CARLOS RUAS
ENTREVISTA

Realizada por: Ana Paula Goulart, Igor Sacramento e Alice Mello

Data: 13/07/2013

Transcrição: Amanda Prado

Edição: Andréa Santos e Maurício Duarte

Qual o seu nome, local e data do seu nascimento.

Carlos da Silveira Ruas, 17 de agosto de 1927, Rio de Janeiro, pertinho da Lapa, na Evaristo da Veiga, número 22.

Qual era a atividade dos seus pais?

Meu pai, Alfredo Carneiro Ruas, era caixeiro viajante, e a minha mãe, Olímpia da Silveira, era doméstica. A minha mãe faleceu quando eu tinha três anos de idade. Faleceu no Rio de Janeiro, e o meu pai tinha dois filhos, eu e um mais velho, com quatro anos. Como ele tinha família em Portugal, resolveu ir para Portugal, para nos criar junto à família, em vez de ele ficar com duas crianças no Rio de Janeiro. Eu fiquei lá até os 17 anos. Peguei esse sotaquezinho que a pessoa que não sabe que a minha descendência é portuguesa, fica perguntando se sou paulista, ou gaúcho, porque ficou um sotaque meio...

Você, então, retornou ao Brasil?

E fui ser vendedor justamente da casa Miranda de vidros e papéis, que era do meu padrinho e era estabelecido na casa em que nasci, na rua Evaristo da Veiga, 22. Fiquei lá durante uns três ou quatro anos, mas tive um pneumotórax espontâneo e fiquei com medo de ser uma coisa realmente grave, no pulmão. O meu padrinho me mandou para Portugal. Felizmente era espontâneo, não foi muito grave. No fim de três meses, visitei a família e voltei de novo para cá. Quando voltei, tive como companheiro de viagem um cara que trabalhava na Kodak portuguesa e veio transferido para a Kodak brasileira, que era ali na Rua Araújo Porto Alegre. E como ele era da Kodak e entendia de fotografia, passei também a gostar. Naquela época o SESI fazia umas excursões até Miguel Pereira, onde ele tinha um hotel. Então ia sair daqui do Rio uns dois, três ônibus com comerciários, e ia até a Curvello, em Miguel Pereira, quando a gente passava lá o fim de semana. E eu clicava. A turma começou a gostar das fotos, eu dava as fotos. Achava interessante, eu dava. Mas começou a pesar no bolso e eu passei então a cobrar. Daí, gostei do negócio. Esse cara, o Henrique, tinha uma namorada aqui em Niterói, e eu acabei vindo para Niterói e namorando a irmã da namorada dele. E acabamos montando um estúdio fotográfico em Niterói.

Você tinha quantos anos?

Eu devia ter por volta de 25 anos.

Mas você tinha outra atividade, além da fotografia?

Não, já estava exclusivamente por conta da fotografia.Então, tinha o estúdio e a parte de vendas, máquinas, essas coisas. Não tive durante muito tempo, mas durante uns três ou quatro anos. Aí, comecei a fotografar particularmente. Todo mundo gostava das minhas fotos. Modéstia à parte, eram fotos realmente boas. Eu inovei na fotografia, fui o primeiro em Niterói a fotografar com luz natural, então dava aquelas sombras bacanas e o pessoal gostava. Passei a fotografar e o pessoal me achava muito simpático, muito agradável. Não sei se eu era, mas fui crescendo, até que comecei a fazer fotos exclusivas, inclusive do Clube Central, que era o clube aristocrático de Niterói. Então, passei a ser exclusivo do Central. Todas as festas só eu fotografava. Comecei a mandar as fotos para os jornais, com texto e legenda. Comecei a gostar também de escrever. Então, a turma gostava. Nas festas, fazia a foto, texto e legenda e mandava como freelancer para os jornais. Hoje, a gente manda para as colunas sociais. Já naquela época eu fazia isso, eu mandava para as colunas sociais e a turma adorava. Então, gostavam muito que eu fosse, porque tinha a fotografia e o texto de graça. Naquela época, não se cobrava nada, hoje um colunista social fica rico em cinco fotos. Eu estou trabalhando até hoje porque não consegui fazer fortuna, porque tudo era de graça. Comecei no jornalismo, nos jornais de Niterói e comecei a escrever colunas sociais.

Em quais jornais o senhor trabalhou?

Fiz coluna social no Diário Fluminense. Niterói, antes da fusão, quando era a capital, tinha seis jornais diários. O mais antigo era O Estado, que era das empresas incorporadas ao patrimônio da região. Tinha A Noite, na Praça Mauá. A Rádio Nacional e A Noite Ilustrada, que era a Manchete da época, onde eu tenho várias reportagens. Tinha o Diário Fluminense, que foi um jornal que nasceu na época para apoiar o Roberto Silveira, governador. Diário do Comércio, A Tribuna e O Fluminense, todos jornais diários. O Diário do Povo era considerado a imprensa marrom da época. Então, com cinco jornais, era espetacular. Os profissionais tinham onde trabalhar. E, além disso, duas revistas sensacionais, a revista Atualidade e a Guanabara Fluminense. E tinha dois semanários sensacionais, o Correio Fluminense, do Silvio Fonseca, que fundou a seção fluminense de jornalistas, e A palavra, que era um semanário fluminense político. Niterói estava completa, em termos de imprensa, não faltava nada. Então, comecei a fazer coluna social na revista Atualidade, e fiz em algumas colunas de jornais mais esporadicamente. Depois, com mais eficiência e diversos anos, no Diário Fluminense. Aí, fiz no jornal O Estado, mas, quando Getúlio Vargas morreu, o jornal acabou, assim como todos. A Noite, A Noite Ilustrada, o resto acabou tudo. Quando veio um cara, um empresário que comprou O Estado. Eu também fiz coluna social no Estado, mas onde eu fiz durante muito tempo e me aposentei foi no jornal O Fluminense. O Fluminense é o principal de Niterói, o jornal dos classificados, um jornal que sobreviveu, tem 135 anos, é o quarto jornal mais antigo do Brasil. Vários jornais vieram para Niterói, jornais cariocas, para acabar com O Fluminense e não conseguiram. A última Hora, O Diário de Notícias. Tem mais um que eu não me lembro, O Globo... Foi o único que sobreviveu, mas não tirou o classificado fluminense, tradição é tradição. O Globo Niterói foi o único que sobreviveu, os outros acabaram. Ficaram aqui um ano e pouco, mas não deu, fecharam as sucursais e foram embora. O Globo não, embora não tenha sucursal, mas tem um suplemento, aos sábados e domingos, sobre Niterói, O Globo Niterói. E foi o único que conseguiu dividir os classificados com O Fluminense, que continua forte com os classificados até hoje.

