TOM LEÃO
PERFIL

Tom Leão é jornalista, crítico musical, “blogueiro” e DJ. Formado em jornalismo pelas Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha). Apaixonado por música e cinema, Tom começou a trabalhar antes mesmo de se formar. Quando tinha 12 anos, escrevia um fanzine com notícias sobre músicas e histórias da banda formada por amigos e na qual era baixista. Também divulgava notícias sobre universo juvenil que gostava de skate.

Foi sua produção nesse fanzine que atraiu a atenção de José Emílio Rondeau e Ana Paula Bahiana, jornalistas e críticos culturais reconhecidos na época. Atraídos pela linguagem do fanzine, com textos leves, ágeis e com estilo, eles o convidaram para colaborar em uma revista de cultura. Exercitava, assim, uma paixão que possuía desde os oito anos de idade, quando se apaixonou pelo cinema pela primeira vez.

Com o fim da revista, Tom Leão foi indicado para trabalhar em diversas outras publicações do ramo cultural, como a revista Bis e Som 3. Seu primeiro emprego formal, no entanto, foi na Rede Globo, escrevendo textos para os videoclipes que iam ao ar no programa Fantástico. A sua trajetória no jornalismo de O Globo começou quando Ana Maria Bahiana foi convidada para trabalhar em Los Angeles.

Ela o convidou para assumir a coluna que tinha em O Globo junto com Carlos Albuquerque. Dessa parceria, nasceu o Rio Fanzine, que assina até hoje com o jornalista Carlos Albuquerque. Devido à ausência de informação para o público jovem e a grande demanda por este material, o Rio Fanzine teve seu apogeu nos anos 90, inclusive pelo ineditismo de publicar notícias sobre tendências no segmento musical. Depois, com o crescimento da MTV e da Internet, foram surgindo outros meios voltados ao segmento.

Tom Leão também exercita sua antiga paixão pelo cinema como um dos críticos do famoso bloco “O Bonequinho Viu”, publicada todos os dias no Segundo Caderno do O Globo. Além disso, Tom Leão trabalha como DJ, é autor de livros e mantém o blog Na cova do Leão, no qual escreve sobre variedades e cultura.

Tom considera que os blogs têm ajudado a disseminar textos autorais e expor ideias que, normalmente, o jornalista não publica com regularidade nos meios profissionais em que trabalha. Mas ele considera que os blogs devem evitar críticas pessoais e a proliferação de anônimos nos comentários.

Ele também analisa a crise que tem se abatido sobre os jornais, com redução de espaço. Para ele, mais significativo é perceber que as pessoas têm lido pouco jornais. Mas isso não é motivo de descrença. Tom acredita que o jornalismo pode ser exercido com paixão, com interesse e formação cultural. E, para isso, é o estilo do jornalista que vai atrair o leitor, com um texto ágil, criativo, imaginativo.

ENTREVISTA

Realizada por Bernardo Andrade, Fernando Prates, Pedro Eler e Vivian Macedo

Revisada e editada por Andréa Cristiana e Maurício Duarte

Data: 11/2008

Como você começou no jornalismo?

Bom, quando eu tinha uns oito anos eu fiquei apaixonado, ao mesmo tempo, por cinema e música. Assim, eu via o projetor na festinha de aniversário de um amigo e, quando tinha vídeo-cassete, passava filme, sempre adorei aquele negócio de fita na mão e tal. Era uma coisa muito distante, pois não tinha condição, naquela idade eu não podia fazer cinema com oito anos e não podia porque era impossível, pelo menos para mim. Os melhores cursos eram caros e fora do país. Eu falei: ah, isso não dá, então música. Comecei a gostar muito de música e tal, fiz uma banda com amigos, mas eu não levava muito jeito, cheguei a tocar baixo, enganei numa bateria...não dava muito certo. Apesar de ser um cara que tem ritmo, tocar não era o meu forte. Tenho mais ouvido do que ritmo mesmo. Ai, eu falei: o que me resta? Como estava com essa galera e gostava de ler, sempre fazia o diário da turma. Era o cara que escrevia nossas aventuras, o que a gente fazia em viagens e tal. Isso acabou evoluindo para o negócio de fanzines. Comecei a fazer o fanzine, no qual basicamente 90% era sobre skatista.

Quantos anos você tinha?

