AROEIRA
PERFIL

Nome: Renato Luiz Campos Aroeira

Data de nascimento: 18 de Maio de 1954

Naturalidade: Minas Gerais - Belo Horizonte

Filiação: Hugo Madeira de Ley Aroeira (Jornalista) e Maria Luisa Campos Aroeira (escritora)

Estado Civil: Casado com Aida Queiroz (produtora de filmes de animação)

Filhos: André - 14 anos e Alice - 24 anos

Formação Acadêmica: Cursou Engenharia, Física e Belas Artes - interrompidos.

Concluiu: Matemática (mas faltou a matéria: EPB - Estudo dosproblemas Brasileiros)

Carreira: Aos 12 anos iniciou ilustrando um livro de sua mãe. Em seguida passou a ilustrar a coluna de esportes de seu pai no Jornal de Minas. Ainda nesse último iniciou seu trabalho com charges. Foi responsável pelas charges de uma revista mineira que teve apenas dois números, Humordaz. E passou por muitos jornais sindicais, em um momento que estes estavam reconstruindo sua imprensa. Em trajetória profissional estão incluídos jornais e revistas de grande circulação como:

- Diário da Tarde por dois anos e voltou por mais um ano em 1989

- O Globo: 1987 até metade da década de 90 (exceto 1989, quando voltou ao Diário da Tarde), atuava apenas como ilustrador. Depois disso ficou como chargista substituto até 1997 (o titular era o Chico).

- Jornal do Brasil: 4 meses do ano de 1997 (não havia charge na primeira capa)

- O Dia: de 1997 até hoje.

- Istoé: de 2003 a 2006

- Veja: Ancelmo Góis encomendava suas crônicas para publicá-las em sua coluna na revista.

Política: Foi militante estudantil - diretor do DCE da UFMG e delegado na reconstrução da UNE, atuou no movimento sindical e foi um dos fundadores do PT. Durante a ditadura foi membro de uma pequena organização clandestina - que lhe rendeu uma prisão de menos de 24h.

Prêmios: Medalha Pedro Ernesto, de Cidadão Honorário do Rio

Vladimir Herzog de Direitos Humanos e Libero Badaró

Imprensa do Sindicato dos Jornalistas de Pernambuco

Outras habilidades: Além de chargista, Aroeira também é músico. Toca saxofone em duas bandas: Os optimistas - há cerca de 10 anos e Conjunto Nacional (com os irmãos Caruso) há 15 anos.

ENTREVISTA

Entrevista feita por: Alba de Souza Cruz Tainá Bilate de Souza

1) Como você descobriu a aptidão para desenhar?

Isso foi uma coisa que começou de muito criança. Eu era muito pequeno, ficava desenhando em uns pedacinhos de papel, no cantinho da folha, desenhando bonequinhos minúsculos. Para a professora não desconfiar, eu cortava tiras de aproximadamente 1 cm das folhas que ela dava pra desenhar e fazia desenhos de guerra, batalhas. Desenho desde que me entendo por gente! Não me entendo fazendo outra coisa que não desenhando.

2) Qual foi sua primeira experiência profissional envolvendo o desenho?

A minha mãe é escritora. E quando eu tinha 12 anos, nós fomos visitar uma autora infantil antiga no Brasil, que escreveu o prefácio do livro da minha mãe que eu viria a ilustrar. Eu lembro dela falando assim: “Quem é o ilustrador?”. E minha mãe falou assim: “É esse menino aí”. Essa foi a primeira vez que alguém arregalou os olhos para mim. E minha vida profissional começa aos 12 anos.

3) Por que foi fazer matemática? Nunca pensou em fazer jornalismo, afinal você vem de uma família de jornalistas não é?

Ah! Eu fiz Matemática, fiz Engenharia, fiz Belas Artes. Assim, na minha época não existia essa coisa de fazer jornalismo. Você era jornalista porque se formava assim, começava a escrever e não havia a exigência do diploma. Na verdade, assim, a exigência do diploma, na minha opinião é um absurdo, tirando três profissões: piloto de avião, médico e engenheiro. O que deveria ter é uma comissão de notáveis em qualquer profissão dizendo se esse sujeito pode fazer ou se não pode exercer determinada profissão. Nós temos muitas escolas de jornalismo hoje e a procura é enorme. Mas compara o texto do Globo de hoje com o Globo de 30 anos atrás e você vai ver que caímos um bocado. Até os cronistas, tirando 5 ou 6 nomes.