Você tinha, então, uma coluna diária no Diário Fluminense?

Sim, mas um colunista d’O Fluminense, chamado Alarico Maciel, pediu demissão irrevogável por carta. Aí Alberto Torres, diretor e deputado estadual, muito meu amigo, tinha comprado O Fluminense e solicitou se eu podia fazer a coluna, já que eu fazia no Diário Fluminense. E curiosamente agora me lembro, eu tinha saído do Diário Fluminense e já estava n’O Fluminense fazendo uma coluna sobre homens e negócios. E fazia alguns textos-legenda e a coluna homens e negócios, duas vezes por semana, uma coisa assim. Aí o colunista Alarico Maciel pede demissão, e o Alberto Torres: "Ô Ruas, você que conhece o high society todo de Niterói, que já fez coluna social, você assume?". Eu digo: "Olha, eu assumo se ele não voltar. Se ele voltar, eu não assumo, não". Ele disse: "Não, eu já procurei ele por todo lado, foi irrevogável, não encontrei, e ele não volta, você pode assumir". Aí eu assumi a coluna e fiquei até me aposentar. Fiquei durante 35 anos em O Fluminense, onde eu fiz coluna social durante 25 anos, mais ou menos, numa época em que era eu aqui e o Ibrahim Sued n’O Globo. Fomos os dois magnatas do colunismo social. Para onde ele era convidado, eu era também. Cruzei muitas vezes com ele no Rio de Janeiro e fiz muita reportagem. Fazia no Rio, porque O Fluminense também fazia muita coisa no Rio. E n’O Fluminense, então, eu me desenvolvi no jornalismo. Tive um bom professor, que foi o Alberto Torres, que era um jornalista sensacional, e uma correção fantástica do português. Ele corrigia diversas vezes, era um cara do português maravilhoso.

E depois?

Aí, d’O Fluminense, eu viajei quase todo o Brasil, porque eu tinha a vantagem de escrever e fotografar. Então, naquela época, não havia todo esse dinheiro de hoje, tudo era muito apertado no jornal. Eu viajei quase todo o Brasil, porque eu ia sozinho. Fotografava e produzia a parte escrita, então ficava mais econômico para o jornal. Viajei por quase todo o Brasil, em eventos muito importantes. Me lembro, vamos dizer assim, de convenções, autódromos, inaugurações. Fazia teste com os carros nacionais — geralmente davam um carro para cada jornal, como fazem até hoje, com os jornais que têm coluna de automobilismo. Então, O Fluminense era convidado e eu ia fazer os testes dos carros. O Fluminense foi uma escola de jornalismo, e, além do jornalismo, eu atuei em vários setores. Porque depois da coluna social, eu fiz também publicidade, eu tinha a carteira número 1 d’O Fluminense. Eu tenho na minha carteira de trabalho: "Jornalista, publicitário e relações públicas". Isso, sem nunca frequentar a faculdade. E fazendo as três profissões. Ficava doido, porque era eu sozinho fazendo um monte de coisas. Inclusive, na Associação Brasileira de Relações Públicas, eu fui diretor, fui candidato a diretor nas eleições. Tive um prestígio muito grande na época, mas tudo passou, foi uma época maravilhosa, uma época de ouro, mas acho que hoje eu vivo das lembranças. E graças a Deus a maioria delas ainda está na cabeça. Então, fazia Relações Públicas aqui no O Fluminense, até hoje sou muito pontual nos meus negócios, eu marco no horário e chego no horário. Por quê? Porque no jornal eu fazia uma coluna diária e não tinha assessor. Hoje os colunistas têm dois ou três assessorando eles. Eu fazia a fotografia, o texto, a publicidade para o jornal e ainda fazia eventos, onde ganhava uma grana boa. Quer dizer, então, eu ficava doidão. Uma vez, atravessando uma rua de Niterói, de carro, veio um carro e pum, deu uma trombada. Aí descemos, ele já veio meio furioso para cima de mim. Quando vimos, era um colega do jornal A Tribuna. "Pô, Ruas, como é que você foi fazer isso e tal?". Porque a minha cabeça saía cheia para o jornal, então eu ia ao volante e tinha que estar com ela na rua. Aí conversarmos: “Como é que vai ser”. "Não, cada um fica com o seu prejuízo e tá tudo bem. E também tem o seguinte, você não respeitou o sinal, tem que respeitar o sinal". O cara foi embora e, no dia seguinte, ele falou: "Ruas, paga pelo menos o meu paralamas, porque eu passei lá e não tem sinal, não". [Risos]. "Não tinha sinal, você que avançou...". Tudo bem, paguei para ele. Naquela época, eu inaugurei as filiais dos grandes bancos. As filiais que vinham para Niterói, eu inaugurava quase todas. Desde a fitinha simbólica à polícia militar para ver o trânsito, o coquetel, tudo o que era necessário em uma festa, que os promoters fazem hoje. Eu era promoter há 50 anos. Fazia tudo, o cara só vinha de banho tomado para inaugurar a loja. Encontrava tudo mastigado, tudo prontinho. Isso era uma das profissões em que eu ganhei bastante dinheiro. Fiz relações públicas para diversas casas comerciais de Niterói, também era um setor em que eu atuava muito bem, o jornalismo e a publicidade.

Você falava sobre sua longa atuação no colunismo social. Como eram as colunas sociais da época?

Em Niterói, o colunismo social era um negócio muito importante porque, na época, não existia a televisão. Não existiam grandes eventos. Eram os clubes que faziam as festas, por sinal, algumas espetaculares, porque eles decoravam os salões com o tema da festa. Então, a gente ia para onde? Para os clubes. Naquela época, tinha miss comerciária, miss bancária, miss da primavera, miss das rosas, miss... Tinha até "missegura". [Risos]. Era miss que não acabava mais. E miss estado do Rio e miss Niterói enchia o Maracanãzinho, enchia o estádio Caio Martins, era uma festa sensacional. Tudo isso e, principalmente, os clubes e os jantares, que a high society dava. O colunismo se desenvolvia nisso. Os jantares que a high society dava e convidava os colunistas. Nem sempre... Convidavam os colunistas que agradavam mais. As festas nos clubes com temáticas sensacionais, as festas de misses, tinha o Caio Martins que ficava lotadinho. Aí, naquela época, o Caio Martins tinha acabado de inaugurar. Tinha cozinha e hospedagem para elas ficarem. Então vinham as misses do interior e ficavam hospedadas no Caio Martins. Era uma das coisas mais bonitas da época. Então era um negócio sensacional. O colunismo se desenvolvia nisso, nos movimentos sociais da cidade, que eram muitos na época por falta justamente da televisão.

