ROGÉRIO IMBUZEIRO
ENTREVISTA

Realizada por: Bruna Caroline, Heryka Cilaberry, Lidiane Queiroz, Rafael Godinho

Revisado e editado por Itala Maduell
Data: 07/2009

Seu nome completo, local e data de nascimento.

Rogério Imbuzeiro Barroso. Imbuzeiro como aquela árvore do Nordeste. Tenho 47 anos e nasci no Rio de Janeiro.

O nome dos seus pais e respectivas atividades. A atividade deles teve alguma influência na sua escolha?

Meu pai, Jair Barroso Junior, é astrônomo, aposentado atualmente. Minha mãe, dona de casa, com umas atividades não remuneradas ligadas a apicultura, biologia. Não tiveram influência. Fui trabalhar na área de química, na Petrobras, como técnico de química. Fazia engenharia química. Larguei tudo para fazer cinema, um sonho meio doido. E acabei indo parar na última área que imaginei que fosse trabalhar na vida. Dizia que, se tivesse que trabalhar em jornalismo, em telejornalismo, e como editor de telejornal então, preferiria ser ascensorista de elevador. Mas quis o destino que fosse assim. Já estava me formando [em comunicação], na Faculdade da Cidade – eu tentei para Cinema, mas não consegui passar para a UFF –, e a especialização era jornalismo ou publicidade. Fui para a área de jornalismo. Já estava com 24 anos e queria me emancipar. A TV Manchete, uma vez por ano, realizava concursos. Foram quatro ou cinco anos. Acabei fazendo o concurso. Oitocentas pessoas concorreram e 40 foram selecionadas para fazer um curso de edição-reportagem. Dali seis foram contratadas. E já são 22 anos.

Foi assim que você entrou para o jornalismo?

A vida surpreende a gente em vários aspectos e esse foi um, porque eu não me imagino hoje trabalhando com outra coisa. Acho que foi meio talhado por vários aspectos do meu temperamento. É uma atividade dinâmica, todo dia diferente. Embora você esteja circunscrito a uma redação, a ilhas de edição, tem que entrar em contato com jornais, mídias eletrônicas, para se informar. É uma linha de produção de notícias, mas muito palpitante, porque a cada dia há elementos novos, de certa forma. Tudo bem, todo ano tem a procissão de São Jorge, todo ano tem os preparativos para [o desfile das] escolas de samba, mas são imagens diferentes, personagens distintos, dias diferentes, em que você vai ter chance de criar na ilha. É como você fizesse um filme todos os dias, na ilha de edição, uma matéria ou duas. E você constrói um roteirinho junto com o repórter para poder ilustrar da melhor maneira possível. O tempo atropela às vezes, mas é um trabalho extremamente criativo e gostoso. Embora às vezes a gente quase morra [risos].

Com que outras atividades você já se envolveu?

Quando estava na faculdade, fazia trabalhos de revisão e de datilografia de trabalhos de universitários, um ganha-pão para acrescentar a mesada, porque eu tive a oportunidade de ter a faculdade semifinanciada por meus pais e avós. Trabalhei numa revista também, escrevendo artigos de turismo, e depois fui direito para a área de telejornalismo, na TV Manchete.

De química para cinema. O que aconteceu?

Na vida às vezes você vai sendo encaminhado. Tem que trabalhar em alguma coisa. Então, vai fazer um curso técnico. Na época, havia química. Gostava de química, fui sendo empurrado para isso. Passei no concurso da Petrobras, comecei a trabalhar, mas não era realizado naquele trabalho. A área de comunicação tem outra vantagem: você cansa de televisão, por exemplo, ou fica desempregado; então você tem uma gama de opções. Pode trabalhar numa mídia impressa, pode trabalhar em assessoria, em revista. Até na área de publicidade dá para quebrar o galho. Cheguei a trabalhar na assessoria da Riotur, trabalhei no Ibope, como pesquisador, e depois como supervisor de pesquisa política. Trabalhei em produtoras, como roteirista e editor de programas. Ou seja, existe uma gama que eu acho ser um privilégio da profissão nesse sentido.

Quando e como você entrou para a TV Globo?

Trabalhei durante cinco anos na TV Manchete, de 1987 a 1993. Então saí. O ambiente estava saturado lá, em crise também. Os funcionários não recebiam salário, invadiram a TV Manchete e tiraram a emissora do ar. Depois, ficaram acampados lá. Eu e minha mulher nos conhecemos nessa época. Ela era editora de imagens e eu, editor de texto. A gente se conheceu numa ilha de edição. O destino realmente empurrou para lá. Então saí da TV Manchete, fui trabalhar no Ibope, onde fiquei por dois anos. Depois, trabalhei na Bandeirantes, como editor, durante alguns meses. Fui para a CNT, como editorialista de um programa muito interessante, o CNT Opinião, que era de debates ao vivo, com participação do público. Dali fui para uma produtora, chamada Hipermídia, cujo dono era Celso Freitas, foi apresentador da Globo e hoje é apresentador da Record. E lá, na Hipermídia, fiz o programa Intermídia, para o canal GNT, e o programa Tribos e Trilhas, para a TV Cultura. Dali, fui para a Riotur, porque a produtora começou a entrar em crise financeira. Trabalhei como assessor da Riotur durante um ano. Depois, fui para a Rede TV, e logo para o Canal Futura. Mas não deu certo, trabalhei só 15 dias lá. Tem essas coisas também, você larga o emprego, como eu larguei, porque tudo tinha dado relativamente certo para mim até então, mas daquela vez não deu certo. Depois fiquei sabendo que era o quinto editor que estavam tentando por ali. Trabalhei [também] na Record como chefe da pauta e editor. Ou seja, “está precisando de alguém, você sabe fazer?”. “Não, mas aprendo”. É na mesma área, é no métier. Acabei como produtor e pauteiro lá. Depois fui para a Rede TV. Editor, chefe de reportagem, de 2001 a 2004. E depois para TV Globo, em dezembro de 2004.

