WILSON FIGUEIREDO
ENTREVISTA

Realizada por Ana Paula Monte, Gabriel Vieira, Patricia Fiasca e Taysa Coelho

Revisado por Daniel Vivacqua e Maurício Duarte

Data: 06/2010

Você havia pensado em fazer medicina, então como foi que entrou para o jornalismo?

A história é a seguinte: meu pai era médico, morava no interior, e nenhum dos seus oito filhos quis ser médico. Minha mãe então quis me empurrar para a profissão desde menino, meu pai ficou lisonjeado. Só que eu era um péssimo aluno, não tinha nada contra a medicina, tinha contra o estudo! Primeiro, porque eu era míope e não sabia. Então chegava na aula e não entendia nada, não enxergava o quadro. Até que um dia eu levei uma bomba descomunal. Naquele tempo, o curso ginasial tinha cinco anos, e no quarto você tinha 13 matérias. Era um horror! Levei umas três bombas, e acabei repetindo o ano. Meu pai ficou com raiva, e me mandou para um colégio interno. Meu pai sentia em mim uma certa rebeldia. Nós morávamos em Uberaba, Minas Gerais, e ele me mandou para uma cidade do interior de São Paulo, chamada Orlândia. Só que lá era um verdadeiro paraíso, porque era um colégio misto. Fui ficando por lá, e tomei um gosto enorme pelos estudos, me tornei um bom aluno. O método de ensino era fantástico, tinha uma sala grande, livros de todas as naturezas, sobretudo literatura. Naquela idade, a gente não se interessa por política, mas por literatura. Aí comecei a ter esse pendor literário, porque é muito mais interessante que a ciência. De qualquer maneira, me formei depois de dois anos, voltei para a casa, prestei serviço militar, e depois meu pai me mandou para Belo Horizonte, porque achava que eu tinha uma namorada em Orlândia. Quando cheguei a Belo Horizonte, entrei em uma pensão de estudantes, todos de medicina. Eles estudavam dia e noite, e, quando chegava a época de prova, todos tiravam dois ou três em anatomia. Tinham uns cinco livros dessa matéria, todos em francês, velhíssimos. Aí eu pensei, ´ah não, comigo não!´, e comecei a cair fora, só que não tinha coragem de falar com meu pai e minha mãe. Mas quando vi que ia levar bomba outra vez, não esperei e busquei uma solução. Vi em um jornal a notícia de que quem quisesse estudar línguas ou filosofia e tivesse o quinto ano podia fazer vestibular direto para a recém-criada Faculdade de Filosofia. Eu era da última turma de quinto ano, aproveitei a oportunidade, estudei e passei. Aí comuniquei à família, que, no início, recuou, mas depois ficou tudo bem. Eu ouvia todo mundo falar que trabalhava em jornal. Então, no ano seguinte, fui tentar arranjar um emprego em algum jornal. Não consegui, mas fiquei na mira. Até que encontrei um dos jornalistas que veio a ser muito famoso, o Carlos Castelo Branco, talvez um dos maiores jornalistas brasileiros dos últimos 50 anos. O Castelinho resolveu me arranjar emprego e me chamou para trabalhar no Estado de Minas. Aí começou o jornalismo. O mundo estava em guerra, o Brasil estava em guerra, havia uma ditadura. Você vê todas as coisas se somaram, e, de repente, eu caio em um lugar em que recebia milhares de telegramas. Naquele tempo, era diferente, os jornais não eram como hoje, com vários meios de comunicação a disposição. Eles recebiam telegramas em linguagem telegráfica com as notícias, tudo em uma linguagem simplificada ao máximo. Isso já começou a me fascinar. Chamava-se tradução de telegramas. Você traduzia daquela linguagem telegráfica para uma linguagem mais objetiva e clara. E, muitas vezes, também tinha que reescrever, porque o princípio era assim. Um exemplo famoso: Stálin morreu. Isso vinha escrito em um telegrama. No próximo, vinha, Stálin morre essa manhã em Moscou. E assim ia, cada um acrescendo uma informação. Depois você pegava tudo e colocava em ordem, dava sequência. Mas na redação, chegava uma pilha de telegramas. Quando cheguei no primeiro dia de trabalho, tinha rolos e rolos de papel no chão, fiquei maluco. Naquela época não existia um curso de jornalismo. Fiz literatura e não jornalismo. Mas você entra nessa engrenagem, jornalismo é uma paixão. A guerra estava indo para o final, mas ainda faltavam dois anos. Já haviam tido as principais batalhas, mas todos estavam na expectativa do desembarque na Normandia. Isso tudo na cabeça de um jovem de 17 anos perturba. Isso foi crescendo dentro de mim, até que resolvi ser jornalista de fato. Eu trabalhava em jornal, escrevia, mas não era jornalista, não era uma profissão. Só que no mês que comecei a trabalhar, o Getúlio criou o salário mínimo por categoria. Os jornalistas passaram a ter salário próprio. E aí eu comecei a gostar, o salário ficou bom, meu pai me mandava algum dinheiro também. Então fui ficando, começando a gostar do compromisso, porque é uma matéria em que você acompanha a vida de todo mundo, vive a desgraça do outro, a felicidade, a aventura da guerra. Aquela fotografia famosa do pós-guerra é um exemplo. Depois da rendição alemã começou no mundo inteiro uma comemoração enorme. O sistema telegráfico das notícias demorava, mas, por causa do rádio, todo mundo ficou sabendo. Então no meio da Broadway um marinheiro dá um beijo em uma moça, e eles nem se conheciam. A multidão toda fica olhando, é o clima da comemoração. Isso marcou a minha vida, e eu não quis mais sair do jornalismo. Até o meu curso de Literatura, chamado Línguas e Letras Neo-Latinas, levei na flauta, sem problema nenhum. Não queria mais ser professor, queria continuar jornalista. Depois da instituição do salário mínimo, começou a se falar que o jornalismo ia virar uma profissão, uma carreira mesmo. E você diz “e aí?”. Aí é que nunca mais consegui sair do jornalismo. Meu sonho era sair, arranjar um emprego, mas não existe isso de um emprego, você faz o seu emprego.


