VILLAS-BÔAS CORRÊA
ENTREVISTA

Realizada por Angélica Bastos e Julia Penafiel

Revisada por Raquel Timponi e Maurício Duarte

Data: 06/2010

Vamos começar com seus dados pessoais.

Meu nome todo é Luiz Antônio Villas-Bôas Corrêa. Nasci na Rua São Francisco Xavier, número 27, no Rio de Janeiro, no dia 2 de dezembro de 1923. Isso quer dizer que eu tenho 86 anos completos.

Quais os nomes dos seus pais? Em que eles trabalhavam?

Meu pai, já falecido, chamava-se Merolino Raymundo de Lima Corrêa. Ele era de uma família amazonense, mas nasceu no Ceará. Era bacharel em Direito e foi jornalista no Rio de Janeiro. Seguindo o conselho de Virgílio de Melo Franco, mudou-se para Minas Gerais, onde foi delegado de policia, promotor de justiça, juiz e, por fim, chegou a desembargador.

Qual sua formação?

Eu estudei um ano em um colégio público ao lado de minha casa na Rua São Francisco Xavier. Logo depois, estudei todo o colegial e o científico no Instituto Lafayete, na Rua Hadock Lobo, que, naquele tempo, era considerado um dos melhores colégios do Rio de Janeiro. Fiz a Faculdade Nacional de Direito na turma de 1942, que se formou em 1947. No terceiro ano, fui presidente do Centro Acadêmico Cândido de Oliveira - CACO.

Qual foi seu primeiro contato com a política?

Minha mãe morreu com 33 anos, quando eu tinha 8 anos. Ela era muito bonita, a caçula da família. Foi uma tragédia familiar. Meu pai se casou pela segunda vez com Carlota Cruz de Lima Corrêa, que era filha de Artur Martins da Costa Cruz, fazendeiro em Cataguases e dono da Fazenda do Retiro. Foi lá que passei uma das melhores férias da minha vida, que ainda rendeu um livro de contos chamado Casos da Fazenda do Retiro, lançado pela editora Objetiva. São casos autênticos e também romanceados que vivi na fazenda. Desde os oitos anos vim morar com meu avô. A casa do meu avô era frequentada por, pelo menos, dois bacharéis, e eu nunca na minha casa ouvi uma única palavra sobre política. A não ser em conversas com meu avô, reminiscências do tempo em que ele esteve envolvido na política municipal de Angra dos Reis, onde ele nasceu. Só entendi isso quando cheguei na faculdade, onde ocorreu a minha descoberta da política. Por que não se conversava sobre política lá em casa? Porque não existia política. Só se conversava sobre política, naquele tempo, em casa de conspirador. Na faculdade, fui secretário e presidente do CACO. Fui também convocado durante a guerra para servir durante quase dois anos aqui na Fortaleza de São João, logo você está falando com um cabo de primeira classe.

Qual foi seu primeiro emprego?

Casei-me e meu primeiro filho Marcos nasceu. Nessa época, eu era redator de propaganda do Serviço de Alimentação da Previdência Social (SAPS) que dava refeições aos trabalhadores. Passei pela melhor fase do SAPS, quando Humberto Pelegrino Seabra Fagundes era o diretor. Humberto foi o maior diretor de serviço público que conheci na minha vida.

Então, esse foi seu primeiro emprego?

Na verdade, quando eu dei baixa do serviço militar, tratei de fazer concurso público para ser oficial administrativo do Estado. Eu passei e fui chamado. Até que meu sogro, Joaquim Bittencourt Fernandes de Sá, que trabalhava com Gustavo Capanema, me indicou esse outro concurso para o SAPS, como técnico ou redator de propaganda. Fazia revistas e organizava shows no SAPS com os cantores mais famosos da época.

Como e quando você começou no jornalismo?