E como foi esse processo de entrada na TV Globo? Você participou de algum concurso?

Não. A menina que, naquele concurso da TV Manchete, passou em 1º lugar, daqueles 800 candidatos – um dos seis, como eu também fui –, desde que ela foi para a Globo, na década de 90 ainda, sempre me chamava. Mas a referência Globo era muito negativa. Todo mundo que eu conhecia ou ouvia falar citava o ambiente como péssimo, que era muito autoritarismo, pressão, cobrança, todo mundo aguentando lá. Não que você não vá encontrar isso em outras emissoras, menores, mas acho que a pressão é um pouco menor. Em 2004 ela disse: “Pode vir, que agora o ambiente é outro. Tem um diretor aqui cujo lema é cordialidade e competência”. Eu acreditei, e realmente o melhor ambiente de trabalho que eu já tive foi sob a gestão dele. Antes, realmente talvez não tivesse me adaptado. Tinha bastante receio de ir para a Globo, sempre fui muito arredio. Estou nesse meio, tudo bem, gosto, mas não quero dar um passo a mais. Investimento em tempo de estresse, de desgaste. E a Globo, para mim, era aquele bicho-papão. Todo mundo falava coisas muito negativas. Enfim, eu fui com um pé atrás, mas aí fui logo sendo empurrado para pegar mil desafios. E o fato de ter trabalhado em emissoras menores, como tive chance, me facilitou. A própria Manchete, que foi uma emissora grande na década de 1980, mas que foi caindo, e eu peguei essa curva descendente. Havia muita precariedade na Manchete, mas a precariedade faz com que você se supere para fazer o melhor possível sem muita estrutura. Você vai criando experiência, de certa forma. Não é premeditado, não é para se envaidecer disso. Porém, na prática, quando você chega numa emissora mais estruturada, em que todo mundo é uma pecinha que funciona naquela engrenagem, você faz o seu e acaba se destacando, de certa forma. Tanto é que todas as pessoas que foram da Manchete que estão na Globo têm uma projeção grande. Na Globosat, onde minha mulher trabalha, também tem muita gente da Manchete em posição importante. Foi uma escola, na verdade.

Você trabalhou em telejornais na Globo e também em outras emissoras. Qual a diferença? Que aspectos positivos e negativos há entre trabalhar numa emissora grande e numa emissora pequena?

Na Globo, trabalhei em todos os telejornais, Bom Dia Rio, RJTV 1ª e 2ª Edição. Comecei no RJ 2ª Edição. Na minha vivência em televisão, acho que não existe coisa mais difícil do que aquele jornal. Realmente, é um inferno diário, mas que quase sempre acaba de repente. Tem os anjos da guarda, tem a experiência, e as coisas conspiram, e você vai sendo conduzido. Dentro da própria Globo trabalhei no Jornal Hoje também, seis meses no Bom Dia Brasil, um ano no Jornal da Globo e três meses no Jornal Nacional. De vez em quando faço Jornal Nacional ainda. Mas o RJTV 2ª Edição é mais difícil. Há uma diferença entre cada um dos jornais. Existe uma linguagem para o RJTV 1ª Edição, que é uma coisa mais solta, informal. O RJTV 2ª Edição é um pouco mais sério. É um jornal curtinho, com milhões de pessoas assistindo entre duas novelas. Tem a maior audiência, maior que o Jornal Nacional, percapitamente, no Rio. Então todas as chefias estão ali, em cima. É um jornal meio angustiado. O Jornal da Globo permite a você criar, editorializar, opinar muito mais. Além de ser tarde da noite, tem um público que é supostamente mais intelectualizado e deseja ver uma análise um pouco mais profunda. Foi um prazer muito grande trabalhar nesse jornal. Deixei mais por causa do horário, porque estava saindo de lá uma e meia, duas da manhã, não estava dando mais, [não estava] vendo filho, família. E o Bom Dia Brasil também. É um jornal em que você pode fazer matérias maiores, aprofundadas. Então, dentro da própria emissora, vê-se que há jornal que é mais um fast-food de notícias, o RJTV e 2ª Edição. Você dificilmente vai ver uma matéria mais aprofundada no RJTV 2ª Edição, que tem matérias curtas. Mas no Bom Dia Brasil pode-se fazer matérias de três, quatro minutos, ouvir especialistas comentando, questionando. Diria que não há tantas diferenças entre os telejornais. Existem as linhas políticas de cada emissora. Você sabe mais ou menos qual é a linha da emissora, o que eles esperam que se faça, tanto em termos de edição como de conteúdo. As palavras que você vai usar, o enfoque que vai dar ao assunto. Na CNT, a mais precária em que eu já trabalhei, por incrível que pareça, a diretora de Jornalismo, Josete Marques, tinha o costume de querer fazer grandes matérias no jornal da noite. Matérias de seis, sete minutos. Isso num jornal de rede, como o Jornal Nacional. É muito raro você ver abordar um assunto assim. A não ser matérias de série. Mas, no dia-a-dia, é matéria de três, quatro minutos e só. Lá se fazia matéria de seis, sete, oito minutos. Eram especiais mesmo. Existia a preocupação dela de querer realmente mexer nas feridas, de trazer questionamentos mais do que o comum.

Você começou no RJTV 2ª Edição. E hoje, ainda continua lá?

Sim. Estive em todos esses jornais de rede que falei, Bom Dia Brasil, Jornal da Globo, e desde março estou novamente no RJTV 2ª Edição.

Você percebeu alguma mudança no perfil editorial? Ele mudou ao longo desse tempo em que você está trabalhando?

