SIDNEY REZENDE
ENTREVISTA

Realizada por: Juliana Xavier, Louise Palma, Marcelo Dantas e Rodrigo Lois

Data: 06/2009

Você é de Campo Grande, Mato Grosso do Sul. Como foi sua vinda para o Rio? Você veio com a família?

Eu sou caçula. Nós somos cinco. Minha mãe foi mãe de sete, mas dois morreram. Inclusive uma das minhas irmãs era gêmea. Ela sobreviveu, mas a irmãzinha dela não. E por ser caçula, eu tive o privilégio, vamos dizer assim, de ser paparicado pelos irmãos mais velhos e também fui poupado. Meu pai era muito austero, muito rigoroso e a educação que ele deu era naquele estilo antigo. Ele tinha uma máxima de que até 6 anos de idade a criança não apanhava, mas depois dos seis podia apanhar. Como minha mãe se separou quando eu tinha essa idade eu não apanhei do meu pai, então eu escapei. Os meus irmãos mais velhos, Nair e César, ambos vieram para o Rio de Janeiro estudar. Meu irmão César se formou em Administração e Direito. Não exerceu administração, mas se tornou advogado ilustre. A minha irmã Nair se formou em Economia. Só que, enquanto eles estavam estudando, ajudavam em casa. Meu irmão morava sozinho no Centro da cidade e a minha irmã morava em Bangu porque conseguiu um emprego como secretária da fábrica Bangu. Então, graças ao emprego de secretária, ela pôde sustentar os irmãos e a mãe que era recém-separada. A família veio de Mato Groso do Sul, Campo Grande, onde eu nasci, para cá, então foi uma vinda de muito sofrimento, muita dificuldade naquele início porque não tínhamos nada. Eu me lembro que o primeiro objeto eletrodoméstico que a minha irmã mais velha comprou foi uma geladeira alemã que ficou com a gente por muito tempo. Era muito dura para abrir, eu não conseguia abrir nunca, acho que só abri dez anos depois, mesmo assim a geladeira estava lá, inteiraça. Ela devia poluir muito, mas parecia ser de grande consistência.

Você veio com 6 anos para o Rio de Janeiro?

Seis para 7 anos. E aí lembro que frequentemente nós não tínhamos nada na geladeira, só água e mais nada. Era uma vida de muita luta. A minha irmã foi além de irmã mais velha, foi a chefe de família para nós todos. A minha mãe educava e a minha irmã era a provedora. Foi muito bonita a história dela e da família.

Como foi a escolha por jornalismo?

Ela se deu muitos anos mais tarde. Eu era diferente das pessoas que sonham em ser um profissional desde a infância. Eu não queria fazer jornalismo. Eu comecei a trabalhar com 13 anos de idade, como datilógrafo e depois numa gráfica na Rua do Senado. Eu datilografava numa revista maçônica, era datilógrafo desse conteúdo. Então, eu lembro até que tinha de mexer no que se chamava de carro da máquina para poder botar os três pontinhos, aquele símbolo maçônico, e me dava um trabalho para escrever. Mais tarde, eu me empreguei na corretora Marca, que se tornou distribuidora Marca e no futuro, quando eu já não estava mais lá, se transformou num banco. Nessa empresa, eu comecei como faturamento, chamava-se de faturamento um departamento de apoio da mesa de operações. Somente mais tarde eu pensei em fazer jornalismo porque, para falar a verdade, eu queria fazer cinema, ser diretor ou não fazer nada. Eu não queria fazer curso superior porque achava que era coisa de burguês e quem lutava contra a sociedade não podia fazer uma faculdade. Tinha uma música que Nara Leão cantava, na qual ela dizia “uma caixa, duas caixas, três caixas, dentro da caixa outras caixas, mais caixas” e é igual a uma família, toda arrumadinha, toda certinha, com pai com mãe com filhinho, tudo que mais tarde eu vim a realizar. Eu me casei, fiquei 23 anos casado, tive dois filhos, tinha uma família exatamente assim como a música condenava. E eu achava que era um bom caminho eu não ser um cara de família, queria ser um rebelde, um contestador, um intelectual. Eu queria fazer cinema porque mexia com ideias. Eu fiz um curso na Universidade Santa Úrsula e lá conheci uma freira chamada Maria Edna Brito, mas era uma freira de blue jeans e camisa normal, da igreja progressista, que não usava hábito. Nós nos tornamos muito amigos e, naquele mesmo dia, ela mudou minha vida porque ela me falou que eu era muito novo e tinha que fazer uma faculdade, que via que eu tinha aptidão e eu deveria fazer Comunicação e só depois eu deveria escolher o que fazer. Como só tinha cinema na Universidade Federal Fluminense e eu não tinha capacidade intelectual para passar para uma universidade pública, eu fiz vestibular passei para uma particular, depois passei para a PUC e eu pagava pelos meus estudos lá. Fiz Comunicação, mas em dado momento eu tinha que optar por publicidade ou jornalismo, logo um cara que queria ser revolucionário, rebelde, achava que faculdade era coisa de burguês, lutava contra a ditadura e era a favor da liberdade, não podia fazer publicidade, considerado o máximo e o cúmulo do capitalismo. Então, acabei optando por jornalismo.

Você trabalhava e estudava na PUC?

Eu trabalhava e estudava o dia inteiro. Eu chorava com muita frequência no trabalho de angústia por viver no mercado de capitais. Eu não queria fazer publicidade e trabalhava para uma empresa no mercado de capitais, mercado financeiro, onde eu não via perspectiva para mim. Até que eu me formei e comecei a trabalhar. Dois anos depois, eu não conseguia emprego e não podia largar o trabalho que tinha. Minha filha já era nascida e logo depois minha mulher engravidou do meu filho. Como eu ia largar meu salário fixo e certo para trabalhar em algum lugar que ninguém ia me aceitar? O mesmo drama de vocês era o meu. Diziam que eu não tinha experiência, eu não tinha como arriscar e não tinha amigos que me indicassem. Logo, eu ia procurar onde?

Qual foi seu primeiro emprego?

Esse emprego foi graças ao carinho de uma amiga de faculdade. Um ano atrás é que eu soube como tudo se deu. A professora da faculdade, Mônica Toscano, ofereceu para essa minha amiga, chamada Ana de Ava Câmara, a oportunidade para ela fazer um programa de meia hora – eram vinte minutos, mas com anúncios dava meia hora – na Rádio Roquette Pinto, uma rádio do estado, na época no governo anterior ao do (Leonel) Brizola. Essa professora indicou a Ana e ela chamou dois, três ou quatro amigos. Eu era um deles. O programa era voltado para o meio rural com música caipira e informação para o homem do campo. Então, falava-se de coisas como plantações, defensivos agrícolas, legislação favorável ao homem do campo e assim foi a minha primeira experiência. O programa acabou assim que o novo governo assumiu, mas o novo diretor tinha ouvido a programação inteira da rádio que ele ia dirigir. Dois ou três meses depois ele ligou para mim e para outras pessoas. Ele me disse que eu tinha jeito e perguntou se eu gostaria de continuar trabalhando com eles, e é claro que eu aceitei. Eu comecei como repórter na mesma rádio, em outro departamento, dessa vez na redação e não mais no programa, dedicado a cobertura dos assuntos do dia.