Você saiu de Belo Horizonte e veio para o Rio de Janeiro. Como foi esse novo início?

Logo em seguida, quando acabou a guerra, veio a democracia no Brasil. Isso também foi um elemento que me fixou no jornalismo. Porque você acaba casando com o jornalismo, ele passa a ter certa prioridade. É uma maneira de ver a vida, de se defender, de viver um episódio. Você vê que quando um presidente da República briga com outro tem sempre um jornalista no meio, mas ele nunca está envolvido com a briga. Esse tipo de envolvimento é importante, como em qualquer outra profissão. O jornalismo nunca entra diretamente no fato, mas testemunha. É também uma forma de sofrimento, diferente, mas você vê a pessoa sofrer e acaba sofrendo também.

Como era fazer jornalismo na época do Estado Novo, com o temido Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP)?

Eu peguei esta situação já no final, porque o Estado Novo acabou inesperadamente, em fevereiro 1945, e eu entrei no jornal no ano anterior. Mas antes, eu já convivia com alguns jornalistas, como citei aqui, Carlos Castelo Branco, o famoso Castelinho. Então, eu via a limitação, a proibição em relação a alguns conteúdos. Certos assuntos não podiam ser noticiados, como Hitler e o fascismo. O Estado Novo tinha índole fascista, uma certa propensão ao regime. Tinha um censor – um jornalista contratado para fiscalizar – que frequentava o jornal, um jornalista contratado para isso. Hoje em dia, se algum profissional fizesse isso, acabaria com a carreira dele, mas naquela época era permitido porque o jornalismo não era uma profissão ainda. Era uma improvisação. A consolidação das leis do trabalho é de 1943, ou seja, o que o presidente Getúlio Vargas fez até aquela data foi reunido em uma legislação trabalhista. Até então, não era brincadeira, vocês não têm ideia. O comércio abria domingo porque não havia sindicato dos trabalhadores nem nada parecido e os comerciantes tinham essa liberdade. Era comum o dono de uma loja de tecidos abrir a loja e ficar lá na frente esperando alguém entrar e comprar. Era tudo muito solto: não havia direito de férias, não tinha nada. O começo disto no Brasil já foi uma revolução e começou na ditadura. Não que se fizesse por amor ao próximo, mas por saber que o país não podia mais continuar daquele jeito. A legislação era autoritária, mas, em contrapartida, oferecia direitos. O Estado Novo tirou o Brasil de um atraso enorme, mas para se impor teve que fazer censura, fechando Congresso, suprimindo liberdade. Foi este o Brasil que eu encontrei na época em que eu comecei a trabalhar e em seguida eu vi este país desmoronar.