4) Qual foi a sua primeira experiência profissional em jornalismo?

Meu avô era jornalista, meu pai era jornalista, então desde pequeno eu freqüentava a redação. Mas eu comecei mesmo aos 16 anos, guri ainda, com meu pai pedindo pra ilustrar uma coluna dele no Jornal de Minas. Minha primeira charge meu pai que bolou pra mim, ele bolou e eu desenhei. As cinco ou seis seguintes eu que bolei e ele publicou na coluna semanal chamada “Cama de Gato”. Aí o editor chefe me convidou para fazer as charges. Esse trabalho que eu fazia no Jornal de Minas durou algum tempo, mas aos 18 anos eu já não estava mais interessado naquilo, eu estava interessado em garotas, em tocar violão. Eu estava desenhando. Mas para mim, ilustrar o livro da minha mãe era muito mais interessante porque me dava dinheiro. Lá no jornal era brincadeira. Essa minha primeira experiência na imprensa durou um ano, mas foi uma coisa lúdica. Nem de longe eu considero como minha primeira experiência real como chargista. Só mais tarde quando fui pro Diário da Tarde.

5) Qual é a sua obrigação diária com o jornal? Você tem que trabalhar dentro da redação?

Entregar até às 20h30 uma charge pro jornal. Nem vou ao jornal. Aliás, eu não vou ao prédio do Dia há uns cinco anos.

6) Já fez alguma charge contra sua vontade?

Nunca me obrigaram a fazer nada. Quando era ilustrador no Globo, o cara chegava com a matéria, mas eu escolhia os trechos que ia usar pra ilustrar.

7) Como você foi trabalhar no Diário da Tarde?

Esse foi o jornal onde eu virei chargista, na verdade. Morreu o chargista do jornal, aí o editor do jornal, um carioca, resolveu promover um concurso pra ver quem ia fazer a página. Eu tinha que fazer a caricatura do Reinaldo e do Nelinho, dois jogadores de futebol da época. Eu passei a noite na prancheta desenhando, mas eu nunca tinha feito caricatura, porque no Jornal de Minas as charges eram bonequinhos. O Nelinho saiu, mas o Reinaldo não. Aí eu cheguei na redação no dia seguinte dizendo que não tinha achado uma foto do Reinaldo, uma mentira, porque era impossível não achar uma foto dele. Mas quando cheguei lá, ninguém tinha levado desenho nenhum, só eu. Fui contratado por W.O.

8) Como era trabalhar no Diário da Tarde?

Fiz dois números de esporte, depois o editor me convidou para fazer charges. Aí eu fiquei fazendo charges na página 2. E foi lá que eu aprendi a dominar todos os processos técnicos e etapas por que passa o meu trabalho. E eu sempre achei isso importante. Desde o início da minha carreira, sempre tive total domínio das fases a qual o meu trabalho é submetido. Eu entrei no jornal no finalzinho da ditadura, já com o país se democratizando. Nessa época, criei um bonequinho do Figueiredo, muito bem resolvido, que circulou um ano. Além disso, ainda cobri a candidatura do Tancredo, a vitória do Tancredo e a morte do Tancredo. Nesse período, já tinha me tornado um nome conhecido, já tinha me estabelecido como chargista.

9) Como surgiu a oportunidade de vir para o Rio? Como foi a mudança para o Globo?

Minha mulher faz desenho animado e participou de um curso promovido pelo Marcos Magalhães no Rio de Janeiro que escolheu cinco nomes em todo o Brasil. Ai restou duas alternativas ou acabava o casamento ou eu vinha com ela para o Rio. Eu vim. Larguei minha carreira de chargista lá, que já era consolidada e comecei do zero aqui. Fui até o Globo com uma pasta com várias amostras de desenho e entreguei ao Evandro Carlos de Andrade. E ele disse: “deixa aí que a gente entra em contato”. Depois de um tempo sem ter resposta, desisti e voltei para Belo Horizonte. Dois meses depois, a Aida alugou um apartamento no Rio e eu voltei para cá. E aí voltei ao Globo, só que agora com um portfolio todo bonito, de couro, bem montado, enfim com as mesmas charges, só mudei a roupa. Aí eu já tinha conhecido o Chico Caruso que me levou até a sala do Evandro e falou: “conhece o Aroeira?”. O Evandro abriu meu portfolio olhou três charges e perguntou: “começa hoje ou amanhã?”.