Na sua primeira experiência no rádio você trabalhava como apresentador ou pode fazer de tudo um pouco?

De tudo um pouco, porque era um programa de madrugada. Nós fazíamos tudo, era um programa quase estudantil. A Ava tinha a mesma experiência que eu e os demais também não tinham experiência de rádio. O que fizemos foi um laboratório, o que vocês fazem hoje na faculdade. Na época, não tinha estúdio na faculdade e nós aprendemos tudo lá na rádio, na prática. Depois, como repórter, tinha gente mais experiente que me orientava. Foi quando aconteceu um episódio que mudou minha carreira. Meses depois, como repórter da Roquette Pinto, o presidente Tancredo Neves vive aquele calvário que o levou à morte. Ele estava em Brasília e os médicos decidiram levá-lo ao Instituto do Coração em São Paulo, porque lá ele teria melhores condições de tratamento. A rádio decidiu que ia fazer a cobertura do que estava acontecendo em São Paulo e mandaria três repórteres. Quando se perguntou quem queria ir, fez-se um silêncio sepulcral na redação, eu levantei a mão, disse que queria, mas que eu não sabia fazer nada. Aí, eu fui junto com duas outras repórteres. Uma delas tornou-se muito minha amiga, a Inês Valadão. Ela até brinca que ela também não sabia nada, mas não tinha coragem de falar que não sabia. Eu não sabia nada e não tinha coragem de falar que não sabia. Então, nós dois nos tornamos muito amigos e unidos, até o dia que ganhamos confiança um no outro para a verdade. Mas a Marta Salomon, hoje repórter consagrada da Folha de S. Paulo, era a terceira, já com muita experiência por causa da experiência dela na Rádio Jornal do Brasil, pois, antes da Roquette Pinto, ela havia sido repórter da JB. Então, lógico, ela ficou com o horário VIP mais importante que era a manhã. A Inês ficou com a tarde e o início da noite e eu fiquei com a noite e parte do horário da madrugada. Fiquei com o pior horário que era, teoricamente, o menos ouvido. E depois, com o tempo, tudo se inverteu e eu fechei a minha participação, depois de 17 dias, já fazendo horário de manhã, alternando com a Salomon e com a Inês e recebendo muitos elogios ao telefone do operador, do diretor técnico, do chefe de jornalismo. Eu era muito agressivo como repórter, eu falava para as pessoas, para a própria Inês, “a minha mão vai aparecer hoje no Jornal Nacional segurando o gravador”. Então eu, muitas vezes, dei coisas antes dos outros, eu conhecia as pessoas pela fisionomia delas. Se o senador Severo Gomes aparecia para visitar o Tancredo, ninguém falava com ele porque ninguém sabia quem era ele. Então, ele entrava direto pelo portão e quando ele saía, eu falava “senador, eu sou repórter...”.

Você acha importante, para o repórter, a agressividade para entrevistar?

Para um jovem que não tem espaço só a agressividade é que te conduz a ter um lugar ao sol ou a chamar a atenção. Mas eu acho que a inteligência é mais salutar do que a agressividade pura e simples. Quando eu disse agressividade, eu disse no sentido de ousadia, de rompante, de você ir para frente, ser pró-ativo. Isso eu sempre tive na minha carreira e me ajudou naquele momento. E quando eu voltei aconteceu outra coisa curiosa. Os dois apresentadores, um está vivo, o Pery Cota, diretor da ABI (Associação Brasileira de Imprensa), e o outro era o Ricardo Bueno, já falecido, ambos se desentenderam. O Pery fazia comentários políticos e o Ricardo fazia comentários econômicos, mas essa química não funcionou. Então, o diretor geral novamente me estendeu a mão. Ele achou que era o momento de separar os dois, colocando um em cada programa. Ele me perguntou se eu gostaria, sem deixar de ser repórter, de também dividir a bancada com um dos dois colegas e eu dividi com o Ricardo Bueno. E depois, mais tarde, com outro colega, chamado Luiz Queiroz, eu tive uma grande oportunidade. Foi a primeira vez que eu comecei a apresentar e, mais tarde, eu me tornei âncora por conta dessa oportunidade.

E você tem outra cobertura importante como repórter?

Essa do Tancredo Neves eu acho que foi a mais importante. Depois eu cobri a deposição do Collor, o caso Daniela Perez, eu fiz coberturas pelo interior do Brasil e do Rio, de eleições. Depois, eu fiz uma cobertura da Amazônia, que foi muito transformadora, e outras muitas experiências. Todas elas são muito somatórias.

Como apresentador, você teve no Jornal do Rio a oportunidade de ser mediador de um debate entre candidatos ao governo. Eu queria que você falasse sobre essa experiência porque é uma situação um tanto quanto delicada.

Eu já fiz coberturas na TV Bandeirantes, no Jornal do Rio, na Rádio Jornal do Brasil, na CBN. Em vários lugares em que eu trabalhei, eu tive essa oportunidade de entrevistar candidatos a prefeito, a presidente da República, ao governo do estado e é sempre interessante. Essa, a que você talvez esteja se referindo, foi muito marcante porque à minha direita estava o Brizola, à minha esquerda, o (Paulo) Maluf, na minha frente o Affonso Camargo, que era senador na época. Eu lembro que havia uma regra, como todo debate tem, e essa regra tem que ser sempre cumprida. Só que o Brizola e o Maluf queriam a todo tempo quebrar essa regra porque os dois gostavam de falar muito. Então, quando você diz, “Você tem dois minutos”, e o cara gosta de falar 15, ele quer que a regra seja quebrada. Mas, normalmente, quem quer quebrar a regra em um debate, quer em seu benefício, mas não quer em benefício do seu adversário. Então ambos ficavam no meu ouvido, pareciam diabinhos, me alertando sobre o tempo do adversário. Foi muito interessante porque eu aprendi uma coisa ali que serve para a vida. Graças a Deus deu certo, mas eu quebrei a regra e permiti que fosse um debate mais informal. Para o ouvinte foi melhor, o debate foi bem conduzido no sentido que eles se comportaram, mas poderia ter dado tudo errado. O Carlos Brickman, jornalista e assessor do Maluf, falou que ali eu tinha perdido o controle ao permitir aquilo. Jamais um mediador deve permitir isso, porque os candidatos aceitaram a regra anteriormente. Quando você muda a regra, tem o risco de o debate não transcorrer com tranquilidade. Ainda mais em um debate eleitoral, em que cada um quer interromper o outro. Vira bagunça. Foi um erro meu, mas deu certo.