E como era a linguagem? Tinha muita fotografia, notas pequenas?

Não. Desenvolvia a linguagem como nas colunas de hoje. Era muito parecido, não muda nada. A linguagem era a mesma, só tinha um negócio que hoje não se usa, que eram aquelas palavras mais rebuscadas.

Em 1952, você começou na Revista Lusitânia e, depois, em 1954, foi para O Estado. Esse é o período da crise do governo Vargas. Como isso repercutia em Niterói?

Exatamente. Muito, olha, foi um negócio espetacular, sensacional, porque a gente passou um sufoco aqui danado. Eu me lembro que um dos sufocos maiores foi quando nós estávamos no jornal O Estado. Eu, o diretor Alberto Torres e quase toda a turma do jornal. E o sindicato de jornalistas era um edifício em frente. Então, o presidente do sindicato dos jornalistas e a turma daquela época era uma turma da pesada E vinham para a janela do edifício, e nós estávamos também na janela do jornal. Daqui a pouco: "Nós vamos descer, varrer todo mundo aí, vamos botar fogo nesse troço". E a gente estava apertado, né? Eles estavam gritando para nós o que iam fazer. Felizmente, se não me falha a memória, a tropa de Minas desceu e abafou o negócio que estava ficando preto. Essa tropa acabou com a brincadeira, encerrou esse troço todo e nós saímos aliviados do jornal. Foi um grande sufoco que passamos no jornal, porque eles iam atacar. O diretor, Alberto Torres, não saía do jornal e nós não íamos deixá-lo sozinho, estávamos solidários com ele, né? Essa é que é a verdade.

O sindicato defendendo a posição getulista?

Defendendo, exatamente. Criando um clima pesado, como hoje esses vândalos nos encontros. E o sindicato naquela época era da turma da pesada mesmo, como sempre existiu a oposição. Eles queriam realmente massacrar a gente, porque o jornal O Fluminense era um jornal da direita.

Era lacerdista, não?

Eu era. Fanático. Larcedista mesmo. Tenho vários discursos, jornais da época. Eu era fanático pelo Lacerda.

E você tinha atuação política também?

Não tinha, mas vibrava com a política. Minha parte era mais social, mas, antes do social, fiz tudo no jornal, desde a geral, do crime, do esporte. Fiz tudo que você possa imaginar. Fui um jornalista completo. Tanto é que eu fazia na época revistas e jornais para clubes onde fui diretor. Sozinho fazia isso, com a maior facilidade, porque eu percorri todos os setores do jornal. E outra coisa que me engrandece muito também é que eu comecei no jornal montando letra por letra. Depois veio o linotipo, máquina de escrever, o computador. Passei por tudo isso. E, se não aprendesse a mexer em computador, ia embora d'O Fluminense, porque O Fluminense deixou a máquina de escrever e passou para a computação. Eu passei por tudo isso. Estou com 85, vou fazer 86 e tenho essas gratas recordações do jornalismo, porque tudo o que houve no jornalismo, fiz ou passei. Isso é muito bom, isso é muito grato. São recordações muito felizes, você vê as transformações, isso é um negócio fantástico.

Você também participou um pouco da TV Tupi. Quais as diferenças e como que era o trânsito entre o impresso e a televisão?

Eu era uma espécie de correspondente de Niterói na TV Tupi, no Aerton Perlingeiro. Eu fazia um resumo das notícias da semana e ia para o programa dele aos sábados, um almoço com as estrelas. Isso foi, mais ou menos, década de 70. Eu fazia um resumo das notícias e ia para o programa dele e apresentava não só o noticiário, como fotos, ou então levava as personalidades ao programa dele. Era um programa muito divertido, porque também era o pioneirismo da televisão. Foi o início da televisão, praticamente, então foi uma experiência muito boa.

Que lembranças você tem do Aerton Perlingeiro?

Do Aerton, tenho boas lembranças porque era um cara muito esforçado. Era aquela época difícil que eu passei, e ele passou também, porque ele tinha que fazer também a publicidade do programa dele, que arranjar os patrocinadores, essa é que é a verdade. Então, além de ele fazer o programa, ainda ia à caça dos patrocinadores. Sempre o achei um cara muito alegre, muito divertido, muito entusiasta. Ele falava dos assuntos da televisão e do jornalismo com muito entusiasmo, e isso entusiasma os outros também. Isso leva um entusiasmo muito grande a quem está sendo entrevistado, ou a quem rodeia ele. Por isso, gostava muito dele, porque, além de divertido, ele era muito entusiasmado pelo jornalismo e pela televisão.

Você fez colunas sociais em vários jornais. Tinha alguma diferença entre eles? O que você destacaria?

Tinha, porque, nessa época, já havia um jornalismo sério, mas havia um jornalismo muito amador. Acontece o seguinte, teve jornais de Niterói, por exemplo, o jornal O Fluminense, que nasceu para apoiar o Roberto Silveira, então era um jornal mais político. O Diário do Comércio, como o próprio nome indica, era um jornal que apoiava mais o comércio e a indústria de Niterói. Eram jornais que também tinham a coleira atrás da publicidade porque a concorrência era muito grande. Às vezes, faziam um jornalismo meio desonesto. O Fluminense não, ele sempre foi um jornal chamado sério, um jornalismo tradicional e sem picaretagem.

Pode dar algum exemplo dessa desonestidade?

Posso dar, é um pouco desagradável, mas, por exemplo, a imprensa marrom. Alguns jornais, naquela época, atacavam a indústria, ou o comércio, ou o governo, simplesmente para levar vantagem. Não havia outro motivo para atacar, a não ser ir lá beijar a mão. "Eu vou parar, mas custa tanto. Acho que aí tá resolvida a coisa". Era a imprensa marrom daquela época, porque hoje não existe praticamente imprensa marrom, a imprensa hoje é grandiosa, cresceu muito. Então os conchavos são feitos de outra maneira. Os conchavos hoje são de Roberto Marinho ao presidente da república, quando o Roberto Marinho era vivo. É outra coisa. Samuel Wainer com o governo... Naquela época a coisa era mais baixinha, era mais comércio, indústria, governo também. Mas feita de maneira medíocre. Então, a diferença era essa.