Não, não. A característica mais marcante do RJTV 2ª Edição é buscar uma edição criativa, dinâmica, mas fazendo a coisa isenta. Isenção é uma coisa meio teórica, porque tudo é político. A forma como se edita a matéria, as sonoras que você escolhe, a sonora final do VT que você usa, tudo isso acaba, de certa forma, conduzindo a interpretação. É uma ilusão, em certo sentido, dizer que a matéria é isenta, completamente neutra, mas existe uma preocupação muito grande de apresentar o fato e ouvir todas as partes envolvidas. Então não mudou muito, não. Mudou, sim, a estrutura. Melhorou. Hoje em dia, em vez de três editores, há quatro. Além do editor-chefe, tem o editor-executivo para trabalhar com ele, o que há muitos anos não tinha.

Você já foi chefe de reportagem, pauteiro, e agora é editor. Dessas funções, qual você prefere?

Editor, com certeza. Como eu falei, montar um filminho por dia na ilha de edição, se divertir com as imagens, com as edições. E ter o desafio de conseguir. Porque editor é o cara o responsável pelo produto. Tem a reunião, essa matéria é sua, tem que se virar e pôr no ar. Então você vai estar em contato com repórter, que dificilmente estará na redação. Ele vai estar na rua ou caindo de paraquedas. E o que eu falei de fazer a leitura de tudo é basicamente o seguinte: você lê, seja nas agências, na escuta ou na matéria do RJTV 1ª Edição, você assimila, organiza e roteiriza. Basicamente é isso. É um processo dinâmico. Não é uma coisa assim “vou fazer isso no papel”. Não, às vezes você já vai decupando os discos brutos, que têm todo o material que foi feito na rua, e já vai escrevendo o texto. Muitas vezes o editor acaba fazendo o texto inteiro, até a passagem do repórter. Então o editor tem que ter contato com o repórter, tem que ter contato com o produtor. Muitas vezes a notícia tem lacunas para serem preenchidas, informações contraditórias, então você tem que acompanhar o tempo todo as atualizações até chegar a hora do jornal, para explicar da forma mais correta possível. Tem que estar em contato com a arte, porque o RJTV, particularmente, usa muito a arte. E também com os arquivos que você precisa nas matérias. Às vezes tem falar com as praças, Friburgo, Campos, Angra dos Reis, e o editor tem que fazer tudo isso. Há os assistentes, que teoricamente ajudam você a levar as fitas para lá e para cá. “Tem que pegar o material na arte”. Então você pega o disco e leva lá para cima. Mas muitas vezes os assistentes estão atolados, pondo outro jornal no ar, e é você que sobe as escadas. É uma academia nesse sentido. Acho até que é uma vantagem, porque é uma profissão em que você economiza academia [risos].

E quanto aos outros formatos? Você trabalhou em outros lugares, editando outro tipo de material. Qual é a diferença, para você, entre trabalhar com telejornalismo e trabalhar com programas?

Há tipos de programas diferentes. Por exemplo: o CNT Opinião era uma coisa muito peculiar. Você escolhia um tema do dia, fazia um editorial sobre aquele assunto que estava nas manchetes, apresentava. Havia os debatedores e a participação do público. Não existia trabalho anterior. No mesmo dia escolhia o assunto e vamos ver. Mas trabalhar em produtora, por exemplo, é diferente. Você vai fazer um programa de 25 minutos, então tem que estruturar, fazer reuniões que vão roteirizar o programa inteiro. É diferente de fazer um jornal diário ou fazer um VT. E a expectativa de um programa é que seja de qualidade, porque você tem tempo para editar. Mas, a meu ver, há dois pontos importantes. O primeiro é aprofundar, lapidar, para quem gosta de fazer as coisas benfeitas. Você pode montar um programa de 25 minutos, mas tem que ter controle total sobre ele. Porque, teoricamente, você tem muito mais tempo. Se não tem tempo, dorme menos, mas vai se preparar para entrar na ilha de edição já sabendo onde é que você quer aquela imagem. Eu sou um editor que gosta de trabalhar assim. Sou editor de texto, mas gosto muito de mexer com as imagens também. Se o cinegrafista traz imagens deslumbrantes, não tem sentido você apenas escolher. Você vai procurar os diamantes que há naquela peneira. Então tem esse aspecto de você poder fazer o negócio com muito mais capricho. O outro aspecto é que é muito desgastante. Um programa como Hipermídia, por exemplo, que a gente fazia, um programa de 25 minutos sobre tecnologia, de modo geral, eram oito a dez horas de material bruto para decupar. Programas como o Trilhos e Trilhas, que foi da TV Cultura, eram de dez até 14 horas. Eram pilhas e pilhas de discos e fitas. Foi muito gratificante. Acho que, junto com CNT Opinião, alguns programas do Trilhos e Trilhas, até Hipermídia, foram os que eu mais me gratifiquei em trabalhar até hoje. Por outro lado, já não aguentava mais decupar tanta coisa. Me diziam “sai daí, vai fazer jornalismo diário”. Mas tem gente que está no Globo Repórter há milênios. Acho que é o perfil de cada pessoa. Tem gente que está na Globo há 25 anos e nunca saiu do jornalismo diário. É de cada um.

Você disse que gosta de fazer as matérias com muito capricho. Dá tempo?

No Jornal da Globo, por exemplo, principalmente quando estava entrando mais tarde, você podia usar a ilha de edição logo depois que o pessoal do RJTV e o do Jornal Nacional usavam, e tinha um tempo útil que podia dar uma decupada boa. Ou então nos intervalos. Se o pessoal do RJTV acabou de decupar, você entra na ilha rapidinho, vê as imagens e já decupa. Mas eu realmente procuro, mesmo que não tenha tanta oportunidade, melhorar a edição. Ainda tem cinco minutos, a matéria está pronta, mas faço rapidinho. Acho que o que me motiva é poder fazer caprichado. Porque só entrar na ilha, esqueletar a matéria e deixar o editor de imagem cobrir, isso pra mim seria frustrante, embora muitos colegas façam isso, deixem por conta do editor de imagem. Eu gosto de ter essa participação com ele. O RJTV 2ª Edição, particularmente, é um jornal em que você entra às 13h, faz a reunião até 13h30, e aí você está numa montanha russa que você só termina às sete e meia da noite. Dependendo do dia, se você perder cinco minutos, pode comprometer o trabalho. Há uma intuição de administração do tempo. É incrível isso. Acho que todos os colegas têm. É como no futebol. Tem uns caras que são Maradonas, já outros são os caras guerreiros, talentosos, mas não brilhantes. Tem um outro que é quase só guerreiro, mas faz. É importante ali. Naquela montanha russa, se você bobear, você vai ser atropelado pelo tempo e não vai conseguir fazer o negócio, pelo menos benfeito. Pôr no ar acho que vai conseguir, tem até aquela máxima “matéria boa é matéria no ar”, mas acho que deve ser um pouco mais que isso. Vamos fazer, vamos nos divertir. O grande barato, para mim, pelo menos, é se divertir diariamente, apesar do inferno de estresse.

