ZIRALDO
PERFIL

A atuação de Ziraldo Alves Pinto no jornalismo é marcada especialmente por suas caricaturas e charges publicadas nas páginas de jornais e revistas brasileiros em diversas épocas, além de sua emblemática presença no grupo que criou o jornal alternativo O Pasquim no período da ditadura militar.

O talento para ilustrações apareceu logo na infância, em sua cidade natal Caratinga (MG). Ele tinha apenas sete anos quando um desenho seu foi apresentado em um periódico pela primeira vez. Essa oportunidade foi dada pelo Folha de Minas, em 1939. Porém, o exercício profissional como cartunista só irá acontecer no Rio de Janeiro, na revista A Cigarra. Havia se mudado, em 1949, para a então capital do país com seus avós. Mas, em 1952, retornou à Minas Gerais, para dar início à uma faculdade de Direito.

Formado pela Universidade Federal de Minas Gerais, nunca chegou a exercer a profissão de advogado. Enquanto morava em Belo Horizonte, para fazer o curso superior, trabalhou em agências de publicidade e em veículos de comunicação impressos, como Folha de Minas e Binômio.

Em 1957, Ziraldo vivenciou duas grande decisões pessoais que redirecionam sua vida a partir daí: ele casou-se e mudou-se, de novo, para o Rio de Janeiro. Após um namoro de sete anos, uniu-se a Vilma Gontijo, com quem teve os filhos Daniela Thomas (diretora de cinema), Fabrízia (roteirista e diretora) e Antônio Pinto (compositor). Viveram juntos até a morte dela, aos 66 anos, no ano 2000.

O Rio é a cidade onde Ziraldo passou a maior parte de sua carreira. Seu primeiro emprego foi na revista O Cruzeiro, lugar que viu surgir seu personagem Pererê. Em 1963, foi contratado pelo Jornal do Brasil e, em 1964, passou a produzir cartuns para a revista Pif-Paf. Em 1967, começou a editar um suplemento no Jornal dos Sports, o Cartum JS. Trabalhou também nas revistas Visão e Fairplay.

Em 1968, auge da ditadura militar no país, fez parte do grupo que, em uma conversa de boteco, resolvera criar o semanário alternativo O Pasquim. Jaguar, Tarso de Castro e Sérgio Cabral foram os jornalistas e ilustradores que compartilharam a ideia naquele momento. A primeira edição, publicada em junho de 1969, também contou com a colaboração de Millôr Fernandes, Prósperi, Claudius e Fortuna.

Nos anos 1990, Ziraldo também foi criador de publicações de cunho satírico e teor crítico: Bundas, revista de conteúdo político e cujo título ironizava a Caras, que é preocupada com a vida de celebridades; e a revista Palavra, que procurou abordar temáticas da arte fora do eixo Rio-São Paulo. Em 2002, procurou relembrar as experiências da mídia alternativa na publicação do jornal OPAsquim21.

Além da trajetória no jornalismo, é preciso destacar as múltiplas frentes de trabalho de Ziraldo como artista ilustrador e como escritor. Produziu histórias em quadrinhos tipicamente nacionais, sobretudo quando esse tipo de entretenimento era traduzido de gibis americanos; assinou um painel na parede da casa de shows carioca Canecão; elaborou cartazes de filmes da produção nacional. Em 1969, foi o primeiro latino-americano convidado para fazer o painel anual do Unicef. Nesse mesmo ano, Recebeu, também, dois prêmios: na Bélgica, levou o Oscar Internacional de Humor, e na Venezuela, o Merghantealler, reconhecido prêmio da imprensa da América Latina.

Na seara da literatura, escreveu uma extensa bibliografia para o público infantil, obra que serviu de inspiração para peças de teatro e até para uma ópera. Seu personagem mais famoso é homônimo de um livro que nasceu nos anos 1980: O Menino Maluquinho. Vale lembrar que, nessa época, Ziraldo já fazia sucesso entre as crianças (e os adultos) com outros livros, por exemplo, Flicts, a história de uma cor que procurava seu lugar no mundo. Este, em particular, já havia sido traduzido para diversos idiomas (inglês, espanhol, francês, italiano, entre outros).