10)Como era trabalhar sob a chefia de Evandro Carlos de Andrade? A fama de autoritário, implacável com erros e exigente se confirma? Essa pressão recaiu sobre você de alguma forma?

Evandro Carlos de Andrade foi provavelmente o maior editor que eu já tive. Ele e o Luís Erlanger fizeram a maior dupla do Brasil. Esses caras acabaram de me moldar como chargista. O Evandro costumava censurar minhas charges e eu ficava chateado. Aos poucos eu fui vendo que o Evandro Carlos podia ser autoritário, gritar, xingar, mas... Mas aconteceu um caso comigo envolvendo o Evandro, em que o bispo Dom Eugenio ligou, pedindo minha demissão e enviou uma carta com um abaixo assinado com mais de duas mil e oitocentas assinaturas, afirmando que eu não tinha compromisso com a verdade e não era politicamente correto. Aí o Evandro publicou essa carta na sessão de cartas dos leitores e publicou ao lado uma resposta assinada por ele: “o cartunista Aroeira não será demitido por várias razões, a primeira delas é que não é papel do chargista ser politicamente correto ou ter compromisso com a verdade. Isso é papel do repórter. O cartunista está aí como um escravo que seguia Cezar. Essa é a função do cartunista. Lembrar vocês que vocês são apenas homens”. O Evandro me dizia: “o cartunista não tem que agradar ninguém. Quando você não receber críticas é porque está fazendo seu trabalho errado”.

11) Qual era o espaço dedicado à charge e ao desenho em geral em O Globo?

Ilustração o Globo sempre usou muito. O Globo, para mim, tem a pior linha editorial do mundo, por ser um jornal linchador, que só aborda um lado dos fatos. Afasta isso da parte gráfica, onde o Globo é muito interessante. Ao contrário de todo mundo que só utiliza infográficos, o Globo mantém os ilustradores, o que é raro no jornalismo moderno.

12) Quem fazia parte da equipe de chargistas de O Globo? (Quantos havia? Quem eram?)

O Chico Caruso, o Cruz que está até hoje lá, o Marcelo que também está lá, Cláudio Duarte, tinha o Quarentinha que também ainda está lá na parte de infográficos, um desenhista muito importante chamado Mem de Sá e um ilustrador chamado Petrúcio que era o mais velho e acabou educando toda aquela galera ali. Tinha o Hippertt também que hoje é meu editor de arte no O Dia. Uma geração boa. Uma galera muito boa.

13)Como era trabalhar com o Chico Caruso? Como era a divisão de trabalho entre

Vocês?

Trabalhar com um gênio sempre é bom. Observando o Chico desenhar eu aprendi muita coisa. E vice-versa: o Chico me observava trabalhar com nanquim. Ele costumava dizer: “não sei se o Aroeira é o melhor cartunista do mundo, mas é o que tem mais paciência disparado”. Foi muito bom trabalhar com o Chico. Ele fazia as charges e depois de algum tempo, eu e o Erthal passamos a alternar com ele, na reserva. Marcelo, Cruz, Hippertt, Quarentinha e eu ilustrando.

14) Quais os seus trabalhos mais marcantes em O Globo? Qual é, por exemplo, sua lembrança da cobertura do impeachment?

Meus trabalhos mais marcantes no Globo foram justamente os que envolviam o Collor. Não! Na verdade, sem dúvida foram os que envolveram o Fernando Henrique! Meu muso, meu inspirador, certamente a pessoa mais importante da minha carreira. Eu diria que meu trabalho mais importante no Globo é quando o FHC começa. No impeachment eu apenas charges eu via espalhadas pelas o Globo, fiz a minha parte igual todo mundo: algumas das minhas ruas e nas manifestações. Inclusive no dia do impeachment saiu na página cinco duma página nobre de política, uma folha inteira feita por mim e pelo Marona com toda a história e os envolvidos em desenhos. Isso eu acho que foi marcante, por ser uma coisa rara de se ver: uma página inteira em quadrinhos. No Globo eu comecei a construir realmente um nome como chargista.

15) Como surgiu a representação caricata do Fernando Henrique?