Fale um pouco sobre as suas coberturas. Você se lembra da sua primeira cobertura, quando já trabalhava com telejornal? Ficou estressado com o tempo?

Não esqueço o primeiro dia. O curso [da TV Manchete] foi muito legal. Foram seis aulas de edição, seis de reportagem e “pronto, vai trabalhar”. Só que na prática é diferente. Mesmo que tenha sido uma coisa prática, tenham sido aulas realmente de reportagem, aulas realmente de editar matérias, no primeiro dia em que fui trabalhar era diferente. Não era uma matéria com repórter, em que ele fosse gravar um texto e fechar junto contigo. Não tinha repórter para aquela matéria circunstancialmente. Eram oito discos sobre um bandido que tinha tentado fugir do presídio Frei Caneca, ele tentou fugir de helicóptero, deram um tiro nele, ele caiu. Eu nunca tinha feito uma nota coberta na minha vida. Nota coberta é quando o locutor chama a notícia, mas não tem repórter. Ele mesmo lê as informações. Tomei uma surra, foi terrível. Contei muito com a ajuda do editor de imagem. É outro ponto importante, e televisão tem demais disso. Editor, particularmente o repórter também, com o cinegrafista e o motorista, fazer bons relacionamentos, procurar realmente ver que todo mundo é igual, que está no mesmo barco, desde o faxineiro até o dono da empresa, unidos para fazer o negócio benfeito. Então, tratar os outros com respeito, ter jogo de cintura de não melindrar, não agredir. Felizmente, logo nesse primeiro dia, nem conhecia o rapaz, mas ele me ajudou imensamente. Orientou como deveria fazer a nota coberta. Ele mesmo gravou o texto para ir pondo as imagens em cima, no ritmo do apresentador, que ele conhecia. Mas foi tenso demais. Pensei em desistir naquele primeiro dia e na semana seguinte também, porque o editor-chefe lá não gostava de trabalhar com homens, toda a equipe era feminina. E eu caí lá de paraquedas. Ele ficou de implicância. É uma coisa que acontece muito na televisão. Ele teve implicância com milhões de pessoas. Fiquei quase com febre emocional por causa dessa situação. E a dificuldade, também. Eu tinha trabalhado na Petrobras, era tudo calmo, devagar, aquele ritmo de empresa estatal, fonte alternativa de energia, pesquisa. Então começou: “Matéria boa é matéria no ar, não importa, tem que pôr no ar”, “Se vira”. No início foi muito difícil. Foi um batismo de fogo, como eu acho que é para todo mundo.

Você trabalhou com assessoria de imprensa, também. Qual é a sua visão sobre as duas coisas?

É um trabalho relativamente menos criativo, o de assessoria de comunicação. Fui assessor da Riotur, estava precisando muito. Estava desempregado e fui para lá com vontade fazer. Foi bom porque tinha um jornal de divulgação da Riotur, semanal, de divulgação do turismo do Brasil no exterior. E o jornal estava emperrado, era aquela coisa minguada. Eu falei: “Vamos dar uma sacudida nisso?”. Foi divertido. O homem que na época era diretor da Riotur era um europeu, inclusive, mas via o potencial do Rio, então ele queria divulgar a cidade para o mundo. Achava que o Rio tinha condição de receber muito mais turistas. E isso me seduziu. Dei sorte nesse sentido, porque se fosse só aquela burocracia de ficar atendendo telefonema da TV Globo ou da TV Bandeirantes – “Como vai ser o carnaval? Já tem algum dado aí?”, esse tipo de coisa – seria muito maçante. E eu trabalhava só meio-expediente. Um acordo que eu fiz, pois queria voltar para a televisão, e logo voltei para a Rede TV. Trabalhava metade do dia na Riotur e metade lá. Foi bem diferente. Na própria televisão, o cargo de chefe de reportagem, em que eu trabalhei, é um cargo mais burocrático, ao mesmo tempo em que exige muitos recursos humanos. Você lida com as pessoas mais do que no dia a dia. O editor é do mesmo nível do editor de imagem, do produtor, do assistente, do cara que trabalha no arquivo ou na arte. Mas o chefe fica visado. Então foi muito gratificante, porque eu pude terminar o ano que eu passei na chefia. Eu tinha sido chefe de reportagem na CNT e tinha atuado como chefe da pauta na Record durante dois meses. Mas ali foi o tempo maior. Então foi muito gratificante ver o retorno das pessoas que foram subordinadas a mim, de a grande maioria ter falado “foi muito bom”. Mas não existe unanimidade. A partir do momento em que a pessoa é chefe, pode ser o mais perfeito do mundo, deve-se trabalhar certinho, com a melhor das intenções. Provavelmente devo ter dado alguns motivos para que algumas pessoas não tenham gostado, como felizmente a maioria gostou. Foi gratificante, porém teve esse senão. Valeu o aprendizado.

Fale um pouco sobre as grandes coberturas da história, da Globo e do Brasil. Você chegou a cobrir a abertura política do país, no pós-ditadura?