Octagenário, Ziraldo continua desenhando, recebendo prêmios, participando de feiras literárias e concedendo entrevistas, como a realizada pelo Memória do Jornalismo Brasileiro, que você confere aqui neste site. Ele tem seis netos e casou-se novamente, com Márcia Martins.

ENTREVISTA

Realizada por Carolina Drago, Larissa Rangel, Lorena Ferraz e Lucas Conrado

Revisão e edição: Fernanda Lima Lopes

Data: 06/2010

O que você tem a dizer sobre sua infância? Como ela marcou no seu trabalho?

A minha vida é toda resultado da minha infância. Na verdade, a vida de todo mundo é resultado da infância. Eu estava relendo Brás Cubas, do Machado, e lá estava escrito que “o menino é o pai do homem”, e essa frase diz tudo. Eu tive uma infância muito rica e posso dizer que era um menino fora dos padrões, porque eu desenhava, lia, era atento a tudo, até às noticias da guerra.

Seus pais te incentivavam?

A minha mãe me exibia muito. Meus pais eram duas pessoas simples do interior, mas eles sempre me deram espaço para expor a minha criatividade. Nós éramos muito pobres, então eu desenhava nas paredes ou em papéis quaisquer. Minha mãe, quando vinha da padaria, passava o papel de pão a ferro e fazia um caderninho, já que não tínhamos tanto dinheiro, e na cidade nem havia lojas para comprar caderno, porque eu morava no interior de Minas. E toda a minha família me incentivou muito a desenhar e a escrever. Minha família era muito grande, eu tinha nove tias, e todos me incentivavam. Deve ser por isso que eu fiquei tão machista e gosto tanto de mulher, porque eu era o sobrinho e o neto mais velho, era muito mimado.

Você acha que, por ter tido uma infância humilde, aprendeu a lidar com as adversidades e batalhar pelo futuro profissional?

Não era uma infância humilde, não éramos ricos, mas tínhamos uma família estruturada. Meu pai tinha muita consciência da necessidade da nossa alimentação e educação. Eu tomava um bom café da manhã, comia muitas frutas, tínhamos todos os remédios, inclusive calcigenol – pra crescer forte. Eles tinham muito cuidado com os filhos. Eu me lembro de que quando vim para o Rio estudar, minha irmã me ligou para avisar que meu pai tinha comprado uma geladeira, a primeira. Isso foi bem tarde, eu sei, mas porque meu pai prezava pelo mais necessário. Mas sei que eu era um privilegiado, só que a gente só tinha o que era realmente importante.

Há algum livro que você leu quando criança, que te marcou mais?

O gibi foi que marcou muito, dentre todos os livros. No livro Menino Quadradinho, eu conto isso. Meu pai comprava muitos livros católicos para a gente. Eu achava lindo, mas se hoje cair na minha mão, eu sei que é uma coisa horrorosa. Mas era colorido e eu achava lindo. Dos livros do Monteiro Lobato eu também gostava muito. Antes do gibi, eu li um livro que falava da mágica e eu achava lindo, sonhava em ser mágico e acabou acontecendo uma mágica na minha vida.

E quais eram os livros que você mais gostava de ler, ou os gibis?

Quando eu descobri o gibi, estreava um herói chamado Titã e eu me encantei. Mas, ao todo, eu conheço mais de 100 heróis de história em quadrinhos.

Você primeiro quis ser desenhista ou escritor?

Primeiro, eu descobri que queria ser desenhista de história em quadrinhos, não outra coisa. Tinha um pintor na cidade que via meus desenhos e elogiava. Eu era o menino que desenhava na cidade, eu já era um menino famoso. Mais tarde, eu já tinha descoberto Millôr Fernandes, a revista O Cruzeiro e me encantava cada vez mais. Eu vim para o Rio para ser desenhista de história em quadrinhos, cheguei aqui e não tinha oferta de emprego, porque todos os gibis eram importados. Como eu desenhava, acabei trabalhando com agências de publicidade, que foram uma grande escola para mim. Como não tinha escola de quadrinhos e meu pai sonhava em ter um filho doutor, voltei a Minas para me formar em Direito. Ganhei um anel, mas nem sei onde está.