E como era o jornalismo na época em que você começou a trabalhar nas redações?

O jornalismo carioca e brasileiro era antiquado. Desde o estilo do jornal às maquinas impressoras, tudo era do começo do século XX. A rotativa é uma máquina que apareceu no século XIX e foi muito importante, porque permitiu uma maior velocidade ao imprimir o jornal. Era um sistema que rodava e permitia imprimir várias páginas mais rapidamente. Isto mudou o jornalismo e foi a causa do seu sucesso no início do século XX. Em seguida, veio o Rádio. O jornalismo radiofônico é muito importante aqui no Brasil por causa da extensão do país e porque jornal [impresso], por aqui, era um veículo de pequeno porte. Naquele tempo, o Brasil tinha 60%, 70% de analfabetos, então, a publicação impressa tinha um público que significava apenas uma parcela diminuta da população. O Rádio preencheu essa diferença e fez um grande sucesso, por ser falado. O povo podia ouvir e aprender algo. O Rádio foi extremamente importante na divulgação do jornalismo. E hoje, há a televisão também. Claro que no jornal da televisão, para evitar que o sujeito se chateie e desligue ou mude de estação, é tudo rápido, sumário e indicativo, somente o que for de natureza emocional - como desastre, assalto - é prolongado.

Você trabalhou nos jornais Última Hora, de Samuel Wainer, e na Tribuna da Imprensa, de Carlos Lacerda, que eram inimigos declarados. Como foi essa experiência?

Eu trabalhei na Última Hora de madrugada, quando abandonei tudo e vim para o Rio, começar minha carreira em jornal aqui. O mercado de trabalho era péssimo em Belo Horizonte e deixei minha mulher grávida e três filhos por lá para vir tentar a vida aqui. Pegava qualquer oferta de dois, três dias de trabalho. Trabalhei tanto na Tribuna - onde era insuportável, fazia um calor horroroso - quanto no Samuel, em um momento em que já estava decadente, quando o prédio mudou-se para a Praça da Bandeira. O Samuel era fascinante, habilidoso, jeitoso. Lacerda também era fascinante, só que era o que a gente chama de “gênio do mal”, só sabia botar fogo, não sabia colocar água. Antes de falar sobre o Lacerda e o Samuel, os dois trabalhavam juntos em O Jornal, de Assis Chateaubriand. Eram amigos, próximos um do outro. Cinco anos depois, o Lacerda já tinha criado seu próprio jornal e uns dois anos após isto, o Samuel lançou o dele e aí que foram bater de frente. Mas antes de chegar lá eu gostaria de dizer o seguinte: foi o começo de uma modernização da imprensa brasileira. Não a modernização gráfica, ainda, porque, no pós-guerra, não havia como se investir nisso, já que eram outras as prioridades. Quando o Lacerda criou seu jornal, o fez para evitar o retorno do Getúlio Vargas, para combatê-lo antes que ele se candidatasse para voltar ao poder pelo voto. Quando Getúlio se elegeu, o Samuel já tinha criado uma relação casual com ele, porque foi entrevistá-lo a pedido de Chateaubriand, se não me engano, em uma quarta-feira de cinzas. Ficaram amigos e Getúlio brincava, o chamando de profeta, profeta bíblico do Velho Testamento e, então, deu na cabeça do Samuel de criar o jornal. Só que jornalista que fundava jornal naquela época tinha que trazer uma reivindicação, já que o jornalismo estava se tornando uma profissão. Tinha a reivindicação salarial, mas não tinha financiamentos para um jornal. O Getúlio financiou a criação da Última Hora e isto foi mortal para o Lacerda. O Samuel criou um jornal que foi uma revolução no Brasil, não apenas como jornalismo combativo. Ele defendia o presidente da república, mas atacava o governo, ou seja, os ministros. Atacava não, fazia críticas, denunciava. Ora, isto é uma revolução e nunca mais se repetiu, ninguém mais foi capaz de fazer isto até hoje. O Augusto Nunes - que organizou a autobiografia de Samuel Wainer, Minha Razão de Viver - podia corrigir algumas informação desencontradas do livro. Não é que estejam erradas, mas ele não conheceu o Samuel na situação em que foi criada a Última Hora. Aquele foi um Brasil que acabou ali. O suicídio de Getúlio foi o suicídio de um Brasil que não podia se repetir mais. O que não está na cabeça das pessoas é que houve uma evolução, que teve aspectos negativos como o fechamento de Congresso e a censura, mas foi necessário para termos tudo isso que temos. Naquela época importávamos até manteiga, para vocês terem uma noção.