Sim, na Manchete, em 1987. Ainda não havia tido eleição para presidente da República e tudo era muito delicado. Para as matérias políticas, sempre tinha chefe nas ilhas orientando. Não que você não soubesse fazer, mas tinha que ter todo o cuidado do mundo para ser a linha que a empresa queria. Não podia dar impressão de que era uma empresa de esquerda, também não podia ser totalmente de direita. Tinha que encontrar um ponto intermediário. Houve uns episódios de censura: “Não, esse cara não vai falar”, “essa matéria vai terminar assim”, “vamos dar voz a esse cara para terminar”. Teve o episódio também da invasão da CSN em Volta Redonda, em que morreram três operários. A TV Manchete, com duas equipes lá, conseguiu imagens incríveis de violência, inclusive muito chocantes. Uma até sugeria assassinato. Eram quatro minutos de matéria. Seria o diferencial na cobertura do país inteiro. Mas então o José Sarney, que era o presidente e que está em evidência negativa agora, ligou para o Adolfo Bloch e falou: “Nada de imagem de Volta Redonda”. O editor-chefe ficou arrasado. Faltavam 10 minutos para o jornal entrar no ar. Ele peitou e falou: “Tudo bem, não vamos dar nenhuma imagem”. Falou isso para o Adolfo Bloch, mas deixou o texto inteiro. O locutor leu todos os offs que seriam cobertos por imagens. “As imagens que nós vemos...”. Ele falando isso e não tinha imagem nenhuma [risos]. Quiseram demitir o cara no dia seguinte. Não foi demitido, felizmente. Foi uma fase ainda delicada. Imagino que quem estava na televisão em 1983, 1984, 1985 tenha sentido isso de forma mais intensa do que eu senti, já no fim da década de 1980, às vésperas da eleição para presidente. Uma eleição que teve um episódio que, se o Lula tivesse chegado à Presidência naquela época, talvez tivesse desandado tudo. Seis meses antes da eleição do Collor, o Lula ainda não tinha a cancha dele e existiam já os olhos voltados, apavorados com a possibilidade de um cara de esquerda, vindo da classe popular, metalúrgico, sindicalista, chegar à Presidência. Carlos Chagas, comentarista da TVE, acho que ainda era TVE, escreveu um livro chamado Inferno no Planalto, dizendo como se daria a derrubada do Lula, seis meses antes da eleição. Ou seja, algo para assustar mesmo. Quem iria lá assustar ele, e dava nome aos bois, uma coisa incrível. Você vê que realmente foi uma fase tensa no país, que respingou nas redações.

E a fase Collor? A campanha e depois o impeachment?

Acho que a Manchete já estava naquela época de greves. Não acompanhei muito essa fase, não. Coberturas maiores foram Esportes, Olimpíadas, Copa do Mundo, mas sem viajar participando da grande estrutura. Além das eleições e carnavais, teve a [Conferência] Rio Eco-92. E houve as grandes coberturas, que são os factuais, como o avião da TAM que caiu. O Jornal da Globo, eu estava trabalhando lá na época, foi todo preparado para a cobertura do Pan-Americano realizado aqui no Rio. Em dez minutos, o editor-chefe mudou o panorama, ficou o jornal inteiro tratando do avião. Eram cinco blocos e só o bloco três falou sobre Pan. E algo que é importante falar, fundamental tanto para editor, quanto para repórter, produtor, todo mundo: ter familiaridade com os assuntos. Quanto mais você se interessar, ou, pelo menos, se informar, já que você vai ser jornalista, independentemente de o diploma ser agora necessário ou não, melhor. É você ler de ópera a rock’n’roll, passando por economia. Porque você não sabe o que o espera. Nem o repórter nem eu sabemos, chegando amanhã, qual vai ser a matéria. Pode haver hoje matéria sobre revitalização do Cais do Porto e amanhã ser sobre a menina morta pela mãe. Você deve acompanhar todos esses elementos factuais. Quanto mais se dominam esses assuntos, mais fácil será para contar a história. Tem-se o domínio da técnica e sabe-se o que falar. Infelizmente, não se domina tudo. Às vezes surge coisa de economia, direito ou algum tema de cultura do qual você não tem muito conhecimento. Você toma uma surra, de um modo geral. Tem que pôr a matéria no ar e vai para o ar, mas, se você tem domínio, certamente vai um produto melhor. Isso é um ponto. Outro é ter agilidade, não só de raciocínio, mas agilidade física mesmo. Acho que é um pré-requisito. Tem correr para lá e para cá. Você vê as pessoas alucinadas, correndo para lá e para cá, batendo recordes de subida de escada. Na Manchete era tudo tábua corrida, terminava a edição, jogava-se a fita, o outro apanhava e já colocava na máquina. É também agilidade de raciocínio e poder de decisão, porque ocorrem muitos imprevistos. Por mais que você se planeje, acontece uma reviravolta na história. Ou se descobre que uma coisa não era bem como tinham contado ou ocorre um problema técnico num off gravado pelo repórter e terá que ser feita uma nota coberta em dez minutos, ou a matéria caiu ou o repórter esqueceu de gravar um pedacinho que seria fundamental para encaixar uma sonora. Se puder ter calma e equilíbrio emocional, ajuda muito.

Sabemos como era feita a seleção do que entrava no jornal na época da ditadura. Como isso era feito na televisão? Como eram selecionadas as imagens que entrariam ou não no ar?

O pouco da ditadura que eu peguei já foi o final da década de 1980, ainda havia alguns respingos na linha política. Mas, de um modo geral, você sabe qual é a linha da empresa em que você trabalha. Então não vai cometer a gafe de colocar, por exemplo, o bispo Macedo que está passando na rua numa matéria da TV que é rival da Record. E, se tiver dúvidas, consulta a chefia. Sobre a época da ditadura eu já li muito, mas não acompanhei tão de perto. Hoje em dia a gente faz, de vez em quando, umas matérias mais políticas que envolvem o governo do estado ou a prefeitura, aquelas briguinhas de poder. Na própria reunião você recebe orientação: “Olha, o tratamento tem que ser esse, não pode enfocar dessa forma, não pode dar destaque demasiado para isso...”. Porque as emissoras são empresas, têm os interesses comerciais, têm as alianças com o governo, recebem verba do governo federal. Todas, de alguma forma, procuram aquela relação boa com os governantes, que também são anunciantes.