Tem sempre um cara que inventa a caricatura, geralmente o Chico, e os outros vão apenas se inspirando. E a minha representação do FHC saiu meio por acaso, num período que o Chico estava de férias, no comecinho do governo FHC. Eu lembro que vi uma foto do Fernando Henrique de perfil, sorrindo e a curva dos lábios dele coincidia com a do canino. Aí eu fui aumentando o canino até chegar naquela figura totalmente absurda. Então, de certa forma, fui eu que inventei essa idéia do FHC dentuço.

16) Por que você saiu do Globo?

Eu saí do Globo duas vezes. Na verdade eu saí três vezes, mas como chargista eu saí duas. A primeira vez foi quando o Lula perdeu as eleições depois daquela manipulação do debate pela Globo. Eu era free-lancer, nem era contratado. Subi numa mesa e falei: “Pessoal, tô indo embora, não vou ficar aqui porque eu não compactuo com esse tipo de coisa”. Ninguém ligou a mínima, tanto é que depois de um ano eu voltei e foi como se nada tivesse acontecido. Mas a primeira vez que eu saí como chargista foi quando eu fiz uma charge do Itamar Franco, inaugurando um submarino aqui no Rio num evento que reuniu todos os grandes figurões da época. Então eu desenhei um submarino afundando numa piscina de lama, com todos os presentes: deputados, anões do orçamento e os demais, inclusive o Itamar inaugurando o submarino. Devia ter umas trinta caricaturas na charge. Após a publicação o Ministro da Guerra entrou em contato com o Dr. Roberto e na redação o Erlanger foi me comunicar que eu estava demitido, mas que era para eu ficar calmo porque o João Roberto estava tentando reverter a situação e, de fato, ele conseguiu transformar a demissão em uma suspensão de uma semana. Até que o Ministrou da Guerra ligou novamente para o Dr. Roberto perguntando como ele não demitia um chargista que ironizou um evento onde ele próprio estava presente. Aí eu disse: “Mas eu não sabia que o Dr. Roberto estava lá!”. O João Roberto conseguiu intervir novamente para que eu ficasse. Eu fiquei, mas aquela situação me deixou chateado; magoado. Aí o Ique soube disso e falou com o editor do JB, que me convidou para ir para lá me oferecendo um salário maior. Fiquei 4 meses no JB até que o Erlanger me ligou querendo me chamar, mas não aceitei porque estava bem no JB. Até que um dia o próprio Dr. Roberto me ligou e me chamou para uma conversa. Fui lá, junto com o Erlanger e acertamos a minha volta: passei a ter duas charges na capa, duas no interior e meu salário dobrou. Voltei por cima da carne seca e tive um período maravilhoso até que comecei a ter problemas com um dos editores, que me perseguia e passou a censurar todas as minhas charges. Foi quando saí para ir para o Dia.

17) Você foi para o Jornal do Brasil quando saiu do Globo, mas ficou apenas 4 meses? Por quê? Em um dos e-mails que trocamos, você disse que foram ótimos 4 meses, por quê?

Foram muito legais! No JB eu nunca tive nenhuma charge nem perto de ser barrada. E olha que o JB estava fazendo campanha contra o Betinho e eu e o que fazendo charges a favor dele. E o jornal nem assim barrava. Esse foi o jornal onde realmente a idéia de imprensa livre funcionou.

18)Como era a redação do JB nessa época? Com quem você trabalhava lá?

Lá eu também trabalhava na redação. Tinha a Mariana Massarani, uma super ilustradora. O Aliedo que depois começou a fazer charges, mas no inicio era ilustrador. Um desenhista excepcional chamado Lula, o Liberati também ficava lá na época.

19)Como surgiu o convite para integrar o núcleo do Dia?

Lá no O Dia souberam da minha situação com o editor do Globo e me chamaram para ir para lá. Me ofereceram aumento de salário, charges na capa todos os dias. Uma maravilha, afinal, eu era Reserva do Chico no Globo. Você pode ser um craque, mas quando se é reserva do Chico Caruso, você é reserva. A mesma coisa que ser reserva do Pelé. Você vai jogar? Não joga!

20) Os leitores do Dia possuem um perfil diferente dos leitores do Globo e do Jornal do Brasil. Isso influencia na composição das suas charges?

Na verdade o Erlanger dizia que eu era muito grosso; poderia ser mais elegante. A única coisa que aconteceu foi que o editor parou de dizer que eu sou grosso. Eu continuo fazendo mais ou menos a mesma charge, mas eu admito: no JB eu sofisticava um pouco mais e fazia referências que eu não faço no O Dia. Aliás, nem isso é verdade: há poucos dias eu publiquei um afresco de Michelangelo. Eu boto referências sofisticadas no O Dia também. Mas acho sim, você tem que ter uma preocupação de quem é o seu leitor.