Como foi sua experiência no Jornal do Brasil?

Quando eu cheguei ao Rio no dia 06 de janeiro, no chamado Dia de Reis, estava sem dinheiro no bolso, um horror, mas não tinha como ficar em Belo Horizonte. Então, deixei a família na casa do meu sogro e vim embora. Aqui, eu comecei a procurar emprego e não encontrava. Então, o Castelo Branco, que me arrumou o primeiro emprego na vida, arranjou para mim um aqui no Rio também. Ele era o secretário do Diário Carioca, um jornal político e disse: “O Odylo Costa Fiho vai começar uma reforma no Jornal do Brasil. Vou te levar lá”. Eu já tinha encontrado o Odylo uma vez, mas não tinha intimidade com ele. Quando eu fui ao JB, ele me disse: “Você está disposto a vir? Então você vai ficar aqui agora”. A redação do jornal era uma lástima. Tinha uma mesa central escura com dois metros de largura e oito de comprimento, uma coisa imensa, toda coberta de vidro, em que o sujeito sentava e não tinha máquina de escrever! Isso em 1957, já na segunda metade do século XX. O Jornal do Brasil estava fora de circulação. Era uma publicação que tinha sido fundada em 1891, logo depois da República. No final do século, ele perdeu a importância, sumiu e depois acabou virando “jornal de empregada”, porque só tinha anúncio, classificado de emprego. A primeira página era só de anúncio, um negócio inacreditável. Tinha um prédio de nove andares na Avenida Rio Branco, 110, construído quando abriram a rua. Era uma gracinha. Foi o primeiro da América Latina feito com estrutura metálica vinda da Inglaterra. O maquinário era do século XIX, quando rodava fazia barulho e acordava a vizinhança toda. Bom, entrei no Jornal do Brasil com mais outros dez, que também chegaram lá pra começar. Teve início assim a reforma do JB. Mas o motivo era pessoal: a dona do jornal, Maurina Dunshee de Abranches Pereira Carneiro, a Condessa, havia ficado viúva e foi aconselhada a mudar o periódico. Ela não sabia como e para isto chamou o Odylo, que era jornalista. Isto tudo foi criando um clima que motivou o JB a começar a reforma, que começou empiricamente, como se fosse uma brincadeira. Eu sequer sabia quanto ia ganhar. E não foi um dia, não. Meses depois eu ainda não tinha nenhuma certeza se iria receber, se a reforma iria continuar, porque ela era sabotada pelos jornalistas, que eram donos daquele “pedacinho de coisa“. Era um jornal absurdamente burocrático, não tinha notícias de texto, só informações. Não tinha jornalismo nenhum. O Odylo foi tentando e fazendo as mudanças durante os dois ou três anos em que se compatibilizou com a empresa, mas estava criando gastos, não via retorno. Claro, porque não se fazia jornal, ele não tinha razão nenhuma, continuava a vender pelos anúncios dos classificados. O Odylo saiu, vieram outros sujeitos e o jornal foi se arrastando até que o Alberto Dines entrou em 1962 e me levou de volta para o JB, porque eu tinha saído neste meio tempo. Aí já havia salário — que não era lá grandes coisas também —, horário, tudo direitinho e, assim, o jornal começou. Só que como o periódico não estava com credibilidade, tinha uma circulação baseada em oferta de emprego, em anúncio classificado. Era uma receita que entrava pela janela do jornal, que se pegava da rua. E assim, a publicação pôde fazer com calma uma nova filosofia de trabalho e deu certo. Deu certo porque como não havia compromisso, não se estava a serviço de política nenhuma, ele ficou livre para noticiar. Em dois ou três anos o JB começou a crescer e, então, começou a investir, a pagar melhor, além de o Dines passar a organizar o jornal, que deixou de ser uma brincadeira e passou a ser um empreendimento da empresa. E veja a ironia: fez isso, mas até certo ponto o jornal não poderia continuar onde estava. Então, compraram um terreno e fizeram um prédio na Avenida Brasil que, inclusive, ganhou um prêmio de arquitetura. Todo o edifício foi construído com a renda do jornal, o que é raríssimo. Em certo momento, o Jornal do Brasil teve que fazer dívida para importar vidro fumê e esquadrias de alumínio - porque naquele tempo o país não produzia. E logo depois, veio a inflação. Isso nunca se fala, mas foi a dívida e a inflação que liquidaram o JB. A dívida ficou maior do que o jornal podia pagar. Tanto que o prédio foi penhorado e, na falência, o jornal não recebeu nada, porque já tinha adquirido o dinheiro.