Isso o incomoda no seu trabalho, ou não?

Já me incomodou mais; hoje em dia eu confesso que não. Deveria incomodar. Eu participei de um debate na faculdade CCAA e falaram sobre isso, de o Sindicato dos Jornalistas não estar mais cobrando qualidade porque a TV é uma concessão pública a serviço da população. E você vê as televisões com programas supostamente de humor que passam mensagem de preconceito, vulgaridade. A própria Globo, que faz a campanha “A paz é a gente que faz”, todo sábado à noite passa filmes de psicopata, que são escolas de crime. Em se tratando do próprio jornalismo sensacionalista, por que não há uma interferência maior, por que é que o jornalista não se posiciona? Infelizmente a grande maioria dos colegas não tem grandes compromissos, está ali para ganhar o dinheiro deles e ir embora, não existe uma reflexão sobre o papel social do jornalista, sobre o nosso potencial de transformação. Na prática, a gente é atropelado pelo tempo, cada vez menor para suas responsabilidades, suas famílias etc. Eu, por exemplo, tenho projetos na área de cinema, estou escrevendo roteiro há anos. Tenho três filhos que estão se encaminhado. Então, agora é que estou conseguindo tempo. Ao me preocupar com esse tipo de motivação ética, eu procuro colocar o máximo de humanidade nas matérias. Pelo menos, quando você edita uma matéria de comportamento, arte, cultura, isso gratifica um pouco. Mas, no dia a dia, a minha sensação é de que quase tudo o que a gente faz é um pouco in loco, quase morre à toa. Porque você apresenta os problemas, como a poluição das lagoas de Jacarepaguá... desde que eu estou na Globo, fiz milhões de matérias, série inclusive, e está lá a mesma poluição. O emissário está lá, jogando esgoto para o mar, mas as lagoas estão mais poluídas que em 2005, 2006, quando foram feitas as matérias. Por outro lado, a Globo faz uma campanha muito grande da Lei Seca, e isso parece estar surtindo um pouco de efeito. É conscientização, mas muito mais intimidação. As matérias editorializadas são para assustar as pessoas mesmo: “Vai perder a carteira, vai ser preso, responder criminalmente”. E, às vezes, você bota até um pouquinho de tempero ali, porque há interesse da empresa de que haja isso. Em outros casos, por exemplo, como o dos rapazes que espancaram a empregada doméstica chamada por eles de prostituta, e estão presos, toda vez que a Justiça nega o recurso de algum, até no Jornal Nacional entra. É um exemplo para reprimir atos de outros jovens, que sempre estarão lembrando: “aqueles estão presos até hoje”. Valeria o mesmo para os políticos, por exemplo. Num ou noutro caso a Globo bateu em cima do cara, para sujá-lo bastante. O Brasil só vai melhorar quando tiver muita gente punida severamente, porque as pessoas vão ficar assustadas, já que não funciona por vontade própria.

Você disse que é importante estar preparado para qualquer tipo de informação. Como é que você se informa?

Mudou muito de quando a gente começou em jornalismo. Tinha os jornais, você sujava a mão naqueles jornais todos para se informar. Ligava de manhã o radinho e ouvia um resumo: O Globo no Ar, Sentinelas da Tupi. E tinham os telex na redação, em que saíam aqueles papeizinhos, e era ali que você ficava sabendo das novidades do mundo. Tinha a máquina de escrever gigante, em que você batia com carbono, e aí era cópia para todo mundo. O espelho do jornal, que é o roteiro que o editor-chefe faz, ele batia na hora numa folha em branco e tirava xerox. Hoje em dia não, você está na redação e todo mundo tem acesso ao sistema, já tem lá o espelho do jornal e você pode entrar lá, ver se a sua matéria é aquela, colocar na pasta e digitar. Você entra e tem lá as agências de notícias, tudo mastigadinho para você... Eu até leio jornal, mas não tanto como antigamente. Basicamente é isso, agência de notícias.

Hoje, se você tivesse que trocar de área dentro do jornalismo, qual mídia escolheria?

Tem programas que eu acho fascinantes: o Profissão Repórter, o Globo Repórter às vezes, algumas matérias do Fantástico. Mas, como o tempo é mínimo e eu tenho vontade de mudar de área, radicalmente, para o cinema, ainda tenho esse sonho, eu quero continuar ali por um tempo, fazendo o meu fast-food. Bato ponto e vou para casa. Eu não tenho vontade de mudar, de fazer programa hoje, porque absorve demais. Você leva o programa para casa, respira o programa por uma semana, ele faz quase parte da sua vida. Trabalhando com noticiário, você faz o jornal do dia ali e pronto, pode ir à praia de manhã, tomar uma cervejinha à noite, e amanhã tem outra guerra. Mas eu admiro muito, por exemplo, alguns episódios do Profissão Repórter que eu vi, quase todos, o nível é hors concours. Mas aí você pensa: “Já estão fazendo, não precisa se mobilizar”. Também alguns Globo Repórter e algumas matérias do Fantástico muito legais.

Em relação a suicídio, parece que vocês omitem...

Ah, sim, de um modo geral, a gente não dá notícia de suicídio. Até na Inglaterra, numa ponte famosa lá, eu li uma vez que, quando foi chegando perto do suicídio número 500, muita gente foi se suicidando, para chegar logo aos 500 suicídios. Então existe, realmente, esse cuidado ao falar de suicídio. É um crime de psicopata, mas o cara está lá, passivo, vivendo em casa, e vê: “Opa, que ideia boa, essa aí, acho que eu vou cometer um crime desse amanhã”. Acho que a notícia do suicídio, de alguma forma, age no psíquico, naquilo de a pessoa não se sentir tão só na intenção dela.