Ah, entre 12 e 14 anos, quando aconteceu tudo isso. Cara, você geralmente sabe o que quer da vida muito antes da escola e de te dizerem o que você vai ser. Com sete, oito anos você decide o que vai ser da sua vida: se você vai ser um assassino serial, roteirista ou músico. É a hora que dá um start e você já sabe do que vai viver. Eu ouvi muito “não: isso aí não dá dinheiro“, não sei o que lá. Era o que eu gostava. Então, fazia esse fanzine para narrar, dar notícias da turma, gente que ia participar de campeonato, fazer festas e publicava notícias reais. Como não tinha internet, catava notícia de revistas importadas e colocava as notinhas que interessavam. Eram uns fanzines bem toscos, fazia na máquina de escrever e xerocava. Isso é uma coisa que se fala e as pessoas nem sabem o que é isso, fazer em uma máquina de escrever e copiar, passar de mão em mão. É bem estranho. Enquanto isso, comecei a estudar, trabalhar, comecei a fazer estágio, mas não eram nas coisas que eu queria fazer. Fazia aquilo para ter dinheiro para as coisas, ir aos shows e sempre quis ter meu dinheiro bem cedo, faturar uma grana para comprar um disco. A gente comprava disco também, a gente não baixava e isso era bem mais caro que baixar. Um disco valia bem mais que um mês de internet banda-larga. Nesse meio tempo aconteceu comigo um negócio que parece uma cena daquele filme Almost Famous [dirigido por Cameron Crowe, 2000]. Estava no escritório fazendo estágio em um lugar horrível, mas só pela grana e tal, e, de repente, um camarada me ligou falando: “Pô, você não vem trabalhar comigo! Eu sou de uma revista...”. Na época, já era um cara top do jornalismo cultural que é o José Emílio Rondeau, casado com a Ana Maria Bahiana, que era a rainha da parada. Eu fiquei até sem voz. Queria gritar naquela hora, sair correndo e mandar o chefe tomar no cu mas eu fiquei quietinho. Depois, falei: “Pô, como é que esse cara sabe quem eu sou!” É que esses fanzines circulavam. Diferente da internet onde você tem uma página, os papéis iam até a sua mão pelo vento ou em algum lugar você achava aquele negócio. Alguns deles acabaram na mão do Maurício Valadares, que tem o programa Ronca, ronca, na Oi FM, que passou para mão da Ana Maria Bahiana que gostou do estilo do texto, e disse: “Pô, esse cara fala como quem realmente conhece e tem um jeito de escrever fluido, bem postado!” Como ela ia começar uma revista nova, ela queria alguém que tivesse uma coluna diferente da revista que era mais tradicional de música, de rock and roll e que tivesse uma coluna e ai surgiu Na cidade. Até hoje, mantenho esse nome na Rio Fanzine, que fala das coisas mais rápidas, telegráficas, notinhas insider e tal. Assim, eu comecei. Nessa época nem era formado. Ainda estava terminando o segundo grau e comecei a escrever, por isso que eu tenho o nome que uso até hoje de trabalho: Tom Leão. Eu não podia, na revista, assinar meu nome verdadeiro porque não era formado em nada. Então, ela me inventou o cargo de secretário de redação, que era aquele que lia cartas e tal. Inventou o nome Tom Leão para assinar e aí começou a parada. O básico do começo foi esse. Nessa época, havia várias revistas de música no Brasil, embora a revista não tenha dado certo, tenha saído só cinco ou seis números, a partir daí eu fui sendo chamado para outras. Algumas acabaram, outras ainda existem ou voltaram a existir: Som 3, Bis... Era aquele desequilíbrio: a cada dois anos uma revista dessas acabava e surgia outra. Alguém vinha passando adiante: “Olha, esse cara aqui”. Curioso que o meu primeiro emprego pago não foi em nenhum desses lugares, porque nesses lugares você não tinha carteira assinada: eles te davam algum dinheiro qualquer e pronto. Tudo fora da lei. Talvez em alguma dessas revistas tivesse alguém para assinar um papel para o imposto de renda. Mas o meu primeiro emprego pago foi na TV, não foi num jornal nem nada disso. Numa dessas curvas do tempo, a Ana Maria, alguém ligou para um cara fodão aqui no Rio que tava fazendo um festival de música. Ele tinha que recrutar pessoas para trabalhar no festival de música. Ai, foi com a minha cara em uma dessas reuniões que eu tive para trabalhar no festival, e ele me chamou para trabalhar. Comecei no festival e depois na TV Globo. Engraçado que eu perguntei um dia: “Por que você me chamou para trabalhar no festival se eu não tinha o menor perfil: eu era punk, odiava MPB...”. Ele me disse: “É que na nossa primeira reunião, a gente foi no Plataforma, e cara você pediu lasanha! Ai eu pensei: pô, esse cara é maluco, é doido! Todo mundo pedindo carne e ele lasanha”. Ele achou muito estranho, engraçada essa estória. Eu, no Plataforma, podia pedir qualquer carne, nessa época o Tom Jobim era vivo e ele estava na mesa, tinha maior galera conhecida nas mesas em volta e eu comendo lasanha com todo mundo bebendo whisky e comendo picanha. Aí, foram mais indicações, trabalhei em festival de cinema no Fest Rio, o primeiro que teve aqui, e comecei a fazer redação de textos para os clipes do Fantástico que aquelas garotinhas iam apresentar, inclusive uma dessas garotinhas que não tinha feito nada, na época, era a Cláudia Abreu. Ela lia os textos e falava: “Novo clipe do A-ha!”. Muito legal isso.

Nessa época, você já era formado?

Nesse meio tempo, estava terminando. Teve uma época que parei, um ano ou dois no começo disso tudo. Fiquei meio fora do ar, mas depois voltei para terminar. Nessa época, morava no Flamengo e a FACHA era mais perto, eu estudava lá. Era legal que lá tinha estúdio de rádio e televisão. Os caras faziam de madrugada uns programas de horário pago. Eram poucos anos antes da MTV, então o Canal 9, hoje CNT, de meia-noite às 6h era terra de ninguém. O pessoal da FACHA fazia um programa que passava a madrugada inteira. Então, frequentava essas gravações, conhecia gente da área. Nesse tempo, estava me encaminhando mais para a TV. Eu realmente estava pensando em ser redator, roteirista. Na TV, eu era autor-roteirista. Mas, nesse meio tempo, de novo entraram em cartaz a Ana Maria Bahiana e o Zé. No final dos anos 1980, eles foram morar em Los Angeles como correspondentes da Editora Abril e mais um monte de lugares. Eles me deram duas opções: “Você vem com a gente morar lá e ser nosso secretário“. A Ana já tinha uma página de música acho que em O Globo aos sábados com o nome dela que foi para o domingo e virou uma página inteira, era uma coluna e virou uma página inteira com o nome dela. Ai, ela falou: “Ó, tem isso, você mora com a gente, eu tô dando tudo, ou então segura a coluna.”. Pô, ela tinha uma coluna top, né! Domingo no Globo... Ana Maria Bahiana... pô, vou mudar o nome, claro! Ai, Vai-e-vem, acabou virando Rio Fanzine. A gente conversou em uma reunião e ela falou: “Pô, já que você tem estilo de fanzine e a gente é do Rio, vamos valorizar a cidade”. Ela sempre tinha esse negócio de valorizar o local, tudo era São Paulo, então ela quis fazer uma marca “Rio”, para dizer que é daqui, já que a gente não tem nada, e Fanzine porque eu escrevo assim. Acho que fiz uma boa opção porque se eu tivesse continuado na TV, provavelmente já teria tido uma ponte de safena e teria morrido, porque o estresse lá é altíssimo, cara. Na TV, as pessoas não falam, só gritam. Todo mundo estressado para caramba e as coisas só um segundo depois de estarem prontas vão ao ar e eu não quero isso na minha vida, morrer cedo. O cara que era meu chefe na época tinha 38 anos e já tinha ponte de safena! Ai, resolvi optar em ficar com a página da Ana, falei: vou ficar no jornal, ter controle total sobre aquilo, não ter ninguém gritando comigo. Mas, no fim das contas, pesou que eu gosto mais de música mesmo.

