JÂNIO FREITAS
ENTREVISTA

Entrevista por: Daniel Mazza Ramos

D – Jânio, nome completo, por favor.

JF – Jânio de Freitas.

D – E o nome dos seus pais e as atividades deles.

JF – Meu pai era naturalista e se chamava Antônio. Minha mãe se chamava Jatijussara.

D – Jânio, você tem formação em jornalismo?

JF – Não, nem havia. Aliás, havia um curso na Faculdade de Filosofia, havia um curso de jornalismo. Era um curso não obrigatório, claro, precário em muitos sentidos e na minha geração eu não me lembro de absolutamente ninguém que tivesse feito esse curso.

D – Era por vocação e não por formação...

JF – Era por vocação... não sei. Acho que era mais por acaso, como foi comigo. Eu sou jornalista por acaso, enfim. Tenho a profissão de jornalista por acaso. Meu vestibular foi pra arquitetura, fiz primeiro pra Belas Artes em seguida pra Arquitetura. Mas eu fazia escola de pilotos civis. Gostava muito de ler, desde cedo li muito. Mas tive um acidente no joelho e aí eu fiquei sem poder voar.

D – Mas você chegou a ser piloto profissional?

JF – Eu cheguei a fazer o curso completo. Eu voei, meu negócio era acrobacia. Eu não queria ser piloto comercial, estava pretendendo alguma coisa que me deixasse voando em aviões pequenos, e se possível fazendo alguma coisa do gênero, que era o que mais gostava. Fiquei naquele negócio entra numa companhia, não entra. Tive possibilidade na Pan Aier, também no Cruzeiro, mas aí nesse interregno fui ver como era esse negócio de jornal. Arranjei uma apresentação no Diário Carioca.

D - Foi no Diário Carioca que você começou como jornalista?

JF - Foi. Foi lá que eu comecei.

D - E como foi chegar numa redação de um jornal? Foi difícil se adaptar à correria dos jornais?

JF - Não, não foi difícil não, porque o Diário Carioca era uma equipe pequena e era uma redação extremamente divertida. Eram pessoas, quase que na sua totalidade, se davam muito bem. Não havia um clima no Diário Carioca de chefia propriamente, era uma coisa com um clima muito bom, era um ambiente agradável. E isso ajudava muito por um lado e por outro, as outras pessoas com quem se lhe dava como chefes, eram quase todos muito competentes como instrutores, como orientadores e ao mesmo tempo também muito rigorosos. Por isso mesmo o Diário Carioca sempre teve uma equipe muito pequena. Fala-se muito em Diário Carioca e tal, mas ô Diário Carioca que fez esse nome foi uma fase pequena, não foi a vida toda do jornal. Depois ele ficou vivendo do nome. Era um jornal mal feito e ruim.

D - Isso em que época?

JF - O quê?

D - Em que momento o Diário Carioca viveu sua época áurea?

JF - Em cinquenta e poucos até perto de sessenta. Foi a época em que o jornal deu uma virada, na a linguagem jornalística, no enfoque temático.

D - Quando o senhor entrou no jornal?

JF - Eu entrei em 1953, 54, por aí.

D - E como foi trabalha com Pompeu de Souza?

JF - Muito bom. Meu terceiro chefe foi o Pompeu. O primeiro foi Carlos Alberto Tenório. Quando eu comecei na redação, eu comecei na sessão de política. Eu antes passei por um suplemento que se chamava Revista do Diário Carioca, que foi por onde eu entrei. Ali eu fiz diagramação, e tal, alguns textos. Mas aí quando eu passei pra redação, eu entrei pela sessão de política, que era chefiada pelo Carlos Alberto Tenório. Foi uma experiência curta, mas muito proveitosa. Comigo as fases foram muito curtas porque eu tive um percurso muito rápido. Quando Tenório saiu, eu fiquei como chefe da sessão de política, mas também repórter. E já também trabalhando como repórter de geral e redator. De dia trabalhava como repórter, de noite como redator, reescrevedor, né? O que hoje chamam de copidesk, um nome que vem da Tribuna da Imprensa, dado pelo Carlos Lacerda. Aliás impropriamente. E daí eu fui ser, em 1955, redator da primeira página que era editada pelo Pompeu de Souza. Ele me levou para ser redator da primeira página.