Você falou que O Fluminense era mais profissional.

O Fluminense era o jornal mais profissional e sempre foi o chamado jornal conservador. Jornal que não admitia fofocas e sensacionalismo absolutamente, porque senão botavam na rua os jornalistas. Então, não admitia nem sensacionalismo nem fofoca. E muito conservador. E quando saía nas páginas, a pessoa se sentia ofendida, ia lá e falava. Mas raramente acontecia isso. Era muito conservador mesmo. E o Alberto Torres estava ainda n’O Fluminense antes de ser conservador, e depois que passou para o Alberto Torres continuou também. O Alberto Torres era um cara muito direitista, muito certo. Uma carreira não só como deputado, mas também como jornalista, não gostava de sensacionalismo. Ele tinha pavor de sensacionalismo. E se fizessem fofocas ou alguma coisa que não estivesse dentro dos parâmetros ou conceitos...

Como que era a presença do Alberto Torres no dia a dia do jornal, ele acompanhava tudo?

Sim. Como ele era político, ele não queria ser surpreendido às vezes com uma matéria que pudesse até ser contra ele. Essa é a verdade, porque ele era deputado estadual. Então, era o seguinte, todo dia à tardinha ele ia ao jornal. Todo dia à noite, antes de as matérias irem para a oficina, ele gostava de ver as principais matérias. Ele olhava todas elas antes de descer para a oficina. E, olhando as matérias, corrigia todas em função do excelente português que ele tinha. Mas ele dava uma olhada sempre no que ia descer para a oficina, principalmente as matérias políticas.

Como era a linguagem fotográfica na época? O que mudou na maneira de fotografar?

Olha, a maneira de fotografar mudou muito em função da tecnologia. O restante não. O modo de fotografar é o de menos. Agora, outra coisa bacana é que eu venho de uma época do tungstênio. Era o pozinho que botava em cima de um tripé. Uma base, tinha uma vara, né? E botava aqui o pozinho branco, o tungstênio. Não, perdão, tungstênio é o que tem dentro da lâmpada. Ai, meu Deus. Me falha o nome agora. A cabeça já está falhando alguma coisa. Bom, era um pó branco que colocava na base, o cara segurava e o outro ficava na máquina. Naquela época, demorava muito para tirar fotografia porque tinha que colocar os caras bonitinhos na foto, porque não podiam tirar uma segunda foto. Uma segunda foto só uma hora depois. Que aquela porcaria fazia uma fumaceira quando dava uma explosão. Era o flash da época. Quando dava a explosão, fazia uma fumaceira desgraçada e só uma hora depois é que podia tirar outra foto. Por isso, os fotógrafos da época arrumavam tudo: “Ô, você aí, chega mais para cá”. Quando era um grupo, então, o grupo era um desastre, para arrumar todos do grupo direitinho. E você vê nas fotografias antigas que os grupos eram todos ali 100%. Que o cara subia no banquinho, descia do banquinho, arrumava para cá, arrumava para lá, sobe mais a pessoa, desce mais, por causa dessa fumaceira que fazia. Depois vieram as lâmpadas do flash de tungstênio, mas eram umas lâmpadas grandes, quase do tamanho de um copo. Você colocava uma lâmpada em cada bolso, então botava quatro lâmpadas e enchia os bolsos. Depois veio a lâmpada ovo de pombo. Do tamanhozinho do ovo de pombo, aí você já enchia os bolsos com uma porção de lâmpadas. Depois, então, veio o flash eletrônico, que você carregava na tirinha, a tiracolo. Quer dizer, os primeiros eram enormes, e foram diminuindo até chegar a isso que está aí. Essa tecnologia é o que diferenciava a foto da época.

Desenvolvimento de filmes mais sensíveis?

Sim, havia filmes que você tinha que revelar com muito cuidado. Tinha que usar o fotômetro. Já na época do filme, você tinha que usar o fotômetro. Eu usei muito. E o fotômetro da época manipulava tudo isso. Hoje não, hoje tem laboratórios particulares. Naquela época, você é que fazia tudo. Eu fazia tudo. Os jornais já tinham o laboratorista, mas você ajudava muito também. Nos jornais, tinha o laboratório e o cara que fazia. Mas em casa, tinha o laboratório. Tive durante muitos anos um laboratório em casa. Fazia tudo na fotografia. Mas a diferença era essa. Era o filme para o digital e também o flash. Mas o resto era tudo igual.

Como cronista, você deve ter tirado fotos e entrevistado artistas e pessoas famosas. Como foram essas entrevistas? Que fotos que você fez mais te marcaram?

Tem, por exemplo, Cauby Peixoto, Martha Rocha, muitos artistas do início da TV Globo, tem tudo isso aí... Agora, cabeça para lembrar os nomes... Jogadores de futebol... Tem tudo isso aí, com os famosos e artistas da televisão da época. High Society não só de Niterói, como alguns do Rio. Lembrar os nomes agora fica difícil. Tenho tudo isso documentado. Os contatos eram na base do telefone e na amizade. De outros colunistas do Rio, que me apresentavam lá no Rio, ou eu apresentava a eles os daqui de Niterói. Eram amigos meus. Um amigo meu, que eu conheci em um escritório no Rio, que conhecia todo mundo e me apresentou muita gente, é Heráclito Lemos Leite. Foi um cara sensacional comigo. Uma vez eu vendi toda a minha aparelhagem para visitar o meu pai em Portugal, que ele estava passando muito mal do coração. Eu vendi tudo e fui para lá. E, quando voltei, fiquei com uma mão na frente e a outra atrás. Aí, esse amigo falou: “Ô Ruas, você gostaria de voltar à fotografia?”. “Pô, era tudo o que eu queria”. Aí, ele disse: “Então, amanhã a gente se encontra às quatro horas da tarde no Rio”. Eu estava lá mesmo no Rio, ele comprou todo o laboratório fotográfico e toda a aparelhagem fotográfica para eu reiniciar o meu trabalho. E ainda falou para mim: “Olha, toma, leva!”. Eu: “Não, não tenho grana”. Ele disse: “Leva. Você vai me pagar todo mês conforme você puder”. No fim, todo mês, eu ia lá, dava uns trocadinhos para ele. No fim do sexto mês, ele disse “Que cara legal, não é? Que cara honesto. Todo mês você vem aqui, dá pouco, mas dá. Faz o seguinte, de hoje em diante, você não precisa pagar mais nada.” Praticamente me deu tudo. Ele foi muito bom. Quer dizer, então acontece o seguinte, os contatos eram muito importantes, não só por telefone, como através de amigos, entendeu? E eu tenho uma vantagem em Niterói, pois eu era muito querido em Niterói. Falavam que eu era muito agradável e simpático, e as pessoas me convidavam. O pessoal me convidava com a maior naturalidade. Então, eu era recebido em todo o social de Niterói, em todas as casas eu era o queridinho da sociedade de Niterói. Todos me convidavam para festas e eventos. Eu estava em tudo o que acontecia em Niterói. Eu tinha um prestígio muito grande mesmo.

