E o fato é esse. Se você sair pelo Brasil, sair da futrica política de Brasília, que é o que os estrangeiros fazem, você vê que o país mudou. Muita coisa aconteceu na economia, na área social do país. Eu sempre faço matéria na Amazônia e encontro mais jornalistas estrangeiros do que brasileiros fazendo matéria lá. Os jornais daqui se fecharam e você não tem mais uma cobertura de Brasil, uma cobertura nacional. Tirando a TV Globo, que tem afiliadas em vários lugares, o resto é Rio, São Paulo e Brasília. Eu costumo a dizer que no noticiário tem Brasília demais e Brasil de menos. Toda vez que você sai desses lugares e viaja, você encontra um outro país, que não está na mídia. E por isso que nós criamos a revista Brasileiros, há mais ou menos três anos, para mostrar um outro Brasil. Não que seja a favor ou contra o governo, não tem nada a ver com o governo. O Brasil tem governo demais no noticiário. O Lula tá todo dia na televisão, no rádio, na capa de jornal. Eu falava isso quando era assessor de imprensa. Falei em uma reunião com os colegas da TV Globo: “Por que o Lula tem que estar sempre no Jornal Nacional?”. Não era nem o fato de ser a favor, ou contra, de ser bom ou ser ruim. O fato é que não é assim nos outros países.Nos outros países, a vida do país é bem mais importante que a vida do governo. E no Brasil, isso se centralizou muito nos últimos anos, para ver se dava pra acabar com a imagem do Lula. Não só não conseguiram, como cada vez ele foi crescendo mais. Tanto que ninguém podia imaginar que ele fosse indicar uma candidata pouco conhecida e que hoje é a favorita [e que veio a ser eleita, Dilma Rousseff). O Lula é uma figura que alguém no futuro vai ter que estudar e explicar.

No livro você explica que te incomodou um pouco o fato de algumas pessoas acharem que a sua saída do governo teve alguma relação com o Mensalão [denúncias de corrupção envolvendo o Partido dos Trabalhadores]. Como foi isso para você como amigo do presidente e como profissional?

Eu fiquei no governo até 2004, e graças a Deus, esse escândalo só estourou quase seis meses depois. Algumas pessoas brincavam comigo, dizendo que eu era um homem de visão, previ o que ia acontecer e saí fora antes. Algumas pessoas acharam que eu já sabia das coisas e que saí, porque não concordava. Na verdade, nunca se tinha usado essa expressão “Mensalão”. Não existia Marcos Valério [um dos acusados]. Pelo menos não enquanto eu estive lá. É só pegar os jornais pra ver que não tem nada. Ma as pessoas acham impossível. “Pô, você tava lá e não sabia de nada? Como você explica isso?”. Aí eu respondia: “uai, como é vou explicar um negócio que nem eu consigo entender?”. Eu levei um puta susto quando li aquele negócio.Eu lembro que uma vez, logo que saíram as primeiras matérias, fui lançar um livro em Rondônia, eu estava em um programa de rádio ao vivo, contando como foi o tempo no governo e tal. Quando deu o intervalo comercial, a apresentadora muito engraçada falou: “Agora que a gente não está mais no ar, pode me contar... Como foi aquilo?”. Eu falei “O que eu contei aqui no ar é exatamente o que aconteceu, não tem outra história”. Isso aconteceu também depois, quando houve o escândalo dos cartões corporativos. Estavam dizendo que os funcionários do governo estavam usando os cartões para outras coisas: roupa, restaurantes... Sempre me perguntavam: “e você, como era o seu cartão? Como é que você fazia”?”. Eu dizia: “acredite se quiser, mas eu nunca vi um cartão corporativo, eu nunca vi ninguém usar um cartão corporativo. Eu não sei o que é isso”.

E você chegou a falar com o Lula depois desse escândalo? Vocês ainda se falam?

Toda semana a gente conversa. O último fim de semana eu passei com ele, na Granja do Torto, teve festa junina. A gente continua se falando, eu continuo amigo de todo mundo, tirando dois ou três que eu não gostava já antes do governo. Eu só gosto de falar sobre as pessoas que eu gosto. Continuo amigo dos velhos conhecidos e fiz novos amigos, principalmente nas Forças Armadas e no Itamaraty.