D - Na sua opinião, o Diário Carioca possui uma importância dentro da história do jornalismo brasileira?

JF - É muito importante porque nesse período o Diário Carioca fez a formação de profissionais que depois, não só estiveram fazendo coisas aí pelo jornalismo afora, como disseminaram muito as experiências adquiridas no Diário Carioca, feitas ali, criadas no jornal, as inovações de texto. A gente saiu disseminando por aí e tal. Éramos poucos fazendo isso, mas tivemos a oportunidade de fazer e a coisa se propagou.

D - Você falou dessa mudança que acabou ocorrendo dentro do Diário Carioca. O que era feito antes, que foi mudado quando o jornal implantou essas mudanças?

JF - O Diário Carioca mudou, fundamentalmente, a técnica. Ou melhor, antes, não havia uma técnica de texto aqui no Brasil. Escrevia-se muito à vontade, escreviam, eu não peguei essa fase, com aquelas aberturas que se chamavam nariz de cera, que eram uma cozinhação, uma embromação, uma suposta literatura. Era uma literatice, em geral, terrivelmente ruim. E o Diário Carioca introduziu a técnica do lide.

D - Então foi o Diário Carioca que introduziu o lide no jornalismo brasileiro?

JF - Foi o Diário carioca que trouxe. Com o Danton Jobim, o Pompeu de Souza e Luis Paulo S.... O Luis Paulo era o formador dos novos jornalistas no Diário Carioca. Um craque de redação, era espetacular, uma coisa fantástica, como chefe de reportagem e como orientador de texto, criador de texto, talentosíssimo. E trouxe graficamente, uma certa limpeza.

D - Os jornais eram muito carregados?

JF - Eram muito, massas de texto, assim muito pesadas. O jornalismo aqui, na verdade, aqui, na Argentina, no Chile, no Uruguai, os jornais de classe média eram todos muito parecidos, La Nacion, La Prensa, na Argentina, Correio da Manhã, Diário de Notícias, os tradicionais tinham quase todos a mesma cara. Os vespertinos imitavam muito os vespertinos franceses, principalmente o Le Figaro. O Diário Carioca limpou bastante, não era uma paginação que se pudesse dizer que fosse bonita, mas era muito simpática. O jornal era muito simpático, e como era muito bem humorado, os textos também muito bem humorados, então isso dava certa situação exclusiva do Diário Carioca.

D - E isso veio a ser copiado, de certa forma, por outros jornais, em seguida?

JF - Veio, mais ou menos. Não propriamente do Diário Carioca, quem tentou se aproximar do Diário Carioca, adotando o lide, foi a Tribuna da Imprensa que o Carlos Lacerda criou. Os outros não. Os outros vieram a mudar com o êxito da reforma do Jornal do Brasil. Aí sim, foi um tal de imitar que...

D - Quando o senhor saiu do Diário Carioca e o que motivou sua saída?

JF - Nessa altura eu trabalhava na (revista) Manchete, o Otto Lara Resende dirigia a Manchete e levou o Armando Nogueira, que também era do Diário Carioca e também a mim. Quando eu fui pro Diário Carioca, o Armando já era de lá. Acho que em termos de idade eu era o mais novo. Já estavam lá o Gullar, enfim, era uma redação pequena, para dar uma virada na Manchete.

D - Isso em que época, Jânio?

JF - Em 1956, 55 ou 56, alguma coisa assim. Então eu trabalhava de dia na Manchete, era de 9h às 17h, e aí ia pro Diário Carioca e pegava até meia noite mais ou menos. E o Diário Carioca não pagava em dia, o salário estava sempre muito atrasado, a gente vivia de vale. Aí quando se completou o quarto mês de atraso eu resolvi, estava cansado daquele troço, chega de brigar por vale, aí eu disse: “Ó, pra mim chega.” E saí.

D - Com essa saída, o senhor foi pro JB?