Meu filho nasceu e eu precisava arrumar outro emprego. O meu sogro tinha sido um jornalista famoso, foi um homem maravilhoso e meu amigo até morrer. Ele era muito amigo do Cândido de Campos, que era o dono de A Notícia. Mas, nessa época, quem realmente mandava no jornal era Francisco Otaviano da Silva Ramos, que foi meu primeiro grande mestre no jornalismo. Meu sogro, então, mandou um bilhete para Cândido de Campos, informando que eu era bacharel em Direito e que estava querendo trabalhar em jornal. Assim, fui eu ao encontro do Cândido de Campos, que me mandou para o Silva Ramos. A Notícia, naquela época, era o jornal vespertino mais popular do Rio de Janeiro, que apenas perdia em circulação para O Globo. A Notícia ocupava um conjunto de salas muito pequeno num prédio na Avenida Rio Branco, próximo da Rua Sete de Setembro. Nessa época, se escrevia à caneta, que por sinal eram muito vagabundas. Encontrei com Silva Ramos e ele me comunicou: “Seu sogro disse que você é bacharel em Direito. Não quer dizer que você seja, necessariamente, analfabeto. Tira o paletó, senta ali e começa”. E ali se deu o curso de jornalismo mais rápido do Brasil: não demorou 3 minutos. Eu sentei e fiz a primeira nota que foi pequenininha e tenho até hoje guardada. Eu tive que reescrever um telegrama. Essa foi a minha primeira nota publicada e era sobre uma exposição fotográfica das catedrais inglesas.

Você lembra da sua primeira reportagem política?

A Notícia não tinha repórter político e era um jornal político. A manchete de A Notícia era um artigo, geralmente escrito pelo próprio Silva Ramos – que escrevia muito bem – ou pelo José Barbosa Pacheco, que foi um dos grandes redatores que conheci. Eu fui ser repórter “geral” e esse foi meu grande aprendizado. Fiquei deslumbrado por ser repórter, era um céu para mim. Mas fiquei como repórter geral por pouco tempo. Eu já tinha uns oito meses de jornal, quando virei repórter político. Fazia rigorosamente tudo no jornal. Se acontecia de repente um atropelamento na rua, eu ia lá cobrir. Eu era credenciado em praticamente todas as salas de imprensa do Rio, não que eu fosse sempre lá. Mas eu era sempre o quebra-galho, quando tinha uma crise. Eu fiz até as chegadas dos animais ao zoológico do Rio de Janeiro. Entrevistei até girafa e capivara. Um dia eu fui num endereço, ali na Glória, para cobrir um suposto suicídio, mas não tinha “boneco” nenhum. Não teve suicídio. Ali perto havia um hotel e, no fundo, tinha uma cabine telefônica para os hóspedes. Eu entrei e pedi licença para falar ao telefone. Quando entrei, um tipo alemão, de uns 30 anos, falava aos berros para Porto Alegre. Pelo que percebi, ele tinha vindo ao Rio para tentar vender uns dormentes para a Central do Brasil e chegou aqui e caiu numa rede de corrupção, que envolvia o então Ministro da Fazenda e um parente do Nereu Ramos, que era vice-presidente da República. O homem se chamava Ivo Borcioni, um nome que eu nunca mais esquecerei. Ele dizia ao telefone que no dia seguinte teria uma audiência com o general Canrobert Pereira da Costa, o ministro da Guerra todo poderoso naquela época, que chegou a ser candidato à Presidência da Republica. Esperei ele concluir a ligação, me apresentei como jornalista, disse que tinha ouvido sua conversa e que aquilo deveria sair no jornal. Então combinamos que eu iria com ele, como o seu advogado, até o Canrobert, e essa foi a única vez que usei meu diploma, pois nunca advoguei. E lá fomos. O Canrobert, inesperadamente, não só levou a sério esse Ivo Borcioni como anotou e disse - com todas as letras - que no dia seguinte levaria a denúncia ao presidente da República, que era Eurico Gaspar Dutra. Depois disso, levei o Ivo Borcioni para A Notícia para fazermos a matéria. Fiz a matéria retratando Borcioni e foi manchete principal de A Notícia no dia seguinte: “Gravíssima denúncia ao ministro da Guerra”. Foi uma complicação, porque envolvia o irmão do vice- presidente da República Hugo Ramos, o ministro da aviação Clóvis Pestana e ainda o diretor da Central do Brasil. A partir desse dia em diante virei repórter político. Ninguém me nomeou. Foi desse dia em diante que passei a fazer matéria política. Quem chegava muito cedo ao jornal aprendia a descobrir quem acordava cedo, por exemplo, o ministro Valladares desde as 7 horas da manhã já estava pronto para conversar. Eu conhecia uma coleção de pessoas assim. Comecei a frequentar a Câmara e, assim, virei repórter político.