Voltando um pouco no tempo, na época em que você se formou, como era o mercado de trabalho? Você acha que era muito mais complicado que hoje em dia?

Eu acho que é igualmente complicado, só que hoje se tem mais opções. Hoje você pode trabalhar dentro ou fora da redação, pode trabalhar na web, em uma assessoria de imprensa, em rádio, TV, jornal, outdoor, cinema ou outros lugares. Antigamente não tinha nada disso. Não tinha essa plataforma de trabalho. Tanto é que não tinha estágio nem trainee. Só mais tarde veio acontecer isso. E a profissão não era tão procurada quanto hoje. Hoje, fazer Comunicação é tão difícil quanto fazer Medicina ou Engenharia. Na época não era assim. Na época, quase 100% das mulheres preferiam Psicologia e Letras, coisas ligadas à reflexão, ao conhecimento da linguagem. Homem, obviamente, não fazia isso e quando fazia, era um cara malvisto sob ponto de vista da sexualidade dele. Isso mudou, ainda bem, para melhor. E, por outro lado, Comunicação era um curso para quem não conseguiu passar para Engenharia, Direito, Administração ou Medicina. Então, eu era um pária nesse aspecto porque eu estava em uma profissão que não se via como profissão de futuro naquele momento. Hoje Comunicação é tudo, mas não era. Um detalhe curioso: a minha mãe queria que eu fosse ator. Uma mulher desquitada, pobre, nordestina, nasceu em Caricó, uma mulher guerreira, semianalfabeta. Ela alfabetizou meus irmãos e eu, todos nós temos educação superior, vivemos do nosso salário e de nossos ganhos, uma família muito bonita, sem vícios, como minha mãe diz. Ela nos vigiava muito, para que nós não fumássemos, não nos aproximássemos de quem consumia drogas, não bebêssemos. Era da escola para casa. Eu lembro que uma vez eu matei aula com um colega e fiquei andando, mas eu matei aula porque eu não sabia a matéria e ele matou porque era mesmo matão de aula. E essa companhia era perfeita para quem não queria fazer nada. Minha mãe usa até hoje uma expressão: “Você ficou bandoleirando na rua”. E eu apanhei muito da minha mãe, que nunca me bateu, naquele afã de educar o filho. E educou. E ela queria que eu fosse ator de teatro ou de cinema e eu, por isso, depois quis ser diretor de cinema. Não fui uma coisa nem outra.

E hoje em dia ela é satisfeitíssima com a sua escolha?

Com certeza, toda mãe é muito coruja com os filhos, não só comigo, com os outros também. Mas eu sou o caçula e temporão. Minha mãe não imaginava que fosse ser mãe novamente, a diferença de idade é grande entre eu e minha irmã. A minha irmã, minha melhor amiga hoje, diz que me beliscava muito quando eu era bebê, enciumada porque ela era a caçula e perdeu essa condição quando chegou outro, gordinho, cabeçudo... (risos).

Como era a redação quando você começou a trabalhar?

Era muito menos equipada do que hoje. O máximo que nos tínhamos de tecnologia eram máquinas Olivetti ou Remington, de datilografia. Quando, mais tarde, se teve a possibilidade de ter uma máquina elétrica da IBM foi uma revolução. Quando a IBM lançou a máquina elétrica com esfera, que era muito mais veloz, foi outra revolução. Quando, um pouco mais adiante, foi ter um corretivo na própria máquina, ou liquid paper, melhor ainda. Porque as secretárias da época e as pessoas como eu que trabalhavam em datilografia, quando errávamos, jogávamos o papel fora. Nenhum respeito à natureza. E batia tudo novamente. Uma secretária era avaliada conforme a precisão com que ela datilografava um texto sem errar. Você imagina que tortura não deveria ser. Vocês já repararam quantas vezes corrigem no Word, voltam, acertam e ainda mandam errado? Imagina sem esse recurso de não poder errar. Era horrível.

Vamos voltar um pouco para o rádio. Como foi a mudança de repórter para apresentador de rádio?

Eu fiz, durante muitos anos, a mesma coisa. Não foi uma mudança incrível, foi uma coisa mais ou menos tranqüila. E como nos estávamos construindo uma linguagem, que hoje é disseminada, mas na época não se tinha muita ideia, não se falava a palavra ancor man, a palavra âncora, não se falava nada disso. Era até uma palavra meio ridicularizada. “Ele é âncora. Está no navio e vai afundar”. Não era uma coisa incorporada. E nós éramos os apresentadores, éramos jornalistas, o que era outra coisa inusitada porque na época você tinha locutores. Um jornalista apresentando era uma coisa malvista. Os locutores diziam: “O cara não tem voz, não tem capacidade”. E realmente eu sou da primeira geração do rádio em que a voz não era tão importante. A minha voz não é bonita, não tem nada especial. E na época os locutores eram o Joaquim Araújo, o (Sérgio) Chapellin, o Cid Moreira, o Leo Batista, o Majestade, todos com potência na voz, e eu não tinha nada disso e não tenho até hoje.

No programa Encontro com a Imprensa, que você tinha na Rádio Jornal do Brasil, que figuras, políticas ou personalidades, você entrevistou e gostaria de destacar?