Como foi o episódio com Jânio Quadros, em que você antecipou a renúncia dele?

Aí entra um negócio no jornalismo que é uma certa irresponsabilidade minha [risos]. O Jânio tinha loucura por jornalistas. Se cercava deles para conversar, pela maneira de trocar ideias, pela informalidade do jornalismo. O jornalista conversa com uma certa leviandade. Se o Lula me chamar para conversar, eu sou capaz de defender uma coisa que eu não acredito, mas defendo só para obrigá-lo a falar, a se definir. O Jânio tinha umas manias, uns negócios... Ele ficou sete meses no governo. No terceiro, ele inventou um negócio que era o seguinte: “Vou ao Maranhão fazer uma reunião do ministério. Quais são os problemas que o governo federal tem lá?”. “Um porto aqui, uma estrada ali etc”. “Tá bom, esses ministros vão para lá”. Então fazia uma reunião, definia verbas... Era uma ideia boa. Desemperrar. Na época, Brasília era uma cidade muito nova, tinha só um ano de existência, então o pessoal do Jânio vinha correndo para o Rio. Aí, o Castelinho, que era o Secretário de Imprensa dele, chegou aqui e falou assim: “Vamos lá para casa almoçar! Vamos conversar sobre Brasília”. Sentamos todos, almoçamos, conversa aqui, bebe ali, um uísque aqui, outro ali, passamos a tarde toda. Eu saí feito um doido de lá depois e encontrei um sujeito... Eu tinha uma coluna na revista do Diário de Notícias, Mundo Ilustrado, em que eu fazia um comentário, e o Walter Fontoura trazia as informações que ele colhia na Câmara (embora ela funcionasse em Brasília, os deputados frequentavam a Câmara daqui, faziam encontros com a imprensa... Tudo era conversa fiada). Bom, conversa vai, conversa vem, alguém falou assim: “Aparecido, como é que foi negócio do Jango [João Goulart]? Ele [Jango] era brigado com o presidente e, de repente, sai numa missão do governo para ir visitar a China?”. Então, ele disse: “Eu vou contar para vocês, o negócio é o seguinte. O presidente chamou o Jango e disse: ‘Tá pensando o quê? Que vão me dar um golpe e me tirar do governo para botar você no meu lugar?! Você está enganado! Você não pode brigar comigo, só tem a perder. Você nunca vai ver isso, essa burguesia tem horror de você. Além do mais’ – O Jânio era enfático, só falava nesse tom – ‘se a minha cabeça for pendurada num poste, a sua vai ficar no poste ao lado’”. O Jango tinha um temperamento cordado, não era de briga e, então, aceitou o convite para representar o governo brasileiro na viagem à China. Me contaram isso. Eu até achei aquilo uma anedota boa e tal, esqueci. Saindo de lá, encontrei o Walter: “Wilson, amanhã você tem que entregar sua coluna lá do Diário”. “Ih, nem pensei nisso. Mas é amanhã?”. “É amanhã! Pelo amor de Deus, a minha parte já tá pronta”. “Então hoje à noite eu vou fazer”. E eu pensando: “O que eu vou escrever?”. Ah, aquela história... O que estava oculto nisso era o seguinte: a ideia do Jânio era de que, se ele fosse deposto, o outro não tomaria a posse. Então, ele poderia se dar ao luxo de cometer imprudências, né? Estava implícito nessa história. Isso saiu no dia 12 de agosto no Mundo Ilustrado e, no dia 24, o Jânio renunciou. Aí, só vi um deputado que veio assim: “Eu tenho aqui uma reportagem!”. E eu falei “Ih, agora quem vai para cadeia sou eu”. Quer dizer, foi uma certa leviandade, uma leviandade que é permitida. O jornalista tem que correr riscos. A coisa mais importante que eu fiz na minha vida, no jornal, foi essa novidade. Hoje, eu me dou conta: “Gente, era tão óbvio que ele poderia renunciar!”