Depois de trabalhar no jornal A Notícia, você foi para O Dia?

Eu fui para O Dia quando ele foi lançado, já com Chagas Freitas. O Dia foi vendido a Ademar de Barros, que era governador de São Paulo, e que o entregou a Chagas Freitas, que era um promotor público do Estado do Rio de Janeiro. Chagas Freitas tornou-se então diretor de O Dia. Fiquei no jornal até me aposentar. Cheguei a ser o número um da folha de O Dia. Comecei a trabalhar no jornal na década de cinquenta. Depois de certo tempo passei a só chegar na porta e entregar matéria. Fui trabalhar também no Diário de Notícias, que era um grande jornal. Depois, fui para o Jornal do Brasil e, ainda depois, para o Estado de São Paulo.

Existe algum caso que você lembre em especial?

Eu trabalhava para A Notícia e era muito amigo do Durval Cruz, senador do Nordeste pelo Partido Republicano - PR, também um desses que acordavam cedo. Durval Cruz de Artur Bernardes. Então, um belo dia eu tinha marcado de almoçar com ele na cidade, ali na Galeria Cruzeiro, que era pertinho de A Notícia. Eu liguei e ele me disse que tinha sido convocado pelo Bernardes para uma reunião do diretório do PR e eu não sabia do que se tratava e estava achando isso esquisito. O Partido Republicano tinha sede na Nilo Peçanha, um prédio meio antigo. Era um sábado chuvoso e tinha acabado o expediente em A Notícia mais cedo e, então, resolvi passar lá e ir lá conversar com meu amigo, ver que reunião esquisita era essa. A sala do PR era uma sala antiga e tinha um daqueles cabides velhos e lá atrás fiquei. Escutei Artur Bernardes com uma voz alta de quem estava indignado. Para vocês entenderem, era o seguinte: a União Democrática Nacional (UDN) e o PR fizeram uma aliança parlamentar e política no governo Dutra. Essa aliança foi para o buraco na sucessão que acabou no Getúlio. Os três grandes presidentes de partido: do PSD, o Nereu Ramos; o Artur Bernardes; e o Prado Kelly, da UDN. Foi uma fase de intensa articulação política. As reuniões eram secretas e eu não sabia onde ocorriam. Um dia eu desconfiei e telefonei para casa de um deputado, que era irmão do Nereu Ramos, Joaquim Ramos, e disse: “Aqui é do Ministério da Justiça, e o Senhor Ministro quer conversar com o deputado Joaquim Ramos. Onde que eu posso encontrá-lo?”. E me disseram que ele estava na casa do Nereu. Eu fui até lá e eles tomaram um enorme susto, porque o local fora descoberto. Foi um grande furo!

O Comando Parlamentar teve grande repercussão na época.Lembra-se de algum caso que o marcou?