JF - Não. Eu trabalhei 15 dias na Tribuna da Imprensa. Mas aí eu viajei para os Estados Unidos pela Manchete e quando eu voltei, fui indicado pelo Carlos Castelo Branco para o Odilo Costa Filho para o Jornal do Brasil.

D - Foi pouco tempo entre a saída do Diário Carioca e o começo no JB?

JF - Seis meses.

D - E no Jornal do Brasil, o senhor participou do processo de reforma?

JF - Eu sou tido como a pessoa que fez o projeto da reforma do JB. Eu editava o JB, mas antes eu fui pedir minha transferência pro caderno de Esportes, aí no Esporte eu comecei a fazer umas experiências, como remodelar a paginação. E então os donos lá me chamaram pra...

D -... espalhar essas novidades para o Jornal?

JF - E aí e levaram pra edição do jornal e aí começou a reforma.

D - Essa reforma entra pra história do jornalismo como um marco, na questão da diagramação, da estética, a que se deve o sucesso dessa reforma? Foi a aceitação do público ou uma boa estratégia de marketing...?

JF - Eu nunca pensei, e espero nunca pensar, em termos de marketing. Eu penso em termos de jornalismo e de leitor. Todo o meu raciocínio foi e será até o fim com base nesses dois pólos. Vinha batalhando por essas coisas, foi uma discussão que já na Manchete a gente tinha muito, quando a gente pode dar uma virada na Manchete, deu-se uma virada realmente na Manchete, uma limpeza naqueles balangandãs todos que havia na paginação da revista, na decoração, no refinamento do texto. Então eu transpunha com facilidade isso para o jornal, porque a minha procedência era jornal. Então eu tinha idéia sobre jornal, sobre comunicação visual. Eu, além do mais, fui desenhista. Meu primeiro emprego foi como desenhista com 14 pra 15 anos. Quando eu entrei no Diário Carioca, ainda trabalhava como desenhista na parte da manhã. Então a orientação foi toda essa, selecionar, valorizar a fotografia, ao invés daquela multidão de fotografias que se publicava na época e que hoje em dia se publica outra vez, sem o menor sentido, enfim. Um besteirol total fotográfico. Era selecionar as fotografias, para que ela pudesse ter um sentido jornalístico. Hoje em dia, por exemplo, eu não publicaria, sobre hipótese nenhuma, a cara do Delfim Neto. Todo mundo sabe como é a cara do Delfim Neto. Não tem o menor sentido você colocar a cara dele no jornal. A cara do Lula está todo dia no jornal. Não tem cabimento nenhum aquilo. Qualquer um de nós conhece a cara do Lula do que o próprio Lula. Ele se olha menos no espelho do que a gente olha a cara dele todo dia, na televisão, nos jornais, nas revistas, na rua, pô, é um saco! Então, tem sentido a foto, há uma expressão, há uma razão de ser? Se a foto tivesse um sentido jornalístico, estava selecionada. Aí eu ia procurar uma forma estética para essa foto. É o segundo grau de valorização da foto no jornalismo, a qualidade estética que essa foto posse ter. Porque se ela já não trouxer essa qualidade, que você vai buscar por uma corte jornalístico dessa fotografia, sem nenhum desrespeito ao sentido jornalístico dessa fotografia, mas para valorizar. Nada de publicar chorumelas, uma legenda em cima da foto, nada disso, recortar a foto, isso é um desrespeito total à foto.

D - Essa foto vai estar sempre associada a um texto...

JF - Vai estar sempre associada a um sentido jornalístico, que em geral corresponde a um texto, ou pode corresponder a um texto legenda e tal. De qualquer forma é um desdobramento da foto. Eu procurei dimensionar a foto pelo seu interesse jornalístico.

D - Pelo papel que ela poderia cumprir...

JF - Pelo papel que ela cumpriria no conjunto do noticiário, de uma página, de uma primeira página, de uma página de esportes. Isso aí mudou completamente a ideia de dimensão de foto no jornal. Passou-se a ter menos foto em espaços maiores e com uma disposição, e com um sentido jornalístico muito maior. Essas coisas o JB nunca fez, nesse período em que ele disparou em circulação, foi um sucesso rapidíssimo e altíssimo, ele nunca fez um anúncio, em rádio, em jornal, na rua, nada, nunca. O anúncio era a cara do jornal, eram as suas manchetes na banca de jornal. Então ele não só começou a ser descoberto nas bancas, como o boca-a-boca em favor do JB funcionou incrivelmente.