21)Como e quando você começa a colaborar com a revista Istoé?

Na Istoé eu fiquei fixo durante alguns anos, mas houve uma limpeza étnica por lá e substituíram a mim e ao Paulo Caruso por uma galera mais jovem que passou a fazer charges boladas pelos editores. Lá eles apenas republicavam algumas das minhas charges.

22) Você ficou frustrado ou decepcionado quando a revista parou de publicar as suas charges e tirou a “Avenida Brasil” da publicação? Por quê você acha que a Istoé fez isso?

Fiquei chateado mais pelo Paulo Caruso do que por mim. Disseram que era otimização de recursos, mas também houve uma história que dizia que o Garotinho tinha injetado dinheiro lá, preparando sua campanha para presidência da república, que não ocorreu ao final de contas, ele não conseguiu decolar realmente. E a Istoé sempre foi uma revista de altos e baixos, com problemas financeiros. Independente de ter sido otimização de recursos ou pelo dinheiro do Garotinho, eu até entendo a minha demissão, apesar de apenas receber uma mixaria para republicar as minhas charges... Mas no caso do Paulo Caruso foi burrice mesmo! Demitir alguém como Paulo Caruso que estava publicando há vinte anos no mesmo lugar da Istoé na “Avenida Brasil”. Isso é pura e crua burrice, não há reengenharia financeira que justifique isso.

23) No e-mail você disse que publicava as charges na veja (na coluna do Ancelmo Góis) quando a revista ainda não tinha se transformado no que é hoje. Por que você destacou isso? Qual a sua opinião sobre a revista Veja atualmente?

Toda semana o Ancelmo Góis comprava uma charge para ilustrar sua coluna. Ele tinha uma carteira de uns dez chargistas que ele publicava mais e eu estava entre eles. A Veja, hoje, e eu quero que isso fique bem gravado! A Veja é, provavelmente, o pior órgão de imprensa do planeta. Eu não acredito que haja nada pior, mais venal, mais calhorda. Uma pena porque tem bons jornalistas lá. Mas até isso, até o número de bons jornalistas está diminuindo porque muitos colegas têm nojo de trabalhar na Veja.

24) Na sua opinião existe algo que aproxime as redações de 80 e 90 com as atuais? Ou

está tudo mudado?

Vamos falar primeiro a semelhança: continua havendo, nos momentos de pico, quando estão ocorrendo as grandes notícias, aquele tumulto. Eu costumo dizer que Redação só vive quando algum avião cai. É triste dizer, mas o que vende jornal é notícia ruim.

25) Você sofreu muita censura fazendo charges nos jornais mineiros durante a ditadura? Você sentiu muita diferença da presença da censura em Minas para o Rio?

Em Minas não. Até porque naquele momento eu ainda era muito novo. Eu fazia minhas charges baseada naquilo que eu via os outros fazendo. Eu ainda não tinha noção de política, era muito inocente. Senti a ditadura muito mais durante minha participação no movimento estudantil. Fui muito censurado, mas não tanto no período da ditadura porque nessa época a gente já sabia o que podia publicar. Na verdade, eu já sabia quando uma charge ia ser censurada e já levava uma alternativa extra.

26) Ainda existe censura? Em que situações?

Sim! Pós-ditadura. no Globo eu sofria censura política, no O Dia a censura é comportamental. Por exemplo. eu fico 4 dias seguidos fazendo charge do Edmundo, aí chega o editor e pede para eu dar um tempo porque o Vasco não está abrindo as portas para os repórteres do o Dia. Então no O Dia sou mais censurado por ferir costumes e irritar personalidades.

27) Existe algum caso de censura em cima do seu trabalho que te marcou? Se existe,

qual foi a época e qual o assunto que a charge abordava?

Eu tive tantas charges vetadas que não dá para lembrar de uma... Ah! Lembro de uma do Papa. recente. Essa nem o pessoal do Sul, onde eu publico num jornal que nunca tinha me censurado, quis publicar. Foi na época da última eleição do Papa: fiz um desenho. Onde aquela fumacinha que sai quando se ler o Habemus Papa formava a cruz gamada nazista. E uma outra que foi barrada no O Dia e que eu gostaria que tivesse sido publicada: poucos dias antes do Papa João Paulo morrer ele aparece na sacada. tenta falar e não consegue. voltando para dentro. Eu desenhei aquela cena e ele falando: "Serei breve". E foi mas eles não quiseram publicar e três dias depois ele morreu.