E aí virou fanzine com você?

É. Ana Maria Bahiana sabia que iria viajar um ano antes, é claro porque tem que preparar tudo, a vida inteira. A gente teve essa reunião e ela foi mudando o nome para Rio Fanzine e eu era colaborador da coluna Na Cidade, que começou na revista e continuou no jornal. Aos poucos, teve a transição. Virou Rio Fanzine, ela ainda continuou alguns meses, um ano e, depois, ela foi embora e a gente ficou. Era muito louco! Entrou o meu amigo Carlos Albuquerque, que Ana Maria conheceu mandando uma carta, que ela gostou muito da carta dele e o chamou para trabalhar. Ela falou: “Pô, foi a melhor carta que recebi... esse cara tem que escrever aqui”! Foi assim que o Albuquerque apareceu, que ele nem era jornalista ainda, ele é formado em Biologia Marinha...Muito louco. Pô, só tinha eu e ele, ai a gente começou no jornal. A gente ainda era freelancer na época.

Você já o conhecia?

Não, eu o conheci em uma dessas reuniões com a Ana. Numa delas, um dia, ele apareceu, não fazia ideia de quem ele era. Era engraçado, ele morava até no meu bairro nessa época, o Flamengo, eu morava mais perto da Praia de Botafogo e ele mais para dentro. A gente não se conhecia do bar nem de lugar nenhum. Nós somos assim, amigos totalmente opostos: eu era skatista e ele era surfista, eu gosto de punk rock e ele gosta de funk, funk clássico: black, reggae. A gente é tudo ao contrário, por isso que a gente nunca brigou e sempre deu certo, porque a gente nunca disputou a mesma banda, o mesmo disco ou a mesma namorada. Era legal. Aí foi uma introdução ao jornalismo que está desde o final dos anos 1980, início dos anos 1990. De 1991 mesmo para cá, fiquei realmente consolidado em jornal, contratado desde 1991.

O que mudou lá no fanzine nesses anos?

Primeiro, mudou o tamanho. Quando um colunando foi embora, a gente ficou com a página, era uma página só em preto e branco, ai o jornal queria trazer um público novo. Vale lembrar que, nessa época, ainda não tinha MTV, ela chegou no início dos anos 1990. Nessa transição, não tinha MTV no Brasil, não tinha internet, nenhum jornal tinha coluna dedicada para jovem em lugar nenhum. Então, no começo dos anos 1990, o jornal percebeu isso, fez uma pesquisa e tal com universitários e estudantes e deu que as pessoas queriam isso e não tinha. Nessa, eles deram um upgrade na gente, colocaram a gente em página dupla, ainda em preto e branco, e, em alguns meses, ela ficou colorida porque começou a ter anúncio. Os anos 1990 foram o grande auge do Rio Fanzine, porque entre 1991 e 1997, 1998 para tudo isso você tinha que ter um jornal mesmo porque não tinha Google, não tinha MySpace, não tinha Napster, não tinha nada. A gente só não podia mostrar o som, falava do som, mas a informação era ali. Então, foi legal, a gente influenciou várias colunas de jornais no Rio e no Brasil. Uma vez, recebi uma carta de um cara que fazia uma coluna igual no estado de São Paulo dizendo: “A gente copiou vocês passo a passo”. Realmente, a coluna dele era igual, era o Caderno Z, igual ao que eu fazia até na coluna Na Cidade. Mas, pelo menos, o cara falou que fez mesmo como uma homenagem. O Caderno Z, infelizmente não durou muito tempo, ficou nos anos 1990 e acabou. A palavra fanzine se popularizou, era uma coisa estranha, ninguém sabia o que era fanzine. Hoje, tudo é zine: programa de TV, anúncio de bolo... Tudo tem alguma coisa com zine no meio quando quer chamar uma galera. Virou um termo comum. E é isso basicamente. Agora, o que aconteceu com a página, ela diminuiu, porque, no final dos anos 1990, teve a grande crise do papel, no jornalismo mundial. Em 2000, 2001, o cara do jornal falou: “Cara, a página é dupla colorida, mesmo tendo anúncio é difícil de manter”. Ele me mostrou a página do jornal, cada página preto e branco custa tanto, colorida custa tanto, a página de domingo do jornal ia perder aquela página do meio mesmo, aquela dobra central e eles economizaram não sei quantos milhões de dólares por ano. E a coluna acabou reduzindo e indo para outro caderno. Mesmo que tivesse anúncio não ia durar muito tempo, porque a crise do papel no jornal foi imperativo mesmo. Não sei se alguém lembra, O Globo era mais alto, mais largo, o jornal não era como é agora, ele era um jornal de respeito, porque era mais largo, os cadernos tinham muito mais páginas, o Segundo Caderno era muito mais... Tinha 12 páginas, agora tem 6, 5, dependendo do dia, ou só quando tem anúncio que eles aumentam... De forma geral, tudo vem reduzido e continua em redução. A cada dia que se passa, as coisas em papel estão diminuindo. O jornal, de forma geral, não vai ser extinto, mas vai praticamente acabar o jornal como a gente conhece hoje. Mesmo o dono do New York Times falou que vai sair do ar em 2012, vai para internet. Ele acha que o jornal, em 2021, não vai mais existir, não vai mais ter razão de ser, talvez para assinantes fiéis. Ninguém mais vai comprar jornal... Eu noto isso pouco. Assim, vejo a galera de hoje, o meu filho, ninguém lê jornal, ele não vê nem a capa do jornal. Eu vejo coisas que poderiam ser interessantes, coisas importantes para ele: pô, pelo menos, lê a manchete, cara... As coisas realmente não pegam em casa, só computador, telefone, internet, são noticias legais que você tem pela internet, mas o jornal tem uma coisa da apuração, dos grandes jornalistas, colunistas. São informações que você não tem nos meios rápidos. É muito superficial, por isso a notícia, sei lá, morreu o cachorro da Paris Hilton, você quer saber os detalhes. Nesse jornalismo escrito ainda tem os caras mais aprofundados no assunto, mas eu concordo com o cara do New York Times: o jornal talvez não vá se extinguir, mas vai reduzir bastante o número de leitores, talvez vá ficar realmente numa base de assinante fiel que ainda quer ler em casa, ler no banheiro de manhã... Mas eu acho que, em geral, até para o bem do planeta, o papel...