O Comando Parlamentar era de A Notícia e de O Dia. Quando Chagas lançou O Dia, ele era governador do estado e o diretor do jornal era o Santa Cruz Lima, muito meu amigo. Chagas me chamou para O Dia. Lá o Santa Cruz me disse que política não era para o leitor do jornal O Dia e que eu devia inventar algo que rendesse umas matérias mais populares. Então, eu peguei um negócio que o Heráclito Assis de Salles já fazia em outros termos no Correio da Manhã. Heráclito era um redator fantástico e foi também meu amigo até morrer. O maior repórter de Câmara que eu já conheci. Ele fazia uma crônica para cada sessão da Câmara. Heráclito fez um comando com Café Filho, mas era negócio de “grã-fino”: Biblioteca Nacional, Instituto Osvaldo Cruz etc. Resolvi, então, fazer um comando parlamentar mais popular para A Notícia e O Dia. Eu levava dois ou três deputados ou senadores como, por exemplo, Gama Filho, Tenório Calvanti. Toda quarta-feira saíamos da porta de A Notícia, às nove horas da manhã, com um grande fotógrafo e ninguém sabia para onde iria. Eu que escolhia o tema e comunicava na hora. Corri favela e todas as coisas populares possíveis do Rio de Janeiro. Até que começaram a pintar denúncias. Um dia, resolvemos fazer um comando parlamentar na Ilha Grande, colônia penal. Saímos daqui – Gama Filho, Breno da Silveira e Tenório Cavalcanti – e foi uma dificuldade.Tivemos que alugar um barco de noite para chegar à Ilha e foi uma viagem longa. Chegamos lá às três da madrugada e, naquele tempo, a caderneta de parlamentar abria qualquer porta e foi como nós invadimos o local. Até que chega o diretor, que era um parente do Jango (João Goulart), e que acabou rodando no dia seguinte. Quando ele chegou, já tínhamos aberto todas as cadeias e vimos de tudo: imundice, muita gente numa cela só, denúncias de violência. Os presos contaram que iam para a cadeia numa barca, que tinha um porão, um fundo, onde eram jogados e em cima deles é que ficavam os guardas. Esse comando tinha coisas horríveis, como tem em toda cadeia. Eu fiz uma matéria que, no dia seguinte, repercutiu na Tribuna da Câmara. Essa foi uma matéria de grande sucesso.

Como foi trabalhar na Tribuna da Imprensa?

Eu convivia com Carlos Lacerda, jornalista que frequentava a Câmara e que, muito tempo depois, virou deputado. Ele tinha uma coluna no Correio da Manhã e era um colega nosso. Um dia, eu fui cobrir uma entrevista dele e ele me disse que ia lançar o jornal Tribuna da Imprensa e queria que eu fosse seu repórter. Eu disse que trabalhava em A Notícia e o Carlos disse que não queria exclusividade. Fui lá, mas não fiquei muito tempo. Não gostei muito. O Carlos, nesse tempo, estava exilado nos EUA. Peguei um tempo em que Aluísio Alves estava no jornal Tribuna. Fiquei um tempo lá com o Murilo Belo Filho. Fiz algumas matérias, não achei que acrescentava alguma coisa, então saí.

Em seu livro Conversa com a Memória, você fala que escapou da morte...

Eu escapei da morrer duas vezes. A primeira foi com o senador Salgado Filho, ex- governador do Rio Grande do Sul. Ele convivia comigo e era do PR, Partido Republicano do Bernardes. Um dia ele me disse que iria para São Borja, visitar Getúlio Vargas e me perguntou se eu queria ir. Nós marcamos. Iríamos em um avião fretado para descer em Porto Alegre e de lá pegar um avião até São Borja. Nesse dia, meu filho Marcos passou uma noite infernal com febre e chorando. Como eu e minha mulher éramos pais novos, demoramos a descobrir que era dor de dente. Eu liguei para o Salgado e avisei que não poderia ir por causa de meu filho. Salgado disse que entendia e disse que era “chilique de pai novo”. E, por isso, eu não fui. O Salgado foi e chegou a Porto Alegre.Lá estava com mau tempo. Um piloto fantástico, o Kramer, que era o que mais conhecia aquela região, explicou a Salgado que a chegada em São Borja era no “olho” e com o mau tempo seria muito complicado e muito perigoso. Salgado respondeu que não havia mau tempo para o ex-ministro da Aeronáutica. O avião bateu e morreram todos, e eu escapei. A segunda vez foi ainda mais estranha. Havia um deputado na Câmara, muito boa pessoa, do PTB, chamado Lúcio Bittencourt, de Minas Gerais. Ele era candidato sem nenhuma possibilidade ao governo de Minas. Um dia ele me chamou e disse que não estavam dando importância à campanha dele e que não sabia se iria se eleger, mas que daria um susto nessa gente. Argumentou que seus comícios eram muito grandes e se eu poderia ir com ele ao norte de Minas. Nós combinamos de ir na semana seguinte, mas ele foi antes e, quando lá chegou, já estava um “teco-teco” para levá-lo a uma outra cidade. Começou a escurecer, o avião começou a baixar muito para não se perder, seguindo o fio telefônico. Até que bateu: o avião incendiou e todos morreram.