Como era a relação entre a imprensa carioca e a de Niterói?

Não havia rivalidade porque a carioca praticamente não entrava aqui. E aqui só entram quando matam meia dúzia de pessoas, quando tem um desastre grande... Fora isso, Niterói não aparece em noticiários dos jornais cariocas, essa é que é a verdade. Você só vê Niterói lá em notícias policiais. E o único que tem um setor aqui é O Globo. Então, o espaço da imprensa carioca estava lá e o da Niterói estava aqui, eles não se truncavam. Só houve uma época, quando houve a fusão. O Fluminense resolveu montar uma sucursal no Rio e deu mais espaço ao noticiário carioca. Ele montou diversas sucursais no interior do estado. Mas, no fim de meia dúzia de anos, o prejuízo foi total e fechou tudo, voltou tudo como antigamente.

Vamos falar sobre esse momento da fusão dos Estados da Guanabara e do Rio de Janeiro. Antes Niterói era a capital do estado, o que mudou?

Olha, a fusão todo mundo pensava que ia ser uma tragédia para Niterói. Realmente, no início, a gente sentiu muito, porque aqui era a capital do estado e todo mundo do interior do estado vinha beijar a mão do governador aqui. O comércio de Niterói que levava uma vantagem muito grande, principalmente o de artigos e presentes para levar para o governador, para a mulher do governador. Os presentes eram todos comprados aqui, a maioria deles. Então o prestígio da cidade era muito grande. Já pensou você ser capital do estado? Toda a máquina política era aqui, então a fusão foi vista com muita preocupação, muita mesmo. E realmente Niterói sentiu, no início, sentiu um pouco. Mas depois ela se desenvolveu por ela mesma. Há muito tempo, na verdade, ninguém quer mais a fusão, não, porque viveu 100% sem a fusão e não quis mais o tumulto que a fusão iria trazer de novo. Então, nós convivemos muito bem sem ser a capital. Depois, a ponte é que veio trazer o tumulto de novo. A ponte foi uma tragédia. A fusão foi política, não precisava ser política, poderia ser feita só com a ponte. A ponte seria a fusão ideal, na época, porque hoje também só quem vai para o interior do estado é que quer a ponte. A criminalidade hoje em Niterói está uma coisa bárbara. Agora, você prende o bandido, de onde é? Do Rio de Janeiro. Oitenta por cento dos bandidos de Niterói são do Rio de Janeiro. O que é isso? A ponte.

Você disse que havia pelo menos seis jornais diários em Niterói. Com a fusão, houve uma diminuição?

Acabou tudo. Ficou só O Fluminense. Aí surgiram depois A Tribuna e A Nova Face, em que a jornalista Joana D’Amora comprou A Tribuna. Relançou A Tribuna em uma nova fase que sai até hoje, mas sai em uma edição pequena. E tem o Jornal de Icaraí, que é um jornal semanário, e é o que existe hoje em Niterói. E jornais alternativos, que depois surgiram vários jornais alternativos, alguns com vida curta, outros com vida longa. Vida longa, o jornal de Icaraí, que é da Tribuna, considerado hoje um jornal médio muito bom. O outro que ficou foi a Folha de Niterói, também semanário, alternativo. E tiveram muitos outros com tiragens que ficavam um ou dois anos desaparecidos, não iam pra frente. Os mais tradicionais eram A Tribuna, Jornal de Icaraí e Folha de Niterói. O resto acabou tudo. Foram se extinguindo naturalmente.

O Fluminense foi uma escola de jornalismo para você, diferente dos outros jornais. De que maneira, na prática?

Ele é uma escola até hoje, tanto que um grande número de jornalistas hoje da imprensa carioca, passam pelo Fluminense, e os melhores são absorvidos pela imprensa carioca. Eu não me lembro qual foi o jornal, mas quando foi lançado no Rio ele tirou seis profissionais d’O Fluminense. Ele foi inaugurado praticamente com profissionais de O Fluminense. Então, o jornalista niteroiense era admitido no Fluminense, muitos como estagiários, e os melhores eram absorvidos pela imprensa carioca. Era escola de jornalismo que eles faziam, porque eles não tinham outra escola, essa é que é a verdade. A universidade era cara. Então, se alguns tinham o diploma, a maioria não tinha.

Como foi a convivência dos jornalistas profissionais como os jornalistas diplomados que começavam a aparecer? Houve alguma tensão?

Não, não havia. Existiam muitos veteranos como eu, que eram jornalistas profissionais porque não havia na época a faculdade, então o governo deu o registro. Quer dizer, tenho o registro na carteira de jornalista profissional, de publicitário e de relações públicas. A minha filha, por exemplo, tem os três na PUC, que foi o último ano que ela fez em que ainda podia fazer os três juntos, hoje tem que fazer separado. Depois, passei a ganhar como jornalista profissional e a colocar no meu currículo “curso superior” registrado na carteira. Eu não tinha o diploma, mas tinha a prática. Então, hoje que você tem que fazer três faculdades, eu tinha os três registros na carteira. E os veteranos de Niterói tinham o registro na carteira porque o governo fez esse registro. Havia até um nome especial, que eu não me lembro agora. Os estagiários aprendiam muito no Fluminense. Alguns iam para os jornais do Rio e para a faculdade também. Alguns não, a maioria, porque eles queriam também ter um salário melhor, então a maioria passava a frequentar também a faculdade.

Você passou pelo Funrural, fale dessa experiência?