. Ele como candidato já havia renunciado várias vezes – “Não quero mais ser candidato!”. E depois voltava atrás. A renúncia era uma coisa compulsiva dele. O jornalismo tem um lado de aventura, tem um lado acidental e tem um lado que foi o meu, o da irresponsabilidade. Eu não tinha assunto, tinha que escrever e fiz o negócio do Jânio e acertei. Não tenho vergonha de falar isso, não, porque eu acho que o jornalismo também é uma leviandade. Uma vez, o Luís Paulo Horta, editorialista de O Globo, se desentendeu com a direção, me procurou e perguntou: “O que eu faço para ser editorialista do Jornal do Brasil?”. Eu falei: “A primeira coisa, para você ficar sério num jornal é ter que ser irresponsável. Porque senão você se amarra, fica com medo de todo assunto. Tem que ter um mínimo de irresponsabilidade”. Ele gostou e, quando tomou posse agora na Academia Brasileira de Letras, ele se lembrou disso. E é exatamente isso: você tem que ter coragem de arriscar. Eventualmente, é claro. Não é sempre. Tem gente que se arrisca a vida toda e se desmoraliza.

Como você vê o jornalismo atual, com a introdução das novas mídias?

Bom, o Jornal do Brasil está anunciando – ou insinuando – que vai parar o jornal impresso e vai vender só o jornal virtual. Eu acho que nunca acabará a coisa impressa. Por exemplo, o problema da internet – para que ela serve? É pela velocidade. Eu estou aqui, vi um sujeito morrer. Quem é esse cara? É o prefeito? Passo a mão e boto imediatamente na internet: “O prefeito morreu aqui na rua, na esquina tal...”. Em cinco linhas, está resolvido. Só que cinco linhas não resolvem. Tem que ser dez depois e vinte depois – dependendo da importância do morto, da notícia, do fato. Então, a tendência é se acomodarem as coisas. Este tipo de informação passa a ter uma circulação veloz, junto com ela o boato, a mentira. Tudo passa a ser usado, vale tudo. Como é que você vai impedir uma pessoa de usar a internet? Só um regime ditatorial, não tem como. Aí você acaba com a imprensa. O que é importante é que o jornalismo virtual ainda tem muito a ganhar, muito a se desenvolver. Ainda é um jornalismo de opinião, é um jornalismo de combate. Você pode xingar a mãe de quem quiser, pode denunciar, pode mentir. Vai ser uma coisa diferente. Eu acho que essa campanha eleitoral vai ter uma parte que — eu não gosto dessa palavra — mas é como se fosse um “esgoto”. Não que a internet seja feita para isso, mas vai ser usada para isso. O problema é: quem é que vai controlar isso? Não pode ser o governo. Então, teria que ser uma empresa. Mas você também não pode ter uma empresa só, porque aí você dá um poder excessivo a ela. Então, você vai ter várias formas de responsabilidade neste processo, e eu não sei como é que vai ser. Mas claro que isto vai em frente. Vai ser jornalismo de uma forma e jornalismo de outra. Os jornais vão mudar. O jornal já não vive mais da informação rápida, você não pode esperar amanhã para saber que o avião caiu hoje. Mas a televisão já tinha abalado isso e o rádio também. Vocês vão pegar o jornalismo eletrônico. Olha o exemplo do futebol, que tá dando um show aí. Não é a internet que tá dando show, é a televisão, que é também uma parente da internet. É aparentada, quer dizer, na maneira dela funcionar, 24 horas no ar. O jornal não, tem que imprimir. O jornal tende a ser a coisa do estudo, ninguém aguenta ler um artigo na televisão, não há quem ouça.