Você trabalhou no jornal O Estado de São Paulo em quais anos?

Não me lembro ao certo. Eu trabalhava no Diário de Notícias e um dos meus companheiros lá era o Osório Borba, um grande jornalista. O Borba era cearense e era primeiro suplente de um deputado do Ceará e, de vez em quando, era convocado na Câmara e ficava uns dois a três meses. Quando ele entrava nisso, pedia para eu fazer a matéria dele para o Estado de São Paulo. Eu fazia e ficava indignado. Até que um dia Borba me disse que seria titular da Câmara e que sairia de O Estado e que me indicaria ao Rafael Correia de Oliveira, diretor da sucursal. E, assim, comecei a trabalhar lá.

Você foi o diretor da sucursal carioca de O Estado de São Paulo durante o regime militar. Como foi a experiência?

Se bem me lembro, já antes da ditadura era diretor da sucursal. Fiquei lá até me aposentar. O Estado de São Paulo nos deu naquela época um grande respaldo profissional. Primeiro: mandou a gente não obedecer à censura. O Estado de São Paulo não obedecia censura. A gente mandava todas as matérias e eles se quisessem que censurassem. Tem até aquela história que o Estado de São Paulo publicou fotos de flores e recebemos cartas de leitores que adoraram. Depois, publicamos duas vezes Luiz de Camões, porque a censura não deixava ficar em branco. Não tinha censor na sucursal e então trabalhávamos normalmente. Se eles quisessem que censurassem. Como era o jornal que estava enfrentando a censura, famílias que tinham alguém preso batiam lá no Estado e pediam para publicar uma notinha de 2, 3 linhas, dizendo que foi preso fulano de tal. Porque só com aquela noticia, dizendo que alguém foi preso, já complicava para o governo se a pessoa sumisse. Não impedia a tortura, mas pelo menos não sumiam. As notas não eram censuradas, porque a censura não tinha como saber quem eram aquelas pessoas que tinham sido presas. As notas eram só para evitar que as pessoas presas desaparecessem.

Quais as técnicas usadas para driblar a censura?

Não são todas as matérias que dão para você fazer esse tipo de coisa. Mas algumas davam. Por exemplo, eu sou muito grato nessa época ao Delfim Neto, que era de São Paulo. Delfim combinou que toda terça-feira ele viria ao Rio de Janeiro para encontrar comigo no Ministério da Fazenda. Ele sempre avisava quando vinha. Ele nunca me dava uma notícia de manchete, mas sempre dava uma análise política que, ajustada, dava para sair. As análises sugeriam crises no governo, dificuldades e coisas assim. Essas nunca foram censuradas e conseguiam passar. Eu nunca dizia que era o Delfim, a fonte não aparecia. Tinha que ser em off. Então, eu fiquei muito grato a ele. Tive outras fontes, como Aluísio Alves, um indivíduo que sabia tudo, e Magalhães Pinto também.

Existe algum caso que lembre em especial?

Na época, eu trabalhava na televisão, no Jornal de Vanguarda, do Fernando Barbosa Lima. Era um jornal revolucionário na época e improvisado. Havia um homem que falava com uma mãozinha, que na televisão tinha um efeito fantástico. A gente falava em pé, quer dizer, sentado em um banquinho sem encosto para ficar direito e ereto. Um dia Tarciso Olando entrou de porre no estúdio e caiu ao sentar no banquinho! O Jornal de Vanguarda acabou sendo comprado pelo Heron Domingues. Nessa época, O Jornal de Vanguarda era veiculado pela TV Continental. Eu morava na Rua das Laranjeiras e a TV Continental funcionava num prédio quase colado ao apartamento em que eu morava. Eu ia a pé ao trabalho. Aconteceu um dia em que os estudantes foram encurralados pelos militares no campo de Botafogo e o Marcelo, meu filho, estava nessa confusão. E ele foi preso porque disse, assim como um grupo de amigos que estudava Engenharia com ele, que era do IME para tentar sair da confusão. Por isso, ele foi preso e o Marcelo ao voltar ao IME recebeu represálias e pressão dos militares. Ele não aguentou e saiu da instituição.