Do que sente mais saudades?

Eu não tenho saudade da infância, não. Porque a vida é uma coisa para frente. Sentir saudade é ser um pouco neurótico. “Ah, que saudade que eu tenho da aurora da minha vida (...)”, saudade só na música. Eu gosto muito de voltar à minha cidade, mas não gosto de ir para lá com saudade, só para lembrar mesmo. A vida foi vivida e eu ainda tenho muitos projetos. Agora, eu tenho saudades da minha mulher que morreu, Vilma. Eu me casei de novo, mas chamo a Márcia de Vilma o tempo todo. Eu me casei, é claro, adoro a minha esposa, mas a Vilma está sempre no meu coração. Mas eu também não tenho preocupação com o final da vida, não. Morrer faz parte do destino e eu já estou no lucro. Eu tenho meus amigos, meus netos. Meus filhos estão bem criados.

E como é a sua relação com os netos?

Eu sou um avô de “merda”, mas tenho uma alegria imensa em conviver com eles. E adoro isso em ser avô: eles chegam, mas depois vão embora. Eu não tenho muita paciência com criança. Gosto de conversar com adulto. É, sim, uma alegria sair com eles, quando eles vem me visitar, mas só isso.

O que o motivou a escrever Flicts, seu primeiro livro infantil de sucesso?

Quando fiz o Flicts, em 1969, eu já tinha publicado a Turma do Pererê, em 64. Eu fazia charges e cartuns na imprensa e tinha um personagem chamado Jeremias, O Bom, que eu publicava no Jornal do Brasil. Na época, eu também publicava a Supermãe. Quando levei o Jeremias, O Bom à editora para tentar fazer um livro, eu tinha separado uns cartuns do Jornal do Brasil, e me perguntaram se eu não tinha um livro infantil.Eu, na época, era artista gráfico, e vários artistas gráficos europeus e americanos já tinham usado o seu desenho para fazer livro infantil. A minha turma – Jaguar, Fortuna, Claudius – era muito primorosa, e o livro para criança permitia que a gente fizesse um desenho primoroso. Então, quando pediram o livro, eu disse: “Tenho, sim, mas preciso passar a limpo”. “Não, mas eu queria rápido, você não tem pronto?” “Não, não, eu tenho pronto!” “Então traz segunda-feira.” Era uma sexta. Até então, eu tinha só a intenção de um dia ilustrar um livro colorido para criança.

E como surgiu a ideia de falar sobre uma cor?

Eu voltava para casa e não tinha o livro. Pensei: “Como é que eu vou levar o livro segunda-feira, ilustrado, como esses álbuns chiquérrimos dos desenhistas franceses?” Agora o Brasil está cheio de ilustrador fantástico: Roger [Mello], Mariana Massarani são uns dos melhores do mundo, mas naquela época ainda não tinha. Foi quando tive a ideia: “A não ser que eu fizesse um livro sem ilustração. Mas então eu vou escrever para criança? Pior ainda: escrever é mais difícil que desenhar! Então eu vou contar a história de uma cor”. Pronto, quando cheguei em casa, eu já estava com o livro na cabeça.

E a reação da editora?

Quando cheguei com o livro na segunda, foi um rebu: “Nooossa!”. O editor saiu e disse: “Eu quero o melhor papel!”, e todos fizeram uma festa para lançar o Flicts. Fui para a Feira do Livro em Frankfurt, onde também foi o maior sucesso. Vendi o livro para a Inglaterra, Dinamarca, Itália, Espanha...

A partir daí, você continuou escrevendo para criança?

Quando voltei, pediram: “Faz outro livro”. Mas aí veio o AI-5 [Ato Institucional no 5] e eu pensei: “Não vou fazer outro livro, agora eu vou brigar contra a ditadura”. [NOTA DA EDIÇÃO: O AI-5 veio em 1968, antes do lançamento do livro]. Aí larguei a ideia de ser autor infantil e fui fazer política mesmo, no JB e no Pasquim. Passei toda a década de 70 fazendo isso. No fim de 70, veio a Anistia e o jornal O Pasquim perdeu um pouco o sentido. Eu estava trabalhando para a editora Melhoramentos, fazendo capa de caderno e outras coisas gráficas, quando de novo perguntaram se eu não tinha um livro infantil. Então eu fiz o Menino Maluquinho, em 80, que fez ainda mais sucesso que Flicts. Eles me encomendaram outros livros, eu fui fazendo, e minha vida passou a ser de autor para criança. Eu virei autor para criança com 47 anos, e foi a coisa mais importante da minha vida.