O Rio Fanzine tem alguma extensão na internet? Por que algumas colunas no Globo têm meio um complemento na internet...

Desde que começou a ter o Globo online, não sei quanto tempo tem isso, uns 8 anos, 6 anos, a gente está lá no online, tem Rio Fanzine online. A página não era tão turbinada naquele começo, não tinha muitos recursos, porque o próprio jornal não tinha sobrando. Mas hoje está muito melhor, a gente coloca vídeo e está mais dinâmico, mas mesmo assim ainda não é o que poderia ser. Não tem tudo que podia ter, que a própria estrutura do jornal, tecnologicamente, ela ainda não é própria para internet. A gente não coloca tanta música quanto poderia, por causa do negócio dos direitos autorais, mas tem clipezinho do Youtube, para saber do que a gente está falando ou dar o link para o Myspace da banda. Isso é legal. Mas o próprio jornal como um todo ainda não está muito estruturado para a internet, ele está numa transição. O próprio jornal tem uma coisa interna, acabar com o “Globo online”, agora é Globo uma coisa só, tanto a internet quanto o papel. Para acabar com a diferenciação, quando você menos perceber: acabou o papel.

E o “bonequinho”? Como é que você começou? É porque ainda tem uma mística em torno do “bonequinho”, parece que é uma pessoa, só que são várias...

Ele é um cara que tem múltiplas personalidades...Tem um filme que o cara tem 12 personalidades...

Quantas pessoas são? Todas brigam?

Perto de 12, não sei de cabeça... Sempre falo lá, quando tem reunião de bonequinho: falta mulher no bonequinho! Tem só uma bonequinha eventual: Cora Rónai...

Ah, a Cora Rónai é bonequinha?

A Cora Rónai é bonequinha eventual, não tem mulher. Era legal que tivesse. O bonequinho antigo, quando eu era moleque que eu lia, até tinha, acho que eram duas mulheres. Aí, é aquela coisa paralela, que eu falei que gostava de cinema antes de tudo. Eu sempre, desde moleque, li crítica de cinema... Teve uma época nos anos 1980, que o JB distribuía uns cupons, que você escrevia uma crítica e mandava, e colocava para ser publicada. Várias críticas minhas foram publicadas, com o cupom... Você colocava 10 linhas para falar de um filme, se gostou ou não gostou. Era engraçado. Nessa época, deu para matar essa vontade que eu tinha de cinema e não tinha como expressar... Nos anos 1990 também, em meados dos anos 1990, teve uma grande reunião de bonequinhos, e os bonequinhos ficavam lá. Eram muito antigos, os caras... Teve uma reunião que os caras que estavam lá, eles eram muito antigos, alguns estavam lá há 18, 14 anos, aí o editor da época do jornal, o editor geral falou: “Vamos renovar isso aqui”. Chamou uma galera que se interessava pelo assunto. “Aí quem gosta, quem não gosta”. Fui lá, na conversa com ele, me inseri e é mais ou menos isso. Não é regra, mas fizeram de forma que cada bonequinho fosse especialista em uma área. Para você não falar bobagem de uma coisa que não entende, ficou um cara que era fã de cinema nacional, outro maluco que era de documentário... Eu era o cara que gostava de filme trash, de terror, de sci-fi, por aí foi. Mais ou menos fiquei especialista nesses filmes, adolescentes e tal, porque, no passado, no jornal, já rolou críticas, já teve exceções mesmo, já rolou de mudarem a crítica por causa disso. Eu me lembro, falando de novo da Ana Maria Bahiana, quando passou o filme do Pink Floyd, The Wall. O bonequinho que fez, ele era um cara muito antigo, não só porque ele era um cara muito antigo, ele não entendeu aquele tipo de filme... Aí deu tipo o bonequinho dormindo para o The Wall. Goste ou não do filme, não lembro o que o cara escreveu, mas ele não falava com propriedade do filme. Aí, a Ana foi lá, reclamou. A Ana refez o bonequinho e botou ele aplaudindo sentado. Foi a primeira vez que o bonequinho foi refeito, foi a Ana que fez... Alguns anos depois, aconteceu isso de novo, com um filme de surf. Esse meu amigo Carlos Albuquerque, que nem faz bonequinho, teve um desses filmes de surf que o cara também falou o absurdo do absurdo do absurdo, que é o absurdo do absurdamente absurdo. Ele falou: “Não, cara, você não está entendendo”. Ele refez o bonequinho do filme de surf. O Carlos Albuquerque, que nem é crítico de cinema, fez essa crítica. Se tem um filme que é de uma coisa muito específica, eles pedem alguma pessoa especialista numa área para ver também. Aí, se o cara que foi na cabine, o crítico, odiar aquilo, não entender aquilo, outra pessoa faz. No começo, fiz muito isso. Eu ia às cabines quando estava começando. Eu fazia um backup sabe? O bonequinho oficial estava lá e eu fazia o backup, claro caso ele não entendesse. Um dos primeiros filmes que fiz foi o The Matrix. Todo mundo saiu odiando da cabine. Ninguém gostou. Só eu e o Bruno Porto. Sacou? Um cara que era da Megazine na época. A gente entendeu aquela loucura. A gente gostava de kung fu, de videogame, de música eletrônica. Todo mundo saiu da cabine odiando o filme. Filme maneiro.