Eu entrevistei naquele período, foram cinco anos na Rádio Jornal do Brasil, as maiores personalidades do Brasil. Quem você imaginar, eu entrevistei e tive contatos pessoais. Eu recebia os convidados, entrevistava-os e depois almoçava com eles. Então, eu ficava duas, três, quatro horas com o entrevistado. Os vultos mais marcantes da História brasileira daquele período eu entrevistei e conversei com eles pessoalmente. Pude perguntar a eles coisas que, talvez em uma entrevista, eu não perguntasse. Por exemplo, o Luis Carlos Prestes. Ele é uma figura que está na História do Brasil, um comunista histórico, um homem idealista, que viveu pontuando a História política brasileira. Eu perguntei a ele como era possível Getúlio ter permitido Olga Benário ser morta pelos nazistas e ele, depois, ter feito um acordo com Getúlio. Ele me contou como eram os dias no cárcere, na prisão. Ele dizia que todos os dias ele vestia um terno pela manhã, às 8h, passava o dia inteiro de terno, lendo, escrevendo, fazendo qualquer atividade ou nada, sentado na cama, até o final do dia, quando ele tirava o terno e o guardava. Vestia o pijama ou a roupa da prisão, dormia e repetia isso no dia seguinte. Eu perguntei por que e ele disse que era para não enlouquecer, para não perder o rumo. Um sujeito altamente disciplinado. E eu acompanhei os últimos anos do Prestes. Como eu o entrevistava com regularidade, nós tivemos três grandes encontros. Eu me lembro que fui acompanhando ele definhando, como todo ser humano, ficando velhinho, mais magro, os ossos mais pronunciados. Então foi incrível. Eu entrevistei o Aurélio Buarque de Holanda. Hoje vocês usam menos, mas teve uma época em que o dicionário do Aurélio, o pai dos burros, era a referência. Você imagina entrevistar o cara que era o criador do dicionário mais importante do Brasil. Entrevistei ele e Antônio Houaiss, que fez o segundo dicionário mais lido e a que até hoje se recorre muito, é muito utilizado. Eu tive dois dicionaristas. Entrevistei o Collor quando era governador de Alagoas e ninguém sabia quem ele era. A primeira entrevista do Collor, Cláudio Roberto já comentou isso, era o assessor de imprensa dele, a primeira entrevista do Collor foi feita por mim. No Brasil inteiro ninguém sabia quem era o Collor e eu já tinha feito duas entrevistas longas com o Collor, com mais de uma hora e meia, antes de a Veja fazer a capa O Caçador de Marajás. A Veja fez aquela capa se baseando na grande receptividade que o Collor teve depois da entrevista que ele deu para mim na rádio. A entrevista causou impacto muito grande, porque o Collor falava coisas que a sociedade deseja, como combater a corrupção, caçar os marajás, cortar os privilégios, fazer um Brasil mais moderno. Se você voltar a falar isso, é um discurso que tem apelo. Você imagina na década de 1980, em 1988, 1989, alguém falar isso. Então, assim aconteceu com artistas, Fernanda Montenegro, Paulo Autran, vários ícones da cultura, do cinema, (Arnaldo) Jabor, vários diretores de cinema...

Por que você saiu da Rádio JB?

Eu saí pelas mesmas razões que muitas vezes me atentam a minha alma e a minha mente. Quando eu acho que o trabalho está realizado, há uma inquietação intelectual minha, no sentido de criar uma coisa que não tenha sido criada ainda. E eu propus à Rádio Jornal do Brasil uma mudança editorial. Toda vez que eu proponho uma mudança, eu rodo. Ninguém aceita. Normalmente, eu sou demitido ou me esfriam, botam na geladeira, ou não sei qual razão, deixam de gostar de mim. Se eu proponho uma mudança, ninguém passa a gostar mais. Então, eu propus um projeto escrito, para aumentar a quantidade de informação e equilibrar com a música. Não era um all news. Muita gente até escreve, tem estudiosos que publicaram em livros que eu teria proposto o primeiro all news, mas não é verdade. Não se deu ali, se deu depois. Ali eu propus fazer uma mudança editorial. A JB não quis. A minha tese é a seguinte, se eu não sou querido em um lugar ou se a minha ideia não é aceita ou se eu não viabilizar aquilo e eu acho que tem que viabilizar, então que eu procure outro lugar, que eu não fique praguejando onde eu estou. Eu queria fazer uma rádio limpa assim, eu queria fazer uma rádio que tivesse só música, porque se poderia botar a sua programação jornalística de uma outra forma. Mas até agora, curiosamente, independentemente de estar fornecendo conteúdo para eles, é curioso ter uma rádio musical. Mas, voltando, propus, não fui aceito. Daí procurei a Alvorada, onde o cara disse: “Olha, a tua idéia é muito bacana, legal e tal, eu sou um gestor aqui, sou só um gerente, a rádio pertence ao Banco Real, o dono da rádio fica em Minas, e vou propor e tal, te procuro depois”. Não me lembro mais do nome dele, ele foi muito correto comigo, mas não fez. Aí eu voltei para a redação, assim, desiludido, achando que não ia conseguir viabilizar. Certo dia, menos de um mês depois desse fracasso, não consegui implantar tanto na JB quanto na Alvorada, um locutor passa por mim, bota a mão no meu ombro e diz: “Poxa, eu trabalho na Rádio Panorama, lá em Nilópolis, e o dono da rádio adora você, te ouve todo dia, já elogiou você para ‘caramba’, falou que quer te conhecer”. Aí eu falei: “Mas Panorama? Eu nem conhecia a rádio”. A rádio era contemporânea adulta, com música de alta qualidade e o som fantástico, que era 90.3, mesma freqüência da MPB. E aí eu fui conhecê-lo, falei por telefone, disse que tinha umas ideias para fazer. Ele disse: “Traz para a gente ver, vamos bater um papo, vamos conversar”. Então, eu fui a Nilópolis, propus e ele fechou na hora. Era o Panorama Brasil, primeiro programa de jornalismo na FM brasileira. Porque tudo era na AM, e não na FM, que se dizia que era só para ouvir música. Ninguém fala em FM. Para falar, era AM; para ouvir música de qualidade, FM. Nós quebramos esse paradigma e quando ele aceitou, eu pedi demissão da JB. Era o maior salário da Jornal do Brasil, eu era a maior estrela que a rádio tinha. Era um emprego e tanto, e eu joguei tudo para o alto e fui para a Panorama.

Como era a cobertura jornalística na Panorama Brasil?

Era incrível. Era uma experiência para a qual eu convido vocês... Em maio do ano quem, vai completar 20 anos daquela nossa experiência e está sendo feito um documentário agora e eu tenho muita curiosidade porque se passaram 20 anos. A intenção do diretor e a minha é somente eu falar no final de tudo, sem ouvir o que eles estão falando. É para que eu não influencie, para não se falar: “Ah, o Sidney disse que...”. Não. Isso é de cada um. Mas foi da seguinte forma: a gente dividiu em três editorias, política, economia e cultura. Cada editoria tinha o editor responsável, tudo de forma colegiada. Era incrível. Nós fizemos as maiores revoluções do rádio naquela época. O que o Pânico faz hoje na Jovem Pan, nós já fazíamos há 20 anos. Entrevistamos, por exemplo, o Eduardo Dusek preso no banheiro do Teatro Ipanema, quase na hora do show, ele tendo que sair e gritando: “Tenho que ir embora, tenho que sair daqui”. Eu me lembro até hoje. Eu assisti à peça Sassaricando e ele fez uma homenagem muito bonita ao final e eu fiquei muito emocionado. Porque ele lembrou isso. Ricardo Bueno e eu fizemos essa entrevista. Eu entrevistei Cássia Eller dentro de um motel, de um quarto, nós dois no quarto. Para o ouvinte, uma entrevista muito inquietante, muito esquisita, sensual, ninguém sabe direito o que aconteceu. E a Cássia Eller era uma jovem cantora. Agora você veja a inocência das coisas, ela chegando ao Rio, se estabelecendo, e eu dou muitos conselhos a ela. Você imagina eu dando conselhos para Cássia Eller. Ela já devia ali ter muito quilometro rodado de experiência, 50 mil vezes mais do que eu. E eu dando conselho. “Olha, aqui no Rio, esse negócio todo”, e ela muito humilde. Pode ser que, por dentro, ela estivesse com os dois pés para o alto e as duas mãos lá para o céu rindo de mim. Pode ser. Como pode ser que ela estivesse pensando: “Ah, legal esse cara dando esses conselhos pra mim”. E eu nunca podia imaginar que um dia Cássia Eller se transformaria num ícone da música. Então coisas dessa ordem, fora os quadros, externas. Nós pegávamos o gravador e fazíamos coisas realmente incríveis. Na cultura, nós tocávamos músicas que eram sucessos em Angola ou no Haiti, coisas assim, totalmente fora do esquadro. Quem ouviu, guarda de recordação. Muitas vezes tem um ouvinte que manda mensagens desse momento tão luminoso do rádio, tão diferente, alternativo.