O que você acha da questão da obrigatoriedade do diploma para os jornalistas?

O diploma vai acabar voltando de fato. Porque o problema é o seguinte: o que os donos de jornal querem? No fundo, querem não pagar, terem colaboradores de graça. Só que você pode encontrar ótimos sujeitos escrevendo artigos, mas se não for um profissional ele não vai se submeter aos horários, ao tamanho. Para você escrever a coisa num tamanho, olha, eu com 60 anos, quase 70 já de jornal, levo o dobro de tempo para escrever uma quantidade menor de linhas. Porque você cria dimensões para pensar, para fazer, eu não posso ter mais do que um tema. Se eu for tratar dessa eleição é só dessa eleição, não posso fazer nenhuma comparação com nenhuma no passado, nem nada. Eu defendo o diploma, porque dá dignidade. Eu deixo de ser lavador de carro na rua para ter uma profissão. É diferente. Eu, como jornalista, sou obrigado a ser responsável, eu posso ser a favor do Lacerda ou do Samuel Wainer, mas eu não posso exercer isso. Claro, se eu for trabalhar no jornal do Samuel, eu tenho que ser Samuel, se for no do Lacerda, a mesma coisa. No sentido profissional, é você não se comprometer com o jornal que está sendo feito. Quanto mais você for isento, melhor. Eu acho que antes de morrer eu ainda vou ficar totalmente isento (risos). Mas no jornalismo, você tem que ser fiel à empresa. Agora, a sua responsabilidade também é pela matéria que você assina. E você só passa a assinar quando tem experiência, quando sabe onde está pisando.


Para finalizar, como você vê o comprometimento dos jornalistas com o veículo em que trabalham?

Esse é um drama do jornalismo e do jornal. Você não pode ter só (quer dizer você pode, mas é um empobrecimento você só contratar) jornalista que concorda com a linha do jornal e que se identifica com ele, como se fosse um partido político. Cria-se um compromisso ético e profissional que não é bom para o sujeito. Para o jornal é ótimo. Mas aquilo não dá à pessoa a credibilidade. Porque se você está em defesa de um lado, você está contra outro. Mas é do ser humano tomar partido, eu tomo partido até hoje. Mas a pessoa tem que ter cuidado na hora de escrever. Hoje, por exemplo, quando eu vou escrever sobre o Lula eu tomo o maior cuidado. Porque o Lula deu certo. Não vou entrar no mérito. Eu acho que ele deu certo por uma porção de acasos. Mas que foram plantados por ele, pela audácia que ele tem. Primeiro, o Lula não entende nada de governo, mas tem um bom senso extraordinário. O Lula, não que ele me agrade, mas ele tem que ser respeitado porque o que ele fez, ele passou a dar dinheiro, milhares de pessoas recebem dinheiro do governo. Isso é erradíssimo. Mas a pessoa passar fome é direito? Acho que ele está fazendo é um benefício, mas não é certo.