D - Atualmente o JB não desperta mais tanto interesse no leitor, como em outras épocas. O que aconteceu com o JB, para que isso acontecesse?

JF - Uma sucessão de más direções jornalísticas e empresariais derrubaram o jornal.

Os jornais nessas épocas passadas dependiam do dinheiro de vendagem. Como era o mercado jornalístico nessa época, pagavam bem?

JF - Ganhava-se muito pouco porque era normal que os jornalistas tivessem também um emprego público. E isso, por exemplo, é que permitia o abuso Diário Carioca em relação aos profissionais. Só que ali mesmo no Diário Carioca algumas pessoas foram eticamente mais exigentes em relação ao exercício do jornalismo, e não aceitaram isso de “picaretear” um emprego público. Então formou-se ali um pequeno núcleo que buscou se profissionalizar no jornalismo. O jornalismo era uma atividade, mais que uma profissão, uma atividade paralela, se bem que a maioria dos jornalistas com o emprego público não ia aos seus empregos públicos, era só receber. Começou ali um certo espírito renovador também nesse sentido. Um grupo pequeno do qual acho que sobramos dois, ou três. Os outros capitularam. Acho que sobramos o Tinhorão, eu e o Gilson Campos, que eu me lembre. Ah! E o Nilton Carlos. Os outros, o Armando Nogueira, Evandro Carlos de Andrade, eles todos capitularam.

D - O senhor sai do JB e vai para o Correio da Manhã. O Correio era um jornal com uma estrutura muito grande. Havia diferenças na forma de trabalho, no que se refere às ferramentas, às condições de trabalho?

JF - Eu fui pro Correio da Manhã porque o jornal tinha liderado em importância política e em circulação durante décadas. O Jornal do Brasil derrubou todos os jornais, inclusive o Correio. Eu fui, então, para tentar fazer lá o que tinha acontecido no JB. O Correio da Manhã estava muito antiquado, muito caquético, muito senil.

D - E essa reforma aconteceu da mesma maneira como no JB?

JF - Aconteceu e ele foi para o primeiro lugar.

D - Conseguiu, então, superar o JB?

JF - Conseguiu. Em 45 dias ele estava em primeiro lugar. Foi rápido.

D - E qual foi a época em que o senhor chegou ao Correio da Manhã?

JF - Começo de 1963.

D - O senhor ficou por algum tempo no JB...

JF - 5 anos.

D - O senhor sai em 1961 do JB e até chegar ao Correio são dois anos. Foi nesse hiato que o senhor chegou à revista Cruzeiro? Ou a época do Cruzeiro foi paralelo com algum jornal?

JF - Sim, foi paralelo ao, no começo, JB. Depois eu fiquei trabalhando na rádio JB. Saí do Cruzeiro e fiquei na rádio JB.

D - Só pra tentar entender melhor: Em 1961 o senhor sai do JB e em 63 entra no Correio da Manhã, nesses dois anos o senhor realizou que tipo de trabalho?

JF - Nesses dois anos eu fiz um trabalho de cinema, de teatro, essas coisas. Fiz estudo do projeto para financiamento de cinema e tal. Enfim, fiz várias coisas. Durante uma parte grande, com o Zé Luís Magalhães Lins, nós tínhamos fundado a primeira agência brasileira, que se chamava Imagem, de fotografias e textos, particularmente para o exterior ou então pra, enfim, determinadas coisas mais específicas aqui no Rio. Éramos o Jair Medeiros, o Flávio Dan, eu, o Andi Mendonça e o Jorge Toró.

D - Essa agência vendia os textos...

JF - ... fotografias e tal.

D - Entendi. O Correio da Manhã proporcionou uma visibilidade a sua carreira ou essa visibilidade já vinha ocorrendo desde o JB?

JF - Não sei, eu nunca pensei muito em termos de carreira. Eu não ligo muito pra isso não. Eu não ligo muito, não. Eu não ligo nada.