Você trabalha com o RJTV 2ª Edição, em que a maioria das matérias é policial. Como é lidar com tanta violência no dia a dia? Como fazer para humanizar mais as matérias?

Humanizar nessa área é difícil. Você vai descrever o que aconteceu e as pessoas vão ficar chocadas, vão ficar comovidas. Tem que mostrar o máximo de matérias de cunho social, projetos para combater a exclusão e diminuir a desigualdade social, o que eu acho que é o único remédio para tudo, no Rio de Janeiro em particular, que é uma cidade horrorosa nesse aspecto. O futuro não é muito animador. Você vê milhares de jovens por aí e até para trabalhar no tráfico já tem fila. Muitos nem conseguem trabalhar mais no tráfico. Não tem alternativa. Escolas ruins, muitos não têm família estruturada e vão procurar trabalho ali, no que está ao alcance. Só que já não está atendendo. O número de vagas é muito menor que a procura. Uma vez a gente conheceu lá na Rede TV uma moça da Suíça, jornalista, que falava que o noticiário de lá era quase todo internacional, porque nada acontecia nas cidades. Notícias assim, uma de violência por ano, briga de vizinho, atropelamento. Aqui domina mesmo. De vez em quando tem algumas edições que tem até algumas matérias culturais, mas a maioria são episódios ligados à violência. A matéria-prima é aquela. Você é um editor, e tem que trabalhar com as matérias escolhidas pela chefia para ir ao ar.

Na Suíça o índice de suicídio é maior também.

É, dizem que a Finlândia é campeoníssima. As pessoas são totalmente educadas. É um negócio solene, todo mundo respeitoso. Então, de repente, pode faltar esse lado latino, esse lado mais primitivo, ainda mais naquele frio de lá.

Fora as alianças políticas e comerciais da Globo, existe alguma linha que você segue, pessoalmente? Você pessoa, longe do editor?

O máximo que você vai conseguir fazer é usar a matéria-prima que tem na mão e dar o seu toque naquilo. Sua forma de editar, sua valorização, sua sensibilidade. Mas eu não sou muito otimista em relação ao poder do jornalismo transformador. Eu acho que transforma devagar, aos poucos. Como os seres humanos, de um modo geral, cada um tem seus desafios, dificuldades, limitações, então a gente luta para superar um defeito nosso. A sociedade é um pouco assim. Na década de 1960, se acreditava que era possível mudar o mundo em dez anos, e hoje estamos vendo que é gradual. Às vezes um filme ou um livro ou músicas têm o poder de mexer com as pessoas, sacudir mais do que esse jornalismo de todos os dias, aquela coisa repetitiva, “mais um caso de escândalo”. Então, parece que fica tudo meio anestesiado. Não quero parecer pessimista, mas acho que o caminho é a sociedade encampar mais a responsabilidade de criar instituições e cobrar uma política séria, com menos privilégios. População na rua, realmente marchando, e instituições que possam socorrer esses milhões de crianças e jovens que têm tudo para se tornarem inimigos da sociedade que é inimiga deles. Teve um episódio na época do João Hélio, que foi o caso que mais deixou as pessoas à flor da pele nas redações, em 20 anos, pelo menos na Globo. Eu tinha que escrever uma crônica para o Bom dia Brasil. Estou lá, praticamente acabei a crônica, e pára uma pessoa do meu lado, uma das pessoas mais prestigiadas do jornalismo brasileiro, com quem eu nem tinha muito contato na época. E aí: “Com licença, eu estava lendo o texto que você está escrevendo e gostei muito. Mas queria pedir um favor, para você trocar uma palavra aí”. E eu falei “pode falar, fique à vontade”. “Eu queria pedir para você tirar as palavras ‘os três rapazes’ e colocar ‘os três assassinos’”. Foram uns 20 minutos de discussão aprofundada, até que eu decidi: “eu vou falar rapazes”, porque na nossa sociedade seria muita covardia a gente ter a chance de falar “rapazes” e não falar. Por que os meus filhos estão em casa agora, provavelmente debaixo de uma coberta, no inverno, se alimentaram bem, vão para uma boa escola amanhã. Eles podiam estar lá no sinal jogando bolinha, se tivessem nascido em outro lugar. E o garotinho que está no sinal, se tivesse nascido na minha casa, poderia ser, provavelmente, um ótimo aluno, de um ótimo colégio do Rio de Janeiro. Tem primos meus que se envolveram com coisas erradas e tiveram todas as chances de serem resgatados pela família. Se envolveram com tráfico, foram presos. De repente se um desses jovens no assalto do João Hélio tivesse tido, na família dele, uma migalhazinha disso, ele se agarraria para ser uma pessoa realizada, plena, boa para a sociedade. Então, é muito cruel a gente querer dizer que eles são só marginais, só assassinos. Os políticos corruptos; então, não vamos mais chamar de deputados ou senadores, vamos falar “o corrupto Fulano de Tal”. Desse ponto de vista, eu não posso falar que são rapazes? Outro ponto é o de ter gente que fala que tem que haver pena de morte; eu sou radicalmente contra. Prisão perpétua, para alguns casos, sem direito a recurso, como as pessoas que entraram no ônibus, jogaram querosene e tocaram fogo com passageiros lá, eu acho que aí sim, é um caso extremo, e, para mim, é prisão perpétua. Mas, no caso do João Hélio, eu não daria a mesma pena. Porque os caras estavam no calor de um assalto – não estou justificando o assalto, mas eram jovens, quem sabe a história de cada um? Provavelmente com vidas difíceis, sem entrar na índole, mas, dos três, um poderia ser de boa índole e circunstancialmente estava envolvido. Como os meus primos, que hoje são pessoas bem-sucedidas e foram criminosos de classe média. Na fuga, as pessoas gritando, e eles iam parar? Poderiam ser linchados. São muitos elementos. Deixa o juiz resolver isso aí, a gente é que não pode ser juiz, ser maniqueísta, simplificar as coisas. Nós temos que procurar ter um olhar mais abrangente sobre tudo para fazer um jornalismo equilibrado e que possa ajudar a transformar a sociedade.