Como foi a entrevista com o general Figueiredo?

Se há uma personalidade curiosa nesse mundo, talvez tenha sido João Baptista Figueiredo. Antigos generais, com os quais me relaciono muito bem, são unânimes em dizer que Figueiredo foi um cadete excepcional: primeiro aluno da turma, inteligentíssimo em todas as matérias, uma pessoa agradabilíssima de conviver, sempre bem humorado e brincalhão. O que houve na cabeça do Figueiredo ninguém sabe. Parece que foi um fenômeno médico, porque a cabeça dele virou pelo avesso. De repente, ele ficou esse sujeito irritadiço, mal humorado, marcava os dias que faltavam para ele deixar a Presidência, cargo que ele lutou a vida inteira para alcançar. Eu me dava muito com Golbery e o grupo ligado ao Figueiredo. E eles me conseguiram uma entrevista com o Figueiredo, no dia seguinte a sua escolha para a Presidência. Na matéria, eu reproduzi o diálogo entre Figueiredo e Geisel. Geisel chamou Figueiredo para ser seu candidato. Figueiredo respondeu: “Se for missão, eu aceito, e se for convite, eu rejeito”. Com esse diálogo, eu abri a matéria com a confirmação de Figueiredo como presidente. Foi uma enorme entrevista, muito boa. Ele estava amabilíssimo nesse dia. Eu terminei dizendo ao presidente: “Tenho receio de que na próxima vez que nos virmos, se o senhor se lembrar de mim, vai ser para mandar me prender”. Ele disse que era uma bobagem. E realmente não mandou me prender depois.

Você também atuou no telejornalismo?

Toda vez que o Fernando Barbosa Lima tinha programa, ele me levava. A Abertura durou pouco. Abertura era mais pobre porque até a instalação era ali no Cassino da Urca. Era uma sala ruim, material de gravação também era muito ruim. Durou pouco.

Quando você começou a trabalhar no Jornal do Brasil?

Fui trabalhar no JB quando o Odylo Costa, filho, foi ser chefe da redação.

Uma de suas reportagens que teve mais repercussão foi A Bomba Explodiu no Planalto, em 1981, sobre o atentado no Riocentro no dia do trabalhado. Como foi?

Eu era chefe de seção política do Jornal do Brasil. Isso foi em um sábado ou sexta-feira. Eu entrei na redação com uma matéria debaixo do braço para entregar e fiquei sabendo da história do Riocentro. O Marcelo, meu filho, mais uma vez estava metido lá dentro. Ia morrer muita gente lá. Fui para a máquina e fiz A Bomba Explodiu no Planalto. E foi um sucesso! Todo mundo falava! Porque, na época da censura, eu havia conseguido furar a censura. O que eu recebi de telefonema, telegrama e gente me abraçando na rua! Talvez tenha sido o artigo de maior repercussão que eu fiz na vida, porque eu fui o primeiro a furar a censura.

E no rádio, você trabalhou?

Eu trabalhei em dois lugares. Primeiro, no Jornal do Brasil, que era um prolongamento natural da coisa. Eu só lia as notícias. Eu receberia um salário mínino para subir um andar e dar um recado de dois minutos gravado. Trabalhei também na Rádio Nacional, quando o Café Filho era presidente da República e entregou a Odylo Costa, filho, a superintendência da Rádio Nacional. Eu e o Castello fomos intimados a fazer um programa político para Rádio Nacional. Naquela época, a Rádio Nacional correspondia, mais ou menos, ao que a TV Globo é hoje. Esse jornal era para entrar no jornal do Heron Domingues. Então, o Castello fazia todo dia uma folha de papel com um ping-pong para dois locutores falarem. E esse negócio era disputado pelos grandes locutores da Rádio Nacional, porque era um programa pequeno, mas de audiência. E eu fiquei com a incumbência de gravar uma entrevista por dia. Então, eu gravava na Câmara. Eu telefonava para a rádio e avisava que podia vir o equipamento de gravação, pois já tinha combinado com algum político a entrevista. O aparelho de gravação, naquela época, tinha quase o tamanho de um caixão de defunto e precisava de duas pessoas para carregar. Montava na sala que passou a ser “minha”, onde eu fazia sempre a entrevista.