De onde veio a inspiração para fazer o Maluquinho?

Sei lá, isso não tem explicação não. Eu fui fazer uma palestra para pais e mestres – naquela época, a turma do Pasquim fazia muita palestra sobre atualidades – e acabei falando sobre tudo. Comecei a falar sobre como se criava filho e sobre essa minha teoria que menino tem que ser feliz enquanto é menino. Que você não tem que preparar seu filho para o futuro, porque o futuro é feito de muitos “hojes”. Hoje é hoje, amanhã é hoje depois de amanhã é hoje, domingo vai ser hoje. Então você tem que ser feliz é hoje. Foi quando me perguntaram: “Por que você não escreve isso num livro?” Aí eu pensei em colocar isso como motivo no livro. Mas se eu colocasse um motivo, ficaria muito chato. Aí esqueci do assunto e, um dia, fazendo a barba, veio o Menino Maluquinho. “É, Menino... Maluquinho... Maluquinho não é maluco, “inho” não é um sufixo de tamanho, é um sufixo de ternura”. Só no Brasil. Nem em Portugal é assim. Só nós brasileiros sabemos que ‘maluquinho’ não é um maluco. Mandei para o editor em julho e a Bienal era em agosto. Ele disse: “Pelo amor de Deus, faz esse livro em 15 dias!”. “Não, mas eu ainda tenho que amadurecer o texto.” “Não, você ‘tá’ maluco! Faz o livro que nós vamos publicar na Bienal ainda!” E enquanto teve Bienal, mandaram rodar o livro. De agosto para dezembro, o livro vendeu 6 mil exemplares. Então me encomendaram outro livro, e eu fiz outro livro. Só uma distribuidora comprou 50 mil exemplares. Eu gosto do livro, mas essa coisa do sucesso não tem muita explicação.

E quanto aos outros livros, depois do Menino Maluquinho?

Todos os livros que eu escrevi depois do Menino Maluquinho, quer dizer, nem todos, mas eles não tem essa coisa da chama. E a gente não sabe explicar o que é a chama. Uma Professora Muito Maluquinha é outro livro que também tem chama. É o segundo livro meu que mais vende. Mas eu não queria usar o “Maluquinho” nos meus personagens para não usar o sucesso do adjetivo. Eu fiz Uma Menina Chamada Julieta, que é um pouco da “Menina Maluquinha”, mas não vai fazer o sucesso do Maluquinho nunca. Não tem explicação. Ele também já virou ópera, filme, peça de teatro. Talvez ele e o Flicts sejam as peças infantis mais representadas no Brasil. Eu nunca fiz peça de teatro, são adaptações minhas. Nesse momento, aliás, tem 4 ou 5 Maluquinhos em cartaz no país.

Você prefere escrever para criança ou para adulto?

Não, eu não escrevo para adulto. Eu tenho um romance na cabeça, mas acho que nunca vou sentar para escrever. Escrever romance é muito envolvente, não dá para fazer nas horas vagas. Ou você se dedica profundamente, ou esquece. Eu tenho muito discernimento, não vou querer fazer um romance nas horas vagas.

O que você vê de mais especial em escrever para criança?

O retorno, é muito gratificante. Mas também tem o outro lado, você tem que ver a quantidade de mãe que vai com o filho e leva o livro dela para eu autografar. Metade daquela fila [da Feira do Livro Infantil e Juvenil, no Rio de Janeiro, em junho de 2010] é de pai que leu meus livros. Eu autografei hoje uns 30 livros de 30 anos. O escritor dura muito tempo, fica na vida do leitor.

Você tem algum projeto para o futuro?

Eu tenho um projeto de descansar, parar de trabalhar como eu trabalho e escrever um romance. E também já pensei em pintar, mas não sei se eu termino a minha vida romancista ou pintor.