Você trabalhou na Record numa fase diferente da atual. Hoje em dia a emissora está crescendo. Quais as diferenças entre a Globo e a Record?

Vou confessar que aqui em casa a gente quase não vê televisão. Eu leio jornal em diagonal, vejo os jornais de rede, Jornal da Globo, Bom dia Brasil, Jornal Nacional mais em diagonal ainda. Em cinco, dez minutos, li o jornal inteiro. O RJTV obriga você a ler, pelo menos três, quatro vezes por semana, com minúcia, porque você será cobrado pelas minúcias. Até no processo de edição, de construção do texto. Então não posso dizer muito da Record. Eu sei que trabalhar lá foi muito bom no tempo em que eu trabalhei. E pessoas que estão lá hoje dizem que, com a ingerência maior, os pastores foram substituindo os jornalistas, que o negócio está uma pilha. Que, com essa gana de querer ganhar da Globo, o ambiente está muito ruim de trabalhar. Eu não vou dizer que é melhor, mas eu gosto mais de trabalhar num jornalismo mais sério, em que existe um rigor muito grande em termos da informação. Pode-se fazer todas as críticas à instituição Globo e aos interesses que ela tenha, mas o jornalismo ali, para quem trabalha, puxa você, para que você seja extremamente rigoroso na informação, no texto que escreve. Esse é um aspecto que eu acho muito bom. Em outras emissoras em que eu trabalhei não existia uma cobrança muito grande. Relaxavam um pouco, naturalmente. Ali você não pode relaxar nada. Além de ter uma abordagem que busca, realmente, ser isenta, ouvir os lados, há esse ponto do rigor.

No caso da queda do avião da Gol que se chocou com o Legacy, parece que houve uma rixa entre jornalistas e funcionários da Globo por causa do atraso na confirmação de que o avião havia caído...

Estava lá nesse dia e posso dizer que, realmente, não existia confirmação que pudesse bancar. Seria uma temeridade absurda. Seria dar a notícia errada. Centenas de famílias iam ficar em pânico total e poderia não haver a confirmação. Eu estava, no dia, fazendo o Jornal da Globo. Acompanhei o fechamento do Jornal Nacional, o “faz/não faz”, uma coisa estressante, corrida, para se ter a notícia e não conseguir. Acho que foi um precedente. A má fama faz com que as pessoas tenham um olhar direcionado à Globo.

Você pode contar algum caso que ache interessante?

Coisas interessantes como o teto que caiu na CNT e na Rede TV, felizmente à noite e não machucou ninguém. Quando eu trabalhava no Teleporto, na redação da Rede TV, havia vários buracos. Então, o diretor de Jornalismo levava tacos de golfe, para a gente ficar jogando golfe no domingo, lá, na Rede TV. Também, já na Torre do Rio Sul, o diretor de Jornalismo tinha um paraquedas no armário. Ele dizia que, se pegasse fogo ele ia [usar]. Falavam que não tinha manutenção lá, e depois teve mesmo umas coisas de incêndio e as pessoas entraram em pânico. Eu já não trabalhava, mas o 14º andar pegou fogo, faltou luz, foi uma gritaria doida. Teve um caso difícil, do Marcelo Yuka. Chegou a notícia chocante: “Aconteceu isso com o Marcelo Yuka, talvez ele fique paralítico. Ele teria socorrido a moça”. Eu trabalhava na Rede TV na época, e só a Rede TV fez entrevista com o produtor dele, que saiu do quarto antes de ele ser operado. E ele falou: “Não tem nada disso que estão falando aí, simplesmente ele tentou escapar dos caras”. A pressão muito grande que houve em São Paulo para que a gente desse a notícia glamurizando, botando ele como herói, e eu argumentando o tempo todo que o diferencial da gente era esse, a gente tinha uma coisa que ninguém tinha. Por mais romântico que fosse o outro lado, a gente tinha o cara dizendo que ele não foi o herói, ele tentou fugir simplesmente. A gente bancou isso, mas foi um pouco tenso. A invasão da Manchete, que foi muito marcante. A minha mulher estava junto. Depois, a gente foi para São Paulo tentar tirar a Manchete do ar, mas não conseguiu por causa da Rota [Rondas Extensivas Tobias Aguiar, força tática da Polícia Militar de São Paulo, usada para conter distúrbios]. Tinha policiais esperando a gente. E na TV Globo teve um cara que entrou com facas. Saiu no jornal, por isso pode contar. Carnaval, pouco segurança lá, ele conseguiu entrar. Teve tiroteio, gritaria, depois conseguiram pegar o cara lá dentro. Eu fiquei de perto acompanhando a negociação dele com os policiais até ele se render. Conseguiram imobilizá-lo, na verdade. Ele queria conversar com um diretor da empresa porque se sentia lesado por um parente que fez uma reportagem na Globo. Quer dizer, são coisas assim, é teto que cai, é cara que entra armado, ameaça de incêndio...

Só para ficar bem claro, você pode remontar o panorama da sua carreira?

De 1987 a 1993, TV Manchete. Fui editor de jornal local, editor de rede e chefe de reportagem de alguns programas. Depois trabalhei no Ibope, de 1993 a 1995. Em 1995, trabalhei na Bandeirantes alguns meses como editor. Depois fui pra CNT, em que eu fui editor, editorialista e chefe de reportagem. Então fui para o Hipermídia, como editor e roteirista e editor-chefe. Então para a Riotur, para ser assessor de comunicação. Depois Rede TV. Depois, houve a experiência malsucedida no Canal Futura como editor. Então, fui para TV Record. Lá estive como editor, produtor, pauteiro, chefe da pauta. Rede TV de novo, como editor e chefe de reportagem. E, por último, a TV Globo, na qual eu estou como editor e espero que me deixem quietinho lá.