Quais campanhas eleitorais você cobriu? Houve alguma marcante?

Eu acompanhei várias campanhas, teria que fazer outra entrevista. A do Jânio, por exemplo, eu fiz toda. Nesse tempo, o Estado de São Paulo estava com dificuldades e pediu que a sucursal do Rio cobrisse. Eu cobri, praticamente sozinho, e tenho hoje dele a mais repugnante lembrança.

Quais foram os momentos mais difíceis ou desafiadores da sua carreira?

Lembro de uma matéria que me deu um enorme prazer de fazer. Eu era antigetulista, como todo mundo naquela época. Eu hoje tenho outra visão dele. O Getúlio Vargas foi o camarada que transformou o Brasil numa nação, num país. Antes de Getúlio, o Brasil produzia apenas café, que não chega a ser nem sobremesa! É para depois da sobremesa! E, além disso, o café naquele tempo era altamente predatório. Hoje, eu não sei como é, mas, naquele tempo, café só dava em cima de terra virgem. Então, você tinha que desmatar para plantar café. E, depois, aquela terra virava pasto e um pasto muito vagabundo! Getúlio fez a ditadura para modernizar o Brasil. Agora, a ditadura foi horrível? Foi. A ditadura impõe a censura à imprensa. Sem a censura ela não se aguenta por causa da violência policial e da tortura. Getúlio foi para São Borja depois da ditadura. Quando chegou o fim do governo Dutra, começou a discussão política sobre a sucessão. E Getúlio continuava calado. Aquele tempo todo sem dar entrevista. Foi quando começou a romaria da turma, em São Borja, querendo o apoio de Getúlio. Eu ia sempre conversar com Danton Coelho, deputado, em seu escritório no Jóquei. Danton era a fonte do getulismo. Um dia ele me disse que iria a São Borja em um avião especial e me convidou para ir com ele. Eu aceitei, claro. Fui e chegamos lá na região pantaneira, com pampas a perder de vista. É um lugar pobre por conta das guerrilhas que passavam e destruíam as casas. A fazenda de Getúlio era uma fazenda paupérrima. Encontramos lá aquele sujeito muito gordo, sentado numa rede, com uma perna de cada lado, e aqueles pés gordos, culote e bebericando um uísque. O Danton foi conversar com ele e eu resolvi bisbilhotar a casa de Getúlio. Entrei no quarto dele. Olha, era um quarto de estudante pobre! Tinha uma cama de mola com um buraco enorme por conta do peso de Getúlio, um guarda-roupa muito vagabundo, que parece de segunda mão, cinco camisas mal lavadas, uns culotes muito vagabundos, uma cômoda com uma vitrola e uma coleção de discos do Pedro Raymundo, um cantor popular. Havia também uma pilha de livros. Getúlio foi um grande leitor, que deixou uma grande biblioteca. Ninguém sabia que ele falava francês, eu só fui descobrir depois. Os livros da cômoda eram todos dados por amigos. Um quarto de estudante pobre!

Existe algum jornalista político que tenha sido fonte de inspiração?

Carlos Castello Branco e Heráclito Assis de Salles.

Você defendeu a imparcialidade do jornalista político numa época em que os jornalistas não viam problema em apoiar determinado partido. Em seu livro Conversas com a Memória, o repórter político é sempre exposto às cobranças éticas. Poderia falar de momentos na sua carreira relacionados a questões éticas?