Quanto tempo você leva para pintar e desenhar?

Tem desenho que eu demoro três dias fazendo. Hoje é mais fácil que antigamente, porque não preciso me preocupar tanto com acabamentos, já que os faço no computador, apesar de ainda trabalhar com tintas. Antigamente, quando eu tinha que fazer uma paisagem, eu desenhava várias flores. Hoje eu desenho apenas o fundo, pinto as flores e aplico no computador.

Você tem algum personagem preferido?

Não tenho um preferido, mas tenho um que me deu muita alegria, que foi o Menino Maluquinho.

Para você, qual é a tendência do jornalismo atual?

Agora, a tendência é todo mundo fazer literatura. Acabou o lead. E isso é lógico, porque a informação está em toda parte, e pressupõe-se que os leitores esperam encontrar textos mais reflexivos nos jornais. Mas, aqui no Brasil o pessoal ainda não compreendeu isso. No [jornal] El País, por exemplo, só tem textos de altíssima qualidade, é fácil você reconhecer um bom texto em espanhol, em inglês é mais difícil. A volta da matéria assinada, do texto autoral são as características do novo jornalismo. Quando cheguei ao jornalismo, os parâmetros eram o lead, com os quatro “Ws”: Who [quem], what [o quê], when [quando] e why [por que], e a impessoalidade, numa clara influência da escola norte-americana de jornalismo. Havia, ainda, um resquício do jornalismo intelectual, por isso, todos os jornais tinham os seus cronistas, como Rubem Braga, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Sérgio Porto, Rachel de Queiroz e muitos outros. A grande literatura brasileira era exercida através da crônica jornalística. A imprensa dessa época era muito formal. A partir da Ditadura Militar, em 1964, houve uma revolução na imprensa brasileira, principalmente com O Pasquim, que tirou “a casaca e a gravata” da redação. Quando O Pasquim começou, os jornais se referiam a outros semanários da mesma cidade como hebdomadários da mesma praça. A atual tendência do jornalismo é fruto da própria dinâmica da vida contemporânea. No Brasil, acontece uma coisa muito engraçada. A Folha está fazendo a revolução dela agora, mas as transformações são apenas formais. Do ponto de vista do conteúdo, ela é um jornal muito ruim. Hoje, a Folha é o jornal mais comunicativo do país, ela substituiu o Jornal do Brasil, que nem existe mais. O JB pautava a vida no Brasil, era uma coisa muito poderosa. Tenho uma saudade danada do Jornal do Brasil, não gosto nem de ir lá. Engraçado esse negócio do conceito de saudade, acho que está na hora de começar a escrever um pouco sobre isso. A saudade, o amor e a paixão são temas muito bons.

Você sente saudades dessa época?

Sinto saudades de algumas épocas. O Rio era muito interessante e a gente nem percebia. Eu venho de uma vivência, em que, se for parar para pensar, ocorreram muitas transformações. Na primeira vez que fui à Europa com a minha mulher, tínhamos 10 anos de casados e todo mundo achava que estávamos em lua de mel. Lembro que ficamos num hotelzinho em Paris, do tipo que não existe mais, não tem mais essa coisa do hotel pessoal. Eu e a Vilma éramos um casal muito bonitinho. Depois fomos para Roma e, como teríamos que voltar a Paris para pegar o avião para o Brasil, deixamos as malas e as compras nesse hotel. Na Igreja de São Pedro, em Roma, estava acontecendo uma benção do Papa para recém-casados. Quando chegamos lá, fomos abordados por um italiano. Ele disse:­­–­­­­­­­ La iscrizione [a inscrição]. Perguntei: ­­­­­­­­­­­­­­­­– Ma che iscrizione? [qual inscrição] Ele perguntou: ­­­­­­­­­– Tu non è sposato [você não é casado]? Respondi:­­­ ­­– Sì claro. Ele disse: ­­– Non ha iscrizione [não tem inscição]? Respondi: ­­­­– Non. Ele disse: ­­– Mio Dio, entrare. [Meu Deus, entrem]. E nos colocou ao lado do Papa. Estava cheio de casais feios, nós éramos os mais bonitinhos. Quando voltamos para o hotel, em Paris, nosso quarto estava todo enfeitado, tinha flores e uma champagne. Hoje, não há hipótese de isso acontecer. O que quero dizer é que a vida era mais romântica, os casais tinham as suas canções e dançavam juntinhos. Mas isso não quer dizer que as pessoas podiam ser mais felizes naquela época, do que possam ser hoje. Elas podem ser infinitamente mais felizes do que eu fui. Para você ver a diferença, na minha terra, lá em Minas, quando dava dez horas as moças iam para casa, e eu e meus amigos comunistas, da turminha mais intelectual, íamos para a zona. Todo mundo tinha namorada na zona boêmia. Não podíamos comer a mãe dos nossos filhos, elas tinham que casar virgens. Mas o ser humano não mudou nada, sofre pelas mesmas razões, fica alegre pelas mesmas razões. As coisas que fazem mal são humilhação, abandono, carência, e as que fazem bem são afeto e carinho.