O Funrural foi um negócio curioso. Me contrataram e foi uma experiência muito boa, porque eu fui atuar no jornalismo numa outra área, uma cobertura nacional, no Rio de Janeiro que distribuía para todo o Brasil.Eu estava ali, encantado, um salário espetacular na época. Estava com um salário muito bom e com o registro na carteira. Caramba, vou me aposentar aqui no Funrural! Acabou que, quatro anos depois, entrou um novo presidente do Funrural lá e me demitiu. Me demitiu. Aí eu chamei um advogado e fui ver o motivo. Na época em que fui contratado com carteira assinada, não podiam fazer isso. Foi por engano. Quer dizer, contratar é uma coisa, mas assinar a carteira é outra. Chamei o advogado e não consegui. Foi uma época muito boa, um outro campo do jornalismo. O jornalismo do INSS, o Funrural, era um instituto de muito prestígio. Eu mandava notícias para todo o Brasil, foi muito bom mesmo, uma experiência boa. Pena que foram apenas só três ou quatro anos.

Em 1982 ou 83, você foi interventor do Sindicato dos Jornalistas Profissionais?

O jornalista que era presidente do sindicato andou fazendo umas estripulias. Então, naquela época, eles fecharam o sindicato para limpar a área e me chamaram como interventor durante um ano. Limpei a área, preparei o sindicato todo, elegemos nova diretoria e aí eu deixei o sindicato. Fui interventor só durante um ano para prepará-lo para novas eleições.

Mas você fazia parte do sindicato?

Eu era sindicalista, sim. Depois deixei de ser, porque a coisa começou a ficar muito política e eu não gostava muito disso. Assim como a Associação Fluminense de Jornalista, sindicato é a mesma coisa. Depois, deixei, porque começou a ser muito política, a ter muita fofoca, como são hoje as centrais sindicais. Não dá. Aí eu saí.

Mas como era o papel do sindicato nessa época?

O sindicato defendia o jornalista, os salários principalmente. A atuação maior do sindicato naquela época era o piso salarial. Naquela época da transição da ditadura, a gente estava n’O Fluminense e o presidente do sindicato estava lá na janela, ele ainda conseguiu uma meia dúzia de casas para jornalistas, financiamentos, apartamentos. Depois disso, como eu já disse, o sindicato era mais político, só atuava no piso salarial. Quando chegava na hora do aumento do jornalista, se não fosse o sindicato, a gente era muito mal remunerado em Niterói. E o sindicato conseguia, não igualava, mas aproximava bem do carioca. Antes de eu ser nomeado, os patrões pagavam o que eles achavam que deveriam pagar. A maioria trabalhava muito, trabalhava de graça. Eu trabalhei muito com vale, sem salário, era vale. E com isso, chegava o fim do mês, pegava os vales e via quanto era que tinha. Tem 200 reais? Tudo bem, entendeu? A gente trabalhou muito com vale, com salários muito baixos e até de graça. Depois do sindicato, mudou. Mas, volto a falar, o sindicato atuava no piso salarial, o resto era politicagem. E, lamentavelmente, os caras iam às presidências das entidades só para se aproveitarem. Presidentes de sindicato, e não eram só os jornalistas, eu me lembro, viviam muito bem, obrigado. Agora, o resto dos profissionais era uma miséria.

Você também foi, desde 1956, sócio da Associação Brasileira de Imprensa. Como era a atuação da entidade?

Na Associação Brasileira de Imprensa, estou lá desde 1956. Era a única que não só participava da área política, mas também participava da área social. Tinha um departamento médico espetacular. Não sei se tem até hoje, mas tinha um departamento que há convênios com médicos, com dentistas, além de ter o departamento lá. E atuava muito em função do profissional, principalmente quando o profissional apanhava. Aí ela fazia um carnaval danado. A ABI foi muito legal, não só protegendo o profissional na área social, como na área política também.

O contexto era de ditadura militar. Havia muita repressão?

Tinha. Mas Niterói não sofreu muito com isso. Niterói, nessa época da repressão, teve poucos casos. A coisa que repercutiu mais em Niterói foi o Caio Martins, que chegou a ser prisão política. Eles pegaram. Existiam alguns poucos que chegaram a ser presos na fortaleza de Santa Cruz. Depois pegaram a maioria e levaram para o Caio Martins, que era prisão política. Uma coisa muito curiosa é que minha mulher foi presidente da Associação Fluminense de Reabilitação, que era parede com o Caio Martins, que era prisão política com militares, arma em punho e essa coisa toda. Entrada e saída de polícia, essa coisa toda. A minha mulher estava na AFR dando cafezinho para os militares através dos muros e rasgando uma papelada enorme de documentos comunistas. Porque o presidente da AFR, da qual ela era diretora, era comunista ferrenho. Deputado Geraldo Reis, deputado comunista, presidente da AFR, pai do Aquiles. Bom, era um comunista ferrenho e um dos que estavam presos lá. A minha mulher tratou de rasgar e queimar toda a documentação que estava lá. E curiosamente ela também destruiu um rolo de filme inteiro, então queimou aquele troço todo, dando cafezinho para os militares. E o filme nada mais era do que uma visita incógnita do Che Guevara a Niterói. E poucos sabem disso. Uma visita incógnita do Che Guevara a Niterói. A minha mulher rasgou o filme. Aí, lá em casa, eu disse: “Porra, por que você não trouxe essa merda para mim? Isso era uma relíquia!”. Foi uma história muito curiosa, muito interessante. Hoje, muita gente em Niterói sabe dessa história da minha mulher rasgando a documentação toda, inclusive esse filme, que hoje seria uma preciosidade.

Qual o nome da sua mulher?

Lisaura Ruas. A Lisaura foi durante 40 e tantos anos diretora e presidente da associação. Então, ela teve essa coisa, dava cafezinho com uma mão e rasgava os documentos com a outra. Porque acontece o seguinte, a entidade é que ia sofrer naquela época, e já estava sofrendo, essa é que é a verdade. Até que, um dia, eu fui a São Paulo visitar um general de Niterói, anticomunista ferrenho, que foi operado do coração. E com prestígio nacional, não era para o centro de Niterói, não. Foi até comandante em São Paulo, do exército em São Paulo. Era um anticomunista ferrenho. E a minha mulher foi e eu não fui visitar o general, fui visitar um amigo meu que tinha sido operado na mesma época e estava no mesmo hospital, num quarto ao lado onde esse general tinha sido operado. Muito bem. Aí a minha mulher foi visitar esse general e, nessa hora, quem chega? Ernesto Geisel. Aí a Lisaura, minha mulher, enfrentou o Geisel, ai contou a história. “Pô, estou sofrendo lá com a instituição. Não sou comunista.” E enfrentou, discutiu com o Geisel. E o Geisel mandou um secretário anotar tudo. Daí para a frente, a associação começou a ser liberada de verbas federais e essa coisa toda. A associação estava enfrentando aquelas coisas desde aquela época. Coincidência, né? Coincidência eu ter ido a São Paulo visitar o cara, e ao lado estava esse general Milton Tavares. General Milton Tavares, que se não me falha a memória foi comandante do 2º exército, São Paulo.A cidade de Niterói foi aproveitada apenas como prisão política. E alguns de Niterói, como Geraldo Reis, Aníbal Bragança, uma meia dúzia deles. O resto veio do Rio e de outros municípios do estado do Rio. O impacto em Niterói não foi nada demais.