Como foi a recepção do público? Ele automaticamente aderiu, estranhou?

Sucesso retumbante. Sucesso. Para você ter uma idéia, no primeiro mês, nós tínhamos mais audiência que a Rádio Jornal do Brasil FM, mais que a Globo FM, que eram concorrentes no espaço. Era um sucesso. Segundo mês também, terceiro mês também. Foi um ano de sucesso total. Patrocínio nós é que conseguimos. Embora tenha uma coisa curiosa. Eu somente fechei também lá, porque o próprio Eric falou que ia vender para a Insulfilm e vendeu o programa. Eu consegui também um patrocínio pequeno. Nós então começamos com esses dois patrocinadores. No primeiro mês, a Insulfilm teve seu anuncio lá, só que não pagou. Eu já tinha levado metade da redação da Jornal do Brasil. Nós tínhamos umas quinze pessoas trabalhando no projeto, todos com salário, e nós não tínhamos dinheiro para pagar. Aí todas as pessoas foram muito aguerridas, muito honestas. Todas tinham recebido ou fundo de garantia ou uma reserva. As pessoas se bancaram. Daí o Nicolau Magalin foi arrumar uns dois clientes, Marco Antonio arrumou mais dois, eu arrumei uns três... Tudo nesse processo de colegiado. Só o arroubo da juventude, com a honestidade e o propósito do grupo e muita coragem para a gente fazer um negócio desse. Só com pouca idade a gente é capaz de fazer uma ousadia dessa. E um ano depois, já era um sucesso, muito grande. Era uma alternativa do rádio, marcou história. Durante muitos anos, eu diria que o ápice da minha criação foi o Panorama Brasil. Hoje digo que é o site, mais do que todos. Mas até pouco tempo era o Panorama Brasil. Um ano depois, o diretor da rádio, instigado por um diretor de programação, que depois pediu desculpas para mim, foi muito bonito isso, anos depois, porque ele não entendia aquilo. Aquilo o que nós estávamos fazendo era uma semente do all news que é hoje. Nós fizemos isso muito tempo antes. E ele dizia para o diretor da rádio: ou uma rádio tem notícia e tal, esporte, ou tem música. Ela não pode ter as duas coisas. Ele não entendia que podia ter as duas coisas. E aí ele foi detonando. Então, era assim, a audiência bateu mês passado. “Ah, mas não é só a audiência que vale. O que vale são os anunciantes”. Mas nós tínhamos dois, três bancos diferentes anunciando. “Ah, mas é uma mídia política. Eles conseguiram porque o deputado ajudou, porque é alguém amigo do diretor, isso não sustenta, não é uma coisa de mercado”. Embora nós tivéssemos anunciantes de agência. Então, ficou um jeito de a rádio se convencer de pronto. “Vamos fechar anunciando mesmo, vamos prosseguir”, mas não. Coincidentemente, eu estava no Clube de Engenharia, e fui abordado pelo José Roberto Marinho, que era integrante de um movimento que ele tinha criado, chamado Frente Rio, criado para o Clube de Engenharia, em que a sociedade, várias entidades, se uniram em favor do Rio. Tem vários eventos assim. Depois, o Viva Rio fez isso. Sempre tem alguma entidade que se une em favor do Rio. Nós fizemos isso também lá. Aí ele me abordou e disse: “Vem cá, você não é aquele Sidney Rezende do Encontro com a Imprensa, do Panorama Brasil? Você não quer trabalhar com a gente, não? Estou com umas ideias de fazer um projeto, vamos bater um papo”. Já tinha terminado meu contrato. Eu ainda estava na rádio. Eu fui lá conversar com ele e eu disse: “Só tem um problema, se eu viesse trabalhar aqui, tem os meus companheiros”. Nós pensamos alguns companheiros, outros não quiseram ir, porque já tinham suas empresas, assessor de imprensa, trabalho em outro lugar... Então, eu quis vir para a TV Globo, e esse projeto era a CBN. Eu fui o segundo contratado, o primeiro foi o Jorge Guilherme, que era diretor da rádio. Eu fui convidado como editor executivo, eu era o número dois. Quando comecei, era apresentador e editor da rádio inteira, até que eu fui demitido desta função, porque nós fazíamos tudo tão planejado e o Jorge realizava sem planejamento. Essa era a nossa diferença. O programa que eu apresentei de manhã, o Jornal da CBN, que está aí até hoje, quando nós o criamos, ficamos um mês ensaiando e, quando foi ao ar, deu tudo certo. Os próximos programas eram assim, o Jorge virava e dizia: “Ah, então você vai fazer”, e botava a pessoa sem ensaiar nada. Era um desastre no ar porque não tinha produção, não tinha conteúdo. Daí ficava assim, uma rádio toda organizadinha até o nosso horário, e depois outra rádio, se não for indelicado dizer, desorganizada, organizada de outra forma. Ficava esquisito para o ouvinte. Nos éramos egressos da Jornal do Brasil, da Panorama, com um estilo elaborado, e o resto da programação tinha a ver com rádio popular. Esse conflitos, mais tarde, seriam resolvidos por outros diretores. Um dia eu cheguei lá, com essa minha discordância, e o Jorge virou-se e disse, com tom elevado, que então eu não era mais o editor, passaria apenas a apresentar o programa. O Élton Barreira era contra existir a CBN, queria que permanecesse o nome Excelsior em São Paulo e Eldorado aqui. A tese dele era de que os nomes já estavam fixados na cabeça do ouvinte, mudar os nomes não seria bom e tal. Eu fui a São Paulo, ainda como editor responsável pela rádio, designado a fazer voltar à antiga nomenclatura. Depois, com Zélder Marinho, mesmo que Élton não quisesse o nome CBN, ficou sendo assim.

E como foi o processo de criação das grades de programação, slogans?