Você foi preso durante a ditadura militar. Você poderia falar sobre essa experiência?

Eu já respondi isso tantas vezes. Foi um susto, claro, mas aquela revolução não era séria, foi uma bagunça. Vocês têm que ler o Elio Gaspari, ele escreveu com uma estranha isenção. Porque ele trata aqueles caras como se eles fossem pessoas respeitáveis. Aquilo era um bando de incompetentes, que resultaram no Dunga. É por isso que eu gosto mais do Maradona. O Dunga tem o Augusto Cury como guru, que é o que há de pior.

Qual o legado que O Pasquim deixou para o jornalismo?

É muito difícil definir, não existe apenas um fator, é um conjunto de coisas. Eu posso fazer outro Pasquim hoje e não acontecer nada, como eu fiz o 21 e não deu certo. Do ponto de vista da forma, principalmente, O Pasquim criou esses 300 chargistas que o Brasil tem hoje. Hoje todo o jornal do Brasil tem um chargista, e, isso não existia antes do Pasquim.

Qual foi a importância de Dom Helder Câmara naquela época?

Eu fui a Paris e tinha um show dos Rolling Stones e outro do Jorge Ben Jor. Não teve mais gente no show dos Stones que na palestra de Dom Hélder [Câmara]. Todos os jornais de Paris divulgaram a palestra e uma multidão foi ouvir Dom Hélder falar um francês muito carregado de sotaque. A Ditadura Militar conseguiu uma manobra diplomática para ele não ganhar o Prêmio Nobel da Paz. Eu vi um embaixador brasileiro se vangloriar disso, certa vez. Eu vi.

Como você avalia a infância e educação de hoje?

A escola é que piorou. A escola brasileira não aprendeu a lidar com o livro, a escola do século XIX era severa, mas preparava as crianças para a vida. O mundo progrediu e a escola hoje só ensina a consumir, não ensina para a vida, a instruir sobre coisas gerais.

Como a escola poderia melhorar?

A coisa que eu acho mais impressionante é a nossa involução no ensino. Nos séculos XIX e XX, você tinha quatro anos formais para se preparar para receber educação. Você aprendia a ler, escrever e contar e só assim estaria equipado para fazer tudo, não foi algo arbitrário. Aí você aprendia, no colegial, álgebra, gramática francesa, francês, ciências, eram mais quatro anos de aprendizado. Depois escolhia se estudaria Exatas ou Humanas por mais três anos. Como não havia como fiscalizar as escolas, o aluno fazia um simulado para ir para a Universidade. Hoje não existe mais primário, ginásio e científico. Hoje se jogam nove anos para o menino estudar, sem ritos de passagem. Até nas sociedades mais antigas se trabalha com ritos de passagem. Acabaram com essa forma e não equiparam o ensino para isso.

Como é sua relação com computadores?

Ainda uso minha máquina de escrever. Quando vou usar o computador, chamo minha digitadora e o meu “mouse-man”. Eu não consigo usar o mouse. Quando eu pego o mouse, não consigo imaginar nada, eu fico sem noção, eu morro. Prefiro usar o Tablet – mesa especial para fazer desenhos no computador.