Qual é sua lembrança mais forte do exercício da atividade jornalística?

Mais forte? Eu tenho uma interessante. Primeiro de brincadeira, uma lembrança muito forte. É a eleição de miss estado do Rio, no estádio Caio Martins. O estádio entupido de gente, aquelas quase 30 misses que desfilavam, vinham de vários municípios. E eu reportando no Caio Martins. Quando eu adentrei o Caio Martins, direto na pista, na arquibancada para fazer a reportagem embaixo, na arena, o estádio veio abaixo. Porque eu fui o primeiro homem em Niterói a usar camisa vermelha. Impressionante isso? Hoje você usa vermelha, listrada, azul, não tem nada. Eu fui o primeiro a usar a camisa vermelha. Ninguém ousou ir ao Caio Martins de camisa vermelha. Ah, meu Deus, quando eu adentrei o Caio Martins, o estádio veio abaixo. “Bicha!”, gritavam. E eu comecei a fazer aqueles trejeitos de bicha mesmo, e a plateia veio abaixo. Mas eu fiz mais sucesso que as misses, né? Foi um show. É interessante você ver como são as coisas, na semana seguinte o jornal me mandou para fazer uma cobertura em Curitiba e eu usei a camisa vermelha. Você acredita que eu tive que, no hotel, trocar de camisa? Porque o que olhavam para mim, o que davam de cantada... Eu fui ao hotel trocar de camisa. Então, esse foi um aspecto curioso que marcou muito. Agora, o segundo, esse foi mais dramático. Foi a prisão do assassino da Luz Del Fuego. Como você sabe, ela era uma artista nudista que vivia com cobras se enroscando no corpo dela e numa ilha perto de Paquetá, entre Paquetá e São Gonçalo. E teve um pescador, um tal de Gaguinho, que matou a Luz Del Fuego. Não ficou muito esclarecido, mas eu acho que foi mais assim por desejo de matar, um cara ignorante. Mataram a Luz Del Fuego. E cadê? Procura o assassino. Até que descobriram que foi o pescador, o Gaguinho, que estava fugido. Muito bem. Tinha um advogado em Niterói, amigo meu, que disse: “Ô Ruas, nós estamos com a faca e o queijo na mão. Eu estou com o Gaguinho escondido em algum lugar do estado do Rio, e eu gostaria que você fosse lá buscar o Gaguinho para nós o entregarmos com todo o cuidado à polícia, para não espancarem ele, para não baterem nele e tal”. Falei: “Tudo bem, vamos lá”. Aí nós fomos ao secretário, ao cara da polícia, o secretário de segurança, que na época, se não me engano, era um coronel militar mesmo chamado Homem de Mello. Nós fomos lá, isso antes da fusão ainda, e o resquício desse coronel era da ditadura ainda. Da ditadura não, que já tinha acabado, mas era ainda, tanto é que era um coronel do exército. Não era de Niterói. E fomos lá pedir segurança a ele, porque nós queríamos ir sem sermos fuzilados no caminho. E fomos junto com o Alberto Torres, diretor do jornal. Chegamos lá, e ele disse: “Não, nós não vamos dar segurança nenhuma a vocês, porque a minha policia está toda na rua para caçar o Gaguinho vivo ou morto.” Eu: “Caramba... Aí é fogo. Quando nos encontrarem, fazem uma emboscada, nos fuzilam. Vamos dar um jeito nisso aí”. Nós tivemos a lembrança, e, junto com a gente, estava um outro cara, Milton Rocha, um amigo desse advogado. Aí nós fomos na PM e a gente resolveu botar a PM de encontro com a polícia civil. E a PM topou. Nós combinamos com a PM: “Olha, então vamos fazer o seguinte. Vamos marcar um encontro às dez horas da noite na parada modelo”. Era o local em que todo mundo parava para ir para Petrópolis, Teresópolis. Os ônibus paravam para tomar cafezinho antes de subir a serra, era um lugar muito usado para quem viajava antigamente para a serra. Saímos de Niterói e não fomos nem para a estrada de Magé, que seria o trajeto direto. Nós fomos pela barca, fomos pelo Rio. Por quê? Porque nós ficamos com medo de que a polícia civil estivesse nos seguindo. Então, qualquer passo que a gente desse, a gente olhava se tinha qualquer carro ou moto nos seguindo. Então, nós não fomos por Magé, porque seria uma tragédia. Nos disfarçamos, pegamos uma barcaça e fomos pelo Rio. O Gaguinho estava escondido em uma casa perto da parada modelo, a uns cem metros da parada. Quando nós chegamos lá, o advogado gritou: “Gaguinho, desce!”. Isso eram dez horas da noite. Eu, o advogado e esse amigo advogado. O Gaguinho desceu, entrou no carro para nós o levarmos até a parada modelo, ao encontro da PM. Aí, o Gaguinho desceu do carro. Antes de chegar à parada modelo, a gente foi confirmar tudo. Parou o carro pertinho da parada modelo e foi confirmar. Desceram todos e só fiquei eu com o Gaguinho, dentro do carro. Um breu desgraçado. “Como é que eu vou ficar sozinho com esse homem dentro do carro? Todo mundo saiu”, pensei. Então eu desci correndo e fui lá me encontrar com eles. E o Gaguinho ficou no carro, acuado, estava com um medo desgraçado. Ficou sozinho no carro e não fugiu. Aí a gente acertou tudo com a PM, que fez um serviço espetacular. Pegou uma ambulância, para disfarçar. Um carro militar na frente, um carro militar atrás e o Gaguinho no meio. Sirenes ligadas, à noite, viemos para Niterói. A imprensa toda estava na Secretaria de Segurança, imprensa do Rio, televisão, rádio, jornal. Ai nós entramos pelo fundo da secretaria com o Gaguinho. A imprensa toda lá, todo mundo naquele alvoroço, até que apresentaram o Gaguinho. E ele não só confessou o crime, como não elucidou por que matou a Luz Del Fuego. Então, acho que foi mais por ignorância, desejo de matar, sei lá. Ele não explicou direito a coisa. Agora, nisso tudo, nesse alvoroço todo, houve um fato jornalístico muito curioso. Que foi O Fluminense. O jornal O Fluminense estava com a matéria na mão, todinha ali. Fotos que eu já tinha feito lá na parada modelo, sensacional. Fui o primeiro a fotografar.