Rolou um quebra pau entre vocês?

Não. Agora, tem uma página que a gente coloca quatro ou cinco críticas, em uma página. Quando rola os quebra pau, quando o filme divide realmente opiniões. Isso acontece mais com cinema brasileiro ou filme-cabeça. Mas, eventualmente, acontece isso. A última vez que eu participei de quebra pau desses foi naquele último filme do... Ang Lee? Não. Esqueci o nome daquele cara.

Qual filme?

Esse filme com a Norah Jones.

O Beijo Roubado?

É.

Wong Kar Wai.

É, é o Wong Kar Wai. Só que o nome do cara é Kar Wai Wong. Wong Kar Wai é como a gente fala. Então, não sei mais. O Wai Kar Wong, então, é um cara assim cotado. Aí isso dividiu opiniões. Aí, teve um bonequinho triplo assim: o cara que odiou, o cara que foi mais ou menos e o cara que gostou. Eu fui o cara mais ou menos. Eu gostei, mas não gostei ao ponto um outro filme dele.

Amor à Flor da Pele?

Não. 2046. Eu gostei mais do 2046... Mas, voltando, como eu fui parar no bonequinho. Foi isso, teve uma reunião, eu mais um corpo de bonecos. Pegou umas pessoas de cada área para fazer. Até porque, cara, a cada sexta-feira, estreiam 8 a 12 filmes. Não era assim. Estreavam, antigamente, três filmes. Não precisava ter tanto bonequinho. Acho que agora tem, em média, 12 bonequinhos hoje. Isso é uma coisa que alavancou a outra. Como o mercado de DVD cresceu, o mercado de cinema também cresceu para poder encher os buracos de mídia, de internet, distribuição de filmes. Passou-se a fazer muito mais filmes do que se fazia. Hoje, têm muito mais filmes. Tem mais porcaria também. Assim, então estreiam oito filmes por semana, porque a maioria desses filmes eles fazem com troco de Hollywood, que sobrou de um orçamento de um filme melhor. Sobraram 10 reais, aí eles fazem um filme que sabem que só vai ganhar em DVD , mas passa no cinema. Tem um filmes que nem para o cinema vão, vão direto, por exemplo. Mas tem uns filmes que, só para garantir que é filme, passa no cinema. É uma merda. Mas, na verdade, ele vai vender em DVD. Aí nisso aumentou o número de filmes. Essa série de filmes de comédia vagabundos, eles fazem em cinco dias, cara. Aquele Espartanos.. sei lá.

Espartalhões...

Assim, você não conhece, mas o Vianna, nossa turma, faz muito melhor que isso. Com essa câmera na mão em um dia ele faz melhores filmes. O resumo do bonequinho é esse. Mas o bonequinho é uma personalidade esquizofrênica. Você sabe, cada pessoa pensa. E, às vezes, a gente não pode escolher o filme que vai ver. Depende de como está cada um naquele dia. O dia que você está mais ocupado no jornal não pode sair, ou a sessão... Normalmente as sessões são 9 ou 10 da manhã. Você sai, acorda assim, na hora que você viu, vai parecendo um queijo até o Estação Botafogo. Jogos Mortais 5 às 10 da manhã! Você fica enjoado. Ah, não estou entendendo nada... Nessa hora, você tem que ser muito frio para analisar um filme nessas condições. Você sai do cinema meio-dia, todo aquele mundo de Botafogo e você só pensando em crime, facadas... Que aquele filme foi uma merda. As cabines são bem cruéis, geralmente são essas horas. Aí vai quem está de bobeira, entendeu? Tem dia de manhã que eu vou mais cedo, não tem nada para fazer, aí te mandam. Existem as pessoas específicas em cada área, mas na hora de ver o filme, vai quem estiver disponível. Aí, tanto faz quem viu. Elias Azeredo, que é um bonequinho top, até o cara que chegou hoje.

Quando é que você começou a fazer o blog Na cova?