28) Você nos contou que foi preso rapidamente (por 24h) no final da ditadura. Como foi isso? Conta exatamente como foi a situação. Você sofreu algum tipo de repressão física?

Ah fui! Não sofri nada e tive uma pequenina decepção com a esquerda, nesse dia mesmo, assim que eu fui solto. Fui até o local onde o pessoal se reunia, estavam todos ansiosos querendo saber como tinha sido e me perguntaram se eu tinha sido torturado. Aí eu disse: "Não! Não se faz mais ditadura como antigamente". E ninguém riu! Aí eu pensei: "Esse pessoal de esquerda não tem senso de humor?! A piada é ruim?".

29)Como se envolveu com o movimento estudantil?

Impressionante! Eu era estudante de engenharia, começando a me sentir descolado porque eu fui um nerd a vida inteira. Nessa época eu estava ali na universidade, desenhando, tocando violão, cabelão, comecei a me sentir charmoso. E aí um dia, chegou um amigo com a carta programa do movimento me mostrando que tinham usado um desenho meu. Eu me sentindo a prima dona falei: “Isso é um absurdo!" e fui lá reclamar. Cheguei lá e me deparei com uma fadinha loura de um metro e sessenta. Uma gracinha, me apaixonei imediatamente. E assim eu entrei para o movimento estudantil, ela era presidente do DA.

30) Qual a sua opinião do movimento estudantil de hoje? E sobre o quadro político em geral.

Naquela época, de certa forma, a gente construiu bases para o movimento ser o que é hoje. Hoje o movimento estudantil é muito PC do B, praticamente o único que se interessa pela causa. Isso deixa o pensamento muito monobloco, focado numa visão única. Eu não acho que seja algo muito eficiente, porque numa democracia eu acho que o movimento estudantil tem que cuidar dos interesses dos estudantes e não de assuntos políticos, têm outros canais para se exercer política. Na época da ditadura funcionava bem. A gente cansou de rodar nos DCEs material para os sindicatos. Cansamos de ir para porta de fábricas panfletar para o movimento operário. Então, na minha época, o movimento estudantil era o braço auxiliar.

31) Você também nos contou que era um dos delegados do PT, mas pediu para guardar segredo. Por quê? Isso te decepciona hoje em dia? Qual a sua opinião sobre o partido atualmente? Como você se sente ao fazer charges ironizando o partido que ajudou a criar?

Eu participei das excursões, era um jovem, um garoto e não tinha poder. Discuti com o FHC, inclusive, e fiz perguntas que ele não respondeu. Um vaselina, desde então. Porque ele e o Lula rodavam o país discutindo a idéia da criação de um partido, o PS (partido socialista) e acabaram montando duas estruturas partidárias diferentes: a que gerou o PSDB, uma social democracia menos esquerda e o PT, mais esquerda. Mas nenhum dos dois é partido de esquerda real, mas são duas faces da social democracia. Problema do PT: excesso de sindicalismo. Problema do PSDB: ausência total de povo. Então são dois partidos que ficariam melhor no mesmo barco. Não. A decepção implica em ter uma expectativa diferente e eu nunca tive uma expectativa diferente. Eu vi acontecer com o PS francês isso que aconteceu com o PT. Não é corrupção, é muito mais complexo do que isso. É o rei na barriga, começar a achar que você tem a certeza. E há um problema que a direita não tem. A direita quando é corrupta, é corrupta por interesses próprios. O problema de um deputado de esquerda é que ele não entende de corrupção. Raramente ele faz alguma coisa para ele, ele faz pela causa. Se houve mensalão, não foi para enriquecer ninguém, é bem provável que tenha sido para eleger. Por quê? “Porque o nosso projeto de poder é melhor do que o do outro, nós privilegiamos os pobres”. Eu sei porque eu fui um deles. Eu achava mesmo que a minha maneira de pensar é que era a justa, que não existia outra. E na democracia você tem que aprender que existem outras. E a idéia de que os fins justificam os meios. E não pode ser, porque a maneira como você faz as coisas é tão importante quanto a coisa em si. Portanto, eu não me decepcionei com o PT porque eu já sabia exatamente o que ia acontecer, pois aconteceu com o PS da França. Eu continuo votando regularmente no PT por não haver alternativas também. Não tenho o menor problema de ironizar, até porque não é meu partido, sou apenas um eleitor regular, não mais do que isso.