Você chegou a entrevistá-lo?

Entrevistei lá na própria parada modelo. Tudo na mão. O que é que aconteceu? O Fluminense rodou o jornal e mandou o pessoal ir embora. Esqueceu de segurar o pessoal. Tinha que esperar o pessoal. Não, rodou e mandou embora. No dia seguinte O Fluminense não deu uma linha. Já pensou? Como é que o cara sabe que eu estou lá e faz isso? Fica esperando! Como fizeram os jornais do Rio. Ninguém rodou. Os jornais do Rio estamparam todo mundo no dia seguinte na primeira página. E Luz Del Fuego é Luz Del Fuego, era uma artista famosa na época, né? E O Fluminense não deu uma linha.

Perdeu o furo...

Perdeu tudo o que a gente tinha feito... A turma rodou o jornal, distribuiu o jornal e foi embora. Isso foi um negócio muito curioso na minha vida de jornalista. Então, esse foi o caso mais sensacional, mais medroso, porque realmente deu medo, porque a polícia estava em cima do Gaguinho. Foi uma captura perigosa. E esse foi o fato curioso do jornal.

Você foi jornalista de texto, chegou a escrever, foi fotógrafo, relações públicas, publicitário. Com qual dessas atividades o senhor se identificou mais?

Sem sombra de dúvidas, o jornalismo. Mas teve uma época que realmente o promoter, eu gostei. Porque é uma atividade também muito diversificada, em que você lida com muita gente e com muitos setores. E você prepara alguma coisa para ser servida ao público. Então, é muito divertido. Não esquecer nada, o coquetel, o padre para benzer, polícia militar para tomar conta do trânsito. Às vezes, até artista. Chamar gente influente para a inauguração. Tudo isso é muito lindo mesmo. Gostei, mas em primeiro lugar o jornalismo. É a que me influenciou mais e que eu nunca deixei de fazer, porque promoter foi uma época.

E o que mais o encantou ou motivou no jornalismo?

Aí, não tem saída: o povo. É fotografar gente. É entrevistar gente. É o que mais me motiva, o que mais me motivou, justamente o que eu arquivei, o que eu tenho. Eu posso mostrar, que o que eu estou dizendo não me deixa mentir. Vou te mostrar aqui. Eu fiz várias exposições. Então, uma época, fiz a exposição “Mulheres de uma época”, só com mulheres de Niterói, desde as misses, com fotos da época espetaculares, até outras mulheres do high society de Niterói, que eu rapidamente separei alguma coisa aqui. A mulher do Roberto Silveira, do governador. A exposição, você vai adorar, o estilo, o cabelo. Essa exposição me encantou muito: “Mulheres de uma época”. Então, são mulheres todas da década de 60, 70, em uma época em que Niterói usava casaco de pele. Olha aqui, essas mulheres me encantaram muito. Como eu disse a você, povo. Então, vamos lá, outro: “Eles fizeram história em Niterói”. Quer dizer, na área cultural, na área industrial, na área comercial, que eu tenho tudo isso, tenho quase três mil negativos. Então, em todos os setores de Niterói, destaquei os pioneiros na área de medicina, na área do professorado, em todas as áreas. Então, você vê povo. Quarenta anos de fotojornalismo em Niterói. Eu focalizei não só o pessoal de Niterói, como os jornais, grandes painéis com fotografias de jornais da época. A exposição foi com fotos minhas e as fotos onde eu atuei como jornalista, que eu fiz grandes painéis das páginas. Eu fiz essa aqui também: “Meio século de fotojornalismo”, que foi uma exposição muito importante que fiz. E todas mostrando povo, gente. Essa também: “Sala Leila Diniz”. Essa eu reportei alguma coisa que eu já tinha feito e acrescentei coisas novas. Então, o que mais me agradava era isso. Aqui, outro negócio interessante que eu fiz, na época. Isso era a capa do convite. E aqui tem algumas fotos do baile de máscaras. Então, me encantava fotografar gente. Tanto é que, depois, eu comecei a escrever, mas não deixei a fotografia. Povo era o que eu gostava. Eu tenho muita coisa falando de mim. Tenho demais, mas aí é meio cabotinismo.

Ah, a gente quer saber...

Então, tem esse aqui, por exemplo, que foi lançado pela UFF. E o tal do gentleman, né? Ela me entrevistou. Aí o meu pai, o meu irmão mais velho, a minha irmã, minha mulher. A casa de fotografia, o estúdio. Alguma coisa eu consegui segurar. Fotos antigas. Aproveitou o marketing que eu fazia, eu fazia os cartões postais com essas montagens fotográficas que antigamente no clube eram fantásticas. Colocava: “Recordo o carnaval de 1952 com a foto de Carlos Ruas”. E isso era um postal fotográfico que eu deixava em cada mesa. Essa foto que eu te mostrei agora, Roberto Silveira sendo carregado nos braços do povo, no palácio Ingá, que ele dizia: “Eu só quero subir o palácio Ingá nos braços do povo”. E eu o fotografei nos braços do povo. Época de missa, lá na praia de Icaraí. Fotos da época. Essa é a Ingrid Schmidt, foi uma das mulheres mais bonitas de Niterói. Muito linda. Ela foi miss Niterói, miss estado do Rio e chegou perto do miss Brasil. Eu tenho Roberto Silveira no helicóptero em que ele morreu. Essa foto é minha. Aqui está o que foi prefeito agora, o filho de Roberto, o Jorge Silveira. Aqui o helicóptero em que Roberto está saltando. E foi no que ele morreu depois. E o Jorginho, o filho dele, não quis ir de jeito nenhum com ele. Ele estava viajando para ver enchente, aí o filho não quis ir de jeito nenhum. Foi justamente quando ele morreu. Porque o helicóptero lá em Petrópolis estava no palácio. Levantou uma das asas, bateu no beiral do telhado e incendiou. Aí ele foi para o hospital, mas foi praticamente morto. Ficaram embromando com ele no hospital uns quatro ou cinco dias, justamente para os políticos arrumarem as gavetas aqui no palácio. Eu fui para Petrópolis, nessa época. Fiquei lá uma semana fazendo a cobertura também, mas ele foi praticamente morto para o hospital. Aí enrolaram, deixaram dar tempo ao tempo.