Na Cova? Ele é o desdobramento de outra coisa. Eu tenho minha carreira paralela de DJ. A gente começou em 1994 mais ou menos. Eu já fazia som em festa. Quando havia as festas e tal, tinham sempre eu e um outro camarada que a gente sempre fazia o som das festas. Com fita cassete! Então, a gente começou fazendo essa coisa. Sempre fiz sonorização de campeonato, gostava de tocar música. E nos anos 1990, como teve essa espécie de geração de clubes de música eletrônica, ficou forte no país. Abriu o mercado, muitas festas e muitos clubes abriram na cidade. Aí, comecei a tocar para valer, muito bom porque já tinha espaço e tudo mais. O auge da parada mesmo foi em 1995. Tinha festa para caramba, toda semana, tocava sábado, domingo e sexta. E aí, como era uma coisa pré blog - não tinha blog nessa época, tinha site até então - eu fiz um site para falar das minhas festas e das minhas coisas, que era o Eletric Head, essa festa que eu fiz durante oito anos na Bunker. Toda sexta-feira. Fiz um site para falar da festa e tudo mais. E não só, havia outros assuntos que hoje a gente falava no blog. Só que era um site que tinha que pagar um cara para fazer, pagar o domínio americano. Saía no prejuízo. Pagava 300 dólares a cada tantos meses, seis meses pelo site, mais tanto para o cara fazer. Mas como eu fazia o som, o dinheiro que sobrava eu usava para isso. Aí depois o site saiu do ar, no finalzinho dos anos 1990. Aí chegou o blog. Pô, blog é muito melhor! É rápido, você faz tudo nele. Migrei para o blog, mudei o nome, não ficou só especializado em uma coisa. Antes, já fazia esse tipo de comentário, mas no site você só podia ver, não tinha o tipo de interação que você tem agora. Você ia lá, lia a notícia e pronto. Agora, no blog, tinha um problema quando começou. Ele não tinha controle. Quando começou o blog, era aquela coisa de qualquer vagabundo de chegar lá e falar qualquer coisa. Então, muita gente usou o canal para me atacar ou brigar com as pessoas que eram do blog. Então cara, era só baixaria das mais inomináveis que você pode imaginar. Você não tinha moderação, era livre. E todo mundo podia usar nick. Então, vinha um cara e escrevia 10 posts com nomes diferentes... um te xingando, outro te beijando, um falando não sei que lá, outro falando que era mulher. Nunca soube quem eram aquelas pessoas. Chegou até a ter uma briga homérica que era o fã-clube do Caetano Veloso, não sei como foi parar lá, alguém um dia falou mal do Caetano Veloso e alguém do fã-clube entrou lá e desdobrou durantes meses. E eram as coisas mais baixas que você pode imaginar... Pena que eu não copiei. Aí, eu pensei assim: Vou acabar com o blog, vou fechar. Cheguei a fazer isso tristemente. Era só ataque pessoal ou briga entre as pessoas. Eles chegaram ao cúmulo de fazer pesquisa Google do meu nome para saber tudo que eu fiz e jogava lá. Para falar mal. Chegou a um ponto que eu até fiquei com medo. Chegou até o meu filho Igor. Descobriram o que ele fez, quem ele é. Caraca, é assustador isso. Aí, realmente, eu ia acabar com o blog. Aí, depois de um mês, o blog começou a ser bloqueado. Agora, você pode moderar e tal. As pessoas têm que se inscrever, tinha que ter conta Google. O blog sobreviveu, eu continuei e agora está legal. Tem umas briguinhas lá, mas todo mundo se conhece, bem Jerry Springer, como você falou. Mas pelo menos mesmo que alguém seja mais grosso, mas escuta a resposta... Sabe? É respondido na altura ou tem um debate e outras pessoas entram no debate. Não é uma coisa totalmente louca. “Coloca um nick, manda se fuder e vai embora”. Isso era péssimo assim. O que prova que não se pode... Como é que é? Alguém falou: “O povo não pode ter liberdade ou não pode ter democracia porque não sabe usá-la“. Alguém fala isso, eu não sei a frase direito, mas contém “não sabe usar”. Se realmente as coisas fossem totalmente livres e liberais, as pessoas abusam, não sabem o que fazer. Não, eu sou contra linha dura, mas tem que ter um moderação, eu acho...

Existe um debate sobre “blogueiro não é jornalista”. O que você acha sobre isso?