A grade foi criada por mim, pelo Marco Antônio Monteiro, que era meu companheiro na Panorama e que eu levei para a rádio, e pelo Ramiro Alves, que era do jornal O Globo, mais tarde editor da IstoÉ e hoje assessor do ministro Guido Mantega. Éramos todos amigos. Sentamos e montamos a grade de programação. O nome da rádio ninguém sabe quem deu até hoje e o slogan foi criado por uma agência de publicidade. Então “a rádio que toca notícia” é criação de uma agência de publicidade.

E o que quer dizer a sigla CBN?

Central Brasileira de Notícias. Mas ninguém sabe quem deu esse nome. Pode ter sido o Jorge Guilherme, que era diretor e ia às reuniões. Eu era executivo, sempre fui um homem operacional. Eu prefiro ser um homem de operações, um cara que pode fazer, que pode realizar. É do que eu mais gosto, poder realizar. Mesmo que no nosso site eu seja um gestor, eu dirijo o site junto com meu filho, Francisco Rezende, eu estou sempre operando, sempre trabalhando, experimentando muito, editando. Eu não sou um gestor clássico, um administrador.

Como você avalia o jornalismo na CBN?

Prefiro não fazer uma análise assim até porque isso demandaria a necessidade de outro encontro nosso, na medida em que eu fiquei 17 anos. Nós tivemos vários momentos, com vários diretores, vários editores-chefes, com várias linhas de condução. Eu trabalhei no Rio e em Brasília, então eu seria injusto em fazer uma análise do trabalho aqui do Rio quando estava lá em Brasília. Eu acho que a CBN é uma rádio consolidada, que faz parte da história do rádio, uma rádio muito ouvida, que possui respeito e credibilidade. Acho que os erros e os acertos de sua história só contribuíram para ser, hoje, a rádio que ela é. Obviamente, cada um de nós, que somos inteligentes e profissionais, temos nossas visões do que poderia ser dessa forma ou daquela outra e tal. Acontece que eu fui demitido da rádio no dia 24 de outubro do ano passado, lembrei-me do Steve Jobs, que foi demitido da empresa que ele criou, a Apple, e depois voltou. Minha saída não me surpreendeu, nesse aspecto, porque é muito comum que os criadores, quem participa do processo inicial de alguma coisa, sejam enxotados depois. Se você pegar todas as grandes revoluções do mundo, culturais, políticas, sociais, os que chegaram primeiro, os que realizaram a revolução, são, depois, dizimados pelo grupo que passa a assumir. Os revolucionários russos, por exemplo, logo depois foram perseguidos por Stalin, o cara que, para implantar a revolução, precisou fazer mudanças, realizando, inclusive, ataques físicos aos seus opositores. O próprio Steve Jobs, que criou a Apple e depois foi enxotado, mais tarde voltou e fez um trabalho ainda melhor na empresa. Então, toda revolução, toda mudança, toda alternativa dada e que se chama de novo, logo depois é absorvida pelo sistema, e seus criadores têm que ir para fora porque eles sabem muito e isso já não interessa mais. O ser humano não tem a humildade de compreender e respeitar a mente humana do outro, você tem que, pelo poder, pisar no outro para ter mais poder. Como é que você vai fazer com o criador? Você pisa no criador porque, você pisando, quem vai passar a ser o criador é você, desde que você crie também.

Você falou de Brasília. Quanto tempo você passou lá?

Dois anos e meio. Eu fui implantar a programação da parte da tarde, apresentar o Show da Notícia. A rádio tinha só a parte da manhã, de tarde era música. Foi nessa época, em 1994 ou 1995, que a rádio de lá passou a transmitir 24 horas de notícia. Vinte e quatro horas em termos, porque tinha muita coisa repetida, muita gente até brinca que a CBN é a rádio “que repete a notícia”. Mas isso é uma coisa defendida pela direção da rádio, não por mim.

Você disse que, toda vez que tentava algo novo, você era demitido. Você diria que, dessa vez, sua demissão teve a ver com isso?

Eu não diria isso não. Fiz aqui uma brincadeira com vocês não totalmente correta, até porque eu não fui demitido muitas vezes na vida, só duas. Toda semana eu tenho que dar explicações, duas, três, quatro vezes, do porquê de ter sido demitido, quando eu sou a vítima da demissão. Ou seja, quem demitiu não tem que explicar. Então, eu tenho me baseado no seguinte, eu fui demitido pela Marisa Tavares, que é diretora, e ela deu uma entrevista no Comunique-se, que está na web, dando suas respectivas razões, que foram as mesmas que eu usei na minha carta discutida, que está no meu blog. O que me foi dito, naquele dia, menos de duas horas depois, eu já havia tornado público para os meus leitores, ouvintes e amigos lá no blog. O que ela entendeu como razões para demissão, ela deu na entrevista à mídia em geral, também está na web. Eu sempre convido as pessoas a lerem na web as razões dela, que ela mesma disse, para tirarem suas próprias conclusões. Se foi por aquilo mesmo que ela me demitiu, tudo certo, se foi por alguma razão oculta, é oculto, eu não sei.

Você, até aqui, falou bastante da sua trajetória no rádio. E nos outros meios, como foi a sua passagem, por exemplo, na Tribuna da Imprensa?

Eu fui repórter de jornal, repórter, âncora de televisão. Hoje sou apresentador também. Foi incrível. Na Tribuna, foi uma experiência muito bonita. Lembro uma vez em que recebi até um elogio de um colega que hoje é colunista, mas na época não era, o Ancelmo Góis. Mas eu não era um bom repórter de jornal nem sou um bom profissional de televisão. Eu diria que, nesse sentido, minha demissão da CBN me ajudou a me localizar em relação a mim mesmo. Porque durante todo esse período eu sempre me identifiquei com o rádio, mesmo trabalhando em televisão, em jornal ou escrevendo livro. As pessoas já falam “ah, escritor”, mas não o sou porque não tenho essa capacidade, da mesma maneira que não sou um bom profissional de televisão ou de jornal. No entanto, estou me achando, em todos os sentidos, na internet, tanto como profissional de uma mídia nova como nessa grande ascendente que é a internet, possibilitadora de um grande público leitor. Estou empolgado, vamos dizer assim.

Que diferença você vê entre ser repórter de rádio e de jornal?

Eu respeito demais o repórter de jornal porque é alguém que precisa saber apurar muito bem. A apuração de jornal exige que você levante todos os dados, visões e informações possíveis do fato porque, quando você estiver na redação escrevendo sua reportagem, mesmo no seu laptop no local, você não vai poder mais contar com aquela informação. Enquanto no rádio, você pega um gravador, como esse seu sobre a mesa, faz a pergunta, leva, copia a frase, decupa e escolhe a frase que você quer. Diferentemente do jornal, que você precisa reproduzir tudo aquilo colhido e só as aspas não resolvem, você tem que ter o fato completo. Portanto, eu respeito demais a apuração, a apuração é tudo e o repórter de jornal apura muito melhor do que qualquer outro repórter de outras mídias.