Eu acho, é uma posição pessoal, não cobro que ninguém faça isso, que o repórter político tem que ser necessariamente imparcial. Isso significa: não ter partido, não declarar em quem votou, não se expor a criticar um e elogiar outro. Você tem absoluta liberdade para analisar. Se alguém fez algo errado você critica esse sujeito, mas o repórter não pode possuir uma posição política. Não pode assinar manifesto, não pode ser candidato a nada, não pode ter partido e não pode dizer em quem votou. Eu não digo a ninguém em quem votei. Nem em casa! Porque, se eu disser em casa, vão espalhar. Mas isso é uma posição pessoal. Mesmo assim, duvido às vezes da minha imparcialidade. Essa visão foi amadurecendo lentamente. No começo, eu era udenista. Lacerdista nunca fui. Eu dizia em quem votava. Até que a maturidade foi me dando essa convicção. O repórter tem que ser independente. Senão ele é militante.

Você presenciou a modernização das redações? Como foi o processo?

Horrível! Um pavor! Acabaram as redações, não há mais redação. Você entra em uma redação hoje e está todo mundo sentado diante de um computador e na frente uma televisão ligada. Você está do lado do seu colega e, em vez de falar, manda um e-mail! Não tem mais conversa em redação. E a conversa é fundamental! No Jornal do Brasil, como redator político – também fui chefe da seção política – eu participava da famosa reunião das cinco, que era próxima da hora do fechamento quando todos os chefes de setores se reuniam com o Nascimento Brito. Então, era uma beleza porque, além da conversa que você tinha na redação, nessa seção você ficava sabendo tudo de importante que ia ser publicado no dia seguinte em todas as seções e, às vezes, tinha um assunto que se intercalava e se combinava com o outro repórter de trocar matéria. Havia a negociação de pautas entre eles. E hoje não tem mais isso. Você entra numa redação hoje e todo mundo fica sentado na cadeira, ninguém fala com ninguém. É um ambiente que cheira a mofo.

O que você tem a dizer sobre o surgimento da internet?

Eu uso a internet basicamente como instrumento de trabalho. Não tenho paixão pela internet. Nesse negócio de twitter, nunca entrei. A linguagem da internet é uma coisa que eu não sei escrever e não tenho nenhuma curiosidade. Eu uso muito a internet.

E o jornalismo atual?O que melhorou e o que piorou? O que te traz insatisfação?

Dizem que está morrendo. Morrendo eu não sei, mas agonizando está. O Globo, por exemplo, acabou de fazer uma enorme reforma para piorar o jornal. O jornal piorou brutalmente. Quando você precisa conquistar o leitor com matérias cada vez mais curtas, porque ele tem mais pressa, O Globo aumenta brutalmente o número de páginas. Uma página inteira sobre recados de leitores! Quem aguenta ler uma página inteira sobre recados de leitores? Não tem sentido. Eu acho que piorou o jornal. O Jornal do Brasil é um jornal que luta com dificuldades notórias e é o segundo jornal do Rio de Janeiro, a uma distância muito grande do primeiro. Quando comecei, o Rio de Janeiro tinha mais de 20 jornais entre matutinos e vespertinos, que eram duas categorias diferenciadas. Os matutinos iam para as casas das pessoas e tinham uma linguagem mais séria e mais pesada. Os vespertinos eram jornais para ler no bonde, quando você voltava para casa. E o bonde era um lugar ótimo para ler jornal, pois era aberto, fresco, andava no trilho, balançava pouco, as viagens eram longas, porque ele andava muito devagar.

Em períodos de forte luta política, o que o senhor defendia como essencial? E o que combatia mais veementemente?

Quando houve a Segunda Guerra, quatro ou cinco jornalistas do primeiro time foram cobrir a guerra. Inclusive meu querido amigo Joel Silveira, grande repórter, texto fantástico, que trabalhava com Chateaubriand. Chateaubriand disse a Joel antes de partir para guerra que ele não deveria morrer na Itália! Jornalista não foi feito para morrer na guerra, mas para mandar notícia. E, é isso que, para mim, significa ser jornalista. Ele é feito para escrever e mandar notícia. Não é para participar de campanha, nem nada disso. Eu participei de uma época em que isso não havia ainda envelhecido, embrutecido ou até mesmo emburrecido.

[Villas-Bôas Corrêa morreu aos 93 anos, em 15 de dezembro de 2016.]