Ué, não é, mas pode ser. Pode vir a ser. O lado bom da internet, dos blogs, eu acho que é esse. Se no lado da música, acho ruim porque a música é uma porcaria, mas eu acho que para escrita foi legal. Esse negócio de blog desenvolveu nas pessoas o gosto de escrever e desenvolver um estilo. Mesmo que as pessoas escrevam errado, aquele jeito de blog eu respeito. Eu gosto de blog, gosto muito de blog. Muita gente legal vai aparecendo daí, mostrando suas cores, gente que tinha anotações em um caderninho, ou peças completas nunca antes reveladas, começaram a colocar isso na internet, eventualmente alguém se deu bem, lançou um livro, outras pessoas foram chamadas, descobertas para trabalhar em algum jornal. Blogueiro pode ser jornalista. Não todos, mas muitos podem se tornar jornalistas depois. Muito jornalista que não pode falar tudo o que pensa onde trabalha, escreve em um blog. Sempre faço questão de frisar lá: Quem está falando ali, eu não estou falando em nome do jornal nem do cara que escreve lá não, ali é a minha coisa pessoal, é o meu quarto sacou, estou no meu quarto conversando com os meus amigos. Os assuntos surgem da forma mais estapafúrdia possível, não tem pauta, não estou pensando em Ibope. Teve uma briga lá no blog que um camarada ficou cobrando: “Ah, mas aqui você fala uma coisa e no jornal você fala outra, que o blog de fulano de tal dá a notícia primeiro que você”. Cara, o meu blog não é comercial, eu nem penso nisso, eu nem leio o blog de fulano de tal. Eu estou de bobeira no quarto, passa um negócio voando, um mosquito, cara uma ideia, eu vou lá e escrevo, é mais ou menos assim [risos]. Tipo ontem eu estava vendo o Biography Channel e começou a passar a biografia da Barbie, e, no primeiro bloco, falava que a Barbie era inspirada em uma outra boneca, e aquilo ali virou post para mim sabe. Eu nunca soube disso, e a outra boneca era muito mais legal, era uma boneca para adultos, ela tinha peitos, e usava roupa transparente, ela se vendia para os homens em troca de dinheiro (risos). Era um personagem que saia em quadrinhos, e eu pensei: “Cara, é maravilhoso”. E, assim, surgiu um assunto no meu blog. Eu não fico olhando outras coisas pensando. Isso eu faço no jornal, lá é diferente, eu tenho que dar uma notícia que agrade o editor, que agrade os leitores, que seja uma coisa do momento, popular, e no meu blog eu não tenho nenhuma obrigação de fazer isso. Tanto é que, no começo, até pensei em usar um nome falso. Pensei, não, porque é legal que chama os amigos. Mas até pensei em pseudônimo no começo.

Você já entrevistou muita gente, foi a muitos shows. Existe algum evento que achou mais legal?

De entrevista, não consigo lembrar de todos os nomes. Primeiro, vou dar um resumo. Geralmente, nas bandas mais alternativas e menores, as pessoas são mais metidas e escrotas do que um cara foda. Recentemente, fui entrevistar um cara da Death Cab for Cutie e o cara era horrível, um babaca, escroto para caralho. Parei a entrevista ali mesmo, Tchau! Superbabaca, tratando mal por ser brasileiro ou jornalista. Agora, entrevistei cara tipo o David Bowie, e o cara é gente boa para caralho. Uma entrevista que eu quase tremi, ia entrevistar o Lou Reed, que tem fama de ser chato para caralho, não fala com ninguém. Mas cara, o Lou Reed era um cara gente finíssima, só faltou me chamar para quando eu estivesse em Nova York tomar um chá com ele, mas o cara tem fama de ser temperamental, maluco. Mas o Lou Reed é um doce de pessoa. Os caras de bandinhas, que apareceram ontem e que não vão existir amanhã, são escrotos. Esses mais ou menos que são os parâmetros de quem não é ninguém e acha que é grande coisa e quem já tem uma carreira do cacete, se digna a ligar para você, ser legal. E não por obrigação: “Ah preciso falar com esse cara para sair bem no jornal”. São caras superlegais. E a bandinha que realmente precisava né... No meio termo, a maioria, parece que eles estão lendo um roteiro, eles falam as mesmas coisas. Você pode entrevistar essas bandas várias e várias vezes seguidas em anos diferentes que eles respondem as mesmas coisas: “É, nesse disco a gente cresceu”... Parece que eles não estão falando por eles, parece que o publicista escreveu para eles a resposta, e de acordo com cada número ele vê: “Ah, essa combina com aquela...”. Essas são as piores entrevistas. Agora, uma que foi interessante, no ano passado eu fui em evento chamado Junket, que é entrevista dos filmes, que você vai até um lugar e fala com os artistas. Eu fui até Los Angeles falar com o elenco de Hairspray, e o cara mais legal foi o John Travolta, que era o cara mais foda do elenco. A Michele Pheifer estava tão metida que nem foi na entrevista, falou que só falaria com as TVs, na suíte dela, e logo eu não era de TV e não pude falar com ela. Mas o John Travolta estava lá, com todo o elenco, o pessoal que tinha feito na Broadway, e, quando ele desceu, ele foi dar autógrafo para as mulheres, que ficaram loucas, sem guarda-costas, e a Queen Latifah tinha cinquenta guarda-costas, passava de óculos escuros e não olhava nem para o lado, marrenta, mas para quê? Eu não entendo essa postura de certas pessoas. A Queen Latifah é legal, mas é marrenta. E o John Travolta não tinha nem seguranças. Você podia ir lá e dar uma rasteira nele, sair no jornal de todo o mundo, o cara que derrubou o John Travolta. Eu pensei: Pô vou fazer uma coisa aqui para ficar famoso mundialmente! (risos) Então, entrevistas em geral têm isso: há pessoas que não têm opinião, que leem as respostas prontas lá, as que são muito metidas e se acham o máximo e não são nada, e existem as pessoas que podem ser o que quiserem e não são metidas, são superlegais.

Qual é a melhor parte de ser jornalista?

A pior parte é que, cara, se você pensa em ter alguma coisa na sua vida com o jornalismo, seu carro próprio, suas coisas próprias, você não vai conseguir com jornalismo, a não ser que seja jornalismo de política. (risos). Teve até um cara que escreveu no blog, o André Gordirro que escreve na SET, “pô eu concordo contigo, eu moro com a minha mãe, meu pai que me deu o carro” (risos). Se você não tem sua casa própria, suas coisas próprias de família, você não vai conseguir com o jornalismo, vai ficar morando num buraco o resto da sua vida. A pior coisa é isso, se você pensa em dinheiro, glamour, não vai ser com jornalismo. A não ser que você vá para alguma coisa muito específica, aquele jornalista de política que vai para Brasília... O que eu mais gosto é que eu tenho acesso às coisas que eu gostaria de ter acesso desde os oito anos, o jornalismo me dá isso. Poder viajar para entrevistar artistas, ir a festivais, tudo isso eu faria, quer dizer, menos ir no Junket do John Travolta porque eu não conseguiria entrar (risos). Mas tudo que eu faço no jornalismo, faria pagando do meu bolso ou me desdobrando para ir num show, viajar em férias para um festival, ver todos os filmes que estão em cartaz. O jornalismo me dá isso. Você precisa disso porque é o alimento para a sua matéria, mas é uma coisa que eu já faria normalmente, eu não faço isso obrigado. Tudo o que eu faço nas coisas do meu trabalho que eu escrevo, eu faria normalmente, estaria lendo aqueles livros, aquelas revistas, vendo os filmes, ouvindo as músicas, só que eu sou pago para fazer isso e gostando de fazer isso. E, realmente, você tem que gostar para caramba de fazer jornalismo, porque, além de ser uma profissão que está encaminhando para o fim, paga mal.