Você lembra alguma matéria sua de destaque na Tribuna?

Essa que o Ancelmo Góis elogiou: eu peguei um secretário de governo do Saturnino Braga (eleito prefeito do município do Rio de Janeiro em 1985 pelo Partido Democrático Trabalhista) e fiz um perfil de uma página. Era o perfil do professor Uchoa, um cara assim, na sombra, na época se falava muito assim “presidente Geisel tem uma sombra”, que era o Golbery do Couto e Silva, “o Collor tem uma sombra”, que era o PC Farias. Quem é esse mentor que fica detrás da autoridade? Quem é esse intelectual? Daí eu fiz esse perfil, do qual me orgulho muito de ter feito e está nos meus arquivos e tal. No mais era cobertura cotidiana da política. Eu era repórter político.

E na TV, como foi essa transferência?

Eu sempre trabalhei em muitos lugares. Devido também à minha origem, eu sempre tive muito medo, e tenho ainda hoje, de perder tudo, de ficar pobre. Isso é uma atitude muito comum de quem não tem nada. Você pega, por exemplo, o cantor Zé Ramalho, ele esconde dinheiro dentro de um pote debaixo da terra que ninguém sabe onde fica. Ele tem medo de, um dia, confiscarem novamente o dinheiro da poupança e, para ele não ficar pobre, sem dinheiro, ele poderia buscar esse dinheiro de dentro do pote. Atitude típica de quem não tinha nada e, com muito esforço, conseguiu alguma coisa, como é o caso dele e também o meu. Eu sempre tive muito essa preocupação. Por isso eu sempre trabalhava nos lugares onde abria possibilidades. Trabalhava de madrugada, às vezes, na Rádio MEC, depois trabalhava na TV Bandeirantes, depois na Rádio JB, nas três ao mesmo tempo. Algumas vezes, ainda, arranjava um quarto trabalho. Estava sempre trabalhando em dois, três ou quatro lugares.

Como começou o seu trabalho na internet?

Começou com o site e graças ao meu filho, Francisco Rezende. Ele teve a visão e tem até hoje. Quem tem a visão mais incrível do futuro é o meu filho. Vinte e quatro anos, 21 na época, e me disse: “Pai, olha, você já tem experiência em rádio, jornal, televisão, dá palestras, é professor e tal. Seria legal começar a pensar alguma coisa na web. A gente poderia fazer alguma coisa junto”. E nós fizemos, está aí. Primeiro veio o site, dentro do qual, assim como outros colegas, hoje eu tenho um blog, que virou um portal. Nasceu o site para depois vir o blog e o portal. Muita gente no início questionava, até com razão, se não era narcisismo colocar minha cara, o meu nome. Mas eu tinha uma razão estratégica. Era uma maneira de dizer: “Olha, o Sidney do rádio, da televisão, professor, tem um site”. Se eu colocasse outro nome com “Positivo”, “Brasil atual”, demoraríamos muito mais tempo para solidificar esse nome. Então, foi usado esse estratagema. E nós fizemos um projeto, na época, que iríamos assim até o quinto ano, no sábado completamos três anos de vida, e do quinto ano em diante, até o décimo, nós iríamos mudar o nome para, talvez, uma sigla, SRZD, para um dia, um grande dia, podermos anunciar que o ex-site Sidney Rezende, o ex-site SRZD, hoje se chama outra coisa. Existe esse projeto entre nós. Mas eu brinquei com meu filho, do jeito que aquela carinha já está lá há três anos, eu posso ficar igual àquele velhinho da aveia Quaker e não queira mais mudar o nome.

E a produção do conteúdo de notícias, você sente liberdade porque, afinal de contas, você é o gestor?

Completa. Em todos os meus trabalhos, que eu pude realizar, que não foram muitos, na pequena fase na CBN, na Panorama e aquino site, a marca sempre foi a liberdade.

Qual é o perfil de um apresentador, de um repórter de TV?

Em geral o apresentador de TV é tudo o que eu não sou: ele é bonito, ele é comportado, ele é paradinho, ele é risonho, ele é bonzinho, ele é puxa-saco, ele é amigo do chefe etc. Em geral é mais ou menos esse perfil. Eu sou um cara não confiável intelectualmente, não sou mesmo, infelizmente, mas sou ultraconfiável. A televisão não é um veículo para você criar da maneira que você quiser. É um veículo fantástico, talvez o mais fantástico do mundo. Você pode dizer: “Ah, Sidney, você quer me convencer que o rádio é mais magnífico do que a televisão”, porque a televisão poderia ser um rádio mais avançado, que tem o áudio e também a imagem, mas eu vou ter que concordar com você que a televisão é um veículo fascinante. Ouvir um jogo de futebol pelo rádio é incrível, mas ver e ouvir pela televisão também é magnífico. Você pode materializar, ali, uma jogada, um profissional que domina a bola. Entretanto, raramente eu vejo coisas geniais na televisão e eu acho que você não precisa ter muito dinheiro para fazer. Todo domingo, tem tempo que não, mas eu costumava assistir ao Roberto D`Ávila. O programa é só ele e o entrevistado. Aí ele fala assim: “Fulano, qual a sua visão sobre a vida?”, e o cara responde uma coisa incrível. Não tem nada, mas eu acho que a sensibilidade também pode ser trabalhada dessa forma, como também se pode fazer uma megaprodução com gruas, várias câmeras, diversos profissionais envolvidos etc. E eu acho que tem profissionais incríveis na televisão. Eu não me incluo entre eles. Acho que não tenho capacidade, mas também nunca tive oportunidade, nunca tive. De todos os programas que eu apresentei na televisão, nenhum foi aceito. Ninguém nunca se virou e disse: “Olha, vou entregar na sua mão para você fazer um projetaço e tal”. Nunca.

Como você avalia a apuração da televisão?

É importante, do mesmo modo, mas acontece de forma diferente. No jornal, o apurador é o próprio repórter. No rádio ainda tem um departamento de apuração com duas ou três pessoas. E na televisão é preciso ter uma equipe. Nos Estados Unidos, um âncora qualquer, dos mais simples, tem uns 200 apuradores, uns 200 produtores. Aqui se tem uns três ou quatro. A diferença é muito grande. São uns três ou quatro por turno, aí você tem umas 15 pessoas. Ninguém tem 30 apuradores, 30 produtores. Mas se tiver 30, 50, ainda é pouco perto de duzentos. A apuração na televisão é muito importante, é importante sempre. A precisão jornalística faz uma enorme diferença. Dar uma informação errada, ainda mais na televisão, pode destruir uma vida.

Você tem alguma produção literária, você tem três livros que já foram publicados. Queria que você falasse um pouco dessa experiência.