D - Não seria importante facilitar formas de acesso a dados de sua carreira, até mesmo para que o senhor possa vir a ser uma referência dentro do jornalismo brasileiro?

JF - Uma referência pessoal? Não sei se seria importante, francamente eu não sei. Mas a referência profissional, das coisas que eu inventei, coisas como as chamadas de primeira página, isso está aí, não importa quem foi que criou. Está aí e funciona, todo mundo adota isso. Começou aqui no Brasil, hoje em dia você encontra isso no mundo inteiro. Na Universidade de Columbia houve um seminário para discutir inovações em jornal e duas coisas pautaram a discussão. Uma era isso, esse processo de chamada, como era feito e tal. E outra era como que a gente conseguia fazer o equilíbrio de título com título, foto com foto. Havia um interesse grande pra saber como a gente podia desenhar uma página, que era uma coisa que se fazia em revista porque demandava tempo. “Como é que esses caras bolaram esse negócio?” Isso aí é uma coisa que está aí, hoje em dia todos fazem com a maior naturalidade e não tem a menor idéia que isso era considerado uma coisa impossível.

D - E o Jânio de Freitas não é lembrado por isso...

JF - Não. Ninguém fala nada. Isso é uma sina. Engraçado, porque eu fui sempre muito amigo do Ferreira Gullar, trabalhamos juntos muitos anos, e do Tinhorão, que eram dois grandes reatores. E eu sempre detestei assinar. Só vim assinar sistematicamente na Folha, porque fui obrigado.

D - O senhor disse a uma entrevista ao jornal “Fazendo Média” que muita coisa não assinou no JB...

JF - Muita coisa, não, nada. Muito textos meus, as pessoas diziam: “AH! Do Tinhorão e tal.” Depois passaram a dizer que eram do Ferreira Gullar. Houve até um episódio muito engraçado. Uma moça, jornalista, que estava fazendo uma pesquisa financiada pela Funarte, me procurou na antiga sede da Folha, e me disse que só faltava uma pessoa a ser entrevistada para fechar a pesquisa sobre o Jornal do Brasil, e era exatamente a minha. Era uma pesquisa sobre a reforma do JB e eu fui o último cara ouvido, porque ela disse que não conhecia o meu nome.

D - E isso em nenhum momento incomodou o senhor?

JF - Não. Ela fez as perguntas que queria, eu respondi. Não me perguntou nada sobre como é que tinha sido feito, como é que não tinha sido feito. Eu acho até que existe essa pesquisa. Aí quando acabou eu fui leva-la até o elevador, e enquanto esperava o elevador ela disse assim: “Olha, os dois melhores textos de jornalismo que eu já vi e as duas páginas mais bonitas que eu já vi, são as páginas do JB que dão conta da mudança da capital para Brasília. O texto do Ferreira Gullar é uma coisa. Foi o melhor texto que eu já li em jornal.” Eu olhei pra ela e pensei, digo a ela ou não digo. Pensei e tal, e falei pra ela: “Olha, a capital mudou em Abril de 1960 e o Gullar saiu do JB em setembro de 1958. O Gullar já havia saído do Jornal há algum tempo.” Daí ela perguntou: “Então quem foi que escreveu?” Eu disse: “Fui eu! Aliás não fiz só o texto não, também desenhei as duas páginas. O Amílcar e o Valdir Figueiredo estavam desenhando o interior do jornal.” “Ah, é?!”, ela não acreditou muito não. Ficou me olhando...

D - Ficou meio cabreira....

JF - Essas coisa, rapaz, não...

D - ...não afetam.

JF - É, porque eu não tenho jeito mesmo pra me promover. Há pessoas que são craques nisso. Eu não tenho o menor talento pra isso.

D - E se alguém quisesse escrever sua biografia, o senhor autorizaria ou preferiria não ter?

JF - Não, indiferente. Não faço questão, mas também não diria: “Não, não faz não. De jeito nenhum!” Eu não tenho nada pra esconder.

D - A gente tem, atualmente, ferramentas que há cinquenta anos atrás não existiam, como, por exemplo, o computador, a internet. Isso, no seu ponto de vista, é positivo?