No seu livro você fala de forma recorrente da sua família e em alguns momentos o jornalismo atrapalha a sua vida pessoal. Você estava sempre viajando, corria alguns riscos. Como foi lidar/equilibrar as coisas que estavam acontecendo na vida familiar, como o nascimento das suas filhas, da sua neta, com a profissão?

A gente aprende a conviver com tudo na vida. A gente se adapta às situações. Quando eu conheci a minha mulher, por exemplo, eu já viajava muito, eu já fumava, então ela não pode reclamar que não me conhecia. As minhas filhas também. Desde pequenas elas sabem como eu sou. Eu nunca imaginei que uma filha minha fosse querer ser jornalista, porque elas reclamavam muito da ausência, dos perigos, desses negócios todos. E a mais velha acabou virando jornalista, a Mariana, que, aliás, já é uma jornalista veterana. Ela tem de profissão mais do que vocês têm de idade. Um período marcante para mim foi em 2004. Minha mãe ficou doente, e nasceu minha primeira neta. Essa foi a primeira vez que eu senti não estar em casa, não estar junto com a família. Eu já tinha decidido mesmo sair do governo e me lembro que meu irmão me ligou, minha mãe já estava nas últimas, e ele falou: “não tem mais jeito, nós vamos sedar ela, não há o que fazer”. Eu estava no gabinete do Lula nessa hora e tive que responder na hora se eu podia ir lá ou não. Eu expliquei o que estava acontecendo e o Lula falou: “autorizo, porque eu sei como é que é isso”. Ele saiu e eu percebi que ele tinha chorado, até porque ele perdeu a mãe dele em uma situação muito parecida. Então, no governo você tem todas essas questões políticas, mas o que fica, o que marca são essas coisas pessoais. Eu vim para São Paulo no mesmo dia, vim também quando nasceu a minha neta. De lá pra cá, eu procuro ficar o máximo de tempo com a família.

E o blog?

Eu não queria fazer o blog. Achava que já tinha blog demais no mundo, mas o presidente do IG na época falou “poxa, não tem futuro fora da internet. Se você quiser continuar escrevendo e trabalhando como jornalista, ou vai ser assessor de imprensa ou vai começar na internet. Não tem outro jeito. Você não vai voltar para uma redação de jornal agora”. O salário era bom, eu podia trabalhar em casa e tinha chance de ser patrão. Então, a internet virou uma segunda vida profissional. Depois de 40 anos, os quarenta que eu conto no livro de 1964 a 2004, agora eu tenho trabalhado na internet. E estou me divertindo muito fazendo isso, além de ganhar a vida. Além disso, o blog permite uma interação com os leitores que não existe na televisão, no jornal, nem em nenhum lugar. É muito bom. Se hoje eu pudesse recomeçar minha carreira, entrava direto pela internet. É muito mais vivo. Por exemplo, se eu escrevo uma coisa na parte da tarde, de noite já está todo mundo comentando. No jornal não tinha isso.

Como é que foi começar a usar o computador e passar a viver dessa novidade que era a internet?

Eu sempre tive receio de qualquer coisa moderna. Eu tenho medo de comprar um celular novo e não saber usar. Mais ou menos nos anos 90, o Jornal do Brasil já tinha colocado computador em todas as mesas. Não tinha escolha, não tinha mais máquina de escrever. Enquanto eu estava fazendo a campanha do Lula, eles tiraram as máquinas e colocaram os computadores. O chefe era o Augusto Nunes e eu falei: “poxa, Augusto... Você não deixou nenhuma máquina para mim?”. Ele disse: “não tem mais máquina, agora você se vira, mas não se preocupa. Se até o fulano de tal consegue, você vai conseguir”. Hoje em dia eu acho ótimo, mas também só sei escrever, apertar o botão e botar no ar.

A internet é o futuro do jornalismo?

Eu acho que nós estamos apenas começando uma revolução. Isso muda a cada dia, a cada semana. É só o início de uma revolução que ninguém sabe onde vai dar. O que eu sinto hoje é que todos nós estamos virando emissores e receptores de informação ao mesmo tempo. Antigamente você tinha o jornalista, emissor da informação, e o leitor, que era o receptor. Hoje é todo mundo é tudo. O que vai acontecer, eu não tenho a menor ideia. Não sei nem se eu vou estar aqui pra ver. Vocês é que vão viver isso.