O meu primeiro livro foi sobre o Glauber Rocha, um cara de que eu gosto muito. O Glauber era rebelde, irreverente, corajoso, ousado, ultrapassava os limites e não respeitava o status quo. Era um cara outsider e eu amo os outsiders. Na música, eu gosto do Tom Waits, do Bob Dylan e do Belchior. No cinema, do Godard, do professor Truffaut e do Glauber Rocha ou do Tarantino e de outras vozes roucas que o cinema oferece. Eu gosto do que há fora do esquadro. E o Glauber era isso. Ele não só era fora do esquadro como ele mexia, provocava o esquadro. Ele questionava as grandes figuras, as grandes estrelas. Virava-se e dizia: “Olha aquele teu filme é bom, mas esse é péssimo”, por exemplo. E ninguém mais falava isso, ninguém tinha essa coragem. Ninguém nunca teria a coragem de dizer, por exemplo, que em dada obra a Fernanda Montenegro não está atuando bem. Ninguém faria isso porque já foi consagrado que ela é a maior atriz do Brasil. Porém, se o Glauber fosse vivo e ela fizesse algo que ele achasse ruim, ele logo diria. O livro de entrevistas Encontro com a Imprensa foi um trabalho árduo que fizemos em conjunto, mas é um livro da Clarice Abdalla, que era produtora. O Deve ser bom ser você, que é o mais recente, é um livro mais palatável, mais voltado para o espectro comercial. De repente, surgiu mais como uma inquietação interna minha, da vontade de saber qual a diferença entre fama e sucesso, o porquê de uns conseguirem e outros não. Qual o segredo disso? Por que, com a mesma família, com a mesma educação, um consegue ter tudo e outro não? Eu aprendi essa resposta. Sucesso, todos podem ter, mas fama, só poucos tem. E você não pode ter inveja do sucesso do outro, mas você pode ter uma inveja saudável da fama do outro. Sucesso e fama são coisas muito diferentes. Quando você traça uma meta e a alcança, isso é sucesso.

E há algum projeto de um livro novo?

Eu até estava esperando o meu filho chegar para conversar com ele. Acho que chegou a hora de a gente preparar um livro sobre o nosso site, para contar para as pessoas o porquê de hoje nós termos 10% do mercado. O que leva uma empresinha pequena, garotos, pessoas simples, modestas, a ter 11% da audiência de todos os portais da Globo juntos? Ou a ter 10% da audiência total do UOL, que é o número um? Hoje estamos na posição 43.537 do mundo, mas estamos entre os 1.800 maiores sites do Brasil. Dentre os sites de notícias, estamos entre os 100 primeiros. E se a performance melhorar? Aqui, por exemplo, estamos com um 1,053 milhão de leitores, 13% a mais do que ontem. O que faz leitores estarem entrando nesse momento no nosso site? Setenta mil pessoas visitaram o site ontem. É uma cidade. Estamos em 144 países.

A que você credita isso?

Eu credito à extraordinária oportunidade histórica de o mundo estar dentro do computador, do celular de todos. É a web. Hoje, você pode ter tudo o que você quiser, você é livre para escolher o que você quer. E há uma curiosidade do leitor, de ficar um pouco conosco e um pouco com os outros. Nós somos muito rápidos também, estamos a todo tempo inovando, mudando. Não fizemos nenhuma revolução, nosso site é convencional, nesse momento.

A velocidade da informação é o diferencial do seu site?

Não. Eu diria que a gente tem duas redações funcionando ao mesmo tempo e essa química mágica é que atrai o nosso leitor. Nós damos o que todo mundo dá de principal, que é a notícia em sua forma convencional, que está no G1, no UOL, no Terra, mas, em compensação, abordamos, de forma exclusiva, certos assuntos, e damos um tratamento diferenciado a certos elementos como, por exemplo, o carnaval. Informes diários sobre o carnaval, só aqui. Também temos as nossas promoções nas quais fazemos enquetes engraçadas e oferecemos prêmios.

Há uma ideia, de muitos jornalistas estabelecidos, de que a internet é o meio das oportunidades, o meio para se estar. Mas também é comum dizer que ainda não se descobriu como se sustentar na internet. O que você acha disso?

Desde o sexto mês nosso projeto já havia sido pago. Eu investi, do meu bolso, mais R$ 50 mil e, ainda sim, desde o sexto mês já estava pago. Temos 35 pessoas, hoje, vivendo do nosso site. Na redação, temos 15 pessoas. Vamos chegar a ter oito pessoas por turno em algum momento. Mas eu compreendo essa ideia. Nas grandes empresas, os desafios são muito maiores do que aqui. Certamente, na Globo, um editor deve ganhar 30, 40, 50, 60 mil. Com 60 mil eu pago nossas contas inteiras. Eu entendo o que ele diz, mas depende de como você quer viver.

É que não seria algo rentável ainda, que as pessoas ainda não descobriram como explorar.

Eu compreendo. Mas nós, aqui, vivemos do site. Tudo nosso vem do site, 100%. Quando nós completamos três anos, em um editorial, eu falei sobre isso. “Muito obrigado aos parceiros e patrocinadores que nos cederam suas marcas e suas missões, e que hoje sorriem ao constatarem os resultados além das expectativas. Construímos tudo que temos com respeito a cada suado centavo investido por vocês no nosso portal”. Tudo vem do patrocínio. Eu não tiro, também, nada para mim, pois foi o acordo que eu fiz com o meu filho. Enquanto eu estiver empregado fora, eu vivo do salário que eu ganho da Globo até o dia que eu não estiver mais lá, quando vou passar a tirar o meu salário daqui. Eu não tiro nada, mas toda essa estrutura, todo o funcionamento, com funcionários de carteira assinada que ganham bônus em dinheiro como o décimo quarto, e, se tudo der muito certo, quem sabe até um décimo quinto salário, tudo vem do site.

Você é professor também da PUC. Há quanto tempo e em que cadeiras?

Desde 1994. Já lecionei várias matérias. Atualmente trabalho com introdução ao rádio, no terceiro período.

Teve muita gente desesperada, sem saber o que fazer de carreira?

Não, eu vi muita gente já tendo definido ou publicidade ou jornalismo. E acho que as pessoas com menos informação optam por publicidade, porque tem medo de fazerem jornalismo por acharem que não tem a capacidade. O que é uma bobagem, porque são jovens ainda e tem tempo para se informarem.

Para finalizar, queria saber sua opinião sobre esse nosso trabalho de certo resgate da memória do jornalismo.

Incrível. Eu sou completamente a favor a todo trabalho de memória, armazenamento de dados. Acho tudo isso muito importante e que você não deixe lá coisas mortas, paradas, e que você dê utilização e reflexão sobre esse conteúdo. Acho essa iniciativa de vocês e da faculdade muito íntegra.