JF - É positivo. Eu ouço muita gente bronquiando, reclamando demais. Eu acho positivo, acho que todo problema não está no instrumento de que você passa a dispor. O problema está no uso que você faz desse instrumento. Um outro exemplo de desenvolvimento tecnológico: o de impressão em off set, que permite coisas excelentes. Mas os jornais não têm aproveitado. A única coisa que eles fizeram foi fantasiar os jornais, pô, é cor pra tudo que é lado. Tudo quando é jornal é carnavalesco. Não há um uso inteligente do off set.

D - E como seria esse uso inteligente?

JF - Não sei. É o tipo de coisa que você tem que para e pensar: quais são os recursos que isso aqui me oferece? Qual é o aproveitamento jornalístico mais inteligente que eu posso fazer disso?

D - Entendi. O senhor se lembra de um momento marcante na sua carreira?

JF - Depende da época, né? Não sei, de imediato eu me lembro de coisas mais pessoais. Por exemplo, na Manchete, eu fiz um texto que na época teve bastante influência nas pessoas que redigiam para revistas. Foi um texto muito comentado. Uma reportagem sobre Fangio, o pentacampeão de automobilismo, que passou aqui pelo Rio. Veio correr aqui no Rio. No JB tem uma porção de textos. Na Folha há algumas coisas curiosas, em 1987...

D - Desculpa. O senhor está desde quando na Folha?

JF - Não tenho certeza, mas essa coluna que eu faço na página 5, ela faz 25 anos esse ano. Acho que eu entrei em 80. Mas em 87, no governo de Sarney, eu publiquei sob a forma de um anúncio nos classificados, em siglas, as iniciais das empresas, das 18 empresas que iam ganhar a concorrência do que seria a maior obra pública do Brasil. O valor naquela época de dois bilhões e quatrocentos milhões de dólares. Quando foi completada a concorrência, que divulgaram o resultado, eu já havia divulgado dias antes quais seriam os 18 vencedores, cada um com seu respectivo lote de construção. Era uma estrada de ferro que iria lá do Maranhão até Brasília. Eram 18 lotes de construção, e houve uma concorrência para cada lote. Eu publiquei o resultado antecipadamente. Ganhei diversos prêmios com essa reportagem, inclusive prêmio internacional. Também houve uma coisa assim... tive a informação de que o Figueiredo estava muito mal, correndo risco de vida. Era alguma coisa de coração e ele se recusava a se tratar. Nem a família dele sabia. O regime militar era algo muito problemático, mas eu resolvi que ia enfrentar a parada. Aí eu publiquei. E aconteceu o seguinte, minha mãe às oito horas da noite ligou a televisão, sentou na cadeira de balanço dela, pra ver o jornal, em seguida a novela, enfim. Daí entra no ar o general Rubem Lugo Filho, e começa assim: “O jornalista Jânio de Freitas é um terrorista.” Minha mãe levou um susto tão grande, rapaz, que começou a passar mal, quase minha mãe morreu. Tomei porrada que não acabava mais, foi televisão, rádio, jornal. Foi um horror. Passada uma semana, estava na Folha - era pra eu ter ido embora da Folha, pois a própria Folha me desmentiu – me telefona uma pessoa: “Jânio, acabou de entrar aqui na Câmara, ainda não foi lido no plenário, está na presidência, aqui, uma carta do Figueiredo pedindo licença do governo, por motivos de saúde, para se ausentar do país. Se ausentar do país, já viu, né?! Você ganhou a parada”. Eu agradeci pela informação, desliguei o telefone e fiquei na minha. Quando foi no final da tarde, saiu a notícia, então, um chefe de redação me ligou, um dos meus algozes, me dizendo que daria primeira página com minha foto e tudo o mais, seria a primeira vez que uma coluna viraria manchete. Eu falei: “Ah, não vai não.” Essas coisas assim vão marcando.

D - Como é que foi fazer jornalismo no período militar?

JF - Eu fiquei muito tempo fora, praticamente 10 anos fora de jornal. Eu fui o primeiro nome de uma lista de jornalistas, me parece que eram 10 jornalistas, que os jornais não deviam admitir.