32) Você acha que a charge é um meio mais explícito de fazer uma crítica do que um

texto comum?

Não se deve superestimar o poder da charge. O Chico acha que uma charge pode derrubar um governo. Talvez no caso dele possa. No jornal o que a charge faz é uma catarse, o leitor lê aquilo e aquilo relaxa ele um pouco, ele suporta melhor uma determinada situação, entende talvez um pouco melhor alguma coisa. Porque o humor é isso, você torce um fato mostrando uma face mais do que a foto. Essa é uma das coisas legais da charge, mas ela não substitui a descrição, objetiva e isenta dos fatos, que é o que o jornalismo deveria ser e não é, infelizmente.

33) Você coleciona processos? Quantos você já sofreu? Você diria que fez muitos inimigos ao longo de sua carreira?

Ultimamente nem tanto, porque o jornal agora me avisa: “Ó Aroeira, isso aqui vai dar processo, quer publicar assim mesmo?". Os processos são para mim. O caso do Marcello Alencar, por exemplo, eu paguei, do meu bolso. Eu sei que o César Maia não gosta de mim. Uma vez ele quis saber o porquê que eu o persigo. Sei lá, ele dirige mal a cidade onde eu vivo… O Millôr sempre dizia que tem que ser pessoal, o chargista não é um observador, como um repórter que tem que ser equilibrado e se manter distante. O chargista é um observador engajado.

34) Como é ter o trabalho reconhecido através de prêmios como o Vladimir Herzog? (ex-governandor Marcelo Alencar desculpando-se pela falta de controle da fuga de menores da detenção, FHC quando chamou aposentados de vagabundos e duas chacinas com o Cristo Redentor para denunciar a violência).

Eu ganhei uns prêmios aí. Ganhei o Vladimir Herzog, o Imprensa de Pernambuco e o Libero Badaró, teve também um do Salão Internacional do Humor. O mais importante, para mim, foi o Vladimir Herzog. Concorri com três charges e ganhei com a do Marcelo Alencar. O engraçado é isso: a mesma charge que me rendeu o processo foi a que me deu o prêmio.

35) Algum dentre os prêmios que já conquistou é mais significativo para você? E existe algum que você almeja ganhar ainda?

Não. Não ligo para prêmios, nem me inscrevo nos concursos!

36) A introdução da tecnologia digital mudou o seu trabalho? De que maneira? Você já usa algum programa gráfico? Ou se pretende usar?

Modéstia parte eu sou o cara que melhor entende disso no Brasil. Eu trabalho direto com o Tablet. Não uso lápis, não uso papel, não uso scanner. Eu desenho direto no Tablet, qualquer tipo de desenho que você pode imaginar. Entre bolar e fazer uma charge posso levar de 15 minutos a 10 dias. Eu não domino programa nenhum... só uso três programas para trabalhar: um gerenciador de imagens, nos moldes do Windows Explorer, o Photoshop e o Painter da Corel.

37) Você acha que esse tipo de expressão tem algum risco de ser sufocado no futuro com as novas mídias em ascensão? Ou pelo contrário, só tende a crescer?

Acho que a internet é a coisa mais democrática que aconteceu. A internet é a pedra no sapato do sistema. Fora isso, a produção aumentou vinte vezes com o uso do computador, eu não preciso mais de arquivo do jornal. Quando eu preciso caricaturar alguém, eu vou no google imagens e baixo dez fotos da pessoa e pronto. Aliás, há muito tempo que eu não vou ao jornal, mando tudo por e-mail.

38) E você também é músico! Quando você começou a se interessar por música? Quais os instrumentos que você toca? Onde você toca?

Isso começou de pequeno. Na minha família todo mundo é desenhista e músico. Só que quase todo mundo toca piano ou violão, que são os instrumentos que as pessoas têm mais em casa. Na verdade, eu acho que sou o primeiro a tocar saxofone. Foi durante minha passagem pelo Globo que o Chico me deu um novo alento para música e me convidou para tocar com ele na banda. Então, eu toco com o Chico, toco em várias bandas, tenho banda.