Sem o diploma, são os interesses pessoais que vão fazer de você um bom jornalista?

Quando eu comecei, a Ana veio com essa opinião de que o jornalista não se faz com o diploma, tem que gostar, tem que botar a cara. No Globo, já teve uma campanha interna, que até o diretor geral apoiava porque ele não concordava que o jornalista tinha que ter diploma. Cara, quando ela me chamou para trabalhar na revista, eu aprendi mais lá em seis meses do que em um ano de faculdade, porque eu estava colocando realmente a mão na massa, estava vendo fazer a crítica, indo à rua, fazendo as coisas, foi o melhor estágio que eu poderia ter. Hoje, O Globo tem um projeto que não tinha quando eu entrei, que faz justamente isso, eles te levam para lá durante seis meses e tem tudo, coisas que eu nunca vi. Mas isso é para as pessoas saberem: “É isso o que você quer, você gosta desse negócio?” É legal. Acho que a pessoa sair da faculdade e ir direto para um lugar não é interessante, tem que ter uma fissura pelo que está fazendo, gosto pelo assunto. O principal de tudo é você gostar do lugar em que você está. O cara que faz futebol, realmente tem que gostar de futebol, que é uma coisa muito louca. O pessoal que faz esporte no jornal, eles realmente são loucos, não adianta o cara sair com o diploma todo certinho da faculdade. Tem um colega meu que sempre fala: “Se você ler a notícia de esporte da Folha e comparar com o Globo, a da Folha é relatório, não tem a menor emoção. Aos tais minutos não sei quem fez o gol, tacou para a esquerda”. Notícia esportiva não é relatório, tem que ter paixão, acho que muito mais do que em outras áreas. O que mais tem que ter paixão de escrever é o jornalismo esportivo. E é isso você tem que gostar, você não vai aprender na faculdade, se você não for assim naturalmente. Antes de começar a trabalhar, eu não fui ler todos os manuais de música. Não, aquilo já veio inerente, eu gosto de música, tem que crescer acompanhando aquilo. Então, hoje as gravadoras fazem isso. Nos últimos dez anos quem trabalha em gravadora não gosta de música, é gente formada em Administração, pessoas que nunca compraram um disco, nunca foram numa festa, nunca foram em lugar nenhum. Recentemente, no mês passado, teve um cara que eu adoro, um cara britânico, o Alan Mcguee, que tinha o selo Creation, lançou o Oasis, ele falou o seguinte: “Encerrei meu negócio, porque hoje em dia as pessoas com que trabalho não gostam de música, não tem a menor ideia do que eu estou falando, só pensam em cifrões, só pensam em projetos de marketing, música não é isso”. Ele fechou todo o negócio dele, se aposentou. Eu notava isso nas gravadoras. Quando eu comecei a trabalhar, todo mundo que trabalhava nas gravadoras era gente que teve banda, que ia a show, que já foi doidão nos anos 1970, e eles continuavam saindo na noite. Aí, nos anos 1990 e anos 2000, começou entrar esse pessoal de Administração, que iam direto da sala da PUC para lá sem nunca ter comprado um disco sabe, nunca ter juntado todo o seu dinheiro para comprar um disco raro, então essas pessoas não gostam de música, elas só gostam de números. Então ser jornalista, ir para um jornal para trabalhar assim, apenas sendo profissional do número, você está no lugar errado: você não tem alma, não tem paixão, não tem nada. Por isso, insisto, mesmo sendo uma porcaria, tem que gostar [risos].

O diploma deveria ser obrigatório?

Não. Em certas áreas sim, mas no jornalismo não. Cabe ao editor, alguém que é chefe, que está no comando, descobrir pessoas que ele acha que são legais, que tem o jeito para coisa. Conhecer, tipo eu conheço mais a Fernanda Prates, e ela tem um texto divertido. Ela escreve como fala, você lê o texto dela, você vê ela falando. É difícil para caramba você escrever assim, você ter uma fluidez, e isso o curso não vai te ensinar, você tem o jeito. Como editor, como cara que está pegando as pessoas que estão chegando, é isso que tem que ser observado, não é só o cara que sabe português 100%, porque ele nunca vai inventar uma bossa, nunca vai ter um ritmo, porque ele vai escrever certinho, sabe, ele nunca vai ter o jeito dele, estilo próprio, criar palavras ou termos malucos, ele vai sempre escrever certinho e é uma merda. Você não quer um cara que escreve igual o Guimarães Rosa. Por que a Ana me chamou? Porque ela pegou um pedaço de papel vagabundo, batido à maquina, e viu que aquele cara escreveu uma coisa diferente. Se eu escrevesse 100%, ela nunca teria me chamado, eu nunca estaria aqui. Estaria fazendo o quê? Porra, sei lá, turismo! [risos].