D - Quando saiu essa lista?

JF - Essa lista não saiu. Foi uma lista mandada para diretores de jornal, como Jornal do Brasil e vários outros.

D - Logo no início do golpe?

JF - Foi... Não me lembro, acho que foi em 66. O senador Milton Campos, que ainda era Ministro da Justiça, e foi que ele que avisou ao Otto Lara Resende. O senador gostava muito do Correio da Manhã, do que eu tinha feito. Telefonou mais de uma vez para o jornal. Aí eu pedi ao Carlos Castelo Branco, que estava morando em Brasília, pra perguntar ao doutor Milton sobre isso e ele confirmou, disse que a lista estava valendo. E de fato eu fiquei muito tempo sem exercer a profissão, ninguém me convidada para nada, nem pra assessoria. Em 67, o Costa e Silva assumiu e acabou a censura, deu uma liberada. Então o Samuel Wainer, tendo em vista que o Última Hora estava numa situação muito grave, me convidou para assumir a direção geral do jornal.

D - O senhor chegou a ter contato com Wainer antes de trabalhar com ele?

JF - Só o conhecia.

D - E em relação ao Assis Chateaubriand?

JF - Chateaubriand era o dono do Cruzeiro, um dos donos. Ele uma vez leu um negócio meu e mandou descobrir quem tinha feito, disseram que era eu e mandou me chamar pra falar com ele. Eu fui, lá no O Jornal, e ele disse que gostaria que eu fosse trabalhar com ele. Mas eu não quis não, levei um esporro dele. Ficou indignado porque eu não quis trabalhar com ele. Agradeci, mas não dava.

D - Jânio, você já declarou não gostar de política. Como é que é ter que lhe dar com esse tema todos os dias, devido sua coluna?

JF - Como eu lhe dei quando era repórter de polícia no início da minha vida. Lhe dei profissionalmente. Também detestava a parte de polícia, era algo que me feria profundamente e, no entanto, eu lhe dei.

D - E é assim que o senhor faz com a política?

JF - É.

D - Qual sua visão sobre o presidente Lula? Ele é contraditório na sua forma de governar?

JF - O Lula do passado foi liquidado pelo Lula que assumiu o poder. O Lula travestiu-se ao assumir o poder. Ele diz que o que ele fez antes eram bravatas e que ele é uma “metamorfose ambulante”. Ora, uma pessoa que diz isso, a gente não precisa oferecer nenhum qualificativo mais. Eu acho fundamental, na vida, a coerência, a preservação de princípios, a gente pode mudar de opinião, mas princípios não podem mudar. Eu não tenho leis fundamentais na minha vida, eu tenho alguns princípios dos quais eu não abro mão de maneira nenhuma. Eu entreguei empregos extraordinariamente bons. No Correio da Manhã, por exemplo, eu tinha o maior salário do Brasil. O segundo salário era de um presidente de um multinacional.

D - O que motivou sua saída?

JF - Uma razão ética. Quando o Paulo Bittencourt, dono do jornal, morreu, se iniciaram ali disputas entre as duas possíveis herdeiras, que eram a filha e a segunda mulher – a Niomar Muniz Sodré – que eram brigadas. Houve, da parte da Niomar e não da parte da filha, condutas absolutamente desprezíveis, que comprometiam o jornal. Eu disse: “Eu não faço!”, larguei e fui embora.

D - Jânio, muito obrigado. Desculpe a inexperiência. Foi muito boa a aula de História que tive aqui hoje.

JF - Não se preocupe. Eu também ainda sou inexperiente. Uma vez eu ouvi um colega meu da Folha que estava dando uma entrevista numa rádio, aí ele disse: “Jornalismo é uma coisa muito simples, em seis meses qualquer pessoal aprende tudo.” E eu só pude pensar o seguinte: eu devo ser uma besta, mesmo! Eu estou nesse ramo há tanto tempo e até hoje eu tenho perguntas para as quais não encontrei resposta.

D - O aprendizado é constante.

JF - Pra quem quer, é. O problema é que hoje em dia ninguém pensa sobre o jornalismo, sobre técnicas de jornalismo. Jornalismo hoje é uma burocracia.